Sempre existiram praças, lugares
públicos no povoado, frente da igreja do templo, lugar de recreio de brinquedos
e jogar uma pelada. Praças mais ou menos mais bonitas. Praças grandes e praças
conformadas. Sempre apareceu aquela praça mais arborizada que a outra. Quem
chega à cidade procura o Centro estaciona na praça acampa aí. E na praça Heróis
da FEB, o laguinho dos peixes piracatingas lisas-de-água-doce, sapos-folhas...
O pai do Joel estava ouvindo contar as
histórias que o mundo comportava. Vigésimo sexto minuto e décima hora e segundo
dia e sexto mês e segundo milésimo décimo nono ano e do nosso vigésimo primeiro
século. A avenida Vila Pavão era barulhenta, mas já facilitava para ouvir. A própria rua Rio Bananal estava agitada, mas
dava para escutar. Um rapaz que vendia roupas unissex de segunda mão queria
contar os seus causos. E o rapaz, com nome interessante de Tinga Sapará,
natural de Colônia do Gurgueia e com residência fixa em Mogi Guaçu, começou a
botar a narrativa no ar da manhã oral:
- O mandachuva em a localidade de Nuga
Preceito, um senhor de bigodeira à barão de Rio Branco, dono de terras
alagadas, plantações de pupunheiros e pequizeiros e açaizeiros e
goiabeiras-do-mato... gostava de apostar corridas de bicicleta carreiras entre
os pretendentes à mão da filha.
“Esse régulo chefete cacique, de nome
Tauá Mairata, altas descendências, era um superatleta olímpico e nem perdia uma
corrida de bicicleta. Para dar o exemplo e incentivar os mais jovens, corria somente
com uma mão segurando o guidão. Ele dizia que era porque consumia guaraná em
pó, comia só vegetais da Amazônia, tomava banho no rio Curiti e dormia e
acordava cedo. A outra mão ia enfiada no bolso. Mas nem era assim tão fácil tão
elementar tão básico, tinha outra coisa além disso. Era um mistério que a todos
intrigava. Criava-se a lenda. Pois além de ter excelentes bícis e peças de
reposição, estas pareciam voar ou impulsionadas a jato. É até difícil de
explicar. Senão, vejamos.
“Enquanto isso tudo acontecia, essas
corridas ao ar livre e tal e qual, a filhoca suspirava sonhando com um noivo
superveloz. E infelizmente para ela, os pretendentes um a um eram derrotados,
humilhados, ultrapassados, expulsos do país como perdedores e fracassados e
lentos e pachorrentos. Todo ano no aniversário da cidade era isso. Chegavam
oitenta noventa sorridentes e confiantes concorrentes e saíam se refugiavam
todos vencidos e com o rabinho entre as pernas. Atabalhoadamente.
“Mas o ente ou deus Papa-Cacau, vendo
tal coisa acontecer sob seu olhar de rapina e bico curvo, e ano após ano, nem
aguentou e pretendeu interferir. Grasnou muito e pensou xingar nem xingou e
resolveu fazer qualquer coisa, alguma coisa. E obviamente, dentro e de acordo
com as leis de trânsito ou do desporto. Quem sabe fez? Quem sabe faz, quem nem
sabe ensina. Aparentemente, pelo menos.
“O ente pegou a guria casadoura - nome
bonito cartão-postal da cidade, a Suçuaia - e lhe disse, explicou, numa noite
num sonho, soprou no ouvido:
- Cunhantã! Escolha você um pretendente
e pronto, acaba com essa espera ridícula, esta história boba. Eu lhe dou este
direito este poder este manancial. E pode tirar férias em Manacapuru ou São
Miguel das Missões ou Canto do Buriti...
“Suçuaia - ardilosa manhosa astuciosa
sagaz, lábios pintados de vermelho, canitar na cabeça tramado entre a cabeleira
negra - escolheu o pretendente de seu gosto e marcou o casamento para o mês de
maio, faça chuva ou faça sol, seis horas da tarde, dia 18 do ano da graça de
1999. O local o lugar a cidade... podia ser São Luís, capital do Piauí; podia
mesmo ser em Centenário do Sul; era pra acontecer em Nova Hartz; mesmo em Aguaí...
Quer de um ou quer de outro modo.
“Na noite de núpcias, cerimônia
realizada e a festa na sociedade recreativa Paraviana comemorada, o ente
Papa-Cacau matou o noivo e, disfarçado vestido em pele de noivo cabeleira de
noivo etc de noivo, dormiu com a bonita e bela e linda Suçuaia. A ideia nem era
nova, como se vê. E algo eletrizante.
“Só que a primeira esposa do deus ou
ente ou ser Papa-Cacau - uma senhora correta e séria de nome Cupuaçu -
desconfiou do caso, coçou a testa, investigou, telefonou para o hotel o melhor
hotel de Magé, analisou, perquiriu, comeu muita salada mista colorida no
almoço, esbravejou, chutou os brinquedos dos filhos espalhados na sala, pensou
em xingar todo mundo que estava por perto, tomou remédio caseiro feito de
erva-de-bicho, e com muito ciúme também paciência jurou uma terrível vingança
vingativa. E o caso prometia.
“Quando a Suçuaia estava na hora do
parto, a ente a deusa Cupuaçu se disfarçou de parteira e roubou o bebê,
colocando no lugar um filhote de tracajá pescado no rio Curiti. Depois fugiu
numa moto de entregar pizzas em domicílios.
“O deus Papa-Cacau, ao constatar que seu
filho com a Suçuaia era um tracajazinho, se desligou do caso amoroso, pagou
promessa aos santos e ou santas do dia, contribuiu com dinheiro para um
hospital de caridade lá na distante localidade de Manoel Viana, colaborou com a
criação do parque do Monge lá na cidade de Lapa, mais outras ajudas
beneméritas, e nunca mais quis ter nada com a guria. Porque o mundo é do mundo.
“A Suçuaia, por seu lado, acabou por
criar o engraçado quelônio como se fosse um ente divino e maravilhoso e lindo e
esperado rebento saudável saído das suas entranhas. Ela sabia o que estava
fazendo. Sempre soube.
“O tracajá cresceu sem sombra por causa
do feitiço que a deusa Cupuaçu lhe pregara. Mas, por incrível que pareça, mesmo
enfeitiçado e condenado, o tracajá acabou assim atraindo a adoração do povo da
cidade de Nuga Preceito. É muito raro e inusitado e inédito um vivente sem
sombra. Não é para qualquer um. E que a preparada mãe passou a chamá-lo de
Itatiba. O povo viu no animalzinho uma exceção uma evolução uma revelação uma
equação da palavra dos deuses do rio, rio Curiti. E foi assunto também em
outras províncias e departamentos, quem sabe, São Martinho, Alecrim, tribo dos
ingarune, Ivaí, Três Arroios, ilha Cagara, Eliseu Martins terra da lagoa...
“Assim, depois que Itatiba foi pro céu dos
quelônios ou até algo melhor, o povo construiu um templo de pedra junto ao
campo de futebol de um dos principais times da cidade. Ali, depois de muito
ajoelhar e pagar promessas e festejar e jogar futebol e espocar foguetes e
cantar toadas, eles fizeram uma baia para o tracajá Itatiba. Uma baia para o
deus Itatiba. Um templo com altar para as oferendas. Um lugar ao abrigo da
chuva das chuvas de maio dos ventos minuanos.
“Todos os anos o povo dessa cidade faz
festa em homenagem ao aniversário do tracajá enfeitiçado e mágico. Vem gente de
outros arredores, também. Todos os anos oferecem presentes no altar e pedem
favores e pedem milagres e pedem campeonatos para seu clube. E se repartem em duas
tonalidades, em acordo com as cores do Itatiba, e para haver uma disputa sadia
no carnaval: sociedade recreativa tracajá preto (de nome Itaúna) e sociedade
recreativa tracajá amarelo (de nome Itajubá). Vale o título da melhor escola de
carnaval do ano. O vencedor paga o chope servido à vontade.
“O quelônio Itatiba teve várias esposas
companheiras que forçosamente tiveram outros tracajazinhos que se espalharam
pelo mundo levando a lembrança do pai do avô, etc., por ex. E povoaram os rios
da floresta, rio Camisas, rio Ijuí, rio Ibicuí... E povoaram as beiras dos
lagos da floresta. Uns foram morar na baía da ilha Grande. A maioria, ou até a
totalidade, nem soube superar a fama do pai.
“Daí por diante aconteceram outros
muitos milagres também por via espiritual e mental. Quando o tracajá mágico
Itatiba completou 100 anos de sua ascensão, o povo da cidade fez uma estátua de
ouro em tamanho natural e a colocaram na praça Largo do Paiçandu. Sempre que o
povo precisa de alguma urgência seus devotos apelam para o tracajá Itatiba com
novenas quinzenas procissões quermesses. Muitos carregam pedra na cabeça em
sentido de peso do mundo, é.
“E todo ano já existe uma romaria que
parte de todo lugar do município de Nuga Preceito e vem até aquele lugar na
praça Largo do Paiçandu homenagear o tracajá Itatiba. A cidade mesmo se prepara
para receber 400 ou até 500 mil pessoas de outras cidades e Estados da
federação e nacionalidades. Outras cidades querem imitar e estudam o caso algo
assim para atrair turistas e movimentar a economia.
“Recentemente se observou também que os
filhos e filhas migrantes de Nuga Preceito levam com eles para onde for por
onde andam as tradições os costumes as supertições os deuses a fama do deus
Itatiba. E isso se comprova nas orações nas palavras e expressões do dia a dia
nas camisetas nos chaveiros nos decalques nos badulaques quinquilharias...
Algumas coisas nem acontecem por acaso, uma vez!”
Cai quem diria outra noite e lentamente,
praticamente. A praça Heróis da FEB possivelmente iluminada. Das 18h às 6h.
15-Jardim.
Com as palavras de Aline: contemporizou,
guarabira, impávido, maniqueísta, lundu, conseguintemente, quiproquó, compáscuo,
prolificar, deprecar.
15-Horta.
Frases sentenças de Pedro:
- Que viagem chego na cidadezinha
apitando a viagem de trem maria-fumaça movida a óleo.
- Leitor contumaz é quem começa pela
filosofia depois poesia ainda H do B e até atingir a ficção de fantasia ou de
paisagens, assim mesmo.
- É bonita e gosta de dançar e dança
muito bem quando com quem quer.
15-Pomar.
O filho do Gaudêncio chegou sem querer
ao quilombo do Arapari, alturas da serra do Herval. Apareceu perto do mato e
foi encontrado pelos cães de guarda perdigueiros paqueiros. Subiu na
grapiapunha antes de ser atacado e ficou esperando. Logo chegaram os donos dos
cachorros e armados de tangapemas, no mínimo.
- Des-ba-ra-tar! Di-re-ti-va!
Nem entendia muito bem o dialeto que
falavam, mas os gestos e mímicas eram suficientes para saber que tinha de trabalhar
para comer. E de sol a sol. Ganhou um cantinho uma esteira numa palhoça e para
dormir. De seu mesmo tão somente tinha um chapéu de palha catolé que ganhou de
uma velha grandona mandona e a enxada de ponta de pau.
O sol o dia a manhã no novo espetáculo
todos quaisquer em cheios da cor local e muitas aves e voos, tiés,
sabiás-da-restinga, gavião-belo, goelas-d’água, churés... E todos tudo efusivos
comunicativos expansivos saem da curiosidade irapuás aningaúbas xuqueris
amarelinhos-da-serra quinas-brancas... para a paisagem.
Junto com outros foi Gaudêncio fechar o
riozinho para fazer um açude. Dia inteiro no trabalhando com pedra e barro e
com os pés na lama na água no brejo. Era frio, mês de junho, muito sol e vento
contundente.
- Chan-tar! Ál-veo!
Sempre de olho numa menina que estava
sobrando no pedaço. Cada homem, várias idades, tinha sua mulher e seus
pequenos. Ele nem tinha nenhuma e procurava urgente. A mocinha parecia
destinada a ele e vice-versa, e pois ninguém se importou que ficassem se cuidando.
O nome dela era Batovi sem de tal e qual.
Ajudava as velhas a debulhar milho e moer farinha, ralar mandioca, colher lenha
no mato, fazer panela de barro, buscar água no açude, cuidar dos miúdos dos
outros. Vez em quando corria com a criançada atrás de um bicho, armava arapuca,
procurava ninho de abelhas. Tinha os olhos grandes e tímidos e engraçados. Falava
pouco e ria de tudo. E também parecia que sim, pois é.
Os dois se olhavam como se já soubessem
fossem feitos uma para o outro. E nem cabia encaixava mais ninguém entre eles.
Só os dois sobrando, em estado de casar em estado de choque em estado de
urgência em estado de graça, soltos no mundo perdidos.
Ela correspondia com olhares e pelas
costas. Ele era um pouco mais ousado e já olhava, ou tentava, e olhá-la de
frente. Ninguém no quilombo se mostrava contrário ou bicudo ou contrariado.
Faziam até gosto? Apenas queriam ver a hora?
Os homens do quilombo nem ligavam para o
arrastar de asas dos dois. As mulheres quase nem olhavam e assim mesmo de
esguelha. Os que olhavam nem diziam nada e riam à socapa. Só as crianças sem
idade para essas coisas pareciam saber e se divertir com os empurrões os
beliscões os risinhos dos dois por aí. Eram os passarinhos eram o futuro
casalzinho guanambis.
E Gaudêncio levou uma semana para pescar
os olhos dela bem dentro dos seus. E Batovi levou vinte dias para nem tremer
perto dele, etc.
E num sábado, talvez fosse um sábado,
ninguém sabia que dia da semana ou a data do mês ou o número do ano, mas era um
sábado, ele conseguiu agarrá-la pelo cabelo e ela riu, riu muito. Ela se safou
e correu e ele ficou parado como bobo bem tolo.
No dia seguinte, provável domingo, ele
já começou a fazer o gabioto onde iam morar. Foi o que foi conseguindo. Ninguém
queria ajudá-lo, se perdia muito tempo. Foi arrumando uns paus, umas folhas de
catolé, trançou umas esteiras e por aí foi.
Era e foi uma longa série de dias razão
motivo por que o sol logo apareceu, beija-flores-de-costas-violetas
muricizeiros tatus-de-rabo-mole timutus patos-corredores grãos-de-galo
vespas-caboclas sapiranguis... junto às
primeiras horas, locais.
- A-ren-ga! A-za-do!
Os dias no quilombo eram duros puxados para
todos, nem apenas o filho do Gaudêncio. Muito trabalho pesado e difícil. Tinha
que ir com os outros homens para a roça e para o mato atrás do de-comer. O
tempo que sobrava dedicava ao casebre aparelhado servido de uma peça.
E o filho do Gaudêncio tinha pressa e
via que a guria também tinha pressa. Mas ainda nem se falavam mais que duas
palavras por dia. Ele pensava que ela nem o entendia, ela pensava que ele nem
sabia falar de coisas de namoro e etc., por ex.
- Por-fi-ar! Co-li-mar!
Ele muito cansado à noite quando chegava
da roça. Dormia com as galinhas porque nem aguentava mais de cansaço. Ele
olhava para a noite, sentia o peso do corpo, se deitava na esteira do seu
gabioto em construção, pensava na negrinha e desmaiava de sono. Nem tinha como
sonhar com ela e direitinho.
Toda noite assim. Todo dia assim. Todos
os dias durante um período. E pouco após talvez da guerra Guaranítica ou das
Missões.
No fim de uma certa semana, pronto o
casebre. A noite com algumas raras nuvens, estrelas e uma lua misteriosa do
tamanho de um prato. Pios de coruja-buraqueira. Voos de morcego. No centro do
terreiro a fogueira esquentava a escuridão e estalavam as lenhas. Poucos homens
resistiam ali, além dos sentinelas.
Quando chegou certa noite dentro da
palhoça, um susto tremendo, descobriu que a moça estava ali esperando por ele.
Ele resmungou alguma coisa como:
- Nhe-nhe-nhé...
Ela ficou quieta no canto enrolada em si
mesma como um bicho com susto. Ele tossiu para limpar a garganta e tentou de
novo uma palavra ou duas:
- Tá com frio, é?
Enfim, ele nem sabia o que fazer e ela
não saía lá do canto enrolada na ignorância, ou no frio. Ficaram os dois meio
se olhando no escuro. Só o branco dos olhos como pontos de referência. Foi que
ele tentou dar mais uns passos na direção dela. E ela começou a resmungar e
choramingar e se afastar.
- Ín-co-la! Ar-re-ar!
Dessa para outra, essa fora a primeira
noite que passaram juntos e separados. Um com precaução de assustar a outra,
uma com cuidado do outro. Ninguém dormiu naquela noite, mas fora a primeira das
noites a pior das noites e sempre a maldormida.
Depois foram se acostumando e foram se
entendendo e se gostando e paciência diálogo educação persuasão.
Nem adianta explicar como foi a primeira
vez entre eles que tudo demorou muito e nem foi fácil para os dois. Ele já
tinha corrido atrás de umas fêmeas e tais. Ela já tinha visto algo parecido com
parentes e quais. Era então até a página cinco. Daí pra frente foi mesmo
difícil e demorado e arriscado e interessante. Tudo levou umas duas ou três
noites. E de parte a parte.
Os homens do quilombo Arapari foram
atrás de caçar umas capivaras lá pros lados do banhadão. Se esconderam no meio
do alto capim-rabo-de-burro e ficaram cuidando do movimento na beira da água da
Laguna dos Patos. Ficaram chuleando com silêncio e mascando talinhos de capim.
Entretanto.
Diversas espécies chegavam para beber
água e lamber o barro atrás do sal. Era um lugar muito bom para espreitar caça
terrestre e aérea, escolhido a dedo.
As capivaras chegaram em família. Nem
estavam muito desconfiadas. Estavam sedentas e com vontade de barro preto. A
chefa da família de súbito ficou desconfiada e começou a cheirar o ar. A roncar
para o lado dos caçadores. Sem ver os caçadores ela já sabia que tinha algo
estranho errado suspeito ali por perto. Já alertava os familiares e
correligionários. Erguia o focinho mas o vento nem ajudava. Qualquer coisa eles
já corriam para dentro do mato espesso.
Depois, vários dias tentando e estudando
as coisas a região o ambiente se camuflando entre os espinilhos e as
canelas-de-garça na beira do rio Candiota, os caçadores conseguiram chegar a
uma anta e dois caititus. E nem foram dos menores. Pegaram todos numa
estratégia de grande arapuca.
O quilombo festou. Fizeram folia,
churrasco, riram muito, batucaram e passaram a noite cantando batucando bebendo
caxiri. Os homens de um lado batiam o pé as mulheres do outro lado batiam o pé,
e levantavam poeira. Depois davam voltas em torno à fogueira cantando versos de
amor e resmungando gargalhando berrando.
- En-ti-bi-ar! Ba-lu-ar-te!
O velho e pacato Amuri Saicã tinha a
palhocinha dele no alto do pé de Ingá. Ele fez lá o seu gabioto por receio de
bichos noturnos, enfim. E dormia sempre sozinho. De dia nem tinha medo de
onça-pintada, de jacaré, de cobra coral, cobra cascavel, escorpião, lacraia,
lagarta, e de nada.
E naquela mesma noite do festival, Amuri
estava muito cheio de cansaço e de caxiri e de devaneios protocolares. Tanto
cheio de caxiri que nem conseguiu subir na árvore e ficou ali agarrado ao
tronco e se lamentado e pedindo a D. Amanheceu ali ajoelhado no tronco do ingá
e pronto. Dormiu e de ressaca foi perceber na manhã receber de sol forte na
cara.
As caturritas assustaram gazearam
gazinaram e o velho Amuri.
15-Pátio.
Do aparelho de som acoplado na
carrocinha de pipoca, se ouvia aquele ritmo plástico e digitalizado. As músicas
eram ótimas para quem curtia aquele gênero musical. Eram boas para quem nem
gostava e nem desgostava, nem ligava à mínima. Mas para quem detestava axé,
aquela música era trepidante demais alegre demais alegre muito cedo alegre
muitas horas e só servia no carnaval.
O pai do Joel caminhou andou e parou
para sentar no banco por acaso patrocinado pelas lojas Carovi - espalhadas por
várias cidades do Estado e em muitos endereços - o único assento desocupado na
praça Carlos Chagas. Ouviu o som da carrocinha e procurou pensar outra coisa.
Disseram pra ele, dia de ontem, que por baixo da praça Carlos Chagas passava a
ponta do rio Mamanguape. Seria verídico? Seria possível? Era sério? Momento
oportuno, então.
A praça era o marco zero da cidade e a senhorita
que descia a escadaria tinha um estilo de cabelos de milho. Muito simpática e
interessante à primeira vista ou a olho nu ou a olho armado. Parecia ser moda
naqueles dias aquele cabelo espedaçado. Muitos viram que era bonito. E seus
olhos também que eram muito móveis espertos.
Depois e enamorada saiu da praça e subiu
o aclive do começo da rua Bonito de Santa Fé. Parte alta da cidade. Onde
ficavam as principais lojas, os bancos, os principais hotéis, as livrarias especializadas
que vendiam de tudo caderno lápis borracha mochila enfeite de festa de
aniversário... menos os livros de duzentas folhas ou mais.
Aquém do arroio Jaguari temos umas
estâncias hidrominerais ótimas recompensadoras, Estiva Gerbi, São Carlos do
Ivaí, Manoel Emílio, Cacique Doble... E
é apenas para mergulhar e de perto.
O velho Curimataú, um senhor que o pai
do Joel conhecera anteontem, descia para a praça, descia a ladeira vindo quem
sabe lá da rua Mogeiro, bairro Upamaroti. Vinha cansado da descida. Chegou
cansado e com sorriso contrafeito, muitos dias sem o que fazer, aposentado da
prefeitura, preocupado com o horário sem ter como ocupar o tempo, passando o
tempo ali e aqui:
- Um dia caloroso, né?! São os nossos 26
graus centígrados, e normais.
- Boa tarde, seu Curimataú. O dia
promete!
- A montanha é um navio. As pessoas
escalam e embarcam. Desembarcam ou descem. Viajam ou exploram. Navegar o céu ou
caminhar o mar. Abrir uma fortaleza ou inaugurar um encouraçado. Plantar portos
ou inaugurar pedras.
- Muito bom a partir de hoje.
- Sabe de uma coisa?
- Se você contar eu prometo espalhar.
- Desci por ali assim o morrinho até
aqui a praça, bem na minha frente um cachorrinho, um vira-latinha. Estava ali
sentado perto na sombrinha da batinga e fazendo mais o quê. Olhando pra cá pra
lá e acendeu as orelhas quando me viu. Queria encontrar alguém? Esperava algo
ou alguém? Simpatizou com o dia quieto?
- Disse alguma coisa? Cumprimentou?
- Pois é. Não latiu nada. Me deixou
seguir e aqui estou. Nem falou nada. E deve de ser mesmo um bom dia mundial, é.
Ficaram falando de outras coisas: as
águas volumosas e profundas do rio da Várzea: as cavernas da serra do Caverá: as
águas turvas do arroio do Salso tributário do rio da Várzea: a plantação de
beldroegas: as cascatas e corredeiras do rio dos Touros no distrito de Itapeaçu
em Urucurituba: a disputa pelo título regional futebolístico entre dois times
rivais da região o de Campos Borges e o de Paim Filho... Ficaram falando
pensando tirando conclusões porque falar é fácil. Ficaram amadurecendo aquele
dia e passando o tempo pra trás. Parecia pouco, mas era mais um dia de
temporal. Lá na frente ia fazer falta. Lá na frente dum certo presente por vir.
Isso
no início tudo do soberbo sexto século brasileiro.
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