quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Terra Sem Mal (juvenil) cap. 1



           
            Conhece Ivy-Marae, a terra sem mal?
            Hein?!
            Conhece ou vai conhecer?
            Pois aí vai ouvir e ver.
            E Ivy-Marae é uma cidade invisível, pequena e lendária, tudo pode, tudo no lugar, fica entre o céu e a terra. Como se fosse a lua. É para lá que vamos todos nós quando desistimos de morar na terra. É lá que esperamos antes de embarcar para o céu profundo.
            Ninguém pode desistir. É lei. É obedecer a lei.
            Olha lá Ivy-Marae! De noite nas noites sem nuvens ela aparece para as pessoas na terra.
            Ivy-Marae é nome indígena mistura de línguas tupi-guarani e vem dos índios tape minuano charrua coroado, que quer dizer terra sem mal.
***
            Sim, amanhecia.                                                                     
O dia importante para o cavalo-marinho Hipocampo e sua morte. Para morrer basta estar vivo, estando vivo um dia se morre na hora certa e ponto.
Este cavalo-marinho vivia no mar levando a vida, se exercitando de dia e cochilando à noite. Se preocupava com o comer, o dormir e o criar os seus filhotes. Lavando a vida, nadando a sorte, pastando a vida, bebendo a vida, flutuando nas ondas do mar, empinando a vida, borbulhando a vida, medindo a sorte, balançando conforme a maré do mangue, pensando a vida e brincando a vida.
 E todo mundo sabe, cavalo-marinho come e dorme e cria os filhotes como qualquer peixe. Cavalo-marinho é metade cavalo, metade peixe e nada em pé. Nada como ninguém. O cavalo-marinho é um peixe de dez ou quinze centímetros, se parece com uma mola, trota como uma mola, tem a forma do S. Montado nas raízes alagadas do mangue. Volta e meia no país dos corais e dos arrecifes. E o comum dele no mar é bom e fácil, para quem leva sorte. Nada mais comum que a vida do cavalo-marinho.
            Foi então que lhe aconteceu o que não raramente acontece na sorte e num determinado dia para todo mundo: a morte.
O cavalo-marinho Hipocampo morreu em João Pessoa, São Luís, Fortaleza, Vitória, Florianópolis ou Salvador? Hipocampo morreu no litoral de Mato Grosso do Sul, capital Goiânia? Hipocampo morreu mesmo foi numa ilha do arquipélago de São Francisco do Sul, no Estado de Sergipe, a capital Natal.
            E a morte do Hipocampo foi e aconteceu e acabou.
            A morte de um cavalo-marinho é muito normal, é muito sem notícia nenhuma, é muito mesmo igual, é muito sem cerimônias. E os cavalos-marinhos, ou as cavalos-marinhos, morrem estacionando no fundo do mar, na raiz de uma árvore mangue-da-praia, lá na pátria das marés. A morte é salgada para quem fica (os parentes, os outros parentes, os contraparentes, os aderentes...), não para quem vai. O próprio morto vai sem pressa, vai cumprimentando as árvores do caminho, as pedras da beira da estrada. No caso do cavalo-marinho cumprimentando as profundezas do oceano, os navios naufragados, os peixes, etc. E cheio de futuro no osso do peito e nos olhos. Vai, vai e é mesmo para viver na eternidade.
            Pois Hipocampo foi mesmo para lá, para o lado de dentro da eternidade e mudando de assunto e mandando lembranças. Muito bem na foto. Não era o primeiro, nem o terceiro, não seria o último. Morreu como um peixe deve morrer: morreu afogado: morreu boiando: morreu de boca aberta: morreu por estar vivo e de repente já não mais: morreu se esquecendo de si: morreu desatolando a alma do corpo.
            E foi desse modo que Hipocampo pifou, furou, esvaziou, caiu, faliu, inchou, estacionou, e foi para o meio da eternidade. A sua alma leve. O trem apitou o ônibus travou o barco furou o carrinho de mão se esbodegou. Lá para o mundo do nada, do não sei ou não se sabe mesmo. E foi, foi indo. Mas, enfim, tudo era ótimo. Apesar de muitos acharem que tudo que é bom não presta, e quando é ótimo o santo desconfia.
Podemos dizer do seguinte modo assim: dois minutinhos além da morte, o Hipocampo continuou vivo e respondendo a todas as perguntas. Os olhos acesos, o coração tuque! tuque!... O tempo não contava os minutos nem as horas. Ele, sem saber muito bem, andava no caminho da famosa terra do Ivy-Marae. Gostou muito de ver flores de flor-de-maio às 9h e pouco. Ele e a alma dele. As árvores pariparoba guaco alecrim-bravo jatobá-do-campo, as árvores alcançavam as nuvens o que queriam as estrelas os astros. Ele somente com a alma leve dele. Parabéns e obrigado!
            Correu o tempo, correu um espaço sem tempo, passou alguns minutos, havia ali no meio uma porta e uma estrada clara e serpeante...
            Vai aonde por acaso?!
Hipocampo foi indo e acabou num lugar. Ainda andando. Parecia a água ou parecia o ar. O céu estava claro, com algumas nuvens longas no oeste. O sol estava desenhado no espaço de costume, havia um vento mexendo de carícia com as coisas. Hipocampo quicava pacífico como uma mola de aço, e era um cavalo-marinho passeador em ambiente de ar aberto. Grande novidade!
Vinha pela estrada, junto ao acostamento. Parou no alto da pequena colina. Gostou da paisagem: viu um vale lá embaixo, o rio Jequitinhonha. Um campo bem espichado. Do lado da serra da Boa Esperança. Na luz do sol, e debaixo do sol, havia muitos verdes, amarelos, vermelhos, multidões aladas. Os passarinhos voavam de uma árvore a outra árvore procurando atrapalhar o dia, ou procurando o que fazer, e melhorando o dia. Um bem-te-vi-do-brejo clamava o seu canto de bentevi!... Mais ali um matinho de árvores, arbustos, capoeiras se abraçando... saca-rolhas, licuris, palmas-de-espinho, arapocas-amarelas, cabeças-de-frade, angelins-ararobas, samambaias-douradinhas, avencas-brancas, alecrins-de-são-josé, piaçabas, cauxis, guatambus-vermelhos, e desse lado um potreiro que subia o morro, um coqueiro jerivá sozinho na subida do morro. O Hipocampo resmungou para si mesmo, a mão em pala tapando a claridade forte nos olhos:
- Ahan!... Mas, por onde começar? Não é o mar! O ar parece doce!
Ao descer a colina, Hipocampo arrepiou o pelo. Entrava em um novo ambiente inédito, uma região magnífica, protegida magneticamente, internacional e contada nos dedos da mão. Lugar de liberdade, com tempo para tudo, espaço para tudo, sem trabalho, tudo fácil ou grátis, ruas movimentadas. Um lugar assim comportado, quieto, calmo, harmonioso, correto, muito bom mesmo e comportado. Acontecendo almas-de-gato nos gonçalos-do-campo. Cigarra serrando peroba-de-goiás. Vento nordeste fazendo a curva. Corruíras felizes como corruíra em manhã de segunda-feira e sol forte.
Era a cidade de Ivy-Marae: a cidade dos que esperam o chamado dos céus. De Ivy-Marae para o céu é um pulo. As pessoas não carecem do tempo, somente do lugar. Ivy-Marae é a ponte o trampolim a passagem a escada o portal para o céu.
            E disse, de si para si, o cavalo-marinho de nome Hipocampo:
- Que lugar completo! E ao mesmo tempo bonito e completo!
            Pensou mais meio minuto e, novamente só para si mesmo, falou:
            - Aqui viemos, aqui chegamos e aqui estamos!
            Sem par, sem par, vão e vêm as noites e acordam os dias. Os gados passeiam livremente pelas ruas e quintais como fazem na ilha do Bananal, o boi nelore pesadão e lento atravessa a avenida, e não são de ninguém e são bonachões. Árvores grandes embelezando a rua cheia de sombra, biaí, folha-de-serra, quataquiçaua, sucupira, assa-peixe, cavalinha, taperibá, aperta-ruão, catuaba, coité, guararema, oiticoró, mulher-pobre. Passarinhos incidentais pelas árvores diferentes bicando madeiras, pinicando sementes, conversando entre si por entre os galhos e as folhas, arirambinhas, anuís, pia-sóis, macucos, pitiguaris, supis, arapongas. E as formigas-correição correndo e muito, todas caladas, muitas e unidas igual se fossem membros de cooperativa, trotando em fila indiana e entrando lá para o fundo do subterrâneo da caverna lá delas. Abelhas jataís-da-terra armazenando mel no oco da árvore embaúba-verde. Plantas indiferentes pegando sol e vento na cara. A grama-forquilha crescendo na praça e se vestindo de verdes. Os índios da tribo barauana acampados. Flores de setembro a novembro na ponta dos galhos das carobinhas.
E Hipocampo foi trotando, ou quicando, num passo manso até parar e admirar em frente a uma escola o colégio Tiradentes. Ali muitas crianças voando pelo pátio, jogando bola, correndo, clamando, pega-pegando, pulando corda, rindo, sentadas nas escadarias, conversando ao telefone, ou não fazendo nada. O Hipocampo falou, chamou ou relinchou:
- Ei!!... São estes os caminhos de Tupã?
Uma menina estudante, a Lilás, se aproximou para recebê-lo:
- Pois sim?! Que deseja?   
- Que lugar maravilhoso! Onde estou?
- É o mundo de Ivy-Marae. O mundo do tudo e do suficiente.
- Explique.
- Aqui é um lugar protegido. Aqui é o recreio da terra. Aqui é um mundo diferente e aparte. Aqui é o começo do céu.
- Como assim? Não entendi. Não estou acostumado.
- Esta é a cidade de Ivy-Marae. Esta é a terra sem mal. É a sala de espera do céu. É o lugar onde as pessoas e os bichos e as coisas esperam o convite dos anjos do céu, depois de terem desistido da terra.               
            Hipocampo, o cavalo-marinho, olhou em volta... e Ivy-Marae era realmente um lugar ideal e sonhado. Parecia sempre dia de domingo. Havia um ar de alegria em tudo como se fosse sempre feriado nacional. Era um lugar para respirar com todos os confortos que a gente gosta, ruas com barraquinhas de feira livre e todo mundo passeando. Era tudo cidade pequena, desinfetada. Um lugar que sempre existiu por trás da fantasia de qualquer um. Um ambiente feito ao clima de Guaporé, Itaara, São Jorge d’Oeste, Ilha Solteira, Araruna, Cianorte, Ibiporã, Assaí, Pinheiral, Nuporanga. Uma cidade de tempo e tempos misturados e afinados. Tempos prontos, organizados e acabados.
            Hipocampo deu uns cinco ou seis sorrisos, sorriu aqui e ali, a isto e a este, para cá e para lá. Viu situações e horas para passar bem o tempo de aguardar o chamado dos céus. Quanto tempo esperaria em Ivy-Marae para ser convidado a ir para o céu? Só os céus sabiam. E Hipocampo escutou quem ouviu... um casal de coleirinhas tililando subindo e descendo no balanço da haste de capim-de-burro.
            No meio da manhã, e do espetáculo do dia servido na bandeja, tocou-vibrou o celular e Hipocampo não atendeu.
                                                                       ***
            Quando Lilás entrou para a sala de aula, de volta do recreio, já vinha toda animada e com novas ideias. E retomando a linha dos assuntos de aula.
Por aí a professora de História entrou na história e disse:
            - Gente! Vamos escrever uma história. Contem uma história de bicho de estimação. Escolham aquele que vocês têm em casa, ou gostariam.
            Alguém perguntou. Por que perguntam? Sempre há dúvidas e sempre existiram e existirão perguntas e pessoas perguntando. Sempre haverá cascatas de perguntas diante das dúvidas. Então, alguém indagou:
            - Pode fazer com bicho inventado?
- Ou bicho de outro planeta?
- Até com bicho-preguiça?
            A professora de História, cabelos presos em rabo de cavalo, um olhar por trás dos óculos transparentes, segurando o quadro-verde na ponta do giz branco, ensinou:
            - Não vou dizer que não. E se houver alguém impaciente se recomenda chá de funcho ou chá de camomila.
            E Lilás - que na moda usava pulseiras de plástico de cores e colar de contas de sementes dando cinco voltas no pescoço - escolheu falar do gato de estimação. É que Lilás achou melhor o gato. Um gato clássico e doméstico acostumado macio dorminhoco. Já tinha um gato e por isso escreveu assim:
            “Mas, como não ia dizendo...
“O meu gato nasceu como todo gato nasce em... era uma vez. Não o vi nascer. Eu estava dormindo e ainda no quinto sono. Quando soube que chegou foi que apareceu. Mas ele veio já nascido e completo, embora pequeno. Um gato de miados e carne e osso e cauda e pelo carijó. Nasceu naquela noite. Nasceu naquela noite de manhazinha que me apareceu.
 “Um gato que mia por sede de leite e, talvez, por desejo de cafuné. Um gato normal, nada pra acrescentar. Um gato vira-lata e sem nome próprio. E o mais importante é que tem uma vida natural e uma existência dele particular.
            “Me apareceu muito só e pequenino. Quase tinha medo até de caminhar. Não tinha passado nem memória. Sem noção. E eu o chamei na ocasião de Gatinho. Um detalhe: ele tem olhos de duas cores. Um olho é verde e o outro azul. O direito é verde-claro e o esquerdo é azul-turquesa. Mia lá na língua dele; e ronrona lá na língua deles, dos gatos. Muito macio, suave, educado; na dele. Aprendendo a admirar as coisas que encontra por acaso na rotina pacata do seu dia a dia. Alguém minha amiga me disse que podia ser um gato importado ou filhote de gato-do-mato. Outros amigos disseram que podia ter parte com deuses e com divinos e com sacerdotisas. Ou melhor: flexível, preguiçoso, pensativo, telepático, transcendental, quase interativo, miauante.
            “Gatinho sente muito frio pelo corpo todo, menos na cauda, menos nas orelhas, menos no miado. E ele mia muito lentamente olhando pra mim. Quando está preocupado e com um defeito na alma, mia lentamente espichadamente espaçadamente. Sentindo fome, sede, abandono? Mia. Aí, eu coloco o pires e ele vem todo ágil dócil e de cauda erguida. Coço a barriga dele, ele deita na hora e rola. Com o tempo passando quase sem eu perceber, ele existe e vai em frente automaticamente.
            “Eu posso trocar o nome do meu Gatinho? Por sugestão da Rê, uma das minhas melhores amigas, eu posso e devo. Rê tem lisos cabelos fugindo para os ombros e para as costas. Rê usa quase sempre e às vezes duas argolas, uma em cada orelha, equilibrada, e acha pouco. Ainda naquele dia que o Gatinho apareceu em casa, ela a Rê, veio lá e me falou:
            - Olha, Lilás, acho melhor um nome próprio. E sabe por quê?
            - Não, mas imagino.
            - É que um nome próprio é mais interessante que um nome genérico igual esse que tu deu de Gatinho. Porque se você chamar de Gatinho que diferença vai fazer para os outros gatos, hein?! O teu gato tem que ter a própria e indiscutível personalidade lá dele, ou seja, um nome!
            “Aí, na época, eu pensei um pouco... nhe-nhe-nhém! Olhei no relógio de pulso um minuto. Dei uma volta no quarto. Fechei os olhos e o dia escureceu; abri os olhos e o dia reapareceu. Eu podia ver o mundo e apagar o mundo. O primeiro e principal problema do mundo é o mistério que cerca o desaparecimento dos dinossauros. Olhei o mundo olhei a Rê e concluí:
            - É, você está certa, Rê. Tenho que nomeá-lo. Mas que nome será, então?! Eu não tenho palpite, hi-pó-te-se.
            - É melhor você mesma escolher, para não se arrepender depois.
            “Por isso mesmo eu pensei longamente por mais uns dois ou três minutos. Foi difícil me lembrar de um bom nome. Não me lembrava de nenhum e nenhum chegava com primor a minha cabeça. Eu andava na ponte pênsil e tudo escuro e vazio lá por baixo. Um galo cantou na vizinhança e bem na hora do galo cantar, mais outros galos foram imitando o primeiro galo, etc... Até que falei:
            - Ah, não sei. Acho melhor chamar mesmo de Gatinho e pronto.
            “Aí, a Rê ficou me fitando e rindo, disfarçando o riso branco. Ainda bem que é uma das minhas melhores amigas. Ela mastigou um pêssego que já era dela há mais de cem anos. Me olhou rindo de boca cheia que só ela, e depois disse de boca cheia e salivando:
            - Não me faça rir, Lilás. Escolheremos um nome do teu agrado, tá certo?!
            Olhamos para o Gatinho. Ele estava na janela olhando a rua passar. E a rua passava naquela hora mesma com pássaros carros árvores bicicletas e algumas nuvens. E fui mais além:
            - Eu acho que não sei escolher nome de gato ou de cachorro ou de periquito-verde ou de tracajá ou de peixe de aquário.
            “Então, na época, eu pensei mais um pouco. Pensei mais três ou quatro minutos... nho-nho-nhô! A Rê empenhada no nome e eu esquecida de tudo. Foi muito tempo, para quem não tinha ideia nenhuma. E resolvi:
            - Vou chamar de Carijó.
            - Quê?! Carijó é nome de tribo indígena, guria!
            “A Rê ficou decepcionada que eu vi. Aí, ela olhou para o céu e riu muito alto. A Rê tem uma maneira de rir que eu acho muito engraçada. A Rê ri de boca aberta apontando o próximo com o dedo. E eu só tive que rir também. Enfim, eu não sabia escolher um nome muito bom para o meu gato. E rimos as duas ali, e rimos mostrando os dentes de cada qual que habitam a boca de cada uma.
            “E Rê foi embora e acabamos sem escolher o nome do meu gato. E eu estou aqui hoje escrevendo esta história e meu gato ainda se chama Gatinho. A Rê já voltou lá em casa outras vezes e eu fui na casa dela mais quantas vezes e nem mais tocamos de novo nesse assunto. E eu não tenho, nem antes nem agora, ânimo pra trocar de nome o meu gato de nome Gatinho.
            “E eu continuo. Pois meu gato tem medo de chuva. Por enquanto tem medo, apesar de que chuva não quebra osso. Gatinho não suporta trovoadas raios chuvas. Eu até suporto quase sempre, mas o Gatinho não suporta nunca. E quando troveja ele meio que se aborrece, abre muito os olhos e fica num canto todo cuidadinho.
“E digo mais, antes dele chegar a esta cidade de Ivy-Marae, Gatinho acho que até tinha lá seu receio de cachorro. Aqui em Ivy-Marae não há problemas de nada nada. No planeta Terra se sabe que cães e gatos não se olham com bons olhos. Em Ivy-Marae é outra história e aqui eles se toleram se resumem e se respeitam.   
            “O Gatinho, o meu gato, é um gato sensacional. E portanto, subirá ao céu um dia desses. Aqui em Ivy-Marae - e é bom repetir -, o tempo já passa a ser um pequeno passatempo. Aqui nesta cidade o tempo não custa nada e é muito tolerante e tolerado. Aqui se espera e sempre se alcança.
            “Bem que eu queria fazer o Gatinho frequentar a escola, mas não é necessário. Os gatos os bichos em geral as coisas não precisam aprender geografia ou matemática ou História do país. Por quê? Porque não. Mas por quê? Não sei.
            “Aliás, a única certeza de Gatinho, que eu voto, é a vontade que tem de comer. É um come e dorme típico, quase sem intervalo.
            “Eu vou contar. Um dia Gatinho quis jogar bola comigo. Eu nem sabia que isso era possível. Então, o Gatinho chutou a bola, e a bola rolou rápida e fácil para as malhas da rede. Ele nem se envaideceu. Foi assim, ele mesmo falando, eu traduzo:
            - Por que não sou um craque de bola, hem?!
            “Eu ouvi meu gato falar. E eu olhei para ele, o Gatinho. Olhei muito espantada. Era ele mesmo que falava. Então, eu tenho um gato falante?! E para não perder a magia, e o meu espanto, já fui respondendo:
            - Ora, meu, um felino nunca que joga bola!
            - Que preocupação! Eu jogo! Quer outra prova?!
            - Querer eu quero.
            “Então, o Gatinho pegou um novelo de lã e saiu chutando e fazendo finta e driblando e chutando na parede, chutando de fantasia, muito empolgado. Fiquei admirada e confirmada. E Gatinho sorriu pra mim com mais essa qualidade. Disse pra me provocar:
            - Tá vendo, guriazinha! Não te falei, meu?!
            “Então, daquele dia, de lá pra cá, eu só tenho que apoiá-lo e aproveitar para brincar muito com ele jogando bola. Jogar bola e falar muito. Ele leva vantagem nas quatro patas.
            “Eu mesma acho que gato é um bicho de muita sorte. Gatinho, eu entendo, não sabe bem o que é sorte ou adivinhação. Mas tem umas sabedorias que acho muito boas pra ele. Por exemplo: Gatinho sabe que não é cachorro. Aprendeu com a família dele que já tiveram maus bocados contra cachorro. Ele talvez, pode ser, prefira ser cachorro em outra vinda e próxima reencarnação. Sabe que não é peixe. Talvez venha a ser peixe em outra vinda futura. Sabe que não é maracujá-pintado. Quem sabe possa ser uma planta daqui uns vinte e dois anos, por que não?! Eu mesma lhe perguntei certo dia:
            - Gatinho, você quer mesmo aprender a cantar e voar como os pituãs?
            “Ele pensou um pouco. Eu esperei que pensasse. Então, ele respondeu, mas bem mais tarde, alguns minutos depois:
            - Não sei. Onde se aprende o bê-á-bá do canto de pituã?
            - Pra cantar e ir viver em árvores tem que aprender a ser como passarinho. Não sabia?
            - Eu não. Quem me disse?
            - E astronomia, você já se interessou? E astrologia, você já parou pra estudar o próprio signo? E internet, você já possui o seu particular endereço virtual ou seu face.
            “Gatinho olhou nos meus olhos... É, ele pensou de novo. E o motivo que o levava a pensar era eu, pois continuou me encarando. Pensava muito lentamente com receio de falar bobagem. Aí, ele disse, talvez pensando alto:
            - Gosto muito da ursa maior.
            - Eu já ouvi dizer que tem muito bicho gigante no céu. Assim, desenhado com cinturão de estrelas e o Cruzeiro do Sul em cruz e as Três Marias lado a lado, tipo como constelação do escorpião.
            “Tentei distraí-lo com tevê, games e passeios. Mas ele não se interessou e nem se interessa pra valer, não. Tevê ele não vê a menor graça: não ri, não torce, não se anima, se enche de sono e boceja. Até lhe dá uma certa irritação, isso sim. Passear ele não gosta mesmo pois tem muito que andar, ir e voltar. Comer enfeite de torta ele adora, mas quer tudo na boca sem sujar as mãos.
            “Agora, de subir nas árvores... ah, é com ele mesmo. E que coragem de subir e correr nos galhos das árvores, praticar o arborismo ou arvorismo. Sobe na figueira-brava e vai ver como é que a árvore canta. Acha zabelinha? Vai ver o que é que elas usam pra voar. Acha borboleta? Acha joaninha? Eu perguntei um dia:
            - Você tá achando que quer ser louva-a-deus ou passarinho ou besouro?
            “É, eu tenho que educá-lo para que não faça muitas coisas incertas e afobadas. Uma delas é não tentar voar com asa-delta pulando do alto da serra do Acaraí. Nem tentar cantar como passarinho na copa da buri-do-campo. Outra coisa que tento de convencê-lo é não entrar para o mundo dos astros e querer ser astronauta. Ele não precisa de nada disso.
            “Para falar a verdade, Gatinho é muito inteligente ou engraçado. Um dia eu o olhei muito à vontade no jardim. Que figura! Ele foi atrás de surpreender uma folha ao vento. E a folha suspensa no ar pareceu mesmo de brincadeira. Era uma folha de canela-preta, no outono, amarelada. O Gatinho escondido atrás de uma planta de jardim chamada juá-amarelo. Então, a folha solta no ar passou voando desequilibrada ou tonta, bem a sua frente. Gatinho deu um pulo e errou. Eu ri muito. Gatinho me viu rindo e não gostou. Ficou até com mais vontade de pegar a desvairada da folha. E foi tentando outras folhas de mulungu, folhas de embaúba, folhas de garapa, folhas de vassoura-das-feiticeiras. E eu tive que me desabafar:
            - Que tipo!!
            “Gatinho gosta de olhar pela janela. Sobe no parapeito e olha lá embaixo e por aí. Não tem medo de altura. Isto os gatos têm que é uma coisa legal: não ter medo de altura, de sonhar em viver como passarinhos ou voar de parapente. E fica lá na janela espiando as andorinhas em bando. Dorme ao sol de janeiro. Se gato sonha, ali o meu Gatinho sonha pacificado pelo calor do dia pelo amor de Deus e pensando que nuvem é tudo igual.
            “E foi numa tarde de sol, sol sumindo atrás dos morros e prédios, que Gatinho viu sua namorada pela primeira vez. Isto já faz uns meses atrás. E como o amor só acontece e aparece à primeira vista... então, foi mesmo amor à primeira vista. Com miados e tudo. Se apaixonou e correu atrás, sem perda de tempo. Foi na maior confiança, miando muito alto, convencido que tudo iria dar certo.
            “Não demorou uma hora e já passeavam juntos sobre o muro, pelos galhos e ramas da árvore canela-de-cheiro, na escadaria ou na área de serviço. Passearam de mãos dadas, de olhares curtos, de miados macios e longos, de cabeçadas moles e olhares curtos e pescoços trançados, um seguindo o outro de perto. O nome dela é Gatinha. E estão bem. Gatinho não precisa ser sempre feliz para ser feliz. Basta ser feliz um pouco para ser muito feliz. Felicidade é coisa do dia a dia, é rotina, é construção, e a sorte deles dois o par já está aí mesmo toda guardada cheia de rotinas. Pretendem desaparecer juntos pro reino dos céus.
            “Termino a história do Gatinho cuidando dele até no meu pensamento. E ele está lá em casa dormindo ou na janela muito acomodado olhando a paisagem ou até jogando bola na parede da garagem. Quem sabe até sonhando comigo lhe acarinhando. Mais certo é estar sonhando com a namorada Gatinha, eu acho. E uma pergunta:
- Alguém já viu um gato carijó, digo, xadrez?! Quer que conte outra vez?!”
                                                                       ***
            A nave espacial surgiu descendo do espaço azul (que muitos dizem que é o céu), iluminada de sol, rodeada de dois bilhões de raios de sol, moderna como uma nave de ouro do século 23, cibernética, redonda e lisa como um prato de ouro novo, e nunca encontrada, etcétera.
Assim, pois, a nave chegou como sempre chega, assim, muito segura de si e brilhando maravilhas ao sol. Todo santo mês, uma vez por mês, num céu limpo, a nave desce do espaço até Ivy-Marae. Vem afobada para repatriar pessoas e bichos e coisas lá para o céu. E tudo está certo. Pousa. Porque era e é muito simples.
A rampa foi esticada até o chão. Um anjo verde, o chefe dos anjos verdes, e que tinha também poderes telepáticos, asas verdes de tuiuiú, saiu e veio direto cumprimentar a prefeita.
            A prefeita era a tal de uma Jaguatirica de cara de gato-do-mato e muito simpática e emotiva e bem-humorada. A prefeita Jaguatirica foi logo dando as iniciativas das boas vindas:
            - Ru-ru-ru!... Sejam bem vindos, sejam bem recebidos, sejam divinos e sejam o melhor impossível.
            O anjo verde todo verde cabelos verdes esticou a mão verde e cumprimentou amistosamente a prefeita. Já foi pedindo encomendas úteis para vender doar emprestar presentear os celestes do céu:
            - Bem. O céu quer comprar um pote de mel silvestre das mamangabas, uma cumbuca de açaí, um chapéu cheio de jabuticabas, cartões-postais de Salto Capivara, de Ibitinga, de Goioerê, de Cruzeiro do Oeste, da aldeia dos uaicá.
            Feito o pedido, o anjo aguardou ser atendido. Ao mesmo tempo convocava os bichos e gentes e coisas que subiriam ao céu para viverem no céu eterno, e rezou os que seriam eles os convocados:
            - Bem. Os convidados para o céu são esses ou essas: a uva-do-mato, a erva chapéu-de-couro, a ruivinha-do-campo, o arbusto velame-do-campo, a malva-do-campo, as sementes de salsaparrilha-do-rio, a erva-tostão no potinho de barro cozido, o Fernando Jarauara, a Maria Odete Amburana, o José Maraguá. Por essa vez passam esses os tais e quais escolhidos.
            Sem demora a nave se despediu, encerrou as compras e convites, fechou a porta hermeticamente, se encolheu direitinha, acionou os motores superpotentes supertudo supermais e levantou poeira vermelha e levantou voos. Como um balão de ar. Mas muito metálica e rebrilhante ao sol. Sumiu azul aéreo adentro numa rapidez de mágica. Nem fumaça nem cheiro nem rasto. Muito a jato.

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