quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 6




Mas o Que Vem a Ser Isso

            A guria Caibi, toda de verde e mistérios, tinha aquele cheiro de natureza. Milhares e milhares de plantas, janaúba, paxaú, quássia-do-pará, aricuriroba, abacate-do-mato, guarajuba... Coisa rara para pensar, para estudar.
            Céu muito alto porque raios claro azul expansivo confortável pássaros árvores carros e pessoas pilotando os automóveis.
            Ela tinha uma família a Caibi e uma cadela e um cavalo que faziam parte da família. A casa onde ela morava com a família a cadela e o matungo tinha uma porta aérea no primeiro andar, sem escada por fora, aérea. O cavalo se chamava Agrolândia, por causa de uma novela de televisão. O cavalo pernoitava num barraquinho do lado da casa e se dava muito bem com a cadela fila Pequi. O cavalo que relinchava era pinhão e a cadela que aulia era baia.
            Naquele mesmo dia de Caibi verde e mimetizada, eu encontrei meu tio Urubici. Este que ia passando e farejando o rumo do boteco Taió. Ele se dirigia ao bar e eu fui junto. No assunto era futebol de falar. Ele com seu traguinho de cana com poejo e eu também. Já eram o quê?, dez horas de uma terça-feira dia 72 do ano de 1994. Pois sentamos nos banquinhos do bar, junto ao balcão, bancos altos, cotovelo apoiado e fazer a resenha do grenal. E meu tio foi dizendo:
            - Eu nem bebo pra ficar melhor, eu bebo pra ficar pior.
            Meu tio Urubici era uma figura. E continuava pela mesma estrada:
            - Um dia desses, muito tempo lá pra trás, nem sei há quantos anos, eu fiquei com a mãe dessa tal ali que você acabou de falar... essa Caibi verde e muito chique, toda de verde, é, a mãe lá dessa aí mesmo. Eu levava treze ou quatorze anos. Estávamos em férias escolares e tinha aniversário de alguém na casa da dona Irati Maracaia. Juro e faço pouco. Mas tem uma outra coisa, seu guri de bosta! Tem mais uma coisa. Isso foi por lá longe quando tínhamos uns treze ou quatorze anos, talvez quinze.
            E meu tio Urubici, continuou:
            - Sim, claro que sim, meu! Jogávamos bola. Bem no meio do campinho, na linha, havia um toco desses de ex-erva-mate. O cara tinha que driblar também o toco e com raiz e tudo. O toco fazia falta e nem era cobrada falta. Mas o toco também podia fazer gol, a favor ou contra. Era um toco zagueiro, às veis, ou artilheiro, às veis.
            Por assim dizer, o meu tio Urubici, cabelos quase brancos, escassos no centro do coco, e comunicou:
            - Nem é bem verdade o que andam dizendo por aí. Namorei sim a Jupiá  do seu Romelândia entre os galhos do pé de umari: uma dessas árvores do norte, nem sei. Imagine beijar alguém no balanceio do galho, meu! É muito arriscado. Mas pode ser novidade, também. Hum!... Pode deixar que falem à vontade, mas nem acredite em tudo o que dizem.
            E tio Urubici completou mais umas trovas e gauchadas:
            - Era uma estação chamada primavera. O meu cão, o Guará, detestava moscas e etc. Tudo que era inseto e etc para ele era mosca. E ele odiava moscas e cainhava. Pois eram moscas, muriçocas, abelhas, zangões, besouros, borboletas, joaninhas, tesourinhas, centopéias, lesmas e moscas. Desprezava de paixão e maticava. Aí, um dia, na lavoura, eu cuidando de uns pés rasteiros de melancia-do-campo, aconteceu. O Guará viu uma borboleta, dessas que vivem duas ou três semanas no máximo. Viu a borboleta em trajes brancos e tonta tontinha, dessas leves como paina seca, viu a borboleta, uma branquinha, e a seguiu seguiu. Viu farejou cuincou e foi no encalço, orelhas altas, cauda em riste. Mas pra quê, meu! Nunca mais vi meu bom guaipeca Guará. Acho, acho que virou nuvem no desenho animado, tá entendendo?!
                                                                       ***
            Há coisas que começam no céu e frutificam na terra, coisas que nascem na terra e voltam para o céu, coisas que são do céu e só andam na terra, coisas que são da terra e povoam o céu.
            Aquele um sábado de tarde. Era um sábado nem era sexta-feira. Olha só! Único dia diferente a parte da manhã da da tarde. Logo aquele sábado de tarde no morro de propriedade do seu Mucuri Fraiburgo. Os tais e quais tico-ticos pissitavam a fuzéu. Aquele um sábado de sol e inverno frio vento sul. Um vento, vuuu!... corria pelo alto, às vezes baixava e arrastava poeira.
            Uma terra vermelha soprou vento e poeira nos meus olhos.
            Eu pensava, pensava ornejava como um burro às vezes pensa e morre pensando. Tava mesmo a fim de uma cerveja preta batatas fritas queijo ralado por cima e mais a turma pra papear. Se bom se sesse!
            As pessoas riam, gargalhavam, rebusnavam e ainda grasnavam, cacarejavam, piavam, fungavam, relinchavam, ganizavam, fumavam, tomavam cerveja de torre. Os motoqueiros subiam e desciam, voavam, ram-ram-ram!... arriscavam, aterrissavam pelas trilhas de terra vermelha do morro. Por enquanto pareciam abelhas grandes, tipo vespas enxuís, ásperas, envenenadas, ariscas, selvagens.
E havia uma Arabutã de cachecol vermelho abraçada a si mesma. Cunhataí estava vestida praticamente de amarelo com tênis de outra cor. Imbuia e Ibirama estavam de braços dados de irmãs gêmeas. Guariúba pulava eletrizada os seios soltos com os dois braços abertos para o céu do azul quase quase como o Cristo Redentor do Corcovado.
            Havia grupos de pessoas olhando e aqui e ali, por cá e acolá. Um desses grupos viu um pulo de moto vivou e gritou em coro:
            - In-crí-veeel!!!
            Tudo uma mentira, porque cinco minutos depois um motoqueiro caiu e quebrou a moto ao meio prejuízo de cinco contos mais duzentos e treze mil-réis. Tudo um engodo, porque dez minutos após um motoqueiro caiu com moto e tudo e quebrou a clavícula. Tudo uma lorota, porque quinze minutos seguintes um motoqueiro de Nobres, Mato Grosso, mergulhou no barro e ficou irreconhecível irrecuperável.
            No meio do morro tinha aquele um pinheiro-do-paraná. Enorme e gigantesco e centenário e presente. Fora o cacique da floresta nos bons tempos atrás quando ali era mato e os índios coroado vinham colher pinhão. Fora o imperador da mata nos bons tempos dos acampamentos de tropeiros quando estes acendiam fogo na beira da picada caminho para Passo Fundo ou Lagoa Vermelha. O morro todo pelado, arrasado e destelhado, aberto em carreiros vermelhos para os motoqueiros se exibir, canteiros de capoeira, exemplares de taiobas, exemplares de guaporangas, exemplares de quatro-patacas, exemplares de cipoabas, e o famoso e grandioso pinheiro bem no meio da parada. Como um totem, um cruzeiro, um obelisco, um pelourinho, um capitel de São Cristóvão padroeiro dos motoristas, uma estátua de Dom Pedro II.
            Soprava um vento x e frio - já disse -, ninguém sabia se de propósito. Sempre ou de vez em quando o tal vento vinha e passava, vuuu!... riscando a cara. Muitos estremeciam. Outros protegiam as orelhas com as mãos enluvadas em luvas de lã. Tinha gente que reclamava do vento e da proximidade com o sul. Também, estação localizada na encosta superior do planalto rio-grandense altitude de 820m, queria o quê?!
            - Nós estamos mesmo é em cima de uma pedra. Uma pedra e tanto, uma pedra de proporções, mas uma pedra.
            Um casal se beijava e nem parava para olhar em volta. Os olhinhos pequenos dos dois pombinhos se curtindo estavam em chispas e centelhas e faíscas e chamas. Uma para o outro. Esfregavam os narizes por um curto espaço de tempo e já voltavam a se chupar se sugar com supetão com de repente com insaciáveis. Ao ar livre. E todo o mundo que via o público a plateia podia opinar e dizer democra-ticamente:
            - Eles são dois bichinhos novos curtindo aí.
            Ou então:
            - Por que nem vão se esquentar numa cama de edredom, é uma!
            Ou mais ainda:
            - E nem venha me dizer que com vc seria diferente!
            Quem opinou:
            - Devem ser dos veganismos, é!
            O pinheiro araucária respeitável bem no meio do circuito. O vento mal assombrava seus galhos e braços altos e tal. A Guabiruba, praticamente toda de azul, beijava o crucifixo e torcia muito toda vez que o motoqueiro da moto amarela, ram-ram-ram!... subia e pulava e descia as corcovas. Maçambará, toda sempre formal e reconhecível, besouro vivo mãe-do-sol preso ao cabelo e as madeixas em estado leve verificáveis. Piratuba tapava os ouvidos com os dois dedinhos de unhas longas e pintadas uma cada cor. Botuverá bebia caipirinha e eu nem sabia que estava sem namorado havia 24 horas. Andiroba usava luvas sem dedos meias-luvas e caneleiras de lã que protegiam os tornozelos as canelas. Maturi tava a fim de deixar de fumar aquela maconha pegajosa aliciante com sabor de capim-de-burro.
            E o queco? E eu estava aí por acaso. Aprazível. Sacerdotal. Um dois de paus muito palha. Mãos nos bolsos. Ilustríssimo excelentíssimo senhor doutor diretor do clube esportivo Tatu, eu mesmo de tal, natural da periferia desta cidade dos neopratenses.  
                                                                       ***  
            Calor branco. Os dias de verão e sol de chapa. Bermuda e camisa branca manga curta. À noitinha, o mais tardar, relâmpagos, trovoadas e chuva, quando nem com vendaval e granizo. Mormaço. Sem camisa e bermuda com muitos bolsos. Dias de cigarras serradeiras, iéeee!... e noites de mosquitos trombeteiros, bizzz!... Chuveiro. Beber gelados. Chuveiradas.
            O hino do clube esportivo... tocou tocou o telefone:
            - Querido dos meus sonhos e do meu coração e dos meus abraços, um beijo! Vamos juntos na garagem da Papanduva?! Me leve, meu! Quando? Amanhã de noite! Vamo tomá uma ceva, ouvi o baruio que é e comê pizza, nem necessariamente nessa orde?!
            O convite nem foi totalmente irritante nem nada mas até amanhã o mundo poderá acabar, certo?! Até amanhã eu poderei esquecer mudar de ideia e ela poderá esquecer ou mudar de ideia. Que pensei pensei. Mais o quê? Ninguém nem poderá acusá-la de nem ter tentado.
            Onze horas da manhã como outra qualquer e deu. Fui rumo da praça da Bandeira para ver se arrumava um frete, um bico, um biscate. Era o que tinha pra fazer. Precipitei os acontecimentos e fui até o centro, de ônibus ou a pé tanto faz e dependendo do tempo.
            No meio do céu o sol azul de azul céu de ouro puro lavado. Um caramujo-do-banhado de papo com um jabuti-aperema. Coisa de outra era. Manhã de verão, porém limpa e de sol implacável impagável, rua Barão de Angra e descendo. O dia praticamente falava e estrilava somente pelo mundo dos passarinhos e pássaros e aves, inhapupê, uiramiri, balança-rabo-canela, gavião-tesoura, macuco, tangará, bem-te-vi-de-coroa-vermelha, patativa... Daí pra frente um sucesso após o outro. Carros seminovos vendem mais que carros novos. Um vazio de sagas e epopeias e odisseias. Queda de árvore hecatombe cataclismo catástrofe. O mundo todo persistindo e subindo a avenida Marechal Câmara. Eu olhava tudo como sempre e sentia o aqui o agora o relativo.
            - Queria tomar uma pílula rica de química inteligentíssima e ficar sabendo tudo de pronto e muito na hora sobre trigonometria, em!
            Aquele que se viu e se reconheceu nas vitrinas andava mais ou menos próximo dos 5 km por hora, árvores mais altas caxim bacuri quataquiçaua espinho-de-agulha... diversos ipês-amarelos pombas-rolas soluçantes formigas-de-embaúbas andando livremente pela calçada grandes árvores como as araucárias ainda lá por cima maiores manda-chuvas sobrenadando tudo um verde estrondoso o vento, e com ideias também mais ou menos desaceleradas, manchas de sombra folhas e flores secas traseiros de gurias guria de calça apertadinha uma vovó com o cachorrinho pela...
            Era isso mesmo. Sempre dizia e repetia:
            - As nuvens sofrem alegrias e cores e pandorgas na forma de bicho, em o mínimo.
            Antes de chegar à praça, o hino do clube esportivo... outro tele-fonema:
            - Oi, querido! Tô te amando há centenas de anos! Pô, vem me vê! Isso custa?! Vem me visitá! Pode ser de bicicleta! Só eu pra te compreender, lembra?! Lembra de outra, então: te adororô! Você é meu rei e minha majestade! Você é minha tempestade de dunas em Lençóis Maranhenses! Minha borrasca em pleno inverno dia de domingo! Você me deve o meu cedê d’Os Mamonas Assassinas!
            Tinha a impressão que todos estavam rindo de mim. Quando se tem fracassado de si mesmo isso acontece. Ó, nem falei?! Tavam rindo de mim, eu vi. Basta eu olhar para que tentem disfarçar dissimular.
            A praça da Bandeira com mais quatro ou cinco biqueiros recostados na casinha do mictório. O pedestal no topo o busto do GV. Toda praça antiga tinha alguma coisa com água: chafariz, espelho-d’água, aquário, fonte murmurante. Todas deveriam ter, ainda. Hoje a praça da Bandeira deixou de ter o aquário com os peixes coloridos exóticos e os sapos que trucilam. A praça com jacaratiás, juquiris, guaranhéns-do-campo, pitombeiras, gameleiras-de-cansaço e, embora, borboletas-do-manacá. Nem se podia jogar cartas ali nem dominó nem xadrez nem tria nem damas. Conversas e risadas sobre futebol. Passava neguinho montado em limpos e barulhentos carrões tunados. Passava beldade montada em brilhantes e vermelhos ou amarelos carrões emplacados de outras plagas rincões pagos querências, Guaramiranga, Angical, Portão, São José do Hortêncio, Videira, São Francisco de Assis, Colina, Piraí do Sul...
            - Estratégia é o gol. Várias táticas para conseguir chegar na estratégia. Bola na rede a solução a conclusão o grito de goool!... O que vale é a pelota no fundo do barbante, atrás da cascata véu de noiva, no fundo do poço, no puxadinho de cordas. Quem nem chuta nem faz!
            Trilha de formigas-cortadeiras na grama. Zumbidos e mexericos de abelhas-irapuás no ar. Chichios de gafanhotos pelos galhos das árvores. Que satisfação. Todas vermelhas, todas amarelas com listas pretas, todos verdes em tamanhos e comportamentos. E iam longe na pracinha e na corrente de ar e nas ervas línguas-de-tucano camuflados. Uma alegria. Iam vazias e voltavam com pedaço de folha verde nas costas, com pólen cheio nas patas, com seiva esverdeada gosmenta na boca. Qual sensação. Eu tinha o que ver. Banco debaixo na sombra do guajará-branco. Que visão de paraíso e tudo mais. Tinha o que imaginar. Tufos de piri no meio-fio. Tinha o que perguntar:
            - Uma formiga uma abelha um gafanhoto sabem que estão aí? Uma formiga sabe que é impagável trabalhar? Uma abelha sabe que mel natural se vende na feira livre da rua Prudente de Moraes? Um gafanhoto sabe que é petisco tira-gosto sopa de letrinhas de lagarto jacuruxi?
            Daí os tambores, tum-tum-tum... e tum!...
            Os olhos dela mais raros. Era ela porque o mundo acontece e é bela. Era a Enigmática! Impecável. Uma iara arrastando feitiço, fantasia, surpresa e chapéu com uma flor tipo malmequer-do-brejo. Vinha abrindo alas. E Enigmática melhorada ampliada confiada. Tinha moda para usar chapéu e tudo nela ia bem. E tinha palpite para usar saia até os joelhos. Olhos e alhos e bugalhos que a acompanhavam de todo mundo e do mundo todo.
            - Amazônica!
            Câ-ma-ra len-ta!
            Enigmática! Proparoxítona. Daí, tocaram as caixas, taratatim! taratatim! taratatim!...
            Duas bergamotinhas típicas e presas ao peito como corruíras-de-casa na gaiola - embora corruíras nem suportem ficar presas atrás de sedas ou rendas ou malhas.
            Eu acho que meus olhos brilharam. Salivei. Nem tenho luz própria. E só podiam mesmo brilhar.
            Enigmática, uvas exclamação!, meteórica. Ela selecionava as coisas que deveriam nascer. Passava e o ambiente ficava perfumado de flores da mata atlântica. Oh, machucou o joelho? É, estava vendo. Então, nem era pergunta. Pequena topada com o joelho, né?! Que bonitinho! Sim, nem era nada. E mais dois e que bichinhos e que peitinhos enfrentando desafiando apontando o futuro como confiantes corruíras-de-casa. Selecionava o que olhar o que vicejar e nem me viu.
            Nem te ligo. Para mim? Ela nem me viu. Nem sequer uma vez.
            Pensei pensei muito naquela hora. Enigmática informática aeronáutica. Toda ela imediatamente linda. Nunca pensei tanto em ficção científica como naquele dia depois daquela hora.
            Meio-dia, fome com vontade de comer, sede de aventuras e o enjoo de E-nigmática. Restaurante Mondaí em conta, moscas, janelas abertas para a rua Trairi de paralelepípedos basálticos e poeira, barulho veicular, barulho de panelas lá pelos fundos do barracão. A abóbora é planta rasteira e fácil de encontrar. Onde eu pensava e imaginava parado ou andando um minuto atrás? Aquela abóbora era catada em capela Oitaveta isso periferia da nossa cidadezinha e tinha o formato mais ou menos cilíndrico, fatiada fatia por fatia, amarela na polpa, com opção de edulcorar.
            Cheguei a ver uma barata caída de costas se debatendo no piso de cerâmica do salão do restaurante ali presente. Aquele ainda é hoje o restaurante que mais frequento - já trocou de dono e de nome oito vezes e continua a mesma coisa. Comilões que se serviam voltavam com o prato cheio em pirâmide o sorriso preocupado era mais com o peso na segunda-feira.
            Telefonema quase importante com hino do meu clube esportivo do coração:
            - Onde você está? Quê? Nem me diga! (Pausa). Ah, tá tudo bem! (Pausa e pausa) Então, me liga, lindôoo! Tchá! (Sem pausa) Ah! mais uma coisinha. Meu avô já dizia: tu é mesmo muito palha, meu!
            Olhei em volta. Desliguei o aparelho. Ainda no restaurante Mondaí. Com um olho no meu prato e outro na barata chamando sos. Vinha um bafo quente e poeirento da rua Trairi. O pessoal comentava uma chuvarada pesada uma pancada de chuva uma bomba d’água e antes do anoitecer. Era típico e frequente e usual. O restaurante de repente ficou quase vazio. E me colocando eu me achando no meio dos fracassados menos importantes do país.
            Saí do estabelecimento comensal e fui ao clube social Imperatriz Maria Leopoldina onde havia uma sala de bolão ou sinuca ou pingue-pongue. Os carinhas magrinhos ficavam olhando outros bundinhas jogar. Era abichornante. Tem sorte pra tudo que é coisa neste planeta terráqueo visto azul lá do alto, pensei.
            Então, o telefonema todo pronto com o hino nacional do meu clube esportivo favorito:
            - Preciso te cheirar! Quero porque quero! Eu vou aí, hem! Pronto! Tô indo!... Desligo?! Desligo! - e desligou.
            Depois e o sol já havia se escondido em o horizonte.
            Como até hoje diriam os velhos amigos meus velhos amigos desde a época áurea do NSAparecida, repetindo:
            - Nem são bolinhos fritos, meu!
***
            Época do ano, dia e hora do sol amadurecer. Sol amarelo em cabelos arrepiados. Sol que saiu ontem chegou hoje agora. Nem passarinho na rua nas árvores da rua Galibi. Cigarras estridulando, miéeee!... Sol, e muito depois mercúrio, vênus e a terra (oi, aqui!). Cigarras serrando as árvores em indiana do passeio público, cumarus-amarelos, tatajubas-amarelas, apuizeiros, juazeiros, ingazeiras, quatindibas... Cigarras serrando árvores e contando os tombos, tooom-booos!...
            Cheguei ao barzinho Paraí, do lado da rodoviária, uma porta sem janelas uma salinha miúda com duas mesas e duas cadeiras cada. Era um bar estreito e pequeno e mínimo nem aconchegante. Todo dia tava sempre cheio. Cabiam cinco pessoas com o atendente. Àquela hora estava lotado e se empurrando, cinco putas quatro vadios e mais um. Entrei só para tomar um limãozinho. Preferi ficar de pé. Eram quatro horas da tarde e nem futebol na tevê. Se eu conhecia alguém ali.
            Comentavam que o sete de setembro passaria por aí, bem em frente, quase neste instante. Haveria banda e meninas marchando. Meninas com vestido ou saia até o joelho. Àquela hora das eras e modas que vão e vêm voltava à moda o argumento de homenagear as datas nacionais mais importantes. Estavam fora de moda na época dos militares porque os militares queriam que andasse em estrita moda. Voltavam à moda agora hoje em dia e sem militares e sem culpas e sem mandar em mania de modas. E as meninas eram bonitas e vestidas de vestidos até os joelhos no máximo. Umas camisas brancas com vestidinhos azuis ou bem azuis. Umas putas deixaram claro que os meninos também podiam ser bonitos, mas mais ninguém acreditou.
            Fui esperar o desfile passar logo ali em frente. Quem pudera! Era dia real de praia de areia tipo praia Ubatumirim. Dia de ilha igual ilha das Enxadas. Um dia de sol rachando beira de rio entre árvores chanchãs marias-leques ipecuás tuiuiús gloterando capivaras assobiando ariranhas regougando truirapeva lagarteando tucunaretingas e anujás e linguados-de-rio nadando rio do Peixe.
            Vimos desfilar o prefeito e outros no carro conversível da prefeitura. Vaidade. Ele abanou primeiro. Pra quem. O carro virou a esquina da rua Guabiju com a rua Oswaldo Aranha. Bandeirinhas do Estado e da nação e da localidade. Fui eu mesmo para os lados de lá da praça da Bandeira e me posicionar junto ali por ali perto dos painéis de pedra. Morena puxando para índia charrua, legal legal legal! A banda da Brigada Militar tocando alto e ecoando pela cidade, tum-tum-tum... e tum!... O mais ficou pendendo do ar livre. Aprazível.
                                                                       ***
            Pronto, era o ano da graça do Senhor de 1579, ilha de São Vicente, Capitânia de São Vicente, terra de Brasil. Então, a paz com os tamoios estava quase certa quase selada. De repente, e os franceses nem estavam mais por aí varejando a colônia tentando roubar o ouro as pedras e fugir para São Luís no Maranhão.
            O soldado de sua majestade Dom João III, o mameluco Ipanguaçu, olhava em redor a paisagem quente atlântica imperdível lenta lenta. Paisagem sensacional panorâmica e longa longa. Sentado numa tosca cadeira de imbuia, na sombra da parede interna do forte São Filipe. E olhava o céu todo azul ao redor, ouvia grasnar, groá-groá-groá!... de araras e maracanãs e papagaios-do-mangue, e nem tinha ânimo para nada nem sabia que estava, sim senhor!, no centro do paraíso. Um dia muito quente que prometia chuva no decorrer da tarde no entardecer perto da noite.
            Um velho índio dos tupinaé, antigo prisioneiro num dos ataques ao forte, se aproximou do soldado. Na sua fala mais ou menos, outras vezes sincopada, tartamudeada, o índio disse, puxando o que falar:
            - Tem fumá, tem bebe, sô Ipanguaçu?
            O soldado olhou o índio trapo encardido enrolado na cintura e respondeu:
            - Quatimundéu sabe que nem tem de fumar, nem tem de beber e pouco tem de comer.
            O índio suspirou frustrado arrependido. O céu estava azul, muito claro, um bando de periquitos-verdes revoava em gritaiedo, proá-proá-proá!... rumo os lados da ilha do Prumirim. O índio sentou numa pedra e voltou:
            - Índio Quatimundéu nome idade chegá velhice.
            Volta e meia as tribos tupinambá se enchiam de desespero e atacavam o forte. Os franceses se aproveitavam disso e também faziam as suas estripulias pelas ilhas do litoral, ilha Montão de Trigo, ilha Grande, ilha Comprida, ilha Redonda, etc. Isso volta e meia acontecia. Mas D era católico e nem abria mão dos novos verdadeiros donos conquistadores do novo mundo.
O velho índio continuou, meio sonolento, meio cansado, parando, prosseguindo, e falando conforme:
            - Curumim nasce certo certo pai dá nome bicho Quatimirim. Tempo tempo... huuu!... eu curumim. Índio Quatimundéu nasci Quatimirim. Pai Piaçaguera mãe Iperana meu nome Quatimirim chorando chorando muito nadando rio subindo árvore fruta araçá, guabiju, araticum, outra fruta.  
            Os portugueses da ilha dos Gatos, ilha das Couves, ilha Rapada, ilha de Santo Amaro, ilha de São Vicente e arredores, precisavam muito plantar cana-de-açúcar. Índios amigos dos portugueses guerreavam seus inimigos índios amigos dos franceses. Assim na terra como no paraíso.
            - Quatimundéu foi valente guerreiro nome Quatiaipé. Pajé Iomerê deu nome Quatiaipé. Eu Quatiaipé força agilidade caçar bicho pescar peixe catá mel árvore. Quatiaipé caçá muito tracajá, anta, capivara, jacaré, peixe-boi, preguiça-de-coleira, cateto, tamanduá, quati, outro bicho.
            Os franceses incentivavam os tamoio e os tupiná e os caeté e os trucá e os boimé a atacar os portugueses. Os franceses negociavam facão machado chapéu espelho tecido em troca de pau-brasil.
            - Quatiaipé casado nome Quatipuru. Quatipuru muito filho oito filho índia Guapeba-Vermelha índia Bacaba índia Jeniparana árvore galho muito galho oito filho deram nome eu Quatipuru.  
            O velho índio Quatimundéu calou por outro minuto e olhou o céu o céu. Talvez chovesse em questão de trovoadas e relâmpagos na fúria das ventanias e tempestades vindas do mar. Bando de tuiutis, froá-froá-froá!... voavam de volta para lá na serra de Boiçucanga. O velho índio tupinaé sabia que ia chover perto da noite boca da noite dia fechando mais cedo. E continuou contando a história dos seus vários nomes e idades e esposas e filhos:
            - Velho índio Quatimundéu perto perto dormir, huuu!... Quatimundéu igual jacutinga ave escondida capoeira nem voa nem canta nem caça come fruta chão. Esperar espírito buscar velho Quatimundéu. Quatimundéu tempo tempo... huuu!...   
            - Por que tanto nome pra um índio só, índio Quatimundéu?
            - Sol lua sol... Tempo tempo viajá... huuu!...
            O soldado Ipanguaçu olhou com surpresa o velho índio Quatimundéu. O índio olhava o céu azul que corria umas nuvens com cara de bicho. E vinha que ventava mais ou menos forte do lado que sempre vem a chuva. As abelhas zoinavam, o beija-flor-papo-de-fogo trissava, o itapema borbolhava, as andorinhas zinzilulavam, o bando de humaitás, troá-troá-troá!... ia embora para outra ilha. Ilhas nem faltavam pela área, dito e feito, ilha do Mar Virado, ilha das Palmas, ilha Anchieta, arquipélago de Alcatrazes, arquipélago de Trindade e Martim Vaz.
            - Quatimundéu velho índio tupinaé vira índio bom paciente; vira índio chato fofoqueiro; vira índio pra contá história.
           

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