sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Aline de irrefragável (romance) - capítulo 22




Os irmãos três Corticeira foram ver chapéus de carnaúba o pega das motos no aterro do Catumbi. Lá pras bandas do bairro Retiro ou bairro Três Mártires divisa de ambos os dois, onde antes era um potreiro com árvores e pinheiros araucária, bonito lugar, rua Carnapijó, agora plantação de milho arroz mandioca roças lugar rural e calmo e simpático e aprazível pouco pasto carrascal coroboca algum matinho ralo, etc., por ex. urariranas, pataqueiras, faias, cambarás, cedros-brancos... e o que sobrou de outros capoeirões.
Uns enfeites de bandeirinhas de papel coloridas leves alguma barraca vendendo cocada branca e preta cartuchos de amendoim torrado doce de abóbora bebidas suco de coquinho da macaúba gravação do canto encantador do joão-teneném mel natural de abelha benjoim chapéus de palha trançada do buriti-bravo mudinhas de cumaru-amarelo e ariá e solidônia e ajudar a preservar antes que acabe. Mais ainda no ar o som pesado dos motores os cheiros de terra vermelha o alarido das vaias e vivas e sustos e ooohs!...
- Já fomos mãos-de-onça um belo e distante dia, é. Quer mais?! Esta é primeira e única e última vez chance de ver por aqui.
- Também acho que já descemos distantes dias em forma de cupuaís, é. Quer melhor?! E quantas coisas acontecem no mundo em voltas e revoltas de se ver por aqui.
- Confirmo que já nascemos sabendo tanto quanto os bálsamos-de-são-tomé, é. Quer ainda?! É o rio quem dá a sorte sorteia e vice-versa de por aqui ver.
Passavam as horas das 11h e a manhã as motos saltavam pulavam selvagens a toda sob o sol. Era mesmo difícil nem prestar atenção nas gurias de macacão nas gurias de Barcarena nas de Altamira e as de Balsa Nova e ou de Mandirituba ainda Passo de Torres...
Os três manos, hein?!, um nem comia outro nem bebia ainda o que nem dormia. Eles olhavam admiravam tudo cuidavam conferiam todas. Optavam pelo caodaísmo assim, já dizendo:
- Num mundo de pica-paus-de-cabeça-vermelha e carandás nem dialogo a língua destas motos de beribás, sossego.
- Num globo de uirapaçus e umiris ninguém diz o que os tetéus sair embora, calmaria.
- Num planeta de caraxués e coroas-de-frade nada olha e escuta a ilha Cotijuba, modorrar.
O irmão final de fila disse, apontando com o dedo mindinho, o dedo mínimo, e muita categoria, os outros dois irmãos olharam o que o outro apontou:
- Aquela moto amarela parece ser a melhor, digo eu. Lembram da aventura em rio Una e ou cascata do Piraí, uma vez?!
- Essas motocas andam uma barbaridade de contentes, digo eu. Lembram da ocasião em Bragança e ou Quatipuru, falei?!
- Tais e quais motocicletas são envenenadas e detonam potência, digo eu. Lembram os acontecimentos do parque do Rio Preto e ou a aldeia dos caripuna-do-amapá, então?!
Três meninas da mesma altura parelhas tão galantes passaram e, uma sim e outras nem tanto, olhou para os três. Vai saber! Eram anônimas porque eles nem sabiam que elas eram e de que parte do planeta se daí mesmo ou de Vila Flores, João Câmara, Poconé, Nossa Senhora do Livramento...
- A moça aí chega muito a enfeitar até um jardim entre caraxas, amores-crescidos, tapurus...
- A garota ali chega muito desperta bem algo diferente e bom como entre flores-de-carnaval, aiapanas, perinãs...
- A guria de cá chega muito é uma situação que estou olhando e absolutamente e totalmente como entre maçarandubas, cipoabas, cascas-preciosas...
Então, o primeiro dos irmãos nem deu bola nenhuma, ou fingiu nem se interessar, mas achou que a tal tinha olhado pra ele, é claro. O do meio achou pra ele, inclusive. O último achou e se convenceu que fora com ele, de certo. O do meio acabou rindo de outra coisa, mas disse, suspirando e contando um semifavor:
- Nossa Senhora de Aparecida! Dela o sorriso de dentes que brilham tanto, uma anavinga legítima!
- Nossa Senhora do Rosário! Dela os olhos olhar esmeraldas com respectivas estrelas conforme, uma cujumarirana natural!
- Nossa Senhora da Conceição! Dela os peitinhos empinados o corpinho estreito elegante na minha altura, uma arruda-do-mato odisseia!
As motos estavam brabas mesmo estalando bravas. As matracas eram ligeiras. Berravam na subida dos morrinhos que só vendo. Um barranco impiedoso de terra vermelha que a chuva quando chovia muito abria grotões costelas valões. E as motos também despencavam numa velocidade e morrinhos abaixo. Parecia um desespero de motores, e de motoqueiros, ambos nervosos. Tudo um festival e um programa de otários, na verdade.
- Acho que a máquina azul já leva essa e está tudo no papo, seus guapuruvus mais caqueras!
- Por mim a matéria amarela com lista branca já vai na frente e disparado, seus cipoíras e buiuçus!
- Digo sem papas na língua que a vermelha com traços pretos e azuis dá uns 50 metros de luz e olha lá, seus taperebás com sapotaias!
22-grande mar redondo, Paranaguá.
Com as palavras de Aline: afagasse, estrupido, pachorra, adido, amanuense, dondoca, melíflua, carboidrato, portador, antífona.
22-namorada do Paraná, Matinhos.
O pai do Joel esfregou as mãos calosas e se orientou por um poste de ferro ali presente pelo centro da praça Castro Alves. As três lâmpadas do poste ainda estavam acesas por causa da neblina. Logo logo dia 6 às 6h e 6min o sol sairia da toca de nuvens baixas e racharia a terra o asfalto, desenvolvido.
Amanheceu neblinado que mal dava para ver onde caminhar, seis quilômetros de vento vindo do sul, umidade noventa e oito por cento, quase treze graus centígrados, segunda-feira de março sexagésimo sexto dia do mesmo ano na serra Gaúcha pros lados de São Jorge perto de André da Rocha e Nova Araçá quiçá Porto Amazonas.
Passou uma donzela loura que liberava, para quem quisesse sentir, todos os princípios ativos da natureza feminina humana. Era bela pelo andar, pelo mexer dos braços, pelos cabelos encaracolados, pela bolsa a tiracolo, por nem olhar ninguém e só prestar atenção nos pés na calçada por onde desfilava. Ia para o trabalho e ainda dentro do horário, rebolando.
Esse dia qualquer coisa, os ruídos óbvios da cidade, o joão-de-barro se levantou abriu a persiana e olhou tudo por tudo do sexto andar dos galhos da guariroba. Daí voou para o banhado tomar o banho da manhã e quem sabe chulear um café para o causo.
O tempo passava no estrídulo das cigarras sempre, dos sabiás-laranjeira vez que vez, e das andorinhas em desenhos animados. Casal de tchintchorrintchos esquivos abrindo os raios do sol ariscos as cores da paisagem chilreantes sentando de ramo em ramo pela frondosa maçaranduba-vermelha. E nem outra anomalia. Os almeirões-da-terra emergindo da terra preta, favelas-brancas abanando o tempo entre pedras na subida dos morros na descida das coxilhas e ao redor vistas da rua 6 de Março ao pé da praça Castro Alves.
22-litoral do Paraná, Pontal do Paraná.
Frases sentenças de Pedro:
- Eu vi: ela se levantou abriu a cortina olhou o oceano, mar feliz, e deitou novamente e sonhando.
- O carro bege passou chispando tocando samba o motorista de braço com a jovem rodearam a praça da Bandeira chuva-de-caju chovendo, e admirando ninguém acredita. 
- E Carimã aproveitou que estava diante da Santa Aparecida e dobrou as curvas.
- Quero ficar no camuflado até chegar a noite.
- Lábios imodestos que brilham em qualquer luz do dia novembro em Fazenda Rio Grande.
22-lugar querido, Alagoinhas.
Pois o Gaudêncio, negro velho dos seus oitenta e um anos - onde peleava?, a que se referia?, pra donde se pinchava?, e pra quê? - pitava seu cachimbo de madeira, voz rouca e pesada, contava seus causos, coisas passadas das suas aventuras e caminhadas, emboscadas, sempre racontos narrativas relatos.
Outros tempos, outra religião, outros recomeços, outro mundo, tudo outro lugar. Em algum lugar. Para onde iam todas as perguntas sem respostas deste mundo?
Parado ali na estância do Visgueiro, favorecido de favor pelos serviços prestados ou ainda nem bem pagos, negro bom, negro da casa, pai de dezoito filhos já grandes e que já se espalharam pelo mundo, etc. A mulher já falecida de cinco anos atrás, nunca esquecida, quanto mais falecida mais lembrada. E ele morava ali na sua casinha feita de sobras costaneiras tijolos pedras, já antiga e meio que caindo de um lado, coberta de sapê ou santa-fé. Gostava de tomar o amargo no galpão com os peões e ouvir e contar e rir os causos do dia a dia, carreiras de cancha reta, saindo a noite no fim da tarde.
Perto dos anoiteceres, ou quando chovia muito, e a peonada ficava ao redor do fogo de chão, o velho Gaudêncio se arrastava até ali, a bengala toque! toque!... o guaipeca Ticuna sempre nos pés. Então, o velho negro alforriado, se sentava no cepo, olhava para os lados com seus olhos amortecidos e cansados, puxava o canivete para falquejar um pedaço de galho, ouvia, contava, o ouvido e a imaginação ainda muito grandes, assim.
Naquela noite de quinta-feira, umas oito horas se tanto, o velho deu uma gargalhada do causo do capataz e foi arrumando a garganta para dizer uma sua própria aventura passada e verídica e acontecida. Arrumou a garganta e roncou o urucungo:
- Uma vez no meu tempo de rapaz moço, por tais e quais anos passados e muito bem, os pica-paus e os maragatos já que brigavam muito por esses campos serras e coxilhas do império do pampa. Bons tempos maus tempos e tempos mais ou menos aí se foram, é!
“As tropas de ambos os lados andavam girando voltas e mais voltas, recorrendo campos e mundos, céus afora e bastidores. Matas de galeria ou matas ciliares, cachoeira do Telésforo.
“Aí, a gente se viu frente a frente com os maragatos, tchê. Eles uns quinhentos e nós perto de cinquenta. O nosso sargento Anacê Bacuém, de nome, bradou com aquela voz grossa de cachorro grande e doido:
- Quem for gaúcho que peleie!
“Bem alto ele falou e todos nós ouvimos muito bem e teve gente que se arrepiou e gritou e uivou de ódio. Daí pra diante todos conferiram seus trens de guerra e outros instrumentos. Os cavalos chegaram a se erguer nas patas, doidos pra uma corrida uma atropelada uma escaramuça um conflito um atrito.
“Então, nós deste lado do banhado e eles da outra banda oriental. Eles num total de 600, nós mais ou menos uns 40 no máximo 50 e já contando os canhotos.
“O nosso sargento Anacê fez o que tinha de fazer e fez o sinal e nós fomos entrando no banhado, ao encontro do inimigo adversário opositor. O negócio ia ser na unha ou no facão, possivelmente. Do outro lado os 700 maragatos com muita raiva de nós. A gente tava com sede de maragato que só vendo de perto e no dia e hora e tal e qual. Os cavalos já afundavam até as canelas no barro preto entre os gravatás no meio das baunilhas-falsas.
“Foi aí que o sol caiu e descambou e a noite veio e cobriu todo o mundo. Eu mesmo, para aproveitar melhor minha cor camuflagem, me despi todo e comecei a lutar. E a matar tudo que se mexia na minha frente, etc., por ex. Eu era jovem e tinha o diabo no corpo. Era a oportunidade.
“Ninguém me viu e ninguém me via. E eu fui derrubando todos os maragatos que se moviam. Quando olhei a lua subindo, e a lua me viu, praticamente os inimigos estavam todos estirados e mortos no chão no encharcado ou fugidos. E pra mais de 800 somando os pés de cada sujeito e dividindo por dois. Tive ajuda dos companheiros de batalha para desobstruir o caminho.
“O mal foi que perdi meu isqueiro de osso de guampa enfeitado de prata, um presente que ganhei pessoalmente do seu Júlio de Castilhos. Mas também arrumei umas botas seminovas, uma espingarda boa, 2 cavalos puro sangue árabe, muita munição, 50 moedas de prata com o imperador sorrindo na capa da gaita, e outros modismos.”
E Gaudêncio cuspiu de lado, cigarro aceso no canto da boca, causo contado. Ali, pronto o mundo, no galpão da estância do Visgueiro, nem a lua ainda subira no céu. Muito simples. E o negro velho riu como um cabrito velho e feliz. Do seu feitio que sempre analisa descreve interpreta denuncia acusa defende engrandece profetiza aprende e volta a pensar.
A calma do vento calmo passando sem vuuu!... brisa, a calma das impressões.
Aí, o velho Gaudêncio pegou um novo palheiro da orelha, passou a língua na palha, enrolou nos dedos, apertou olhou cheirou apertou nos beiços e acendeu. Deu a primeira fumaçada e tossiu. Depois recomeçou, voz pesada de velho, reiniciou a narrativa, se pinchou:
- Aquela outra feita e desfeita, eram épocas de seca braba pra mais de seis meses, aconteceu que roubaram a menina Nita, Nitinha, Anita, filha tenra de 14 anos do antigo capataz aqui da estância do Visgueiro. Mas o quê!
“O patrão, o falecido Ambrósio Alves Calhandra, avô desse nosso Antônio Miranha Calhandra, resolveu que nós os peões devíamos ir atrás dos fugidos. Sim, o cujo que roubara a menina Nita só podia ter sido o andarilho de alcunha Garrafão. O velho e já falecido patrão, avô desse nosso patrão de hoje o seu Antônio, berrou com todos os cuspes e ditos:
- Vão atrás dos dois e me tragam aqui os dois nem que seja de amarrados e arrastados!
“E nós pegamos e fomos. Eu o pai da menina, o capataz Chicão, e mais um índio velho que a gente chamava de Pontealta, sujeito alentado verticalmente de uns 2,10m.
“Logo na manhã pelas sete horas do dia seguinte à fuga dos dois namorados, fomos no rasto, fomos nas pegadas, fomos nos calcanhares. Eles rumavam para o sul, talvez ilha Grande, talvez parque Biribiri, Maracaí ou Lutécia, longe pras terras quiçá de um tal de Pedro Xisto e qual que era o pé da cobra pois que nem dava para cravar um roteiro dos mais garantidos, pampeadas. E nós atrás como cães farejadores paqueiros. O meu já falecido guaipeca Ticuna ia junto todo contente. Quando convidava para sair de casa ele ficava alvoroçado e latia até sem obrigação. Parecia uma criança.
“E já pelo meio-dia ficamos descobrindo que eles iam mesmo para o sul montados num cavalo lobuno, a Nitinha na garupa. O pobre cavalo ia pesado e marcando muito fundo o chão. Eram eles e já na altura da usina hidroelétrica da Serra do Facão, banda da região dos índios mura.
“Andamos meio no trotezito e tal. As horas nem passavam e passavam sem a gente ver ou querer. Os quero-queros davam rasantes na cabeça da gente fazendo que a gente perdesse o chapéu. Fomos em frente, demos voltas aos banhados, varamos matos, saímos nos boqueirões, subimos e descemos serras, alcançamos Barreiras do Piauí pernoitamos em Piracuruca passamos rapidamente por Candeias ao largo de Camacho furamos o parque das Sempre-Vivas.
“Lá pelas sete horas começou a escurecer e anoiteceu de repente. Nessa altura chegamos perto de um capão e perdemos o rasto do cavalo montaria dos dois fugitivos. Paramos ali, fazer o quê. Mas eles deviam estar por perto. Quem sabe ali por ali mesmo no capão de mato. E se estavam ali no matinho nós já sem demora os capturaríamos. A menina quem sabe já desiludida e querendo voltar. E falei para a turma:
- Vamos nos dividi que acho que eles estão nesse mato mesmo.
“Eu larguei meu tordilho e fui espreitar o chão cheirando o ar tentando ouvir tudo que acontecia em volta num raio de trezentos metros. Meu guaipeca Ticuna me ajudava um pouco, muito cansado que andara todas essas léguas quase sempre a pé.
“Fui me colocando no mato, bem de vagar e lento e espreitando. Fiz psiu!... para o cusquinho. Eu parecia um bicho do mato de tão quieto. Tirei a roupa toda e me camuflei na escuridão. Eu estava armado só da minha adaga, nos dentes. A espingarda comprada recém ficou nos arreios do cavalo. O mato era espesso e coçava o couro.
“Do fundo de uma grota ouvi um resmungo, uma pedra rolada e mais ou menos nem sei bem o quê. Tinha que interpretar.
“A noite estava bonita cheia de estrelas e a lua ia demorar mais um pouquinho. Meus olhos de morcego já se acostumavam com a escuridão. Eu notava tudo sem ser notado. Eu me mexia bem menos que uma plantinha de coxa-de-frango sem vento e no escuro.
“De súbito eu vi duas brasas pular sobre mim e rolamos engalfinhados no meio das pedras e tocos e malvaíscos-de-pernambuco, pelo cheiro. Levando em conta as garras parecia uma onça-parda das brabas. E sem pensar muito eu soltei a adaga dos dentes e cravei no coração da medonha. Ela só desinchou e foi desinchando e correu que eu vi para um buraco uma cafua. Se entocou e nem pulou mais e gemia que eu ainda ouvia. O bicho estava acuado e pronto para morrer. Do meu lado o Ticuna de boca fechada e cauda apreensiva. Dei ordem pra falar e ele latiu muito brabo e vingativo.
“Foi bem mais que isso. Eu mesmo engoli em seco toda a minha surpresa, me enchi de outra dose de coragem e entrei na caverna. Lá no escuro eu peguei a braba pela cauda e a arrastei para o clarão da lua que já subia no céu esse tal também pingado de estrelas maravilhosas incontáveis e uma após outras.
“Nisso eu assobiei e vieram meu cachorro Ticuna e tantos camaradas. No que tiramos a pele da onça-parda nem é que tivemos a maior surpresa de todos os tempos da minha vida! A onça-parda tinha engolido a mocinha Anita! E melhor! A mocinha ainda estava viva e respirando! Bastou um tapinha no rosto e ela abriu os olhos olhou em volta reconheceu todos nós e ainda disse, olhando para o capataz seu Chicão:
- Oh, meu pai! Me acode!
“Uma coisa surpreendente, então. E a onça-parda morreu, mas a mocinha Anita se salvou porque nós a salvamos. A onça-pintada ficou sabendo do feito por transição e acontecido com ela mesma, coisas acontecidas verossímeis, e foi morar lá pro céu das onças que até mesmo as feras têm esse direito.”
O velho Gaudêncio riu aquela risadinha, ah ah ah!... bem típica de água caindo nas pedras do alto, olhou para o fogo de chão, pegou a cuia e foi mateando. Do fim ao começo sempre que ele atinge adivinha contempla tira desvenda.
Pois o antigo Gaudêncio tirou o chapéu de palha da cabeça branca e arrepiada, deu o chapéu de palha gasto nas abas ao joelho direito, na outra perna apoiou a mão espalmada, a outra mão segurou a cuia e apoiou o cotovelo na coxa.
Então, aí, disse foi dizendo com voz gorda e cansada e desmedida:
- A gente vinha pelo campo, subindo e descendo os morrinhos cheios de pedra escura, cruzando invernadas no mais, pulando taipas de pedras, incomodando os anambés-azuis, eu o meu guaipeca Ticuna e mais dois índios camaradas compadres. Uns capões umas coxilhas verdes mas também montanhas aglomerados rochosos grandes estranhos fortes tipos de bichos gigantescos. Era perto do natal e queríamos chegar na estância aqui do Visgueiro antes do Menino nascer.
“Por volta do meio-dia, o sol de cortar com navalha afiada, paramos numa sanga a propósito, na sombra de um caponete capitaneado por uma grande açoita-cavalo. Tiramos os trens para o chão na sombra, damos soga aos cavalos, juntamos lenha seca e fizemos um fogo, estendemos as selas e os pelegos, e descansos, mais o cochilo.
“Lá pelas 3 horas e minutos da tarde, montamos outra vez e viemos embora. Vínhamos andando para o rumo aqui do Visgueiro e com esperança de chegar no dia seguinte. Os bem-te-vis nos davam avisos esquisitos, as emas olhavam firmes piando forte, as perdizes nos espreitavam atrás das macegas e mairás, as tesoureiras gritavam na língua delas de cima das guajuviras. O meu guaipeca Ticuna inticava os tachãs e vice-versa. O mundo todo tinha as pinturas de nuvem alados vidros-do-ar banhados plantas, potreiros.
“Já estávamos cansados outra vez, os cavalos andando devagar, o sol de matar o vivente sem dó nem piedade. Tinha uma montanha correndo distante e lá bem longe. No dizer da maioria era já a serra do Espinhaço, comarca de Gavião Peixoto. Foi quando nos avistamos frente a frente com uns castelhanos orientais bem armados. Eles eram uns 20 ou 25 mais ou menos. E nós éramos em 4, contando com meu guaipeca Ticuna.
“Por um minuto paramos, e nós e eles. Os gadeiudos de lá e nós de cá. Paramos surpresos uns com os outros, acho. Aí, em vez de correr deles, corremos para dentro deles que eram inimigos vindos da banda de mais além. Eu incentivei a rapaziada: “Quem for gaúcho que me acompanhe, no más!”
“Eles adversários, muito maior em número e já loucos de pinga, em vez de correr da gente também correram para contra nós. Vieram também na nossa direção. Ia ser uma pechada das boas e tanto e foi. Eu, já na corrida, já avisava os meus camaradas:  “Vai ser de lascar faísca, indiada velha boa!”
“E nem só ia ser de lascar como foi e fomos e foram. Sem contar a euforia!
“Pois nós fomos e eles vieram e nos pechamos bem no meio da várzea e nos pechamos como dois bodes brabos e teimosos e briguentos, de cabeçada, taque!!... entrechoques de espadas e armas brancas. Total: entrevero.
“Anoitecia e anoiteceu no combate combatente. Caía a noite e o enrosco ainda nem tinha terminado e precisava terminar que a gente queria ir para casa dormir. A briga de espada e lança se transformava em briga de foice no escuro, ao D dará. Foi aí que anoiteceu como completa escuridão.
“Quando anoiteceu ainda brigávamos como loucos com os castelhanos gadelhudos. Eles eram valentes e mais numerosos. Eles nem tinham nenhum amor pela própria pele. Eram uns insensatos.
“Bem, aí eu decidi qualquer coisa diferente. No escuro me bateu uma ideia. Então, para me confundir com a escuridão eu me livrei das roupas e fiquei em pelo. A adaga grudada nos meus dentes. E fui caçando inimigo por inimigo sem eles me pressentir. E nem sobrou inimigo nem mesmo para desmentir a história.
“Mas, depois de ver a matança, me arrependi. Os camaradas me trataram como herói e me bateram no ombro, mas eu fiquei com dó de tanto flibusteiro morto. Eu era muito mau. Era era um cachorro louco e mui brabo.
“Mas também pensei que eram coisas de guerra, nem é?!
“Hoje nem sei se gosto ou nem gosto, se conto ou nem conto esses causos. Pois o entrevero foi de independência ou morte. Era eu ou eram aqueles. Isso de guerra foi coisa braba. Era pegar ou largar. Era vencer ou vencer. Eu me arrependo de certas coisas mas nem do todo no geral por completo, enfim.”
O avô Gaudêncio roncou a cuia e passou para o cevador. Era pensativo o olhar mais perdido quando o tempo passando e sempre relacionando concatenando realçando interpretando dimensionando.
Aí, o negro liberto pela lei da Princesa pegou o cigarro de palha disposto na orelha, suspirou um pensamento que vinha vindo pelo campo aberto das ideias relacionadas em pensamento, soprou a fumaça na primeira tragada, riu sozinho uma coisa que lembrou, ah ah ah!... e contou e transferiu e narrou:
- Certa feita, de tardezinha, aqui por aqui mesmo na fazenda Visgueiro, boca da noite, de tardezinha pro anoitecer de vereda, o patrão seu Antônio me disse todo apressado e urgente: “Homem, me vá até a vila Taguari chamar o médico seu Anacleto que a minha esposa Joana tá com as horas pra ganhar o nenê.” E o patrão disse mais, completando: “Olha, seu Gaudêncio, conto contigo aqui mais com o médico já bem cedo pela manhã.”
“Então, eu me apressei muito urgentemente em encilhar o meu tordilho Charrua que o negócio era partir ainda ontem e eu tinha de andar 60 léguas das grandes das serpentinas. Nisso o patrão ainda se lembrou de me dizer: “Pois, Gaudêncio, o médico seu Anacleto era para vir ainda hoje de meio-dia e nem veio, deve de ser a chuva que estragou a ponte. E outra coisa, leva junto o cavalo Urupá para servir ao médico, caso de sobressalente.”
“Montei no Charrua, o Urupá de junto, já o meu guaipeca Ticuna me acompanhando para onde eu fosse e me bandeasse, espírito de equipe, e seguimos rumo da vila e debaixo dos olhos preocupados do patrão.
“Ainda nas terras do seu Antônio, já pegamos a noite bem fechada. Olhei para o céu ver se vinha uma lua e parecia que ia demorar um bocado. Cheio de estrelas estava. Todas me observando de muito distante e enigmáticas. A lua ia demorar para sair por causa de quê.
“Um escurão de nem ver a frente do meu Charrua. O guaipeca na uns metros adiante servia aos cavalos como guia. E depois já se conhecia muito mais ou menos o caminho. Animal sabe ir pelo costume, e completado pelos hábitos.
“Eu mesmo acendi um cigarro e fiquei pensando uma nova moda de viola, fandangos, para passar o tempo. As palavras saltando de pensamento em pensamento.
“De uma certa hora noturna em diante, dentro da noite pelada, me vi na porteira dos limites banda da vila. O guaipeca, de olhos acesos viu primeiro, depois viu o Charrua, viu o Urupá. Estes pararam e eu apeei para abrir, abri, passamos, fechei, montei. Terras de vizinhos.
“As estrelas pareciam novas, e me piscavam sem parar. Iluminavam pouco o ambiente e nem se via nada. Eu nem via a testa do meu cavalo. Meu cavalo Charrua seguia o Ticuna, Urupá na soga puxado seguia a gente, e isso já me tranquilizava um pouco.
“Os quero-queros se alarmavam toda vida com nossa presença pelas abas profundas da noite naquele descampado. Os morcegos rodeavam meu chapéu e as orelhas do meu tordilho. Os pios do caburé-do-campo ou do bacurau-cauda-barrada sempre eram de arrepiar os pelos. Já eram naturais aqueles gritos. Meu cavalo olhava o chão e farejava mais até que o próprio Ticuna. Meu cão nem falava nada. O Urupá cuidava de si lá no outro lado. Quando Ticuna resolveu falar alguma coisa eu me antecipei e disse para ele, latindo na língua dele:
- Será que nem vamos nos perder, Ticuna?
“Ticuna acho que me olhou e nem perdeu tempo, continuou farejando a estrada de terra e pedras soltas rumo pros lados da vila. E fomos em frente, fazer o quê. Era o costume de obedecer e as ordens recebidas tinham que valer pela missão cumprida.
“A lua nem saía no céu e nem mesmo com reza braba. E nós quatro pouco ou nada enxergávamos da estrada. O Ticuna devia enxergar e farejar, embora. Meus cavalos sopravam o chão muito rente. Às vezes o Charrua parava uns segundos e pedia ajuda ao guaipeca Ticuna ao cavalo Urupá. Eu também apeava e ia tatear as pedras e tocos e palanques da cerca para ver se reconhecia alguma coisa.
“Foi aí que eu vi um homem parado na beira do caminho. Estava parado com uma espingarda debaixo do braço. O chapéu largado nas costas preso ao pescoço pelo barbicacho. E nem falava nada. E nem falou uma palavra sequer. Eu falei primeiro:
- Sou o Gaudêncio ali da estância Visgueiro! É a estrada da vila Taguari, hein, amigo?! Já conheço a sua pessoa de outras paradas? Você nem é o fulano que conheço lá talvez da bodega do velho Açoteia?, perguntei. Hum?!...
“Esperei uma resposta que nem veio nem  chegou. O homem me olhando, talvez. Nem pude reconhecer o homem, as feições encobertas pela noite. Então, montei novamente no Charrua, esporeei e continuamos. O Ticuna nem falou nada, estranhei. O Urupá ficou outro tanto mudo e estranhei também. O vento parecia enrolar as nuvens e querer mostrar a cara da lua.
“Mais uns passos olhei para trás e o homem ainda me cuidando. Eu mesmo de arma, na pressa que saí da fazenda, levava somente minha adaga atravessada atrás na cintura e a espingarda enfiada por dentro dos pelegos do cavalo montado. Quem seria aquele tipo medonho esquisito e silencioso? Alguém de pouco papo e nenhuma fala.
“Continuamos, fazer o quê. E nem se via nada de nada, uma vez. Eu até duvidava que conseguíssemos chegar na vila. Podíamos pegar o caminho errado, errar um lance e cair num perau, que havia e há dos muitos e de todas as funduras e todos os gostos e outros precipícios.
“Vez em vez o Charrua tropeçava, pisava confuso, vacilava, se irritava com a buracama. O Ticuna ia na frente, faróis acesos, parava, esperava, olhava, farejava, guiava os cavalos. O Urupá seguia cuidando da retaguarda e volta e meia voltando o olhar para aquele quadrante, e assim por diante. Eu sentia que o Ticuna queria me dizer o seguinte:
- Ei, vamos, gente! É pra qui, ó!
“Se ao menos tivesse uma lua que mesmo fraca!, me perguntava. E por que a lua nem aparece?! E por que a lua está assim arredia?
“Ouvia os caburés-de-cupim conversando ou assobiando para me irritar. Os vaga-lumes acendendo faíscas nos pedaços de vidro verde e sem parar. As estrelas boas e limpas piscando e sem cessar. A lua que nem aparecia naquela noite e por que motivos. Veio um vento e ficou mais frio. Foi um vento e ficou mais deserto.
“Por entre dois coxilhões, um lugar mais preto que azul, andamos bem na adivinhação, pela mão de D, os olhos acesos do Ticuna única coisa que se via no chão. Mas era pouco e meus cavalos Charrua e Urupá tossiam e sopravam e pateavam.
“Era o quê, mais de meia-noite, ouvi um assobio mais forte para um lado e vi uns vultos se mexendo. Nem tive dúvidas, puxei minha espingarda de repetição e atirei cinco seis vezes, tum! tum! tum!... Aqueles tiros ecoaram um bastante. Pareciam ter batido nas pedras e ricochetear.
“Nem obtive resposta, nenhum grito, achei que tinha acertado em cheio, nem pios de quero-queros, continuamos. Os cavalos e o cão meio que se assustaram e acho que arrepiaram o pelo. Ticuna latiu qualquer coisa que nem prestei atenção e continuamos.
“Sem demora, daí, avistei os dois pilares da entrada da pinguela. Dois postes altos um de cada lado da ponte, dois palanques a mor de entrada, dois fantasmas contra a pouca luz das estrelas, etc. E foi só. E foi só o que deu pra ver na hora. Andamos len-ta-men-te.
“O Charrua viu a passagem ou adivinhou e parou. O Urupá fez o mesmo. O Ticuna acendeu mais os olhos, olhou para trás, esperou minha ordem. Eu disse:
- Simbora que estamos ainda longe, uma vez!
“Fui atendido. O Ticuna prosseguiu e os cavalos, vacilantes e lentos, o imitaram. Eu olhei as estrelas e eram muitas e piscavam. Que pena que a lua nem aparece, pensei.
“Minha montaria ia muito devagar quase parando. Ticuna seguia, parava, olhava para trás, esperava, seguia outra vez muito calmo e devagar. Ninguém de nós quatro falava água. O mundo estava no anonimato silencioso aguardando nem sei quê. O rio Retiro chiava no fundo do poço, e parecia agitado mais que o normal. O mundo tinha o sentido de escoar por aí.
“Charrua caminhava com muito cuidado e detalhes. Nem queria escorregar na madeira da pontezinha. Se escutava lá bem embaixo o chuá da água correndo entre as pedras em, cheque! cheque! cheque!...
“O Ticuna dava um passo e olhava para trás, esperava. Charrua dava um passo na madeira, tuque! tuque!... cheirava, farejava, o Urupá calculava e seguia. Eu me perguntava só para mim mesmo: “Por que a lua nem aparece para me ajudar?”
“Muito lentamente os cavalos seguiam o guaipeca. Eu tinha ganas de apressar o passo do Charrua e esporear, mas me continha. Deixava que a montaria seguisse seu instinto o Urupá o Ticuna e todos nós.
“Demoramos para atravessar a ponte que só vendo! Foi uma hora? Mas quase. E demorou. Os cavalos com muito cuidado e de caras no chão. Chão que nem se via. O guaipeca olhando e farejando muito, os olhos acesos. Eu nem via nada. Horas nem quentes nem frias. Um vento passageiro nos cabelos e barba.
“Aí, passamos os dois pilares lado de lá da ponte e o Charrua suspirou bufou de alívio o Urupá até riu feliz, o guaipeca latiu, e fomos mais apressados. Eu ainda juro que nem sabia um palmo na minha frente.
“E assim, sem eu saber por quê, onde, quando, e indo sempre na confiança dos meus ajudantes Ticuna e Charrua e Urupá, chegamos na vila fim da madrugada os galos amiudando os quero-queros alarmando os bem-te-vizinhos-do-brejo quequericando no alto do tento-amarelo. Era o acampado de algumas casas.
“Bati na porta do médico-doutor no toque! toque! toque!...
- Quem é lá de fora?!
- É de paz e é urgente, seu doutor!
“Ele veio abrir a porta e em pijama de lampião na mão:
- É você, seu Gaudêncio?
- Sou eu, seu médico-doutor Anacleto! É da parte do patrão! A dona Joana pede urgência!
“Falei o que me mandaram dizer, e ele respondeu:
- Uns cinco minutos e já vamos.
“No mesmo segundo parou tudo e se voltou pra mim, a cara cheia de surpresa, e perguntando:
- Como é que vocês atravessaram o rio com essa cheia, meu compadre?
- Olha, seu doutor-médico Anacleto! Nós passamos como sempre, pela pinguelinha. Mas tava escuro e periclitante. O rio Retiro parecia brabo lá por baixo.
- Que pela pinguela, homem! Tá querendo me enganar? Ontem de tarde mesmo pensei ir até a fazenda e fui até o rio e a ponte tinha descido na enxurrada! Tá dormindo, seu Gaudêncio!
“Eu me perguntei qualquer coisa, fiz uma cara que eu nem me lembro e achei que ele estava ainda no bom do sono e sonhando e falando outra coisa. Me calei. E sem entender. Ele que tava dormindo. Será o quê?!
“Pois na volta para a estância já era dia e os atalhos eram mais leves e curtos, eu vi o quanto eu estava com sorte aquela época. Vi que a travessa do rio nem estava mais e tinha só um tirante, uma viga, um pau de angico. E fora por ali mesmo que nós quatro tínhamos passado de noite sem perceber? Só podia. A travessa tinha uns três palmos de largura, tchê! Era coisa de circo de equilibristas, ala puxa!
“Demos uma volta de mais de duas horas lá para cima, onde o rio já dava vau, e retornamos para pegar novamente o caminho da fazenda. Ainda olhei no meio das pedras as árvores secas que eu pensara na noite anterior ser uns tais e quais homens, etc. Mais adiante ainda, reparei na direita de quem voltava pra sede, um cupim bem alto que achei fosse um ladrão de estrada e de atalaia. Quando nem se sabe tudo parece como nossa vã imaginação.”
Gaudêncio riu, ah ah ah!... tossiu, pediu logo uma cuia, tomou um gole de mate amargo e comentou, para por um fim ao dito ou nem dito, zerar a percussão, deste modo recolhedor expositor interpretador definidor:
- Nem falei?!
22-terra de maringá, Pombal.
Com as palavras de Aline: bambúrrio, paradoxal, minudentemente, dinda, caporal, laudo, quaresma, atinente, debrum, cleptocracia.
22-cidade doçura, Américo Brasiliense.
Os sonhos de Ana Ricarda são longos e altos e redondos e panorâmicos. Precisam de estrelas limpas em noites claras para respirar. Vão mais além. Muito no eu-gênia:
- Quidemais! Então, me vi ilha de Cotijuba, a manhã perfeita no monastério de monges e monjas andando pelo pátio o pomar a horta sentando nas pedras olhando as árvores altas copadas povoadas de pássaros, cipó-cravo, caparrosa-do-campo, gomeiro-de-minas, inhanduvá, cajazeira...
“Meia hora depois, uma hora, duas horas após, ainda caminhar pelos atalhos da mata, olhar cada pedra tudo de novo, ouvir o chamado dos pássaros, talvez o sabiá-laranja, talvez o ferreirinho, completando com o uirapuru, ainda o azulão, o coleirinha-do-brejo, a papa-taoca...
“Perto de certa hora, talvez meio-dia, andar até a rua mais próxima e esperar. Aguardar, de tigela vazia na mão estendida, que uma pessoa caridosa outras pessoas amigáveis fizessem o favor de deixar um pouco de arroz ou macarrão ou sopa de legumes ou fruta ou pão.
“Aquele dia tive sorte, e ganhei um pão e duas bananas maduras amarelas tão bonitas e tão doces tão cheias de si. Fiquei com pena das frutas e nem as comi.
“Eu sou murumuru e moro na ilha do Maracujá. Há dias bons e dias melhores para angariar esmolas donativos na beira da rua Alvarenga Peixoto, minha preferida, minha jurisdição, minha alfândega, meu parque, meu país inteiro.
“Pela hora da tarde, ela se sentou nos degraus do templo e ficou olhando o horizonte de montanhas azuis, gritos de curicacas, gritos de gralhas-azuis, berros de bugios, movimentos de nuvens brancas de norte a sul. E compreendia sabendo quem que acionava as pessoas os seres ida e volta.
“Quando acordou da sesta, ou ilha do Combu, ali nos degraus do pequeno templo, já eram horas de se ajoelhar e agradecer por mais um dia cheio. Mas sempre as árvores os pássaros os animais as pedras, mururés-rendados, catingas-de-tamanduá, gaturamos, sauiás, tatu-bola...
“Depois eu vi que vieram muitas estrelas, vieram as gotas de chuva, a chuva, muita chuva na ilha do Papagaio, parou a chuva, tudo tão original, a chuva parou, os vaga-lumes cortaram vidro no escuro, a lua desfilou, tudo tão orquestrado e original e honesto e seguro e correto. Confiei e sei que tudo tem ainda uma orquestra.
22-águas quentes, Montezuma.
Frases sentenças de Pedro:
- As figuras geoglifos feitos no chão com marcas traços relevos positivos ou negativos, floresta amazônica como um todo.
- Tempo misterioso técnico a temperatura alta quase 40 graus vento nas folhagens aumentando os assobios ruas veementes plantas em indiana na calçada o prédio os prédios da antiga fábrica de garrafas (de cachaça da boa de Minas) garrafões (de vinho seco de mesa) revestidos de cestinha tiras de plástico trançadas.
- Ideia sua e própria, somente de privada autoria, profunda íntima e exclusivamente consigo mesmo.
- Pode ser que chova ainda hoje pode esfriar um monte essa semana toda pode ser sair o campeão do campeonato no fim de semana pode ser no dia 20 do mês de maio.
22-terra da cavalhada, Santana do Jacaré.
Ana Ricarda olhou as mãos com unhas coloridas, uma cada cor, mas só as cores que mais gostava, verde, azul, amarelo, vermelho, roxo, incluindo as pontas dos dedos.
Ela corou e empalideceu, sem dizer palavra, descolada, paparicada, só pensando.
De tão satisfeita nem conseguia falar gritar e ria sem parar. A mão segurando o peito em euforia.
A menina na pele dos 15 setembros, pássaros cantando setembro, árvores verdes de setembro, sorriso de setembro e setembros, rios de setembro, ventos de setembro, cabelos em movimentos de setembro, corpo doce e completo em setembros, o mundo começando e puro para mais de setembros, e mês predileto.
Por princípio começou, artisticamente, a dar beijos no peixe do aquário, depois telefonou, e rindo, caminhando pelo apê, sempre depois se olhou no espelho, principalmente a bundinha, depois ainda pegou os cabelos e meditou um penteado alçado coque, e lá fora chovia uma quantidade.
Os vários tons de verde, do verde goiaba-do-mato até o verde periquito-rico.
Era de novo primavera e os pássaros e plantas e abelhas, todos os pássaros decidiram se casar naquela oportunidade. Passarinhos faceiros pelos galhos verdes. E quando amanhecia com esperança os besouros já sabiam para onde voar e com quem.
Guedelhas lisas negras cortadas no molde da cuia.
O vento nem rebateu nem bateu, empurrou, entrou, o vento que entrou pela porta, que entrou pela porta, exportou, cheirou os cômodos de passagem, e se jogou pela janela quase num heroísmo do sexto andar, rumo o nordeste.
Veio a chuva, e que chuva, choveu, choveram vários os dias, choveu compulsivamente e alagou, parou de chover em maio último, um cheiro no ar de terra queimada pela chuva, outra vez o sol mecânico, pintado de amarelo pela criança em a aula de artes, o sol que anda sentido do oeste, o sol bravo e dourado, praia Sirituba, um cheiro de mormaço e terra chupada, cidade de Bento Fernandes, o vento soprando no telefone sem fio, montanha Cabeça de Dragão, as asas incendiadas das cigarras surdas.
Viajar, Ana Ricarda quer viajar, viajar o corpo todo, bater o corpo a corpo, ela sente isso, virá-la e revirá-la e subir pelas paredes, também e ela sente isso, nasceu mesmo com isso nos rins, e total: mapa do país do tesouro.
Agora uma pequena barra de chocolate às seis e meia da tarde de um dia quieto, uma quinta-feira de manhã.
Os olhos sem tempo, invisíveis, silenciosos, felinos, e teve um riso aceso.
Na manhã seguinte ao penúltimo dia do ano, dia amanhecendo em algazarra clássica, um gavião-carrapateiro berrando no alto do céu azul-claro, o vento levando a poeira para o leste, a sombra do coentrilho na calçada do outro lado da rua Tartarugalzinho, menina acompanhando cachorro e para pro estimação fazer e junta e joga na lixeira e seguem a rotina de todo dia diariamente.
Uma ela mesma já sabia o que a outra dela pensava.
Quando Ana Ricarda nasceu, e nasceu para quê, nasceu para nem ter nenhuma saudade, nasceu para nem ter o que fazer, nasceu para pular carnaval, nasceu para passar o tempo viajando, nasceu para brincar de gente e gostar de mascotes e gostar de árvores, capeba-do-mato, murtinha, abiorana-guta... e falar delas dando louvor:
- Que que estou fazendo aqui e gente morando caminhando pensando em Timor Leste, em Zimbábue, em Butão, em Ielmo Marinho, em Treze Tílias...
Então, só então, consentiu que os vizinhos, os colegas, os parentes e os viventes em geral, inseguros até então, vissem seus olhos de azul-fino.
O horizonte acidentado linha de lápis preto traço encapelado, sol se pondo com chapéu na cabeça, sol cercado de coroas vermelhas e nuvens incendiadas, o tempo emergindo urgente e invisível - um tempo que assobia simplesmente o muremuré.
22-cidade da amizade, Perdões.
O sol apareceu compareceu e a hora combinada como estava ontem, em ordem. Então, no alvorecer da quarta-feira, um 5 de novembro do ano de 1904, a turma toda de tropeiros e tropeiras já estavam prontos para seguir viagem. Jornada sem fim por dentro do sertão da serra Gaúcha, subindo rumo do noroeste do Estado da província. Prontos para seguir, e sonho esforço persistência abnegação. Tomados café, mulas carregadas, cães balançando a cauda, todos esperando o chefe dar o, aaalôoo!... da arrancada.
Gaudêncio olhou tudo de novo, assim por completo, ao total, por cima, por fora, por dentro, os parentes todos, os guris, as mulheres, eram em cinco homens, três mulheres, dois garotos um de doze e outro de quatorze, duas meninas de oito e dezoito, um casal de agregados, cinco guaipecas impertinentes vira-latas, quatro cavalos de montaria, doze burros de carga, e outras tralhas.
O negro Gaudêncio tirou o palheiro da orelha, acendeu, fez o sinal da cruz mais uma vez e disse, comandando a partida, baixando o braço e berrando:
- Aaalôoo!...
O dia de sol já surgia agradável e bonito e afrodisíaco. Já saíam do lugar onde hoje é São Leopoldo, e pelo meio do mato e serra pretendiam chegar em Lages, Santa Catarina. Iam para os lados e barrancas do rio das Antas e Turvo e Pelotas. Carregavam café, sal, ferramentas, fazendas de muitas cores, variedades, bugigangas, objetos, instrumentos, apetrechos de sela, e outros pedidos, e outras encomendas.
Uma algazarra de pássaros vira-folhas gavião-tesoura andorinhas e um zumbizar de abelhas mirins-preguiças e besouros e zabelinhas e mosquitos de espécies milhões deles. O rio dos Sinos todo sujo, as árvores matos capoeirões capim-branco burlemáxias guirás-do-rio perexis, a temperatura amena.
Paravam perto do meio-dia almoço e ficavam até o sol dar uma abaixadinha, e continuavam. Já fazia um calor de sobra. As árvores olhavam o comboio passar e nem falavam nada, os guarumbés, os icós, os mucujês, as palmatórias, as pentes-de-macaco, assim por diante. Os cães latiam por correrias de lagartos, por tocas de tatu-canastra, por em respostas aos voos de vevuias aos gritos de bugios ou micos ou saguis.
Pararam no galpão de um colono imigrante para passar a noite. Largaram as mulas no pasto e foram se acomodar debaixo do telheiro. O homem só apareceu na manhã seguinte para cobrar o combinado. Nem falava português, praticamente. Trinta mil réis tudo incluído o pasto a lenha para o fogo a pousada e da água à vontade nem cobrava nada.
Na nova manhã já subiam a serra bem no alto, pinheirais e muito, ar mais agradável temperatura amena. A vila Campo dos Bugres. Iam ficar dois dias e ver se conseguiam trocar uns metros de tecido umas ferramentas por farinha de trigo por farinha de milho.
Mais dois dias, total de quatro cinco dias em futura Caxias do Sul, por causa da chuva. Quando o tempo melhorou foi que continuaram. Os caminhos embarrados e perigosos e tortuosos. Nem podiam esperar mais ou menos.
Ali atravessar um riacho a nado, mais lá quantos banhados, gravatás, quero-queros-reais, chocões-carijós, a mula que empaca e fica esperando esperando quase dormindo de teimosa, o tempo chuviscando, o frio da chuva que gelava os ossos.
O clima já fazia um pouco de frio. Os caminhos as trilhas escorregadios. Já pegavam o rumo para os lados da hoje Vacaria. Curicacas em bando pelos pinheirais, tucanos-de-bico-verde pelas árvores fazendo folia, periquitos-reis entre os jerivás, beija-flores-tesoura-verdes namorando flores das cores. Uma algazarra de assustar. Uma mula escorregou na pedra e quase leva junto com ela o condutor os mantimentos. Por pouco nem acontece um pânico em a família.
Noite sem lua, dormindo no meio da mata fechada, pios de coruja, roncos de onça, pernilongos trombeteiros, formigas-de-embaúba em bando em caçada noturna. Era onça ou era bugio? Os cães alarmados alertas nem deixavam dormir.
Chegaram num lugar de capela em honra a Nossa Senhora da Boa Passagem. Acharam o lugar bom agradável e resolveram descansar um tempo. Acamparam ali da tarde do dia 11 ao dia 15 do mês de dezembro. Tinha uma capelinha para a santa e outros santos. Muitas velas, coisas escritas na parede da gruta, pedras colocadas, pedras escolhidas pelos devotos, pedras de vários tamanhos que um homem pode carregar, pedras brancas cinzentas pretas amarelas, pedras lascadas, pedras dali da montanha ou mesmo vinda de longe de junto do rio do mar e de mais além.
A mulher do Gaudêncio, a dona Meruquiá, puxou as rezas e rezaram ajoelhados. Pediram saúde e paz e sorte e prosperidade e sucesso na empreitada. Depois a dona Meruquiá desabafou com a irmã a dona Murundu, tudo em família, Meruquiá disse:
- Sabe o que D me disse no ouvido em segredo e eu te conto?
- Nem sei, mas vai e me conta - respondeu a Murundu.
- Pois Ele disse bem devagar o seguinte: “Se você vai é porque quer voltá. Vai até lá, faz o que tem de fazer e depois de feito pode voltá.”
- Voltá? Quer dizer D te mandou voltá, é isso, mulher?!
- Voltá para o pó das estrelas. Voltá para a fumaça das nuvens. Evoluir sair da terra dos simples mortais e se confundir com o ar, é isso. E é normal. Todo caso!
Depois de rezar umas horas e dar um tempo para D ver eles todos ali, inclusive os bichos, inclusive as coisas que traziam, os tropeiros pegaram e continuaram a viagem. Eles moravam em trânsito, eles viviam na estrada.
Para atravessar o rio Pelotas precisou muita atenção e paciência. O rio estava gordo e perigoso. As mulas foram descarregadas e passadas uma a uma puxadas na soga de canoa. A cabeça para fora, os olhos arregalados, bufando, umas escoicearam até se convencerem que tinham de nadar e de qualquer jeito e na marra. Dois barqueiros moradores do local atravessaram também as mercadorias apetrechos e o pessoal. Mais duzentos mil réis.
No meio de janeiro do ano de 1905, umas 4h e pico na tarde de sol ainda forte, um calor de sair fumaça do chão, serra do Brigadeiro, entraram na vila da hoje opulenta cidade de Lajes. O fim da viagem. O porto de entrega. Ou pelos tantos perrengues. A estação de desembarque. O posto de negócios. E foi uma aventura formidável.
22-cidade cachoeira, Itaboraí.
Com as palavras de Aline: polígrafo, funâmbulo, encilhamento, leniência, polímata, ablução, escopo, combo, cientologia, filantropia.
22-terra do dedo de D, Guapimirim.
Tem gente que é verde por fora e dentro, tem gente que é mapa de rio sem volta, tem coisa que é bicho e gente ao mesmo, tem pessoa que é físico-esportivo, tem gente que é Ana Ricarda de ser própria proprietária a propósito propiíssima.
Ana Ricarda é barco a remo a vela a motor, é avião e planador.
É asa-delta de asas verdes nascendo de planta verde na manhãzinha, libélula engraçada e azul metálico mata atlântica.
Lá estava a garça-branca, de costas, mãos nas costas, pernas secas secas abertas, pés de dedos bem abertos, pernas abertas sobre o trapiche o píer, e bico longo agulha espetando o ar mareado maresia, tarde de tardezinho na praia Mole.
Chegaram a um lugar de pedras ou ossos ou areia, depois olharam em volta e nem viram nem gavião-de-penacho piando nem tuiuiús alarmados nem lagartos ou cascavéis se refestelando aos sóis, nem tinha nada de mais, tinha isso sim uma ex-casa, uma tapera, uma carapiá no meio das pedras das ruínas, tinha sim um ruído nas ruínas, havia o vento descabelando murumurus, tinha o tempo em todas as direções: e após a chegada, e depois, aí, foram tirando fotos e indo embora.
No meio da noite, antes da meia-noite, no meio da escuridão ainda confirmada, lá estava quem, apareceu a lua, um espelho redondo bem desenhado pose na moldura prateada. Aproveitando para ampliar o céu noturno. Uma estrada rudimentar e prosaica.
O sol procurou ouro nos guinchos dos bem-te-vis e corruíras e tico-ticos e arirambas-miudinho, procurou ouro em pó desde manhã e o dia inteiro todo completo e nos espelhos-d’água no murici-do-brejo nas ervas de capitiçobas.
As esquisitas samambaias estavam, olá!... oi!... todas grudadas de frio nas pedras úmidas e musguentas.
Chatas pedras da praia levavam selaços do mar, em marolas e mais ondas, as pedras buscavam os raios do sol, buscavam brilhar ao sol, joão-botina, as pedras possuídas de liquens buscavam perder vento falar do tempo e em ruídos pios voos de aves marinhas.
Do alto do jequitibá se via as montanhas azuis da serra do Espinhaço sob o céu azul-turmalina, do alto das montanhas se via um verde perdido em tons de verde da floresta, e o pico do Boné, onde nascem ali as araras-azuis-grandes, nascem e se criam ali as araras-vermelhas-grandes, amplitude de São Sebastião da Vargem Alegre, e despontam de lá os anus-pretos em enxame, lugares em Ervália e Rio Casca, onde nascem ali os anambés-azuis. Discos voadores iluminados e sem ruído.
Pronto, um rio sempre ali, pronto, o rio Itacambiraçu que canta como corredeira, como cascata, como corrente entre as pedras, como assobio de bicudo tucano narigudo.
Ana Ricarda, então, agora, nem entende o que vê ou entende por miniaturas, põe a mão em pala, se senta na pedra da Moreninha e olha o escaravelho lutando para ser soldado graduado, para ser pastor e bispo e cardeal, para ser chefe de seção, para ser seu próprio patrão, para ganhar dinheiro e viajar nas férias ao parque 3 Picos.
E se levanta de onde estava, imponente na altura, uns passos à frente, mão em pala, fica olhando a dois mil metros: uma jabuticabeira com garagem para sabiás-laranja, chupins, almas-de-gato, pombas-rolas, virapurus...
Depois de procurar e ouvir o canto do canário-da-terra e namorada, AR busca outras coisas que já reconhece e porque tem de olhar outras coisas. Cada momento com seu interesse. E isso lá como aqui é novo, aqui como lá é novidade.
- Isto amamos queremos gostamos beijamos e gostamos e queremos!
O horizonte fica talvez no meio dos olhos, por que os olhos verdes de mata ciliar?, por que os olhos azuis de céu sem nuvem?, por que os olhos pretos de noite brilhante e estrelas de perder a conta?, o horizonte, assim mesmo, é a boca no sorriso são os lábios apertados de pitanga fruta ou folha de pitangueira.
Pula dentro de casa e canta o que vem na cabeça, pula na calçada da rua e gorjeia como um colibri, pula no prato de arroz e feijão e tomate vermelho e abóbora doce e queijo com marmelada de caju e quindim e suco de abacaxi, pula de Paulo para Antônio para Ricardo para Joana para João pra Amanda... E sempre buscou alternativas.
A alegria era ótima e daquelas que nem se descrevem, e nem precisa dizer mais. Gosto gostar das férias excursão feriadão, São Francisco do Sul, Itapoá, Araquari, Balneário Barra do Sul... Costume e mania adquirida, onde? de falar “por isso mesmo!” para tudo vale-tudo e então super falar responder perguntar “por isso mesmo!”.
Muitas montanhas nas serras azuis de Minas Gerais, e aí muito calor debaixo de sol, muito frio na chuva e na noite que troveja. Depois os relâmpagos acendiam faíscas nos altos dos morros de ferro.
As árvores das calçadas eram todas comportadas, soldados desfilando em ordem, eram todas, tanto por tanto, altas e repetidas, parecidas comparecidas narizes cabelos braços folhas denteadas, caxim, icacoré-catinga, guajuru...
Pois ela, Ana R, caprichada e cheia de saúde, podia sair e ir para onde muito bem muito quisesse e passar bem. Porque o mundo lá fora. Porque as pessoas diferentes. Por que dieta detox?
Chegou na casa da beira do rio Borboleta, que alguém comemorava aniversário de 14 anos, nem quis entrar, foi convidada a entrar e comer um bolo um brigadeiro um beiju, já estava ali mesmo, entrou, a dona dos 14 anos naquele mesmo dia já estava comendo também um pedaço de torta com muito merengue pão de queijo tapioca sorvete de pequi.
Conversa se comportando sempre que pode ou que sente, e absolutamente na frente dos outros, absolutamente.
- Oxente!...
Num dia comum como qualquer dia comum, que se ri melhor, as árvores altas as plantas médias os capins em tufos as barbas-de-bode, as borboletas os beija-flores as cambaxirras, os ouriços-pretos, os aviões que cruzam a jato os hemisférios: quem ri a todo pano e bandeiras despregadas?
O sol da manhã era bom como o café com misto-quente torrada doce de banana.
O bom de Aricarda era que nem olhava para os lados nem para trás, e chegando em casa deitava e rolava seus 16 anos com celular. Tomar banho de cachoeira ou piscina natural. Uma excursão para Araponga, Espírito Santo.
Uma nuvem seguia na frente, branca, um barco a vela desenhado no braço, o vento sudoeste assombrando a nuvem branca pelos campos e várzeas, a nuvem branca na frente de outras nuvens brancas bando e iam todas para o nordeste. Ver a seca passear.
Relinchou o cavalo na beira da cerca de arame farpado, relinchou para quem vinha de lá; vinha era mesmo uma potra dos pampas. E um carro de muito barulho.
Depois, logo depois, se viu uma folha desperdiçada amarelada solta no ar. As horas nem passavam. Grilando o tempo.
O riacho desce perseguindo o rio, um rio é mapa e país e cidade e rio Carantuva, um rio é capivara e família de capivaras, um rio também nasce peixes, voa nas sombras das nuvens, e caminho e meio ambiente, e o rio é um barco a vela, um barco a vela no meio do nada e voando, e rio é um dom e uma sorte e um tom e uma baía.
Que coisa pensar ser uma palmeira catolé no meio das araras-azuis-grandes, pensar ser uma ilha onde passa sempre o rio Boa Vista, rio verde entre pés de jaçanãs.
Acordar de sono tomado às 10h e 20min se tanto, acordar como em domingo de sol, acordar de férias de cartão-postal, acordar com a manhã folgada e a tarde agendada na praia Marambaia.
A casa de telhado de palha seca cinzenta com a porta da frente azul, a porta do lado azul, os três degraus verdes da porta do lado, as lajes da calçada do portão de ferro pintado de azul até os degraus da porta da frente vermelhos, cãozinho branco com manchas pretas de pelos baixos nem deixou passar barato e berrou alto várias vezes, e porque de que modo é assim:
- Inventário! Inventário!!...
22-terra de lindas paisagens, Baependi.
O pai de Joel comemorava o prazer de comer uma espiga de milho verde quentinha, gosto e cheiro em a praça da Casa da Colina. E que ali o lugar virou uma ilha no rio Bandeira, no mar da costa, um planeta pequeno mas completo e nosso. O tesouro ou a mega-sena da ilha, ilha ou barco, milho verde, pamonha, acarajé, broa de milho, vitamina de açaí com banana... Faltava passar um avião teco-teco passou um avião bimotor roncando lá entre as poucas nuvens cor de papel novo. A curiosidade era intensa. O pensamento bem filosófico.
Agora sentado num banco, na sombra da famosa e copada gameleira, cabelos com reflexo invertido, o pai do Joel recebia de frente, mais ou menos, o vento que descia mais ou menos ligeiro canalizado entre a avenida Grão-Mogol e rua Jequié. O sol esplendorava, vamos dizer assim. Um calor bom subia das calçadas movimentadas, das paredes de tabique com anúncios de preços baixos, do painel desenhado com pedacinhos coloridos de azulejo homenagem do município aos escravos negros que morreram na guerra do Paraguai. Um menino andando de bicicleta como no primeiro dia. E a tarde ficou conforme. A tarde comprida mais ou menos lenta demais na cidade de Barcarena recém-nascida desmembrada da comarca de Caraá.
Corre pela grama da praça um filhinho de quero-quero se esconder da sombra da nuvem que vem soprada pelo ar nordeste. Corre um filhinho de quero-quero ao ver balançar a flor do gravatá no canteiro. São dois pequenos quero-querinhos que cuidam nem se perder no campinho um casalzinho de irmãos da praça da Casa da Colina. Quando crescerem vão buscar outras paragens. Quando crescerem e souberem se defender serão expulsos de casa. Quando crescerem irão fazer outras famílias longe dos pais. Quando tiverem suas próprias famílias esquecerão os pais. E serão melhores que os pais.
Logo quem, logo o pai de Joel perguntou ao vendedor de pipocas que ia chegando e oferecendo o produto, perfume de milho estalado no ambiente:
- Hein?! Pra que lado fica o mar, daqui?
O pipoqueiro olhou para o norte, apontou para o sul e disse:
- Fica sim lá pro oeste, tá vendo?
- Hum!...
Uma tesoureira veio pousar no alto galho seco da cajazeira, veio e começou a falar. Nem falou tudo. O pica-pau-de-pescoço-amarelo teve também seu interesse pelo lugar. Nem falou tudo de uma vez. O coleirinha deu seu parecer. A tesoureira voou recortando nuvens de vidro claro flexíveis. A velhinha chegou olhou olhou gorjeou ciciou pipilou mais olhou que cantou e saltou para outras aventuras.
A guria com cara de nuvem tranças negras uma de cada ombro, mochila escolar nas costas pesada, andando de bicicleta no céu toda a manhã. A nuvem com cara de menina olhos grandes quentes feiticeiros. E tudo que o pai do Joel mais admirava sem sonhar sem fantasiar. Quando comprar um pacote de pipoca salgada e após pedalar com uma mão somente. E parar apoiada num pé para ver o trânsito passar. Depois do sinal verde e para a ladeira abaixo rua Pedra Branca do Amapari já praticamente no bairro do Panará: superbem superlegal pan-mágico.
22-um paraíso nas montanhas, Alagoa.
Com as palavras de Aline: obstante, intuitivamente, partitura, sobranceiro, macete, arrego, engrupir, zapear, florais, niilismo.
22-Pouso do Picu, Itamonte.
Frases sentenças de Pedro:
- De quando em quando, gargalhadas em triple do mulherio sem rei sem príncipe sem herdeiro.
- Maria, de mãos finas, apesar do calor, falou baixo, mostrando com os olhos com os dentes com os cabelos.
- E sem tira-te nem guarda-te: diziam uns ou outros, conforme.
- O mundo começou que conhecemos há solertes 500 mil anos antes dos sabores de açaí e pequi e sorvete de pitanga.
- Ela sangue frio sozinha pensativa de súbito foi e daí deu uma incerta lá no telhado de vidro da namorada, é.
22-cidade das flores, Suzano.
Agora - ah!, deixa pra lá -, a filha de Aline é alta de olhos alados e vive a esmo. Paciência. Nem é deusa, nem lagoa, nem é floresta com todos os tons de verde e ipês-roxos aqui e ali, nem é céu, nem cachoeira do Caldeirão, nem é peixe de rio ou de mangue ou de oceano. Talvez, vá lá! uma estrela do fundo do céu do mar do jardim do cartaz.
A manhã de sol de domingo no sítio Imbaúba e a filha de Aline estava registrava aí há dois dias, bico-de-brasa, juçaras, maria-é-dia, sapopemas, coelho-do-mato...
Naquele dia ela nem corria risco de perder o chapéu amarelo com o vento, e saiu de chapéu com frutas de pano, nem tinha vento, mas tinha sol radiante, mas tinha gente de todo tipo olhando, total: e o pensamento mais que estratosférico.
As cores do dia têm a ver com quem é a filha de Aline. Um sorvete de caju no Largo da Memória. Guria em estado de alerta hormônio bonita urucango carimbó.
Na cidade de Curitiba cabe a filha de Aline. Depois, pensando, cabe uma semana um mês. E, então, cabe um horto com árvores carregadas de pássaros endêmicos. Cabe um dinossauro. Cabe a lua. A tribo miriti-tapuia apresentando saruês xerimbabos mumbavos. Cabe o sol. Cape um maguari no banho. E o avião a jato cabe na plataforma continental. A praça Tiradentes cabe no cartão-postal.
Ela amanheceu empolgada, 22 de maio daquele ano de 2011, trauteou como um passarinho bico-chato-de-cabeça-cinza, e todos ficaram contentes com isso. Ao seu redor ao seu dispor.
Krahô salão de beleza: de fulana Andirá e sicrana Ajubá: faz manicure, pedicure, escova, escova progressiva, hidratação, depilação, sobrancelhas: rua Cipó-de-Imbé no número 40, sala 302, bairro Kaapora.
A guria saiu, rindo sozinha como corruíra, cabelos crespos soltos e olímpicos, conferiu o celular no bolso atrás da calça azul, olhou à frente, foi andando para a rua Laranjal do Jari. Loja particular Capara-Pocema-Panema de fulano compadre modificador tratador o puçanguara das puçangas beberagens mezinhas. Sem demora pisou bangolando a rua Porto Grande rindo da própria sombra e dos cabelos até os ombros conferindo o número no celular olhando onde pisava para nem perder a esquina da rua Vitória do Jari.
Seis de maio atualmente sol com nuvens brancas soltas e poucas um vento que vem voando às vezes fazendo seu repiquete conforme do norte a seis quilômetros por hora carregando ou atravessando uma umidade de oitenta e oito por cento temperatura em torno de quinze graus centígrados uma quinta-feira comum em Xique-Xique, leves piriricas pelo rio Trombetas, litoral de Pernambuco.
A moça voltou e exortando. Conversando sozinha como tico-tico. Cabelos fatiados presos numa fita verde. O celular no bolso da frente da calça apertada. Olhou a escadaria e o elevador do condomínio Serra do Navio. Foi pelo elevador com cansaço nos ombros nos pés nos olhos oblíquos. Era de tardinha meuãs quase noite e tinha sono.
22-cidade joia, Poá.
Ana Ricarda tinha duas palavras e dez letras, voz cristalina.
Tudo no céu é azul porque é comunicativo e coletivo e uniforme e azul.
Uma breve planta ainda arbusto nem mais ou menos árvore, cheia de verde e destino para o alto buscando luz e equilíbrio.
Ela passou no trote da corrida, vestida como uma mão e a luva, resfolegante, ótima, rindo sozinha com música nos ouvidos, descansada, engraçada, esportiva.
E a menina era toda curiosidade e adolescente.
O pentagrama na correntinha sobre o peito, corpo nu, banho tomado, espelho todo seu, o seio nu e futuro, mão no seio, seio-ilha, rio de peixes, mato de aves aquáticas.
A garota é uma ave de verde e amarelo e azul, e depois ela ainda toca flauta-doce, e tem umbigo, e veste bermuda, e o valor simbólico dos seus dedos aéreos com abertura de boca de peixe, ainda seios cor de flor, e cabelo de cor pintassilgo: descrição completa, todas as partes, pessoa total, pele de verão.
Árvores de cabeleiras verdes e braços verdes e verde num tronco apenas.
Dia próprio prático próximo principal, único, sol queimando, derretendo céu azul, campo vasto, primeiro, incendiando o mato, caruatãs, arurus, três-folhas... as águas dos rios rebrilhantes, rio Fortaleza, rio Iraí, rio das Lontras... os paredões de pedra alturas e os vales de pasto planaltos, lugares comportados sedentários, Itanhandu, Ferraz Vasconcelos, Rio Grande da Serra...
Bacurau tartamudeou, curiango turturinou, caburé-de-orelha arrulhou, arurá mussitou, bando de andorinhas trissaram.
Corria um vento que fazia o silêncio assobiar na noite, e insetos aéreos quebrando vidros de vidraças contra as pedras que tiritavam de frio.
E a Ana Ricarda vem nos dias de sol ou chuva, de todos os dias, amanhece com o sol, os cabelos farfalham, mas demora com os olhos, prazenteiramente, os tais e quais olhos longos de preguiça e muito por dormir.
22-cidade das águas, Campo Magro.
Com as palavras de Aline: carango, apóstata, diapasão, dessarte, complacentemente, cripta, ruça, púrpura, desintoxicante, homeopatia.
22-capital da batata, Contenda.
O Gaudêncio conhecia o clube de ouvir falar e nem era sócio e nem frequentava. Só no carnaval ou um show assim muito diferente exclusivo imperdível na cidade, etc. Naquela noite de natal entrou para comer uma pizza com os velhos amigos e amigas. Estouraram alguns espumantes e festejaram e cantaram e gritaram por conta do álcool e da folia e da bagunça.
Por acaso admirou uma guria que olhava insistentemente da mesa vizinha e ela estava desacompanhada e procurando e ele também justamente estava solteiro e procurando ansiosamente perpendicularmente. Fez um sinal para que ela viesse e ela fez um sinal para que ele fosse. Aí ele pegou se despediu dos camaradas e decidiu e foi, mas convencido. Mais confiado.
- Muito prazer, sou Gaudêncio!
- Muito bem, sou Ana Emília!
Outro sim, Gaudêncio gostou imenso e foi ficando na mesa e pediu uma cerveja e até dançaram. Incrível mas naquela noite a banda tocou uns sucessos antigos e ainda de bom gosto, as marchinhas as jovens guardas. Ele achou tudo bem e foi falando e coisa e tal. Contou tudo que podia que lembrou que foi perguntado. Ela estava interessada e bonita ativa emparelhada caprichosa como num céu de dia claro. Depois ela pediu um beijo, olhos fosforescentes de gata, e eles se beijaram.
No fim da manhã no fim do baile antes de se separar ainda caminharam em volta dos canteiros da praça Marechal Deodoro debruada ornada requintada enfeitada e os pássaros as plantas rua Vicente Licínio Cardoso, marimbondos-caboclos, manacás-da-serra, flores-de-maio, ingás, sucupiras, baririçós, pincha-ciscos, marias-irré, gaturamos... amanhecendo, digo amanhecendo. Falaram inclusive de tudo que podiam tinham assuntos a tratar e reduziram repartiram diminuíram estreitaram especializaram, ela bem eloquente ele animado como nunca, muito animados, e sabiam:
- Você vai a restaurantes? Vamos almoçar algum dia no restaurante?
- Eu prefiro jantar em casa. Eu gosto mais de saladas coloridas e sucos vitaminas.
No sábado seguinte deram um passeio ao Serro e Santo Antônio do Itambé e Ribeirão Pires e passeios caminhada com possibilidade de retorno no mesmo fim de semana já no domingo. Conheceu a família de Ana Emília - como num quadro de parede. Na entrada para o ano de 1999 foram ao Rio de Janeiro, incansáveis, e Pão de Açúcar e Sambódromo e catedral de São Sebastião e praia do Leblon...
Um belo dia pediu para namorar e oficialmente. Nem demorou dois ou três meses marcaram o casamento casaram e foram de férias para Camanducaia e olhar o pico do Selado depois Cambará do Sul e visitar o cânion Fortaleza. Alguns dias de trilhas e escalaminhadas pelas montanhas, magnífico, fantástico, sério, organizado, cultural, harmonioso, panorâmico e saindo de uma região para outra.
22-princesinha da serra, Echaporã.
Frases sentenças de Pedro:
- Cascalharam gargalhadas chocarreiras e cascatas cachoeiras na festa dos noivos.
- E calmamente o rio segue seu percurso calmamente recurso sucesso segue seu caminho leito virtuoso calmamente calmo pega agora mesmo a avenida da esquina e entra na hidroelétrica barragem de Paulo Afonso, patrimônio.
- Um assobio alvar iluminado ecoou surgiu do fundo do talhadão, e quem viu e ouviu.
- Diante de todos, e dos olhos, dos olhos bem abertos despertos, sorriso alvar, o andar airoso e modulado da moça - calça apertada até o tornozelo e os cabelos lisos soltos promissores primaveris musicais, históricos.
22-a cidade dos 3s, Assis.
- É bem ali, lambari! O rio Salgado e pavuna e mondongo e tribo anacé e miridã que aparece de manhã como pequeno curumim, uma vez.
- É bem aqui, piaba! O rio Maracá e sapopemba e periantã e tribo cumanaxó e miridã que aparece à tarde como jovem guerreiro, uma feita.
- É bem aí, matupiri! O rio Paracauari e mucura e bredo e tribo zoró e miridã que aparece à noite como um velho cacique de cabelos brancos, uma oportunidade.
Os irmãos Corticeira foram decidiram pescar numa lagoa artificial para os lados da linha Casimiro de Abreu, travessão da capela Oitaveta, propriedade do seu Catu Canguaretama e tinha quicé tijuco jirau perau igarapé montaria a motor. A Ana Carolina nem quis nem falar e nem disse mais nada nem chique nem mique. Já os irmãos nada os impedia melopeia e etc., por ex.
Por ela Ana Carolina já disse e repetia e que não e nem quis ir junto, os mosquitos todos determinados e em bando, vários tipos e formas e zunidos de mutucas, a noite tenebrosa, sentada no barranco esperando peixe e que nem tem, noite inteira sem dormir, vamos e venhamos, e extremo sacrifício nem pensar nem amarrada e outras coisas, e chega! Quando enquanto os irmãos apostavam tudo e concordavam sempre cento e vinte por cento.
- Major, que surpresa! Então, para distrair o meu pensante pensamento eu penso em árvores maçaranduba, aricuriroba, tauari-do-campo...
- Tenente, que surpresa! Assim para os lados de um bom clima tempo ambiente me ocupo com ver árvores lobeira, carne-de-vaca, cedrorana...
- Capitão, que surpresa! Por isso e para boas ideias e melhores responsabilidades é bem melhor natureza olhar árvores bacuripari, abieiro, copaíba-jutaí...
Mas o trio de irmãos sempre juntos esfregavam as mãos só com a perspectiva, e a propósito. Gostavam de pescar e ficaram a semana toda planejando e sorriso pensativo. E foram. O mais velho equipando a caminhonete de carroceria aberta, lona, barraca, tripé, os trens, o do meio preparando os pindás e urupemas e caniços e chumbos e iscas, os apetrechos, o caçula se virando com os manducares e comes e bebes, sanduíches, churrasquinhos, cervejas, púcaros, isopor, repelente, sal, açúcar, vinagre, azeite e outras tantas marombas, os itens.
Sábado chegou o dia, sábado depois do meio-dia, um dia pacífico e agradável, talvez sem chuva no decorrer, e com os pescadores de fim de semana prevendo voltar no domingo de tarde. Se chovesse voltariam antes, mas nem ia chover.
- Porque se chover, meu!... Conte comigo que eu vou! Um programa e tanto, garças-reais, colhereiros, guarás...
- Temos a barraca, temos as redes, temos as lanternas, nem qué!... Homem gosta de deixar e sair pelo mato! Um programa e tanto, socós-bois, arapapás, ciganas...
- Pagamos e viemos embora numa boa, se for o caso! Nesta história o que importa é a liberdade ao ar livre! Um programa e tanto, maguaris, maçaricos-pintados, pituãs...
Chegaram ainda antes do sol cair pelas paredes da tarde, o pôr do sol atrás dos matos, o mato em volta de tudo, laranjeira-do-mato, jurutés, aninga-de-macaco, cuieiras... Uma caixa-d’água um cata-vento na altura do paiol.
Era um local praticamente racional comportado preservado com mamoranas, cacaus-selvagens, sororocas-mirins, corrupiões, caras-sujas em pencas e para onde olhassem com interesse do descobrimento do descobridor. A tal e qual andirobeira fazia um chiado ajudada pelo vento sudoeste.
Apontou convicto o do meio e todos ficaram rindo e esfregaram as mãos, e uivaram em conjunto familiar:
- Ahu!... Olhem lá a lagoa, hein?!, nossos manos anacãs! Árvores ornamentais e céu toldado de nuvens tipo o acapu.
- Ahu!... Olhem aí o lago, hein?!, nossos manos quirirus! Uma galeria com tipo como o cunabi.
- Ahu!... Olhem acolá a sanga, hein?!, nossos manos corocoxós! Uma demonstração de força e verdes da natureza em geral como o cauaçu.   
Seu Catu Canguaretama já estava alerta no pátio da casa para receber os amigos convidados. Seu Catu sua obrigação dona Aramá a prole de casal guria a Caçununga guri o Corema. Aquele aperto de mão à gaúcha: toque na mão, toque no braço, toque no ombro e volta para apertar a mão. Os cachorros normais nesses lugares de propriedades afastadas a Loa o Piquenique o Capiroto a Picardia o Sairé todos do fazendeiro tuxaua rodeando latindo pulando olhando de certo pensando lá nas ideias deles: “Que querem aqui, au-au-au!... estes tais e quais forasteiro alienígenas estrangeiros?!”
Mas os irmãos Corticeira queriam pescar e ir para a lagoa da hidroelétrica antes da noite tomar conta de tudo. Convidassem convidaram que eles viriam vieram. Queriam escolher um bom lugar para acampar, etc. O seu Catu se excluiu da pescaria, e frustrou um pouco os irmãos, frustrou só por um minuto ou dois ou três. Porque então seu Catu tinha construído a represa por causa da irrigação, assim, e manter a água por perto o ouro do futuro próximo a reserva estratégica.
Depois, pensando bem, os irmãos riram e se foram para o rumo da lagoinha antes da noite. Rodearam o banhadão todinho uma volta completinha, aguapés, tiriricas, canaranas, sabugueiros, mucuracaás, cebolinhos-cheirosos... E já meio ansiosos, resolveram ficar ali num ponto e armar a barraca e pronto. O céu com nuvens caretas de embarcações as vigilengas, emboralá! navegando. Era a boca da noite fogo-fátuo mosquitos o sol se escondendo redondo os pássaros triste-pia como sempre e, por que nem dizer, como no princípio do mundo.
Cada um cuidou dos seus apetrechos e pormenores. Depois saíram os três juntos para armar esperas. Mais ainda se sentaram no barranco, caminhando devagar daqui pra lá e de lá pra cá, se sentaram nas lajes quentes, e esperaram as traíras fisgar o petisco. As peripetingas grandes enormes gigantes furiosas os jacundás-verdes, pintados, pirapemas... Uma caipirinha de cana de Minas alambicada em Aracati da boa e para esquentar o santo toma um golinho. Na calma do luar os insetos alados as formigas-levanta-saia faziam do seu país um território federal e bem guardado.
Fosse como fosse, a pesqueira simples comum pequena aconchegante os pássaros treinando e os saguis micos macacos cuxiús saltando escondendo olhando admirados pulando aparecendo saíam embora guinchar. Fosse com que fosse, o vento balançando, salsaparrilha-do-rio, acariquara, paxiúba, pupunharana e as árvores ciliares. Fosse o que fosse, e quase que havia muitas flores frutas sementes de quinquiós, marmeleiros-do-campo, carnaúbas, mururés-carrapatinhos... e uma vegetação espontânea endêmica.
- Nem há nada como comprar um terreninho aqui e fazer um açude, um curral. A vontade é grande de ter um banhado e meio caminho andado para o paraíso. Os bichos nem são questão de Estado, ué?!
- Um lugar pitoresco de coisas e pessoas e bichos domésticos selvagens as caras naturais do lugar, uma malhada. Um sol de dia e uma lua de noite acompanhada de estrelas. A chuva bem vinda porém rápida. Os pássaros passeando. Por que vale a pena fazer línguas, um dois três?!
- E lá um dia matintaperera boiúna iara e nuvens pensantes cerebrais esvoaçantes cheias de ideais ideias imaginação dançar algumas viagens outras reviradas imagens sortidas, um estábulo. Por que conheça e testemunhe pelo museu do Ipiranga, museu do Trabalho, museu da Inconfidência, visagem?!  
Dito e feito, 23:32 e horário. Os sapos coaxavam os micuins carapanãs cabas tucuras formigas-de-ferrão nem queriam deixar o lugar que sempre tiveram a jurupoca nem vinha nem vinham os maparás, tambaquis, bacus, tucunarés... 
O céu nublado meio relampejando para os lados da montanha de Parnaguá. Noite bem fechada mesmo e quem sabe de chuva torrencial diluvial também para os lados de Soure e Salvaterra e Caaporã.
Pensando bem, pensando no coaxar dos sapos-ferreiros, sapos-martelos, os sapos as rãs todos do alagado eram os bandos uma lagoa um pesqueiro. Pensando mais, pensando sempre, pensando nos insetos zumbizantes, os mosquitos até que eram a maior praga de todos os tempos. E a noite muito cerrada nem permitia outro brinquedo a não ser ficar ali esperando as traíras que nem queriam ou nem existiam ou nem precisavam.
O primeiro irmão, da 01:10 às 02:20, suportou firme e depois foi dormir na barraca na barraca. O caçula vomitou a cerveja e pegou febre e começou a bater os queixos, das 03:13 às 03:31, e foi dormir na tenda. O do meio pescou um piau-verdadeiro dois cascudos, das 12:2 às 04:22, total: estava com muita sorte e nem pensava em desistir.
Começou a trovoar forte e chover como nunca, ali pelas 4h e 40min. E foi um sucesso e foi honestamente de memorável pra frente. A barraca ficou pequena, nem aguentou, a água entrou por tudo e molhou tudo e todos. Até os ossos. Correram para o paiol do seu Catu e tropeçando no escuro e rindo para nem chorar. Tudo muito rápido, o tempo a inundação o desassossego.
- O açude, suíte! Havia uma tarde de poucas nuvens no céu passando pra leste talvez mães-de-porco, andorinhas-do-campo, capitães-do-mato... Conheçam a família real herdeira do império do B, irmãos de sangue?
- O sítio, suíte! Nem havia dúvidas e tais e quais se eram os bugios os vanaquiás os anus-brancos... Conheçam as propriedades terapêuticas da argila tauá, irmãos de leite?
- A estrada, suíte! Os matos verdes sempre de março a maio etc répteis arubatãs coió-coiós murucututus jitós urucus... e outros remanescentes. Conheçam a praia de Joanes o ano inteiro, irmãos em Cristo? 
O dia apontou mal e mal uma baça claridade e a chuva continuava sem dar chance aos grandes pescadores de fim de semana. E parecia que nada a pararia. E o domingo nascente já era.
Total mesmo: os Corticeira já de saída atolaram a camionete ainda no meio da estradinha da fazenda, telefonaram para seu Catu que viesse com o trator, e chegou com as juntas de bois.
Na segunda-feira, dia de são pega, conformados os três trabalhando na mecânica da família Corticeira Ltda, ali pegada ao casarão da família, o mais velho lavando a camionete desde os pneus, o do meio olhando aqui e ali vê se nem estragou a suspensão os para-lamas, o mais novo o amortecedor, as rodas, a direção hidráulica.
22-a primeira vila brasileira, São Vicente.
Na praça da Alfândega, perto de tudo que é bom em Porto Alegre, no meio da cidade e da feira de livros da cidade todo o ano e uma vez por ano mês de novembro o começo do tempo quente o prédio estilo neoclássico do palácio do Campo das Princesas e os jacarandás-cabiúnas todos de lilases sorrindo e tal e qual.
O pai do Joel estava perdido e contente no meio da multidão. Tonto e sem conhecer uma pessoa do lugar. Navegava por tudo e nem via nada e espiava tudo. Uma cidade de barracas e casinhas de livros e a multidão cada hora mais fechada.
Assim na sexta-feira sábado domingo segunda-feira, quinze dias, a semana toda, sábado, domingo. Nem conhecia ninguém. Nem foi reconhecido. Este ele nem conhecia, embora dava entrevista a um repórter de tevê. Todo mundo parou ali e o pai do Joel também. Ver a entrevista. Interessante. Ficou olhando, era diferente, a tevê perguntando e a mulher sorrindo sorrindo falando mostrando o livro que já tinha na mão e era um livro de capa verde com uma mulher tatuada enigmática toda tatuada e de braços cruzados sobre um balcão virtual.
Veio o governador vender livros? Veio o prefeito comprar livros? Veio o ex-presidente da cidade de Tailândia cumprimentar pessoas conhecidas? Veio o senador natural de Veríssimo distribuir livros editados pela gráfica do senado? Veio o deputado federal sorrir para a entrevista combinada no telejornal da noite? Veio o cardeal inaugurar livros? Veio o comentarista polígrafo cronista antigo “gosto desta proximidade com meus fiéis espectadores” dar entrevista por acaso ao colega de emissora?
Muita gente junto e tão-somente para olhar livros. Uma multidão mordia picolé, saboreava sorvete de abacaxi, limão, caju... experimentava algodão-doce, rapadura, cocada, pé de moleque... Gente compactando cada vez mais. Uma sede de sorvete com bolas coloridas de pitanga-pequi-seriguela, uma fome de pastel com garapa, uma descontração de chope com cubinhos de queijo ou salaminho, um apetite de mulheres em trajes de vestidos curtos e vaporosos e bonitos e provocantes e verdes ou azuis.
Depois teve até autógrafos, selfies, abraços com beijinhos, tepe! tepe!... Uma fila que ia da rua dos Andradas até a Riachuelo para esperar pacientemente, se assim se pode dizer, o autógrafo do poeta bissexto Politeama Geodesia ator e diretor e apresentador de tevê ex-deputado federal pelo partido Desmico.
22-cidade de todos, Praia Grande.
Nem foi coincidência? Foi um rio, então. Foi o rio Tietê. Primeiro o noticiário da tevê: “Dia de muita chuva em São Paulo, e o Tietê pedindo muita água para alagar inundar de margem a margem”. Segundo e meia hora depois na leitura de “Crônicas de S. P., Um Olhar Indígena”, de Daniel Munduruku: pois o livro conta que tietê significa, na língua dos índios que viviam no lugar de São Paulo, é rio de enchente principalmente uma vez a cada dois anos e obviamente na estação das chuvas. A cidade tomou os banhados os amortecedores do rio tatajuba-do-brejo saracura-sanã flor-de-carnaval japiaçó cipó-tracuá garça-cinza lanceta, então taí!
Uma avenida 25 de Julho com rua Rolante em Dois Irmãos, e fui atendido?
O gliptodonte morre cedo na manhã ensopada pela água da chuva. Depois, logo morre sem deixar vestígios. Como num dia qualquer e sem jardim? Está despejado colocado acomodado acamado num camucim artesanal com riscos marajoaras. E sua lenda e sua alma e palma viram automaticamente uma fumaça lenta lenta sem forças azulada quase sem sombra. E cem por cento. Que voa ao contrário da gravidade no rumo absurdo do céu lá pra cima. Demora os dias e noites esta subida? O gliptodonte é uma branca nuvem-tatu-gigante. E lá alto demora meses até alguém decidir o que fazer. Quando decidirão pela reencarnação pela recompensa pela revolta? Escolherão o dia no mapa astral. Então, descerá retornando após todos os anos assim alguns anos preso à paciência imaterial incolor inodora insípida da nuvem astral. Voltará voando. Procurará o lugar de Sangão. Voltará com os trancos baques encontrões boléus? Nuvem ali acima do planeta. Para interpretar com sua presença um personagem aqui na terra firme. Qual será? Onde hoje moram os de Nova Ibiá. Na pele de um ser vegetal de nome genérico escolhido ao acaso da espécie dos jacarandás-paulistas? Dos saguis-de-coleira? O lugar chamado hoje em dia de Campo Erê. Num lugar perto de um rio como rio Uatumã? Depois aprenderia a dar frutos? O lugar povoado de Abel Figueiredo. E pular de árvore em árvore? Ou um vim-vim e aprender tudo de novo. Ou um anambé-azul e revoar tudo de novo. Depois aprenderia a voar? Ou um socoí-zigue-zague e saltitar tudo de novo. O lugar perto do rio Guaió que banha Adustina, Indianópolis, Caiçara... Quem sabe mesmo um apapá já saindo sabendo nadar desde criancinha. Depois aprenderia a falar e ou escolhendo palavras.




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