sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 7




            E a mãe de Alice, e a avó de Marcelle, sozinha e decidida e muito calma, mergulhou no mar e nunca mais voltou. Mãe-avó se enamorou do mar, se embalou no mar e sumiu por dentro do azul-marinho. Isso estava acontecido.
            Dois três dias depois, numa manhã sem anúncios, numa manhã de engorda, Alice resolveu dormir mais um tanto. E desaguar no mar? E enveredou por um mundo de sonhos e mares profundos.
            Todos sabem, os sonhos são elementos de vapor, fumaça, névoa, sereno ou nuvem, e se discute se os sonhos são deste planeta.
            Alice se revirou na cama e imergiu no mundo interior, a casa tremeu e flutuou como pluma embalada no ar, os ruídos foram apagando, e o mundo, e a memória, tudo afundando no sono, tudo apagando no tempo perdido, numa marcha à ré. O elefante, ou anta, da memória vinha na contramão derrubando cercas e pulando valas, atropelando vira-latas, pegando os homens desprevenidos no meio da rua, passando por cima, trepidando com as casas, casinhas, ruas, carros, árvores da pracinha.
            O mundo perdeu a cor. O preto e o branco em câmera lenta. O não, a palavra não, o não era um susto. Não havia história alguma, de nada. Tempo perdido.
            Ao meio-dia, Alice despertou com horror, se olhou no espelho com dores na alma, como se acordar e seguir vivendo fosse pouco e não valesse a pena. Alma naufragada.
            - O meu coração, confundido com minha alma, não vale a pena. Cada dia sou diferente.
            Alice andou pela casa tentando reconhecer o ambiente. Aí, os objetos lhe viraram as costas. E uma surpresa muito louca quando abriu a porta para o corredor do oitavo andar do prédio. Entre ela e a escada ou o elevador... uma cadela emplumada. Cadela fantasiada para o carnaval? Uma cadela de lenda, mitológica, de história sem fim. Cachorra de muitos seios. E de orelhas rasgadas. Cadela sempre cadela. Cadela de língua de fora. Cadela de lábios roxos e dentes fortes. Cadela de rabo entre as pernas. Cadela de olhar fixo.
            - O meu caminho das pedras, jogando pedras, carregando pedras.
            Alice sempre teve horror às cadelas emplumadas, por isso aquela uma. E a cadela emplumada baixou a cabeça e riscou o chão com a mão, pronta para o ataque. Alice voltou correndo para dentro do apartamento, onde se trancou. Precisava de um banho de descarrego, arruda atrás da orelha, sal grosso pelo corpo todo, acariciar o muiraquitã.
            E Alice se enfiou debaixo das cobertas, e não conseguiu desligar o sonho ou o pesadelo. Chegou à janela para pedir socorro? Lá fora, na rua em frente ao prédio, a cachorra emplumada vigiava como uma jacaré nervosa, séria, determinada, infalível, azeda, prenha, estátua, sentinela.
            - Não é simples sonho. É uma sorte muito abichornante. Careço me benzer.
            A situação estava já muito crítica, e sem hora, dia, mês e ano para acabar. Uma cadela fila das grandes, faminta e sedenta.
            - Por que a jacaré silenciosa quer me sacanear? Por que me selecionou? E é bem possível, quase certo...
            Então, muito atrapalhada, Alice se sentou no sofá vermelho para tentar pensar. Que sonho era esse? Onde o erro? Se olhou no espelho pela primeira vez, não era Alice, era Alice, não era Alice, era outra. A mesma Alice inacabada. Braços cruzados duros de frio. Alice queria trocar de nome: se chamar Ana Paula, um exemplo. Sozinha mesmo, se sentindo muito só, Alice comunicou:
            - Não, isso não quero e não dá e não entendo.
            Alice balançou a cabeça tentando jogar para trás os cabelos rebeldes, se ergueu num esforço, foi até a janela e olhou lá fora, não mais a jacaroa silenciosa ou a cadela emplumada. Agora uma pavoa de todos os tons de verde, sem o belo leque da cauda, e com passos de sentinela medidos lentos esquisitos.
            - Os meus dias... Por que tem que ser assim?
            A pavoa multiverde, de pés horríveis, estava lá na esquina, vigiando igual dor de consciência, e Alice, para disfarçar, pegou uma revista de culinária, de moda, de fofocas, e ficou folheando.
            - Me deixa perdida no espaço!
            Durante a madrugada, Alice acordou ouvindo já passos de formigas gigantes, faziam cerco ao apartamento, Alice foi lavar o rosto, as formigas vinte e quatro horas não davam trégua.
            - As formigas adoram doces. As formigas sabem até onde podem ir para dar tempo de voltar. As formigas sabem quando vai chover. As formigas estão em toda parte.
            Uma hora da tarde, Alice, pronto!, levitou deitada como um faquir excelente de desenho animado, se viu leve leve como uma pluma, um floco de algodão, assim, subiu no ar como balão, bateu a cabeça no teto, mais leve que o ar, tentou bater asas, dar braçadas como astronauta num ambiente sem a força da gravidade, e continuou flutuando.
            Terras de gelo, terras de verdes mares, terras que pegam fogo, terras de bota fogo, terras minerais sem gás e sem gelo, terras sem árvores, terras de arvoredos, terras anônimas, terras lunares, terras de ninguém, terras grandes, terras paradoxais, terras de Isabel e Leopoldina - as princesas altezas.
            - Quero perambular por todas as terras. Quero as cidades e é pouco. Invento como inventa o vento. Invento sonhar para abrir o meu destino.
            Aí, quando Alice acordou, ou sonhava que acordava, se viu sentada, pacífica, no sofá vermelho da sala. Foi até a janela mil vezes e a fêmea de cavalo-marinho, enorme, lá estava no jardim e boiando como uma pandorga acima das árvores. Era um balão ou um zepelim. Era uma pandorga estufada.
            - Alguém precisa me explicar isso, né!
            Sentiu a coceira nas mãos, nos braços e nos pés, e deduziu que breve nasceriam tufos de capim-gomoso pelo corpo. Se deitou no chão, se enrodilhou no tapete como uma ovelha descartada.
            - Não quero virar porca-do-mato, anta ou capivara, é.
            Bem, após o desaparecimento de mãe-avó, tudo mudou na vida de Alice e Marcelle, tudo mudou, nada mudou e mudaria ainda mais. E os pesadelos de Alice eram normais, iriam simplesmente continuar e até aumentar, quem sabe mudar.
            Alice pegou o mapa de São Paulo e olhou o mapa do Estado de São Paulo. Muita população, muitas cidades. Queria sair para fugir melhor de si mesma e dos mistérios profundos. E Alice cerrou os olhos verdes e apontou o dedo para o mapa, fechou os olhos e desceu o dedo, caiu em Araraquara.
            No dia seguinte, Alice e Marcelle embarcaram para Araraquara. Uma tarde quente e cheia de calor, calor nos olhos, calor nos ouvidos, calor nos pés, calor no pescoço, calor durante o dia inteiro.
            - Todo este país só para nós.
            Deixar para trás o que não se quer levar, para não voltar nunca mais. E a fuga do Rio de Janeiro foi naquela mesma tardezinha de calor sufocante, em que Alice também deixou cair os braços ao longo do corpo. Alice tentava fugir do seu coração nebuloso e vazio. O céu estava muito cheio de luz, parecendo mesmo incendiado de vermelho.
            - Me deixe em paz!
            O ônibus pela noite chuvosa se sacudiu como em sonho, luzes de carros passando na contramão, cidades esquecidas no meio do caminho, pequenas paradas em portos, aeroportos, rodoviárias, restaurantes de beira-estrada.
            - O que nos esperará?
            De quem seria aquele lugar com açude e cata-vento? A quem pertencia aquela cidade, capital do doce-de-abóbora? Quem fundara aquele arraial com estátua de minerador na entrada? Quem viveria e plantaria cana-de-açúcar naquele vale verde? Quem dormiria naquela casinha com moto vermelha na porta da garagem?
            Alice sentia muito que precisava reaprender e estudar tudo de novo, tirar um novo curso, se reciclar, ler outras ideias, conhecer mais pessoas. A cidade escolhida no dedo, boa cidade, que cidade?
            - Todo lugar não será sempre a mesma coisa?
            E ela mesma se entupiu de perguntas:
            - Que que procuro? E se eu morresse? E se eu não jogasse e acertasse na mega-sena?
            De ônibus por dias, voltas, idas e noites. Viajar para chegar, ficar um tempinho, voltar mais tarde, continuar fugindo, nunca chegar nem partir.
            - Não danço, não aplaudo, não corro, não rio, não canto, não sonho, não voo, mas grito e quebro todos os vidros do ônibus.
            E Alice provocava a aventura, não só ela e Marcelle, muitas pessoas viajavam, esperavam nas estações e todos buscavam o acaso no mapa, seus perfeitos incertos ou incertos perfeitos.
            - Será vexame? Será vergonha? Será apenas passatempo?
            O ônibus balançou, parou... Todos desembarcaram. Uma parada para lanche. Era o quê? Um restaurante beira-estrada. As pessoas estremunhadas, andando meio flutuando, uns com chinelos de pano, pisando sobre sonhos, tudo num silêncio, noite estrelada, Alice surda, meio do estradão, Alice tonta, Alice se sentiu com vontade de não sabia o quê, voando no vazio, Marcelle nos braços, uma mão de água pelo rosto, tudo enjoado:
            - Sou mesmo uma cachorra pré-histórica, cachorra das cavernas, cachorra cavernosa, cachorra emplumada, cachorra alegórica.
            Outra vez pelo caminho do mapa, pessoas à beira da rodovia ofereciam galinhas caipiras, leitões caipiras, ovos caipiras, festas caipiras, músicas caipiras, cabritos caipiras, sotaques caipiras, turismos caipiras, ecologias caipiras, paisagens caipiras, chapéus caipiras, fotografias caipiras, feitiços caipiras, flores caipiras, rios caipiras...
            Alice mostrou a Marcelle a placa de entrada da cidade de Araraquara:
            - Chega-se. É esta cidade. É agora.
            - Que arara o quê, mãe?
            Muitos que chegaram sozinhos e se foram carregados de bagagem. Outros, com pouca bagagem ou muita bagagem, encontraram alguém esperando. Alice segurava Marcelle pela mão, a mala grande na outra. Alice estava sensacionalmente vazia. E resmungou tentando se convencer:
            - O vento que tem aqui também. O vento que balança as ruas. E tudo que acontece é bom.
            Alice e companhia, então, chegaram na cidade que o dedo apontara no mapa. Perdidas no movimento. Um hotelzinho a uma quadra da rodoviária. E Araraquara era mesmo uma arara rara, um nome de brincadeira, um apelido engraçado.
            Naquele mesmo dia, Alice e Marcelle já saíram para ver as ruas da cidade, ruas próximas da pensão. Casas entre muros altos, árvores já maduras, cantos de corruíras, gorjeio de sabiá-laranja. Parque Pinheirinho. Ônibus para a universidade Unesp. Praça com árvores gigantes e nome de ex-presidentes nas avenidas. Caixa eletrônica.
            No hotelzinho havia uma cadela poodle que namorava um gatinho siamês. Este tinha um olho azul e o outro verde. Ela bem mais alta que ele. À noite ficavam num canto abraçados, o gato chupando as tetas secas da cadela. A cadela tomava banho uma vez por semana. A cadela não podia deixar o gatinho em paz. Alice não enxergava muito bem, não ouvia muito bem, não comia muito bem. Marcelle queria pegar o gato, mas tinha medo da cadela. Marcelle queria brincar com a cadela, mas tinha receio da dona do hotelzinho.
            - Não estamos em férias. Vou aprender do jeito que o acaso me ensinar.
            O destino não tem culpa? Vai saber!
            Sem fama, anônima, vazia, acompanhada da filha, passo a passo, Alice passeava pelas ruas de nomes de Araraquara, Presidente Vargas, Washington Luiz, Ibitinga, bairro Jardim Universal. Cidade rodeada de plantações de cana-de-açúcar. Automóveis quietos e gentis, crianças calmas e estudiosas, ruas largas e arborizadas, ipês-amarelos, ipês-roxos, paineiras e um pinheiro-do-paraná que não se parecia com nada deste mundo.
            Alice não sabia muito bem jogar o jogo. Perdia no peso do pão, perdia na cor da banana, perdia no cheiro do queijo, perdia no tamanho da laranja. Como poderia saber?
            Cada manhã, Alice levantava com planos e percorriam uma nova rua de Araraquara. Sentia que era difícil assentar praça. Um paraibano, hóspede do hotelzinho, chegara à cidade com promessa de emprego, foi conferir o endereço, não encontrou nada, nem casa e nem ninguém, só terreno sem dono, e outro hóspede foi posto na rua em noite de chuva porque o cheque não valia nada. As pessoas tinham cada sorte ao chegar a Araraquara.
            - Papagaio dura oitenta anos. Uma formiga não pode passar dos vinte dias. A borboleta é de três semanas ou seis meses, no máximo.
            A dona do hotelzinho confessou ela mesma, mais de cento e vinte quilos, suas costas estavam marcadas do cinto do marido, ex-marido, namorado, o sangue espirava alto no flagelo, ele batia com o cinto e às vezes de fivela, as costas marcadas de cicatrizes como lombo de burro de carga. O tal amante lá dela era viciado em crack, já estava preso, e da cadeia ele mandava cartas perfumadas e empolgadas e com desenhos de corações trespassados, pingando sangue, desenhos de flores, margaridas amarelas, e pedia perdão, e ela lhe presenteava com perfumes e roupas limpas, tinha um orgulho debochado ao exibir as longas cartas que recebia, e cantarolava a primeira música que dançaram juntos num bailão da periferia, “quando eu olho nos teus olhos, quando você olha nos meus olhos...”
            - E se eu me candidatasse à vereadora?
            Um outro tipo de hóspede do hotelzinho, era aquele velhinho de mais de setenta anos, andava o dia todo meio perdido, sem o que fazer ou desfazer, pigarreando e resmungando, cantando hinos religiosos, brigando com as faxineiras, brincando com as faxineiras, assistia telejornais na noite, olhava desconfiado para os hóspedes fumantes, cuidava de dois hamsters na gaiola que não tinham ânimo nem para miar.
            E durante um almoço acabaram conhecendo ainda um empresário de tantas e tais confecções, prédios alugados e lojas atacadistas, viajara Europa, conhecia já todo o país, e bebia cerveja preta amarga.
            - Tais e tais modelos, compreende?, já desfilaram pra mim. Um dia ainda namoro aquela gaúcha... como mesmo o nome?, ah, isso mesmo, a Gigi, muito minha amiga, já desfilou pra mim, Gigi cheia de letrinhas, sopa de letrinhas, confusão de consoantes, é.
            Disse mais, disse ainda que era amigo do senador Tertúlio, da família toda do senador Tertúlio, e emprestara dinheiro para o senador Tertúlio se eleger ou se reeleger. E provocava a assistência:
            - Quanto vocês precisam em espécie, hein, meus irmãos?! Precisam de mil reais, dois mil reais, etecétera reais?, só falar, manos!
            Alice sabia que uma hora teria que acordar. Tangerina, mulher parecida com a bergamota ou a laranja.
            - Me deixe no branco!
            As duas pararam na frente de um cartaz: a garça-branca que tentava engolir o sapo roxo; o sapo verde que apertava a garganta da garça-roxa.
            - No fundo do poço, e cavando, e é pouco.
            Tinha um vendedor de isqueiros descartáveis. Recebia dois três mil isqueiros da zona franca de Manaus e revendia no interior de São Paulo. Era morador de Ribeirão Preto. Marcelle, um dia de manhã bem cedo, o viu num canto mergulhado em isqueiros:
            - O tio vende isqueiro pra quem?
            - Todo o mundo. Quer me ajudar? Vê se tem um que falha.
            Ele se chamava Henrique, natural de Sorocaba, morava com mulher e um filho em Ribeirão Preto. Ambulante vendendo isqueiro ou outra coisa qualquer. Conhecia o interior do Estado todinho todinho. Ficava um tempo num lugar e logo mudava. Pousava numa cidade e fazia os bairros da cidade e as cidades próximas. A mulher era surda-muda. Telefonava para a vizinha deixando recado, ou telefonava para casa quando o filho de dez anos podia atender.
            Alice trocou conversa com um casal de hippies, viviam iguais ciganos dormindo em barraca, viviam igual hippies vendendo bijuterias, já percorreram todo o país.
            - As distâncias são legais, hein?!
            Respondeu o rapaz:
            - Rondônia, o último Estado que nos faltava. Voltamos de lá o mês passado.
            - Eu mesma preciso pôr aventura nessa minha memória de nada.
            - Se você põe paz no coração, todos a sua volta serão do bem.
            A moça completou o rapaz:
            - Em Brasília vimos, com nossos próprios pés, um pássaro gigante e bem planejado. Em Belém ouvimos dizer de uma cobra gigante por baixo da praça de castanheiras-do-pará. Em Cuiabá aprendemos antigas lendas de minas de ouro e pedras preciosas nos porões das casas antigas. Em Florianópolis conhecemos um túnel secreto e jesuíta que desce do morro da Cruz até a baía. Túneis de fuga ligando as igrejas de São Luís, Maranhão. Em Porto Alegre a índia Obirici tupimirim chorou a perda do índio Upatã para a melhor amiga, Uirá, e encheu o Guaíba.
            O dia nasceu junto com o sol. A luz entrou pelas cores e formas e ruídos mais variados. O dia bonito visto e revisto por todos.
            A cadela poodle coçava a cabeça insistentemente, o gatinho tremia de frio ou fome ou sede ou medo, a dona do hotelzinho fritava bolinhos de chuva para o amante na cadeia, o velhinho dos hinos religiosos lia jornal de ontem sentado na espreguiçadeira, o amigo do senador Tertúlio já viajara para Aracaju, o Henrique dissera ainda ontem que voaria para a região de Campinas, o casal de hippies foi embora para sempre e sem se despedir.


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