quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Menino da Montanha (juvenil)






            Quem sabe o dia quando foi que tudo começou? Dia claro como água.
            O mundo ia começar como um espetáculo. O mundo amanheceu grande somando aí árvores, pássaros, Cruzeiro do Sul, rios, montanhas, boqueirões, nuvens, todos os mares...
Ruas avenidas biriquetes quelhas vielas becos se enchiam de coisas. Naquela hora já se via que os movimentos na rua eram cada vez maiores. E ninguém via o tempo passar.
O tempo andava aí e às vezes fazia o bem às vezes fazia o bem.
As pessoas e os bichos e as árvores perdiam a paciência. Pencas de coisas apareciam e reapareciam. Frutas boas de comer, flores de se cheirar, cores de se admirar, sons de todos os tons.
E saiu um mundo de sol e ouro para o mundo todo.
            Lilás, dez anos, acordou tarde naquela manhã de setembro ou outubro. Acordou e não tinha vontade de pular da cama.
A menina ficou ali sob as cobertas espiando o teto azul-claro, as paredes verde-claras, uma gravura de cantor cantando no quadro da parede, etc; as luzes do dia, feixes de raios entrando aos poucos e por força do hábito; ouvindo a gargalhada dos joões-de-barro, ouvindo o riso da cidade um riso citadino mais ou menos.
Umas outras coisas muito simpáticas calmas pacientes mais por ali no quarto de dormir: um vaso de vidro transparente com uma rosa amarela cheirosa ainda do outro dia, um porta-retrato com a mesma menina sorrindo na praia do Imbé, uma tela de computador fechada encapuzada encapotada enlonada, uma mesinha de canto com cadeira, um espelho de corpo inteiro, coleção de sapos de fantasia espalhados pelo aposento.
A guriazinha se espichou toda na preguiça de levantar ou não levantar. Estalou as dobradiças. Um sono ressono entressono sem fim sem começo.
            Quando se sonha o vento, o vento existe, o vento sopra, o vento até açoita. Mas quando se sonha o sem-vento, não existe o vento, ventania, vendaval, furacão.
            Depois... aos poucos... a menina Lilás foi se convencendo que precisava se levantar. E se convenceu. Se levantou.
Um dia novo, um futuro por acontecer. Um futuro verde em folha ou azul em flor ou amarelo em pássaro ou vermelho em árvore.
            Foi ao banheiro e teve a maior surpresa dos últimos tempos. Tomou um susto de terror...
            - Oh, meu pai, mãe!!
            ... era uma ondulada lilás.
            Tinha deitado na noite anterior com o cabelo liso escorrido e acordava com o cabelo ondulado encaracolado encachado.
Uma ondulada sem explicação. Um mistério assustador. Um enigma com perguntas e sem respostas.
            Com o susto, Lilás caiu para trás, ali mesmo no chão do banheiro, tuque!... Caiu perfeitamente durinha no chão como... como... como uma ondulada. E sem respirar, praticamente. Caiu durinha, ou fofinha, para trás, tuque!... Adormeceu de susto e com o tuque!... a pancada.
            Dois séculos após, dois séculos após esses acontecimentos, quando acordou de vez, lembrou de se reolhar no espelho do banheiro. E ainda estava lá. Ainda era uma ondulada. Praticamente certo que era uma alma de iara. E uma ondulada comum de cachos grandes, macios, na cor lilás, reluzentes ou brilhantes, cabelos prontos e fofos para alguém alisar e elogiar e copiar e imitar e admirar.
            - Minha nossa!... Virei ondulaaaada!! O que será que eu faço, gente?! Foi algo que comi? Algo que sonhei e não acordei? Escova de cabelo que penteei? Doente da doença que Deus me deu? Alguém vai rir de mim. E vão se divertir as minhas custas, pelas minhas costas.
            Lilás foi procurar o peixinho do aquário, amigo de todas as horas, inquilino da casa há muitos meses. Ela mesma foi falando:
            - Seu Inhanduí, por que acabei virando uma... ondulaaaada!? Tá me reconhecendo? Por que logo uma ondulaaaada? Isso muito me admira. Aliás, seu Inhanduí, é importante ser ondulaaaada?
            O peixinho Inhanduí olhou bem para a menina... nadou um tantinho, e não reparou nada de esquisito nem de anormal nem de extraordinário nem de importante nem de sem importância. Inhanduí falou sem susto, tá falado:
            - Não sei do que você tá falando, Lilás!
            - Olhe pra mim... Não me pareço hoje com uma ondulaaaada!?
            - Claro... que não. Você está ainda uma menina uma guria uma garota uma cunhã uma puri uma aquarela lisa, oquei?!
            Lilás ficou um tanto desapontada. Queria tanto parecer uma ondulada! E Lilás se olhava e se via ondulada! Mas por que Inhanduí não percebia? Inhanduí estaria mentindo para não magoá-la? Se ela era uma ondulada, por que os outros não pensavam assim?
            - Olha, Inhanduí, pode falar francamente, viu?! Eu pareço mesmo uma ondulaaaada!, né?! Eu mereço ser uma ondulaaaada!, hein?!
            - Não. Você ainda é a menina lisa lisinha de sempre. Um pouco lilás, é verdade.
            - Talvez você careça de usar óculos de grau, Inhanduí.
            - Para ver você não preciso de óculos de mergulho. Vai por mim. Você está como sempre esteve. E não precisa de mais nada.
            Lilás pensou mais um pouco, e disse:
            - Mas eu me pareço com uma ondulaaaada! Pode ter certeza, tá, Inhanduí!
            - Quem sabe você toma seu banho que passa. Depois vem aqui na cozinha que lhe acompanho no café da manhã.
            Lilás tomou o banho e se olhou no espelho do quarto: era uma ondulada e pronto. Bem, alguém estava errando no olhar. E todo o mundo passa por isso, está certo. Lilás via coisas, é.
Lilás bebeu o café com pão e quibebe e geléia de laranja-do-céu, se olhou no espelho, passou a mão nos cabelos e se mantinha continuava uma ondulada. E pronto.
Então, a menina foi para a varanda olhar a rua e outras coisas. E pensava mais ou menos assim. Mas não sabia o que pensar. Nem sabia se estava pensando. E ponto.
            - Será que uma ondulaaaada!, pensa? Pensa o quê? Nunca ouvi dizer que ondulaaaadas! pensam. Se é isso, então, sou a única no mundo. E isso é bom e é ruim. E isso é uma coisa ou outra. Usarei uma touca ou um boné para disfarçar.
            Lilás telefonou para o pai. O pai de Lilás trabalhava há muito tempo num laboratório de botânica chamado Alcatifa. Eram pesquisas e estudos e testes muito sérios sobre flora local e curas milagrosas. A menina falou, falando:
            - Pai, tenho uma boa notícia e uma má notícia. Qual você quer ouvir primeiro?
            - Só quero saber da boa notícia.
            - A boa notícia não tem graça nenhuma. E a má notícia é que me tornei uma ondulaaaada! Uma ondulaaaada!, pai! Cuidado ao chegar em casa, pois sua filha Lilás está uma ondulaaaada! e pronto.
            Houve um silêncio no outro telefone. Um momento de silêncio. Um momento de paciência. Talvez o pai estivesse pensando uma resposta de bom humor. Após essa pausa, de um minuto... o pai falou:
            - Então, é isso. Você está dizendo a verdade. E quer saber?! Dorme tudo de novo que aí, mais tarde, você acorda lisa lisinha. Ou seja, filhinha, dorme que passa. Toma lá um copo de água com açúcar e dorme que passa. Ao acordar, mais tarde, tudo estará esquecido e pronto.
            - Mas eu acabo de acordar é não tenho um pingo a mais de sono!
            - Ora, talvez você não tenha acordado de todo. Quem sabe você não esteja sonambulando, sonhando, né?! Quem sabe não acordou, mas pensa que acordou, hein?! De repente você ainda está dormindo e sonhando que acordou, tá?!
            - É, pode ser. É, pode ser mesmo. Não duvido nada. Mas duvido.
            Lilás andou pela casa. Tentou também dormir novamente para ver se acordava do outro lado do sonho. Mas não conseguia pregar o olho.
Tentou a mãe. A mãe também trabalhava fora, àquela hora. A mãe era entendida em carros novos e usados, e ganhava a vida vendendo e revendendo carros zeros e seminovos na agência de nome Capaxó:
            - Você está sentada, mãe? Então, se prepare para uma notícia-crise.
            - Calcule...
            - Mãe, sinto muito, mas sua filhinha é uma... uma... ondulaaaada!
            - Ora, não brinca.
            - Nunca falei tão sério.
            - Por que logo uma ondulada? Não podia ser uma tonteira, uma zoeira, outro nhenhenhém?
            - Sei lá. Foi a primeira palavra-moda-cabelo que me chegou à cabeça naquela hora, mãe. Fiz mal?
            Ficou aquele silêncio no ar. Um silêncio de gente pensando. Alguém procurando paciência até dez. Toda mulher nasce para ter filhos e ter muita paciência: caso contrário não vai. Depois de um tempinho... então, a mãe falou:
            - Não será uma corrente de ar frio? Peça pro Inhanduí ver se você tá com febre.
            - Não, não é febre, tenho absoluta certeza. Infelizmente sou uma on-du-laaaa-da! Acordei uma ondulaaaada! Sabe, mãe, eu nunca poderia imaginar acordar um dia virada numa ondulaaaada!
            - Então, vai ver que você dormiu de cabelo molhado, filhinha.
            - Talvez eu tenha mesmo é uma doença terrível, inédita e fatal.
            - Pode ser que não seja uma ondulada eterna pra sempre. Só vendo bem pra ter certeza, filha. Pode ser que seja só um desvio ou uma reviravolta.
            Assim, Lilás decidiu que ondulada não era um bom negócio para ela. Tinha que desfazer aquele feitiço ou aquela mágica ou aquele milagre ou aquele disfarce ou aquele grilo ou aquele penteado. Saiu para a rua avenida Jeripancó.
Precisava caminhar com o ar puro. Necessitava andar para frente e esquecer o passado recente. Saiu disfarçada com gorro patriota ou com touca do time de futebol.
            Quem viaja seguido acha que viajar é muito igual e monótono e artificial. E quem mora sempre no mesmo lugar quer sair, viajar, pesquisar. São Cristóvão é santo protetor padrinho padroeiro dos viajantes, curiosos, inquietos. Quem viaja sempre tem medo de rodoviária ou aeroporto ou porto ou discoporto. Quem viaja procura conhecer Princesa Isabel, Sengés, Juarez Távora, Cristalina. Quem sempre mora no mesmo lugar tem medo de virar zumbi.
Lilás viu na tevê e preferiu morar em Amarante, Piauí, do lado do rio Parnaíba. Preferia também morar em Jacuípe, Alagoas. Pretendia visitar Juquitiba. Morar na ilha de Jurubaíba.
            Andando, trotando, pensava a menina. Pensava forte, sorria forte, um minuano soprando nos olhos e nos ondulados quentes. Precisava mesmo de uma coisa que lhe facilitasse:
- Engraçado, aqui na rua Sanamaicã ninguém fica me olhando ou me gozando e me chamando de ondulaaaada! E já não tenho tanta certeza assim.
E falou mais alto, ainda para si mesma:
            - Será que são os meus dedos? Será que são os meus olhos que me vêem como ondulaaaada!? Que perigo, meu! Sim, eu posso estar enganada, é. Então, o negócio é ir a um oftalmologista ou a uma oculista. E não pode passar de hoje. E é pra já! Então, já fui.
            Andou pelas ruas e ruas à procura de um consultório para tratar da visão. E ainda se sentia ondulada. Perguntou a um, a dois, a três... perguntou a outros tantos onde ficava uma oftalmologista, oculista, médica de olhos.
            O sol escorregando deslanchando pelo branco dia da manhã.
            A cunhã parou para pensar. Se acalmou ali na sombra de uma peroba-amarela. Olhava passar, olhava sem ver, olhava sem contar, olhava sem achar graça, e passavam todos os tipos de carros, passavam gentes, passavam jogadores de esporte pedestre, passavam horas atrás de horas, passavam cachorros engraçados, flechavam tico-ticos, pirapuias, almas-de-gato, japués, sabiás-laranja, trinca-ferros-de-asa-verde. E a menininha ainda olhou as coisas demoradamente.
            - E sabe só o que que eu vi?
            Na rua Muqui encontrou o que a poderia salvar para sempre: uma oculista ocultista. Aguardou na sala de espera. Esquentou uma poltrona por quarenta minutos, talvez. Na bonita sala de espera nenhuma teve a cabo para servir ao conforto dos clientes e pacientes e fregueses. Depois de uma semana foi chamada. Após duas semanas. Surgiu a secretária com muitos modos e dedos e um sorriso plástico de orelha a orelha, dizendo e apontando com o dedo de unha pintada de azul e verde com pintinhas pretas:
            - Senhorita Lilás?! Por obséquio...
            Lilás se apresentou rapidamente à doutora Axuarana. Disse tudo na carreira:
            - O que que eu tenho, doutora Axuarana? Sou uma ondulaaaada lilás, como a senhora doutora pode ver e tocar. Mas no fundo ainda sou uma menina como outra qualquer. Só eu sinto isso. Sei que me incomoda e tal. É uma moléstia da moda moderna, dessas que se pega sei lá? 
            - A arquitetura do ondulado...
            - O que que eu faço comigo, doutora Axuarana? Devo passear de boina e óculos escuros ou fita na cabeça?
            - Ei!, não se empolgue. Vamos pensar no seu caso com carinho e atenção. Escute... Você se vê mesmo como uma ondulada? Deixe ver as meninas dos seus olhos... Olhe para cima...
            - Então, a doutora não vê que me pareço uma ondulaaaada? Qual o meu problema? Que defeito peguei? É um vírus de computador? Pode falar que eu suporto, doutora!
            - Vou te dizer, senhorita Lilás. Você não está uma ondulada sem remédio, compreende? Você não é uma ondulada propriamente dita.
            - Como assim?
            - É a idade e eu vou lhe explicando. Sabe, são seus olhos que estão lhe dando a falsa ilusão de que você se parece com uma ondulada. Copiou? Todo mundo passou ou passa ou passará por isso. É um período feminino. É uma etapa e nada mais. É uma miragem. Não, não é nenhum cisco no olho, nenhuma doença da vista, nenhum vírus da internet. É uma situação importante, mas que não se deve dar muita importância.
            - Vou ganhar altura, engordar, etc., doutora?
            - Mas o seguinte. Aliás, senhorita Lilás, isso tudo é muito legal. Pode crer. Deixe rolar. Vá para casa, ou quando chegar em casa, e lave seus olhos garços com água da torneira. Qualquer coisa me telefone.
            - Vai me receitar remédios, umas vitaminas, um chá de santa Luzia?
            - Nada. Só a água da pia, da ducha. Pode ir que você está natural e perfeita e curada e incurável.
            Lilás saiu fora, mas ainda insatisfeita com a conversa. Se sentia mesmo uma ondulada e pronto. Ninguém tinha nada com isso. Nem ninguém podia fazer nada por ela. E estava mesmo uma ondulada lilás. Estava doente e ao mesmo tempo sã e salva. Pensava conversando sozinha:
            - O que fazer? Ah, se eu soubesse!
            Lilás tinha algo a dizer ao mundo todo. Ela não sabia bem o que seria interessante dizer. Mas tinha que dizer algo. E sentia que tinha algo a dizer. Não sabia o quê, mas tinha algo a falar, a desembuchar, a destravar, a destampar. Lilás teria de cair das nuvens. Não sabia que vivia nas nuvens.
            Olhou uma árvore na rua Santana do Livramento:
            - Oi, dona pitombeira!
            A árvore mexeu os galhos e remexeu as folhas e galhos e perguntou:
            - Pois sim, o que deseja?
            - Pitombas.
            Mais tarde, foi até a praia Capão da Canoa e se sentou na areia branca. Momento mais completo do dia. Ali muitos banhistas brincando. Ninguém reconhecia que ela estava ondulada. Uns não a olhavam. Outros a olhavam, porém não a viam. E os que a viam não estavam de olho procurando os cabelos dela. O mar ondulado ia e vinha, como de costume. As gaivotas, pilotos-brancos e outras aves marinhas dançavam no ar como pandorgas. As pandorgas eram de papel e pareciam de plástico.
            Daí, ela e o sol, os dois, ficaram se olhando. Os dois não queriam se largar. As horas passando. Quem piscaria primeiro? O que passou, passou.
            - Por que você não faz o mesmo? - ela ouviu alguém perguntar ali por perto.
            Lilás olhou em volta de si. Então, a menina viu a ilha. A ilha do Arvoredo com uma corcova no meio, uma montanha. E vegetação ao redor. E era mesmo uma ilha. Uma ilha de vegetação diversa a escolher. Uma ilha feliz, de nome Arvoredo, se via, pela fertilidade do solo. Uma ilha no horizonte ali em frente, dentro do mar e sobre o mar, boiando como navio transatlântico. Uma ilha como dinossauro marinho, baleia azul, tartaruga marinha.
            A menina mergulhou nas ondas, entrou pelo mar nadando e nadando, braçando, pedalando. Será que ela podia o que quisesse? Será que Lilás conseguiria o que pensava fazer? Claro, que sim. E a menina foi nadando rumo certo da ilha.
            O mar tinha, lá por dentro de toda a vida dele, um tudo de muito, e para frente e para trás. O mar é azul e é escondido.
            Lilás chegou na ilha. Olhou em volta... Estava sozinha na ilha do Arvoredo? A ilha não era tão grande assim. Uma ilha sem dúvida maravilhosa, cheia de passarinhos, pedras, árvores, e coisas esquisitas. Ouviu um riachinho infantil fazendo blim!... rorim!... A natureza com seus insetos e bichinhos pequenos, as árvores, coqueiros, uma e duas guiraparibas de alto tamanho, frondosas. Um chamado de ouro do sabiá-piranga. Um gritaiedo de tuins. Surgiu, quase do nada, um par de lavadeiras. Outros passarinhos também gorjeavam suas diferentes linguagens. Bugios fazendo bugiarias. Trinta-réis-árticos, atobás-pardos, fragatas aproveitando o tempo para brincar de parapente. Barulho de onda, de ondas, marulho de mar. Ainda não era hora de coruja sair de casa. Tapiricas florindo e cheirando com tudo. E muitas pitangueiras oferecendo pitangas.
            Lilás decidiu andar para conhecer a ilha por dentro, por cima, pelos lados. Certa altura a terra tremeu... e foi tremendo. A menina arriscou falar assustada:
            - Que é isso..., gente! No Brasil não há terremotos... e nem vulcões brabos!
            A ilha tremeu... e não foi de frio. E pareceu querer se acabar em pedaços, se soltar toda em escombros, arrebentar em entulhos, se espremer e se torcer em bagaços. As plantas se agitaram, murmuraram, suçuaias, pajaús, cauchos, sete-casacas, almeirões-da-terra, simarubas. O chão sacudiu umas nuvens de pó. Os passarinhos deixaram de gorjear para gritar mais alto, e correr a jato pelo espaço. Os macacos-pregos se agarraram nos galhos e gritaram e balançaram. A menina já pensou assustada e para si:
            - Ah, só pode ser uns sete ou oito graus na escala..., uma vez!
            De repente, a menina viu a montanha crescendo na sua direção:
- Que absurdo!
A montanha fazia era assim mesmo, se aproximava e chegava mais. Era a corcova da ilha, a montanha qualquer, e encorpada, pesadona, bombada, robusta, concreta, movente, empedrada, rochosa. E fazia muita sombra. Umas paredes largas e altas, muitos pedregulhos acinzentados e arbustos verdes pendurados pelos costados e mais as pontas de rochas enormes em agulhas. Enquanto se arrastava perdia poeira e pedrinhas e cacos e parafusos. Enquanto a montanha caminhava ou se arrastava ou derrapava, a ilha trepidava, é. A menina deu sinal de desassossego:
            - Ei! Que que é isso?!
A montanha era muito alta, muito rochosa, daquelas montanhas dispostas a barrar o sol da tarde e esbarrar com as nuvens carregadas e dificultar escaladas e esconder ninhos de gavião-carijó ou harpia e levar antenas de tevê plantadas no tope.
Muita coisa aconteceu em poucos segundos.
O colosso de pedra chegou então a uma respeitável distância da menina. Uma voz de montanha cavernosa, profunda, profunda, roncou assim:
            - É você a Lilás, é?!
            Os olhos da guria se abriram para sempre, muito, se tornaram da cor do dia, e mais seus cabelos, seus cabelos ondulados ou lisos se arrepiaram como cerdas de escova de dente.
            Dois dias depois a Lilás ficou de responder e respondeu mais tarde ali na hora:
            - Sou eu... mesma. Mas... posso parar de ser, uma vez...
            - Demorou. Tenho uma missão especial para usted. Venha aqui, suba nas minhas paredes altas, cinzentas e rochosas. Cuidado pode escorregar, mas não é bom escorregar, não é saudável resbalar.
            A menina obedeceu. Mesmo espantada com aquela montanha, a Lilás compreendeu. Subiu pela encosta da montanha. Subiu um bom pedaço. Não muito porque não precisava tanto. E num ponto da escalada a montanha explicou melhor. A montanha falou de dentro de uma gruta aberta na montanha:
            - É simples, menina Lilás. Tenho um tesouro valiosíssimo aqui no meu bolso do casaco. Você pode ir ali e cavoucar e desenterrar, que é todo seu. Vá de uma vez, logo. É um tesouro encantado. Topa? Vamos, se mexa!
            - Bem... então... Então está bem. Vamos vê, né?!
            Lilás ficou esperando muita coisa. Inclusive esperava esperança. Além de esperança, Lilás tinha sede e fome de futuro. E também, por que não?, tinha muita curiosidade. Queria acordar cedo todo dia para aproveitar bem o dia, por exemplo. Apesar de sozinha ali na hora, queria e pensou até em brincar com a montanha. Uma vontade além da conta que se chamava... se chama: aventura.
            Assim, Lilás entrou num dos bolsos do casaco da montanha. Um bolso não muito profundo, verdade seja dita. Uma brecha da montanha. Uma entradinha da montanha. Um buraco no casco da montanha. Uma lapa. De lá a menina foi jogando fora, e morro abaixo, tudo que encontrava e encontrou e não era pouca coisa. E as coisas jogadas rolaram morro abaixo até a areia. Como se estivesse jogando bugigangas ou quinquilharias pela janela do quarto ou janela do porão ou janela do sótão.
            Terminado o trabalho de jogar o tesouro, a menina saiu do bolso da montanha. E saiu satisfeita. Espanou a poeira e foi descendo. E desceu a montanha, que descer era mais fácil mesmo. Chegou na areia e viu todo o tesouro ali jogado, espalhado, deitado, espantado, esparramado; e pronto para ser catado, escolhido, preferido, recolhido, identificado.
            Daí a montanha se arrastou embora e não voltou mais. A montanha não deu palavra mais e saiu fora. A montanha desocupou ou esvaziou como um balão de aniversário. Todo aquele terremoto... se refez novamente e outra vez, vá lá, de volta. Daí a montanha foi embora, se arrastando muito pesadona... e coisa e tal.
A montanha se arrastou como uma montanha pesada. Não voltou mais. Não adianta que não voltou mais. Se escondeu num lugar da ilha. Se disfarçou de corcova da ilha, de montanha da ilha. Para o meio da ilha do Arvoredo. E toda a natureza voltou a vibrar como música.
            - Uma montanha grande só é grande perto de outras pequenas ou menores - foi a menina quem desabafou.
            Lilás ficou ali na areia olhando aquele tesouro retirado da montanha e mais nada. A menina precisava esperar uma inspiração. Esperava também um ânimo. E uma inspiração vem quando menos se espera. Certas coisas só mesmo adivinhando. Certas coisas só com sorte. Outras com acaso. Outras ainda num passe de mágica.
            Do tesouro ali esparramado, variado e espalhado, Lilás foi separando, catando, montando, anotando, selecionando e se inspirando:
            - Uma pena de andorinha-do-mar, com fios brancos e marrons; uma foto de menino com rosto de menino sorrindo, cabelos sobre as pontas das orelhas, idade entre 11 ou 12 anos; uma moeda de prata, enorme, inibida pelo tempo, do tempo do vovô, do tempo da vovó, com a efígie de Dom Pedro II; um pé de sandália de tiras de couro; um esqueleto de peixe, talvez peixe-espada, para servir de pente; avião de plástico em miniatura, cor amarela com uma listra azul horizontal na fuselagem; um cubo de gelo para copo com refrigerante, já meio derretido; uma tampa de caneta-comum azul; uma bola vazia, muito usada, de borracha; um carretel de barbante, desses de amarrar pacotes na feira; duas passagens de trem urbano; um relógio de pulso, parado nas dez e dez; uma máscara de carnaval, imagem de um ex-presidente, orelhas grandes; um par de tênis florido, sem cadarço; uma amarrotada e desfiada toalha de banho, esverdeada, desfeiteada; uma escova de cabelo com fios de cabelo preto ou negro; um nariz de palhaço, cor vermelha tradicional; um endereço na internet: (www.cptl87.prncpl.com.br); um botão de camisa, de plástico, cor amarela; uma revista de moda do final dos anos 2000; um cd de música popular nacional; um calção azul com uma listra vertical vermelha ao longo de cada perna, próprio para banho de mar; um macaco de pano, espécie indefinida, cara branca e corpo preto, talvez seja sagui ou mico; um celular preto sem bateria; cartão-postal da cidade de Madeiro - PI; um pé de meia, furada no dedo maior, decorada com bichos do zoológico de Mocajuba.
            Esse era o total do ouro, do tesouro. E faltou mesmo uma alma. Faltou uma alma perfeita. Faltou um espírito para compor com o corpo. Uma perfeita alma sem mistérios ou com enigmas. Uma alma em quem se possa confiar de olhos fechados. Uma alma normal. Uma alma com enigmas e sem mistérios. Faltou uns salamaleques. Aquele tesouro todo sentia falta de uma alma que o pudesse guiá-lo e pô-lo em pé. Uma alma divertida. Uma alma que às vezes pudesse sair e passear de corpo e alma. Uma alma sem exageros, normal, quem sabe humana.
            A menina Lilás foi armando a figura. Foi formando o esqueleto com aqueles ossos esquisitos e diferentes e estranhos e desencontrados. De saída era um menino por causa da cara na foto. E a menina preferia, claro, um menino. Assim, tinha que construir a figura sobre a areia. Um corpo estranho e variado e sem alma, por enquanto.
            O sol criava o dia, desenvolvia o dia. O sol ampliava as coisas. As pessoas e os bichos e as coisas seguiam o sol. Os bem-te-vis pintados de ouro espalhavam ouro cruzando o espaço de ouro. As araras-azuis-grandes nadavam no azul. As aves marinhas plantavam ninhos nos rochedos altos. As ondas do mar batendo roupas do mar, e passando e repassando. As nuvens, atingidas de sol, poderiam derreter uma alminha que fosse?
Pensava a menina, sonhava a menina: ia sair o quê daquele troço de tesouro, daquele tesouro de troços? Poderia sair uma preguiça-gigante, quem sabe. Bem que poderia ser um galã, um cantor, um nadador olímpico, um jogador de vôlei profissional. Alguma beleza para se apaixonar tá bom. Um esportista com olhos nas olimpíadas.
Assim, era o que se podia fazer, o que tinha que ser feito, o que podia fazer, o que estava acontecendo. Quem sabe faltariam coisas para compor um menino completo. E acabou o tesouro. Catara todos os pedaços do quebra-cabeça, e o tesouro estava todo armado. E a figura tinha mesmo que ser aquela. Seria essa mesma que deu para fazer, e pronto. Ficou pronto. Olha só o que ficou pronto! A menina olhou a armação e declarou:
            - Agora, é só esperar que chova. Ou que venha a maré alta.
            Lilás esperou pacientemente a chuva. E o sol deu um tempo. O dia ficou de sol emprestado, inseguro. Dia vestido de claro-escuro, e nem bem claro nem bem escuro. O mar soprava as nuvens para oeste, as gaivotas piavam chuva ao entardecer. Não se via mais a terra e muito menos o céu.
E a chuva veio. Quem sabe a alma do estranho ser humano, montado em bugigangas, em quinquilharias, não viesse na chuva e num raio relâmpago!?
Sempre com o aumento da temperatura, no verão, a chuva vem mais forte, e a chuva vem com toda a certeza. Vem com tudo e já vai embora. E veio caindo. E foi mesmo uma chuva nova, pesada, bombástica, sensacional. A chuva que juntou as peças do quebra-cabeça, do tesouro, do menino. Pronto. É, as nuvens sempre dão um jeito de chorar no final da tarde e tal.
A chuva veio, ficou um nada, já foi embora. Veio em forma de chuva e ficou por aí, em forma de água empoçada ou corrente.
A menina se empolgou e ficou discursando sozinha:
            - Vamos ver agora, nessa hora, se o menino vai falar, correr, se divertir e se exibir. Tomara que já nasça sabendo um talento qualquer.
            E o menino nasceu. Quando nasceu, não chorou. Tomou fôlego. Abriu os olhos. Lilás gostou da cor dos olhos dele. Olhos verde-claro e verde-claro. A menina gostou de tudo. E o menino nasceu, cresceu, apareceu e se exibiu. E realmente a chuva trouxe uma alma para aquele menino que foi feito inicialmente de objetos soltos e coisas descartáveis e lixos recicláveis ou peças guardáveis.
            O menino acordou, se ergueu da areia, sacudiu a areia da pele, pulou de pé na praia. Um menino e pronto. Um menino da altura um pouquinho mais da menina. Um menino de olhos brilhantes e sorriso de pirata e boca de peixe de aquário e vestido de surfista e bem penteado. Um menino sem camisa e de calção desbotado de tanto tomar banho na orla do mar.
            Lilás o olhou com cuidado de amiga. E o menino viu a menina. Ambos se encararam. Foi amor à primeira vista, etc. O menino disse, assustado:
            - Que foi? Nunca me viu, cara de caravela?
            Disse isso e saiu correndo, na esperança que a menina fosse atrás para pegá-lo. Ele e ela correram pela praia. Achavam graça porque era coisa boa e nova. Os pés afundavam. Mas o menino corria muito mais que a menina. E Lilás cansou, ou fingiu cansar. O menino parou, ou fez que esperava.
Foi o resto da tarde assim, muito fácil. E os poucos banhistas que viram as correrias dos dois acharam bonito e engraçado e comum e nada a acrescentar.
            A menina Lilás encontrou um menino. O melhor menino. Encontrou um amiguinho. O melhor amigo. Encontrou um parceiro para brincadeiras. O melhor camarada.
            Perto das cinco da tarde, o menino achou de falar:
            - Que você quer comigo, menina Lilás?
            - Bem... Eu queria me livrar desse estar uma ondulaaaada! Não pareço uma? Pode falar francamente. Então, eu queria não mais parecer com uma ondulaaaada!
            - Como ondulaaaada?! O que é uma ondulaaaada!? Isso dói?
            - Me sinto esquisita. E com dó de mim. Me sinto na verdade sem jeito pra mais nada, é. Me sinto o centro do mundo e um fiasco.
            Depois, os dois brincaram de fazer estátuas na areia. Fizeram um tucano-de-bico-verde já preparado para voar, uma ponte de ferro, uma lagoa povoada de jacarés-do-papo-amarelo, e outras diversas coisas. Colecionaram umas pedrinhas do fundo do mar. Cataram conchinhas e pedrinhas preciosas. Contaram as ondas que chegavam. Ouviram o fundo do mar com o ouvido na concha. Desenharam rastros de pés de pé no chão.
            Lilás ficou pensando, sem que o menino soubesse, sem ela mesma entender, só pensando isso: será que vou ser um dia uma comissária de bordo? E o menino ficou pensando, sem que a Lilás soubesse, sem ele mesmo compreender, só pensando isso: será que vou ser um dia um jogador craque de futebol?
            Quando chegou em casa, tipo dezenove horas, daquele mesmo dia - dia igual como hoje -, a menina contou a novidade para o peixe aquariano Inhanduí:
            - Inhanduí! Tenho que te dizer com toda a razão e certeza que estou na-mo-ran-do! Ouviu ou eu repito: na-mo-ran-do!!
            - Hum... Já estava mais que na hora. Tua hora. Um dia pra logo eu já estava esperando por esta novidade. Você já passou dos nove anos e não chegou aos onze. Talvez no ponto. Teu ponto.
            - É um carinha novato, bonito e tal que a montanha me deu. Foi que eu fiz ele do lixo. Reciclado.
            - E ele tem nome? E ele tem futuro? E ele tem bicho de estimação? E ele mora onde? E ele torce para qual time de futebol?
            Foi aí que Lilás viu o mundo bater de bico no barranco. E ela entrou numa crise e greve de fome. Lilás simplesmente havia esquecido de saber o nome do menino! Aí, a garota viu que tinha esquecido uma coisa muito importante no namoro, qual seja: a primeira coisa é perguntar pelo nome do namorado! E como esquecer a curiosidade do nome do freguês, gente?! Mas como é que ela foi esquecer o básico, o simples, o normal que se pede já na primeira conversa?! Decidiu então assim:
            - Deixei para você escolher, Inhanduí.
            - Mas quem tem que escolher o nome do namorado é a própria interessada, ou seja, a namorada, ou ainda seja, você mesma!
            Assim, Lilás percebeu que não adiantava disfarçar. Assim, a guria olhou os pés e percebeu que não tinha experiência de namoro. Assim, ela não sabia o nome do recém-namorado e o recém-namorado não sabia também quem sabe o nome dela e vice-versa.
            - Mas que nome vou colocar no meu namorado, Inhanduí?
            - Pode ser um nome nacional, ou importado. Só não pode ser nome de coisa, por exemplo. Melhor um nome que tenha futuro, no mínimo. Vá lá, escolhe um nome de gênio. Um nome que o menino possa crescer e se sentir bem. Um nome de índio pode ser muito especial.
            Lilás perdeu o apetite. Deixou o copo de suco de caju pela metade. Foi para o quarto, parou na frente do espelho, viu-se ondulada. O espelho copiando a ondulada lilás.
E a menina se largou sobre a cama, olhou o teto azul-clarinho, as paredes verdes-clarinhas, um ou dois quadros coloridos que estavam por aí fixados nas paredes, etc., fechou os olhos, procurou pensar, imaginar... Viu surgir na luz de uma luz da ideia vários nomes próprios e masculinos e ótimos:
            - Ricardo, eu gosto e já vi muitos por toda parte até no Amapá, em Roraima; João, é de santo de fogueira de São João; Ivaí, eu aprecio e é nome de rio de cidade; Gabriel, é de anjo, arcanjo; André, de jogador de vôlei; e assim por diante... José Mário, este até servia; Ajurujuba, papagaio amarelo; Solimões, nome de rio alto; Colomi, de índio ou índia; Puma, de bicho feroz; Jerivá, é um tipo de coqueiro que nasce perto da correnteza; Dragão-do-Banhado, é uma ave do banhado dos alagados; Coriboca, seria um nome diferente; Biribá, um nome que é difícil esquecer.
            As coisas passam. Porque as coisas passam. Mas, por quê? O que passou, passou. Essas e outras coisas passam. E isso tudo acaba virando história. Todo mundo gosta de histórias. Histórias são histórias porque passam, passaram.
            Lilás telefonou para a Rê, e cravou esta para a amiga:
            - Rê, que mistério é esse? Não sei que nome dar ao meu namorado.
            - Pois é. Eu gostaria tanto de te ajudar... Para falar a verdade gostaria de te dar a grande ideia, mas... por que você não adota um bichinho de estimação... é mais fácil. Assim, ocê ganha um tempo para solucionar a falta de nome do namorado, né?!
            Lilás achou a ideia aproveitável. Era uma ideia que parecia boa, à primeira vista e até a segunda vista.
            - É. Quem sabe. Mas ainda estou gostando do menino mais que tudo. Entende como é que é, Rê?!
            - É mesmo... então... Sabe, deixa a coisa rolar por si mesmo e... de repente pinta um nome legal e prático e especial.
            - Mas eu queria pra ontem!
            Uma hora depois, vinte horas, as quatro melhores amigas estavam numa sorveteria em torno à praça Dom Feliciano. Todas atentas e interessadas e empenhadas nos grandes problemas existenciais da senhorita Lilás. E todas preocupadíssimas com as próprias bolas de sorvete, e com a cobertura de calda de açaí, e com o enfeite de pedaços de frutas doces. Coisas difíceis de serem resolvidas num dia só, tudo de uma vez só. Então, é:
            Esmeralda: “Olha, eu não sei de nada... e me desculpem as poucas ou muitas interessadas, gente!”
            Pérola, irmã de Esmeralda: “Acho que namorado tem que ter um nome estrangeiro, no mínimo que ninguém tenha igual, que ninguém saiba escrever e poucos saibam pronunciar. Um nome com sobrenome e pré-nome norueguês ou árabe ou japonês.”
            Rê: “Como o quê, por exemplo? Dê exemplos.”
            Pérola: “Tipo assim: Nohá, Pacecci, Emmannuell, Choldraboldra, Tuiuiu, Shinahara, Pajurá-da-Mata, Ibirapuytã...”
            As muito amiguinhas iam pensando. Pensando e falando e rindo e sorvendo sorvete. Cada qual lutando com três bolas inocentes de sorvete, bolas de três cores diferentes, três sabores, três países, três marias. De súbito, Lilás lembrou:
            Lilás: “Já ia esquecendo. E o meu estado de ondulaaaada!, hein?! Alguém já pensou uma solução legal? Eu ainda não me esqueci que sou uma ondulaaaada! Ainda sou uma ondulaaaada! E antes que me esqueça, sou uma ondulaaaada! Sou ou não sou uma ondulaaaada!?”
            Pérola, suspirando ao mesmo tempo: “Que tipo!...”
            Ninguém percebia que a menina Lilás estava ondulada? Ninguém notava que a Lilás era caprichosamente ondulada. Só a Lilás tinha a sensação e certeza e a ciência de ser ondulaaaada! Fazer o quê.
            Rê: “Não será um algo sobrenatural, paranormal, hospitalar?”
            Esmeralda: “Pode ser uma ondulada dependendo do lado que se inclina a cabeça no... capim-gordura!”
            Rê: “Você sempre teve sonhos ondulados, é isso.”
            Perto das vinte e uma do mesmo dia, das nove da noite, quando os postes já estavam acesos com luzes artificiais nas ruas, a população caminhando para exercitar, Lilás já estava em casa. É, já estava por casa. Estava se distraindo com a tevê quando chegou a mãe. A mãe foi para o quarto dela, e Lilás foi atrás:
            - Mãe! Olha pra mim. Não estou parecida com uma ondulaaaada?! E outra coisa. Que nome vou batizar meu namorado? Por sinal um ótimo futuro namorado ou esposo, vão ver.
            A mãe estava saindo do banho, se trocando, preocupada com seu cabelo lá dela molhado liso escorrido. A mãe estava cansada, pensamento lento, não queria pensar em nada, nem em crises capilares ou namorados feitos de coisas encontradas.
            - Ora, Lilás. O nome não importa. O que vale mesmo é o conteúdo, as intenções. Ele lhe agrada e lhe quer?
            - Como se acha conteúdo ou intenções de namorado? Com que palavras ele pode se explicar melhor? Por onde eu começo a entender muitas coisas para saber?
            Aí, a mãe parou de secar seus longos cabelos compridos lisos, pintados de verde, e pensou... Pensou muitas hipóteses, pensou muitas coisas antes de concluir. Mas pensou devagar e com calma, pois estava só pensando. A mãe já respondia e pronto:
            - Ah, Lilás... agora e nesse momento não me ocorre nada no cérebro. Você me dá um tempinho de nada que já resolvo.
            Lilás, por isso mesmo, ficou meio confusa, vazia. Foi para a sala esperar o pai. Até o tempo do pai chegar esperou assistindo tevê.
            O pai chegou na mesma hora de sempre, praticamente. Não muito tarde. O pai foi para o seu quarto, que era o mesmo da mãe. Lilás foi atrás:
            - Pai! Olha pra mim. São dois problemas. Não tenho nome pro meu namorado encontrado ao acaso no lixo. Continuo em estado de ondulaaaada! perfeita. Qual você quer resolver primeiro? Então agora, pai, resolve. O que que eu faço da sorte? Eu sou adolescente ou pré-adolescente ou quase saída da fase de criança e preciso ser ouvida urgentemente.
            - Ora, filhinha...
            O pai saía do banho nesse instante, toalha enrolada, cabelos curtos lisos, e punha já uma roupa para jantar. A menina reviveu:
            - Por que a gente fica de repente amanhecendo em estado de ondulaaaada!?
            - Pense, filhinha, pelo lado positivo, esportivo, juvenil, primaveril...
            Depois a família de três jantou. O Inhanduí, o peixinho vestido de material metal cintilante, serviu os pratos, recolheu a prataiama toda, convidou para a sala, ligou a tevê.
Aí, a família de três se sentou na frente da tevê e assistiu pelo menos um programa de auditório. Era até algo muito engraçado para o horário e não fazia mal nenhum e bem algum.
            E o dia larga sempre uma mensagem por dia, todos os dias, para todos os dias, e que é: todo dia sabemos para onde vamos e não sabemos por que aonde vamos e mesmo assim vamos e viemos.
            E o dia passou sumiu, nunca mais se soube, não voltou atrás, não voltou mais, nem notícias.

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