Nem tem que ver.
Ali uma praça Beijuaçu triangular das
árvores paradas produtoras de verdes folhas, buçu, manipuçás, chapéu-de-frade,
guajaraís... sombras e sustentando o céu as nuvens o sol a lua os aviões
planadores.
A filha de Aline, ir e vir, parecia uma
flor de cara amarela e pétalas brancas. Ou uma estrela brilhante sem pontas
solta no veludo do céu. Era uma flor e uma estrela de si, riso cristalino,
metódica, passando as mãos pelos cabelos preferência nacional, corpo útil e
exato. Colar com coração, em pratas. E até para o benefício dos olhos alheios
passantes.
O caxinguelê é e as habilidades em
pessoa.
Acordou a moça o dia desejado, o
sonhado, o dia projetado, o dia futuro, o dia invisível, o prometido, o todo
esperado. Um rosto demonstrativo. Uma documentação completa e de alucinar. E o
que mais complacente.
- E quede seu sorriso circular?! Sua
marca exemplar e de propaganda anúncio.
O helicóptero pousou no meio do mangue
charneca pântano. O lugar já era então área de proteção ambiental desde o tempo
dos indígenas juruna e mundurucu. E todos os caras esperavam, ergueram as taças
ao avistá-la descer com a aeronave bimotor aquática.
No meio do dia nublado e sem alça, ela
pensava nas razões que a samambaia tinha para procurar o de-comer. Aproveitando
a oportunidade, a plantinha puxava e puxava ali de dentro do vaso, perto do sol
da varanda, todo o desejo de espiar o dia lá fora e o compromisso com o por
vir.
No sítio Imbaúba, em Estrela, ela mesma
parou na sombra da ingazeira, cruzou os braços, olhou o fiozinho de águas do
riacho, ficou olhando quase sem ver por vinte minutos. Os galos-de-campina
chiando garganteando. Algumas espécies misturadas de sabiás-do-campo, narcejas,
viuvinhas, patos-arminhos arrulhando aproveitando a estação a época.
Sonhos ansiosos rolou na cama caiu
refletiu e a ilha de Paquetá. Estava escuro, abriu a geladeira, catou um
sorvete e ficou no escuro mesmo mastigando uns cajus com pitangas. O futuro daí
a quatro dias no distrito de Itacuruçá em Mangaratiba.
O caxinguelê é e uns habitantes da
floresta indício de preservação.
Ela estava bem disposta filha de Aline e
disposta a tudo. Sol quente devastador. Conversou com esse e aquele muiraquitã
mercado Ver-o-Peso tiquira tucupi tacacá açaí rua Padre Prudêncio e os outros
curibocas umas caboclas por aí:
- Sim. Passeei de visita Nova Cruz e
Faro e Muaná, respectivamente. Fiz um curso de primeiros socorros seis meses em
Terra Santa. E conheci a tribo dos baniva.
Pela manhã que se viu foi a certeza do
céu de chuva, trovões, relâmpagos, mais trovões. Pela tarde que se viu foi a
insistência da chuva no mundo, só a chuva, mais nada. Pela hora da noitinha
estrelas bem lavadas e lua pingando e pajelança mandinga uacauã e árvores
arrumando os cabelos no sudeste, umbuzeiro, embaúbas, amendoeirana, curuba...
Ligeira e de cabelos soltos, espontânea
de olhares e brilhantes, provocante de boca aberta e doce. Uma boca grande de
lábios grossos dentes ótimos, total: abacaxi.
Vento bom verão nas árvores e arredores,
maniçoba-do-ceará, timbó-da-mata, catolé, catingueiras, itambé... Um candimba
procurando rua Barão de Ubá o que nem sabia.
- E quede o sorriso singular?! Sua marca
registrada nos órgãos competentes oficiais.
A filha de Aline passou olhando para o
chão sacola no ombro celular de capinha verde na sacola ouvindo de cor e
salteado seu bem-te-vi trovar saudades de mil novecentos e noventa e oito com
avenida Osvaldo Orico em a cidade de Cajazeiras do representativo Estado do
Piauí.
21-epigrama, inscrição.
Ana Ricarda mais gata que uma suçuarana
bebendo água na beira do rio Paraopeba. Descansando na sombra do pitiá.
Aproveitando o dia de sorvete na praça Fernão Valdez.
Contou os que passaram, passavam, moreno
de cabelo alçado, homem de pasta debaixo do braço na cabeça um boné vermelho
escondendo o penteado sob o sol, sapatos verdes plataforma salto transparente,
abelha tubiba, compradora de jequis, óculos de pernas verdes, muitos risos dos
adolescentes, corrupião no galho da canafístula-de-igapó, orelhas com penduricalhos
interessantes argolas arabescos serpentinas. Fazer o quê!
Dois dias depois, o céu nublado,
prevenida de guarda-chuva, maçarico-pintado bicando um cajá, atravessou a
avenida Canaã dos Carajás, a praça quadrilonga Manoel Oliveira Paiva, até o
oftalmologista senhor Samango Mocororó.
Quem olha nem sabe.
As árvores e plantas e verdes existiam o
mel das cores e dos beija-flores, cigarras e tico-ticos, e fevereiro veio de
janeiro que ia para março.
Ninguém pensa mais o quê, o qual, os
tais, porque o céu está limpo e límpido e azul, mas nem há de ser nada.
Era uma guerra de andorinhas, ela dizia;
uma nuvem de andorinhas, ela ria; uma revoada de andorinhas, ela via; uma
coreografia de andorinhas, ela pensava: o verão vinha chegando; ela se apresentou.
Guria tão bonita como centro do mundo,
como um centro do mundo, o centro do mundo todo, um umbigo de flor lilás, um
lugar de curuatingas, um cômodo lugar de ilha da Juíza.
Um céu raro, largo, profundo, oco,
vazio, azul, bonito, claro demais, sem número preciso de abelhas guaraipo, até
chegar num azul mais raro e difícil e importante e natural.
De dentro da umarizeira, o sabiá-laranja
afiando o ouvido de Ana Ricarda que ouvia, e mais uma confusão de pios de
trinos.
Foi subitamente que inventou aconteceu
milagre de uma coleirinha-do-brejo pousar na haste orvalhada do
lírio-roxo-do-campo, e pronto, balançar e equilibrar a manhã no início no lugar
dos neopratenses. Com o riacho das Polacas murmurando atrasado.
Nenhum pingo de nuvem no céu, um cão de
cabeça baixa, calor requentado e despropositado, maracanãs e quenquéns testando
a algazarra da tarde.
Os carros pararam, o trem parou, os
carros foram, o trem já passou lenga-lenga! lenga-lenga!... a vaca malhada
levantou a cabeça e já sabia.
A cigarra cantava, a menina parou,
olhou, ficou escutando, a cigarra serrava, a menina olhou, a cigarra
estertorava, a menina procurava reparar, a cigarra estralejava sem parar e por
quê.
Ela acabara de ver: de repente o vento
foi soprando as nuvens brancas, e podia ser o sudeste, azul-ferrete.
A tarde que queria chover de qualquer
jeito, sem necessidade?, a cidade no domingo de tarde, tudo resumido no
silêncio do barulho da chuva caindo.
Choveu como choveu no começo da noite,
céu baixo, a chuva caindo de pouco acima dos postes de luz. Chove quando D
quer.
Sonhando pensou que estava parada
parada, sonhando nem pensou no céu bordado de poucas nuvens de papel, nem nas
águas riacho sombreadas de mofumbos e juás, nem nos passarinhos chilreando
trinando arrulhando, sonhando nem pensou em si mesma.
Súbito, depois da porta automática em
vidro fumê do shopping Azinhaga, súbito como de súbito mesmo sem avisar, o céu
vibrante instantâneo de sol e pronto.
O sol nem tem pressa, quem tem presa é
Ana Ricarda, as jandaias, e todo o cabelo para se arrumar hoje de manhã antes
das nove horas.
Correu uma luz amarela nas veias, uma
cigarra cantou nos verdes olhos, uma mangabeira pulou do macaco-aranha,
açucenas-do-mato em companhia de mastruços, o voo silencioso da aeronave
rebrilhante na noite entregue a D e todo mundo.
21-cenáculo, refeitório.
Com as palavras de Aline: impreterivelmente,
imperceptivelmente, complacente, quebranto, fecularia, enfiteuse, debuxo,
estúrdio, aljube, presiganga.
21-solapar, escavar.
E doce Ana Ricarda ouvia de onde vinha
um assobio silvo típico talvez do sabiapoca, da arirambinha do tangará-falso da
boininha... E durante algum tempo o mundo, etc., por ex.
À noite a cidade era tão outra, talvez a
mesma, mas muito diversa e mudada e transtornada e inquieta e esquisita e outra
bem controvertida. Festas juninas boi-melão festa música danças dos
cordões-de-bichos.
A lua se virou para o rio Içana, ficou
de lado, a face meio inconclusa, e os cães foram passear de cabeça baixa pelas
ruas ermas do bairro Anhambi, a lua comida de formigas-cortadeiras, macaíbas
batendo palmas no vento, um morcego comentando com a coruja-buraqueira,
comentando por comentar:
- Durante muito tempo tempos em tempos o
mundo...
E Ana Ricarda sonhou e com um sentimento
sem destino, e nem percebeu que a sua boca fazia todo o alvo motivo.
Um disco de sol caía sem nuvens goianas
atrás do mato de guamirins, malvas-rosas, angélicas-mansas, tapaciribas... um
cheiro redondo de frutas amarelas e vermelhas, os besouros adejando rápidos
colorindo sonoros, borboletas faceiras elogiando as flores das árvores dos
capins-gomosos, das trepadeiras cipós-de-coração, guarirobas condescendentes,
sorro compenetrado, caburé-ferrugem concentrado, e claro que sim.
O vento passou e nem viu ninguém, a
cidade ouviu o uivo e procurou quem era, logo passou outro ônibus buzinando no
viaduto Guaianá, já passavam das 3h e 23min.
Uma borboleta anônima e de olhar nas
asas tontas e leves desabando no vento. A leveza em pessoa. O tempo nas asas. O
sorriso nas asas. A atmosfera alada nas asas.
As curicas, as juritis, o acauã, o
gavião-caripira... palravam isso, mas porém aquilo, todo mundo dizia alguma
anedota e paródia e comício:
- Durante um tempo dois três séculos os
tempos do mundo e outros mundos...
Uma lua distante e cri-cri comida das
famosas e corredeiras formigas-da-roça. Satélite que depois se encheu de nuvens
passageiras. Um umbu e plantas ao redor, inhames-cigarras, juás-listrados,
gramas-do-pará...
Durante um tempo que só os contos
recontos lendas dão conta do mundo.
Mais tarde a lua fez positivo com o osso
branco do galho seco de tapanhaúna ao luar e o rio Retiro passando por baixo na
sombra estriada, rio Ipiranga que passa outro rio das Almas dia e noite
capim-santo e mastruço disputando paisagem no jardim da frente o mesmo rio
Guaratuba outro rio das Velhas até o mar. Depois do mar o oceano.
Durante um tempo que todos conhecem como
é que é.
21-glosar, mote.
As perguntas de Paulo:
- E por onde começar o universo?
- Quem nem crê em almas do outro mundo e
discos voadores na chuva?
- Como vai a senhora que passou por mim?
- Então eu nem lhe disse a mesma coisa
ontem de manhã?
- O que há de proveitoso para fazer na
política estudantil e com 18 anos?
- Como se tornar ídolo em tão pouco
tempo e um por quê?
21-insigne, ilustre.
O sol representa o dia o sol a noite o
litoral e mais citar emparelhar os algarismos de anos e luz todo disposto. Quem
foi que fez o mundo todo todinho e mais São Gabriel da Cachoeira e Rio Claro e
ilha das Folhas...
A filha de Aline foi quase até o outro
lado de lá da cidade marajoara de Banabuiú - brejo das borboletas ou rio de
muitas voltas - porque lhe disseram que vendiam tapioca e beiju, comprou
tapioca e comeu na hora muito beiju. Ela mesma bonita lenta moça querida
interminável.
- Alguém conhece este lugar como a palma
da minha mão.
Quando 11h e 22min, todos se sentaram.
Soprava o aracati pelas janelas abertas de par em par. Foi um almoço risonho
comemorado festivo. Carnaúbas rodeavam a piscina azul-cristal. Mazagão, no
Amapá, lagoa Baixa do Sucuriju. O homem careca comandava a festa e pagava e ria
muito alto e gritava como se estivesse ainda no senado federal senado capital federal.
Todas as mulheres jovens riam muito. Tudo regado a espumante de fino cristal
azul. O homem piroca bebeu demais assim como falou demais e desmaiou debruçado
sobre a mesinha de centro. O sol já refilava pelos altos prédios. O sol já entrara
umas horas antes desde os paranás igarapés furos igapós.
Ficou assim amarrada, paralisada, boba,
esquisita, polêmica diante da flor do panasco-do-tabuleiro aberta no canteiro
da calçada. Quis comprar quis roubar quis levar para casa custasse o que custasse.
Saltaram e voaram e zarparam os
instantes de fantasia que ela olhou e flutuou.
Assim, o sol entrou na estrada resoluto
e começou a rodar como pneu de caminhão, ou a perder peso subindo sempre e
todavia. Nem é o sol é a terra.
- Alguém conhece este mundo como a alma
da minha mão.
No gramado perto de uma imburi, em meio
as abelhas manduri esvoaçando sem parar pelas cachopas de cabureíba, o
caburé-de-cupim buscando o dia com foto exclusiva, olhos firmes, olho grande e
fixo, olho amarelo e impressionante.
Desceu subiu pelas escadas rolantes
fixas ouvindo músicas do Tanguara e parou... Esquecera do dinheiro trocado para
as compras. Ninguém deu nada por isso.
Foi jantar no Urupema, pouco além da
esquina das ruas Cipoaba com Guachumbo. O aperitivo de butiá. A sopa de
entrada. Os legumes frios e verduras verdes. Carne tão macia que o garfo
afundava com goles de cerveja e bocado de arroz branco. Mais o copo de chope. A
sobremesa. É o cafezinho. Demonstrou e comprovou.
- Alguém conhece esta floresta como a
palmeira do miriti.
A filha de Aline tinha um corpo fino e
tentador. Hoje estava em Matinhas amanhã em Alagoa Nova ou Álvaro de Carvalho
ainda Itaguaí. Valia a pena insistir na maneira bonita de andar do jeito dela
do feitio do cabelo: o cabelo precisava ser preto liso longo. Que o bom gosto
preferia e recomendava preto-negro. Ontem passou por São Sebastião de Lagoa de
Roça e semana seguinte com certeza anoitecerá em Catolé do Rocha ou Boninal
ainda em Japurá. Quando andava nos espaços públicos se mexia conforme, se mexia
bem, mexia com todos, rodava o quadril. Estava capaz de comer. E quem se iludia
porque queria. Tinha tendência a nem engordar e podia comer chocolate quando
quanto quisesse pudesse. Se dava a este direito.
Nenhum destino se fez do dia pra noite.
O tempo, os tempos - porém - está
mudando, estão mudando. Os rios mudam. Os rios se repartem em dois ou três. O rio
Piquiri banha Seabra e Pacoti e Presidente Alves e Niterói a terra de
Arariboia.
Uma tarde primavera que descia em
harmonia e guria e o Campo dos Padres. O inhambu-preto no poleiro mais baixo do
pé de canela-de-folha-larga. Coleira-de-sapé se agitou palpitou balançou bicou.
A paisagem de verde gasto, juçapés, carás-de-caboclo, cipós-de-imbé, icicas...
mas o céu de azul amarelo verde branco lilás. Galinha-d’água raspando a tarde
que amarela caía tombando. Paturé tremeu os olhos sapateou e se encolheu e se
instalou nas canaranas. Todas as fogos-apagous olharam pararam encontraram
pousaram. Iraúna-grande asou o filhote novo. Pica-pau-carijó já tomou banho e
banhos de poeira vermelha arrepiou as penas do pescoço e procurou a sombra
compacta das folhas. O pato-corredor começou a contar estrelas. Para os
profundos e profundas do mato trancado e verde, macambira-de-flecha,
açaí-chumbo, caxim, bois-gordos... essas coisas.
A filha de Aline parou bem no meio do
quarto de dormir com janela aberta no quinto andar do hotel Beldroega e apertou
bem as orelhas com as mãos para nem ouvir o que estava pensando, assim murmurou
baixo sozinha:
- E aí! Já saiu da cadeia?
- Sou normal normal anormal sou eu
mesma.
- Alguém conhece esta cidade como no
tempo dos tapuios.
E o mundo era assim mesmo com ela sem
ela caruana e caruaras. Ela, indicadora de qualidade no ambiente virgem, tinha
que achar que nem era com ela. Pois o mundo já começara nos dinos e vai vai até
terminar em marte.
21-certame, evento.
Fizeram a praça como ponto de partida
para o povoado, uma capela na frente com São João Batista e depois vieram
NSAparecida e São José, uma rua que vinha e a mesma que voltava, nem esqueceram
os bancos, plantaram jucás, jitiranas, jacaratiás, angelins-cocos,
louros-brancos, capebas-do-campo... deixaram as já naturais oiticicas,
paus-d’arco, imbuias, clúsias... transplantaram algumas pedronas para dar na
vista e colocar placa de político velhaco, deram o nome do poeta José de
Alencar, o povo de perto achou falta de mais bancos de praça, vieram os brinquedos,
vieram mais pedras com placa de bronze com nome de político manhoso, canguçu
subiu na tapuru, tribo tiriyó tocou despertou alertou vibrou cascavelou maracá,
sabiaúna se escondeu se sumiu se derreteu nos fundos do vinhático-testa-de-boi,
chegaram gentes das redondezas para as festas e carnavais e Andaraí e Baturité
e Júlio Mesquita e tribo dos amaribá... natural que começou a faltar espaço
para sentar, colocaram mais umas pedras para emplacar na sequência outros
políticos mentirosos... e mais o que se seguirá comum dos mortais...
O pai do Joel já cansado de jogar dominó
ou dama ou xadrez se ergueu se espreguiçou e disse que ia dar uma volta cinco seis
quarteirões daqui dali mais lá na praça Pereira Parobé:
- Vou e nem sei se volto hoje. Todo
caso, tchau! E passem bem!
Uns disseram que vinha chuva. Outros que
as árvores ficariam felizes de repente. Uns disseram que era pra ventania.
Outros que as árvores se escabelariam. Uns disseram que seria uma grande
tempestade de verão tipo extratropical. Outros que as imburanas e os mulungus e
as aitás se refugiariam na mata mais densa. Contaram até 10.
Cantava distraído ou chamando
companheira o pacífico araçaripoca. Chamando companheira e marcando território,
ora essa! O pacífico araçaripoca era galerista dono de galeria e comprava
adquiria vendia trocava e expunha obras de arte de pintores escultores
instaladores cariocas brasilienses nacionais gaúchos baianos e internacionais e
mais os migrados de Capistrano e Guarantã.
O sol olhou o mundo mais no finzinho das
19 e 49, cruzou os braços, fragmentos de ouro nos raios uv, e foi puxando as
cobertas das árvores os cobertores dos rios, menos do vento, dos cães e seus
donos, da palma-branca do camboatá da aroeira-de-bugre o cedro-batata a lebre o
milho no pendão o capitão-do-mato algumas tapucaiás...
A lua se sentou na cama enquanto
enxugava os cabelos na toalha verde felpuda entre os dedos dos pés, etc., por
ex. Chegou até a varanda para ver o rio Ipojuca. Foi até a cozinha preparou
sentou e comeu. Pensando comendo. Olhando sem ver. Escutando comendo. Parou de
mastigar e escutou. Estudando. Conferiu as horas, 20 e 10. Então, lua se
aprontou de roupa minguante.
- Você nem me diga que vai sair hoje, né?
21-cláusula, documento.
Os três irmãos Corticeira estavam
morando, como acontecia desde sempre, na casa com os pais mais a irmã dileta.
Todos ali e conforme juntos unidos conjurados. E o tempo ia passando todo
enrolado em barbante apertado com nó cego. E um deles irmãos dos três
obtemperou:
- A agente como a gente que sabia diligência.
Vocês sabiam, maromba e espeque?!
- A jogadora como a gente que entendia
pesquisa. Vocês entendiam, pindá e tuaiá?!
- A cantora como a gente que compreendia
investigação. Vocês compreendiam, tiborna e trela?!
Pois sempre que os três nas tardes
depois aí pelas 16h aparecendo da garagem marcado no relógio de pulso do mais
novo subiam para um lanche bem merecido. E em fila indiana do mais velho o do
meio o caçula tiravam o boné lavavam as mãos sentavam na mesa da cozinha cada
um na sua cadeira predileta e consumiam os doces de sempre os preferidos às
vezes os mesmos salgados feitos em casa pela mãe pela irmã ou comprados na
padaria A Briosa ali do bairro. Televisão ligada no canal dos jogos
Pan-Americanos Lima 2019 e as variadas competições de perder e ganhar.
- Com a devida licença de todos nós, mas
devíamos pensar em dar um pulo em Jataí ou Maués ou Xapuri, compreendem?!
- Com minha devida licença de nós todos,
mas acho melhor pensar em uma ilha tipo ilha Jacaré Xingu, ilha de Caratateua,
a famosa reserva Lago Piratuba, entendem?!
- Com a devida licença de todos nós, mas
carecemos melhor pensar em uns lugares diferentes diferenciados tipo Fortim e
Jardim de Angicos e Pedra Preta, na dúvida?!
O mais velho dos três, mais velho um ano
do segundo e dois anos do terceiro, começou a namorar a Ana Carolina - irmã do
meio de Ana Paula e Ana Emília e que são filhas de seu Bateira Gurinhém e dona
Ana Ricarda. Coisa que todos lá nas voltas sabiam e consentiam e até testemunhavam
com aplausos sorrisos e olhares longos preguiçosos ou nem.
Já no almoço, o primeiro almoço depois
desse detalhe e que já existia entre o mais velho Corticeira e a Ana Carolina,
este mais velho destravou, colocou:
- Olha, seu capiroto e fulano caruara! Estamos
de tocaia na Ana Carolina. Queremos ver só, hein, supimpa?!
- Olha, seu pocema e sicrano embiara!
Nós mesmos gostamos da escolha e recomendamos pressa nos festejos dos noivos.
Só queremos ver, tá ligado, demais?!
- Olha, seu zumba e beltrano boró. Embora
concordamos com tudo grau e gênero e número uma coisa é uma coisa e outras
coisas são mais variadas. Ver só queremos, hein, excelente?!
Todos conheciam, pela rua Limoeiro do
Ajuru e a outra rua da esquina conhecida como a Borges de Medeiros a tal e qual
tão galante Ana Carolina e nem havia
necessidade de maiores explicações e os porquês e coisas e mais ou menos. A
família os pais a irmã e os dois irmãos todos os Corticeira deram os parabéns.
Ele mais velho na frente agradeceu com um muito obrigado e louvor. O irmão do
meio lhe bateu o ombro como quem diz positivo, o irmão mais novo lhe tocou na
junção do ombro com o pescoço como quem concorda.
- Claro que sim! Esse tempo chegou pra
você chega pra nós chega pra todos os que faltam chegar, tamurupará!
- Pois que sim! Esse mapa chegou pra
você chega pra nós chega pra todos os que querem chegar, uirapuru!
- Óbvio que sim! Esse teste chegou pra
você chega pra nós chega pra todos os que procuram chegar, uru!
No sábado alegórico, todos diferentes e
os mesmos, os irmãos Corticeira atravessaram a rua e dobraram a esquina. Perto
do anoitecer. Se tivesse cinema iriam convidá-la para ir ao cinema. Mas uma
hora depois voltavam e se internavam na casa dos Corticeira mesmo. De repente
estavam os seis sete ali na sala frente da televisão, os Corticeira e a
convidada. Era uma tribo em extinção?
Os pais a irmã os irmãos gostaram muito
da Ana Carolina. Era vizinha e a primeira vez que os visitava oficialmente. Nome
bonito bonita. Era também uma guria de primeira ordem e progresso. Todos sabiam
que ela era fã e exímia plantadora cultivadora de pinhos-brancos e muruxis e
tucumãs entre outras espécies vegetais.
O mais velho e Ana Carolina raramente se
levantavam do sofá, bem próximos, assistiam o jogo de futebol mas sem muito
interesse alarde gestos tresloucados. Mais tarde aí o irmão do meio preparou um
chimarrão. O mais novo foi buscar um bolo especialmente que tinham lá na
geladeira. A irmã lia revista e olhava o celular de vez em quando e de repente
balançava a cabeça. Os pais bocejavam e ouviam os comentários paralelos
intermitentes, vários e variáveis.
- Oxente! Tem água é de osso nem cresce
muito no inverno pega na idade adulta uma cor mais avermelhada, seus
cururus-de-espiga!
- Oxente! No telhado nem voa mas dá uns
pulos longe estica o pescoço como ninguém na terra enterra as próprias fezes,
seus patauás!
- Oxente! Entende tudo mas nem fala come
somente talos hastes de capim-gengibre bebe muita água gosta como ninguém de
fruta do mato pinhão azedinha jabuticaba e outras, seus jacubas!
Quase todos os dias Ana Carolina
atravessava a rua para o lado dos Corticeira. Eles iam até a calçada,
assobiavam ou acenavam e ela se aprontava numa roupa de saída e vinha. Toda
radiante. Eles também muito cheios de esperança. E o mais velho namorava a Ana
Carolina. Falavam de tudo um pouco e raramente nem tinham o que dizer.
Assistiam tevê juntos todos quantos ali na sala e gostavam de futebol nas
quartas-feiras ou domingos ou sábados. Preferiam fazer churrasco no domingo de
manhã para comer no meio-dia com saladas verdes vermelhas amarelas cada cor uma
vitamina peculiar e oportuna e específica.
- O REM de Tracuateua, por exemplo. Eu
nem quis arriscar ir pro exército vai que eles mandam comer ave crua peixe cru e
beber o sangue lá no meio do mato e no inverno, nem qué?!
- O RB Atol das Rocas, por exemplo. Bem
exato como o lema de São Paulo nem sou conduzido mas conduzo, nem qué?!
- O parque João Coelho, por exemplo.
Seus nossos desejos dados termos ideias podem se transformar em negócios, nem
qué?!
Nos domingos nem perdiam um domingo para
fazer churrasco da melhor qualidade gaúcha a picanha. Todos os domingos claros
que podiam faziam um churrasco no quintal debaixo das frondosas breus-brancos,
bacabas-grandes, pajaús, mungubeiras... Tomavam caipirinhas que o do meio
preparava com limões feito em casa ali mesmo ao alcance da mão. O mais velho
cuidava do churrasco junto com o pai. O mais novo e Ana Carolina conversavam
sobre tudo e qualquer coisa que vinha à cabeça.
Ana Carolina era uma imagem de fêmea
padrão nacional. E ela era muito risonha e faceira e oferecida para fazer as
saladas coloridas preciosas. Depois iam todos para o principal que era o comer
e sem nenhuma razão dubitativa. Nem se lembravam que o mundo nem era só até
ali. Nem se alertavam que o mundo nem era bolinho frito.
Ficar namorando e noivar foram mas foi nem
como coisa.
21-madrigal, musicado.
O parente de Gaudêncio, e Gaudêncio era,
(corria entre os anos de 1864 a 1870) foi pego com outros tantos quilombolas - calcule.
Recebeu muito pontapé e pancada na cabeça e nas costas na barriga até chegar na
fazenda Torunguenga. Em seguida as chicotadas em números redondos de 12 nas
costas, pra nem estragar muito. Foi queimado com a letra F maiúscula na testa.
Depois de preso e bem vigiado e um mês e
meio de engorda, rumaram a maioria para o garimpo Caritiana nos arredores de
Diamantina, de Águas de Santa Bárbara, de Angélica, de Arcoverde... e assim por
diante. Chegaram numa tarde de verão que o sol quebrava estralava tudo.
Chuva e sol e o trabalho nem parava. Era
peneirar cascalho de manhã até a noite, e entrar nas galerias fisgas frestas
rachaduras fendas frinchas. A semana tinha sete dias e o mês trinta dias às
vezes trinta e um. Homens armados e doidos cuidavam que ninguém parasse ou
engolisse pedra. Chicote três tentos numa mão e bacamarte na outra debaixo do
braço. Dormir nas esteiras de carnaúba sob um telhado de sapê.
Os negros pegos com uma pedra eram
açoitados com trinta açoites nas costas, ou torturados, ou amarrados a pão e
água. Poucos ou raros queriam correr esse risco. E quando preguiçosos cansados
doentes também podiam apanhar. E apanhavam por qualquer motivo para dar o
exemplo, os bonecos fantoches ponifrates títeres.
Gaudêncio tinha folga quando chovia
muito e as galerias ficavam inundadas impossíveis de trabalhar. E lhe davam menos
de comer porque nem produzia. Tinha que pagar ao patrão para dormir com uma mulher
negra, e só de vez em quando.
No fim de sete meses o garimpo faliu e
Gaudêncio foi negociado para um fazendeiro produtor de leite de vaca. A fazenda
para os lados de Sabará, de Descanso, de Caputira, de Buíque e pana do Catimbau.
Um lugarzão cheio de montanhas como a região toda por ali e bonito
intermitentemente.
Então, na fazenda Juçana o robusto
Gaudêncio nem sabia fazer nada e aprendeu a ser pau-pra-toda-obra. Morou junto
com uma jovem negra muito mais nova de uns dezesseis anos tenra idade e pediram
que tivessem filhos moleques o quanto antes o quanto podiam.
No fim do mesmo ano, se descobriu ouro
para os lados de Goiás, Moiporá, Altos, Araguanã, Vila Pavão e o fazendeiro
quis tentar a sorte de garimpeiro.
Gaudêncio foi para o garimpo Juquiá com
o dono. Ele Gaudêncio e companhia limitada. Tentar a sorte de 8 a 80.
E Gaudêncio se viu novamente naquela
vida horrível de garimpar dez ou doze horas por dia, sol e chuva, no escuro dos
veios subterrâneos, todos os dias da semana todas as semanas do mês. Todos os
dias com os pés na água e no barro, peneirando cascalho. Explorando pedras
dentro das minas e cafuas cavernas furnas locas itaocas covas e túneis galerias.
E se passaram algumas histórias sem
dúvida. Histórias tortas ou retas, bem verdade, mas histórias contadas em prosa
e verso. Histórias que fizeram em derredor dos anos. Quando muito sem fim.
21-oftalmologia, oculística.
Bem mais parecida Ana Ricarda e vestida,
se veste de branco, assim como fazem os monges as monjas, uma túnica até os pés
descalços, isenta. Um mato em volta perto se faz de
acácias-de-flores-vermelhas, angicos-cedros, ingás-açus, saguarajis,
quinas-do-rio-negro... verdura como das florestas.
- Pessoas no mesmo mundo do mesmo dia
acordam de dois sexos. E eu também. Nasci em Iraquara.
“Casebrinhos de duas bandas de água e
tudo de palha de carnaúba algumas tanajuras-manteigas muitas umas atrás das
outras.
“Meus gestos são lentos, então, nem
tenho pressa para nada, digo pausado, nem tenho forças para nada, penso o que
quero e o muito antes de qualquer coisa.
“Eu nem escuto música, nem assisto tevê,
nem consulto internet ou jornal e livros. Só leio livros dos monges de Brasília
ou do Recife pensando olhar as pedras dos mosteiros da Índia ou de Tiradentes
ou do Nepal ou em a Pedra da Fortaleza de Nova Venécia.
“Outros dias, dias quentes de verão, eu
ando nua pela casa. Sozinha em casa corredores cômodos quartos de banho.
Raramente preciso ir à padaria e confeitaria da rua Tomás Antônio Gonzaga. Nas
poucas vezes nem passo do armazém Juciri na esquina onde vou comprar açaí e
guaraná em pó.
“Vou pedir para um cãozinho de rua morar
comigo. Nem se sabe o que ele ouve ou deixa de dizer, que o cão nem entende ou
nem aceita, mas o cão prefere e aceita o namoro. E que gosta de humanos
responsáveis.
“Eu gosto dos legumes que planto aqui na
minha própria horta, as verduras que cultivo no quintal, as frutas da estação,
as árvores de iauácano.
“Tiro uma hora ou mais para plantar uma
mudinha de pau-cetim. Já viu? Que eu estudei idioma em Águia Branca.
“Cuido de um casal de beija-flores e
dialogo com eles. Dou-lhes água com açúcar numa garrafa de plástico pendurada
na goiabeira-do-mato ali na área. Chamo toda manhã os aladinhos dorminhocos e
eles vêm esvoaçar em roda dos meus cabelos e dos meus olhos dos meus ouvidos que
me deixam excitada e risonha para o resto do dia. Seja chuva ou sol. Seja
domingo ou segunda-feira. Seja na véspera ou antevéspera.
“Oigalê! Todas as manhãs eu planto pose
de lótus na sala envidraçada olhando para o quintal de plantas frutíferas
povoadas de passarinhos jubacangas, tico-ticos, coleirinhas,
soldados-do-nordeste... Sendo que cresci na cidade toda de Sertânea. Respiro
fundo e suspiro fundo e penso leve rápido rasteiro em nada vezes nada.
“São Paulo é um lugar dentro do mundo.
Jacobina é lugar do mundo. A estação ecológica Tripuí faz parte do contexto. Um
aprendizado na aldeia dos laiana. Nova Prata também é. Os peixes apaiaris nadam
como os outros e com olhos abertos. E assim para os tempos futuros.
21-genealogia, laia.
Meteórica encadeada Ana Ricarda era tão
leve que flutuava para cima e para baixo qual balão de gás novo, era assim
mesmo e agradava. Nada muito a ver com realidade. Toda comportada entendida
ambas. Batia palmas quando se sentia alegre.
Olhos de esmeralda lapidada e cabelos de
douradinho-do-campo.
Mas todos estavam vendo, e o sol de fogo
e por isso mesmo perfeito, independente.
Morava nem definitivo, parava por
enquanto na rua Vitória do Xingu, esquina com Gonçalves Dias, frente à praça
Kaapor.
Olhou para o matinho ali perto e ouviu
bugios urrando de vez em quando e assustando o mato, silenciando os
tucanos-de-bico-preto, as galhas-azuis, os quero-queros, os bem-te-vis-do-mato,
as pombas-carijós...
- Macacos barbudos por aqui perto,
hein?! e macaquices.
Depois da chuva os sapos-ferreiros e as
jias saltavam coaxando no fundo dos brejos e por dentro dos aguapés e gravatás
e cordões-de-são-francisco... Antes da chuva tinha sapo que sabia chamar chuva
e chamava, etc., por ex.
Os dias e até as noites eram ótimas.
Porém muito isolado de tudo.
Dia sim outro talvez nem, chovia uma
pancada que lavava o céu azul, o verde e corriam riachos para os rios.
Uma parte dos riachos corria para o
Sabia, outros para o Prata, outros ainda para o Retiro ou o Turvo.
O vento, dia sim outro nem, voava
sacudindo e limpando e espanando o verde como um todo da paisagem, capebas-do-norte,
açaí-chumbo, aninga-de-macaco, ervas-da-vida, couves-do-mato...
O rio a chamava ou empurrava ou puxava a
escolhia. As nuvens bipolares passando de ultraleves assim mesmo no espaço
entre os azuis e o dourado da tarde. Despedida de água de rio o rio dos Sinos.
21-concitar, persuadir.
A filha de Aline era uma pessoa capital
federal. Seu olhar dizia tudo: independência. Lojas de beleza reverência
limpeza iluminação comercial nome da loja Bichará Zambê. Ela nem sabia a
história toda do lugar, pra falar sério.
Então esperou na rodoviária de Lajeado
que Letícia chegasse e Letícia chegou comendo redondas bolachinhas salgadas
achocolatadas e ofereceu:
- Hum?!...
- Tá enjoada que tá comendo bolachinha
salgada, hein, tchê?!
- Axi! Tô é chateada e passada de sono.
- Fique fria.
Letícia louvável saudável, muito massa!
Colocava a bolachinha na boca previamente e naturalmente umedecida. Pressionava
e a bolacha esfarinhava. Um gole quase gelado de água mineral sem gás engarrafada
em Francisco Beltrão. Mastigava com cuidado e com cuidado se fosse falar para
nem cuspir farelos. Engolindo empurrando a farinha adocicada junto com a água
fazendo escorregar via esôfago etc para o estômago. E isso tudo lhe dava
energia e após digerir.
Daí foram para Estrela, total: sítio
Imbaúba.
Foram na moto que a filha de Aline tinha
comprado com o dinheiro dela ganho honestamente com suor e tudo. Mochilas às
costas. Uma moto dessas que levantam poeira e brita alta assim do chão de terra
batida vermelha.
Começou a chover, choveu e parou de
chover. E depois os sapos que coaxaram. Que coaxem!
A filha de Aline resolveu comprar um
cacto e plantar perto da casa, perto da rua, a ruazinha do lado rua Capepena. E
foram, ela mesma com Letícia, pedir emprestado uma pá ao vizinho da direita,
seu Cari Cabinda. O ambiente, hein?!, de japiins e canjicas e taperuçus... canções
pios ritmos cantando cantar gorjeios.
E tinham de cavar alguns centímetros na
terra fofa mas nem tinham forças suficientes. Então, foram emprestar uma enxada
ao seu Cari Cabinda. Este sorriu porque emprestar ferramentas para as minas era
muito bom. Vestia camisa de botão branca, bombacha azul da estação, chinelas de
couro cru fechadas na frente, chapéu de palha com barbicacho. E elas se
mostraram simpáticas. E ele gostou do jeito delas, um jeito desimpedido,
esportivo, trilateral. Ele gostava desse tal jeito e que principalmente era
emprestado espontaneamente simples às gurias.
As duas, assim mesmo, conseguiram abrir
a cova na terra preta e humosa escavar. Na verdade, o cacto era um xiquexique
ou outra espécie parente próximo, um maganão. Difícil precisar, assim de
súbito.
- Tem que vê se nem bate
formiga-de-fogo, né!
- Fique tranquila e sorrindo.
Plantaram e ficaram contentes. Depois se
lembraram de olhar. Após, olharam de mais longe um pouquinho, mais longe ainda,
foram até a rua ver de longinho. E de todos os ângulos, acocoradas, em pé, de
esguelha, por cima do ombro.
Talvez nem fosse um xiquexique. Talvez
um mandacaru. Quem sabe um exegeta.
A manhã chovia por preguiça, mas já
previa um dia de muito sol. Sol quente exatamente. O sol exatamente quente.
Ficava falando sozinho. Sol forte de dia e frio estelar na noite. A abóbada
celeste.
Uma e outra cada uma na sua vez as duas
ao mesmo tempo e em uníssono nem sabiam a história toda do mundo. Olhe pra
gente de Ecoporanga, olhe os de Tupanatinga! Depois compare os ditados e
máximas e aforismos!
Elas ficaram pensando nem tinham nada
para pensar e se abraçaram com melhores intenções como melhores amigas, total:
efusão.
21-cosmografia, descrição.
As perguntas de Paulo:
- O que quer saber agora e antes das 11h?
- Então, que patriotadas há e que quer
dizer com isso?
- Quer por que quer saber de uma coisa e
outra?
- Nem mesmo isso é sua vontade de ir à
praia de Sepetiba?
- Minha tarde, por que falar assim tão
ensolarada inefável gotejada?
- E se nem houver mais nada depois ou
antes ou na hora ou na volta?
- Como é a labuta de um botânico funcionário
no Jardim Botânico de Porto Alegre de terça a sexta?
21-demagogo, dinastia.
Com as palavras de Aline: esplanada, plataforma,
enfaro, Junqueira, modorra, empertigar, hausto, voluta, dindinha, capelo.
21-tanoeiro, pipa.
Gaudêncio tinha o quê... uns 15 ou 16
anos maltrapilhos desiguais esfarrapados. Convivia na estância Paxiúba, pros
lados de Bagé e Alegrete e Caibaté, hoje Santana do Livramento pouco pra cá de
Santa Maria, entre Dilermando de Aguiar e Formigueiro. Campos grandes de
coxilhas a perder de vista e fazer do horizonte um risco distante quem sabe
ondulado plantado de macegas gencianas-brasileiras flechinhas
caparrosas-silvestres quinas-vermelhas... Onde as gentes campeiras ainda se
esfalfam nas tantas invernadas potreadas gauchadas, e várias lidas do pampa.
A estância Paxiúba vivia do gado vacum
para fazer charque, do gado ovino para fazer pelegos, do gado equino para fazer
corrida de cancha reta e revoluções de lança e espada de boleadeiras. Nem se
plantava nada porque a ideia era cuidar do gado, coisa de guasca, coisa de
gaudério.
Quanto tempo tinha dormido? A tudo isso
e aquilo se misturavam um certo esboço rascunho um sorriso de criatura um nome
de guria e enredo, situações, caracteres, frases, temas.
De manhã o negrinho levantava com os
galos cantando, os passarinhos algazarrando, os quero-queros em alarme pelos
banhados, antes do sol nascer atrás do cerrote favorito, o cerrote do Cará, os
bugios roncando, etc., por ex. E ele bebia um leite quentinho e puro e
espumante ainda direto da vaca malhada. Corria para a cozinha esperar que o
patrão acordasse. Ali na cozinha ficava junto com as negras velhas, incomodando
as cozinheiras e faxineiras até o patrão dar o ar da sua graça. Até podia,
dependendo do humor das mulheres velhas, filar um café com bolachas, um
chimarrão com cuca.
Quando, ali pelas que horas do sol já no
caminho do dia, o patrão seu Guiraponga o chamava o Gaudêncio corria atender.
Ajudava o patrão velho a vestir as botas de cano alto, alcançar isso e aquilo,
alcançava o chapéu, a açoiteira, o pala (quando caso de frio ou chuva), e assim
por diante.
De repente que o patrão precisava, então,
Gaudêncio seguia junto para o campo, preparava o chimarrão, ficava espreitando
e depois seguiam para a lida do gado campo afora. Jovem Gaudêncio cada vez
melhor e sempre atento enérgico diligente responsável e corajoso. Mesmo montado
conseguia pegar o chapéu caído no chão.
Quando o patrão - honra altivez
competência cordialidade - nem precisava dele saindo para o potreiro para o
pasto, Gaudêncio ajudava as empregadas da cozinha, cortando lenha, apanhando
uma e outra abóbora no quintal ou no paiol ou na horta, fazendo fogo para o
pão, e outras coisas mais. As cozinheiras brigavam muito com ele e nem sempre o
queriam por perto. Ali ele subia numa árvore, num pé de umbu, ou num pé de
goiaba-do-mato, araticum, guabiju, azedinha, pitanga (na época das frutas) e
ficava por lá por cima escondido e arteiro e sem dar as caras até sentir fome e
sede e vontade de falar.
De tardinha o padrão viúvo o chamava e
ele saía correndo de onde estava - geralmente atrás da porta para nem demorar
de atender o patrão e nem levar cascudos - e atendia no que era preciso. O mais
das vezes era ajudar a descalçar as botas pretas cheias de lama e esterco de
vaca. Colocava as chinelas de couro cru ao alcance dos pés. Já cevada a erva na
cuia e prontos todos os apetrechos do chimarrão. Levava as botas do patrão para
um canto da varanda e lavava e cuidava e engraxava, deixando os pisantes
prontos para o dia seguinte. Era o que tinha que fazer. Era o seu trabalho de
sol a sol.
Gaudêncio se assustou com a lua nova
prato bonita. Nem era por menos. E uma alegria fervilhante uma euforia efervescente
um entusiasmo pululante. Ora!, a lua sentiu começou saudades de si mesma, subiu,
e pulou da pinha-do-brejo bem copada, ainda bem! e ali pelas 19h. O satélite
subiu com voracidade e viu que o mundo era perto.
Mais de noite, depois de ouvir as funções
dos negros no batuque na dança, ou fazendo parte (que ele piazinho já tocava
atabaque), Gaudêncio se recolhia ao paiol, na parte de cima sobre um jirau,
para dormir no meio das tralhas e apetrechos de arreios enrolado num cobertor
velho e rasgado. Antes do sopro na lamparina ele olhava interessado curioso
para a pequena estátua da Santa Bárbara e imaginava. E a santa tinha nos olhos
no gestual as bondades piedades simpatias e coroa de rainha do céu noturno na
cabeça envolvida nos cabelos lindos encaracolados...
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