Mas o Que Vem a Ser
Isso
A
guria Caibi, toda de verde e mistérios, tinha aquele cheiro de natureza.
Milhares e milhares de plantas, janaúba, paxaú, quássia-do-pará, aricuriroba, abacate-do-mato,
guarajuba... Coisa rara para pensar, para estudar.
Céu
muito alto porque raios claro azul expansivo confortável pássaros árvores
carros e pessoas pilotando os automóveis.
Ela
tinha uma família a Caibi e uma cadela e um cavalo que faziam parte da família.
A casa onde ela morava com a família a cadela e o matungo tinha uma porta aérea
no primeiro andar, sem escada por fora, aérea. O cavalo se chamava Agrolândia,
por causa de uma novela de televisão. O cavalo pernoitava num barraquinho do
lado da casa e se dava muito bem com a cadela fila Pequi. O cavalo que
relinchava era pinhão e a cadela que aulia era baia.
Naquele
mesmo dia de Caibi verde e mimetizada, eu encontrei meu tio Urubici. Este que ia
passando e farejando o rumo do boteco Taió. Ele se dirigia ao bar e eu fui
junto. No assunto era futebol de falar. Ele com seu traguinho de cana com poejo
e eu também. Já eram o quê?, dez horas de uma terça-feira dia 72 do ano de 1994.
Pois sentamos nos banquinhos do bar, junto ao balcão, bancos altos, cotovelo
apoiado e fazer a resenha do grenal. E meu tio foi dizendo:
-
Eu nem bebo pra ficar melhor, eu bebo pra ficar pior.
Meu
tio Urubici era uma figura. E continuava pela mesma estrada:
-
Um dia desses, muito tempo lá pra trás, nem sei há quantos anos, eu fiquei com a
mãe dessa tal ali que você acabou de falar... essa Caibi verde e muito chique,
toda de verde, é, a mãe lá dessa aí mesmo. Eu levava treze ou quatorze anos. Estávamos
em férias escolares e tinha aniversário de alguém na casa da dona Irati
Maracaia. Juro e faço pouco. Mas tem uma outra coisa, seu guri de bosta! Tem mais
uma coisa. Isso foi por lá longe quando tínhamos uns treze ou quatorze anos,
talvez quinze.
E
meu tio Urubici, continuou:
-
Sim, claro que sim, meu! Jogávamos bola. Bem no meio do campinho, na linha, havia
um toco desses de ex-erva-mate. O cara tinha que driblar também o toco e com raiz
e tudo. O toco fazia falta e nem era cobrada falta. Mas o toco também podia
fazer gol, a favor ou contra. Era um toco zagueiro, às veis, ou artilheiro, às
veis.
Por
assim dizer, o meu tio Urubici, cabelos quase brancos, escassos no centro do
coco, e comunicou:
-
Nem é bem verdade o que andam dizendo por aí. Namorei sim a Jupiá do seu Romelândia entre os galhos do pé de
umari: uma dessas árvores do norte, nem sei. Imagine beijar alguém no balanceio
do galho, meu! É muito arriscado. Mas pode ser novidade, também. Hum!... Pode
deixar que falem à vontade, mas nem acredite em tudo o que dizem.
E
tio Urubici completou mais umas trovas e gauchadas:
-
Era uma estação chamada primavera. O meu cão, o Guará, detestava moscas e etc.
Tudo que era inseto e etc para ele era mosca. E ele odiava moscas e cainhava. Pois
eram moscas, muriçocas, abelhas, zangões, besouros, borboletas, joaninhas,
tesourinhas, centopéias, lesmas e moscas. Desprezava de paixão e maticava. Aí,
um dia, na lavoura, eu cuidando de uns pés rasteiros de melancia-do-campo,
aconteceu. O Guará viu uma borboleta, dessas que vivem duas ou três semanas no
máximo. Viu a borboleta em trajes brancos e tonta tontinha, dessas leves como
paina seca, viu a borboleta, uma branquinha, e a seguiu seguiu. Viu farejou
cuincou e foi no encalço, orelhas altas, cauda em riste. Mas pra quê, meu!
Nunca mais vi meu bom guaipeca Guará. Acho, acho que virou nuvem no desenho animado,
tá entendendo?!
***
Há
coisas que começam no céu e frutificam na terra, coisas que nascem na terra e voltam
para o céu, coisas que são do céu e só andam na terra, coisas que são da terra
e povoam o céu.
Aquele
um sábado de tarde. Era um sábado nem era sexta-feira. Olha só! Único dia
diferente a parte da manhã da da tarde. Logo aquele sábado de tarde no morro de
propriedade do seu Mucuri Fraiburgo. Os tais e quais tico-ticos pissitavam a
fuzéu. Aquele um sábado de sol e inverno frio vento sul. Um vento, vuuu!...
corria pelo alto, às vezes baixava e arrastava poeira.
Uma
terra vermelha soprou vento e poeira nos meus olhos.
Eu
pensava, pensava ornejava como um burro às vezes pensa e morre pensando. Tava
mesmo a fim de uma cerveja preta batatas fritas queijo ralado por cima e mais a
turma pra papear. Se bom se sesse!
As
pessoas riam, gargalhavam, rebusnavam e ainda grasnavam, cacarejavam, piavam,
fungavam, relinchavam, ganizavam, fumavam, tomavam cerveja de torre. Os
motoqueiros subiam e desciam, voavam, ram-ram-ram!... arriscavam, aterrissavam
pelas trilhas de terra vermelha do morro. Por enquanto pareciam abelhas
grandes, tipo vespas enxuís, ásperas, envenenadas, ariscas, selvagens.
E havia uma Arabutã
de cachecol vermelho abraçada a si mesma. Cunhataí estava vestida praticamente
de amarelo com tênis de outra cor. Imbuia e Ibirama estavam de braços dados de
irmãs gêmeas. Guariúba pulava eletrizada os seios soltos com os dois braços
abertos para o céu do azul quase quase como o Cristo Redentor do Corcovado.
Havia
grupos de pessoas olhando e aqui e ali, por cá e acolá. Um desses grupos viu um
pulo de moto vivou e gritou em coro:
-
In-crí-veeel!!!
Tudo
uma mentira, porque cinco minutos depois um motoqueiro caiu e quebrou a moto ao
meio prejuízo de cinco contos mais duzentos e treze mil-réis. Tudo um engodo,
porque dez minutos após um motoqueiro caiu com moto e tudo e quebrou a
clavícula. Tudo uma lorota, porque quinze minutos seguintes um motoqueiro de
Nobres, Mato Grosso, mergulhou no barro e ficou irreconhecível irrecuperável.
No
meio do morro tinha aquele um pinheiro-do-paraná. Enorme e gigantesco e
centenário e presente. Fora o cacique da floresta nos bons tempos atrás quando
ali era mato e os índios coroado vinham colher pinhão. Fora o imperador da mata
nos bons tempos dos acampamentos de tropeiros quando estes acendiam fogo na
beira da picada caminho para Passo Fundo ou Lagoa Vermelha. O morro todo pelado,
arrasado e destelhado, aberto em carreiros vermelhos para os motoqueiros se
exibir, canteiros de capoeira, exemplares de taiobas, exemplares de guaporangas,
exemplares de quatro-patacas, exemplares de cipoabas, e o famoso e grandioso
pinheiro bem no meio da parada. Como um totem, um cruzeiro, um obelisco, um
pelourinho, um capitel de São Cristóvão padroeiro dos motoristas, uma estátua
de Dom Pedro II.
Soprava
um vento x e frio - já disse -, ninguém sabia se de propósito. Sempre ou de vez
em quando o tal vento vinha e passava, vuuu!... riscando a cara. Muitos
estremeciam. Outros protegiam as orelhas com as mãos enluvadas em luvas de lã. Tinha
gente que reclamava do vento e da proximidade com o sul. Também, estação
localizada na encosta superior do planalto rio-grandense altitude de 820m,
queria o quê?!
-
Nós estamos mesmo é em cima de uma pedra. Uma pedra e tanto, uma pedra de
proporções, mas uma pedra.
Um
casal se beijava e nem parava para olhar em volta. Os olhinhos pequenos dos
dois pombinhos se curtindo estavam em chispas e centelhas e faíscas e chamas.
Uma para o outro. Esfregavam os narizes por um curto espaço de tempo e já
voltavam a se chupar se sugar com supetão com de repente com insaciáveis. Ao ar
livre. E todo o mundo que via o público a plateia podia opinar e dizer democra-ticamente:
-
Eles são dois bichinhos novos curtindo aí.
Ou
então:
-
Por que nem vão se esquentar numa cama de edredom, é uma!
Ou
mais ainda:
-
E nem venha me dizer que com vc seria diferente!
Quem
opinou:
-
Devem ser dos veganismos, é!
O
pinheiro araucária respeitável bem no meio do circuito. O vento mal assombrava
seus galhos e braços altos e tal. A Guabiruba, praticamente toda de azul,
beijava o crucifixo e torcia muito toda vez que o motoqueiro da moto amarela,
ram-ram-ram!... subia e pulava e descia as corcovas. Maçambará, toda sempre
formal e reconhecível, besouro vivo mãe-do-sol preso ao cabelo e as madeixas em
estado leve verificáveis. Piratuba tapava os ouvidos com os dois dedinhos de
unhas longas e pintadas uma cada cor. Botuverá bebia caipirinha e eu nem sabia
que estava sem namorado havia 24 horas. Andiroba usava luvas sem dedos
meias-luvas e caneleiras de lã que protegiam os tornozelos as canelas. Maturi
tava a fim de deixar de fumar aquela maconha pegajosa aliciante com sabor de
capim-de-burro.
E
o queco? E eu estava aí por acaso. Aprazível. Sacerdotal. Um dois de paus muito
palha. Mãos nos bolsos. Ilustríssimo excelentíssimo senhor doutor diretor do
clube esportivo Tatu, eu mesmo de tal, natural da periferia desta cidade dos neopratenses.
***
Calor
branco. Os dias de verão e sol de chapa. Bermuda e camisa branca manga curta. À
noitinha, o mais tardar, relâmpagos, trovoadas e chuva, quando nem com vendaval
e granizo. Mormaço. Sem camisa e bermuda com muitos bolsos. Dias de cigarras
serradeiras, iéeee!... e noites de mosquitos trombeteiros, bizzz!... Chuveiro.
Beber gelados. Chuveiradas.
O
hino do clube esportivo... tocou tocou o telefone:
-
Querido dos meus sonhos e do meu coração e dos meus abraços, um beijo! Vamos
juntos na garagem da Papanduva?! Me leve, meu! Quando? Amanhã de noite! Vamo
tomá uma ceva, ouvi o baruio que é e comê pizza, nem necessariamente nessa orde?!
O
convite nem foi totalmente irritante nem nada mas até amanhã o mundo poderá
acabar, certo?! Até amanhã eu poderei esquecer mudar de ideia e ela poderá
esquecer ou mudar de ideia. Que pensei pensei. Mais o quê? Ninguém nem poderá
acusá-la de nem ter tentado.
Onze
horas da manhã como outra qualquer e deu. Fui rumo da praça da Bandeira para
ver se arrumava um frete, um bico, um biscate. Era o que tinha pra fazer. Precipitei
os acontecimentos e fui até o centro, de ônibus ou a pé tanto faz e dependendo
do tempo.
No
meio do céu o sol azul de azul céu de ouro puro lavado. Um caramujo-do-banhado
de papo com um jabuti-aperema. Coisa de outra era. Manhã de verão, porém limpa
e de sol implacável impagável, rua Barão de Angra e descendo. O dia
praticamente falava e estrilava somente pelo mundo dos passarinhos e pássaros e
aves, inhapupê, uiramiri, balança-rabo-canela, gavião-tesoura, macuco, tangará,
bem-te-vi-de-coroa-vermelha, patativa... Daí pra frente um sucesso após o outro.
Carros seminovos vendem mais que carros novos. Um vazio de sagas e epopeias e
odisseias. Queda de árvore hecatombe cataclismo catástrofe. O mundo todo
persistindo e subindo a avenida Marechal Câmara. Eu olhava tudo como sempre e
sentia o aqui o agora o relativo.
-
Queria tomar uma pílula rica de química inteligentíssima e ficar sabendo tudo
de pronto e muito na hora sobre trigonometria, em!
Aquele
que se viu e se reconheceu nas vitrinas andava mais ou menos próximo dos 5 km
por hora, árvores mais altas caxim bacuri quataquiçaua espinho-de-agulha...
diversos ipês-amarelos pombas-rolas soluçantes formigas-de-embaúbas andando
livremente pela calçada grandes árvores como as araucárias ainda lá por cima
maiores manda-chuvas sobrenadando tudo um verde estrondoso o vento, e com ideias
também mais ou menos desaceleradas, manchas de sombra folhas e flores secas
traseiros de gurias guria de calça apertadinha uma vovó com o cachorrinho
pela...
Era
isso mesmo. Sempre dizia e repetia:
-
As nuvens sofrem alegrias e cores e pandorgas na forma de bicho, em o mínimo.
Antes
de chegar à praça, o hino do clube esportivo... outro tele-fonema:
-
Oi, querido! Tô te amando há centenas de anos! Pô, vem me vê! Isso custa?! Vem
me visitá! Pode ser de bicicleta! Só eu pra te compreender, lembra?! Lembra de
outra, então: te adororô! Você é meu rei e minha majestade! Você é minha
tempestade de dunas em Lençóis Maranhenses! Minha borrasca em pleno inverno dia
de domingo! Você me deve o meu cedê d’Os Mamonas Assassinas!
Tinha
a impressão que todos estavam rindo de mim. Quando se tem fracassado de si
mesmo isso acontece. Ó, nem falei?! Tavam rindo de mim, eu vi. Basta eu olhar
para que tentem disfarçar dissimular.
A
praça da Bandeira com mais quatro ou cinco biqueiros recostados na casinha do
mictório. O pedestal no topo o busto do GV. Toda praça antiga tinha alguma
coisa com água: chafariz, espelho-d’água, aquário, fonte murmurante. Todas
deveriam ter, ainda. Hoje a praça da Bandeira deixou de ter o aquário com os peixes
coloridos exóticos e os sapos que trucilam. A praça com jacaratiás, juquiris, guaranhéns-do-campo,
pitombeiras, gameleiras-de-cansaço e, embora, borboletas-do-manacá. Nem se podia
jogar cartas ali nem dominó nem xadrez nem tria nem damas. Conversas e risadas
sobre futebol. Passava neguinho montado em limpos e barulhentos carrões tunados.
Passava beldade montada em brilhantes e vermelhos ou amarelos carrões emplacados
de outras plagas rincões pagos querências, Guaramiranga, Angical, Portão, São
José do Hortêncio, Videira, São Francisco de Assis, Colina, Piraí do Sul...
-
Estratégia é o gol. Várias táticas para conseguir chegar na estratégia. Bola na
rede a solução a conclusão o grito de goool!... O que vale é a pelota no fundo
do barbante, atrás da cascata véu de noiva, no fundo do poço, no puxadinho de cordas.
Quem nem chuta nem faz!
Trilha
de formigas-cortadeiras na grama. Zumbidos e mexericos de abelhas-irapuás no ar.
Chichios de gafanhotos pelos galhos das árvores. Que satisfação. Todas vermelhas,
todas amarelas com listas pretas, todos verdes em tamanhos e comportamentos. E iam
longe na pracinha e na corrente de ar e nas ervas línguas-de-tucano camuflados.
Uma alegria. Iam vazias e voltavam com pedaço de folha verde nas costas, com pólen
cheio nas patas, com seiva esverdeada gosmenta na boca. Qual sensação. Eu tinha
o que ver. Banco debaixo na sombra do guajará-branco. Que visão de paraíso e
tudo mais. Tinha o que imaginar. Tufos de piri no meio-fio. Tinha o que
perguntar:
-
Uma formiga uma abelha um gafanhoto sabem que estão aí? Uma formiga sabe que é
impagável trabalhar? Uma abelha sabe que mel natural se vende na feira livre da
rua Prudente de Moraes? Um gafanhoto sabe que é petisco tira-gosto sopa de
letrinhas de lagarto jacuruxi?
Daí
os tambores, tum-tum-tum... e tum!...
Os
olhos dela mais raros. Era ela porque o mundo acontece e é bela. Era a
Enigmática! Impecável. Uma iara arrastando feitiço, fantasia, surpresa e chapéu
com uma flor tipo malmequer-do-brejo. Vinha abrindo alas. E Enigmática
melhorada ampliada confiada. Tinha moda para usar chapéu e tudo nela ia bem. E
tinha palpite para usar saia até os joelhos. Olhos e alhos e bugalhos que a
acompanhavam de todo mundo e do mundo todo.
-
Amazônica!
Câ-ma-ra
len-ta!
Enigmática!
Proparoxítona. Daí, tocaram as caixas, taratatim! taratatim! taratatim!...
Duas
bergamotinhas típicas e presas ao peito como corruíras-de-casa na gaiola -
embora corruíras nem suportem ficar presas atrás de sedas ou rendas ou malhas.
Eu
acho que meus olhos brilharam. Salivei. Nem tenho luz própria. E só podiam
mesmo brilhar.
Enigmática,
uvas exclamação!, meteórica. Ela selecionava as coisas que deveriam nascer.
Passava e o ambiente ficava perfumado de flores da mata atlântica. Oh, machucou
o joelho? É, estava vendo. Então, nem era pergunta. Pequena topada com o
joelho, né?! Que bonitinho! Sim, nem era nada. E mais dois e que bichinhos e que
peitinhos enfrentando desafiando apontando o futuro como confiantes
corruíras-de-casa. Selecionava o que olhar o que vicejar e nem me viu.
Nem
te ligo. Para mim? Ela nem me viu. Nem sequer uma vez.
Pensei
pensei muito naquela hora. Enigmática informática aeronáutica. Toda ela
imediatamente linda. Nunca pensei tanto em ficção científica como naquele dia
depois daquela hora.
Meio-dia,
fome com vontade de comer, sede de aventuras e o enjoo de E-nigmática.
Restaurante Mondaí em conta, moscas, janelas abertas para a rua Trairi de
paralelepípedos basálticos e poeira, barulho veicular, barulho de panelas lá
pelos fundos do barracão. A abóbora é planta rasteira e fácil de encontrar. Onde
eu pensava e imaginava parado ou andando um minuto atrás? Aquela abóbora era
catada em capela Oitaveta isso periferia da nossa cidadezinha e tinha o formato
mais ou menos cilíndrico, fatiada fatia por fatia, amarela na polpa, com opção
de edulcorar.
Cheguei
a ver uma barata caída de costas se debatendo no piso de cerâmica do salão do
restaurante ali presente. Aquele ainda é hoje o restaurante que mais frequento
- já trocou de dono e de nome oito vezes e continua a mesma coisa. Comilões que
se serviam voltavam com o prato cheio em pirâmide o sorriso preocupado era mais
com o peso na segunda-feira.
Telefonema
quase importante com hino do meu clube esportivo do coração:
-
Onde você está? Quê? Nem me diga! (Pausa). Ah, tá tudo bem! (Pausa e pausa) Então,
me liga, lindôoo! Tchá! (Sem pausa) Ah! mais uma coisinha. Meu avô já dizia: tu
é mesmo muito palha, meu!
Olhei
em volta. Desliguei
o aparelho. Ainda no restaurante Mondaí. Com um olho no meu prato e outro na
barata chamando sos. Vinha um bafo quente e poeirento da rua Trairi. O pessoal
comentava uma chuvarada pesada uma pancada de chuva uma bomba d’água e antes do
anoitecer. Era típico e frequente e usual. O restaurante de repente ficou quase
vazio. E me colocando eu me achando no meio dos fracassados menos importantes
do país.
Saí
do estabelecimento comensal e fui ao clube social Imperatriz Maria Leopoldina onde
havia uma sala de bolão ou sinuca ou pingue-pongue. Os carinhas magrinhos ficavam
olhando outros bundinhas jogar. Era abichornante. Tem sorte pra tudo que é coisa
neste planeta terráqueo visto azul lá do alto, pensei.
Então,
o telefonema todo pronto com o hino nacional do meu clube esportivo favorito:
-
Preciso te cheirar! Quero porque quero! Eu vou aí, hem! Pronto! Tô indo!... Desligo?!
Desligo! - e desligou.
Depois
e o sol já havia se escondido em o horizonte.
Como
até hoje diriam os velhos amigos meus velhos amigos desde a época áurea do NSAparecida,
repetindo:
-
Nem são bolinhos fritos, meu!
***
Época
do ano, dia e hora do sol amadurecer. Sol amarelo em cabelos arrepiados. Sol
que saiu ontem chegou hoje agora. Nem passarinho na rua nas árvores da rua
Galibi. Cigarras estridulando, miéeee!... Sol, e muito depois mercúrio, vênus e
a terra (oi, aqui!). Cigarras serrando as árvores em indiana do passeio público,
cumarus-amarelos, tatajubas-amarelas, apuizeiros, juazeiros, ingazeiras,
quatindibas... Cigarras serrando árvores e contando os tombos, tooom-booos!...
Cheguei
ao barzinho Paraí, do lado da rodoviária, uma porta sem janelas uma salinha
miúda com duas mesas e duas cadeiras cada. Era um bar estreito e pequeno e
mínimo nem aconchegante. Todo dia tava sempre cheio. Cabiam cinco pessoas com o
atendente. Àquela hora estava lotado e se empurrando, cinco putas quatro vadios
e mais um. Entrei só para tomar um limãozinho. Preferi ficar de pé. Eram quatro
horas da tarde e nem futebol na tevê. Se eu conhecia alguém ali.
Comentavam
que o sete de setembro passaria por aí, bem em frente, quase neste instante.
Haveria banda e meninas marchando. Meninas com vestido ou saia até o joelho. Àquela
hora das eras e modas que vão e vêm voltava à moda o argumento de homenagear as
datas nacionais mais importantes. Estavam fora de moda na época dos militares
porque os militares queriam que andasse em estrita moda. Voltavam à moda agora
hoje em dia e sem militares e sem culpas e sem mandar em mania de modas. E as
meninas eram bonitas e vestidas de vestidos até os joelhos no máximo. Umas
camisas brancas com vestidinhos azuis ou bem azuis. Umas putas deixaram claro
que os meninos também podiam ser bonitos, mas mais ninguém acreditou.
Fui
esperar o desfile passar logo ali em frente. Quem pudera! Era dia real de praia
de areia tipo praia Ubatumirim. Dia de ilha igual ilha das Enxadas. Um dia de
sol rachando beira de rio entre árvores chanchãs marias-leques ipecuás tuiuiús
gloterando capivaras assobiando ariranhas regougando truirapeva lagarteando
tucunaretingas e anujás e linguados-de-rio nadando rio do Peixe.
Vimos
desfilar o prefeito e outros no carro conversível da prefeitura. Vaidade. Ele
abanou primeiro. Pra quem. O carro virou a esquina da rua Guabiju com a rua
Oswaldo Aranha. Bandeirinhas do Estado e da nação e da localidade. Fui eu mesmo
para os lados de lá da praça da Bandeira e me posicionar junto ali por ali
perto dos painéis de pedra. Morena puxando para índia charrua, legal legal
legal! A banda da Brigada Militar tocando alto e ecoando pela cidade,
tum-tum-tum... e tum!... O mais ficou pendendo do ar livre. Aprazível.
***
Pronto,
era o ano da graça do Senhor de 1579, ilha de São Vicente, Capitânia de São
Vicente, terra de Brasil. Então, a paz com os tamoios estava quase certa quase
selada. De repente, e os franceses nem estavam mais por aí varejando a colônia tentando
roubar o ouro as pedras e fugir para São Luís no Maranhão.
O
soldado de sua majestade Dom João III, o mameluco Ipanguaçu, olhava em redor a
paisagem quente atlântica imperdível lenta lenta. Paisagem sensacional panorâmica
e longa longa. Sentado numa tosca cadeira de imbuia, na sombra da parede
interna do forte São Filipe. E olhava o céu todo azul ao redor, ouvia grasnar,
groá-groá-groá!... de araras e maracanãs e papagaios-do-mangue, e nem tinha
ânimo para nada nem sabia que estava, sim senhor!, no centro do paraíso. Um dia
muito quente que prometia chuva no decorrer da tarde no entardecer perto da
noite.
Um
velho índio dos tupinaé, antigo prisioneiro num dos ataques ao forte, se
aproximou do soldado. Na sua fala mais ou menos, outras vezes sincopada, tartamudeada,
o índio disse, puxando o que falar:
-
Tem fumá, tem bebe, sô Ipanguaçu?
O
soldado olhou o índio trapo encardido enrolado na cintura e respondeu:
-
Quatimundéu sabe que nem tem de fumar, nem tem de beber e pouco tem de comer.
O
índio suspirou frustrado arrependido. O céu estava azul, muito claro, um bando
de periquitos-verdes revoava em gritaiedo, proá-proá-proá!... rumo os lados da
ilha do Prumirim. O índio sentou numa pedra e voltou:
-
Índio Quatimundéu nome idade chegá velhice.
Volta
e meia as tribos tupinambá se enchiam de desespero e atacavam o forte. Os
franceses se aproveitavam disso e também faziam as suas estripulias pelas ilhas
do litoral, ilha Montão de Trigo, ilha Grande, ilha Comprida, ilha Redonda, etc.
Isso volta e meia acontecia. Mas D era católico e nem abria mão dos novos
verdadeiros donos conquistadores do novo mundo.
O velho índio
continuou, meio sonolento, meio cansado, parando, prosseguindo, e falando
conforme:
-
Curumim nasce certo certo pai dá nome bicho Quatimirim. Tempo tempo... huuu!...
eu curumim. Índio Quatimundéu nasci Quatimirim. Pai Piaçaguera mãe Iperana meu nome
Quatimirim chorando chorando muito nadando rio subindo árvore fruta araçá,
guabiju, araticum, outra fruta.
Os
portugueses da ilha dos Gatos, ilha das Couves, ilha Rapada, ilha de Santo
Amaro, ilha de São Vicente e arredores, precisavam muito plantar
cana-de-açúcar. Índios amigos dos portugueses guerreavam seus inimigos índios
amigos dos franceses. Assim na terra como no paraíso.
-
Quatimundéu foi valente guerreiro nome Quatiaipé. Pajé Iomerê deu nome Quatiaipé.
Eu Quatiaipé força agilidade caçar bicho pescar peixe catá mel árvore. Quatiaipé
caçá muito tracajá, anta, capivara, jacaré, peixe-boi, preguiça-de-coleira,
cateto, tamanduá, quati, outro bicho.
Os
franceses incentivavam os tamoio e os tupiná e os caeté e os trucá e os boimé a
atacar os portugueses. Os franceses negociavam facão machado chapéu espelho tecido
em troca de pau-brasil.
-
Quatiaipé casado nome Quatipuru. Quatipuru muito filho oito filho índia Guapeba-Vermelha
índia Bacaba índia Jeniparana árvore galho muito galho oito filho deram nome eu
Quatipuru.
O
velho índio Quatimundéu calou por outro minuto e olhou o céu o céu. Talvez
chovesse em questão de trovoadas e relâmpagos na fúria das ventanias e tempestades
vindas do mar. Bando de tuiutis, froá-froá-froá!... voavam de volta para lá na
serra de Boiçucanga. O velho índio tupinaé sabia que ia chover perto da noite
boca da noite dia fechando mais cedo. E continuou contando a história dos seus
vários nomes e idades e esposas e filhos:
-
Velho índio Quatimundéu perto perto dormir, huuu!... Quatimundéu igual jacutinga
ave escondida capoeira nem voa nem canta nem caça come fruta chão. Esperar
espírito buscar velho Quatimundéu. Quatimundéu tempo tempo... huuu!...
-
Por que tanto nome pra um índio só, índio Quatimundéu?
-
Sol lua sol... Tempo tempo viajá... huuu!...
O
soldado Ipanguaçu olhou com surpresa o velho índio Quatimundéu. O índio olhava
o céu azul que corria umas nuvens com cara de bicho. E vinha que ventava mais
ou menos forte do lado que sempre vem a chuva. As abelhas zoinavam, o
beija-flor-papo-de-fogo trissava, o itapema borbolhava, as andorinhas
zinzilulavam, o bando de humaitás, troá-troá-troá!... ia embora para outra
ilha. Ilhas nem faltavam pela área, dito e feito, ilha do Mar Virado, ilha das
Palmas, ilha Anchieta, arquipélago de Alcatrazes, arquipélago de Trindade e
Martim Vaz.
-
Quatimundéu velho índio tupinaé vira índio bom paciente; vira índio chato fofoqueiro;
vira índio pra contá história.
Nenhum comentário:
Postar um comentário