sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Alice Para Sempre (romance) Capítulo 10




            Subindo e descendo morros, morros e serras, seguindo a estrada asfaltada rodeando morros, morros e montanhas, lá fora caía uma chuva, chuva rápida de verão, o ônibus balançando, caminho velho ou novo, Alice e Marcelle já chegavam a Ouro Preto e com um certo friinho arrepiando a pele. Vila Rica de Ouro Preto, cidade mais conhecida dos séculos coloniais. Muita, pouca, muita ansiedade.
            - Se fosse sonho, se fosse verdade; que bom seria. O resto tenta a sorte.
            Passara um ano, outro fora a trote, o ano de dois mil e nove já passara total e entrou aquele outro ano novinho em folha.
            Alice e Marcelle sentadas nos degraus da igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar. Esperavam que a igreja acordasse. Andorinhas, de barriga branca e costas escuras, corriam perigosamente o espaço aéreo. Sol mineiro de chá de camomila em manhã fria de cerração subindo. Dia de manhã que vinha se aprontando para céu azul, igreja do século barroco, anjos músicos, muito difícil que fosse do século vinte e um. Chá de folha de laranjeira, doce e quentinho, de colherinha.
            - Alguma coisa te digo, Marcelle: só esperando.
            - Por quê?
            - Ora, os santos são demorados, pacientes, calmos, de pedra-sabão.
            - Os santos e as santas e os anjos moram aí dentro?
            Todos os morros, todas as ruas estreitas, todas as pontes de pedra, todas as igrejas e capelas, todos os carnavais, todas as ladeiras, todos os bairros, todos os museus, todas as pousadas e pensões. As árvores se manifestavam.
            Alice subiu ao morro do Cruzeiro ver pitangueiras e araticuns florindo, morros de ferro, morro do Rola-Moça, poucas nuvens brancas e bastante sol, fios de água nascendo entre as rochas e caindo em véus de noiva, besouros verdes cavando o chão de ferro, chapéus-de-sapo, abelhas listradas de amarelo e preto bebendo flores de ferro, capoeiral, bauxita, os tratores e caminhões fora-de-estrada cavando e levando os morros numa espiral, montes e montanhas onde nascem os rios, guabirobeira, canela-de-ema, quipá, chircal, vales profundos onde passam os rios, corruíra, canarinho-do-mato, estalador...
Depois, Alice viu pedras e barrancos e um arvoredo do cerrado, muito movimento de passarinhos, curió, galo-da-campina, xexéu, e pica-pau-do-peito-amarelo se achando entre os galhos secos de uma mungubeira, peito amarelo, costas cinzentas ou perto disso, topete arbitrário, se exibindo. Alice sentou numa pedra debaixo do agasalho da sombra e esperou. Pensou, repensou, mediu e apartou os seus planos, passou a mão nos cabelos, resumiu:
            - Boa tarde. Enquanto houver minas, temos esperanças.
            As ladeiras começam e terminam, sobem e descem, sete fôlegos, sobrados brancos com janelas azuis, fachadas de azulejos, sobradões dos séculos XVIII, XVII, casarões dos senhores endividados com o quinto, pousadas e pensões tombadas, casa dos Contos, rua conde de Bobadela.
Numa das pousadas, na área coberta com telhas encardidas de ferro, pilastras com trepadeiras, a avó bordava com seus óculos na ponta do nariz.
            - Vento... vento... vamos ver o vento... vento nordeste.
Ladeiras de gatos sete fôlegos, casas geminadas, acolheradas, brancas e cobertas com o mesmo telhado de ferro. E a casa do Dirceu, o casarão de Marília, a casa do Alferes?, a praça Tiradentes, ali na praça uma vez se vendeu escravos, aqui na praça se vende bugigangas como artesanato, Aleijadinho subiu a escadaria, e os turistas passeiam ladeiras de sete vidas, sete fôlegos, capelas e igrejas suntuosas. Que trissado era aquele? Olhos empoeirados de casas antigas.
            Anoitecendo ou amanhecendo, a neblina tímida toma conta dos vales profundos, das regiões dos riachos. Parece assim como fumaça distraída e extraída do cachimbo da palhoça. Vai subindo os velhos morros de ferro. A noite e a manhã e a noite são bem calmas e enormes, até porque para construir o mundo.
            Marcelle abriu os olhos, acordou, escutou vozes em conservas. Alice abriu os olhos e ouviu barulho de chuva. Uma casa de dois andares abria a rua em forquilha, em vê ou ipsilon. Pessoas riam e conversavam animadas ali pelo interior da pousada. A chuva leve sobre a cidade resignada. Ventinho chato brincando de vento. Crianças ali nos corredores brincando de pega-pega pegou.
            - Mãe, que coisa eu sinto?
            - Não é você, é a cidade. Por saudades.
            As duas, mãe e filha, entraram na igreja São Francisco de Assis. E finalmente nuvens com anjos barrocos, e anjos em tribo de anjos, anjos em trajes menores, anjos com asas nas costas e nos calcanhares, anjos com flores nas mãos e estrelas no cabelo, anjos gordinhos, anjos com os olhos abertos e mãos tocando nuvem, anjas abraçadas, eram mil anjos e anjas voando como passarinhos azuis, olhos azuis, no céu azul, e muito ouro, era tudo um céu aberto de sol forte, vida do céu num carnaval de imagens e cores puxadas por carros alados, alegóricos.
            Aí, Marcelle perguntou e houve mais ainda:
            - Mãe, os anjos são verdade? Mãe, os anjos são divino?
            Sentada na grama do morro do Alto da Cruz, sobre a cidade, olhando tudo, lá embaixo a cidade toda torta, Alice esperava, olhava os telhados incendiados, variando laranja e vermelho e amarelo, nuvens na mão esquerda do sol, um fio de água se despejando da montanha, Alice não queria mais nada, esperava e esperava, um pintassilgo territorialista cantando aflito para expulsá-la, guamixira, vista perfeita da igreja de Nossa Senhora do Rosário, Alice sentiu medo de escorregar e cair sobre a cidade do faz-de-conta, olhou bem, olhou de novo e viu bem que era isso mesmo.
            Passou um dia e depois outros. Aqui estátuas. Ali estátuas. Capela de São Sebastião. Rua Marquês do Paraná.
            - Há ruas que não conheço, conheço.
            Alice e a amiga Marília saíram para a noite. Estrelas incontáveis para contar, a noite de Vila Rica, noite de Ouro Preto, serenatas. O vento agitava os cabelos soltos de Alice. Marília, bela e simpática. Desceram a ladeira em curva e, tão estreita, que alguém poderia, de braços abertos, tocar nos dois lados de paredes de casas. Chegaram ao chafariz da praça Tiradentes. Tiradentes já estivera ali. Aleijadinho já passara ali. Mestre Ataíde pintou e dourou ali. Centro com igrejas incendiadas, casario incendiado, ruelas incendiadas, escadarias incendiadas. Alice vestia branco com uma blusa amarela. Interessante era pouco, mas Alice tinha lá seu cabelo solto e corrido, um cabelo de movimentos ou mais movimentos, desfiados e com pontos mais claros, uma fita verde, enfim, nem curtos nem tão longos.
As noites de Ouro Preto sempre povoadas de fantasmas andantes. Nas noites os fantasmas de Vila Rica rastejam pelas ruelas de Ouro Preto, são sombras de mistério. As duas moças cruzaram o caminho de um encapuzado de bengala. Que barulho foi aquele? Alice falou:
            - Que tipo!
            - É o estudante e poeta Antônio Jó. Sempre por toda parte, seja de manhã, tarde e noite. É tudo Antônio Jó.
            Sentada em sua cadeira de balanço na varandinha da pensão, fazia quase um século, a avó despachava seu crochê. Uma andorinha, duas andorinhas, outras andorinhas de barrigas brancas e costas cinzentas. O casario branco de olhos azuis. O nevoeiro subindo para os topes. Marcelle já tinha idade de se pentear sozinha com pente de cabo. Difícil de acreditar.
Alice e Marcelle bebiam a água no chafariz da Marília. Alice bonita, bonita, trocentas vezes bonita. Quem bebia dessa água desejava boa história de amor. Alice enxugou a boca com a mão, suspirou, respirou e prosseguiu:
            - A vida pode ser boa e mais ou menos, pelo menos.
            Então, Alice, a suave, mãos dadas com Marcelle, olhando tudo em volta, se achou realizando um sonho, dando um sorriso bom para a cidade antiga. Paravam para tocar as paredes. Paravam para olhar as andorinhas. Paravam para olhar o céu azul e as montanhas. Paravam para escutar as ruas sem tempo. Paravam para falar com o caramujo supersônico. Alice poderia ser diferente e outra pessoa? Poderia dizer que gostava ou que não gostava? Ladeira da Saudade, saudade era fraqueza.
            - O que se há de fazer? Eu faço o que posso.
            Marcelle, a angélica, mãos na cintura, suspirou:
            - Que era, maiê?!
            - Hã-hum. O mundo, além de pequeno, é redondo.
            Sexta-feira de tardezinha, Alice e Marcelle desceram a escadaria para tomar sorvete, mercado de movimento de legumes, colorido de frutas, peixes de olhos abertos, oferta de preços, sorvete de pitangas mais goiabas-do-campo e sorvete de chocolate mais açaí, o vento brincando com os cabelos de Marcelle e os cabelos de Alice, o vento com os cheiros das mercadorias, pessoas conversando também sobre coisas, pararam diante de umas rosas amarelas e solteiras, ficaram olhando as rosas molhadas, ficaram se encantando com as flores do campo, uns mosquitinhos, os legumes, os pequis, as folhas e raízes que curam qualquer coisa.
            - Voltar do espaço aéreo e reencarnar na árvore ubá, virar canoa.
Será que Tiradentes pisou aqui, ali e acolá? Será que Aleijadinho parou naquela esquina? Ladeiras para cima e para baixo, lampiões acesos, igreja apontando estrelas e a lua, o vento ainda brincando com os cachos de Marcelle e com o brilho das estrelas, o latido de um cão multiplicado pelos outros cães em outros quintais, Antônio Jó descendo de poeta, cutucando a sua bengala nas pedras do calçamento de época, Alice e Marcelle de mãos dadas, depois sentaram nas pedras, o poeta descia a ladeira trocando passos com a bengala na mão.
Antônio Jó tinha colegas de faculdade e colegas de trago. E Jó tinha vida de estudante e de poeta boêmio. Jó gostava de Marília bela e de todas as mulheres de Ouro Preto. Antônio Jó parecia ser alienígena.
            - Mãe, o poeta parou. Tá olhando.
            - É Antônio Jó.
            - Continua parado, e olhando.
            - Vai sabê!
            O poeta Jó, então, trocou de mão a bengala e subiu a ladeira. O vento brincava de empurrar o balão prateado da lua, o vento brincava com os cachos de Marcelle, o vento brincava de empurrar a galáxia para a noite. Um avô cuidava da rua sentado na sala de estar, junto à janela. Um vira-lata brincava de farejar as pegadas do poeta. Tudo único, sem importância, importante.
            Alice quase compreendia que todos os caminhos são possíveis, e sabia e não sabia que o destino puxava, vária e complexa era a bicharada do Senhor, Alice queria a cidade de Ouro Preto, queria as saudades de Vila Rica, a cidade de incêndios ferruginosos, Alice sempre sempre a caminho de uma cidade que não conhecia, Alice era às vezes do vinho para o dia e da noite para a água.   
            Alice e Marília na taverna, uns caras tocando bossanovas, caipiras, serenatas, sambas, pagodes. Marília de namoro dançava coladinha. Alice dançava coladinha, estudava o ambiente. A cerveja e a caipirinha molhavam a mesa e o coro de antigos sucessos. Alice olhava assim, pois isso era legal e isso era diferente. Nessas horas tudo ria sempre e bem. Alice e Marília riram a noite toda. Elas riram para homens ostensivos, para homens impessoais, para homens modelos, para homens desacompanhados, para homens coercitivos, para homens sem fim. Alice acordou de manhã, oito e meia, sem lembrar ou querer lembrar de nada.
            Alice tinha certeza que um dia teria amigas em Aragarças, em Condor, em Cametá, em Piripiri, em São Bento do Una, em Guarapari, em Taubaté.
            - Podem me chamar que vou imediatamente.
            E ainda completou:
            - Isso não é nada, vocês vão ver.
            Passeando mãe Alice e filha Marcelle, subindo, upa! a ladeira da Saudade ou a ladeira do Rasga-Joelho. Pertinho a igreja de São José. Os telhados incendiados, os coqueiros, as cabriúvas, as cigarras, as corruíras, as arapongas. Marcelle e os cabelos cobrindo as orelhas, os cabelos até o meio das costas, os cabelos lambendo o vento.
            - Marcelle, um dia desses você vai pra escola.
            - Por quê?
            - Porque é legal.
            - Legal como?
            - As profes ensinam a desenhar, colorir os desenhos, contam histórias, contam lendas indígenas e uma turma de outras crianças.
            Alice riu disfarçada, Marília riu despregada, caminhavam em calma, devagar, Alice de mãos nos quadris, mãos nos bolsos, as duas para baixo e para cima das ladeiras, Marília de braços cruzados no peito, Alice admirava os vários incêndios, adorava incêndios, muitas pessoas nas ruas vendendo artesanato, inutilidades para todos os fins, brinquedos para enfeitar, alugando imóveis tombados, sempre as calçadas de pedras mal cortadas, Alice e Marília de mãos dadas, Marília, bem aproveitada, até daria em divertida, cheia de invenções e novidades, Marília disse:
            - Vamos logo, antes que esfrie.
            - E hoje eu já me considero feia.
            - Você precisa conhecer as noites e os dias.
            - Eu amo, sem saber como, sem problemas ou orgulho. O amor é o meu sol e as minhas constelações de estrelas.
            - Já eu não o aceito mais, não o quero mais do meu lado, nem perto de mim, nem dentro de mim.
            Passaram-se um dia, dois, três e mais. Com os primeiros raios do sol, manhã de terça-feira, Marcelle acordou, se sentiu leve sem ter esta definição, reparou na sede, estava com fome, o nariz coçava, os cabelos estavam numa altura. Alice acordou, estava com fome, abriu a janela de pálpebras azuis, um incêndio lá fora, toda a cidade incendiando, timbó-açu de sombra, uma pata ou galinha e seus dúzia e meia de pintinhos em fila procurando comida, os morros subindo com sensação, os sucos de abacaxi e o café e o chocolate macio e o melão em canoa. Alice tinha três estrelas voando perto e em derredor: rosto doce, rosto meigo, rosto esportivo e rosto água fria.
            A praça vazia, a praça cheia, a praça na chuva, a praça sob as estrelas, o estudante Antônio Jó esperando o desfile de Alice ou Marília, e falar com Alice:
            - Eu curto sempre esta praça morrendo à tarde.
            Alice parou, Alice ou Marília fingiu parar, Alice respondeu:
            - Fazer namoro na praça, é claro.
            - Quer ser Marília de Dirceu, hein, Alice?
            - Assim, sem mais, da água pro vinho?
            Antônio Jó, o estudante, amigo-irmão de outros estudantes, esfregou envergonhado as orelhas, esfregou o nariz, esfregou logo os olhos, respondeu:
            - Você me dá a via-láctea de supetão, é.
            - Ora, quem são os sonhadores estudantes de filosofia? O que querem? São rapazes sérios com boina na cabeça?
            Ele balançou a cabeça, balançou e balançou mais, esfregou as orelhas, balançou a cabeça muito mais que o necessário, e desafiou:
            - Então, o que acontece?
            - Você, o que acha, estudante?
            - Você é tudo de bom.
            Sem se anunciar veio a chuva, uma chuva, logo logo as águas começaram a correr ladeiras abaixo, Jó falou:
            - Moro onde me dá na ideia. A barraca é um barco, é uma ilha e é uma nuvem. Barco foge, ilha desaparece, nuvem esquece.
            À noite mesmo, treze de maio, Alice, Marcelle e Marília, aromatizadas, passeavam. Coaxar de jabutis, trilos de escorpiões pequenos, voos cegos de peixes-lampiões, pios de caçotes, cricrilar de estrelas. O poeta Antônio Jó se escondeu debaixo do sobretudo com capuz, andou nas sombras das paredes com ladeiras que sobem e descem, nas sombras da praça, na sombra sonora do chafariz, Alice o reconheceu:
            - A lua não o deixa sossegado? As estrelas não o deixam sossegado? O medo de morrer não o deixa sossegado? O medo de viver não o deixa dormir?
            Antônio Jó, trocando a bengala de mão, amigo dos boêmios da cidade antiga, respondeu, embora tímido e na sombra:
            - Não sou daqui, não sou ninguém e não me considero. Não tenho pena das pessoas, só dos bichos e das plantas. Olho a lua e conto as estrelas, perco a conta. Sou amigo dos meus camaradas e somente camaradas. Gosto toda vida de mulheres por causa da pele macia. Prefiro as mulheres que não fumam.
            Um jabuti para enfeite de mesa em pedra-sabão, 50 mil réis; um metro quadrado de toalha de renda, outros 60 mil réis; um espeto corrido na companhia do estudante Antônio Jó, 25 mil réis. E ele não apareceu. Um chimarrão no alto do Itacolomi, na sombra de um pequizeiro, com Antônio Jó, tudo combinado. E ele não apareceu. Um serão com Antônio Jó, o poeta noturno. Mas ele não apareceu. E Alice teimou em esperar, não se iludiu muito, afinal adoraria sentir a mão dele na sua coxa, só isso, pouca coisa. Por onde andaria, aquela hora, o muito Jó, o Jó amigo da turma de bagunceiros e que morava no bairro Saramenha?
            - Pessoa certa, lugar certo, hora certa. 
            Então, abriu a chuva. Alice e Antônio Jó se protegeram correndo para a gruta na montanha. Olhavam a chuva, os raios chicoteando o verão, o trovão atroando, o frio suor de fumaça da montanha. Uma chuva que não apagava os incêndios da cidade, quase os deixava mais brilhantes.
E a chuva passou. Daí, sobraram o cheiro de flores do campo, o cheiro das flores do mato, o cheiro do ferro da terra, especialmente muito bonito e cheiroso os mosquitinhos do campo, vento nordeste moderado, e os passarinhos felizes comendo pitangas muito vermelhas, mesmo bandos de pássaros felizes, e borboletas azuis e besouros verdes, passarinhos com mania de território. Antônio Jó, amigo dos violões e dos tragos, falou para Alice:
            - Marília, coloque essa flor no cabelo.
            E de Alice para Antônio Jó, o poeta-estudante:
            - Dirceu, você é emotivo impulsivo ridículo.
            As estrelas, que estrelas?, ainda não apareciam, a noite estava longe, mas o Antônio Jó queria trabalhar como poeta, ouvidos no mar, vigiando os olhos da adorada, idolatrada:
            - Não tenho mar, mas tenho montanhas. Não tenho as ondas do mar, mas não troco os nossos tijucos. Não tenho barcos, mas navego com horizontes, belos horizontes. Não tenho estrelas do mar, mas tenho estrelas cadentes e discos voadores. Tenho os sonhos, que são seus olhos, Marília bela.
            Os dois, lado a lado, olhavam dali para todo o mundo em redor. Rodeados pelas montanhas. Montanhas com miolos de tesouros. O mundo tão grande, cabendo nos olhos. Enxame de abelhas-papas-terras. Atrás de uma cerca de arame farpado, logo ali, um cavalo preto e quase todo de preto, de olho grande e lustroso, os observava. O cavalo preto levava na garupa uns chupins, de sentinelas. O mundo todo passava a poucos centímetros do nariz dos curiosos. Nuvens no céu carregavam manadas de caravelas do século dos descobridores, do século dos bandeirantes. Antônio Jó falou até Alice:
            - Foi preciso conhecer você, Marília bela, para me conhecer melhor.
            - Quem me dera ser a estrela da manhã ou da tarde ou da noite.
            - Estrela-sol, estrela-café-e-leite, estrela-flor, estrela-estrela, estrela-Marília-bela.
            Então, eles se deitaram na grama úmida e, sem dormir, fecharam os olhos para ver estrelas em reboliço, ouvir estrelas em fuga, e viram estrelas cintilantes, estrelas pequenas, estrelas gordas, estrelas limão, estrelas formidáveis, estrelas gritantes, estrelas em movimento, comparado a comer jabuticabas na chuva.
            - O barco a vela nas nuvens, o barco a vela nas montanhas, o barco a vela nos rios, o veleiro nas tuas pernas, Marília bela.
            - Galeões, caravelas e corvetas.
            A festa do carnaval brincou uma semana inteira. Para cima e para baixo nas ladeiras de sete dias. Ninguém acordava, ninguém bebia, ninguém encostava, ninguém dormia, ninguém beijava na boca, ninguém gritava, ninguém caía, ninguém inventava. As torres das igrejas pedindo mais, os santos e santas e anjos e anjas trepidando, rachando e rindo. O nevoeiro subindo a montanha de ferro. Ninguém comia, ninguém bebia, ninguém morria, ninguém desmaiava de sono, ninguém namorava, ninguém apedrejava. Navios de piratas, navios vermelhos e azuis e amarelos, navios incendiados que incendiavam, navios ancorados, navios naufragados. Ninguém cantava, ninguém cantava, ninguém beijava nos olhos. As meninas passeavam de índio, índio com batom vermelho ou café ou verde, muitos bichos, onça e macaco e galinha e peru e anta e capivara. Poeira de ferro. Boi brabo e mascarado. Ninguém beijava na boca, ninguém gritava, ninguém lambia os lábios, ninguém fumava maconha ou bebia cerveja. Gritos e gritos ladeiras abaixo, ladeiras acima. E ladeiras rolantes, ladeiras com escoras nas paredes, ladeiras em curva, ladeiras bifurcadas. Enterro de gente, enterro de pato, enterro de palhaço. Todas as horas de Antônio Jó, estudante e poeta. E bando de piratas sem chapéu se despedindo, navios de tempestades indo embora. Todos embarcaram nos seus navios, ônibus, cabriolés e foram embora. Soldado graduado, soldado raso, condecorado, coronel, brigadeiro, perfilado em posição de sentido, fazendo continência. Que gozação era aquela? Entre mortos e feridos foram todos embora, deixaram o que sobrou para o próximo carnaval.
            Uma hora, duas, oito se passaram. Bastava olhar, havia bandos de passarinhos, e pares de passarinhos pelos telhados de ferro sempre iguais da cidade de Ouro Preto. E da terra brotavam arbustos, brotavam ouro e pedras preciosas e brotavam ferro e alumínio, brotava uma lua mordida de formigas-pretas-de-ferro, e estrelas mordidas de formigas-peixes, e muito mais. Tinha uma gata de nome Borboleta passeando no telhado incendiado, toda devagar, espiando e miando lentamente.
O estudante Antônio Jó, cabelo crespo despenteado, como alguém querendo nada de mais, pegou a coxa de Alice. E os minutos formiguinhas foram puxando as horas sob o dia de ouro. As estradas dos trens de ferro puxando ferro, pegando sol nos trilhos de ferro. Depois ainda, o poeta Antônio Jó, sacudindo os cabelos de maneira esportiva, lábios sedentos, beijou os dedos das mãos de Alice na noite de prata. A lua povoada de formigas carpinteiras. Noite contando estrelas até perder a conta:
            - Marília bela, Marília bela! Mais não te amo mais, mais não posso mais! Paisagens belas e soltas no ar, casas suspensas nas nuvens, Marília bela! Janelas, árvores, nuvens, ventos nas incendiadas janelas, Marília bela!
A cidade era leve e antiga. Alguém olhava a cidadezinha lá de cima dos morros, lá do meio do araçazal. Um dia desses até podia resvalar na chuva e cair, rolando pelo morro do Rola-Moça.
            Alice, mais tarde, ainda na cidade faz-de-conta de Vila Rica:
            - Quem me reconhece ao longe?
            Mais tarde e mais tarde:
            - Poucos me conhecem, muitos talvez não me reconheçam.
            Ainda bem mais tarde e mais tarde:
            - Isso é bom e isso é ruim. 
            Alice e o estudante Antônio Jó, juntos no chafariz da Marília:
            - Um dia e depois o outro. O humor da cidade. Os incêndios dos santuários. A História da cidade se confunde com nossa saudade do Brasil.
            Cabelos ao vento, leves, crina cintilante, Alice voltou a falar:
            - Tiradentes viu isso, esteve aqui, ali e acolá. Aleijadinho subiu escadarias e olhou para trás. Lá sentados nas pedras do morro, os poetas amigos contavam carneirinhos. E todos passearam daqui pra lá, de lá pra cá. Eram tão bons e estudantes, os inconfidentes!
            Alice e poeta Jó ensaiaram um beijo na boca, um beijo demorado, parado, fazendo gosto, entrando pelos confins. Um beijo de dois pombinhos ronronando, rindo. Um longo beijo de esfregar a ponta dos narizes. Um beijo de fazer rir. Um beijo de perder o fôlego. Um beijo de subir um degrau da escada. Um beijo competitivo.
            Mas a cidade já acordara e Alice saiu para a rua com um vestido até o meio das canelas. Era de seda com babados? Os turistas desfilavam de bermuda, uns de mochila nas costas, tênis com meia, celular e fotos, água benta ou mineral. As ladeiras se incendiando desde as primeiras horas. Turistas brancos de óculos escuros. Turistas piauienses, catarinenses, matogrossenses, paranaenses. A estrada de chão batido subindo o morro, pegando poeira de ferro nas costas, serpenteando como cobra de ferro. Bando cada vez maior de periquitos e periquitas paulistas subindo as escadarias das igrejas santuário. Uma caravana do Espírito Santo, caravana de Rio Branco. Que clangor era aquele? Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões. Montanhas de montanhas, montanhas de ferro, montanhas de aos montes, montanhas de cidades do tempo, montanhas de século XVIII ou XVII, capela de Senhora Santana.
            - Agora eu me ajoelho.
            - O que eu recebo eu devolvo? Então, sou uma primata.
            Dez minutos depois, Alice se encontrava sozinha tomando chá junto a uma janela da pousada, olhava a cidade incendiada e esperava, e pensava, anoitecia em calma, o sol se despencando puxando o vermelho e o laranja e o amarelo para trás das montanhas de ferro, muitos turistas de bermuda passeando ladeira acima e ladeira abaixo, pelas ruas estreitas e tortas onde Tiradentes também passara, o chá de folhas de laranjeira, aos golinhos, o sol rolando bobo atrás do monte, Alice se arrepiou toda, esfregou o braço todo arrepiado, um dia para o sossego, acima de tudo para observar e esperar, a cidade de Ouro Preto não era barulhenta.
            Alice queria visitar Quixerê. E queria conhecer os quixerenses. E procuraria ver as pedras de Quixerê. Haveria rio na cidade? E as tardes morrendo e as noites estreladas e as manhãs de passarinhos em Quixerê.
            Marcelle olhou, treolhou, procurou o que olhar. Logo depois, sem demora, recorreu:
            - Mãe, preciso contar algo muito difícil de aturar.
            E Marcelle completou:
            - Mãe, a Tetê morreu. Como morreu?
            Tetê conseguiu seu velório na sala de estar, sobre a mesa da sala, uma vela vermelha no lado da cabeça, e flores, e à tarde foi cremada, e à noitinha suas cinzas espalhadas na ladeira da Saudade. Solidários, os hóspedes ficaram no velório, compareceram ao incineramento, ajudaram no espalhamento, dona Natércia, dona da pousada Marília de Dirceu, mãe da cadelinha Tetê, ganiu:
            - Quando dei em mim, hoje cedo pela manhã, Tetê já não falava, não balançava o rabo. A gente era muito unidas. Tetê só latia em último caso, não incomodava, não me exigia nada, muito doce, gostava do meu cheiro, gostava da minha cama. E a gente passeava logo às cinco da manhã, antes de qualquer coisa, descíamos até a feira...
            O domingo amanheceu glorioso, uma chuva inesperada cantando no telhado, chá junto à janela, bom para baralho e damas e conversas, bom para olhar e esperar, Marcelle pediu:
            - Mãe, mãe e mãe! Quero suco de caju, pé de moleque e bambolê.
            Chuva parou às quatorze horas. Daí, foram à praça Tiradentes ver a festa em honra a São João, bandeirinhas de papel de cores presas nos fios, casamento da roça muito engraçado, também tinha até pinhão do Paraná, e o poeta Jó olhava tudo com pena, olhava tudo com olhar vago. Aí, ele abraçou as pedras, adorou as pedras, abraçou as pedras, e beijou as pedras, beijou e abraçou as pedras, os fogos de artifício estourando no céu noturno acordando a festa. Os fogos assoviando, chiando, voando como meteoros, com rabo incendiado, estourando como pedia o povo. O poeta namorando as pedras-sabão, acariciando, alisando, escorregando, tocando, dedilhando, digitando, perguntando. Caravana de turistas de Araçatuba.
            A noite ia bem mais alta. O céu noturno estudava astronomia, os ufólogos chegavam das cidades grandes, tomavam chá, queriam ver estrelas, ver meteoritos, tomavam café, esperavam, esperavam discos voadores, fumavam maconha, riam muito, se beijavam na boca enrolados em cobertores de campanha, dormiam em barracas pequenas, olhavam a igreja de Santa Efigênia dos Pretos, dedilhavam violões, declamavam poemas, catavam pedrinhas para levar embora.
Óvnis dando rasantes nas chapadas e os encontros imediatos de terceiro grau, uivos perdidos de cachorro-vinagre-do-mato, cachaça para esquentar a fogueira. O mundo começou num passeio de disco voador? E vai acabar no dia que os discos aterrissarem aqui na Terra? Peri e Ceci caíram no mesmo lugar, vindos de estrelas separadas? Antônio Jó era camarada e colega e vizinho dos amigos de cabarés. É lógico e mais fácil que existam mesmo extraterrestres.
            - Que vontade de dormir. Ninguém para me proibir.
            Marília, então, enlaçou Alice, e Alice enlaçou Marília, se beijaram na boca, rapidamente, a galera aplaudiu com entusiasmo; aí, pronto, as duas repetiram o beijo na boca, um beijo demorado, de língua, e a galera ficou, então, num silêncio; aí, Alice e Marília se cobriram com um cobertor xadrez e a turma suspirou e trocou de assunto.
            Um dia, Alice e Marcelle e Marília, dez e meia da manhã, sexta-feira de sorte, subindo a escadaria no interior do museu da Inconfidência, Alice e Marília, primeiro Alice:
            - Uma coisa e outra coisa. Uma coisa vai e uma outra coisa vem. Uma coisa compensa a outra, uma coisa anula a outra, uma coisa premia a outra.
            - O amadurecimento traz a calma ao espírito.
            - A rica floração vence os meses quase escondidos.
            - Quem perderia para eu ganhar?
            Alice se sentou na escadinha de pedra da pousada, olhar parado no interior abstrato, olhar dividido por dentro e por fora, quase atenta aos pequenos e inúteis pensamentos que lhe vinham à mente, olhando mal e mal a ladeira ali na frente, revirando a alma sem querer. Uma galinha carijó puxando o séquito de acompanhantes, escolta de filhotes. Que badalar era aquele?
            - Os carros buzinam, as pessoas se apressam, as pessoas comem, as pessoas se cansam, as pessoas são do tamanho de uma tesourinha: necessariamente nesta desordem.
            E os turistas fotografavam mesmo mais Ouro Preto? Compravam utilidades em miniatura, cheiravam igrejas, subiam cansados as ladeiras cansadas. Sempre as manhãs de colorido incêndio. Os historiadores amavam Vila Rica, consultavam mapas, apontavam o dedo e sorriam. E apontando ohs!, como fazem as crianças atrás de pracinhas e balanços em pracinhas. Encantamentos diante da capela de São João. Beber a água da fonte da Marília.
            Alice e Marília - Marília é nome bonito -, procuraram a mãe-de-santo Ofélia, mais lá sobre o morro, no Taquaral, subindo estradinha sinuosa e perdida na capoeira, a mãe-de-santo Ofélia falando com Alice e oferecendo alternativas:
            - Quer trazer de volta a pessoa amada? Sofre? Quer se curar de bebedeiras? Mau olhado? Inveja? Seus caminhos estão trancados? Vênus entre a Terra e o Sol o que isso acarretará? Sua cama tá cheia de espinhos? Precisa limpar seu caminho? Um gato de olhos vermelhos piou no seu portão? Um cão raivoso trancou você em casa? O espelho favorito trincou? Se sente uma lesma no asfalto escaldante? Se sente um sapo-ferreiro atravessando a rua? Já falou alto até para as amigas e vizinhas - se arrependendo muito depois -, que quer e está à procura de um companheiro que lhe dê segurança?
            Alice veio a Ouro Preto para respirar novos ares, histórias antigas de se ler, e ares novos fazem muito bem, mudar os olhos, respirar novos ares, sentir o espírito tocado de móbiles que se movem no tempo, apreciar os dias toda ela voltada ao dia como a flor.
            - Onde chego já procuro e quero encontrar.
            O nevoeiro baixava, já baixou sobre a cidade, tomou conta das profundezas, à noitinha o poeta Antônio Jó apareceu, Alice o viu, tocou assunto:
            - Vamos conversar.
            Antônio Jó, o poeta, amigo normal lá dos seus amigos do copo sujo, não respondeu, foi subindo a ladeira e sumiu, foi engolido pela névoa e pela escuridão, e sumiu quase misteriosamente, sem deixar rastros, ou melhor, deixou somente uma pequena sombra. O poeta Jó voltou na pele de um cão vadio e desconfiado, faminto, mesmo quem sabe uma metamorfose, um lobisomem. Um cão vadio, ressabiado de gentes, desconfiado das pedras soltas, esquivo, escaldado, encolhido de frio, olhos e focinho baixos. Chegou, parou e ficou olhando Alice. Um pouco de longe. E babando um pouco de tudo.
            As andorinhas a bailar pelo ar, tirando rasantes, tirando refilões, tirando fininhos. As turistas, então, andavam e conversavam diante de igrejas, santos e santas. Andavam nos dias de sol refratário com aqueles chapéus enormes - que para os homens seriam os sombreiros -, chapéus de palha, de plástico, de couro, de pano, chapéus de barbicacho, chapéus para mulheres, e eram grandes e bonitos, carnavalizados e carnavalescos, chapéus belos e esvoaçantes, verdes ou amarelos, ventilados, bonitos e verdes com enfeite de flores ou frutas de pano, chapéus leves com fita de uma cor, às vezes presos ao queixo por uma tira de pano florida, e lhes caíam muito bem e todos notavam e faziam por elogiar. Agradecidas e agradadas.
            - Como posso, hoje, despertar a atenção de Tupã?
            No passado distante, Tiradentes andou por aqui, ali e acolá. Aleijadinho parou na subida da ladeira e olhou o tempo. Fizeram isso inúmeras vezes. Mas o presente está assim, Ouro Preto ou Vila Rica, e era outra manhã de quinta-feira, dia do recolhimento do quinto, o céu amplo e lindo e quente. O estudante Antônio Jó esperava sentado num banco da praça Tiradentes, olhava, pensava um verso pé quebrado, ou talvez nem pensava. E Alice se aproximou sorrindo sem querer. Disse o estudante:
            - O que foi?
            - Você notou, Antônio Jó?
            - Você veio rindo. Você tem esse sorriso muito lindo. É esse o ponto.
            Aí, o estudante Antônio Jó, colega de cachaça dos colegas de faculdade, pegou uma flauta de bambu e foi criando os sons suaves, tecendo no ar as harmonias, Alice se sentou, cruzou as pernas como uma índia da tribo parecis, balançou a cabeça afirmativamente, o som da flauta ganhou toda a praça, evoluiu acima dos telhados, telhados incendiados, subiu às nuvens, e não morreu jamais. Logo mais em seguida, Alice tomou um susto, como se caísse de uma nuvem branca muito alta, Alice piou:
            - O quê?
            - Seus olhos se encheram de nuvens brancas.
            - Vou descobrir quem fez isso comigo.
            Primeiro foi o espanto que Alice sentiu ao se deparar dentro do espelho. O peito pesava como se uma anta gigante sentara ali. E mais umas quantas emoções malucas. Os olhos de Alice sabiam trazer para o fundo do espelho aquele céu azul com poucas nuvens brancas. Sol da manhã entrava pela janela, e o cheiro espacial das coisas, o gosto no ar dos ferros das montanhas de ferro. As andorinhas aterrissavam nos fios elétricos, catavam no chão de paralelepípedos, colhiam em pleno ar. Um casal de joões-de-barro mandava e governava ali no icozeiro. Que pregação era aquela? Turistas conversando na hora de embarcar, trem apitando na hora de sair, ônibus buzinando na hora de arrancar, veleiro içando velas na hora de zarpar, bimotor na cabeceira da pista para voar.
            - Como tudo ficará, depois? Depois de quê? Depois de mais nada.
            À tardinha Alice escalou o morro mais próximo, jacutinga assustada, para os lados da Água Limpa, uru piando, araquã despistando, o poeta Antônio Jó a seguia de longe, a paisagem de montanhas conversava com um pôr do sol, sol já atingido e espiando detrás das árvores tortas, detrás das pedras cor de ferro, Alice, cabelos ao vento arrepiados:
            - Isso parece até despedida.
            E completou ela mesma:
            - Não sei como, mas os ventos vêm dos quadrantes; não sei como, mas as chuvas vêm dos oceanos.
            A rodoviária estava festejando turistas para todos os lados, para todos os gostos, para todas as nacionalidades, para todas as naturalidades, para todas as igrejas, para todas as casas históricas, para todas as ladeiras e escadarias, para todos que iam, para todos que chegavam.
Alice olhava sem ver o repuxo da praça, a turma enorme de ladeiras e escadarias e igrejas e museus. Alice pensava quieta, esperava quieta, talvez quase para lá da realidade. Alice estava tonta de pensar em nada.
            - Vamos logo e de uma vez, Marcelle.
            Não se sai de uma cidade do mesmo jeito que se entrou.

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