terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 30




Que D Haja

            Com certeza sonhei. Um pesadelo de náufrago, talvez. Muito estranho e surrealista, suponho. Desconcertante abichornante, também.
            A noite que descia com a leve madrugada antemanhã, e mais poucos minutos já subia o dia na aurora despertada crescida. O ano natural de 1983. O dia o mês que nem mais vejo nem os revejo.
            Eu sonhei um peixe fisgado no anzol pescado na tarrafa se debatendo na laje fora da água corrente, chegou um cachorrinho e farejou o peixe, apareceu um homem (que se fosse eu mesmo sem dúvida) e cuidou que o cachorrinho nem mordesse o peixe com linha e tudo.
Pouco ou nada mais nada que pouco. Um sonho humilde simples. Que nada levava nem trazia. Que fosse o que fosse.
Floresta de verde iluminada ondulante verdes atenciosos e paisagem bem muito devagar ondulada onde pássaros desassossegados anapurus em bando, que-reu-reu! que-reu-reu!... passavam em fula-fula para os matos e de longo a largo e mais o crepúsculo vesperal e rios e árvores e com testemunhas e montanhas e músicas limpas anônimas.
            Tudo correu como o rio as nuvens o sol as aves os rios as árvores as pessoas nos seus automóveis para o trabalho a manhã correram como o rio.
            Depois, bem logo em seguida, o peixe foi um peixe-cachorro, metade peixe e metade cão. Continuou a saltitar na laje quente fora da água fria pedindo festa fazendo pirraça. Pequeno animalzinho pouco menor que o mínimo.
            Digo que fui insensato antes hoje sempre insensato de insensatezes. Foi o que foi.
            O ano lunar e o ano solar.
Se eu mesmo apareci e vi aquilo tudo e me surpreendi me debatendo em pleno sonho sono. Seja o que seja, pensei.
À hora em que saía a se matricular o tal e qual sol do dia a dia.
                                                                       ***
            Pois nem que era o dia com a noite de NS de Fevereiro.
Enigmática entrou sorrindo na sala de aula, sorrindo pelos cotovelos, sorrindo até os joelhos, a boca aberta de cachorrinha e de orelha a orelha, polo a polo, vau a vau, prática a prática, sol a sol. Rindo com a cara os olhos a boca os lábios pintados de batom lilás as ancas os dentes aperolados. E saltitava como passarinho brincando na poeira, pipira-de-máscara, saíra-sapucaia... jacamim-das-costas-verdes ave de Rondônia. Vestia, assim pelo menos, bermuda cheia de bolsos verdadeiros e falsos, botões grandes e correias ou cintos com fivela. Nem parou quieta no lugar. O rabo de cavalo balançando igual um badalo.
            A torcida do grenal comentou, vendo aquilo:
            - Ela tá que tá, meu!
            Ao que todos riram o tal e qual largo rir, ri-pi-ri! pi-ri-pi!...
            E tinha e estava toda saltitante, adiantada, respondendo com risadas e gargalhadas, tranquila no seu patamar superior, olhos moços e quebrados, uma flor de caparrosa plantada no cabelo - seu enfeite favorito.
            O mundo que é pequeno e a D pertence, sempre.
            Enigmática tinha sempre um comportamento que sempre admirei em certas raras pessoas de narizes empinados, ou seja, ela sempre de nem olhar para os lados, nunca olhando para os lados, se era dia ou noite era, sempre andando em linha reta, sempre organizada, se aperfeiçoando, sempre completamente superior e autossuficiente. E sempre o meu parabém.
Muitas vezes, nem poucas, muito linda, e tão bela e cabelos soltos. Cabeleira de mico-leão-dourado, cabelos como pegando fogo fogo.
            Vamos e venhamos, pois indo ou chegando e a olhos e à face de todos e fosse à hora que fosse e custasse o que custasse e o porte o mesmo porte.      
                                                                       ***                                                                
            Meia-noite, uma e meia, dez ou doze anos antes de se chegar ao terceiro milênio. O profeta que abriu os braços na novela bíblica de tevê?
E do sol solar e da lua lunar, sem tir-te nem guar-te.
Se eu acho que tinha então eu tinha uma ou duas almas mas nem sei onde vim parar.
A noite profunda, sem vento, nenhum motivo para chuva, nada de chuva, nenhum relâmpago, nenhuma trovoada, nada de macaxera, mula-sem-cabeça, jurupari, caipora, etc. A casa na quietude. Uma casa na quietude e ali no bairro Coroados. Somente os tique-taques de um relógio na parede da sala de visitas. Os habitantes recolhidos aos respectivos aposentos e cômodos e quartos e dependências.
Quando senão quando e o que houve o que houve e escutou ouviu separou se assustou. Até que recomendou noticiou advertiu e que avisou, avisou.
Foi quando pela última vez a família Triquestroque (só se levanta quem acorda) se achou toda reunida sob o mesmo teto.
E numa noite chuvosa como todas as chuvosas noites, os moradores e ninguém tinha saído de casa, bem meia-noite chuvosa, a moça Amapola foi assassinada. A polícia então assim se saiu com essa de que o assassino ainda estava entre eles e os moradores do prédio. Aposentos da vítima em ordem cama amarrotada ferimentos no corpo os mais importantes na cabeça. A Amapola ficou secando o corpo até secar corpo e pedir trocar corpo e transferir corpo. Amém.
            No sótão, quarto improvisado para hóspedes de última hora, o noivo - meu primo Imaruí, que pousava ali todas as noites de sextas-feiras e sábados - separou quatro camisinhas interessantes e a pedido, uma hortelã, uma açaí, caramelo, pitanga, e já estava atento, cuidadoso e de orelhas grandes também todas em pé: a vovó - única a se deitar e manter a luz acesa -, cuidou do silêncio da casa e pensou o que fazer até pegar no sono no sono, que custaria ainda: a gata Fogoió cruzou o pátio, vazou para o porão, acendeu os faróis procurando o rato doméstico Anônimo: o pai, roncou; a mãe Macela pensou, era uma vez o náufrago do Sardinha, os índios macamecra (ou foram os carapanã, os paumelenho?) comemoraram o seu Sardinha, os santos pajés beberam chás venenosos e fumaram ervas poderosíssimas que levavam a alma para viagens transcendentais, imagens psicodélicas, paisagens abissais.
A vítima caída no tapete da sala de estar estava nua mal enrolada num quimono saída de banho, onde decerto fora surpreendida. A polícia fez os procedimentos de praxe enquanto que o detetive particular seu DP foi às investigações às diligências e aos autos propriamente ditos, em sigilo profissional.
            Até hoje se procura respeitar, na área da marinha, umas superstições uns certos costumes que vêm a ser normais e seguidos à risca. Antes de uma embarcação entrar no mar no rio tinha lugar o batismo. Escolhiam uma menina da vila para madrinha. Uma rara e pequena belezinha para nomear o barco o navio a fusta. De repente ela podia dar ou emprestar o seu próprio nome ao veleiro. A embarcação batizada se chamaria daí em diante, por exemplo... Amapola. A menina Amapola seguiria a sua sorteada sortida sorte. O barco Amapola navegaria os seus rios caudalosos mares oceanos. Quinze anos depois, quinze anos após, perto dos nossos dias, um marinheiro de nome Pitu Sururu pensava na menina origem do nome do barco, Amapola, onde era um embarcado. Tanto a pessoa Amapola como o barco Amapola correram, navegaram. O pisar de uma e o deslizar de outro.
            O delegado de polícia nem olhava pros lados. Eu prefiro é a atitude de seu DP, que se detinha em detalhes em olhar pros lados em farejar a mínima pista. Olhar para os lados nas investigações sempre é um procedimento típico dos detetives particulares, e eu aceito concordo e até prefiro e aprovo.
            O noivo Imaruí, silencioso na escadaria, prestou atenção em tudo na escuridão, farejou o ambiente, preocupado que alguém aparecesse, suando nervoso ansioso excitado: Curiango-Tesoura galreava de quinze em quinze minutos vigiando a noite pousado no galho da coajinguva num galho seco e estratégico e a propósito e a preceito: o caçula Mandubé, no seu quarto de dormir, assistia o filme de terror comia biscoitos acebolados bebia refri e tomava sustos: o Imaruí girou a maçaneta e penetrou no cômodo quentinho cheiroso pouco iluminado de Amapola: a vovó Piracanjuba sentiu as horas repuxarem na clavícula esquerda, tossiu, trouxe a mão ao coração, sentou na cama esperando cabisbaixa as horas passar e que demorariam de-morariam: a garota caminhou em câmera lenta pelo corredor, as meias nos pés para nem ser percebida, colou a orelha o ouvido na porta do cômodo da irmã Amapola, prestou toda a atenção da sua sorte até ali até ali: o cão Jejá resmungou um sonho de osso, estirado na porta da frente da casa, ouvidos orelhas alertas sempre: a garota Tipió, magrinha, bonitinha, calminha, peitinhos, em pijama de bichinhos de quadrinhos, apertava a orelha esticava o ouvido para o interior do quarto da irmã.
            Através do janelão envidraçado, o luar e a brisa criavam seres irrequietos e fantásticos e inúteis na face do espelho do interior da sala de visitas. O espelho no canto da sala, a sala no interior do espelho e mais. Por fora tudo calmo e mais o vento e por dentro da casa dos Triquestroque outra coisa ainda rolava.
            Um detetive particular deve ser dos bons, deve ser      despojado, atarefado, sempre fatigado, sempre alerta, como era seu DP, insone, desleixado, solitário, mulherengo, bagunçado e que gostava muito de café preto cigarros fumava um cigarro meio diferente exótico bebidas quentes destiladas.
            Nunca se sabe mas todos são suspeitos, segundo acreditavam pensavam e falavam o delegado de polícia e o próprio seu DP. Amapola morava sozinha, por hora, e nem tinha sequer um bichinho de estimação uma cadelinha, um gato de nome exemplo Marujo.
            O leitor deve concordar que todo detetive particular tem seu cacoete ou seus cacoetes e manias e isso pode ser bom e se repetir até a exaustão no correr do processo da história, ou seja, um detetive particular deve ser como era seu DP com cacoete de acender um cigarro no outro fumar três maços por dia da marca Tíbi uma pista a ser investigada sempre engatilhada com medo de morrer de câncer dos pulmões e isso sim já fica aí pelo meio do caminho andando.
            Um dia de chuva, um dia de sol, talvez um dia assim assim. Amapola nem lembrava. Amapola nem reparou. O destino aquele dia era a bíblio pública municipal no colégio NSAparecida das irmãs do SCJ. Era a primeira vez. Trabalho de aula em grupo. O corredor azulejado de azul, o piso de ladrilhos xadrez verde-vermelho, em frente subindo um lance de escada, à direita outro lance, e a porta da biblioteca Mário Quintana. O cheiro do lugar ficou para sempre na memória e era cheiro de papéis em livros guardados. A palavra escrita no cartaz da parede de entrada: “Silêncio!” Numa escrivaninha estrategicamente colocada, a funcionária dona Sarobá observava e cuidava o movimento assim por cima dos óculos estreitos e pesados como manda o figurino como é da caricatura. Havia a primeira sala enorme apinhada de tomos por todos os lados e altos e estantes. Amapola se sentiu num outro mundo naquela primeira visita e nas outras nas outras. Os estudantes já iniciados já guiavam os xucros. Livros gigantes de enciclopédias sobre as mesas de consulta, cadernos e canetas e lápis, olhos, cotovelos, cabeças replicantes. Livro ilustrado, ponte do Guaíba, Lençóis Maranhenses, praia de Boa Viagem, Garopaba, morro do Segredo, rua do Senado... Conversar, podia? Namorar, podia? Mas somente com os olhos, coxa com coxa, ombro com ombro, mão com mão. Rir, podia? Piscar, podia? Vontade muito apertada de rir. A bíblio tinha a sua legislação particular. Minutos depois, talvez hora, horas, Amapola teve a chance de investigar outras dependências adjacentes coligadas correspondentes que nem eram assim tão largas e amplas. Então, a partir daquela data e na semana que veio na sequência causa e consequência...
            Até porque ele seu DP nem acreditava em coincidências. E alguma peça importante no tabuleiro, esta difícil de avançar. A vítima trabalhara no conglomerado Curupiá de importações e exportações como secretária do diretor-presidente o senhor Panará Muiracaua. 
            Ao sair do prédio onde morava, seu DP cuidava os espelhinhos retrovisores para verificar com certeza se estava sendo vigiado seguido espiado atocaiado. Sempre tinha à mão a sua boa e eficiente automática de quinze balas para as emergências, porque essas tais e quais coisas nem avisavam nem mandavam avisar e podiam sair caro e pela hora da morte.            
            Ninguém desse mundo empurrara Amapola para a beira dos estudos dos cadernos de anotações. Os livros de leitura. Tinha gente que possuía livros à mancheias e nem lia uma página. Poucos como Amapola que nasceram para a curiosidade curiosidade e curiosidades... Poucos e nada era a mesma coisa. E mais ou menos como a professora de português, dona Caraúna, que nem soube e nem saberia e nem acreditou que Amapola pudesse vir a ser uma leitora contumaz? Ora ora, ela contumaz significa também teimosa, obstinada, reincidente, viciada, doente da cabeça e futuramente dos olhos do juízo. E que nem chus nem bus tanto tanto à altura das nuvens. Amapola nunca foi incentivada a gostar de quaisquer tipos de livros e leituras e estudos. Uma pena. Uma sorte. Um acaso. Mas Amapola passou a gostar por curiosidade e por conta própria. Nunca precisou que ninguém lhe desse um livro de presente. Uma igual a outro outra igual. Amapola gostou tanto da descoberta que viciou que criou um mundinho à parte. Nem se gabou nem se desgabou. Qualquer coisa, enfim, como acima das nuvens, um outro planeta, um outro tempo, umas idas e vindas a mais. Maranhão: rio ou mar que corre direto pro rio ou mar.
            Isso nem tranquilizou seu DP. Perdeu tempo com a viagem cansativa até a cidade de Campestre da Serra, e nada, pista falsa. Houve outro assassinato, um amigo da vítima, seu Ubiratã, mas este foi, achou seu DP, uma queima de arquivo.
            Caminhava devagar pela rua do bairro antigo, procurando prestar o máximo de atenção em tudo que o cercava praça Tiradentes casario antigo das décadas. O plano de seu DP era colocar em prática o que pretendia e isso já no começo da noite sem perda de tempo. Ruas estreitas casas antigas zona do meretrício cracolândia lojinhas de importados.
            Amapola caminhou incauta rumo aos livros de lazer de entretenimento de ficção aventura fantasia de fantasia que até se perdeu esquecia os temas da aula. Poderia até se dizer que foi como um chamado da sorte desde o além um grande acaso enorme coincidência... e que por fas ou por nefas, etc.
            E analisando friamente os fatos, estava numa rua sem saída. E teria mesmo de seguir aquela pista até o fim, a única que aparecera que lhe parecera a ele seu DP consistente. Prudente, nem comentou o caso com ninguém.
Uma usual colega, a Canguaxi, iniciada nos labirintos e escaninhos da biblioteca, a informou logo no primeiro dia de saída ou de entrada:
- São livros de romances, são livros de poesias, livros de aventuras, livros de terramarear, são de histórias impossíveis de desvendar. O melhor é que se pode levar para ler em casa em Casa em CASA. Tá certo, tô certa, minha nega?!
- E como pode alguém fazer isso escrever e viver e existir e reviver em nós na gente, hein, minha capitã?!
- Quem conta cria e aumenta uma lenda, minha índia tabajara.
- Aparece o mundo e o planeta convidativo, hein, minha beiinhã.
E Amapola sacou tudo, retirou um. Emprestou outro. Foi trocando com a estante muito e muitos livros. Lia o título, o autor, admirava a figura na capa, saía abraçada, folheava: “Onde fica Xapuri e quando é que vou visitá! De onde vem Tocantínia e quando é que vou visitá! Já li sobre Lajeado e aonde vou visitá!” Amapola teimava já com a indecisão da escolha, e que precisava de tempo para se decidir, passear diante das prateleiras. E caiu na sua mão debaixo do nariz um título: “Amapola”! Este mesmo. E esse foi seu primeiro livro de leituras aleatórias: um livro com título em seu próprio nome, ma-rrra-vi-lha!! E mossas eram mossas. A história contava tudo que uma tal de Amapola acontecia lá pelos seus sete, oito, nove, dez anos. Uma garotinha que nasceu em Goiânia que foi morar já bem cedo em Paranaguá. E a cidade era porto, Porto, PORTO!... O livrinho contava ainda dos passeios nas praias da ilha do Mel, contava a dor de barriga de tanto comer jabuticaba quente, etc., contava que aprendeu a cavalgar no cavalo castanho-claro de nome Timbu, até contou do batizado de um barco de pesca que levou seu nome: “Amapola”.
Já possuía reunidos alguns indícios que lhe permitiam armar uma ofensiva a partir daquela hora. E o primeiro a ser abordado entrevistado crivado de perguntas sabatinado seria o porteiro do bar Louva-Deus. Disso seu DP tinha convicção. E se encontrasse ali por ali ao acaso e ao deus-dará a apetitosa Juçara... bem, aí, aí, ia ser a sopa de mel, torceu seu DP.
            Por consequência dos livros e tantos livros, Amapola por aqueles dias de namoro com o noivo Imaruí, já usava óculos e, entre outras coisas, respeitava seus dias férteis pedindo ao noivo Imaruí que usassem camisinhas lembrando frutas doces coloridas engraçadas diferenciadas e que tinham algumas modernas fluorescentes. E foi ficando cada vez mais próximo surreal emocional internacional. Tanto que tirou de uma canção de rádio: “Chegou chegou a primavera e a manhã de nós dois”, o tema do dia da noite.
            A Aranha-das-Casas - uma aranha seis olhos e simples e pequena e doméstica cor chocolate - tecia uma teia tênue genial geométrica ali no ângulo da sala de estar de visitas, bem no alto do teto, quase longe da vassoura: o pai, zurrou; a mãe pensou, prepararam o bispo Sardinha no espeto, fogo alto, e raízes e frutos do mar e abóboras e cauim feito de mandioca, e auê!... com dança em volta da fogueira, carne moqueada: o caçula arrotou e no intervalo foi também ao banheiro quando se assustou com o cara do espelho: a barata Tonta passeava na cozinha, um pouco descuidada, tímida, inseto que nem tinha a sombra, inseto que roubava no escuro, que fazia barulho de um trem, antenas agitadas, ser sobrevivente da terceira grande guerra mundial a última: a garota Tipió tapou a boca para ninguém ouvir os gemidos de Amapola: a vovó rezava para pegar no sono, pegar no sono rezando e de olhos fechados pensando o alto querendo se distrair e encontrar o dormir: o cão Jejá - único bicho da casa a ter responsabilidade patrimonial ao ar livre -, uivava ou chorava de frio ali deitado na laje no capacho junto à porta da rua: o pai, assobiou; a mãe pensou, Dom Pero Fernandes Sardinha dava água na boca aos índios nhandeva (os pipipã, os jenipapo-canindé), comparável a um churrasco de domingo muito aguardado, a fumacinha subindo subindo já batendo na porta do céu bem pra lá confundindo as nuvens: a garota se encolheu tímida porque Amapola nem parava de implorar, e implorava cada vez mais alto e sem vergonha, implorava cada vez mais alto que era ouvir “por favor!, por favor!...” como quem está apanhando no duro: a gata Fogoió retornava da garagem com rato doméstico Anônimo entre os dentes: o caçula soltou um dos outros presos, se cobriu todo com o lençol: a garota sabia que nesse ritmo a irmã Amapola acabaria suspirando ou gemendo, ali no final no ritual, três vezes a palavra, “dodói! dodói! dodói!...” e a qualquer momento: a barata passeava na cozinha, isso desde o princípio do mundo, isso já no início dos tempos do Descobrimento, isso antes de todos os mundos: o Curiango-Tesoura, depois de piar, voou muito veloz e bem rasante para interceptar a gata com o Anônimo preso aos dentes: a Aranha-das-Casas como asterisco palmeava um dos ângulos superiores da sala de estar de receber as visitas de tomar um cafezinho depois do almoço.
            E seu DP nem tinha mais dúvidas de que estava diante do assassino: motivo para matar fruto de uma boa e grande rejeição a um amor que parecia eterno enquanto dure e que foi rompido abruptamente sem explicação sem panos quentes sem passeio na tarde em a calçada à beira-mar ou um lanche na lanchonete Muiratinga praia da Daniela ou praia de Acaraí.
            Um marinheiro Pitu, comandante do Amapola, voltou do mar, chegou ali na costa paranaense, já ia se aposentar, queria escrever um livro de aventuras pelos sete mares e países pequenos insulares. Uma história de memórias, biográfica, saudades, aventuras, naufrágios, ilhas flutuantes, ilhas do Atlântico, etc., mundo afora, e se perguntou: “Que é feito de Amapola, aquela iarazinha que batizou o nosso barco? Hoje uma moça dos seus 23 anos casada e formada e filho filhos. O Amapola também varou tempestades, chegou a portos, portos dos cinco continentes, entre o azul do céu e o verde-azul do mar. A Amapola e o Amapola têm contas a ajustar um com a outra. Nunca se sabe por que uma sorte chegou por onde veio. Namorar um cara, se enfeitiçar por uma iemanjá. Namorado na escola, uma amante em cada porto.” O marinheiro Pitu sonhava e falava sozinho isso dia e noite, anotava alguns pontos, crescia em planos, tinha até comprado um bom perfume no shopping Ameraba para nem cheirar a peixe.
            Noite alta de verão aquela madrugada. Parcialmente nublado com névoa úmida ou seca. Temperatura: baixando para uns 17ºC. Umidade relativa do ar 48/97%. Ventos do norte e de fracos a moderados. Visibilidade: dificílima. Casa no bairro Coroados e os visinhos da família Triquestroque se comportavam sem novidades e vice-versa os cães latindo mais ou menos de meia em meia hora dependendo as horas quem passasse em frente pela rua Cônego Peres.
            A gata retornou ao porão à procura de um rato doméstico Anônimo: a garota reconheceu os ruídos dos noivos se beijando, beijos com estalinhos e sussurros e rinchos da cama: o caçula Mandubé se entregara ao cansaço e dormia com a tevê ligada, sonhava já com o jogo de bola jogado à tarde na companhia dos conhecidos coleguinhas da rua do Oleiro: o cão Jejá, pelo branco com manchas negras, via coisas que outros seres nem viam ou ouviam, entendia coisas que os humanos nem entendiam, cheirava tudo que existia, e se preocupava com a segurança da casa, o seu território, latia, uivava, gania, fazia tudo quanto era preciso fazer para defender o seu país da invasão dos inimigos: a garota Tipió estava com a orelha dormente, mas esperou, esperou, pois sabia que haveria pelo menos mais outra sessão: o caçula sonhava com entes mortos-vivos, cadáveres carcomidos por guaiamus e vermes e formigas-doceiras e escaravelhos e pernilongos, cobertos de enxame de moscas varejeiras, bando de urubus espreitando no alto dos galhos secos do pé de sabugueiro.
            Passavam os quatro minutos das dezesseis horas. Todos os convocados interessados convidados ou envolvidos na morte de Amapola estavam reunidos e presentes ali. Enigma resolvido decifrado evidências às claras. Uns até bebiam café preto outros água mineral sem gás outros outras pediram com licença para fumar na área, etc. Contente contente, seu DP cumprimentou a todos e foi direto ao assunto indigitando apontando nomeando ali em pessoa ao vivo e em cores o assassino: o marinheiro aposentado Pitu Sururu.   
            Durante meses, uma vez, Amapola morreu de amores por um vizinho de nome Nhandiá. Foi que um dia ela ficou sabendo por intermédio de amigas que o tal Nhandiá a amava muito e muito pensava nela e falava tudo de bem dela. Daí, Amapola se empolgou. Mandou uma rosa amarela, um lacinho vermelho na haste da rosa amarela e um coração transpassado desenhado num cartão que foi junto com a rosa amarela e que dizia o inconfundível apelo “eu te love!” A mais bela rosa amarela do jardim da família de Amapola os Triquestroque. O guri na troca lhe mandou um cartão-postal da praia de Jurerê e um decalque do time do Inter, campeão estadual aquele ano de 89. Quando enfim se viram frente a frente ambos ficaram muito paralisados, muito estranhos, muito sem assunto, muito sem graça, muito desorganizados. E nem rolou nada mesmo ali naquele instante precioso. E riram muito. Mas foi ótimo. E nunca esqueceram.
            Naquela mesma noite quase no fim, alguns minutos a nuvem, ou as nuvens, encobriu a lua e também outros voos do Curiango-Tesoura: o noivo Imaruí espiou fora na porta do quarto de Amapola, farejou a escuridão do corredor, pernas trêmulas, escutou um chiado de tevê vindo do quarto do caçula, chegou no banheiro e respirou aliviado purificado: a garota estava firme atrás da porta da despensa, viu a figura do noivo da irmã passar sorrateiro liso na sombra na calada da noite: o mais velho Caicau, que naquele momento voltava da farra no clube Imperatriz Leopoldina, tonto zonzo de trago, estacionou o carro da família aí na garagem, acionando o Jejá que veio lambê-lo festejá-lo, depois o cara entrou pelos fundos, pregou o ouvido com a orelha na porta de Amapola, encontrou o Imaruí no banheiro, se cumprimentaram em voz baixa e meio assustados e meio atônitos e nem se disseram mais nada: o cão Jejá voltou ao seu posto, preocupado com a segurança da casa, o seu lar e o seu ganha pão: a Aranha-das-Casas rondou o ângulo alto da sala de visitas sala solene de estar, queria fazer um lanche antes do dealbar do dia, talvez demorasse, ia se esconder para nem espantar a caça incauta incidental: a garota se sentiu pequena atrás da porta, mas insistiu, mas resistiu, esperou que o corredor ficasse livre desimpedido, calculando tudo todo o segredo direitinho, braços se abraçando: o mais velho se jogou na cama com tudo e, de pronto, já dormiu, desmaiou, capotou, só tirou os sapatos: o pai, urrou; a mãe - libriana amorosa -, chegou à cozinha, bebeu água com açúcar, suspirou oitenta vezes, tinha de comprar umas verduras na feira da esquina nem podia esquecer: o noivo Imaruí voltou para o sótão, sorrateiro, aflito, ligado, farejando por onde passava, farejando de porta em porta: a mãe passou no banheiro, esperou meio minuto com a orelha o ouvido colado à porta de Amapola, voltou para a cama: o caçula falou em voz alta no sono, discutiu e riu e saiu correndo um morro abaixo lá da ideia dele empurrando um pneu velho atacando de espada de plástico mergulhando em águas límpidas entre os corais: a vovó Piracanjuba desejou estar sentada na cozinha em plena manhã de sol, gemeu para trocar de lado na cama, suspirou por um sono de duas horas, duas horas e meia e nem precisava ser mais: o pai Piriguá Triquestroque, uivou; a mãe pensou, o Sardinha pôs as barbas de molho no caldeirão de barro cozido dos silvícolas, era escravocrata, discutia com o nativos as leis de guerra da tribo, e passou a rezar: a barata Tonta, artista numero um, campeou na cozinha, balançou antenas nas direções as mil pernas farpeadas, sozinha sem irmãs sem os pais sem rei sem lei sem país: o caçula estava de piloto número um da esquadrilha da fumaça e voava os seus rasantes sensacionais exibicionistas provocando rastros de fumaça verde-amarela no céu anil do Planalto Central.
            O tempo passou outras horas precisas e redondas e tintonhas. Certos espíritos que só saem à noite e parecem balançar as copas das árvores e nem só por ali em o bairro Coroados. São os sacis, os lobisomens, as matintas-pereiras? Mas podia ser sozinho o vento nos cabelos do arvoredo das árvores, ananás-de-cerca, falsas-ervas-mates, guaricangas-de-bengala, almecegueiras, pindaíbas...
            A barata ciscou na cozinha, pés ante pés, único semovente que dava conta no interior da casa, resvalando em velocidade no piso frio quadriculado: a Amapola e o Imaruí haviam jurado amor azul, nariz com nariz azuis, olhos azuis, narizes azuis, línguas azuis, sorrisos azuis e marcianos azuis pela rua azul em trajes azuis: o Curiango-Tesoura no galho da coajinguva, sem gazinar, quase pegando no sono, seu posto de quartel-general: a vovó desejou uma sopinha de arroz com caldo de galinha e queijo ralado e salsa, uma xícara de leite morno com bolachas maria, um pudim de leite com caramelo escorrendo bem pegajoso bem queimado: o pai, mugiu; a mãe, nos limites entre este e aquele mundo dos sonhos, entre mundos dialéticos, vamos pensar assim, pensou, os índios macamecra (ou talvez os pacanaua) nem comiam inimigos covardes, chorões, magros, nem os que sabiam demais: a Aranha-das-Casas se recolheu ao esconderijo ultrassecreto, uma greta bem ali pertinho da teia no alto ângulo da sala de receber visitas, o repasto poderia demorar alguns dias ou horas ou minutos, vai saber!: a vovó sentou na cama, olhou as horas no relógio elétrico, mas a manhã ainda andava distantinha, disfarçadinha, distraidinha em outra rua, em outra cidade, quem sabe ainda viajando pelo Oriente Médio: o cão Jejá, deitado na laje fria da porta de entrada da casa, o queixo entre as mãos, sonhava com o dia, o osso quase prometido e sentido e saboroso ou algo sempre original e certo e nunca esquecido pelo patrão pelos patrões e que vinha na promessa de dona Damanivá, a empregada da casa, membro da família que morava fora e chegava nem sempre na hora de sempre.
            A dona Damanivá desembarcou do ônibus ali na frente - vinha lá do bairro Sagrada Família todos os dias menos domingos e feriados -, entrou pontualmente mexendo pelo portãozinho do jardim, o Jejá veio lambê-la nos sapatos-tênis, festejá-la e ela entrou pelos fundos da casa, quase assobiando um sucesso, parou diante da porta do quarto de Amapola, pregou mais a orelha que o ouvido e esperou mais um pouco, depois desistiu, fez um muxoxo, chegou à cozinha com ideias de duas três sobremesas para rematar o churrasco do meio-dia que era o sábado hoje era o sábado.
                                                                       ***
            E chovia o convencional daquele período do ano e de dentro do céu caindo do alto céu caindo lá de cima e de qualquer maneira. Chovia chovia comportas abertas e de lá do fundo pra baixo.
            Tenho que são muitos os lugares onde nem fui nem estive nem estarei mas vou, recém e justamente pensou repensou o jaratataca novo. Acontecendo como aconteceu.
            Costumes que vinham do pai do pai do pai do seu avô.
Depois da chuva o jaratataca novo encontrou o pneu velho. Onde onde? O jaratataca novo surgiu da sombra de uma perobeira, que eu vi. E lá deitado zero no chão de terra vermelha, agastado, escovado de tanto estradão, de tanto sertão, evidentemente careca, cheio de chagas, o pneu velho de caminhão. Se apresentaram? Seria uma pobre casa esconderijo para o peludo lunático? Um pneu velho de rodar e rodar na estrada e um jaratataca novo de andar à toa pelaí. Muito bem.
            O jaratataca novo assumiu o pneu velho como alguém que sobe um degrau de escada: por nada, sem querer, sem pensar, por acaso, para praticar voo-livre. Até ali o jaratataca novo nem achou coisa muito estranha ou engraçada. Olhou o desenho do pneu-recreio... Olhou com calma, e calma até demais. Acabou cansando porque sempre despois se cansava e se cansou. Isto posto onde? Em Santa Maria do Herval, Arroio Grande, Canguçu, os arredores.
            Um pneu de caminhão natureza morta oito eixos vinte e tantos irmãos. Abandonado no pátio para servir de quê? Canteiro redondo para plantinhas, flores atrativas chamativas das guarupus, ponto de apoio de pé de araticum-pitaiá, pés de bromélias, banheira de mosquitos, o que for. De que o pneu parecia morto abandonado aqui jaz esquecido fedendo sem jazigo e um estorvo.
            - Ah eh eh eh!... - casquinou trepidou gargalhou o jaratataca novo.
            O jaratataca novo chegou macio e olhou sem ver e se sentou na beira do pneu como sendo sua pátria. Nem entendia de nada. Quase sem noção. Mas cruzou os braços policiou o ambiente. E isto posto onde? Santana da Boa Vista, Piratini, e as vizinhanças.
            - Eh ah ah ah!... - castanhou cascalhou gargalhou o jaratataca novo.
E de outra vez o jaratataca novo meio que deitou. Cabeça esquecida, sem preocupação, sonolento, preguiçoso, pelos arrepiados, o que mais?, barriga vazia, total: preguiça de ir procurar melancia. Mais um pouco. E deitou por completo sob o sol da manhã, sol que prometia mil horas ao dia. Jaratataca novo sobre o pneu velho sob o sol que prometia um dia a dia daqueles.
            O jaratataca novo dormia? Olhos fechados, a barriga lentamente para cima e para dentro, e tal, o sol quente, cauda em penacho, parecia que dormia, ou sonhava com o quê, frugívoro herbívoro carnívoro carniceiro.
            E se via o jaratataca novo em rajá, bei, grão-vizir, preboste, samorim... Jaratataca nova se via assim paxá, sátrapa, califa, morubixaba, suserano... talvez. Pra que pedir documentos ao jaratataca novo? O jaratataca novo quieto, olhos fechados, dormindo sono de preguiça-de-bentinho, esquecido, sonhando, sonho de sombra e água fresca. Pra que acionar o bichinho?
            Uma mosca acionou o manhoso e foi o jaratataca novo que acordou de um sonho. O certo foi que aconteceu que o jaratataca novo acordou de súbito. Se ligou todo e num instante. Parecia alerta e perscrutar tudo ao redor. E estranhou aquele modo de pneu e sem começo e sem fim por quê?
O sol muito fantástico eficaz espantoso com epicentro no meio do dia. De pronto o jaratataca novo sentado, pensando, garras longas, olhando aquele caminho que começava onde terminava girando em volta como droga. E o sol pintou o amarelo e o vermelho com as árvores bem ali presentes.
            Quando foi, o jaratataca novo acionou o motorzinho lá dele interior o da vontade própria particular, que ninguém tinha nada com isso. O jaratataca novo em folha andou pelo por que do pneu velho. Até reiniciar pelo começo do fim quem sabe alcançando um dia ciumento sovina a própria cauda.
                                                                       ***
            Uns poucos passos e uns poucos minutos de nada, eu estava lendo ali o famoso e iridescente livro “Marília, a Noiva da Inconfidência” dos conhecidos escritores goianos Ofélia e Narbal Fontes. Um livro que começa uma história no sertão da Bahia e depois vai por aí ao litoral e conta os sucedidos todos, etc. Eu estava nessa leitura instigante e paisagística, capturando plantas e bichos nem muito pesquisados, quando me lembrei, e sorri ao me lembrar. Adequado.
            Eu me imaginava, naquele tempo do meu passado de guri em os 1986, eu sonhava ficar com a rainha dos caminhoneiros a rainha da colheita da uva a rainha da festa da bergamota a rainha do encontro regional. Uma fogosa amazona, bronzeada, peituda, carnuda, desbocada, inventiva, quase louca, chapéu de pantaneiro na cabeça, filha de longo proprietário de fazendas possuindo a família dela muitas colônias e alqueires e plantações em Mato Grosso do Sul, fazenda Juá-Amarelo, estância Ipê-Amarelo, invernada Aricuriroba... Tudo de bom que se imagina. E doce suave macia carinhosa que gostava de falar e cantar. Até parecia tizio, anambé-branco-de-rabo-preto, fogo-apagou, arataiá... E quando o presente é demais, o santo desconfia, coça calo da cabeça, procura a pulga atrás da orelha e bota preventivamente o pé atrás.
            Eu e a moça rica capa rainha do carnaval de 87 que ela ria a boca grande os dentes os olhos o peito trêmulo o corpo todo fizemos amizade e aventuras que já me esqueci. Foram muitas aventuras. Todos os números. Trocamos os dias pelas noites. Mandamos no mundo e mandamos ver. Mudamos o mundo. Preferimos parar o mundo e nos isolar das pessoas de tudo e só levantar para tomar sucos e comer bananas e outras frutas. Ordenamos que o tempo nos esquecesse e ele nos esqueceu por durante uma semana e sem tirar de dentro. E nos deixaram mesmo em paz. Tão em paz que enjoou... esvaziou encheu o saco.
            A deusa de carne tenra rainha do verão de 88 e pele de índia caiouá que o que bem parecia e era mesmo um avião hidroavião, uma máquina vermelha de muitos cavalos, um furacão de cabelos soltos, e coisa atlética estimada estimulante. A potranca do ano com salto alto batom vermelho. Foto de capa e foto do centro da revista, corpo inteiro e em pé e rapadinha. Ela ria e batia assim, tepe! tepe!... na babaquinha lá dela já lisinha e era demais.
            E nós desenvolvemos as criatividades naquelas camas de lençóis, gramas, águas e areias, e nuvens. Tanto podia ser emergir pôr ou pegar fogo e nem ser imergir sucumbir virar cinzas. Aventuras de todos os números aritméticos e que eu e ela rainha do país de língua brasileira gostávamos, segundo ela mesma em pessoa:
            - Hei tido novas e boas de que limpas e límpidas e princesas e quentes são as piscinas azuis e verdes do Estado de Alagoas azul universo, oh!, meu campeão de tudo. E como sói ser.
                                                                       ***
            Então, tenho outra coisa a dizer, lembrar. Um sonho que se repetiu comigo, e comigo se repetia. Ficou comigo. Volta e meia revoltava aquele sonho, sem eu saber o motivo ou o significado ou os presságios. Seguinte: eu caía do perau e ia caindo todo o tempo, raramente chegava a bater, tofe!... no chão de poeira ou de pedra, vai saber!, e maioria das vezes, quase todas as vezes, eu caía e nem chegava ao fundo do poço, pois geralmente aquela sensação de cair me dava enjôo e eu desmaiava pegando num sono mais pesado ou profundo ou de outra frequência outra encarnação metempsicose.
            Se eu olhava o céu tudo sossegado falando com as árvores mais próximas e tinha tempo e muito que olhar e sorria. E tinha testemunhas o vento a luz o rio as árvores os pássaros. O desandar da corrente perdida, e o fervo do tempo encontrado por encontrar. Pé firme bater o pé como o próprio pé de amarelinho-da-serra, vamos supor, eu pensava.
E era sempre botar a cabeça no travesseiro, olhar para dentro e... cair, cair, cair até me esquecer de cair antes de chegar no chão... e desmaiar no sono de quarta dimensão, de espaçonave de prato, de outra religião, de voo na pele e penas do gavião-do-mangue, de passeio em Santarém Novo, pegar o gaiola e subir o rio São Francisco.
E que sejam prudentes nem fiquem pelaí e voltem logo, uma vez.
                                                                       ***
            Domingo de tarde com sol e sem nuvens e idas e vindas dos amigos amigas canários-da-terra, corruíras, joões-de-barro, pintassilgos, jaçanãs... O verão era do melhor bem quente. Ou dos piores, mais quente dos últimos tempos, os tempos da década de 70 ou 80. Dependendo do ponto de vista e tal, era bom era nem tanto. Fomos ao açude da cidade o principal o Bozó e palmeiras-barrigudas. Todos chamavam de balneário Retiro porque o rio era o Retiro, mas o nome da represa era Bozó. Cotia convidara as amigas lá dela de sempre. O que eu aprovei.
            E o rio era pouco, muito pouco, quase aquilo, somente aquilo e quando todos pensavam ir se divertir na barragem Bozó. A estrada era a mesma de poeira por entre barrancos de roças de milho e de mandioca e morros de capoeira chircal cachaporras-do-gentio e voos surpresos de caldos-de-feijão.
            Cotia muito bonita? Estava, era bonitinha, estava uma certeza. Fisicamente atraente, elegante, esguia, biquíni azul em pele branca talvez até aparadinha e com cavadinha. Uma beleza pacata. O rosto contente. Saudável, apresentável, apalpável em as partes fidalgas. O riso combinava comigo e era um dos seus melhores trunfos.
            O sol estava amigo daquela lua e do tempo mais do espaço que do sol.
            Juntas, as meninas pareciam bando de gralhas-azuis. Eu mesmo um pato-mergulhão. Uma delas que nem sabia nadar, e se arriscou pular na água, teve que ser sacada pelos cabelos pelos cabelos úmidos os rastafári. Foi um instante de quase pânico e berros. Depois muita gente riu e até lhe deram os parabéns e lhe desejaram feliz ano novo antecipado. A ex-náufraga, chamada Caputira, aquela chorou por longos minutos fechando a cara envergonhada com as mãos. E até perder e verter e espremer todas as lágrimas do corpo que havia tomado orar devota para a NS de Aparecida. Depois nem entrou mais na água nem antes nem depois de vir embora. E jurou que água era para peixe tracajá arraia e tuiuiú. E perdeu o dia, o rebolado, claro. Porque quase virou sopa. E foi a primeira e a última vez que a vi.
            O céu sem nuvens, que limpeza! O sol muito quente, mormaço, água correndo no açude, grama e árvores em volta, caju-do-campo, que me lembro, uma raridade, peixes, roque-roques, que me lembro, o córrego sem fim sempre. E a sorte nem queria mais nada. As pessoas talvez quisessem mais, nunca se acomodam. As pessoas, sim, querem sempre, nem se conformam. O meu rio digo a minha sorte pouca, só isso? Sim senhor, minha senhora, só isso e olhe lá!
            De mim para comigo e de mim em frente de ti para contigo digo mais testemunho as flores colibris manhã brisa trevos-do-campo.
            Na tarde eu pensei, ali deitado, sentado, largado de pernas abertas, quinze pras três, só de sunga, no gramado perto do açude, debaixo de árvores frondosas, tinteira-do-campo, se nem me esqueço, aves, socoí-ziguezague, se nem me esqueço, vendo as meninas gritar como bando de gralhas-de-crista, eu mesmo um cutucurim, pensei comigo e mais ninguém: Será que posso, pelo menos, testar a Cotia em algumas palavras-chaves? Tipo palavra Paz. Como Cotia reagiria com a palavra Paz?
            Olhei Cotia, que me interessava admirar sem que me pressentisse, afinal minha namorada, estávamos namorando, queria conhecê-la, isso era normal, etc e tal, comparar e pesar a minha guria com outras gurias. Em janeiro Cotia conheceu uma gama enorme de ótimas supimpas sobremesas. Olhei Cotia buscando no todo dela a palavra Paz. Como era Paz em Cotia?
            A Paz de Cotia era: e ela escutava mais que falava. Isso era bom? Claro que era. Mas o escutar mais nem queria dizer menos desejo de gritar. E isso nem era bom. O certo, que deveria ser, era que nem gostasse de falar muito e nem sentisse nenhum desejo de gritar berrar. O ideal era nem falar muito e nem sentir rancor. E ela se distraía muito, era outra bola murcha de Cotia. O bom era se distrair pouco ou quase nada quando eu lhe contasse causos engraçados ou sérios ou mentirosos. Quem vai quando nem olha nos olhos tem algo a esconder e é grave.
            A palavra Querido no corpo de Cotia, na curtição de Cotia, era: e Cotia nem tinha essa palavra que eu muito adorava, e buscava, e achava muito bonita na boca de uma menina, e acho que muitos caras também pensam assim. Nem, ela nem usava a palavra Querido, nunca a ouvi me queridar, nunca me chamou com esse qualificativo apelido e até certo ponto palavra-bumerangue. Talvez ela usasse mais a palavra... Bem, oh!, meu bem. E eu nunca medi mensurei quilometrei. Tipo assim: meu bem, bem, benzinho, beeeenzito!... Quem sabe fosse a mesma coisa. Pois o grau-dez o que aquilata é a intenção, nem é? Nem, mas eu gostava e precisava, dentro do meu espírito de consciência psicológica mental, para o bom andamento da minha alma, precisava da palavra Querido e ouvido da boca dela. Sentia falta, sentia muita falta, e se outros tinham por que eu nem, em?! Tive uma amiga... esqueci o nome, gostava de usar essa palavra Querido e o negócio era comigo. E me tratava de Querido. Me lembrei do nome dela. Mas também dizia isso para todos que cruzavam seu caminho. Então, nem tem muita importância capital principal internacional.
            Outra palavra para Cotia. Qual era? A palavra Amigo. Então, a palavra Amigo no corpo e na mente e nos lábios molhados de Cotia. E Cotia usava muito essa palavra entre os dentes certinhos. Usava muito e mais no feminino Amiga. Tinha mais amigas que amigos? Era certo. Então, confiava mais em amigas que em amigos? Aí que eu nem sabia e estava investigando. Ela me considerava um amigo, bom amigo. Tinha liberdades de amigo para comigo. Me beijava e me olhava e me cochichava como se faz com os amigos e amigas. Me segurava pelo braço, me puxava, me sacudia, me telefonava, me falava e dizia: meu Amigo. Eu tinha liberdades de amigo para com ela. Tipo liberdades de lamber o seu rosto, de puxar seu cabelo, de soltar seu cabelo, de pegar nos peitinhos lá entre os escurinhos dos cinemas, de coçar a barriguinha, de ensopar um beijo mais demorado, etc., ajudar escolher a bermuda nova e opinar se o tamanho estava tudo bem.
            E outras palavras eu ia testando aos poucos com Cotia e na cara dela, longe dela, com as pessoas à volta dela. E deixando ela muito à vontade. E às vezes me esquecia outras fingia me esquecer, e que eu sabia.
            O sol foi uma lua e imperou no dia. E nem choveu embora o extremo do calor. Nenhuma nuvem. Porque o dia o sol e D queriam era sem dúvidas matar todos nós de calor cansaço mormaço sonolência e teco-teco olhando a paisagem de cima.
            Muita gente no açude Bozó do rio Retiro. Eu e o bando de pichororés. Eu mesmo um gato-açu. Foi gostoso foi legal foi justo foi inteiro. A sorte sortida era até ali mesmo, fazer o quê. Eu por mim, falando sério, achei um pouco. Mas às vezes achava muito, achava que era até milagre. Cabelos molhados, biquínis, pulos do alto do galho do angico. Achava, só às vezes, que o rio era um milagre. Então tinha que dar graças aos céus por estar na peleia diária do dia a dia? Dou graças aos céus, então. Mesmo nem acreditando pondo a mão no fogo por milagres mulheres cervejas dinheiros e essas coisas que mais sempre se quer se gosta.
            O rio Retiro saudável até onde se via, sempre em pessoa, bem lá para baixo, sim senhor, jusante, fazia o lago artificial no município de Vista Alegre do Prata e a hidroelétrica.
            Na volta para casa pegamos carona, em bando de vissiás, eu mesmo um tiú, na carroceria de um caminhão. Muito de bando de araras-pequenas e dando tchau até logo beijos atirados até para cachorro. O motorista parou agradar umas gurias no caminho a pé e elas festivas e aplaudidas. Elas estavam mesmo alegres sempre, divertidas, boazinhas, peitinhos pequenos ou nem tanto, cabelos vermelhos, piercings, tatuagens de árabe, rindo de qualquer palhaçada nossa sem graça. Depois de deixá-las em casa fomos todos convidados a entrar e na boate Flores Amantes. Que trocamos abraços e beijinhos como se nem nunca jamé outra vez haveríamos de vê-las e nos ver.
                                                                       ***
            Hoje agora eu mesmo hoje dias 6 e 15 dos meses de outubro e fevereiro do ano vindouro um feriado facultativo.
Por três semanas dia e noite sonhei que estava brincando de morar como fazem morar os pescadores na beira de uma praia, em algum lugar de uma praia remota a praia da Conceição, em Saquarema.
Uma vez eu tive de começar a duvidar. Qual o sentido da viagem e das viagens? Me atirar de barco, me pinchar em avião, montar de moto, subir no carro de bois. Vir ao mundo para essa viagem e os turismos. Viajar de bicicleta pelas estradas da serra do Mar e outras serras de sertão de florestão.
            Minha ambição era viajar, pronto. Sair da cidadezinha era como sair da infância, sair da prisão depois de dezoito anos, depois de completar a pena sair para conquistar a sedução do mundo, fazer faculdade a melhor parte da história, conquistar outras partes me pertencentes do planeta, olha lá a São Paulo de Olivença!
            Sair de moto e estacionar a minha moto bem na margem do rio Aguapeí. Estou vendo. Parar ali, fazer um lanche, olhar o rio Uruguai. Conhecer Caraguatatuba e Bertioga e Benevides, olhar a foz do rio Juqueriquerê. Tudo porque sim porque era possível porque era o que eu mais queria. Olha como será Barreirinha! Olha quando vou a Rondon do Pará! Olha o estupendo da cachoeira Caldeirão do Inferno!
                                                                       ***
            A carta foi lida e compreendida por todos o Alfenas as árvores os automóveis automotivos automotores de circulação intracitadina as libélulas maria-mole os japiaçós os jabutis os insistentes cricriós os ubins-do-igapó e continha em o seu conteúdo.
Caminhamos pela rua Arapora, pela calçada do passeio replantada de mognos-brasileiros, rente às lojas de todo tipo e estilo, junto às paredes de concreto e tijolo à vista e conversávamos eu e meu amigo Alfenas. Ele vinha mais gordo. Eu mais idiota otário e brigado com a Cotia. E ríamos como dois bobos bocós num mundo governado pelos políticos brasileiros. Embarcamos quando vimos o bar Douradoquara.
O meu caso com Cotia por hora naquele momento era uma relação de maturidade nem diria muita mas maturidade de duas pessoas comuns iguais a todos os outros as outras, e quando e confesso que acabara a relação e tinha dado tudo o que já podia dar.
            Sentamos na mesinha quadrada. Mandamos vir uma cerveja loira e dois copos fora do gelo. O garção disse que... nem havia?, meu! Pedimos uma cerveja preta, então. Nem havia. Pedimos uma caipirinha da boa, da cachaça mineira cor amarela, e com limão paulista e gelo à vontade. E nem havia. Pedimos um vinho de Flores da Cunha, o melhor da safra cinco anos atrás, vinho tinto seco de mesa e gelado. Nem havia. Insistimos com o pilrete do garção, cansados de rir, já nos irritando, pedimos uma água mineral sem gás, gelada, fabricada em Claraval. Nem haviiia. Pedimos um samba com graspa e guaraná gelado. Pois se nem havia, ah ah ah!... Pedimos dois pastéis de queijo quentinhos feitos na hora - eu só como pastel de queijo e olhe lá. Só tinha o de carne e era o último. Daí, apareceu um cachorrinho-vinagre. Alfenas perguntou ao garção, que o tipo parecia saber tudo dali:
            - De quem é esse vira-latinha?
            - Nem sei, apareceu.
            O cachorrinho-vinagre foi farejando ali por ali, cabisbaixo interessado nos cheiros farejando rasteiro, ganhando pipoca de um, batata frita de outro, pãozinho torrado na manteiga de mais uma, pizza sabor jabuticaba com banana de mais outras, um sorvete de abacaxi oferecimento da mão da cunhã, etc.
Eu indaguei ao garção, sujeito atendente dali e com o guardanapo de linho branco no braço esquerdo e bem ou mal uma garça-branca de borboleta na gola, inquiri:
            - Vocês deixam cachorro entrar no bar?
            - Por que nem?! Cachorro também é gente, público e notório!





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