sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 15




Sempre existiram praças, lugares públicos no povoado, frente da igreja do templo, lugar de recreio de brinquedos e jogar uma pelada. Praças mais ou menos mais bonitas. Praças grandes e praças conformadas. Sempre apareceu aquela praça mais arborizada que a outra. Quem chega à cidade procura o Centro estaciona na praça acampa aí. E na praça Heróis da FEB, o laguinho dos peixes piracatingas lisas-de-água-doce, sapos-folhas...
O pai do Joel estava ouvindo contar as histórias que o mundo comportava. Vigésimo sexto minuto e décima hora e segundo dia e sexto mês e segundo milésimo décimo nono ano e do nosso vigésimo primeiro século. A avenida Vila Pavão era barulhenta, mas já facilitava para ouvir.  A própria rua Rio Bananal estava agitada, mas dava para escutar. Um rapaz que vendia roupas unissex de segunda mão queria contar os seus causos. E o rapaz, com nome interessante de Tinga Sapará, natural de Colônia do Gurgueia e com residência fixa em Mogi Guaçu, começou a botar a narrativa no ar da manhã oral:
- O mandachuva em a localidade de Nuga Preceito, um senhor de bigodeira à barão de Rio Branco, dono de terras alagadas, plantações de pupunheiros e pequizeiros e açaizeiros e goiabeiras-do-mato... gostava de apostar corridas de bicicleta carreiras entre os pretendentes à mão da filha.
“Esse régulo chefete cacique, de nome Tauá Mairata, altas descendências, era um superatleta olímpico e nem perdia uma corrida de bicicleta. Para dar o exemplo e incentivar os mais jovens, corria somente com uma mão segurando o guidão. Ele dizia que era porque consumia guaraná em pó, comia só vegetais da Amazônia, tomava banho no rio Curiti e dormia e acordava cedo. A outra mão ia enfiada no bolso. Mas nem era assim tão fácil tão elementar tão básico, tinha outra coisa além disso. Era um mistério que a todos intrigava. Criava-se a lenda. Pois além de ter excelentes bícis e peças de reposição, estas pareciam voar ou impulsionadas a jato. É até difícil de explicar. Senão, vejamos.
“Enquanto isso tudo acontecia, essas corridas ao ar livre e tal e qual, a filhoca suspirava sonhando com um noivo superveloz. E infelizmente para ela, os pretendentes um a um eram derrotados, humilhados, ultrapassados, expulsos do país como perdedores e fracassados e lentos e pachorrentos. Todo ano no aniversário da cidade era isso. Chegavam oitenta noventa sorridentes e confiantes concorrentes e saíam se refugiavam todos vencidos e com o rabinho entre as pernas. Atabalhoadamente.
“Mas o ente ou deus Papa-Cacau, vendo tal coisa acontecer sob seu olhar de rapina e bico curvo, e ano após ano, nem aguentou e pretendeu interferir. Grasnou muito e pensou xingar nem xingou e resolveu fazer qualquer coisa, alguma coisa. E obviamente, dentro e de acordo com as leis de trânsito ou do desporto. Quem sabe fez? Quem sabe faz, quem nem sabe ensina. Aparentemente, pelo menos.
“O ente pegou a guria casadoura - nome bonito cartão-postal da cidade, a Suçuaia - e lhe disse, explicou, numa noite num sonho, soprou no ouvido:
- Cunhantã! Escolha você um pretendente e pronto, acaba com essa espera ridícula, esta história boba. Eu lhe dou este direito este poder este manancial. E pode tirar férias em Manacapuru ou São Miguel das Missões ou Canto do Buriti...
“Suçuaia - ardilosa manhosa astuciosa sagaz, lábios pintados de vermelho, canitar na cabeça tramado entre a cabeleira negra - escolheu o pretendente de seu gosto e marcou o casamento para o mês de maio, faça chuva ou faça sol, seis horas da tarde, dia 18 do ano da graça de 1999. O local o lugar a cidade... podia ser São Luís, capital do Piauí; podia mesmo ser em Centenário do Sul; era pra acontecer em Nova Hartz; mesmo em Aguaí... Quer de um ou quer de outro modo.
“Na noite de núpcias, cerimônia realizada e a festa na sociedade recreativa Paraviana comemorada, o ente Papa-Cacau matou o noivo e, disfarçado vestido em pele de noivo cabeleira de noivo etc de noivo, dormiu com a bonita e bela e linda Suçuaia. A ideia nem era nova, como se vê. E algo eletrizante.
“Só que a primeira esposa do deus ou ente ou ser Papa-Cacau - uma senhora correta e séria de nome Cupuaçu - desconfiou do caso, coçou a testa, investigou, telefonou para o hotel o melhor hotel de Magé, analisou, perquiriu, comeu muita salada mista colorida no almoço, esbravejou, chutou os brinquedos dos filhos espalhados na sala, pensou em xingar todo mundo que estava por perto, tomou remédio caseiro feito de erva-de-bicho, e com muito ciúme também paciência jurou uma terrível vingança vingativa. E o caso prometia.
“Quando a Suçuaia estava na hora do parto, a ente a deusa Cupuaçu se disfarçou de parteira e roubou o bebê, colocando no lugar um filhote de tracajá pescado no rio Curiti. Depois fugiu numa moto de entregar pizzas em domicílios.
“O deus Papa-Cacau, ao constatar que seu filho com a Suçuaia era um tracajazinho, se desligou do caso amoroso, pagou promessa aos santos e ou santas do dia, contribuiu com dinheiro para um hospital de caridade lá na distante localidade de Manoel Viana, colaborou com a criação do parque do Monge lá na cidade de Lapa, mais outras ajudas beneméritas, e nunca mais quis ter nada com a guria. Porque o mundo é do mundo.
“A Suçuaia, por seu lado, acabou por criar o engraçado quelônio como se fosse um ente divino e maravilhoso e lindo e esperado rebento saudável saído das suas entranhas. Ela sabia o que estava fazendo. Sempre soube.
“O tracajá cresceu sem sombra por causa do feitiço que a deusa Cupuaçu lhe pregara. Mas, por incrível que pareça, mesmo enfeitiçado e condenado, o tracajá acabou assim atraindo a adoração do povo da cidade de Nuga Preceito. É muito raro e inusitado e inédito um vivente sem sombra. Não é para qualquer um. E que a preparada mãe passou a chamá-lo de Itatiba. O povo viu no animalzinho uma exceção uma evolução uma revelação uma equação da palavra dos deuses do rio, rio Curiti. E foi assunto também em outras províncias e departamentos, quem sabe, São Martinho, Alecrim, tribo dos ingarune, Ivaí, Três Arroios, ilha Cagara, Eliseu Martins terra da lagoa...
 “Assim, depois que Itatiba foi pro céu dos quelônios ou até algo melhor, o povo construiu um templo de pedra junto ao campo de futebol de um dos principais times da cidade. Ali, depois de muito ajoelhar e pagar promessas e festejar e jogar futebol e espocar foguetes e cantar toadas, eles fizeram uma baia para o tracajá Itatiba. Uma baia para o deus Itatiba. Um templo com altar para as oferendas. Um lugar ao abrigo da chuva das chuvas de maio dos ventos minuanos.
“Todos os anos o povo dessa cidade faz festa em homenagem ao aniversário do tracajá enfeitiçado e mágico. Vem gente de outros arredores, também. Todos os anos oferecem presentes no altar e pedem favores e pedem milagres e pedem campeonatos para seu clube. E se repartem em duas tonalidades, em acordo com as cores do Itatiba, e para haver uma disputa sadia no carnaval: sociedade recreativa tracajá preto (de nome Itaúna) e sociedade recreativa tracajá amarelo (de nome Itajubá). Vale o título da melhor escola de carnaval do ano. O vencedor paga o chope servido à vontade.
“O quelônio Itatiba teve várias esposas companheiras que forçosamente tiveram outros tracajazinhos que se espalharam pelo mundo levando a lembrança do pai do avô, etc., por ex. E povoaram os rios da floresta, rio Camisas, rio Ijuí, rio Ibicuí... E povoaram as beiras dos lagos da floresta. Uns foram morar na baía da ilha Grande. A maioria, ou até a totalidade, nem soube superar a fama do pai.
“Daí por diante aconteceram outros muitos milagres também por via espiritual e mental. Quando o tracajá mágico Itatiba completou 100 anos de sua ascensão, o povo da cidade fez uma estátua de ouro em tamanho natural e a colocaram na praça Largo do Paiçandu. Sempre que o povo precisa de alguma urgência seus devotos apelam para o tracajá Itatiba com novenas quinzenas procissões quermesses. Muitos carregam pedra na cabeça em sentido de peso do mundo, é.
“E todo ano já existe uma romaria que parte de todo lugar do município de Nuga Preceito e vem até aquele lugar na praça Largo do Paiçandu homenagear o tracajá Itatiba. A cidade mesmo se prepara para receber 400 ou até 500 mil pessoas de outras cidades e Estados da federação e nacionalidades. Outras cidades querem imitar e estudam o caso algo assim para atrair turistas e movimentar a economia.
“Recentemente se observou também que os filhos e filhas migrantes de Nuga Preceito levam com eles para onde for por onde andam as tradições os costumes as supertições os deuses a fama do deus Itatiba. E isso se comprova nas orações nas palavras e expressões do dia a dia nas camisetas nos chaveiros nos decalques nos badulaques quinquilharias... Algumas coisas nem acontecem por acaso, uma vez!”
Cai quem diria outra noite e lentamente, praticamente. A praça Heróis da FEB possivelmente iluminada. Das 18h às 6h.
15-Jardim.
Com as palavras de Aline: contemporizou, guarabira, impávido, maniqueísta, lundu, conseguintemente, quiproquó, compáscuo, prolificar, deprecar.
15-Horta.
Frases sentenças de Pedro:
- Que viagem chego na cidadezinha apitando a viagem de trem maria-fumaça movida a óleo.
- Leitor contumaz é quem começa pela filosofia depois poesia ainda H do B e até atingir a ficção de fantasia ou de paisagens, assim mesmo.
- É bonita e gosta de dançar e dança muito bem quando com quem quer.
15-Pomar.
O filho do Gaudêncio chegou sem querer ao quilombo do Arapari, alturas da serra do Herval. Apareceu perto do mato e foi encontrado pelos cães de guarda perdigueiros paqueiros. Subiu na grapiapunha antes de ser atacado e ficou esperando. Logo chegaram os donos dos cachorros e armados de tangapemas, no mínimo.
- Des-ba-ra-tar! Di-re-ti-va!
Nem entendia muito bem o dialeto que falavam, mas os gestos e mímicas eram suficientes para saber que tinha de trabalhar para comer. E de sol a sol. Ganhou um cantinho uma esteira numa palhoça e para dormir. De seu mesmo tão somente tinha um chapéu de palha catolé que ganhou de uma velha grandona mandona e a enxada de ponta de pau.
O sol o dia a manhã no novo espetáculo todos quaisquer em cheios da cor local e muitas aves e voos, tiés, sabiás-da-restinga, gavião-belo, goelas-d’água, churés... E todos tudo efusivos comunicativos expansivos saem da curiosidade irapuás aningaúbas xuqueris amarelinhos-da-serra quinas-brancas... para a paisagem.
Junto com outros foi Gaudêncio fechar o riozinho para fazer um açude. Dia inteiro no trabalhando com pedra e barro e com os pés na lama na água no brejo. Era frio, mês de junho, muito sol e vento contundente.
- Chan-tar! Ál-veo!
Sempre de olho numa menina que estava sobrando no pedaço. Cada homem, várias idades, tinha sua mulher e seus pequenos. Ele nem tinha nenhuma e procurava urgente. A mocinha parecia destinada a ele e vice-versa, e pois ninguém se importou que ficassem se cuidando.
O nome dela era Batovi sem de tal e qual. Ajudava as velhas a debulhar milho e moer farinha, ralar mandioca, colher lenha no mato, fazer panela de barro, buscar água no açude, cuidar dos miúdos dos outros. Vez em quando corria com a criançada atrás de um bicho, armava arapuca, procurava ninho de abelhas. Tinha os olhos grandes e tímidos e engraçados. Falava pouco e ria de tudo. E também parecia que sim, pois é.
Os dois se olhavam como se já soubessem fossem feitos uma para o outro. E nem cabia encaixava mais ninguém entre eles. Só os dois sobrando, em estado de casar em estado de choque em estado de urgência em estado de graça, soltos no mundo perdidos.
Ela correspondia com olhares e pelas costas. Ele era um pouco mais ousado e já olhava, ou tentava, e olhá-la de frente. Ninguém no quilombo se mostrava contrário ou bicudo ou contrariado. Faziam até gosto? Apenas queriam ver a hora?
Os homens do quilombo nem ligavam para o arrastar de asas dos dois. As mulheres quase nem olhavam e assim mesmo de esguelha. Os que olhavam nem diziam nada e riam à socapa. Só as crianças sem idade para essas coisas pareciam saber e se divertir com os empurrões os beliscões os risinhos dos dois por aí. Eram os passarinhos eram o futuro casalzinho guanambis.
E Gaudêncio levou uma semana para pescar os olhos dela bem dentro dos seus. E Batovi levou vinte dias para nem tremer perto dele, etc.
E num sábado, talvez fosse um sábado, ninguém sabia que dia da semana ou a data do mês ou o número do ano, mas era um sábado, ele conseguiu agarrá-la pelo cabelo e ela riu, riu muito. Ela se safou e correu e ele ficou parado como bobo bem tolo.
No dia seguinte, provável domingo, ele já começou a fazer o gabioto onde iam morar. Foi o que foi conseguindo. Ninguém queria ajudá-lo, se perdia muito tempo. Foi arrumando uns paus, umas folhas de catolé, trançou umas esteiras e por aí foi.
Era e foi uma longa série de dias razão motivo por que o sol logo apareceu, beija-flores-de-costas-violetas muricizeiros tatus-de-rabo-mole timutus patos-corredores grãos-de-galo vespas-caboclas sapiranguis...  junto às primeiras horas, locais.
- A-ren-ga! A-za-do!
Os dias no quilombo eram duros puxados para todos, nem apenas o filho do Gaudêncio. Muito trabalho pesado e difícil. Tinha que ir com os outros homens para a roça e para o mato atrás do de-comer. O tempo que sobrava dedicava ao casebre aparelhado servido de uma peça.
E o filho do Gaudêncio tinha pressa e via que a guria também tinha pressa. Mas ainda nem se falavam mais que duas palavras por dia. Ele pensava que ela nem o entendia, ela pensava que ele nem sabia falar de coisas de namoro e etc., por ex.
- Por-fi-ar! Co-li-mar!
Ele muito cansado à noite quando chegava da roça. Dormia com as galinhas porque nem aguentava mais de cansaço. Ele olhava para a noite, sentia o peso do corpo, se deitava na esteira do seu gabioto em construção, pensava na negrinha e desmaiava de sono. Nem tinha como sonhar com ela e direitinho.
Toda noite assim. Todo dia assim. Todos os dias durante um período. E pouco após talvez da guerra Guaranítica ou das Missões.
No fim de uma certa semana, pronto o casebre. A noite com algumas raras nuvens, estrelas e uma lua misteriosa do tamanho de um prato. Pios de coruja-buraqueira. Voos de morcego. No centro do terreiro a fogueira esquentava a escuridão e estalavam as lenhas. Poucos homens resistiam ali, além dos sentinelas.
Quando chegou certa noite dentro da palhoça, um susto tremendo, descobriu que a moça estava ali esperando por ele. Ele resmungou alguma coisa como:
- Nhe-nhe-nhé...
Ela ficou quieta no canto enrolada em si mesma como um bicho com susto. Ele tossiu para limpar a garganta e tentou de novo uma palavra ou duas:
- Tá com frio, é?
Enfim, ele nem sabia o que fazer e ela não saía lá do canto enrolada na ignorância, ou no frio. Ficaram os dois meio se olhando no escuro. Só o branco dos olhos como pontos de referência. Foi que ele tentou dar mais uns passos na direção dela. E ela começou a resmungar e choramingar e se afastar.
- Ín-co-la! Ar-re-ar!
Dessa para outra, essa fora a primeira noite que passaram juntos e separados. Um com precaução de assustar a outra, uma com cuidado do outro. Ninguém dormiu naquela noite, mas fora a primeira das noites a pior das noites e sempre a maldormida.
Depois foram se acostumando e foram se entendendo e se gostando e paciência diálogo educação persuasão.
Nem adianta explicar como foi a primeira vez entre eles que tudo demorou muito e nem foi fácil para os dois. Ele já tinha corrido atrás de umas fêmeas e tais. Ela já tinha visto algo parecido com parentes e quais. Era então até a página cinco. Daí pra frente foi mesmo difícil e demorado e arriscado e interessante. Tudo levou umas duas ou três noites. E de parte a parte.
Os homens do quilombo Arapari foram atrás de caçar umas capivaras lá pros lados do banhadão. Se esconderam no meio do alto capim-rabo-de-burro e ficaram cuidando do movimento na beira da água da Laguna dos Patos. Ficaram chuleando com silêncio e mascando talinhos de capim. Entretanto.
Diversas espécies chegavam para beber água e lamber o barro atrás do sal. Era um lugar muito bom para espreitar caça terrestre e aérea, escolhido a dedo.
As capivaras chegaram em família. Nem estavam muito desconfiadas. Estavam sedentas e com vontade de barro preto. A chefa da família de súbito ficou desconfiada e começou a cheirar o ar. A roncar para o lado dos caçadores. Sem ver os caçadores ela já sabia que tinha algo estranho errado suspeito ali por perto. Já alertava os familiares e correligionários. Erguia o focinho mas o vento nem ajudava. Qualquer coisa eles já corriam para dentro do mato espesso.
Depois, vários dias tentando e estudando as coisas a região o ambiente se camuflando entre os espinilhos e as canelas-de-garça na beira do rio Candiota, os caçadores conseguiram chegar a uma anta e dois caititus. E nem foram dos menores. Pegaram todos numa estratégia de grande arapuca.
O quilombo festou. Fizeram folia, churrasco, riram muito, batucaram e passaram a noite cantando batucando bebendo caxiri. Os homens de um lado batiam o pé as mulheres do outro lado batiam o pé, e levantavam poeira. Depois davam voltas em torno à fogueira cantando versos de amor e resmungando gargalhando berrando.
- En-ti-bi-ar! Ba-lu-ar-te!
O velho e pacato Amuri Saicã tinha a palhocinha dele no alto do pé de Ingá. Ele fez lá o seu gabioto por receio de bichos noturnos, enfim. E dormia sempre sozinho. De dia nem tinha medo de onça-pintada, de jacaré, de cobra coral, cobra cascavel, escorpião, lacraia, lagarta, e de nada.
E naquela mesma noite do festival, Amuri estava muito cheio de cansaço e de caxiri e de devaneios protocolares. Tanto cheio de caxiri que nem conseguiu subir na árvore e ficou ali agarrado ao tronco e se lamentado e pedindo a D. Amanheceu ali ajoelhado no tronco do ingá e pronto. Dormiu e de ressaca foi perceber na manhã receber de sol forte na cara.
As caturritas assustaram gazearam gazinaram e o velho Amuri.
15-Pátio.
Do aparelho de som acoplado na carrocinha de pipoca, se ouvia aquele ritmo plástico e digitalizado. As músicas eram ótimas para quem curtia aquele gênero musical. Eram boas para quem nem gostava e nem desgostava, nem ligava à mínima. Mas para quem detestava axé, aquela música era trepidante demais alegre demais alegre muito cedo alegre muitas horas e só servia no carnaval.
O pai do Joel caminhou andou e parou para sentar no banco por acaso patrocinado pelas lojas Carovi - espalhadas por várias cidades do Estado e em muitos endereços - o único assento desocupado na praça Carlos Chagas. Ouviu o som da carrocinha e procurou pensar outra coisa. Disseram pra ele, dia de ontem, que por baixo da praça Carlos Chagas passava a ponta do rio Mamanguape. Seria verídico? Seria possível? Era sério? Momento oportuno, então.
A praça era o marco zero da cidade e a senhorita que descia a escadaria tinha um estilo de cabelos de milho. Muito simpática e interessante à primeira vista ou a olho nu ou a olho armado. Parecia ser moda naqueles dias aquele cabelo espedaçado. Muitos viram que era bonito. E seus olhos também que eram muito móveis espertos.
Depois e enamorada saiu da praça e subiu o aclive do começo da rua Bonito de Santa Fé. Parte alta da cidade. Onde ficavam as principais lojas, os bancos, os principais hotéis, as livrarias especializadas que vendiam de tudo caderno lápis borracha mochila enfeite de festa de aniversário... menos os livros de duzentas folhas ou mais.
Aquém do arroio Jaguari temos umas estâncias hidrominerais ótimas recompensadoras, Estiva Gerbi, São Carlos do Ivaí, Manoel Emílio, Cacique Doble...  E é apenas para mergulhar e de perto.
O velho Curimataú, um senhor que o pai do Joel conhecera anteontem, descia para a praça, descia a ladeira vindo quem sabe lá da rua Mogeiro, bairro Upamaroti. Vinha cansado da descida. Chegou cansado e com sorriso contrafeito, muitos dias sem o que fazer, aposentado da prefeitura, preocupado com o horário sem ter como ocupar o tempo, passando o tempo ali e aqui:
- Um dia caloroso, né?! São os nossos 26 graus centígrados, e normais.
- Boa tarde, seu Curimataú. O dia promete!
- A montanha é um navio. As pessoas escalam e embarcam. Desembarcam ou descem. Viajam ou exploram. Navegar o céu ou caminhar o mar. Abrir uma fortaleza ou inaugurar um encouraçado. Plantar portos ou inaugurar pedras.
- Muito bom a partir de hoje.
- Sabe de uma coisa?
- Se você contar eu prometo espalhar.
- Desci por ali assim o morrinho até aqui a praça, bem na minha frente um cachorrinho, um vira-latinha. Estava ali sentado perto na sombrinha da batinga e fazendo mais o quê. Olhando pra cá pra lá e acendeu as orelhas quando me viu. Queria encontrar alguém? Esperava algo ou alguém? Simpatizou com o dia quieto?
- Disse alguma coisa? Cumprimentou?
- Pois é. Não latiu nada. Me deixou seguir e aqui estou. Nem falou nada. E deve de ser mesmo um bom dia mundial, é.
Ficaram falando de outras coisas: as águas volumosas e profundas do rio da Várzea: as cavernas da serra do Caverá: as águas turvas do arroio do Salso tributário do rio da Várzea: a plantação de beldroegas: as cascatas e corredeiras do rio dos Touros no distrito de Itapeaçu em Urucurituba: a disputa pelo título regional futebolístico entre dois times rivais da região o de Campos Borges e o de Paim Filho... Ficaram falando pensando tirando conclusões porque falar é fácil. Ficaram amadurecendo aquele dia e passando o tempo pra trás. Parecia pouco, mas era mais um dia de temporal. Lá na frente ia fazer falta. Lá na frente dum certo presente por vir.
Isso no início tudo do soberbo sexto século brasileiro.


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