Que D Haja
Com
certeza sonhei. Um pesadelo de náufrago, talvez. Muito estranho e surrealista,
suponho. Desconcertante abichornante, também.
A
noite que descia com a leve madrugada antemanhã, e mais poucos minutos já subia
o dia na aurora despertada crescida. O ano natural de 1983. O dia o mês que nem
mais vejo nem os revejo.
Eu
sonhei um peixe fisgado no anzol pescado na tarrafa se debatendo na laje fora
da água corrente, chegou um cachorrinho e farejou o peixe, apareceu um homem (que
se fosse eu mesmo sem dúvida) e cuidou que o cachorrinho nem mordesse o peixe com
linha e tudo.
Pouco ou nada
mais nada que pouco. Um sonho humilde simples. Que nada levava nem trazia. Que
fosse o que fosse.
Floresta de
verde iluminada ondulante verdes atenciosos e paisagem bem muito devagar
ondulada onde pássaros desassossegados anapurus em bando, que-reu-reu!
que-reu-reu!... passavam em fula-fula para os matos e de longo a largo e mais o
crepúsculo vesperal e rios e árvores e com testemunhas e montanhas e músicas
limpas anônimas.
Tudo
correu como o rio as nuvens o sol as aves os rios as árvores as pessoas nos
seus automóveis para o trabalho a manhã correram como o rio.
Depois,
bem logo em seguida, o peixe foi um peixe-cachorro, metade peixe e metade cão.
Continuou a saltitar na laje quente fora da água fria pedindo festa fazendo
pirraça. Pequeno animalzinho pouco menor que o mínimo.
Digo
que fui insensato antes hoje sempre insensato de insensatezes. Foi o que foi.
O
ano lunar e o ano solar.
Se eu mesmo apareci
e vi aquilo tudo e me surpreendi me debatendo em pleno sonho sono. Seja o que
seja, pensei.
À hora em que
saía a se matricular o tal e qual sol do dia a dia.
***
Pois
nem que era o dia com a noite de NS de Fevereiro.
Enigmática
entrou sorrindo na sala de aula, sorrindo pelos cotovelos, sorrindo até os
joelhos, a boca aberta de cachorrinha e de orelha a orelha, polo a polo, vau a
vau, prática a prática, sol a sol. Rindo com a cara os olhos a boca os lábios
pintados de batom lilás as ancas os dentes aperolados. E saltitava como
passarinho brincando na poeira, pipira-de-máscara, saíra-sapucaia...
jacamim-das-costas-verdes ave de Rondônia. Vestia, assim pelo menos, bermuda
cheia de bolsos verdadeiros e falsos, botões grandes e correias ou cintos com
fivela. Nem parou quieta no lugar. O rabo de cavalo balançando igual um badalo.
A
torcida do grenal comentou, vendo aquilo:
-
Ela tá que tá, meu!
Ao
que todos riram o tal e qual largo rir, ri-pi-ri! pi-ri-pi!...
E
tinha e estava toda saltitante, adiantada, respondendo com risadas e
gargalhadas, tranquila no seu patamar superior, olhos moços e quebrados, uma
flor de caparrosa plantada no cabelo - seu enfeite favorito.
O
mundo que é pequeno e a D pertence, sempre.
Enigmática
tinha sempre um comportamento que sempre admirei em certas raras pessoas de
narizes empinados, ou seja, ela sempre de nem olhar para os lados, nunca
olhando para os lados, se era dia ou noite era, sempre andando em linha reta,
sempre organizada, se aperfeiçoando, sempre completamente superior e
autossuficiente. E sempre o meu parabém.
Muitas vezes,
nem poucas, muito linda, e tão bela e cabelos soltos. Cabeleira de
mico-leão-dourado, cabelos como pegando fogo fogo.
Vamos
e venhamos, pois indo ou chegando e a olhos e à face de todos e fosse à hora
que fosse e custasse o que custasse e o porte o mesmo porte.
***
Meia-noite,
uma e meia, dez ou doze anos antes de se chegar ao terceiro milênio. O profeta que
abriu os braços na novela bíblica de tevê?
E do sol solar
e da lua lunar, sem tir-te nem guar-te.
Se eu acho que
tinha então eu tinha uma ou duas almas mas nem sei onde vim parar.
A noite
profunda, sem vento, nenhum motivo para chuva, nada de chuva, nenhum relâmpago,
nenhuma trovoada, nada de macaxera, mula-sem-cabeça, jurupari, caipora, etc. A
casa na quietude. Uma casa na quietude e ali no bairro Coroados. Somente os
tique-taques de um relógio na parede da sala de visitas. Os habitantes
recolhidos aos respectivos aposentos e cômodos e quartos e dependências.
Quando senão
quando e o que houve o que houve e escutou ouviu separou se assustou. Até que
recomendou noticiou advertiu e que avisou, avisou.
Foi quando
pela última vez a família Triquestroque (só se levanta quem acorda) se achou toda
reunida sob o mesmo teto.
E numa noite chuvosa
como todas as chuvosas noites, os moradores e ninguém tinha saído de casa, bem
meia-noite chuvosa, a moça Amapola foi assassinada. A polícia então assim se saiu
com essa de que o assassino ainda estava entre eles e os moradores do prédio. Aposentos
da vítima em ordem cama amarrotada ferimentos no corpo os mais importantes na
cabeça. A Amapola ficou secando o corpo até secar corpo e pedir trocar corpo e
transferir corpo. Amém.
No
sótão, quarto improvisado para hóspedes de última hora, o noivo - meu primo
Imaruí, que pousava ali todas as noites de sextas-feiras e sábados - separou
quatro camisinhas interessantes e a pedido, uma hortelã, uma açaí, caramelo, pitanga,
e já estava atento, cuidadoso e de orelhas grandes também todas em pé: a vovó -
única a se deitar e manter a luz acesa -, cuidou do silêncio da casa e pensou o
que fazer até pegar no sono no sono, que custaria ainda: a gata Fogoió cruzou o
pátio, vazou para o porão, acendeu os faróis procurando o rato doméstico
Anônimo: o pai, roncou; a mãe Macela pensou, era uma vez o náufrago do
Sardinha, os índios macamecra (ou foram os carapanã, os paumelenho?) comemoraram
o seu Sardinha, os santos pajés beberam chás venenosos e fumaram ervas
poderosíssimas que levavam a alma para viagens transcendentais, imagens
psicodélicas, paisagens abissais.
A vítima caída
no tapete da sala de estar estava nua mal enrolada num quimono saída de banho,
onde decerto fora surpreendida. A polícia fez os procedimentos de praxe
enquanto que o detetive particular seu DP foi às investigações às diligências e
aos autos propriamente ditos, em sigilo profissional.
Até
hoje se procura respeitar, na área da marinha, umas superstições uns certos
costumes que vêm a ser normais e seguidos à risca. Antes de uma embarcação entrar
no mar no rio tinha lugar o batismo. Escolhiam uma menina da vila para
madrinha. Uma rara e pequena belezinha para nomear o barco o navio a fusta. De
repente ela podia dar ou emprestar o seu próprio nome ao veleiro. A embarcação
batizada se chamaria daí em diante, por exemplo... Amapola. A menina Amapola
seguiria a sua sorteada sortida sorte. O barco Amapola navegaria os seus rios
caudalosos mares oceanos. Quinze anos depois, quinze anos após, perto dos
nossos dias, um marinheiro de nome Pitu Sururu pensava na menina origem do nome
do barco, Amapola, onde era um embarcado. Tanto a pessoa Amapola como o barco
Amapola correram, navegaram. O pisar de uma e o deslizar de outro.
O
delegado de polícia nem olhava pros lados. Eu prefiro é a atitude de seu DP, que
se detinha em detalhes em olhar pros lados em farejar a mínima pista. Olhar para
os lados nas investigações sempre é um procedimento típico dos detetives
particulares, e eu aceito concordo e até prefiro e aprovo.
O
noivo Imaruí, silencioso na escadaria, prestou atenção em tudo na escuridão,
farejou o ambiente, preocupado que alguém aparecesse, suando nervoso ansioso
excitado: Curiango-Tesoura galreava de quinze em quinze minutos vigiando a
noite pousado no galho da coajinguva num galho seco e estratégico e a propósito
e a preceito: o caçula Mandubé, no seu quarto de dormir, assistia o filme de
terror comia biscoitos acebolados bebia refri e tomava sustos: o Imaruí girou a
maçaneta e penetrou no cômodo quentinho cheiroso pouco iluminado de Amapola: a
vovó Piracanjuba sentiu as horas repuxarem na clavícula esquerda, tossiu,
trouxe a mão ao coração, sentou na cama esperando cabisbaixa as horas passar e
que demorariam de-morariam: a garota caminhou em câmera lenta pelo corredor, as
meias nos pés para nem ser percebida, colou a orelha o ouvido na porta do
cômodo da irmã Amapola, prestou toda a atenção da sua sorte até ali até ali: o
cão Jejá resmungou um sonho de osso, estirado na porta da frente da casa,
ouvidos orelhas alertas sempre: a garota Tipió, magrinha, bonitinha, calminha,
peitinhos, em pijama de bichinhos de quadrinhos, apertava a orelha esticava o
ouvido para o interior do quarto da irmã.
Através
do janelão envidraçado, o luar e a brisa criavam seres irrequietos e
fantásticos e inúteis na face do espelho do interior da sala de visitas. O
espelho no canto da sala, a sala no interior do espelho e mais. Por fora tudo
calmo e mais o vento e por dentro da casa dos Triquestroque outra coisa ainda
rolava.
Um
detetive particular deve ser dos bons, deve ser
despojado, atarefado, sempre fatigado, sempre alerta, como era seu DP, insone, desleixado,
solitário, mulherengo, bagunçado e que gostava muito de café preto cigarros fumava
um cigarro meio diferente exótico bebidas quentes destiladas.
Nunca
se sabe mas todos são suspeitos, segundo acreditavam pensavam e falavam o
delegado de polícia e o próprio seu DP. Amapola morava sozinha, por hora, e nem
tinha sequer um bichinho de estimação uma cadelinha, um gato de nome exemplo
Marujo.
O
leitor deve concordar que todo detetive particular tem seu cacoete ou seus
cacoetes e manias e isso pode ser bom e se repetir até a exaustão no correr do
processo da história, ou seja, um detetive particular deve ser como era seu DP
com cacoete de acender um cigarro no outro fumar três maços por dia da marca
Tíbi uma pista a ser investigada sempre engatilhada com medo de morrer de
câncer dos pulmões e isso sim já fica aí pelo meio do caminho andando.
Um
dia de chuva, um dia de sol, talvez um dia assim assim. Amapola nem lembrava. Amapola
nem reparou. O destino aquele dia era a bíblio pública municipal no colégio NSAparecida
das irmãs do SCJ. Era a primeira vez. Trabalho de aula em grupo. O corredor
azulejado de azul, o piso de ladrilhos xadrez verde-vermelho, em frente subindo
um lance de escada, à direita outro lance, e a porta da biblioteca Mário
Quintana. O cheiro do lugar ficou para sempre na memória e era cheiro de papéis
em livros guardados. A palavra escrita no cartaz da parede de entrada:
“Silêncio!” Numa escrivaninha estrategicamente colocada, a funcionária dona
Sarobá observava e cuidava o movimento assim por cima dos óculos estreitos e
pesados como manda o figurino como é da caricatura. Havia a primeira sala
enorme apinhada de tomos por todos os lados e altos e estantes. Amapola se
sentiu num outro mundo naquela primeira visita e nas outras nas outras. Os
estudantes já iniciados já guiavam os xucros. Livros gigantes de enciclopédias
sobre as mesas de consulta, cadernos e canetas e lápis, olhos, cotovelos,
cabeças replicantes. Livro ilustrado, ponte do Guaíba, Lençóis Maranhenses,
praia de Boa Viagem, Garopaba, morro do Segredo, rua do Senado... Conversar,
podia? Namorar, podia? Mas somente com os olhos, coxa com coxa, ombro com ombro,
mão com mão. Rir, podia? Piscar, podia? Vontade muito apertada de rir. A bíblio
tinha a sua legislação particular. Minutos depois, talvez hora, horas, Amapola
teve a chance de investigar outras dependências adjacentes coligadas
correspondentes que nem eram assim tão largas e amplas. Então, a partir daquela
data e na semana que veio na sequência causa e consequência...
Até
porque ele seu DP nem acreditava em coincidências. E alguma peça importante no
tabuleiro, esta difícil de avançar. A vítima trabalhara no conglomerado Curupiá
de importações e exportações como secretária do diretor-presidente o senhor Panará
Muiracaua.
Ao
sair do prédio onde morava, seu DP cuidava os espelhinhos retrovisores para
verificar com certeza se estava sendo vigiado seguido espiado atocaiado. Sempre
tinha à mão a sua boa e eficiente automática de quinze balas para as emergências,
porque essas tais e quais coisas nem avisavam nem mandavam avisar e podiam sair
caro e pela hora da morte.
Ninguém
desse mundo empurrara Amapola para a beira dos estudos dos cadernos de anotações.
Os livros de leitura. Tinha gente que possuía livros à mancheias e nem lia uma
página. Poucos como Amapola que nasceram para a curiosidade curiosidade e
curiosidades... Poucos e nada era a mesma coisa. E mais ou menos como a
professora de português, dona Caraúna, que nem soube e nem saberia e nem
acreditou que Amapola pudesse vir a ser uma leitora contumaz? Ora ora, ela contumaz
significa também teimosa, obstinada, reincidente, viciada, doente da cabeça e
futuramente dos olhos do juízo. E que nem chus nem bus tanto tanto à altura das
nuvens. Amapola nunca foi incentivada a gostar de quaisquer tipos de livros e
leituras e estudos. Uma pena. Uma sorte. Um acaso. Mas Amapola passou a gostar
por curiosidade e por conta própria. Nunca precisou que ninguém lhe desse um
livro de presente. Uma igual a outro outra igual. Amapola gostou tanto da
descoberta que viciou que criou um mundinho à parte. Nem se gabou nem se
desgabou. Qualquer coisa, enfim, como acima das nuvens, um outro planeta, um
outro tempo, umas idas e vindas a mais. Maranhão: rio ou mar que corre direto pro
rio ou mar.
Isso
nem tranquilizou seu DP. Perdeu tempo com a viagem cansativa até a cidade de
Campestre da Serra, e nada, pista falsa. Houve outro assassinato, um amigo da
vítima, seu Ubiratã, mas este foi, achou seu DP, uma queima de arquivo.
Caminhava
devagar pela rua do bairro antigo, procurando prestar o máximo de atenção em
tudo que o cercava praça Tiradentes casario antigo das décadas. O plano de seu
DP era colocar em prática o que pretendia e isso já no começo da noite sem
perda de tempo. Ruas estreitas casas antigas zona do meretrício cracolândia
lojinhas de importados.
Amapola
caminhou incauta rumo aos livros de lazer de entretenimento de ficção aventura
fantasia de fantasia que até se perdeu esquecia os temas da aula. Poderia até
se dizer que foi como um chamado da sorte desde o além um grande acaso enorme
coincidência... e que por fas ou por nefas, etc.
E
analisando friamente os fatos, estava numa rua sem saída. E teria mesmo de seguir
aquela pista até o fim, a única que aparecera que lhe parecera a ele seu DP
consistente. Prudente, nem comentou o caso com ninguém.
Uma usual colega,
a Canguaxi, iniciada nos labirintos e escaninhos da biblioteca, a informou logo
no primeiro dia de saída ou de entrada:
- São livros
de romances, são livros de poesias, livros de aventuras, livros de terramarear,
são de histórias impossíveis de desvendar. O melhor é que se pode levar para
ler em casa em Casa em CASA. Tá certo, tô certa, minha nega?!
- E como pode
alguém fazer isso escrever e viver e existir e reviver em nós na gente, hein,
minha capitã?!
- Quem conta
cria e aumenta uma lenda, minha índia tabajara.
- Aparece o
mundo e o planeta convidativo, hein, minha beiinhã.
E Amapola
sacou tudo, retirou um. Emprestou outro. Foi trocando com a estante muito e
muitos livros. Lia o título, o autor, admirava a figura na capa, saía abraçada,
folheava: “Onde fica Xapuri e quando é que vou visitá! De onde vem Tocantínia e
quando é que vou visitá! Já li sobre Lajeado e aonde vou visitá!” Amapola
teimava já com a indecisão da escolha, e que precisava de tempo para se decidir,
passear diante das prateleiras. E caiu na sua mão debaixo do nariz um título: “Amapola”!
Este mesmo. E esse foi seu primeiro livro de leituras aleatórias: um livro com
título em seu próprio nome, ma-rrra-vi-lha!! E mossas eram mossas. A história
contava tudo que uma tal de Amapola acontecia lá pelos seus sete, oito, nove,
dez anos. Uma garotinha que nasceu em Goiânia que foi morar já bem cedo em
Paranaguá. E a cidade era porto, Porto, PORTO!... O livrinho contava ainda dos
passeios nas praias da ilha do Mel, contava a dor de barriga de tanto comer
jabuticaba quente, etc., contava que aprendeu a cavalgar no cavalo
castanho-claro de nome Timbu, até contou do batizado de um barco de pesca que
levou seu nome: “Amapola”.
Já possuía
reunidos alguns indícios que lhe permitiam armar uma ofensiva a partir daquela
hora. E o primeiro a ser abordado entrevistado crivado de perguntas sabatinado seria
o porteiro do bar Louva-Deus. Disso seu DP tinha convicção. E se encontrasse
ali por ali ao acaso e ao deus-dará a apetitosa Juçara... bem, aí, aí, ia ser a
sopa de mel, torceu seu DP.
Por
consequência dos livros e tantos livros, Amapola por aqueles dias de namoro com
o noivo Imaruí, já usava óculos e, entre outras coisas, respeitava seus dias
férteis pedindo ao noivo Imaruí que usassem camisinhas lembrando frutas doces
coloridas engraçadas diferenciadas e que tinham algumas modernas fluorescentes.
E foi ficando cada vez mais próximo surreal emocional internacional. Tanto que
tirou de uma canção de rádio: “Chegou chegou a primavera e a manhã de nós dois”,
o tema do dia da noite.
A
Aranha-das-Casas - uma aranha seis olhos e simples e pequena e doméstica cor chocolate
- tecia uma teia tênue genial geométrica ali no ângulo da sala de estar de visitas,
bem no alto do teto, quase longe da vassoura: o pai, zurrou; a mãe pensou,
prepararam o bispo Sardinha no espeto, fogo alto, e raízes e frutos do mar e
abóboras e cauim feito de mandioca, e auê!... com dança em volta da fogueira,
carne moqueada: o caçula arrotou e no intervalo foi também ao banheiro quando
se assustou com o cara do espelho: a barata Tonta passeava na cozinha, um pouco
descuidada, tímida, inseto que nem tinha a sombra, inseto que roubava no
escuro, que fazia barulho de um trem, antenas agitadas, ser sobrevivente da
terceira grande guerra mundial a última: a garota Tipió tapou a boca para
ninguém ouvir os gemidos de Amapola: a vovó rezava para pegar no sono, pegar no
sono rezando e de olhos fechados pensando o alto querendo se distrair e
encontrar o dormir: o cão Jejá - único bicho da casa a ter responsabilidade
patrimonial ao ar livre -, uivava ou chorava de frio ali deitado na laje no
capacho junto à porta da rua: o pai, assobiou; a mãe pensou, Dom Pero Fernandes
Sardinha dava água na boca aos índios nhandeva (os pipipã, os jenipapo-canindé),
comparável a um churrasco de domingo muito aguardado, a fumacinha subindo subindo
já batendo na porta do céu bem pra lá confundindo as nuvens: a garota se
encolheu tímida porque Amapola nem parava de implorar, e implorava cada vez
mais alto e sem vergonha, implorava cada vez mais alto que era ouvir “por
favor!, por favor!...” como quem está apanhando no duro: a gata Fogoió retornava
da garagem com rato doméstico Anônimo entre os dentes: o caçula soltou um dos outros
presos, se cobriu todo com o lençol: a garota sabia que nesse ritmo a irmã
Amapola acabaria suspirando ou gemendo, ali no final no ritual, três vezes a palavra,
“dodói! dodói! dodói!...” e a qualquer momento: a barata passeava na cozinha,
isso desde o princípio do mundo, isso já no início dos tempos do Descobrimento,
isso antes de todos os mundos: o Curiango-Tesoura, depois de piar, voou muito
veloz e bem rasante para interceptar a gata com o Anônimo preso aos dentes: a Aranha-das-Casas
como asterisco palmeava um dos ângulos superiores da sala de estar de receber
as visitas de tomar um cafezinho depois do almoço.
E
seu DP nem tinha mais dúvidas de que estava diante do assassino: motivo para
matar fruto de uma boa e grande rejeição a um amor que parecia eterno enquanto
dure e que foi rompido abruptamente sem explicação sem panos quentes sem
passeio na tarde em a calçada à beira-mar ou um lanche na lanchonete Muiratinga
praia da Daniela ou praia de Acaraí.
Um
marinheiro Pitu, comandante do Amapola, voltou do mar, chegou ali na costa
paranaense, já ia se aposentar, queria escrever um livro de aventuras pelos
sete mares e países pequenos insulares. Uma história de memórias, biográfica, saudades,
aventuras, naufrágios, ilhas flutuantes, ilhas do Atlântico, etc., mundo afora,
e se perguntou: “Que é feito de Amapola, aquela iarazinha que batizou o nosso
barco? Hoje uma moça dos seus 23 anos casada e formada e filho filhos. O
Amapola também varou tempestades, chegou a portos, portos dos cinco
continentes, entre o azul do céu e o verde-azul do mar. A Amapola e o Amapola
têm contas a ajustar um com a outra. Nunca se sabe por que uma sorte chegou por
onde veio. Namorar um cara, se enfeitiçar por uma iemanjá. Namorado na escola,
uma amante em cada porto.” O marinheiro Pitu sonhava e falava sozinho isso dia
e noite, anotava alguns pontos, crescia em planos, tinha até comprado um bom
perfume no shopping Ameraba para nem cheirar a peixe.
Noite
alta de verão aquela madrugada. Parcialmente nublado com névoa úmida ou seca.
Temperatura: baixando para uns 17ºC. Umidade relativa do ar 48/97%. Ventos do
norte e de fracos a moderados. Visibilidade: dificílima. Casa no bairro Coroados
e os visinhos da família Triquestroque se comportavam sem novidades e
vice-versa os cães latindo mais ou menos de meia em meia hora dependendo as
horas quem passasse em frente pela rua Cônego Peres.
A
gata retornou ao porão à procura de um rato doméstico Anônimo: a garota
reconheceu os ruídos dos noivos se beijando, beijos com estalinhos e sussurros
e rinchos da cama: o caçula Mandubé se entregara ao cansaço e dormia com a tevê
ligada, sonhava já com o jogo de bola jogado à tarde na companhia dos conhecidos
coleguinhas da rua do Oleiro: o cão Jejá, pelo branco com manchas negras, via
coisas que outros seres nem viam ou ouviam, entendia coisas que os humanos nem
entendiam, cheirava tudo que existia, e se preocupava com a segurança da casa, o
seu território, latia, uivava, gania, fazia tudo quanto era preciso fazer para
defender o seu país da invasão dos inimigos: a garota Tipió estava com a orelha
dormente, mas esperou, esperou, pois sabia que haveria pelo menos mais outra
sessão: o caçula sonhava com entes mortos-vivos, cadáveres carcomidos por guaiamus
e vermes e formigas-doceiras e escaravelhos e pernilongos, cobertos de enxame
de moscas varejeiras, bando de urubus espreitando no alto dos galhos secos do
pé de sabugueiro.
Passavam
os quatro minutos das dezesseis horas. Todos os convocados interessados convidados
ou envolvidos na morte de Amapola estavam reunidos e presentes ali. Enigma
resolvido decifrado evidências às claras. Uns até bebiam café preto outros água
mineral sem gás outros outras pediram com licença para fumar na área, etc. Contente
contente, seu DP cumprimentou a todos e foi direto ao assunto indigitando
apontando nomeando ali em pessoa ao vivo e em cores o assassino: o marinheiro
aposentado Pitu Sururu.
Durante
meses, uma vez, Amapola morreu de amores por um vizinho de nome Nhandiá. Foi
que um dia ela ficou sabendo por intermédio de amigas que o tal Nhandiá a amava
muito e muito pensava nela e falava tudo de bem dela. Daí, Amapola se empolgou.
Mandou uma rosa amarela, um lacinho vermelho na haste da rosa amarela e um
coração transpassado desenhado num cartão que foi junto com a rosa amarela e que
dizia o inconfundível apelo “eu te love!” A mais bela rosa amarela do jardim da
família de Amapola os Triquestroque. O guri na troca lhe mandou um
cartão-postal da praia de Jurerê e um decalque do time do Inter, campeão
estadual aquele ano de 89. Quando enfim se viram frente a frente ambos ficaram
muito paralisados, muito estranhos, muito sem assunto, muito sem graça, muito
desorganizados. E nem rolou nada mesmo ali naquele instante precioso. E riram
muito. Mas foi ótimo. E nunca esqueceram.
Naquela
mesma noite quase no fim, alguns minutos a nuvem, ou as nuvens, encobriu a lua
e também outros voos do Curiango-Tesoura: o noivo Imaruí espiou fora na porta
do quarto de Amapola, farejou a escuridão do corredor, pernas trêmulas, escutou
um chiado de tevê vindo do quarto do caçula, chegou no banheiro e respirou
aliviado purificado: a garota estava firme atrás da porta da despensa, viu a figura
do noivo da irmã passar sorrateiro liso na sombra na calada da noite: o mais velho
Caicau, que naquele momento voltava da farra no clube Imperatriz Leopoldina,
tonto zonzo de trago, estacionou o carro da família aí na garagem, acionando o
Jejá que veio lambê-lo festejá-lo, depois o cara entrou pelos fundos, pregou o
ouvido com a orelha na porta de Amapola, encontrou o Imaruí no banheiro, se
cumprimentaram em voz baixa e meio assustados e meio atônitos e nem se disseram
mais nada: o cão Jejá voltou ao seu posto, preocupado com a segurança da casa,
o seu lar e o seu ganha pão: a Aranha-das-Casas rondou o ângulo alto da sala de
visitas sala solene de estar, queria fazer um lanche antes do dealbar do dia,
talvez demorasse, ia se esconder para nem espantar a caça incauta incidental: a
garota se sentiu pequena atrás da porta, mas insistiu, mas resistiu, esperou
que o corredor ficasse livre desimpedido, calculando tudo todo o segredo
direitinho, braços se abraçando: o mais velho se jogou na cama com tudo e, de
pronto, já dormiu, desmaiou, capotou, só tirou os sapatos: o pai, urrou; a mãe
- libriana amorosa -, chegou à cozinha, bebeu água com açúcar, suspirou oitenta
vezes, tinha de comprar umas verduras na feira da esquina nem podia esquecer: o
noivo Imaruí voltou para o sótão, sorrateiro, aflito, ligado, farejando por
onde passava, farejando de porta em porta: a mãe passou no banheiro, esperou meio
minuto com a orelha o ouvido colado à porta de Amapola, voltou para a cama: o caçula
falou em voz alta no sono, discutiu e riu e saiu correndo um morro abaixo lá da
ideia dele empurrando um pneu velho atacando de espada de plástico mergulhando
em águas límpidas entre os corais: a vovó Piracanjuba desejou estar sentada na
cozinha em plena manhã de sol, gemeu para trocar de lado na cama, suspirou por
um sono de duas horas, duas horas e meia e nem precisava ser mais: o pai
Piriguá Triquestroque, uivou; a mãe pensou, o Sardinha pôs as barbas de molho
no caldeirão de barro cozido dos silvícolas, era escravocrata, discutia com o
nativos as leis de guerra da tribo, e passou a rezar: a barata Tonta, artista
numero um, campeou na cozinha, balançou antenas nas direções as mil pernas
farpeadas, sozinha sem irmãs sem os pais sem rei sem lei sem país: o caçula
estava de piloto número um da esquadrilha da fumaça e voava os seus rasantes sensacionais
exibicionistas provocando rastros de fumaça verde-amarela no céu anil do
Planalto Central.
O
tempo passou outras horas precisas e redondas e tintonhas. Certos espíritos que
só saem à noite e parecem balançar as copas das árvores e nem só por ali em o
bairro Coroados. São os sacis, os lobisomens, as matintas-pereiras? Mas podia
ser sozinho o vento nos cabelos do arvoredo das árvores, ananás-de-cerca,
falsas-ervas-mates, guaricangas-de-bengala, almecegueiras, pindaíbas...
A
barata ciscou na cozinha, pés ante pés, único semovente que dava conta no
interior da casa, resvalando em velocidade no piso frio quadriculado: a Amapola
e o Imaruí haviam jurado amor azul, nariz com nariz azuis, olhos azuis, narizes
azuis, línguas azuis, sorrisos azuis e marcianos azuis pela rua azul em trajes
azuis: o Curiango-Tesoura no galho da coajinguva, sem gazinar, quase pegando no
sono, seu posto de quartel-general: a vovó desejou uma sopinha de arroz com
caldo de galinha e queijo ralado e salsa, uma xícara de leite morno com
bolachas maria, um pudim de leite com caramelo escorrendo bem pegajoso bem
queimado: o pai, mugiu; a mãe, nos limites entre este e aquele mundo dos
sonhos, entre mundos dialéticos, vamos pensar assim, pensou, os índios
macamecra (ou talvez os pacanaua) nem comiam inimigos covardes, chorões,
magros, nem os que sabiam demais: a Aranha-das-Casas se recolheu ao esconderijo
ultrassecreto, uma greta bem ali pertinho da teia no alto ângulo da sala de receber
visitas, o repasto poderia demorar alguns dias ou horas ou minutos, vai saber!:
a vovó sentou na cama, olhou as horas no relógio elétrico, mas a manhã ainda
andava distantinha, disfarçadinha, distraidinha em outra rua, em outra cidade, quem
sabe ainda viajando pelo Oriente Médio: o cão Jejá, deitado na laje fria da
porta de entrada da casa, o queixo entre as mãos, sonhava com o dia, o osso
quase prometido e sentido e saboroso ou algo sempre original e certo e nunca
esquecido pelo patrão pelos patrões e que vinha na promessa de dona Damanivá, a
empregada da casa, membro da família que morava fora e chegava nem sempre na
hora de sempre.
A
dona Damanivá desembarcou do ônibus ali na frente - vinha lá do bairro Sagrada
Família todos os dias menos domingos e feriados -, entrou pontualmente mexendo
pelo portãozinho do jardim, o Jejá veio lambê-la nos sapatos-tênis, festejá-la e
ela entrou pelos fundos da casa, quase assobiando um sucesso, parou diante da
porta do quarto de Amapola, pregou mais a orelha que o ouvido e esperou mais um
pouco, depois desistiu, fez um muxoxo, chegou à cozinha com ideias de duas três
sobremesas para rematar o churrasco do meio-dia que era o sábado hoje era o sábado.
***
E
chovia o convencional daquele período do ano e de dentro do céu caindo do alto
céu caindo lá de cima e de qualquer maneira. Chovia chovia comportas abertas e
de lá do fundo pra baixo.
Tenho
que são muitos os lugares onde nem fui nem estive nem estarei mas vou, recém e
justamente pensou repensou o jaratataca novo. Acontecendo como aconteceu.
Costumes
que vinham do pai do pai do pai do seu avô.
Depois da
chuva o jaratataca novo encontrou o pneu velho. Onde onde? O jaratataca novo
surgiu da sombra de uma perobeira, que eu vi. E lá deitado zero no chão de
terra vermelha, agastado, escovado de tanto estradão, de tanto sertão,
evidentemente careca, cheio de chagas, o pneu velho de caminhão. Se
apresentaram? Seria uma pobre casa esconderijo para o peludo lunático? Um pneu
velho de rodar e rodar na estrada e um jaratataca novo de andar à toa pelaí.
Muito bem.
O
jaratataca novo assumiu o pneu velho como alguém que sobe um degrau de escada:
por nada, sem querer, sem pensar, por acaso, para praticar voo-livre. Até ali o
jaratataca novo nem achou coisa muito estranha ou engraçada. Olhou o desenho do
pneu-recreio... Olhou com calma, e calma até demais. Acabou cansando porque
sempre despois se cansava e se cansou. Isto posto onde? Em Santa Maria do
Herval, Arroio Grande, Canguçu, os arredores.
Um
pneu de caminhão natureza morta oito eixos vinte e tantos irmãos. Abandonado no
pátio para servir de quê? Canteiro redondo para plantinhas, flores atrativas chamativas
das guarupus, ponto de apoio de pé de araticum-pitaiá, pés de bromélias,
banheira de mosquitos, o que for. De que o pneu parecia morto abandonado aqui
jaz esquecido fedendo sem jazigo e um estorvo.
-
Ah eh eh eh!... - casquinou trepidou gargalhou o jaratataca novo.
O
jaratataca novo chegou macio e olhou sem ver e se sentou na beira do pneu como
sendo sua pátria. Nem entendia de nada. Quase sem noção. Mas cruzou os braços
policiou o ambiente. E isto posto onde? Santana da Boa Vista, Piratini, e as
vizinhanças.
-
Eh ah ah ah!... - castanhou cascalhou gargalhou o jaratataca novo.
E de outra vez
o jaratataca novo meio que deitou. Cabeça esquecida, sem preocupação,
sonolento, preguiçoso, pelos arrepiados, o que mais?, barriga vazia, total: preguiça
de ir procurar melancia. Mais um pouco. E deitou por completo sob o sol da
manhã, sol que prometia mil horas ao dia. Jaratataca novo sobre o pneu velho
sob o sol que prometia um dia a dia daqueles.
O
jaratataca novo dormia? Olhos fechados, a barriga lentamente para cima e para dentro,
e tal, o sol quente, cauda em penacho, parecia que dormia, ou sonhava com o quê,
frugívoro herbívoro carnívoro carniceiro.
E
se via o jaratataca novo em rajá, bei, grão-vizir, preboste, samorim... Jaratataca
nova se via assim paxá, sátrapa, califa, morubixaba, suserano... talvez. Pra
que pedir documentos ao jaratataca novo? O jaratataca novo quieto, olhos
fechados, dormindo sono de preguiça-de-bentinho, esquecido, sonhando, sonho de
sombra e água fresca. Pra que acionar o bichinho?
Uma
mosca acionou o manhoso e foi o jaratataca novo que acordou de um sonho. O
certo foi que aconteceu que o jaratataca novo acordou de súbito. Se ligou todo
e num instante. Parecia alerta e perscrutar tudo ao redor. E estranhou aquele
modo de pneu e sem começo e sem fim por quê?
O sol muito
fantástico eficaz espantoso com epicentro no meio do dia. De pronto o jaratataca
novo sentado, pensando, garras longas, olhando aquele caminho que começava onde
terminava girando em volta como droga. E o sol pintou o amarelo e o vermelho
com as árvores bem ali presentes.
Quando
foi, o jaratataca novo acionou o motorzinho lá dele interior o da vontade
própria particular, que ninguém tinha nada com isso. O jaratataca novo em folha
andou pelo por que do pneu velho. Até reiniciar pelo começo do fim quem sabe
alcançando um dia ciumento sovina a própria cauda.
***
Uns
poucos passos e uns poucos minutos de nada, eu estava lendo ali o famoso e
iridescente livro “Marília, a Noiva da Inconfidência” dos conhecidos escritores
goianos Ofélia e Narbal Fontes. Um livro que começa uma história no sertão da
Bahia e depois vai por aí ao litoral e conta os sucedidos todos, etc. Eu estava
nessa leitura instigante e paisagística, capturando plantas e bichos nem muito
pesquisados, quando me lembrei, e sorri ao me lembrar. Adequado.
Eu
me imaginava, naquele tempo do meu passado de guri em os 1986, eu sonhava ficar
com a rainha dos caminhoneiros a rainha da colheita da uva a rainha da festa da
bergamota a rainha do encontro regional. Uma fogosa amazona, bronzeada,
peituda, carnuda, desbocada, inventiva, quase louca, chapéu de pantaneiro na
cabeça, filha de longo proprietário de fazendas possuindo a família dela muitas
colônias e alqueires e plantações em Mato Grosso do Sul, fazenda Juá-Amarelo, estância
Ipê-Amarelo, invernada Aricuriroba... Tudo de bom que se imagina. E doce suave
macia carinhosa que gostava de falar e cantar. Até parecia tizio, anambé-branco-de-rabo-preto,
fogo-apagou, arataiá... E quando o presente é demais, o santo desconfia, coça calo
da cabeça, procura a pulga atrás da orelha e bota preventivamente o pé atrás.
Eu
e a moça rica capa rainha do carnaval de 87 que ela ria a boca grande os dentes
os olhos o peito trêmulo o corpo todo fizemos amizade e aventuras que já me
esqueci. Foram muitas aventuras. Todos os números. Trocamos os dias pelas
noites. Mandamos no mundo e mandamos ver. Mudamos o mundo. Preferimos parar o
mundo e nos isolar das pessoas de tudo e só levantar para tomar sucos e comer
bananas e outras frutas. Ordenamos que o tempo nos esquecesse e ele nos
esqueceu por durante uma semana e sem tirar de dentro. E nos deixaram mesmo em
paz. Tão em paz que enjoou... esvaziou encheu o saco.
A
deusa de carne tenra rainha do verão de 88 e pele de índia caiouá que o que bem
parecia e era mesmo um avião hidroavião, uma máquina vermelha de muitos
cavalos, um furacão de cabelos soltos, e coisa atlética estimada estimulante. A
potranca do ano com salto alto batom vermelho. Foto de capa e foto do centro da
revista, corpo inteiro e em pé e rapadinha. Ela ria e batia assim, tepe! tepe!...
na babaquinha lá dela já lisinha e era demais.
E
nós desenvolvemos as criatividades naquelas camas de lençóis, gramas, águas e
areias, e nuvens. Tanto podia ser emergir pôr ou pegar fogo e nem ser imergir
sucumbir virar cinzas. Aventuras de todos os números aritméticos e que eu e ela
rainha do país de língua brasileira gostávamos, segundo ela mesma em pessoa:
-
Hei tido novas e boas de que limpas e límpidas e princesas e quentes são as
piscinas azuis e verdes do Estado de Alagoas azul universo, oh!, meu campeão de
tudo. E como sói ser.
***
Então,
tenho outra coisa a dizer, lembrar. Um sonho que se repetiu comigo, e comigo se
repetia. Ficou comigo. Volta e meia revoltava aquele sonho, sem eu saber o
motivo ou o significado ou os presságios. Seguinte: eu caía do perau e ia
caindo todo o tempo, raramente chegava a bater, tofe!... no chão de poeira ou
de pedra, vai saber!, e maioria das vezes, quase todas as vezes, eu caía e nem
chegava ao fundo do poço, pois geralmente aquela sensação de cair me dava enjôo
e eu desmaiava pegando num sono mais pesado ou profundo ou de outra frequência
outra encarnação metempsicose.
Se
eu olhava o céu tudo sossegado falando com as árvores mais próximas e tinha
tempo e muito que olhar e sorria. E tinha testemunhas o vento a luz o rio as
árvores os pássaros. O desandar da corrente perdida, e o fervo do tempo encontrado
por encontrar. Pé firme bater o pé como o próprio pé de amarelinho-da-serra,
vamos supor, eu pensava.
E era sempre botar
a cabeça no travesseiro, olhar para dentro e... cair, cair, cair até me
esquecer de cair antes de chegar no chão... e desmaiar no sono de quarta
dimensão, de espaçonave de prato, de outra religião, de voo na pele e penas do
gavião-do-mangue, de passeio em Santarém Novo, pegar o gaiola e subir o rio São
Francisco.
E que sejam
prudentes nem fiquem pelaí e voltem logo, uma vez.
***
Domingo
de tarde com sol e sem nuvens e idas e vindas dos amigos amigas
canários-da-terra, corruíras, joões-de-barro, pintassilgos, jaçanãs... O verão
era do melhor bem quente. Ou dos piores, mais quente dos últimos tempos, os
tempos da década de 70 ou 80. Dependendo do ponto de vista e tal, era bom era nem
tanto. Fomos ao açude da cidade o principal o Bozó e palmeiras-barrigudas.
Todos chamavam de balneário Retiro porque o rio era o Retiro, mas o nome da
represa era Bozó. Cotia convidara as amigas lá dela de sempre. O que eu
aprovei.
E
o rio era pouco, muito pouco, quase aquilo, somente aquilo e quando todos
pensavam ir se divertir na barragem Bozó. A estrada era a mesma de poeira por
entre barrancos de roças de milho e de mandioca e morros de capoeira chircal
cachaporras-do-gentio e voos surpresos de caldos-de-feijão.
Cotia
muito bonita? Estava, era bonitinha, estava uma certeza. Fisicamente atraente,
elegante, esguia, biquíni azul em pele branca talvez até aparadinha e com
cavadinha. Uma beleza pacata. O rosto contente. Saudável, apresentável, apalpável
em as partes fidalgas. O riso combinava comigo e era um dos seus melhores
trunfos.
O
sol estava amigo daquela lua e do tempo mais do espaço que do sol.
Juntas,
as meninas pareciam bando de gralhas-azuis. Eu mesmo um pato-mergulhão. Uma delas
que nem sabia nadar, e se arriscou pular na água, teve que ser sacada pelos
cabelos pelos cabelos úmidos os rastafári. Foi um instante de quase pânico e
berros. Depois muita gente riu e até lhe deram os parabéns e lhe desejaram
feliz ano novo antecipado. A ex-náufraga, chamada Caputira, aquela chorou por
longos minutos fechando a cara envergonhada com as mãos. E até perder e verter
e espremer todas as lágrimas do corpo que havia tomado orar devota para a NS de
Aparecida. Depois nem entrou mais na água nem antes nem depois de vir embora. E
jurou que água era para peixe tracajá arraia e tuiuiú. E perdeu o dia, o
rebolado, claro. Porque quase virou sopa. E foi a primeira e a última vez que a
vi.
O
céu sem nuvens, que limpeza! O sol muito quente, mormaço, água correndo no
açude, grama e árvores em volta, caju-do-campo, que me lembro, uma raridade,
peixes, roque-roques, que me lembro, o córrego sem fim sempre. E a sorte nem
queria mais nada. As pessoas talvez quisessem mais, nunca se acomodam. As
pessoas, sim, querem sempre, nem se conformam. O meu rio digo a minha sorte
pouca, só isso? Sim senhor, minha senhora, só isso e olhe lá!
De
mim para comigo e de mim em frente de ti para contigo digo mais testemunho as
flores colibris manhã brisa trevos-do-campo.
Na
tarde eu pensei, ali deitado, sentado, largado de pernas abertas, quinze pras
três, só de sunga, no gramado perto do açude, debaixo de árvores frondosas, tinteira-do-campo,
se nem me esqueço, aves, socoí-ziguezague, se nem me esqueço, vendo as meninas
gritar como bando de gralhas-de-crista, eu mesmo um cutucurim, pensei comigo e
mais ninguém: Será que posso, pelo menos, testar a Cotia em algumas palavras-chaves?
Tipo palavra Paz. Como Cotia reagiria com a palavra Paz?
Olhei
Cotia, que me interessava admirar sem que me pressentisse, afinal minha
namorada, estávamos namorando, queria conhecê-la, isso era normal, etc e tal,
comparar e pesar a minha guria com outras gurias. Em janeiro Cotia conheceu uma
gama enorme de ótimas supimpas sobremesas. Olhei Cotia buscando no todo dela a
palavra Paz. Como era Paz em Cotia?
A
Paz de Cotia era: e ela escutava mais que falava. Isso era bom? Claro que era.
Mas o escutar mais nem queria dizer menos desejo de gritar. E isso nem era bom.
O certo, que deveria ser, era que nem gostasse de falar muito e nem sentisse
nenhum desejo de gritar berrar. O ideal era nem falar muito e nem sentir rancor.
E ela se distraía muito, era outra bola murcha de Cotia. O bom era se distrair
pouco ou quase nada quando eu lhe contasse causos engraçados ou sérios ou
mentirosos. Quem vai quando nem olha nos olhos tem algo a esconder e é grave.
A
palavra Querido no corpo de Cotia, na curtição de Cotia, era: e Cotia nem tinha
essa palavra que eu muito adorava, e buscava, e achava muito bonita na boca de
uma menina, e acho que muitos caras também pensam assim. Nem, ela nem usava a
palavra Querido, nunca a ouvi me queridar, nunca me chamou com esse
qualificativo apelido e até certo ponto palavra-bumerangue. Talvez ela usasse
mais a palavra... Bem, oh!, meu bem. E eu nunca medi mensurei quilometrei. Tipo
assim: meu bem, bem, benzinho, beeeenzito!... Quem sabe fosse a mesma coisa.
Pois o grau-dez o que aquilata é a intenção, nem é? Nem, mas eu gostava e
precisava, dentro do meu espírito de consciência psicológica mental, para o bom
andamento da minha alma, precisava da palavra Querido e ouvido da boca dela. Sentia
falta, sentia muita falta, e se outros tinham por que eu nem, em?! Tive uma
amiga... esqueci o nome, gostava de usar essa palavra Querido e o negócio era
comigo. E me tratava de Querido. Me lembrei do nome dela. Mas também dizia isso
para todos que cruzavam seu caminho. Então, nem tem muita importância capital
principal internacional.
Outra
palavra para Cotia. Qual era? A palavra Amigo. Então, a palavra Amigo no corpo
e na mente e nos lábios molhados de Cotia. E Cotia usava muito essa palavra
entre os dentes certinhos. Usava muito e mais no feminino Amiga. Tinha mais
amigas que amigos? Era certo. Então, confiava mais em amigas que em amigos? Aí
que eu nem sabia e estava investigando. Ela me considerava um amigo, bom amigo.
Tinha liberdades de amigo para comigo. Me beijava e me olhava e me cochichava
como se faz com os amigos e amigas. Me segurava pelo braço, me puxava, me sacudia,
me telefonava, me falava e dizia: meu Amigo. Eu tinha liberdades de amigo para com
ela. Tipo liberdades de lamber o seu rosto, de puxar seu cabelo, de soltar seu
cabelo, de pegar nos peitinhos lá entre os escurinhos dos cinemas, de coçar a
barriguinha, de ensopar um beijo mais demorado, etc., ajudar escolher a bermuda
nova e opinar se o tamanho estava tudo bem.
E
outras palavras eu ia testando aos poucos com Cotia e na cara dela, longe dela,
com as pessoas à volta dela. E deixando ela muito à vontade. E às vezes me
esquecia outras fingia me esquecer, e que eu sabia.
O
sol foi uma lua e imperou no dia. E nem choveu embora o extremo do calor.
Nenhuma nuvem. Porque o dia o sol e D queriam era sem dúvidas matar todos nós
de calor cansaço mormaço sonolência e teco-teco olhando a paisagem de cima.
Muita
gente no açude Bozó do rio Retiro. Eu e o bando de pichororés. Eu mesmo um
gato-açu. Foi gostoso foi legal foi justo foi inteiro. A sorte sortida era até
ali mesmo, fazer o quê. Eu por mim, falando sério, achei um pouco. Mas às vezes
achava muito, achava que era até milagre. Cabelos molhados, biquínis, pulos do
alto do galho do angico. Achava, só às vezes, que o rio era um milagre. Então tinha
que dar graças aos céus por estar na peleia diária do dia a dia? Dou graças aos
céus, então. Mesmo nem acreditando pondo a mão no fogo por milagres mulheres
cervejas dinheiros e essas coisas que mais sempre se quer se gosta.
O
rio Retiro saudável até onde se via, sempre em pessoa, bem lá para baixo, sim
senhor, jusante, fazia o lago artificial no município de Vista Alegre do Prata
e a hidroelétrica.
Na
volta para casa pegamos carona, em bando de vissiás, eu mesmo um tiú, na
carroceria de um caminhão. Muito de bando de araras-pequenas e dando tchau até
logo beijos atirados até para cachorro. O motorista parou agradar umas gurias no
caminho a pé e elas festivas e aplaudidas. Elas estavam mesmo alegres sempre,
divertidas, boazinhas, peitinhos pequenos ou nem tanto, cabelos vermelhos,
piercings, tatuagens de árabe, rindo de qualquer palhaçada nossa sem graça.
Depois de deixá-las em casa fomos todos convidados a entrar e na boate Flores
Amantes. Que trocamos abraços e beijinhos como se nem nunca jamé outra vez
haveríamos de vê-las e nos ver.
***
Hoje
agora eu mesmo hoje dias 6 e 15 dos meses de outubro e fevereiro do ano
vindouro um feriado facultativo.
Por três
semanas dia e noite sonhei que estava brincando de morar como fazem morar os
pescadores na beira de uma praia, em algum lugar de uma praia remota a praia da
Conceição, em Saquarema.
Uma vez eu
tive de começar a duvidar. Qual o sentido da viagem e das viagens? Me atirar de
barco, me pinchar em avião, montar de moto, subir no carro de bois. Vir ao
mundo para essa viagem e os turismos. Viajar de bicicleta pelas estradas da serra
do Mar e outras serras de sertão de florestão.
Minha
ambição era viajar, pronto. Sair da cidadezinha era como sair da infância, sair
da prisão depois de dezoito anos, depois de completar a pena sair para
conquistar a sedução do mundo, fazer faculdade a melhor parte da história,
conquistar outras partes me pertencentes do planeta, olha lá a São Paulo de
Olivença!
Sair
de moto e estacionar a minha moto bem na margem do rio Aguapeí. Estou vendo. Parar
ali, fazer um lanche, olhar o rio Uruguai. Conhecer Caraguatatuba e Bertioga e
Benevides, olhar a foz do rio Juqueriquerê. Tudo porque sim porque era possível
porque era o que eu mais queria. Olha como será Barreirinha! Olha quando vou a
Rondon do Pará! Olha o estupendo da cachoeira Caldeirão do Inferno!
***
A
carta foi lida e compreendida por todos o Alfenas as árvores os automóveis
automotivos automotores de circulação intracitadina as libélulas maria-mole os
japiaçós os jabutis os insistentes cricriós os ubins-do-igapó e continha em o seu
conteúdo.
Caminhamos
pela rua Arapora, pela calçada do passeio replantada de mognos-brasileiros,
rente às lojas de todo tipo e estilo, junto às paredes de concreto e tijolo à
vista e conversávamos eu e meu amigo Alfenas. Ele vinha mais gordo. Eu mais
idiota otário e brigado com a Cotia. E ríamos como dois bobos bocós num mundo governado
pelos políticos brasileiros. Embarcamos quando vimos o bar Douradoquara.
O meu caso com
Cotia por hora naquele momento era uma relação de maturidade nem diria muita
mas maturidade de duas pessoas comuns iguais a todos os outros as outras, e
quando e confesso que acabara a relação e tinha dado tudo o que já podia dar.
Sentamos
na mesinha quadrada. Mandamos vir uma cerveja loira e dois copos fora do gelo.
O garção disse que... nem havia?, meu! Pedimos uma cerveja preta, então. Nem
havia. Pedimos uma caipirinha da boa, da cachaça mineira cor amarela, e com
limão paulista e gelo à vontade. E nem havia. Pedimos um vinho de Flores da
Cunha, o melhor da safra cinco anos atrás, vinho tinto seco de mesa e gelado. Nem
havia. Insistimos com o pilrete do garção, cansados de rir, já nos irritando, pedimos
uma água mineral sem gás, gelada, fabricada em Claraval. Nem haviiia. Pedimos
um samba com graspa e guaraná gelado. Pois se nem havia, ah ah ah!... Pedimos
dois pastéis de queijo quentinhos feitos na hora - eu só como pastel de queijo
e olhe lá. Só tinha o de carne e era o último. Daí, apareceu um
cachorrinho-vinagre. Alfenas perguntou ao garção, que o tipo parecia saber tudo
dali:
-
De quem é esse vira-latinha?
-
Nem sei, apareceu.
O
cachorrinho-vinagre foi farejando ali por ali, cabisbaixo interessado nos
cheiros farejando rasteiro, ganhando pipoca de um, batata frita de outro, pãozinho
torrado na manteiga de mais uma, pizza sabor jabuticaba com banana de mais outras,
um sorvete de abacaxi oferecimento da mão da cunhã, etc.
Eu indaguei ao
garção, sujeito atendente dali e com o guardanapo de linho branco no braço
esquerdo e bem ou mal uma garça-branca de borboleta na gola, inquiri:
-
Vocês deixam cachorro entrar no bar?
-
Por que nem?! Cachorro também é gente, público e notório!