Subindo
e descendo morros, morros e serras, seguindo a estrada asfaltada rodeando
morros, morros e montanhas, lá fora caía uma chuva, chuva rápida de verão, o
ônibus balançando, caminho velho ou novo, Alice e Marcelle já chegavam a Ouro
Preto e com um certo friinho arrepiando a pele. Vila Rica de Ouro Preto, cidade
mais conhecida dos séculos coloniais. Muita, pouca, muita ansiedade.
-
Se fosse sonho, se fosse verdade; que bom seria. O resto tenta a sorte.
Passara
um ano, outro fora a trote, o ano de dois mil e nove já passara total e entrou
aquele outro ano novinho em folha.
Alice
e Marcelle sentadas nos degraus da igreja Matriz Nossa Senhora do Pilar.
Esperavam que a igreja acordasse. Andorinhas, de barriga branca e costas
escuras, corriam perigosamente o espaço aéreo. Sol mineiro de chá de camomila
em manhã fria de cerração subindo. Dia de manhã que vinha se aprontando para
céu azul, igreja do século barroco, anjos músicos, muito difícil que fosse do
século vinte e um. Chá de folha de laranjeira, doce e quentinho, de colherinha.
-
Alguma coisa te digo, Marcelle: só esperando.
-
Por quê?
-
Ora, os santos são demorados, pacientes, calmos, de pedra-sabão.
-
Os santos e as santas e os anjos moram aí dentro?
Todos
os morros, todas as ruas estreitas, todas as pontes de pedra, todas as igrejas
e capelas, todos os carnavais, todas as ladeiras, todos os bairros, todos os
museus, todas as pousadas e pensões. As árvores se manifestavam.
Alice
subiu ao morro do Cruzeiro ver pitangueiras e araticuns florindo, morros de
ferro, morro do Rola-Moça, poucas nuvens brancas e bastante sol, fios de água
nascendo entre as rochas e caindo em véus de noiva, besouros verdes cavando o
chão de ferro, chapéus-de-sapo, abelhas listradas de amarelo e preto bebendo
flores de ferro, capoeiral, bauxita, os tratores e caminhões fora-de-estrada
cavando e levando os morros numa espiral, montes e montanhas onde nascem os
rios, guabirobeira, canela-de-ema, quipá, chircal, vales profundos onde passam
os rios, corruíra, canarinho-do-mato, estalador...
Depois, Alice
viu pedras e barrancos e um arvoredo do cerrado, muito movimento de passarinhos,
curió, galo-da-campina, xexéu, e pica-pau-do-peito-amarelo se achando entre os
galhos secos de uma mungubeira, peito amarelo, costas cinzentas ou perto disso,
topete arbitrário, se exibindo. Alice sentou numa pedra debaixo do agasalho da
sombra e esperou. Pensou, repensou, mediu e apartou os seus planos, passou a
mão nos cabelos, resumiu:
-
Boa tarde. Enquanto houver minas, temos esperanças.
As
ladeiras começam e terminam, sobem e descem, sete fôlegos, sobrados brancos com
janelas azuis, fachadas de azulejos, sobradões dos séculos XVIII, XVII,
casarões dos senhores endividados com o quinto, pousadas e pensões tombadas,
casa dos Contos, rua conde de Bobadela.
Numa das
pousadas, na área coberta com telhas encardidas de ferro, pilastras com
trepadeiras, a avó bordava com seus óculos na ponta do nariz.
-
Vento... vento... vamos ver o vento... vento nordeste.
Ladeiras de
gatos sete fôlegos, casas geminadas, acolheradas, brancas e cobertas com o
mesmo telhado de ferro. E a casa do Dirceu, o casarão de Marília, a casa do
Alferes?, a praça Tiradentes, ali na praça uma vez se vendeu escravos, aqui na
praça se vende bugigangas como artesanato, Aleijadinho subiu a escadaria, e os
turistas passeiam ladeiras de sete vidas, sete fôlegos, capelas e igrejas suntuosas.
Que trissado era aquele? Olhos empoeirados de casas antigas.
Anoitecendo
ou amanhecendo, a neblina tímida toma conta dos vales profundos, das regiões
dos riachos. Parece assim como fumaça distraída e extraída do cachimbo da palhoça.
Vai subindo os velhos morros de ferro. A noite e a manhã e a noite são bem
calmas e enormes, até porque para construir o mundo.
Marcelle
abriu os olhos, acordou, escutou vozes em conservas. Alice
abriu os olhos e ouviu barulho de chuva. Uma casa de dois andares abria a rua
em forquilha, em vê ou ipsilon. Pessoas riam e conversavam animadas ali pelo
interior da pousada. A chuva leve sobre a cidade resignada. Ventinho chato
brincando de vento. Crianças ali nos corredores brincando de pega-pega pegou.
-
Mãe, que coisa eu sinto?
-
Não é você, é a cidade. Por saudades.
As
duas, mãe e filha, entraram na igreja São Francisco de Assis. E finalmente
nuvens com anjos barrocos, e anjos em tribo de anjos, anjos em trajes menores,
anjos com asas nas costas e nos calcanhares, anjos com flores nas mãos e
estrelas no cabelo, anjos gordinhos, anjos com os olhos abertos e mãos tocando
nuvem, anjas abraçadas, eram mil anjos e anjas voando como passarinhos azuis,
olhos azuis, no céu azul, e muito ouro, era tudo um céu aberto de sol forte, vida
do céu num carnaval de imagens e cores puxadas por carros alados, alegóricos.
Aí,
Marcelle perguntou e houve mais ainda:
-
Mãe, os anjos são verdade? Mãe, os anjos são divino?
Sentada
na grama do morro do Alto da Cruz, sobre a cidade, olhando tudo, lá embaixo a
cidade toda torta, Alice esperava, olhava os telhados incendiados, variando
laranja e vermelho e amarelo, nuvens na mão esquerda do sol, um fio de água se
despejando da montanha, Alice não queria mais nada, esperava e esperava, um
pintassilgo territorialista cantando aflito para expulsá-la, guamixira, vista
perfeita da igreja de Nossa Senhora do Rosário, Alice sentiu medo de escorregar
e cair sobre a cidade do faz-de-conta, olhou bem, olhou de novo e viu bem que
era isso mesmo.
Passou
um dia e depois outros. Aqui estátuas. Ali estátuas. Capela de São Sebastião.
Rua Marquês do Paraná.
-
Há ruas que não conheço, conheço.
Alice
e a amiga Marília saíram para a noite. Estrelas incontáveis para contar, a
noite de Vila Rica, noite de Ouro Preto, serenatas. O vento agitava os cabelos
soltos de Alice. Marília, bela e simpática. Desceram a ladeira em curva e, tão
estreita, que alguém poderia, de braços abertos, tocar nos dois lados de
paredes de casas. Chegaram ao chafariz da praça Tiradentes. Tiradentes já
estivera ali. Aleijadinho já passara ali. Mestre Ataíde pintou e dourou ali.
Centro com igrejas incendiadas, casario incendiado, ruelas incendiadas,
escadarias incendiadas. Alice vestia branco com uma blusa amarela. Interessante
era pouco, mas Alice tinha lá seu cabelo solto e corrido, um cabelo de
movimentos ou mais movimentos, desfiados e com pontos mais claros, uma fita
verde, enfim, nem curtos nem tão longos.
As noites de
Ouro Preto sempre povoadas de fantasmas andantes. Nas noites os fantasmas de
Vila Rica rastejam pelas ruelas de Ouro Preto, são sombras de mistério. As duas
moças cruzaram o caminho de um encapuzado de bengala. Que barulho foi aquele?
Alice falou:
-
Que tipo!
-
É o estudante e poeta Antônio Jó. Sempre por toda parte, seja de manhã, tarde e
noite. É tudo Antônio Jó.
Sentada
em sua cadeira de balanço na varandinha da pensão, fazia quase um século, a avó
despachava seu crochê. Uma andorinha, duas andorinhas, outras andorinhas de
barrigas brancas e costas cinzentas. O casario branco de olhos azuis. O
nevoeiro subindo para os topes. Marcelle já tinha idade de se pentear sozinha
com pente de cabo. Difícil de acreditar.
Alice e
Marcelle bebiam a água no chafariz da Marília. Alice bonita, bonita, trocentas
vezes bonita. Quem bebia dessa água desejava boa história de amor. Alice
enxugou a boca com a mão, suspirou, respirou e prosseguiu:
-
A vida pode ser boa e mais ou menos, pelo menos.
Então,
Alice, a suave, mãos dadas com Marcelle, olhando tudo em volta, se achou
realizando um sonho, dando um sorriso bom para a cidade antiga. Paravam para
tocar as paredes. Paravam para olhar as andorinhas. Paravam para olhar o céu
azul e as montanhas. Paravam para escutar as ruas sem tempo. Paravam para falar
com o caramujo supersônico. Alice poderia ser diferente e outra pessoa? Poderia
dizer que gostava ou que não gostava? Ladeira da Saudade, saudade era fraqueza.
-
O que se há de fazer? Eu faço o que posso.
Marcelle,
a angélica, mãos na cintura, suspirou:
-
Que era, maiê?!
-
Hã-hum. O mundo, além de pequeno, é redondo.
Sexta-feira
de tardezinha, Alice e Marcelle desceram a escadaria para tomar sorvete,
mercado de movimento de legumes, colorido de frutas, peixes de olhos abertos,
oferta de preços, sorvete de pitangas mais goiabas-do-campo e sorvete de
chocolate mais açaí, o vento brincando com os cabelos de Marcelle e os cabelos
de Alice, o vento com os cheiros das mercadorias, pessoas conversando também
sobre coisas, pararam diante de umas rosas amarelas e solteiras, ficaram
olhando as rosas molhadas, ficaram se encantando com as flores do campo, uns
mosquitinhos, os legumes, os pequis, as folhas e raízes que curam qualquer
coisa.
-
Voltar do espaço aéreo e reencarnar na árvore ubá, virar canoa.
Será que
Tiradentes pisou aqui, ali e acolá? Será que Aleijadinho parou naquela esquina?
Ladeiras para cima e para baixo, lampiões acesos, igreja apontando estrelas e a
lua, o vento ainda brincando com os cachos de Marcelle e com o brilho das
estrelas, o latido de um cão multiplicado pelos outros cães em outros quintais,
Antônio Jó descendo de poeta, cutucando a sua bengala nas pedras do calçamento
de época, Alice e Marcelle de mãos dadas, depois sentaram nas pedras, o poeta
descia a ladeira trocando passos com a bengala na mão.
Antônio Jó
tinha colegas de faculdade e colegas de trago. E Jó tinha vida de estudante e
de poeta boêmio. Jó gostava de Marília bela e de todas as mulheres de Ouro
Preto. Antônio Jó parecia ser alienígena.
-
Mãe, o poeta parou. Tá olhando.
-
É Antônio Jó.
-
Continua parado, e olhando.
-
Vai sabê!
O
poeta Jó, então, trocou de mão a bengala e subiu a ladeira. O vento brincava de
empurrar o balão prateado da lua, o vento brincava com os cachos de Marcelle, o
vento brincava de empurrar a galáxia para a noite. Um avô cuidava da rua sentado
na sala de estar, junto à janela. Um vira-lata brincava de farejar as pegadas
do poeta. Tudo único, sem importância, importante.
Alice
quase compreendia que todos os caminhos são possíveis, e sabia e não sabia que
o destino puxava, vária e complexa era a bicharada do Senhor, Alice queria a
cidade de Ouro Preto, queria as saudades de Vila Rica, a cidade de incêndios
ferruginosos, Alice sempre sempre a caminho de uma cidade que não conhecia,
Alice era às vezes do vinho para o dia e da noite para a água.
Alice
e Marília na taverna, uns caras tocando bossanovas, caipiras, serenatas,
sambas, pagodes. Marília de namoro dançava coladinha. Alice dançava coladinha,
estudava o ambiente. A cerveja e a caipirinha molhavam a mesa e o coro de
antigos sucessos. Alice olhava assim, pois isso era legal e isso era diferente.
Nessas horas tudo ria sempre e bem. Alice e Marília riram a noite toda. Elas
riram para homens ostensivos, para homens impessoais, para homens modelos, para
homens desacompanhados, para homens coercitivos, para homens sem fim. Alice
acordou de manhã, oito e meia, sem lembrar ou querer lembrar de nada.
Alice
tinha certeza que um dia teria amigas em Aragarças, em Condor, em Cametá, em
Piripiri, em São Bento
do Una, em Guarapari, em Taubaté.
-
Podem me chamar que vou imediatamente.
E
ainda completou:
-
Isso não é nada, vocês vão ver.
Passeando
mãe Alice e filha Marcelle, subindo, upa! a ladeira da Saudade ou a ladeira do
Rasga-Joelho. Pertinho a igreja de São José. Os telhados incendiados, os coqueiros,
as cabriúvas, as cigarras, as corruíras, as arapongas. Marcelle e os cabelos
cobrindo as orelhas, os cabelos até o meio das costas, os cabelos lambendo o
vento.
-
Marcelle, um dia desses você vai pra escola.
-
Por quê?
-
Porque é legal.
-
Legal como?
-
As profes ensinam a desenhar, colorir os desenhos, contam histórias, contam
lendas indígenas e uma turma de outras crianças.
Alice
riu disfarçada, Marília riu despregada, caminhavam em calma, devagar, Alice de
mãos nos quadris, mãos nos bolsos, as duas para baixo e para cima das ladeiras,
Marília de braços cruzados no peito, Alice admirava os vários incêndios,
adorava incêndios, muitas pessoas nas ruas vendendo artesanato, inutilidades
para todos os fins, brinquedos para enfeitar, alugando imóveis tombados, sempre
as calçadas de pedras mal cortadas, Alice e Marília de mãos dadas, Marília, bem
aproveitada, até daria em divertida, cheia de invenções e novidades, Marília
disse:
-
Vamos logo, antes que esfrie.
-
E hoje eu já me considero feia.
-
Você precisa conhecer as noites e os dias.
-
Eu amo, sem saber como, sem problemas ou orgulho. O amor é o meu sol e as
minhas constelações de estrelas.
-
Já eu não o aceito mais, não o quero mais do meu lado, nem perto de mim, nem
dentro de mim.
Passaram-se
um dia, dois, três e mais. Com os primeiros raios do sol, manhã de terça-feira,
Marcelle acordou, se sentiu leve sem ter esta definição, reparou na sede,
estava com fome, o nariz coçava, os cabelos estavam numa altura. Alice acordou,
estava com fome, abriu a janela de pálpebras azuis, um incêndio lá fora, toda a
cidade incendiando, timbó-açu de sombra, uma pata ou galinha e seus dúzia e
meia de pintinhos em fila procurando comida, os morros subindo com sensação, os
sucos de abacaxi e o café e o chocolate macio e o melão em canoa. Alice tinha
três estrelas voando perto e em derredor: rosto doce, rosto meigo, rosto
esportivo e rosto água fria.
A
praça vazia, a praça cheia, a praça na chuva, a praça sob as estrelas, o
estudante Antônio Jó esperando o desfile de Alice ou Marília, e falar com
Alice:
-
Eu curto sempre esta praça morrendo à tarde.
Alice
parou, Alice ou Marília fingiu parar, Alice respondeu:
-
Fazer namoro na praça, é claro.
-
Quer ser Marília de Dirceu, hein, Alice?
-
Assim, sem mais, da água pro vinho?
Antônio
Jó, o estudante, amigo-irmão de outros estudantes, esfregou envergonhado as
orelhas, esfregou o nariz, esfregou logo os olhos, respondeu:
-
Você me dá a via-láctea de supetão, é.
-
Ora, quem são os sonhadores estudantes de filosofia? O que querem? São rapazes
sérios com boina na cabeça?
Ele
balançou a cabeça, balançou e balançou mais, esfregou as orelhas, balançou a
cabeça muito mais que o necessário, e desafiou:
-
Então, o que acontece?
-
Você, o que acha, estudante?
-
Você é tudo de bom.
Sem
se anunciar veio a chuva, uma chuva, logo logo as águas começaram a correr
ladeiras abaixo, Jó falou:
-
Moro onde me dá na ideia. A barraca é um barco, é uma ilha e é uma nuvem. Barco
foge, ilha desaparece, nuvem esquece.
À
noite mesmo, treze de maio, Alice, Marcelle e Marília, aromatizadas, passeavam.
Coaxar de jabutis, trilos de escorpiões pequenos, voos cegos de
peixes-lampiões, pios de caçotes, cricrilar de estrelas. O poeta Antônio Jó se
escondeu debaixo do sobretudo com capuz, andou nas sombras das paredes com
ladeiras que sobem e descem, nas sombras da praça, na sombra sonora do
chafariz, Alice o reconheceu:
-
A lua não o deixa sossegado? As estrelas não o deixam sossegado? O medo de
morrer não o deixa sossegado? O medo de viver não o deixa dormir?
Antônio
Jó, trocando a bengala de mão, amigo dos boêmios da cidade antiga, respondeu,
embora tímido e na sombra:
-
Não sou daqui, não sou ninguém e não me considero. Não tenho pena das pessoas,
só dos bichos e das plantas. Olho a lua e conto as estrelas, perco a conta. Sou
amigo dos meus camaradas e somente camaradas. Gosto toda vida de mulheres por
causa da pele macia. Prefiro as mulheres que não fumam.
Um
jabuti para enfeite de mesa em pedra-sabão, 50 mil réis; um metro quadrado de
toalha de renda, outros 60 mil réis; um espeto corrido na companhia do
estudante Antônio Jó, 25 mil réis. E ele não apareceu. Um chimarrão no alto do
Itacolomi, na sombra de um pequizeiro, com Antônio Jó, tudo combinado. E ele
não apareceu. Um serão com Antônio Jó, o poeta noturno. Mas ele não apareceu. E
Alice teimou em esperar, não se iludiu muito, afinal adoraria sentir a mão dele
na sua coxa, só isso, pouca coisa. Por onde andaria, aquela hora, o muito Jó, o
Jó amigo da turma de bagunceiros e que morava no bairro Saramenha?
-
Pessoa certa, lugar certo, hora certa.
Então,
abriu a chuva. Alice e Antônio Jó se protegeram correndo para a gruta na
montanha. Olhavam a chuva, os raios chicoteando o verão, o trovão atroando, o
frio suor de fumaça da montanha. Uma chuva que não apagava os incêndios da
cidade, quase os deixava mais brilhantes.
E a chuva
passou. Daí, sobraram o cheiro de flores do campo, o cheiro das flores do mato,
o cheiro do ferro da terra, especialmente muito bonito e cheiroso os
mosquitinhos do campo, vento nordeste moderado, e os passarinhos felizes
comendo pitangas muito vermelhas, mesmo bandos de pássaros felizes, e
borboletas azuis e besouros verdes, passarinhos com mania de território.
Antônio Jó, amigo dos violões e dos tragos, falou para Alice:
-
Marília, coloque essa flor no cabelo.
E
de Alice para Antônio Jó, o poeta-estudante:
-
Dirceu, você é emotivo impulsivo ridículo.
As
estrelas, que estrelas?, ainda não apareciam, a noite estava longe, mas o
Antônio Jó queria trabalhar como poeta, ouvidos no mar, vigiando os olhos da
adorada, idolatrada:
-
Não tenho mar, mas tenho montanhas. Não tenho as ondas do mar, mas não troco os
nossos tijucos. Não tenho barcos, mas navego com horizontes, belos horizontes.
Não tenho estrelas do mar, mas tenho estrelas cadentes e discos voadores. Tenho
os sonhos, que são seus olhos, Marília bela.
Os
dois, lado a lado, olhavam dali para todo o mundo em redor. Rodeados
pelas montanhas. Montanhas com miolos de tesouros. O mundo tão grande, cabendo
nos olhos. Enxame de abelhas-papas-terras. Atrás de uma cerca de arame farpado,
logo ali, um cavalo preto e quase todo de preto, de olho grande e lustroso, os
observava. O cavalo preto levava na garupa uns chupins, de sentinelas. O mundo
todo passava a poucos centímetros do nariz dos curiosos. Nuvens no céu
carregavam manadas de caravelas do século dos descobridores, do século dos
bandeirantes. Antônio Jó falou até Alice:
-
Foi preciso conhecer você, Marília bela, para me conhecer melhor.
-
Quem me dera ser a estrela da manhã ou da tarde ou da noite.
-
Estrela-sol, estrela-café-e-leite, estrela-flor, estrela-estrela,
estrela-Marília-bela.
Então,
eles se deitaram na grama úmida e, sem dormir, fecharam os olhos para ver
estrelas em reboliço, ouvir estrelas em fuga, e viram estrelas cintilantes,
estrelas pequenas, estrelas gordas, estrelas limão, estrelas formidáveis,
estrelas gritantes, estrelas em movimento, comparado a comer jabuticabas na
chuva.
-
O barco a vela nas nuvens, o barco a vela nas montanhas, o barco a vela nos
rios, o veleiro nas tuas pernas, Marília bela.
-
Galeões, caravelas e corvetas.
A
festa do carnaval brincou uma semana inteira. Para cima e para baixo nas
ladeiras de sete dias. Ninguém acordava, ninguém bebia, ninguém encostava,
ninguém dormia, ninguém beijava na boca, ninguém gritava, ninguém caía, ninguém
inventava. As torres das igrejas pedindo mais, os santos e santas e anjos e
anjas trepidando, rachando e rindo. O nevoeiro subindo a montanha de ferro.
Ninguém comia, ninguém bebia, ninguém morria, ninguém desmaiava de sono,
ninguém namorava, ninguém apedrejava. Navios de piratas, navios vermelhos e
azuis e amarelos, navios incendiados que incendiavam, navios ancorados, navios
naufragados. Ninguém cantava, ninguém cantava, ninguém beijava nos olhos. As
meninas passeavam de índio, índio com batom vermelho ou café ou verde, muitos
bichos, onça e macaco e galinha e peru e anta e capivara. Poeira de ferro. Boi
brabo e mascarado. Ninguém beijava na boca, ninguém gritava, ninguém lambia os
lábios, ninguém fumava maconha ou bebia cerveja. Gritos e gritos ladeiras
abaixo, ladeiras acima. E ladeiras rolantes, ladeiras com escoras nas paredes,
ladeiras em curva, ladeiras bifurcadas. Enterro de gente, enterro de pato,
enterro de palhaço. Todas as horas de Antônio Jó, estudante e poeta. E bando de
piratas sem chapéu se despedindo, navios de tempestades indo embora. Todos
embarcaram nos seus navios, ônibus, cabriolés e foram embora. Soldado graduado,
soldado raso, condecorado, coronel, brigadeiro, perfilado em posição de
sentido, fazendo continência. Que gozação era aquela? Entre mortos e feridos
foram todos embora, deixaram o que sobrou para o próximo carnaval.
Uma
hora, duas, oito se passaram. Bastava olhar, havia bandos de passarinhos, e
pares de passarinhos pelos telhados de ferro sempre iguais da cidade de Ouro
Preto. E da terra brotavam arbustos, brotavam ouro e pedras preciosas e
brotavam ferro e alumínio, brotava uma lua mordida de formigas-pretas-de-ferro,
e estrelas mordidas de formigas-peixes, e muito mais. Tinha uma gata de nome
Borboleta passeando no telhado incendiado, toda devagar, espiando e miando
lentamente.
O estudante
Antônio Jó, cabelo crespo despenteado, como alguém querendo nada de mais, pegou
a coxa de Alice. E os minutos formiguinhas foram puxando as horas sob o dia de
ouro. As estradas dos trens de ferro puxando ferro, pegando sol nos trilhos de
ferro. Depois ainda, o poeta Antônio Jó, sacudindo os cabelos de maneira
esportiva, lábios sedentos, beijou os dedos das mãos de Alice na noite de
prata. A lua povoada de formigas carpinteiras. Noite contando estrelas até
perder a conta:
-
Marília bela, Marília bela! Mais não te amo mais, mais não posso mais!
Paisagens belas e soltas no ar, casas suspensas nas nuvens, Marília bela!
Janelas, árvores, nuvens, ventos nas incendiadas janelas, Marília bela!
A cidade era
leve e antiga. Alguém olhava a cidadezinha lá de cima dos morros, lá do meio do
araçazal. Um dia desses até podia resvalar na chuva e cair, rolando pelo morro
do Rola-Moça.
Alice,
mais tarde, ainda na cidade faz-de-conta de Vila Rica:
-
Quem me reconhece ao longe?
Mais
tarde e mais tarde:
-
Poucos me conhecem, muitos talvez não me reconheçam.
Ainda
bem mais tarde e mais tarde:
-
Isso é bom e isso é ruim.
Alice
e o estudante Antônio Jó, juntos no chafariz da Marília:
-
Um dia e depois o outro. O humor da cidade. Os incêndios dos santuários. A
História da cidade se confunde com nossa saudade do Brasil.
Cabelos
ao vento, leves, crina cintilante, Alice voltou a falar:
-
Tiradentes viu isso, esteve aqui, ali e acolá. Aleijadinho subiu escadarias e
olhou para trás. Lá sentados nas pedras do morro, os poetas amigos contavam
carneirinhos. E todos passearam daqui pra lá, de lá pra cá. Eram tão bons e
estudantes, os inconfidentes!
Alice
e poeta Jó ensaiaram um beijo na boca, um beijo demorado, parado, fazendo
gosto, entrando pelos confins. Um beijo de dois pombinhos ronronando, rindo. Um
longo beijo de esfregar a ponta dos narizes. Um beijo de fazer rir. Um beijo de
perder o fôlego. Um beijo de subir um degrau da escada. Um beijo competitivo.
Mas
a cidade já acordara e Alice saiu para a rua com um vestido até o meio das
canelas. Era de seda com babados? Os turistas desfilavam de bermuda, uns de
mochila nas costas, tênis com meia, celular e fotos, água benta ou mineral. As
ladeiras se incendiando desde as primeiras horas. Turistas brancos de óculos
escuros. Turistas piauienses, catarinenses, matogrossenses, paranaenses. A
estrada de chão batido subindo o morro, pegando poeira de ferro nas costas,
serpenteando como cobra de ferro. Bando cada vez maior de periquitos e
periquitas paulistas subindo as escadarias das igrejas santuário. Uma caravana
do Espírito Santo, caravana de Rio Branco. Que clangor era aquele? Igreja Nossa
Senhora das Mercês e Perdões. Montanhas de montanhas, montanhas de ferro,
montanhas de aos montes, montanhas de cidades do tempo, montanhas de século
XVIII ou XVII, capela de Senhora Santana.
-
Agora eu me ajoelho.
-
O que eu recebo eu devolvo? Então, sou uma primata.
Dez
minutos depois, Alice se encontrava sozinha tomando chá junto a uma janela da
pousada, olhava a cidade incendiada e esperava, e pensava, anoitecia em calma,
o sol se despencando puxando o vermelho e o laranja e o amarelo para trás das
montanhas de ferro, muitos turistas de bermuda passeando ladeira acima e
ladeira abaixo, pelas ruas estreitas e tortas onde Tiradentes também passara, o
chá de folhas de laranjeira, aos golinhos, o sol rolando bobo atrás do monte,
Alice se arrepiou toda, esfregou o braço todo arrepiado, um dia para o sossego,
acima de tudo para observar e esperar, a cidade de Ouro Preto não era
barulhenta.
Alice
queria visitar Quixerê. E queria conhecer os quixerenses. E procuraria ver as
pedras de Quixerê. Haveria rio na cidade? E as tardes morrendo e as noites
estreladas e as manhãs de passarinhos em Quixerê.
Marcelle
olhou, treolhou, procurou o que olhar. Logo depois, sem demora, recorreu:
-
Mãe, preciso contar algo muito difícil de aturar.
E
Marcelle completou:
-
Mãe, a Tetê morreu. Como morreu?
Tetê
conseguiu seu velório na sala de estar, sobre a mesa da sala, uma vela vermelha
no lado da cabeça, e flores, e à tarde foi cremada, e à noitinha suas cinzas
espalhadas na ladeira da Saudade. Solidários, os hóspedes ficaram no velório,
compareceram ao incineramento, ajudaram no espalhamento, dona Natércia, dona da
pousada Marília de Dirceu, mãe da cadelinha Tetê, ganiu:
-
Quando dei em mim, hoje cedo pela manhã, Tetê já não falava, não balançava o
rabo. A gente era muito unidas. Tetê só latia em último caso, não incomodava,
não me exigia nada, muito doce, gostava do meu cheiro, gostava da minha cama. E
a gente passeava logo às cinco da manhã, antes de qualquer coisa, descíamos até
a feira...
O
domingo amanheceu glorioso, uma chuva inesperada cantando no telhado, chá junto
à janela, bom para baralho e damas e conversas, bom para olhar e esperar,
Marcelle pediu:
-
Mãe, mãe e mãe! Quero suco de caju, pé de moleque e bambolê.
Chuva
parou às quatorze horas. Daí, foram à praça Tiradentes ver a festa em honra a
São João, bandeirinhas de papel de cores presas nos fios, casamento da roça
muito engraçado, também tinha até pinhão do Paraná, e o poeta Jó olhava tudo
com pena, olhava tudo com olhar vago. Aí, ele abraçou as pedras, adorou as pedras,
abraçou as pedras, e beijou as pedras, beijou e abraçou as pedras, os fogos de
artifício estourando no céu noturno acordando a festa. Os fogos assoviando,
chiando, voando como meteoros, com rabo incendiado, estourando como pedia o
povo. O poeta namorando as pedras-sabão, acariciando, alisando, escorregando,
tocando, dedilhando, digitando, perguntando. Caravana de turistas de Araçatuba.
A
noite ia bem mais alta. O céu noturno estudava astronomia, os ufólogos chegavam
das cidades grandes, tomavam chá, queriam ver estrelas, ver meteoritos, tomavam
café, esperavam, esperavam discos voadores, fumavam maconha, riam muito, se
beijavam na boca enrolados em cobertores de campanha, dormiam em barracas
pequenas, olhavam a igreja de Santa Efigênia dos Pretos, dedilhavam violões,
declamavam poemas, catavam pedrinhas para levar embora.
Óvnis dando
rasantes nas chapadas e os encontros imediatos de terceiro grau, uivos perdidos
de cachorro-vinagre-do-mato, cachaça para esquentar a fogueira. O mundo começou
num passeio de disco voador? E vai acabar no dia que os discos aterrissarem
aqui na Terra? Peri e Ceci caíram no mesmo lugar, vindos de estrelas separadas?
Antônio Jó era camarada e colega e vizinho dos amigos de cabarés. É lógico e
mais fácil que existam mesmo extraterrestres.
-
Que vontade de dormir. Ninguém para me proibir.
Marília,
então, enlaçou Alice, e Alice enlaçou Marília, se beijaram na boca,
rapidamente, a galera aplaudiu com entusiasmo; aí, pronto, as duas repetiram o
beijo na boca, um beijo demorado, de língua, e a galera ficou, então, num
silêncio; aí, Alice e Marília se cobriram com um cobertor xadrez e a turma
suspirou e trocou de assunto.
Um
dia, Alice e Marcelle e Marília, dez e meia da manhã, sexta-feira de sorte,
subindo a escadaria no interior do museu da Inconfidência, Alice e Marília,
primeiro Alice:
-
Uma coisa e outra coisa. Uma coisa vai e uma outra coisa vem. Uma coisa
compensa a outra, uma coisa anula a outra, uma coisa premia a outra.
-
O amadurecimento traz a calma ao espírito.
-
A rica floração vence os meses quase escondidos.
-
Quem perderia para eu ganhar?
Alice
se sentou na escadinha de pedra da pousada, olhar parado no interior abstrato,
olhar dividido por dentro e por fora, quase atenta aos pequenos e inúteis
pensamentos que lhe vinham à mente, olhando mal e mal a ladeira ali na frente,
revirando a alma sem querer. Uma galinha carijó puxando o séquito de
acompanhantes, escolta de filhotes. Que badalar era aquele?
-
Os carros buzinam, as pessoas se apressam, as pessoas comem, as pessoas se
cansam, as pessoas são do tamanho de uma tesourinha: necessariamente nesta
desordem.
E
os turistas fotografavam mesmo mais Ouro Preto? Compravam utilidades em
miniatura, cheiravam igrejas, subiam cansados as ladeiras cansadas. Sempre as
manhãs de colorido incêndio. Os historiadores amavam Vila Rica, consultavam
mapas, apontavam o dedo e sorriam. E apontando ohs!, como fazem as crianças
atrás de pracinhas e balanços em pracinhas. Encantamentos
diante da capela de São João. Beber a água da fonte da Marília.
Alice
e Marília - Marília é nome bonito -, procuraram a mãe-de-santo Ofélia, mais lá
sobre o morro, no Taquaral, subindo estradinha sinuosa e perdida na capoeira, a
mãe-de-santo Ofélia falando com Alice e oferecendo alternativas:
-
Quer trazer de volta a pessoa amada? Sofre? Quer se curar de bebedeiras? Mau
olhado? Inveja? Seus caminhos estão trancados? Vênus entre a Terra e o Sol o
que isso acarretará? Sua cama tá cheia de espinhos? Precisa limpar seu caminho?
Um gato de olhos vermelhos piou no seu portão? Um cão raivoso trancou você em
casa? O espelho favorito trincou? Se sente uma lesma no asfalto escaldante? Se
sente um sapo-ferreiro atravessando a rua? Já falou alto até para as amigas e
vizinhas - se arrependendo muito depois -, que quer e está à procura de um
companheiro que lhe dê segurança?
Alice
veio a Ouro Preto para respirar novos ares, histórias antigas de se ler, e ares
novos fazem muito bem, mudar os olhos, respirar novos ares, sentir o espírito
tocado de móbiles que se movem no tempo, apreciar os dias toda ela voltada ao
dia como a flor.
-
Onde chego já procuro e quero encontrar.
O
nevoeiro baixava, já baixou sobre a cidade, tomou conta das profundezas, à
noitinha o poeta Antônio Jó apareceu, Alice o viu, tocou assunto:
-
Vamos conversar.
Antônio
Jó, o poeta, amigo normal lá dos seus amigos do copo sujo, não respondeu, foi
subindo a ladeira e sumiu, foi engolido pela névoa e pela escuridão, e sumiu
quase misteriosamente, sem deixar rastros, ou melhor, deixou somente uma pequena
sombra. O poeta Jó voltou na pele de um cão vadio e desconfiado, faminto, mesmo
quem sabe uma metamorfose, um lobisomem. Um cão vadio, ressabiado de gentes,
desconfiado das pedras soltas, esquivo, escaldado, encolhido de frio, olhos e
focinho baixos. Chegou, parou e ficou olhando Alice. Um pouco de longe. E
babando um pouco de tudo.
As
andorinhas a bailar pelo ar, tirando rasantes, tirando refilões, tirando
fininhos. As turistas, então, andavam e conversavam diante de igrejas, santos e
santas. Andavam nos dias de sol refratário com aqueles chapéus enormes - que
para os homens seriam os sombreiros -, chapéus de palha, de plástico, de couro,
de pano, chapéus de barbicacho, chapéus para mulheres, e eram grandes e
bonitos, carnavalizados e carnavalescos, chapéus belos e esvoaçantes, verdes ou
amarelos, ventilados, bonitos e verdes com enfeite de flores ou frutas de pano,
chapéus leves com fita de uma cor, às vezes presos ao queixo por uma tira de
pano florida, e lhes caíam muito bem e todos notavam e faziam por elogiar.
Agradecidas e agradadas.
-
Como posso, hoje, despertar a atenção de Tupã?
No
passado distante, Tiradentes andou por aqui, ali e acolá. Aleijadinho parou na
subida da ladeira e olhou o tempo. Fizeram isso inúmeras vezes. Mas o presente
está assim, Ouro Preto ou Vila Rica, e era outra manhã de quinta-feira, dia do
recolhimento do quinto, o céu amplo e lindo e quente. O estudante Antônio Jó
esperava sentado num banco da praça Tiradentes, olhava, pensava um verso pé
quebrado, ou talvez nem pensava. E Alice se aproximou sorrindo sem querer.
Disse o estudante:
-
O que foi?
-
Você notou, Antônio Jó?
-
Você veio rindo. Você tem esse sorriso muito lindo. É esse o ponto.
Aí,
o estudante Antônio Jó, colega de cachaça dos colegas de faculdade, pegou uma
flauta de bambu e foi criando os sons suaves, tecendo no ar as harmonias, Alice
se sentou, cruzou as pernas como uma índia da tribo parecis, balançou a cabeça
afirmativamente, o som da flauta ganhou toda a praça, evoluiu acima dos
telhados, telhados incendiados, subiu às nuvens, e não morreu jamais. Logo mais
em seguida, Alice tomou um susto, como se caísse de uma nuvem branca muito
alta, Alice piou:
-
O quê?
-
Seus olhos se encheram de nuvens brancas.
-
Vou descobrir quem fez isso comigo.
Primeiro
foi o espanto que Alice sentiu ao se deparar dentro do espelho. O peito pesava
como se uma anta gigante sentara ali. E mais umas quantas emoções malucas. Os
olhos de Alice sabiam trazer para o fundo do espelho aquele céu azul com poucas
nuvens brancas. Sol da manhã entrava pela janela, e o cheiro espacial das
coisas, o gosto no ar dos ferros das montanhas de ferro. As andorinhas
aterrissavam nos fios elétricos, catavam no chão de paralelepípedos, colhiam em
pleno ar. Um casal de joões-de-barro mandava e governava ali no icozeiro. Que
pregação era aquela? Turistas conversando na hora de embarcar, trem apitando na
hora de sair, ônibus buzinando na hora de arrancar, veleiro içando velas na
hora de zarpar, bimotor na cabeceira da pista para voar.
-
Como tudo ficará, depois? Depois de quê? Depois de mais nada.
À
tardinha Alice escalou o morro mais próximo, jacutinga assustada, para os lados
da Água Limpa, uru piando, araquã despistando, o poeta Antônio Jó a seguia de
longe, a paisagem de montanhas conversava com um pôr do sol, sol já atingido e
espiando detrás das árvores tortas, detrás das pedras cor de ferro, Alice,
cabelos ao vento arrepiados:
-
Isso parece até despedida.
E
completou ela mesma:
-
Não sei como, mas os ventos vêm dos quadrantes; não sei como, mas as chuvas vêm
dos oceanos.
A
rodoviária estava festejando turistas para todos os lados, para todos os
gostos, para todas as nacionalidades, para todas as naturalidades, para todas
as igrejas, para todas as casas históricas, para todas as ladeiras e escadarias,
para todos que iam, para todos que chegavam.
Alice olhava
sem ver o repuxo da praça, a turma enorme de ladeiras e escadarias e igrejas e
museus. Alice pensava quieta, esperava quieta, talvez quase para lá da
realidade. Alice estava tonta de pensar em nada.
-
Vamos logo e de uma vez, Marcelle.
Não
se sai de uma cidade do mesmo jeito que se entrou.