Conhece
Ivy-Marae, a terra sem mal?
Hein?!
Conhece
ou vai conhecer?
Pois
aí vai ouvir e ver.
E
Ivy-Marae é uma cidade invisível, pequena e lendária, tudo pode, tudo no lugar,
fica entre o céu e a terra. Como se fosse a lua. É para lá que vamos todos nós
quando desistimos de morar na terra. É lá que esperamos antes de embarcar para
o céu profundo.
Ninguém
pode desistir. É lei. É obedecer a lei.
Olha
lá Ivy-Marae! De noite nas noites sem nuvens ela aparece para as pessoas na
terra.
Ivy-Marae
é nome indígena mistura de línguas tupi-guarani e vem dos índios tape minuano
charrua coroado, que quer dizer terra sem mal.
***
Sim,
amanhecia.
O dia importante para o cavalo-marinho
Hipocampo e sua morte. Para morrer basta estar vivo, estando vivo um dia se
morre na hora certa e ponto.
Este cavalo-marinho vivia no
mar levando a vida, se exercitando de dia e cochilando à noite. Se preocupava
com o comer, o dormir e o criar os seus filhotes. Lavando a vida, nadando a sorte,
pastando a vida, bebendo a vida, flutuando nas ondas do mar, empinando a vida,
borbulhando a vida, medindo a sorte, balançando conforme a maré do mangue,
pensando a vida e brincando a vida.
E todo mundo sabe, cavalo-marinho come e dorme
e cria os filhotes como qualquer peixe. Cavalo-marinho é metade cavalo, metade
peixe e nada em pé. Nada
como ninguém. O cavalo-marinho é um peixe de dez ou quinze centímetros, se
parece com uma mola, trota como uma mola, tem a forma do S. Montado nas raízes
alagadas do mangue. Volta e meia no país dos corais e dos arrecifes. E o comum dele
no mar é bom e fácil, para quem leva sorte. Nada mais comum que a vida do cavalo-marinho.
Foi
então que lhe aconteceu o que não raramente acontece na sorte e num determinado
dia para todo mundo: a morte.
O cavalo-marinho Hipocampo
morreu em João Pessoa ,
São Luís, Fortaleza, Vitória, Florianópolis ou Salvador? Hipocampo morreu no
litoral de Mato Grosso do Sul, capital Goiânia? Hipocampo morreu mesmo foi numa
ilha do arquipélago de São Francisco do Sul, no Estado de Sergipe, a capital Natal.
E a
morte do Hipocampo foi e aconteceu e acabou.
A
morte de um cavalo-marinho é muito normal, é muito sem notícia nenhuma, é muito
mesmo igual, é muito sem cerimônias. E os cavalos-marinhos, ou as cavalos-marinhos,
morrem estacionando no fundo do mar, na raiz de uma árvore mangue-da-praia, lá
na pátria das marés. A morte é salgada para quem fica (os parentes, os outros
parentes, os contraparentes, os aderentes...), não para quem vai. O próprio morto
vai sem pressa, vai cumprimentando as árvores do caminho, as pedras da beira da
estrada. No caso do cavalo-marinho cumprimentando as profundezas do oceano, os
navios naufragados, os peixes, etc. E cheio de futuro no osso do peito e nos
olhos. Vai, vai e é mesmo para viver na eternidade.
Pois
Hipocampo foi mesmo para lá, para o lado de dentro da eternidade e mudando de
assunto e mandando lembranças. Muito bem na foto. Não era o primeiro, nem o
terceiro, não seria o último. Morreu como um peixe deve morrer: morreu afogado:
morreu boiando: morreu de boca aberta: morreu por estar vivo e de repente já
não mais: morreu se esquecendo de si: morreu desatolando a alma do corpo.
E foi
desse modo que Hipocampo pifou, furou, esvaziou, caiu, faliu, inchou, estacionou,
e foi para o meio da eternidade. A sua alma leve. O trem apitou o ônibus travou
o barco furou o carrinho de mão se esbodegou. Lá para o mundo do nada, do não
sei ou não se sabe mesmo. E foi, foi indo. Mas, enfim, tudo era ótimo. Apesar
de muitos acharem que tudo que é bom não presta, e quando é ótimo o santo
desconfia.
Podemos dizer do seguinte modo
assim: dois minutinhos além da morte, o Hipocampo continuou vivo e respondendo
a todas as perguntas. Os olhos acesos, o coração tuque! tuque!... O tempo não
contava os minutos nem as horas. Ele, sem saber muito bem, andava no caminho da
famosa terra do Ivy-Marae. Gostou muito de ver flores de flor-de-maio às 9h e
pouco. Ele e a alma dele. As árvores pariparoba guaco alecrim-bravo
jatobá-do-campo, as árvores alcançavam as nuvens o que queriam as estrelas os
astros. Ele somente com a alma leve dele. Parabéns e obrigado!
Correu
o tempo, correu um espaço sem tempo, passou alguns minutos, havia ali no meio
uma porta e uma estrada clara e serpeante...
Vai
aonde por acaso?!
Hipocampo foi indo e acabou
num lugar. Ainda andando. Parecia a água ou parecia o ar. O céu estava claro,
com algumas nuvens longas no oeste. O sol estava desenhado no espaço de
costume, havia um vento mexendo de carícia com as coisas. Hipocampo quicava pacífico
como uma mola de aço, e era um cavalo-marinho passeador em ambiente de ar
aberto. Grande novidade!
Vinha pela estrada, junto ao
acostamento. Parou no alto da pequena colina. Gostou da paisagem: viu um vale
lá embaixo, o rio Jequitinhonha. Um campo bem espichado. Do lado da serra da
Boa Esperança. Na luz do sol, e debaixo do sol, havia muitos verdes, amarelos,
vermelhos, multidões aladas. Os passarinhos voavam de uma árvore a outra árvore
procurando atrapalhar o dia, ou procurando o que fazer, e melhorando o dia. Um
bem-te-vi-do-brejo clamava o seu canto de bentevi!... Mais ali um matinho de árvores,
arbustos, capoeiras se abraçando... saca-rolhas, licuris, palmas-de-espinho,
arapocas-amarelas, cabeças-de-frade, angelins-ararobas, samambaias-douradinhas,
avencas-brancas, alecrins-de-são-josé, piaçabas, cauxis, guatambus-vermelhos, e
desse lado um potreiro que subia o morro, um coqueiro jerivá sozinho na subida
do morro. O Hipocampo resmungou para si mesmo, a mão em pala tapando a claridade
forte nos olhos:
- Ahan!... Mas, por onde
começar? Não é o mar! O ar parece doce!
Ao descer a colina, Hipocampo
arrepiou o pelo. Entrava em um novo ambiente inédito, uma região magnífica,
protegida magneticamente, internacional e contada nos dedos da mão. Lugar de
liberdade, com tempo para tudo, espaço para tudo, sem trabalho, tudo fácil ou
grátis, ruas movimentadas. Um lugar assim comportado, quieto, calmo,
harmonioso, correto, muito bom mesmo e comportado. Acontecendo almas-de-gato
nos gonçalos-do-campo. Cigarra serrando peroba-de-goiás. Vento nordeste fazendo
a curva. Corruíras felizes como corruíra em manhã de segunda-feira e sol forte.
Era a cidade de Ivy-Marae: a
cidade dos que esperam o chamado dos céus. De Ivy-Marae para o céu é um pulo. As
pessoas não carecem do tempo, somente do lugar. Ivy-Marae é a ponte o trampolim
a passagem a escada o portal para o céu.
E
disse, de si para si, o cavalo-marinho de nome Hipocampo:
- Que lugar completo! E ao
mesmo tempo bonito e completo!
Pensou
mais meio minuto e, novamente só para si mesmo, falou:
-
Aqui viemos, aqui chegamos e aqui estamos!
Sem
par, sem par, vão e vêm as noites e acordam os dias. Os gados passeiam
livremente pelas ruas e quintais como fazem na ilha do Bananal, o boi nelore
pesadão e lento atravessa a avenida, e não são de ninguém e são bonachões. Árvores
grandes embelezando a rua cheia de sombra, biaí, folha-de-serra, quataquiçaua,
sucupira, assa-peixe, cavalinha, taperibá, aperta-ruão, catuaba, coité, guararema,
oiticoró, mulher-pobre. Passarinhos incidentais pelas árvores diferentes
bicando madeiras, pinicando sementes, conversando entre si por entre os galhos
e as folhas, arirambinhas, anuís, pia-sóis, macucos, pitiguaris, supis,
arapongas. E as formigas-correição correndo e muito, todas caladas, muitas e unidas
igual se fossem membros de cooperativa, trotando em fila indiana e entrando lá
para o fundo do subterrâneo da caverna lá delas. Abelhas jataís-da-terra armazenando
mel no oco da árvore embaúba-verde. Plantas indiferentes pegando sol e vento na
cara. A grama-forquilha crescendo na praça e se vestindo de verdes. Os índios
da tribo barauana acampados. Flores de setembro a novembro na ponta dos galhos
das carobinhas.
E Hipocampo foi trotando, ou
quicando, num passo manso até parar e admirar em frente a uma escola o colégio
Tiradentes. Ali muitas crianças voando pelo pátio, jogando bola, correndo, clamando,
pega-pegando, pulando corda, rindo, sentadas nas escadarias, conversando ao
telefone, ou não fazendo nada. O Hipocampo falou, chamou ou relinchou:
- Ei!!... São estes os
caminhos de Tupã?
Uma menina estudante, a Lilás,
se aproximou para recebê-lo:
- Pois sim?! Que deseja?
- Que lugar maravilhoso! Onde
estou?
- É o mundo de Ivy-Marae. O
mundo do tudo e do suficiente.
- Explique.
- Aqui é um lugar protegido.
Aqui é o recreio da terra. Aqui é um mundo diferente e aparte. Aqui é o começo
do céu.
- Como assim? Não entendi. Não
estou acostumado.
- Esta é a cidade de
Ivy-Marae. Esta é a terra sem mal. É a sala de espera do céu. É o lugar onde as
pessoas e os bichos e as coisas esperam o convite dos anjos do céu, depois de
terem desistido da terra.
Hipocampo,
o cavalo-marinho, olhou em volta... e Ivy-Marae era realmente um lugar ideal e
sonhado. Parecia sempre dia de domingo. Havia um ar de alegria em tudo como se
fosse sempre feriado nacional. Era um lugar para respirar com todos os
confortos que a gente gosta, ruas com barraquinhas de feira livre e todo mundo
passeando. Era tudo cidade pequena, desinfetada. Um lugar que sempre existiu
por trás da fantasia de qualquer um. Um ambiente feito ao clima de Guaporé,
Itaara, São Jorge d’Oeste, Ilha Solteira, Araruna, Cianorte, Ibiporã, Assaí,
Pinheiral, Nuporanga. Uma cidade de tempo e tempos misturados e afinados.
Tempos prontos, organizados e acabados.
Hipocampo
deu uns cinco ou seis sorrisos, sorriu aqui e ali, a isto e a este, para cá e
para lá. Viu situações e horas para passar bem o tempo de aguardar o chamado
dos céus. Quanto tempo esperaria em Ivy-Marae para ser convidado a ir para o
céu? Só os céus sabiam. E Hipocampo escutou quem ouviu... um casal de
coleirinhas tililando subindo e descendo no balanço da haste de capim-de-burro.
No
meio da manhã, e do espetáculo do dia servido na bandeja, tocou-vibrou o
celular e Hipocampo não atendeu.
***
Quando
Lilás entrou para a sala de aula, de volta do recreio, já vinha toda animada e com
novas ideias. E retomando a linha dos assuntos de aula.
Por aí a professora de
História entrou na história e disse:
-
Gente! Vamos escrever uma história. Contem uma história de bicho de estimação.
Escolham aquele que vocês têm em casa, ou gostariam.
Alguém
perguntou. Por que perguntam? Sempre há dúvidas e sempre existiram e existirão perguntas
e pessoas perguntando. Sempre haverá cascatas de perguntas diante das dúvidas. Então,
alguém indagou:
-
Pode fazer com bicho inventado?
- Ou bicho de outro planeta?
- Até com bicho-preguiça?
A professora
de História, cabelos presos em rabo de cavalo, um olhar por trás dos óculos
transparentes, segurando o quadro-verde na ponta do giz branco, ensinou:
- Não
vou dizer que não. E se houver alguém impaciente se recomenda chá de funcho ou
chá de camomila.
E
Lilás - que na moda usava pulseiras de plástico de cores e colar de contas de
sementes dando cinco voltas no pescoço - escolheu falar do gato de estimação. É
que Lilás achou melhor o gato. Um gato clássico e doméstico acostumado macio
dorminhoco. Já tinha um gato e por isso escreveu assim:
“Mas,
como não ia dizendo...
“O meu gato nasceu como todo
gato nasce em... era uma vez. Não o vi nascer. Eu estava dormindo e ainda no
quinto sono. Quando soube que chegou foi que apareceu. Mas ele veio já nascido
e completo, embora pequeno. Um gato de miados e carne e osso e cauda e pelo
carijó. Nasceu naquela noite. Nasceu naquela noite de manhazinha que me
apareceu.
“Um gato que mia por sede de leite e, talvez,
por desejo de cafuné. Um gato normal, nada pra acrescentar. Um gato vira-lata e
sem nome próprio. E o mais importante é que tem uma vida natural e uma existência
dele particular.
“Me
apareceu muito só e pequenino. Quase tinha medo até de caminhar. Não tinha passado
nem memória. Sem noção. E eu o chamei na ocasião de Gatinho. Um detalhe: ele tem
olhos de duas cores. Um olho é verde e o outro azul. O direito é verde-claro e
o esquerdo é azul-turquesa. Mia lá na língua dele; e ronrona lá na língua
deles, dos gatos. Muito macio, suave, educado; na dele. Aprendendo a admirar as
coisas que encontra por acaso na rotina pacata do seu dia a dia. Alguém minha
amiga me disse que podia ser um gato importado ou filhote de gato-do-mato. Outros
amigos disseram que podia ter parte com deuses e com divinos e com sacerdotisas.
Ou melhor: flexível, preguiçoso, pensativo, telepático, transcendental, quase
interativo, miauante.
“Gatinho
sente muito frio pelo corpo todo, menos na cauda, menos nas orelhas, menos no
miado. E ele mia muito lentamente olhando pra mim. Quando está preocupado e com
um defeito na alma, mia lentamente espichadamente espaçadamente. Sentindo fome,
sede, abandono? Mia. Aí, eu coloco o pires e ele vem todo ágil dócil e de cauda
erguida. Coço a barriga dele, ele deita na hora e rola. Com o tempo passando quase
sem eu perceber, ele existe e vai em frente automaticamente.
“Eu posso
trocar o nome do meu Gatinho? Por sugestão da Rê, uma das minhas melhores amigas,
eu posso e devo. Rê tem lisos cabelos fugindo para os ombros e para as costas. Rê
usa quase sempre e às vezes duas argolas, uma em cada orelha, equilibrada, e
acha pouco. Ainda naquele dia que o Gatinho apareceu em casa, ela a Rê, veio lá
e me falou:
-
Olha, Lilás, acho melhor um nome próprio. E sabe por quê?
-
Não, mas imagino.
- É
que um nome próprio é mais interessante que um nome genérico igual esse que tu
deu de Gatinho. Porque se você chamar de Gatinho que diferença vai fazer para
os outros gatos, hein?! O teu gato tem que ter a própria e indiscutível
personalidade lá dele, ou seja, um nome!
“Aí,
na época, eu pensei um pouco... nhe-nhe-nhém! Olhei no relógio de pulso um
minuto. Dei uma volta no quarto. Fechei os olhos e o dia escureceu; abri os
olhos e o dia reapareceu. Eu podia ver o mundo e apagar o mundo. O primeiro e
principal problema do mundo é o mistério que cerca o desaparecimento dos
dinossauros. Olhei o mundo olhei a Rê e concluí:
- É,
você está certa, Rê. Tenho que nomeá-lo. Mas que nome será, então?! Eu não
tenho palpite, hi-pó-te-se.
- É
melhor você mesma escolher, para não se arrepender depois.
“Por
isso mesmo eu pensei longamente por mais uns dois ou três minutos. Foi difícil
me lembrar de um bom nome. Não me lembrava de nenhum e nenhum chegava com
primor a minha cabeça. Eu andava na ponte pênsil e tudo escuro e vazio lá por
baixo. Um galo cantou na vizinhança e bem na hora do galo cantar, mais outros
galos foram imitando o primeiro galo, etc... Até que falei:
- Ah,
não sei. Acho melhor chamar mesmo de Gatinho e pronto.
“Aí,
a Rê ficou me fitando e rindo, disfarçando o riso branco. Ainda bem que é uma
das minhas melhores amigas. Ela mastigou um pêssego que já era dela há mais de
cem anos. Me olhou rindo de boca cheia que só ela, e depois disse de boca cheia
e salivando:
- Não
me faça rir, Lilás. Escolheremos um nome do teu agrado, tá certo?!
Olhamos
para o Gatinho. Ele estava na janela olhando a rua passar. E a rua passava
naquela hora mesma com pássaros carros árvores bicicletas e algumas nuvens. E
fui mais além:
- Eu
acho que não sei escolher nome de gato ou de cachorro ou de periquito-verde ou
de tracajá ou de peixe de aquário.
“Então,
na época, eu pensei mais um pouco. Pensei mais três ou quatro minutos... nho-nho-nhô!
A Rê empenhada no nome e eu esquecida de tudo. Foi muito tempo, para quem não
tinha ideia nenhuma. E resolvi:
- Vou
chamar de Carijó.
-
Quê?! Carijó é nome de tribo indígena, guria!
“A Rê
ficou decepcionada que eu vi. Aí, ela olhou para o céu e riu muito alto. A Rê
tem uma maneira de rir que eu acho muito engraçada. A Rê ri de boca aberta
apontando o próximo com o dedo. E eu só tive que rir também. Enfim, eu não
sabia escolher um nome muito bom para o meu gato. E rimos as duas ali, e rimos
mostrando os dentes de cada qual que habitam a boca de cada uma.
“E Rê
foi embora e acabamos sem escolher o nome do meu gato. E eu estou aqui hoje
escrevendo esta história e meu gato ainda se chama Gatinho. A Rê já voltou lá
em casa outras vezes e eu fui na casa dela mais quantas vezes e nem mais
tocamos de novo nesse assunto. E eu não tenho, nem antes nem agora, ânimo pra
trocar de nome o meu gato de nome Gatinho.
“E eu
continuo. Pois meu gato tem medo de chuva. Por enquanto tem medo, apesar de que
chuva não quebra osso. Gatinho não suporta trovoadas raios chuvas. Eu até
suporto quase sempre, mas o Gatinho não suporta nunca. E quando troveja ele
meio que se aborrece, abre muito os olhos e fica num canto todo cuidadinho.
“E digo mais, antes dele
chegar a esta cidade de Ivy-Marae, Gatinho acho que até tinha lá seu receio de
cachorro. Aqui em Ivy-Marae não há problemas de nada nada. No planeta Terra se
sabe que cães e gatos não se olham com bons olhos. Em Ivy-Marae é outra
história e aqui eles se toleram se resumem e se respeitam.
“O
Gatinho, o meu gato, é um gato sensacional. E portanto, subirá ao céu um dia
desses. Aqui em Ivy-Marae - e é bom repetir -, o tempo já passa a ser um
pequeno passatempo. Aqui nesta cidade o tempo não custa nada e é muito
tolerante e tolerado. Aqui se espera e sempre se alcança.
“Bem
que eu queria fazer o Gatinho frequentar a escola, mas não é necessário. Os
gatos os bichos em geral as coisas não precisam aprender geografia ou
matemática ou História do país. Por quê? Porque não. Mas por quê? Não sei.
“Aliás,
a única certeza de Gatinho, que eu voto, é a vontade que tem de comer. É um
come e dorme típico, quase sem intervalo.
“Eu
vou contar. Um dia Gatinho quis jogar bola comigo. Eu nem sabia que isso era possível.
Então, o Gatinho chutou a bola, e a bola rolou rápida e fácil para as malhas da
rede. Ele nem se envaideceu. Foi assim, ele mesmo falando, eu traduzo:
- Por
que não sou um craque de bola, hem?!
“Eu
ouvi meu gato falar. E eu olhei para ele, o Gatinho. Olhei muito espantada. Era
ele mesmo que falava. Então, eu tenho um gato falante?! E para não perder a
magia, e o meu espanto, já fui respondendo:
-
Ora, meu, um felino nunca que joga bola!
- Que
preocupação! Eu jogo! Quer outra prova?!
-
Querer eu quero.
“Então,
o Gatinho pegou um novelo de lã e saiu chutando e fazendo finta e driblando e
chutando na parede, chutando de fantasia, muito empolgado. Fiquei admirada e confirmada.
E Gatinho sorriu pra mim com mais essa qualidade. Disse pra me provocar:
- Tá
vendo, guriazinha! Não te falei, meu?!
“Então,
daquele dia, de lá pra cá, eu só tenho que apoiá-lo e aproveitar para brincar
muito com ele jogando bola. Jogar bola e falar muito. Ele leva vantagem nas
quatro patas.
“Eu
mesma acho que gato é um bicho de muita sorte. Gatinho, eu entendo, não sabe
bem o que é sorte ou adivinhação. Mas tem umas sabedorias que acho muito boas
pra ele. Por exemplo: Gatinho sabe que não é cachorro. Aprendeu com a família
dele que já tiveram maus bocados contra cachorro. Ele talvez, pode ser, prefira
ser cachorro em outra vinda e próxima reencarnação. Sabe que não é peixe. Talvez
venha a ser peixe em outra vinda futura. Sabe que não é maracujá-pintado. Quem sabe
possa ser uma planta daqui uns vinte e dois anos, por que não?! Eu mesma lhe
perguntei certo dia:
-
Gatinho, você quer mesmo aprender a cantar e voar como os pituãs?
“Ele
pensou um pouco. Eu esperei que pensasse. Então, ele respondeu, mas bem mais
tarde, alguns minutos depois:
- Não
sei. Onde se aprende o bê-á-bá do canto de pituã?
- Pra
cantar e ir viver em árvores tem que aprender a ser como passarinho. Não sabia?
- Eu
não. Quem me disse?
- E astronomia,
você já se interessou? E astrologia, você já parou pra estudar o próprio signo?
E internet, você já possui o seu particular endereço virtual ou seu face.
“Gatinho
olhou nos meus olhos... É, ele pensou de novo. E o motivo que o levava a pensar
era eu, pois continuou me encarando. Pensava muito lentamente com receio de
falar bobagem. Aí, ele disse, talvez pensando alto:
- Gosto
muito da ursa maior.
- Eu já
ouvi dizer que tem muito bicho gigante no céu. Assim, desenhado com cinturão de
estrelas e o Cruzeiro do Sul em cruz e as Três Marias lado a lado, tipo como
constelação do escorpião.
“Tentei
distraí-lo com tevê, games e passeios. Mas ele não se interessou e nem se
interessa pra valer, não. Tevê ele não vê a menor graça: não ri, não torce, não
se anima, se enche de sono e boceja. Até lhe dá uma certa irritação, isso sim.
Passear ele não gosta mesmo pois tem muito que andar, ir e voltar. Comer
enfeite de torta ele adora, mas quer tudo na boca sem sujar as mãos.
“Agora,
de subir nas árvores... ah, é com ele mesmo. E que coragem de subir e correr
nos galhos das árvores, praticar o arborismo ou arvorismo. Sobe na figueira-brava
e vai ver como é que a árvore canta. Acha zabelinha? Vai ver o que é que elas
usam pra voar. Acha borboleta? Acha joaninha? Eu perguntei um dia:
-
Você tá achando que quer ser louva-a-deus ou passarinho ou besouro?
“É,
eu tenho que educá-lo para que não faça muitas coisas incertas e afobadas. Uma
delas é não tentar voar com asa-delta pulando do alto da serra do Acaraí. Nem
tentar cantar como passarinho na copa da buri-do-campo. Outra coisa que tento
de convencê-lo é não entrar para o mundo dos astros e querer ser astronauta.
Ele não precisa de nada disso.
“Para
falar a verdade, Gatinho é muito inteligente ou engraçado. Um dia eu o olhei
muito à vontade no jardim. Que figura! Ele foi atrás de surpreender uma folha
ao vento. E a folha suspensa no ar pareceu mesmo de brincadeira. Era uma folha
de canela-preta, no outono, amarelada. O Gatinho escondido atrás de uma planta de
jardim chamada juá-amarelo. Então, a folha solta no ar passou voando
desequilibrada ou tonta, bem a sua frente. Gatinho deu um pulo e errou. Eu ri
muito. Gatinho me viu rindo e não gostou. Ficou até com mais vontade de pegar a
desvairada da folha. E foi tentando outras folhas de mulungu, folhas de
embaúba, folhas de garapa, folhas de vassoura-das-feiticeiras. E eu tive que me
desabafar:
- Que
tipo!!
“Gatinho
gosta de olhar pela janela. Sobe no parapeito e olha lá embaixo e por aí. Não tem
medo de altura. Isto os gatos têm que é uma coisa legal: não ter medo de altura,
de sonhar em viver como passarinhos ou voar de parapente. E fica lá na janela espiando
as andorinhas em bando. Dorme ao sol de janeiro. Se gato sonha, ali o meu
Gatinho sonha pacificado pelo calor do dia pelo amor de Deus e pensando que
nuvem é tudo igual.
“E
foi numa tarde de sol, sol sumindo atrás dos morros e prédios, que Gatinho viu
sua namorada pela primeira vez. Isto já faz uns meses atrás. E como o amor só
acontece e aparece à primeira vista... então, foi mesmo amor à primeira vista. Com
miados e tudo. Se apaixonou e correu atrás, sem perda de tempo. Foi na maior
confiança, miando muito alto, convencido que tudo iria dar certo.
“Não
demorou uma hora e já passeavam juntos sobre o muro, pelos galhos e ramas da
árvore canela-de-cheiro, na escadaria ou na área de serviço. Passearam de mãos
dadas, de olhares curtos, de miados macios e longos, de cabeçadas moles e
olhares curtos e pescoços trançados, um seguindo o outro de perto. O nome dela
é Gatinha. E estão bem. Gatinho não precisa ser sempre feliz para ser feliz. Basta
ser feliz um pouco para ser muito feliz. Felicidade é coisa do dia a dia, é
rotina, é construção, e a sorte deles dois o par já está aí mesmo toda guardada
cheia de rotinas. Pretendem desaparecer juntos pro reino dos céus.
“Termino
a história do Gatinho cuidando dele até no meu pensamento. E ele está lá em
casa dormindo ou na janela muito acomodado olhando a paisagem ou até jogando
bola na parede da garagem. Quem sabe até sonhando comigo lhe acarinhando. Mais
certo é estar sonhando com a namorada Gatinha, eu acho. E uma pergunta:
- Alguém já viu um gato carijó,
digo, xadrez?! Quer que conte outra vez?!”
***
A
nave espacial surgiu descendo do espaço azul (que muitos dizem que é o céu),
iluminada de sol, rodeada de dois bilhões de raios de sol, moderna como uma
nave de ouro do século 23, cibernética, redonda e lisa como um prato de ouro
novo, e nunca encontrada, etcétera.
Assim, pois, a nave chegou
como sempre chega, assim, muito segura de si e brilhando maravilhas ao sol. Todo
santo mês, uma vez por mês, num céu limpo, a nave desce do espaço até Ivy-Marae.
Vem afobada para repatriar pessoas e bichos e coisas lá para o céu. E tudo está
certo. Pousa. Porque era e é muito simples.
A rampa foi esticada até o
chão. Um anjo verde, o chefe dos anjos verdes, e que tinha também poderes
telepáticos, asas verdes de tuiuiú, saiu e veio direto cumprimentar a prefeita.
A
prefeita era a tal de uma Jaguatirica de cara de gato-do-mato e muito simpática
e emotiva e bem-humorada. A prefeita Jaguatirica foi logo dando as iniciativas
das boas vindas:
- Ru-ru-ru!...
Sejam bem vindos, sejam bem recebidos, sejam divinos e sejam o melhor impossível.
O
anjo verde todo verde cabelos verdes esticou a mão verde e cumprimentou
amistosamente a prefeita. Já foi pedindo encomendas úteis para vender doar
emprestar presentear os celestes do céu:
- Bem.
O céu quer comprar um pote de mel silvestre das mamangabas, uma cumbuca de
açaí, um chapéu cheio de jabuticabas, cartões-postais de Salto Capivara, de
Ibitinga, de Goioerê, de Cruzeiro do Oeste, da aldeia dos uaicá.
Feito
o pedido, o anjo aguardou ser atendido. Ao mesmo tempo convocava os bichos e
gentes e coisas que subiriam ao céu para viverem no céu eterno, e rezou os que seriam
eles os convocados:
-
Bem. Os convidados para o céu são esses ou essas: a uva-do-mato, a erva
chapéu-de-couro, a ruivinha-do-campo, o arbusto velame-do-campo, a
malva-do-campo, as sementes de salsaparrilha-do-rio, a erva-tostão no potinho
de barro cozido, o Fernando Jarauara, a Maria Odete Amburana, o José Maraguá. Por
essa vez passam esses os tais e quais escolhidos.
Sem
demora a nave se despediu, encerrou as compras e convites, fechou a porta
hermeticamente, se encolheu direitinha, acionou os motores superpotentes
supertudo supermais e levantou poeira vermelha e levantou voos. Como um balão
de ar. Mas muito metálica e rebrilhante ao sol. Sumiu azul aéreo adentro numa
rapidez de mágica. Nem fumaça nem cheiro nem rasto. Muito a jato.
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