terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 27




Entrevista Com a Doce e Fraternal ENIGMÁTICA

            Eu estava no café-bar porque adorava e venerava bares-cafés o Taquari-Guaçu. E já passavam os seus dez minutos. E era naquele ano abalroado do 168º da Independência. Com meus dois camaradas cupinchas, o Itimirim e o Alambari. Sentados os três numa mesinha para quatro. O garção nos trouxe um tubo, ou torre, cheio de chope gelado - chope a metro. Depois também veio batata frita, veio queijinho em cubo, então, tá.
            - Isso mesmo. E me disse me disse que aconteciam mais coisas surgiam coisas, é.
            - E O MUN-DO SÓ A-CA-BA QUAN-DO CA-IR DE A-VI-ÃO!!
            - Porque somente os alemão e as alemã, originais, sabem reproduzir as mais mulheres especiais bonitas lindonas e macias; em resumo total: loiras.
Fomos bebericando e tal falando de meninas e de futebol e mais nada. Conversávamos. Rimos mais que conversamos. Às vezes ríamos da piada sem mesmo entendê-la ou articulá-la direito. O ambiente nem era muito à vontade para trocar altos papos, muita gente se mexendo, zunzum, um entra e sai, música alta pelo ar, fumaça, relinchos, foguetes lá fora para vivar futebol de gol, casais acalorados, etc. Mas estava ótimo. Frases de lugar algum para nenhum lugar:
- É, sempre foi assim: quem ri tem razão.
- Quem ri é superior.
- QUEM RI TEM A ÚL-TI-MA PA-LA-VRA!!
- O macaco-de-bando ri a hiena ri o papagaio-poaieiro ri...
- E pulando de saco pra mala... Alguém já ouviu das principais e mais importantes ipseidades, autarcias, gnosiologias?
E havia muitas meninas rodando pelaí, passando, rindo, bebendo, quase convidando para beijar na boca e coisa e tal. Nós três ficamos bebericando, rindo, olhando, comparando, descartando, comprando, discutindo, apostando até o máximo do nosso salário mínimo. Rindo e relinchando mais que conversando. O Itimirim comunicou:
            - Sabem o que tenho vontade de nem fazer? Ah! ah! ah!...
            Eu ia respondendo com outra pergunta... aí, antes de lhe responder com outra pergunta, escutei alguém me chamar de uma mesa próxima:
             - Ei! Oh, seu pá-lerma! Aqui! Nem me conhece mais?
            - Ah é, é!
            Deixei meus camaradas nem me despedi, pensando talvez que fosse breve e retornaria imediatamente, e fui até a mesa vizinha falar com cumprimentar a Juquiá. Mulher tem prioridade sobre qualquer outro interesse e tal. Meus cupinchas que me esperassem, ficassem chupando o dedo, que entendessem, que ficassem no ora veja. Que que ela queria? Que que ela mandaria.
Queria me cumprimentar, me ver, me apresentar as suas amigas, uma duas três e quatro com ela cinco ali na mesa um sambinha rondando econômico de mão em mão. E eu sentei na cadeira que Juquiá me indicou a Juquiá me ofereceu. As gurias eram todas mais ou menos, vá lá. Sentei entre a Juquiá e...
            - Como se chama mesmo? - perguntei.
            Daí a Juquiá me apresentou para as todas ali. A que estava me deixando tonto, sentada ao meu lado, se chamava Cotia. Tentei gravar o nome e que me lembrava um bichinho sapeca do zoológico de Sapucaia do Sul. Um bichinho encolhido tímido esquivo entre as plantinhas atrás do cercado tela de arame no zoológico:
            - Hum... Cotia, hein?! Nem me é estranho. O nome daquele animalzinho, né?! O nome daquele rio, hem?!  O nome ou sobrenome da atriz da novela do filme tal e qual, nem me lembro, nem é?! Com certeza é nome de flor ou de árvore também, nem?! É nome de rua, nome de praça, nome de cidade, nome de doce que as mulheres de Pelotas fazem com muita receita e tradição e categoria e suspiros, hein?!
            Ela, Cotia, trincou, tilintou, zumbiu, zumbizou:
            - Achou o meu nome bonito? Você mora no bairro? Conhece a turma? Quer acompanhar num sorvete de pequi com açaí? Um samba, guaraná com cachaça bastante gelo em cubo e rodela de limão na borda?
            Me perdi em conversas que iam e reviravoltavam sem que eu tivesse intenção firme a respeito. Nem lembrei nem importei mais os meus dois camaradas que ficaram lá noutra mesa noutro hemisfério chupando o dedo outra dimensão. Uma vez ou duas na História com H maiúsculo olhei para eles e os dois estavam meio aborrecidos me evitando me detestando me cuidando de viés e chupando o dedo. Nem podia fazer nada, nem podia perder um minuto nem podia trocar elas por eles. Tinha que ficar perto de Cotia. Aquela horinha que a conheci nem podia deixá-la, acho que nem pensei mais outra coisa, etc. Que entendessem lá os meus amigos e depois eu explicaria tudo e pediria desculpas teriam que entender e me esperar e me perdoar. Paciência. Era outra coisa mesmo. Menina tem prioridade sobre tudo e todos no mundo. Até porque o mundo foi forjado desse jeito. Até porque são sempre elas que dizem sim... ou não.
            Perguntei para a minha Cotia, assim, só interessado nela mesmo:
            - Sabe o que tenho vontade de fazer? E nesse momento?
            - Sei lá, meu! Nem imagino! O que será?
            Ela me olhou de alto a baixo como se olhasse um bicho exótico com bico de pato e garras de tamanduá-bandeira e cauda de macaco-de-cheiro. Como se olhasse um bicho falante e uns dentes de capivara. E o bicho esquisito, esquivo, eu mesmo, era verde com duas anteninhas, três perninhas secas e um relógio em cada orelha. O bom foi que, por fim, levou na esportiva e jogou:
            - Beber mais um sambinha com rodela de limão verde! Tudo bém!
            O grupo das meninas, onde eu estava metido e aportado e transplantado, se repartiu em conversas paralelas bisonhas bifocais. Eu e Cotia nos entendemos e ficamos nos avaliando. Ela me olhava com interesse, eu a olhava com interesse dobrado. Tentei pegar na mão mas ela já me evitou. Eu ria pra ela e ela, me entendendo sempre, ria pra mim. Talvez o mundo já estivesse parado e só aguardando o meu sinal. Talvez o mundo já fosse mesmo travado e eu que me iludia. Talvez o mundo já andasse encarcerado pelas ruas e prédios da cidade preso ao labirinto no tubo de ensaio de algum cientista no diagnóstico de algum profeta. Talvez o mundo já nascera entubado ou encubado ou encasulado ou encasquetado ou encascado como jabuti-carumbé. Esperando que sinal? Ela calcou de cima pra baixo:
            - Você tem olhos... verdes, é isso? Como é olhar tudo assim por tudo por aí com essa cor esses olhos, em?!
            - Você leva muito feminino no cabelo esse enfeite de flor, entende?!
            Eu expandi até para o céu lá fora estrelado quem sabe estivesse. Eu expandi até o Estado de Porto Alegre na capital Paraná. Eu expandi até nadar no rio da Prata perto da cascata da Usina no domingo de tarde. Eu ampliei até Nova Hartz e Praia Grande e Tapejara e Cedral e Itagibá...
            - Tenho? Às vezes. Durante o dia são mais verdes que à noite. Um processo original de tintas misturadas em contato com a luz natural e outros quantos de deneás.
            Ela passou e repassou e aprofundou os seus olhos coruscantes nos meus olhos faiscantes e etc:
            - Sabe por que pergunto isso? Vou lhe explicar. É que minha mãe também tem olho verde. Aliás, um verde e outro azul-claro bem clarinho, eu acho. Isso sim que me impressiona, entende?!
            Eu tentei fincar bandeira brasileira tremulando na Amazônia dos índios mapuá, rio Capinguí, praça Raul Pilla:
            - Ah! Por isso que seus olhos são assim... acho que... assim meio que lilases ou coisa parecida. Nem sei se concorda comigo. E seus cabelos pretos ondulados que sugerem aperfeiçoamento em gerações e deneás.
            Ela até arregaçou as magas da blusinha, cruzou as pernas grossas, a perna esquerda sobre a direita, um braço que apoiou no encosto da cadeira, uma blusinha xadrez com barbantes para amarrar em volta do pescoço o decote e cheio de florzinhas artísticas elaboradas criativas chamativas estilizadas compiladas em acabamentos bordados:
            - Você gostou de minha pessoa, nem? Diga sempre a verdade me olhando nos olhos. Você já me ama, é?
            Eu caminhei ao encontro dela em câmara lenta em câmara lenta:
            - Só quero saber, daqui pra frente, como vai ser da sua alma. Sua pessoa propriamente dita e profunda. E nem me importo se acredita em D ou no acaso. Se reza para oxalá ou um arroiozinho que corre entre as pedras e aguapés-brancos da cidadezinha de Nova Pádua.
            Cotia nem se segurou. Olhou rapidamente pra baixo, voltou a me olhar nos olhos, olhou para outro lugar, e:
            - Nossa, meu! Que profundo esse jogo. Nem cutuque a onça com vara curta, meu! O paraíso é numa ilha do Atlântico. Quem sabe um dia ainda vou morar em Ilha de Itamaracá.
            Talvez o mundo já estivesse brecando. Talvez o mundo já estivesse se acomodando na calçada de um anoitecer olhando o trânsito o desfile das famílias dos pares de namorados o dia caindo a noite levantando. Talvez outros talvezes. Talvez eu estivesse assistindo ao trem fantasma ao navio fantasma à espaçonave alienígena noite clara e temperatura amena. Talvez eu estivesse num momento de há muito esperado. Talvez eu ainda nem estivesse maduro e pronto. Talvez eu estivesse deixando Enigmática. Talvez eu estivesse ouvindo um zumbido de cérebro desmoronando, biuuu!... Talvez estivesse no rio Solimões voltando pro mar numa condição de peixe pacamão:
- Olha só como eu era!
            Sussurro no ouvido dela, já sentindo o perfume da orelha de Cotia:
            - Trabalho... numa farmácia. Farmácia Furuba, ali no bairro São Cristóvão, rua Itália com Cristo Rei, em frente ao capitelzinho do santo padroeiro.
            Ela esclareceu, soprando um hálito doce de sorvete de pitangas trescalantes nos meus olhos:
            - Acho legal, meu! Sério! Eu trabalho na fábrica de calçados Araguá. Parque Industrial, rua Cruz e Sousa, bairro Piau. Quase esmoreço todo santo dia. Muito calor no verão, muito frio no inverno. O serviço o mesmo o salário o mesmo já faz uma cara, meu!
            - Acho legal, digo eu. É, sim! Embora tô aqui querendo mesmo é abrir. Vou pra capital, acho, um dia desses. Ou no ano que vem, no seguinte, quem sabe. Se nem vou pra capital vou para outra cidade, outro Estado, outra capital, mas vou. Esses dias pensei em Vitória, mas aí depende de outras coisas, você sabe.
            - Hum... É melhor, parece, né?! Faculdade, outras coisas legais... legal. Meus parabéns! E você merece.
            - Você nem quer sair pelaí?
            Talvez o mundo já dormisse o sono dos justos apóstolos. Talvez o mundo já estivesse dando tudo de si tudo que podia. Talvez eu já nem estivesse nem aí. Talvez a iara estivesse dormindo com a cabeça no rio São Francisco e os pés no arquipélago de Fernando de Noronha e de Marajó.
            Confessei, medindo nossos narizes, olhos nos olhos, queixo com queixo, quase beiço com beiço:
            - Nem sei ainda quando.
            - Tem tempo pra pensar. Vai acabar decidindo ir. Eu sei. É sempre assim. Pode crê.
            - É, viajar é demais mesmo. Eu queria ter asas, e é quando se vai muito mais rápido.
            - Todo mundo quer viajar, decide viajar e quase todos viajam mesmo. É para longe ou para perto, mas viajam, vão embora e às vezes, por que não?, desaparecem, desaparecem.
            - As montanhas escarpadas com mata atlântica... Tem um rio chamado Cristalino... Os pássaros da fauna, ajuruaparas, cucus, tiês-pretos, arapongas, garrichas, cantos-de-macaco... 
            Talvez o mundo já estivesse desistindo de tudo. Talvez o mundo gostasse de namoro e estivesse parando, olhando, parando a namorada na parada, os dois indecisos. Talvez eu estivesse dormente sonolento preguiçoso. Talvez eu estivesse olhando uma paisagem de cartão-postal e ficando nisso: me sentindo como por um triz; e me achando em boa paz e circunstâncias.
            Talvez a dona Caixeta cinco filhos menores devendo o último aluguel abandonada pelo marido namorado preso por venda de drogas estivesse trabalhando à noite pelo pouco mais que o salário mínimo.
            Cotia voltou do riso, voltava rindo, rindo e me olhando e louca para me dizer, e juntou:
            - O meu salário tem uma piada. Quer ouvir?
            - Conte, comigo.
            A primeira coisa que olhava numa menina, numa guria era a boca, os dentes, o hálito, a autoconfiança. Que cheiro tinha a boca o sabor da Cotia. Sempre, antes que me esqueça e em um minuto, já vou tocando os ombros o ombro mais próximo - continua até hoje sendo uma mania. O que sempre procurava ouvir, daí por diante, era um riso de guria ajustado a um corpo desejado um riso de flauta-doce de passarinho cambaxirra de cigarra. Quando beijar na boca o gosto tinha que ser de morango maduro ou sorvete de pequi ou limão puro ou de dentifrício gosto de açaí igual da Cotia quando sorria quando ria.
            - Que árvore você é?
            - D fechou os olhos e olhou tudo em volta. Nem havia nada. Parece simples, mas complica. E por isso calculou calculou calculou... Pensou uma pedra e inventou uma pedra e colocou uma pedra. Nem de falar nada. Uma pedra do tamanho de um bonde. E a pedra levou um tempo para sobreviver diante das intempéries e sobreviveu.
            “Aí, o que mais? Dias de paz incondicional.
            “Então, D voltou à tona e plantou duas plantinhas guarantãs. Era 1985 e aquela história de distensão abertura e transição... As duas plantinhas vicejaram depois de uma boa e longa chuva. E pronto, viraram um h e um m.
            “O casal teve uns 80 filhotes. Todos eclodiram amigavelmente sem predadores por perto. Vários na variedade. Apareciam na areia da praia e se arrastavam até a água. Quando morria um logo era substituído por novos dois ou três. Muitos elogios. Muitos abraços. Os que morriam voltavam na condição de pássaros árvores coisas e outros materiais de utilidade pública, coxa-de-frango, boca-de-velha, unha-de-morcego, braço-de-mono, cabelo-de-negro, coração-de-estudante...
            “Pois é. Quando fotografei a cidade de Água Doce assim do alto um dia eu te mostro a foto fotografei do alto do morro eu sem querer fotografei junto por obra do acaso um disco voador um óvni. Sim senhor! Em pleno céu de anil! Eu te provo, eu te mostro! Nem acredita?!
            “E tudo que se vê por aí tem a idade do tempo do espaço do sol da lua do vento das águas do rio que vão pro mar.”  
            No conjunto da obra eu estava siderado hipnotizado hipotecado. Trocamos telefone, cumprimentos, beijos, abraços muito ternos. Fomos nos levantando, nos afastando, já passava da meia-noite. Acompanhei a suçuarana até o carro das meninas. Beijei no rosto dos dois lados com ternura ternura. Meus dois camaradas cupinchas nem sei se ainda amigos estavam cansados de esperar e me aturar e me ver por um triz. Deles dois fiquei com pena de pato-almiscarado. Eu já segurava uma mão e falei pra ela nós dois um casal de pombas-rolas:
            - Quando volto te ver?
            - Quando for da capacidade de D.
            - Mas eu queria te ver ainda amanhã.
            - Pois vá ao balneário do rio Retiro, então.
Me sentia bem rondando no mundo redondo. Talvez o céu estivesse parando mesmo, e esperando por mim. Tudo bem. Talvez o céu estivesse andando em câmara lenta mesmo, e só me aguardando. Talvez o céu estivesse cheio de estrelas coruscantes, algumas cadentes, e astros e espaçonaves visíveis e invisíveis, e eu apenas pensando em mim e por um triz. Eu era um tibirro-do-brejo gorjeando na manhã inaugurada e por um triz.
            A oportunidade realiza, mas depende. Sempre fui um cara comum. Se tivesse jogado se tivesse acertado na mega-sena.
            - Deu no que deu!
            Os meus camaradas estavam acabrunhados chateados doentes de misericórdia. Acharam frustrante me esperar e me ver por um triz. Andamos andaram comigo um de cada lado juntos fumando andando emparelhados curiosos reticentes eles mais mamados que eu. O Alambari perguntou alguma coisa assim do seu jeito falando alto e sincopado lá do jeito dele que a gente já tinha assimilado e sempre que chamava a atenção dos circunstantes:
            - VO-CÊ O-LHO-U DEN-TRO DO DE-CO-TE DE-LA E SE FOR O CA-SO?!!
                                                                       ***
            Nunca me esqueço mesmo. Trinta ou vinte anos atrás, eu vinha da bodega do seu Guanumbi, rua Itaoca, vinha com cinco cervejas na cara, nos cornos, cervejas e queijinhos e salaminhos, mil conversas e risos miudezas sobre nada nada. Tropeçando vinha lembrando de Enigmática, falando sozinho, lembrando de Cotia, resmungando sozinho e baixinho e bem no ouvido íntimo de mim muá:
            - Aquela querida pessegueira!...
            Urubus de preto e pontas de asas brancas em pleno sol das 13h e 31min. Céu azul sem detalhes. Eu diria sem manchas. Carros um que outro, casas acompanhando as ruas de paralelepípedos, som de nem sei onde com nem sei quantos decibéis, som a todo volume à vontade pela rua mormacenta as árvores da pracinha, dos quintais, as que acompanhavam a rua, árvores de tons de verde quase todos os verdes desse planeta, urucuns-da-mata, perobinhas-do-campo, angicos, jacarandás, leiteiras, saguarajás...
Domingo de tarde, cães de língua de fora sentados na sombra, sem um ruído no mundo, um que outro raro automóvel pela rua estreita e sinuosa. O ala do time, o Beruri, descia em velocidade com a bola nos pés, ala da direita, controlando a redonda, já estava perto da grande área adversária, talvez fosse cruzar, talvez driblar mais um, talvez chutar direto, talvez bicar para o alto para fora do estádio...
Pois o sol nem muda de ideia. Se o sol nem muda de ideia fraçamos o seguinte.
Por uns tempos, por minutos, por muito tempo, nem me lembro quanto quando como por que vaguei pela floresta. Contei as árvores caso a caso no acaso, perna-de-saracura, bico-de-arara, canela-de-garça... E tive esse tempo todo para pensar. E nem pensei em nada absolutamente.
O mato tanto ou quanto iluminado barulhento ruidoso conversador, ipecutauás, pixoxós, maçaricos-do-campo, caraxués, ferros-velhos, amarelinhos... eu nem podia nem queria nem conseguia me concentrar.
Era como um maracajá ressabiado que olhava a cada segundo para todos os lados nas direções possíveis. Se podia dizer que dividia espaços com ariranhas, porcos-do-mato, saimiris, iaiás-de-cintura e... oi-oi-oi-tiiiooo!... sabiás-laranjas.
Repeti isso várias vezes durante o dia:
- Porque ela é lei!
E nem mais tirei todas aquelas ideias do pensamento da cabeça da cachola. Isso mesmo. Pelas trilhas umbrosas da mata, buriti-palito, mirindiba-bagre, tararanga, pacaí, angelim-de-morcego, arimaru... Olhei mais uma vez para Enigmática. Nem havia mais o que fazer o que errar, perguntei:
- Para que time você torce, Enigmática?
- ?? Oi?! Como é que é, como é que é? De que como é que você me chamou?
E fomos dia a dias dialongando:
- O seu nome, pra começo de conversa.
- E-nig-mática!
- Pra onde você vai sair nas próximas férias de natal e final de ano e carnaval?
- Bem, a bem da verdade. Um pouco de sorvete faz bem. Sobrenatural de qualquer espécie, obrigada. Pra onde vou agora digo eu. Penso três palavras. O que foi mesmo que a nuvem abanou? Quando o planeta aportou e nunca foi minha amiga do peito. E nem te digo nada. As árvores categóricas. Eu queria lavar os cabelos depois das 23 e 24 mas achei muito em cima de dormir. Muitas coisas pra se divertir e me direcionar. Entendo perfeitamente aquele vento entre as árvores e as cores verdes deslumbrantes das folhas farfalhantes. Os matizes dos jenipapos-rosas, uma vez. Os hábitos costumes dos caxixó.
- Onde você tem andado e o quê?
- Hum... Chapéu de palhas trançadas de carnaúba.
- E se você nem fosse D?
- Certa vez me acompanhei numa dessas minhas caminhadas e passeios os meus divãs móveis ambulantes. De vez em outra olhava para trás, tranquila, roupas leves, boné de pala, óculos escuros. Tinham construído prédio novo a poucos metros. Parei na sombra do guarabu-da-serra e enxuguei o suor da testa. Mas por pouco tempo, dois ou três minutos. O agitar das folhas me dizia que o vento vinha chegando de passagem pelaí. Uma hora ou outra encontrava cachorro vira-lata e estalava o dedo. De qualquer modo e como ultimamente nem bem sabia mais o que fazer. Olhando a cidade e descendo ao seu encontro, dela cidade em ao seu redor, bela cidadezinha, muito mato e pouca pracinha.
- É, né?!
- Depois daquele dia, todas as luas que encontro reconheço se me parecem iguais e parecidas e as mesmas. Tem lua de foice, tem lua de prato, de queijo, de berço esplendido.
- Você gosta e prefere o longe ou o perto?
- Para quem quiser para os índios uaurá ou os jenipapo-canindé ou os ingarune, os cracmum, etc., o que vale é o conselho dos mais velhos e anciões e sábios. Que são fantasmas e ao mesmo tempo muito humanos e presentes. Moram nos vasos camotins. Também alguns reaparecem como bicho ou árvore ou corixo. Partiram mas voltam quando precisam voltar basta serem chamados. Os pajés têm o poder de acordá-los e acordá-las. Nem demora nada. Se prega a fé se acredita nos mais experientes se acredita na prática, é isso.
- Quando você foi árvore? Quando você foi gigante?
- Já na descida do sol para a noite estrelada. A montanha era maior no meio do azul. As árvores se misturavam, tibornas, carajurus, buris-do-campo, cebolas-bravas-do-pará, mapuxiquis, paracuris... O horizonte mais próximo e que categoria! O centro do mundo mais no meio do lago. Árvores com verdes na voz e perfumes aromas doce nas folhas, língua-de-tucano, orelha-de-onça, pata-de-vaca, mão-de-gato, cabeça-de-frade... A serra do Cunha caía na cabeça de quem olhava. O rio Passo Fundo se apressava na cascata. Os maracanãs comendo frutas-de-papagaio. As sombras das árvores deslizando conforme o rio. As sombras aumentando conforme o vento. As sombras mudando de lado conforme a temperatura. As nuvens namorando nuvens conforme o parentesco. As horas apostando maratona no campo alto do firmamento.
- E você usaria óculos de grau se fosse o caso nem se importaria com o que fossem dizer com o que fossem rir e pensar?
- É. Deve ser difícil negociar a última a única coisa no mundo que existe, as fotografias antigas. Parece uma mungubeira inteligente e melhor que a maioria. As pessoas na rua com calma bem domésticas patos andando engraçado cavalos relinchando engraçado bocas de sapos engraçadas. Onde está ficando quem seria a mais urbana povoada? Acho que nunca mais vai acontecer de novo e a perda dos giros e giros em volta da praça no carro conversível honesto moderno vermelho. Parava na esquina saía de casa me olhava da janela na esquina me via na janela olhando a esquina sem sequer sem dizer nada. O que salvou foi um pouco materialista. D apontou mediu comparou aquilatou pesou e com o dedo de deus. As crianças caindo o queixo no cãozarrão da vitrine.
- E os dias de chuva? Gosta, prefere, participa, recomenda?
- O rio Vermelho que banha Xinguara. O rio Urupá rente de Dois Irmãos do Buriti. E rio Anari limite separa um lado de Ivinhema e outro de Venâncio Aires. Em torno aos rios perto dos rios a mata as árvores um casal de seriemas outras árvores vizinhas araticum-do-brejo, juruvá, muriti, cragoatã-branco... muitas folhas tagarelas copas e mil falas. O rio Caipora continua do seu jeito.
- E se fosse morar na tribo dos cupinharó?
- Minha amiga Janaúba foi para a serra do Coqueiro falar e pesquisar e colher mel com os ariqueme. Ela subiu o rio Palha de canoa. Os índios ali tinham uma empresa de turismo ecológico autossustentável. Faziam a região com as voadoras. País das formigas. A amiga e seu amigo preferiram ir de canoa que de avião de trem de carro de asa-delta. As canoas eram feitas artesanalmente e de acordo com o relógio biológico da biodiversidade local. De árvores nobres como louro-da-serra, bicuíba-do-amazonas, moela-de-mutum, embaúba-puruma, caxuá-branca...
- O céu é nas estrelas?
- A Janaúba outubro para novembro desceu o rio das Minas. Ia de barquinho sentada na proa abraçada ao amigo Tabujajá olhando as margens olhando a água olhando o céu de poucas nuvens de vez em quando casais de jandaias-de-testa-vermelha pelo ar espaço. O país dos mosquitos. Nem quis ir de trem automóvel ônibus caminhão embora preferisse preferia o trem. Viajavam papagaios-de-cabeça-laranja e retornavam periquitos-de-bochecha-parda. Ararajubas gritavam dentro do prazo de sete horas. Macurus piavam em de euforia.
- Você já esteve numa caverna numa gruta furna? Já esteve no Parna do Jaú?
- E se for o único jeito em milhões de anos e espaços então tá certo vou fazer o meu melhor. Já paralisei uma montanha-russa e isso de tanto gritar. O jardim em frente de casa mudou de estação coisa perfeita antes de ontem e amanhã espero que continue. Nem preciso contar nada a ninguém nunca. O que vem a ser e o que é: conteúdo impactante? Seja para onde for o truque é o mesmo e simples embora com a melodramaticidade. Tenho certeza de que sim, embora nem sempre. E no caminho aquela explicação clássica clara percentual na hora h. Eu estava bem ali e postada. Com autorização para trabalhar do lado de cá e circunstanciada.
- Quem foi onde nasceu o tal e qual João Capistrano Honório de Abreu?
- O mundo ia acordar em breve e o cacique Ibioca. E começar a contar os rios as aves as árvores os bichos os peixes. Há mais espécies de peixes nos rios da Amazônia que em todo o oceano. O rio Amazonas é abastecido por mais de mil afluentes-sócios-irmãos-contribuintes. De manhã cedo os marabitana acordam levantar para plantar colher pescar tomar banho fazer tudo o que tem de fazer. O babaçu fez óleo para passar no corpo todo do índio da índia fez chapéu para vender na feira fez esteira fez tudo cobriu oca tudo vem do babaçu. O rio mistura fantasia com princípio de dia a dia. Um terço de todas as plantas do planeta. Em minha tenra idade na escola a gente aprendia que o babaçu era mil utilidades e nada se desperdiçava.
- E você já subiu em árvore quando era pequena pegar comer água na boca jabuticaba no pé?
- Era de verão e de noite uma noite. Mas as histórias precisam de um clarão para acontecer. A tribo em volta do fogo. Olhando o fogo ouvindo o cacique Meruquiá filho do cacique Ibioca. Do outro lado do rio, do lado de lá do rio, muitas garças-brancas enfeitavam a árvore oiti-do-pará como flocos brancos de algodão. A garça-branca bateu asas, desceu do ducentésimo andar, resolveu esticar o voo para o lado de cá do rio. A garça-branca parou de narrar história do começo das idades, pediu água, alguém jogou ainda lenha na fogueira. Lá fora da oca a chuva deu mais dois passos e parou. A história do cacique Meruquiá parou por ali mesmo. O rio dormindo. A garça-branca cochilando. E o mundo era outro. A coragem do cacique Meruquiá era feita de rios árvores aves pássaros peixes montanha abelhas. O cacique filho do cacique Ibioca disse que ia se ausentar para além das montanhas da serra da Canastra acompanhar a filha Narinari nos estudos em São José do Rio Preto e nem sabia se já nem voltaria a falar com mais ninguém.    
***
            Hoje mesmo, já recém e agora, eu estava mesmo almoçando e lendo o romance Diva, livro fabuloso rural do famoso João Simões Lopes Neto. Estava lendo os momentos finais da história e almoçando quando me parei e fiquei me pensando, o livro passava numa minissérie de tv, me intrigando, pensando, pensando... as orelhas de abano grandes indo e vindo, ardentes, clecleque! clecleque!...
            Eu tinha, naquela altura dos idos de 1971, eu tinha uns 12 anos e dois meses e doze dias e seis horas e uns minutos que iam passando mais ou menos rápidos e sorrateiros e confusos e orbitais.
            Aquela manhã, 10h e 10min, eu subia o morro do potreiro da dona Manicoré rumo onde ela plantava na rocinha uns pés de cana-de-açúcar. E a gente ia lá quase sempre só para roubar cana ou melancia ou bergamota ou guabiroba. Era minha ideia. E eu nunca tinha nada que fazer de pela manhã quadriculada.
            Sentei na terra vermelha, calção sujo sem camisa, de repente se eu descobrisse uns rastos de lebre ou onça-vermelha ou jaçanã crucitando ou guará assoviando ou sagui-de-coleira pulando ou acuri botando frutas amarelas maduras até seria melhor umas pedrinhas bonitas de cristal ametista seria sensacional, e bati a cana na pedra até amassá-la. Olhei as horas do sol... umas 11h e mais 12min.
            Eu fechei os olhos em sol muito forte e nem mais acreditei no que estava vendo e ouvindo e acreditando. Uma vez ali na floresta e araucárias e etc. Depois tinha os índios coroado. Mais depois umas trilhas no mato para passar com burros de carga e passavam também carretas puxadas por parelhas de bois pesados. E em seguida a cidade e de outras tantas. Eu estava ali de-boa na cidade ouvindo a urbanidade imaginando a prosperidade na posteridade.
                                                                       ***
            Nem aqueles dias com 18 pra 19, nem hoje com os 40 pra 39 e meio, quando eu era mais menino talvez 12 pra 14. E nem era nem mais nem menos contente. Quando eu era mais menino que nunca, e isso já me dá arrepios pensar, quando eu era mais menino, eu tinha essa mania boba de brincar de caminhar como um bêbado ou como um macaco bugio. Depois me arrependia com receio do castigo dos céus. E outras brincadeiras engraçadas que nem tinham graça nenhuma. Por quê? Nem sabia. Eu tentava imitar um animal, uma ave, como um gavião-fumaça, como um cachorro, como um ratão-do-banhado, um lacunari... E se o céu nem gostasse?
            - Meu amigo Guanaré saiu andando andando... pela calçada da rua Riachuelo. Do lado que tinha os postes de luz. E havia muito verde em tradicional fila indiana, cedro-cheiroso, jacaré-do-mato, madressilva-verdadeira...
            Era sábado à tarde e caía aquela chuva peneirada e meio gelada. E ninguém ouvia ou via futebol. Uma chuva pra lá de engraçada. Ninguém falava de futebol. Nenhum rádio, jornal de tevê falava ou mostrava documentário sobre os temporais na Amazônia. Enfim, nem tinha jogo e o mundo era apático, aquático, aquário.
            - O Guanaré estava na rua andando andando... quando lá longe se juntou com a Cambaxirra namorada trocaram beijo abraço olhar sorriso o de sempre que já fazia uma cara uns dois anos que se amavam.
            Sonhara, noite aquela passada, que estava perdido numa cidade grande possibilidade para São Paulo ou Curitiba ou Viamão ou Campinas e estranha e nem nada hospitaleira. Um labirinto de ruas rodeadas de altos prédios, com janelas e roupas estendidas nas janelas, nem havia sacadas, havia jardins cercados e cães nos pátios cercados. Era um sonho recorrente, nem sei por quê. As ruas perigosas por causa do trânsito pesado. Eu passava pelas ruas mais difíceis da cidade, trânsito confuso e cheio e engarrafado. O povo me olhava com ódio com desdém com perseguição com revolta. Pareciam prontos para me linchar me incendiar. Nem diria só com ódio total, mas com desprezo muito grande, às vezes até o rancor. Pareciam cachorros brabos esperando que eu tropeçasse para se jogarem sobre mim. Ou simplesmente que eu desse as costas. Nem conhecia nenhuma rua daquele lugar. Nem sabia também como fora parar ali em que tempo em que abandono. Uma sopa de letrinhas em cada placa. Eu ia e voltava, era difícil passar ali outra vez. Tinham sido quem foram tais e quais homens ou mulheres com nome de três a quatro sobrenomes.
            - Guanaré e Cambaxirra estavam nessa andando andando... ela acariciava a barriga e mostrava e falavam da barriga dela e da próxima brasileira a vir andar andar... por este mundo pelaí e etc.
            Esss dessspoisss usss vêntusss nusss seusss cabêlusss... A noite enxugando seu capote escuro, a hora começando a tocar vários instrumentos de corda de metal de madeira. Isso mesmo. Eu tentei chegar perto quando cheguei perto ela gritou. O vento vinha mexendo com os cabelos da guria, e fazia as horas, e já fazia cócegas nos ouvidos da guria, e ela olhando revoltar para o ninho.
                                                                       ***
            Acabara de comer muitos biscoitos de mel de uma lata de biscoitos bem em frente da tevê e assistindo um filme sobre o antigo mar tido e havido no Nordeste. Encontraram até peixe seco no meio das pedras. Tinha até muita areia entre um morro e outro chapadão. Viram os morros com cara de plataformas onde os discos voadores preferem em noites claras abertas.
            Minha prima Cambacica chegou para me visitar e com surpreendente. Chegou flutuando e aterrissou na poltrona que lhe indiquei. Antes mesmo me deu dois beijos um em cada comissura da boca bem gostosos promissores. Sentou e suspirou da boca pra fora e me olhando de olhos turbinados. Eu pensei: é, estou por fora. Pensei ainda: estou por fora porque esta peça - minha prima Cambacica - está uma loucura de mulher está um cavalo e dando, dando pelaí, é. Mas eu... Nem, nem tinha nada com aquilo. E continuava pensando: que preparo de mulher, meu! Coisa de morrer ou de matar, escolhe, mue! Um doce divino feito no céu, né, eum! Depois e daí, bem...
Naquela hora nem chovia nem fazia sol, era verão e inverno ao mesmo tempo e mesmo espaço em mesma importância. Para resumir, ficando quieto na minha, eu só quero dizer, ainda hoje, que desejava me jogar com tudo pra cima dela, e beijá-la e lambê-la e mordê-la... Esquece! Mas nem esqueço, e ainda hoje. O peitinho liso dentro da camisetinha folgada. Devo esquecer. Devo nem nego pagar por isso.
            - Tive saudades das nossas risadas, lembra?! Ah! ah! ah!... - disse a Cambacica.
            - Eu queria nadar com você lá no açude, lembra?! Eh! eh! eh!...
            Faz alguns anos que nem vejo mais a Cambacica. Pintado o cabelo, os brincos de odalisca, a pele do rosto mais ou menos mais endurecida. E fazer o quê. Impressionante como o dia passa e a gente nem nota.
As pessoas são iguais em toda parte. A sorte o rio é difícil porque realiza só uma opção. E a sorte ou o rio sempre pega a opção mais perto mais em conta mais rápida mais estelar.
Me aproximei Cambacica sentada no sofá da sala e me aproximei. Me aproximei como um sacerdote e pastor de cajado para apascentar ovelha desmamada. Ela queria e ansiava de boca aberta água nos dentes espumante.
O meu cérebro gritava um ruído ensurdecedor, zuuu-iiim!...
- Os cem pila.
A porta se abriu de par em par. O tem-tem-coroado tinha de acordar e saltar e trocar as horas.
- Licença!... licença!...
- Sopesar... sopesáveis... e de balançar... de vergastar...
- Faz caminha que eu agósto...
- Os seus cabelos são fofos... muito mais cabelos que... só a... depois de... alto a baixo... do capilar até a copa... ufa!...
- A constituição brasileira de 1824... nossa primeira constituição... a faculdade de na área da diplomacia... Parnamirim no Rio Grande do Sul... foi na tribo dos aricapu...
- Nem quero... que se afogue... upa!...
- RA-PA-RI-GA... ES-TOU-VA-DA... AAAIII!...
- Você gosta de mel de rapadura... então...
- Desculpe me apoiar me apoiei nos seus ombros senão caía as pernas bambas comecei a tremer as pernas fracas você está ciente larguei todo o peso as pernas me abandonam...
- Você sabe me explorar. Você cobra caro, hein? Esperasó que já volto...
Fui lá dentro buscar a grana. Voltei. Antes que pudesse dizer soletrar, a-ri-cu-ri-ro-ba.
- Mais cem conto total duzentinhos sua esganada.
Foi me acarinhando com muita lentidão e interesse e carícia e eu diria até sonolência. Com agrados e beijinhos e fosquinhas. Tão suave com as mãos o rosto o nariz e as bicotas. Era um brinquedo profissional. Eu nem fazia nada. Às vezes eu abria os braços como se estivesse na pregado na sacrificado.
- É por sua causa... dependente...
- Lembra um sorvete, não?... Uma espiga de milho... um pirulito... E badala badala...
- Você queria ter um assim?... Eu imagino... todas dizem isso... todos os dias?...
- Agora calma... muita calma nessa hora... oba!...
- Acho que vou me... já vou me apoiando nos... seus ombros...
- Gosto de brincar com... seus cabelos... cacheados... ora, ora!...
- A chuva caindo... o guariba dono da tropa... braços cruzados... sim senhor imagino sentado equilibrado na forquilha... a árvore luminosa... o mundo molhado... o céu rachado em ziguezagues... parecia uma jalapa-de-mato-grosso... a chuva caindo em cordas... o mundo respeitando a natureza...
- Eu sei eu sei... você quer saber quem é o x quem é o y... nem eu sei... nem sei eu...
- Por favor... nem tente... trocá-los de lugar... hum!...
- Encoste o rosto... beija... cospe... comece tudo de novo do começo...
- Diga quem inventou... o jurutau... nem pode falá... ufa!...
- E vieram outras novas e interessantes constituições... a de 1891... a de 34... você sabe o que é o que é... já ouviu dizer Ipiguá?... uta!...
- Tou com a... ligeira im-pressão... pre-visão...
- RA-PA-RI-GA... ES-TOU-VA-DA... AAAIII!...
Caí sobre ela de novo seus ombros os joelhos duros os dentes firmes uma certa e estranha raiva resistência esgotada e todavia com os meus pesos concretos de setenta e tantos quilos.
- Sinto um pouco de fome... uma sede gigantesca... uma câimbra mal se ajustando mal se instalando... eu beberia um açude inteiro... de cerveja com batatas fritas...
- Tá tua tara... vá os queixos... ah ah ah!...
 Cansado de ficar em pé com as mãos forçando as cadeiras, o rio pegou fogo, depois desceu o barranco, sentei me joguei exageradamente no sofá em primeiro lugar, voltou para o leito seu lugar de costume, escorregou barranco abaixo e cruzou os braços.
                                                                       ***
            Uma alucinação esquisita, das brabas, etc., nem entendia o que significava: cavalos alados, papéis pastas cadernos livros alados, capivaras aladas, torres de igreja aladas, outros quadrúpedes alados, ruminantes alados, paquidermes, deuses e deusas alados, então nem se fala, meu! Os alados e aladas muitos, borboletas gigantes, besouros grandões do tipo de helicóptero, pontes ligando o nada a coisa alguma... o mundo possível pois nem só de dinossauros, em?!
            Em pouco tempo olho-de-gato mexeu flores amarelas, olho-de-cabra conversou flores amarelas, olho-de-boneca falou flores amarelas, olho-de-pombo agitou flores amarelas.
            Na farmácia, eu estava mais próximo de três ou quatro clientes freguesas. Me distraíam. Escutava e eles trocavam fofocas os mexericos os diz que diz que. Uma e outro bisbilhotando saber das histórias de todos eles. Entre os tais e quais estava o pai da Enigmática. E a nossa amiga comum Xaiá perguntou ao pai da Enig-mática:
            - Mesmo, é? A guria passou no vestibular?
            - É e tá-tá-tá-tá!...
            - Então, isso é bom, seu. Pra quê?
            - Geografia. Que é o que ela mais adora e sempre quis e tá-tá-tá-tá!...
            Pensei que o tal papo todo podia nem ser verdade e nem deveria mesmo ser verdade. Continuei achando meio falso o que tinha ouvido, nem queria acreditar. Será que escutara bem? Cheguei na hora certa foi será mesmo?
            - Ela trabalha no consultório da Drª Paturi Ipirá e tá-tá-tá-tá!...
            - E o negócio todo nem é meio puxado demais, seu?
            - Olha. Vai viajar de ônibus fretado duas vezes por semana até Caxias do Sul e tá-tá-tá-tá!... Voltará e chegará pelas horas da madrugada e tá-tá-tá-tá!...
            Então, eu escutava duas verdades claras e lineares? Uma que Enigmática passara no vestibular para geografia, e outra que tinha um emprego de recepcionista numa clínica de emagrecimento ali na rua Lagoa Vermelha. E era mesmo? E outra: Vou até lá?, pensei. Claro... que nem.
            De tarde Tangará saiu da oca para caminhar a ocara. Tinha a aldeia em volta a mata e o rio que passava sempre ali pertinho. Descer o barranco e se banhar. O rio nomeado Itacaiúnas.
            E se houvessem os tais e quais muitos enganos? Ultimamente, àquela altura dos meus dias, nem confiava no que escutava e ouvia e olhava e intuía. Nem entendia muito bem de mundo real. Nem precisava de futuro. Nem sabia exatamente até onde ia a destreza da re-alidade. O que era real e o que nem significava essa denominação? Tinha minhas dúvidas e meus parafusos soltos e... depois, bebia demais, fumava demais, dormia de menos. Eu só nem perdia o sentido de sobrevivência porque tinha sempre em mente os sonhos de Enig-mática.
            Pois o Tangará saiu como quem saía foi por aí para apreciar descendo no rumo do leito do rio um carreirinho batido segurando casco-de-peba por causa do vento tocando em cada árvore muitas favoritas pegando as árvores que ia encontrando nhambuí, jacarandá, jerivá, virola, lixa, iperana, tapinhoã... todas pousadas de jacamins, araçaripocas, vaqueiros, beija-flores-de-cinta, e guarandi solfejando no alto da guabajara.
            Garotas como Enigmática são difíceis internacionais importadas, embora com motivos nacionais e até local. Eu também achava... ou até achava com toda calma e certeza e clareza, que Enigmática ficava toda se fechando e fechada no seu mundo lá dela. Pensasse quem sabe em ser modelo em Rio de Janeiro, Recife, Natal, Novo Hamburgo, Araricá, Bady Bassitt...
            Quer ser geógrafa, a guria geografia, hein?!, pensei, já meio pra lá de preocupado.
            O tal Tangará parou no alto do barranco e sentou na laje. Surripiou da gramínea uma haste verde tenra suculenta para mastigar. Olhando o rio conhecido pela prioridade da primeira vez. Quem sabe lá pela última hora. E todos os dias. Umas tucuns palmeiras moravam na beira. Veio de lá uma gambá de sorriso manhoso olhar importante e disse:
            - Espere espere, moço! Nem me arranque o couro, oquei?!
            Tangará surpreso olhou do lado e viu a gambá se aproximar pelo chão. Os dois se encararam para daí em diante ficarem amigos. A gambá repetiu:
            - Espere espere, menino! Nem me arranque o couro peludo, uma vez!
            Então, a imagem de Enigmática subiu e desceu por mim, por dentro de mim, o dedo dela se arrastando pra cá e pra lá sobre o atlas do meu mundo como coisa para entender e nem descia. Pensei que tinha um sonho e que ela poderia estar ali dentro. O caderno o diário lá dela carregado de montanhas e picos, chapadões e vales, rios e baías e lagoas, reserva tupiniquim e praias na manhã de sol antes das 10h. Ela se acostumaria fácil com as longitudes e latitudes e altitudes. As diferentes línguas e cores de países. Sonhava e esperava visitar todas as regiões do país e até morar na Amazônia Legal e na beira do rio Tocantins.
            E mais tarde Tangará retornar à aldeia passou pela extensão da ocara até sua oca. A gambá subiu no pé de cumbaru alçou voo e sumiu no céu azul com poucas nuvens. Foi visitar pernoitar na casa de parentes.
            - E que é que tem? - Tangará se perguntou.
E o meu sentimento oficial por isso ficou ali na cidadezinha, mudo, ofendido, acuado, bobo, embalsamado, perdido, encolhido como doente saí-açu-azul. É, ela certamente estava assim pensando em se mandar do rincão da querência. Os olhos perdidos no horizonte, e sem ver. Louca para viajar e se perder de mim. Pensei num sonho que eu e ela a gente podia estar dentro e viajando e muito próximos e rindo sem parar, pensei.
            Com o que Enigmática se importava? Com o mapa mundi. Com os rios afluentes do São Francisco. Com as capitais das unidades federadas o número de habitantes o ano de fundação. Com os parques nacionais, as reservas de preservação, o pantanal mato-grossense, o arquipélago dos Abrolhos, o parque Cerca Grande, o curió símbolo da BA.
            Imaginava. Seus olhos de procura denunciavam: ela era de viajar. Mas queria buscar aonde encontrar o quê? Todo lugar nem é o mesmo lugar? As pessoas nem são todas iguais? As praças nem são todas geométricas?, pensava.
            Enigmática queria atravessar a caatinga, o sertão nordestino, o Seridó. Navegar fora a fora os cerrados de Goiás e Mato Grosso e Minas Gerais. Cruzar os ares num balão colorido, apontar o dedo para o nome dos rios debaixo dum céu invejável, apontar o dedo para as cidades e dizer o nome, São João das Duas Pontes, Manacapuru, Montenegro, Osório, Ibiaçá, Cotiporã, Parobé... Caminhar pela costa atlântica em noites estreladas, no sopro dos ventos diversos, navegar sem sentir e se guiar pelo Cruzeiro do Sul, abandonar os pais e ir morar com os pacanaua os bocaiú os caxuiana...
            Um dia uma garça-branca contou:
            - O mundo nem começou e terminou num dia e noutro. O mundo nem foi feito tudo de uma nuvem só. Para falar sério o mundo nem era de doze meses.
            Ela a Enig já se via numa cidade usando cocar azul e vermelho conforme as araras. Praticamente um país dentro do país. Umas ruínas rodeadas de histórias antigas e lendas primordiais, sambaquis. Zoológico com jaguatirica-maracajá. Uma estranha vontade de tirar fotos, tomar banho de cascata, ver preguiça no galho da embaúba. Barcos nos rios, trens velozes, metrô bonito e moderno e automático, tudo vermelho vivo e cheio de anúncios que vão trocando de imagem de impressão. Estátuas na praça Marquês do Herval. Carnavais e desfiles de carnaval gigante, praça São Geraldo, Moinhos de Vento, Cidade Baixa, Partenon, Restinga, Belém Novo... De as plantações de prédios de apartamentos viadutos cidade grande.
            Já sabia. Enigmática queria fugir. E fugir para onde? E fugir de quem? E por quê? E fugir com quem? Sem nada na conta? Com a cara e a coragem bonitinha lá dela? Com um corpitchu acima dos trinta quilos e todo tenro e macio e prioridade lá dela mesma propriedade particular e autossustentável?
            Era capaz dela nem querer mais voltar. Nem querer mais sua natural cidadezinha seu bairro com sua rua seu colégio de primeiras instâncias.
            Quanto mais longe pior. Nem me acostumaria? Nem me fala! Quanto mais longe melhor. Enterraria enfim meu sonho requentado?
            E modéstia à parte o sol nascente radiante amarelo comunicativo e uma arte. O vento vinha sempre cantando do nordeste carregando poucas nuvens de papel. As aves de banho tomado cedo, japus-gamelas, papagaios-campeiros, canários-do-brejo, talha-mares, manguaris, tucanuçus... cantavam pelas árvores suas canções como nunca acostumadas ensaiadas decoradas.
            Hoje, passados tantos anos, eu penso. Penso que a farmácia tinha cheiro de tridente e coisa parada e casinha de joão-de-barro. Água parada, pedra lascada, árvore tombada, caracol patinando no seco. A farmácia tinha cheiro de ferro velho, ferro enferrujado, ferro frio, lata velha, caco de garrafa, prego na planta do pé. Eu mesmo achava que já estava ficando verde com limo no branco dos olhos. Eu sonhava muito à toa pois antigamente em aqueles dias a iminência do fim do mundo no início de milênio.
            Naqueles sonhos eu tinha receio de nem poder chegar... Eu tinha receio de nem poder alcançar... Eu tinha receio de nem saber em tempo... E hoje mesmo, que que aconteceu de verdade? A família do sonho, da fantasia, do delírio nem é toda pirada, nem?!
            Bem, o que importava àquela horinha lá era que Enigmática queria tirar geografia. Ela na vida de aventuras e buscas e caminhos e altas montanhas. Buscando um ponto para ela mesma. Seria só um ponto de alvo distinto conforme o número de habitantes?
            Ela queria sair pelo mundo, morar mesmo em Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis... dar o pira. Ela via coisas na tevê. Talvez sem pressa, parando ali e acolá, e indo, avançando pela geografia do país. E de lá mandaria notícias por telefone e pelo correio aos seus.
            De dia o rio Branco caminha entre as folhas ramos de árvores verdes, de noite o rio anda grudado nas estrelas comerciais originais estelares.
            Andando pelos caminhos e sendas e rotas fantásticas e no lombo de um cavalo tordilho, de um burro pedrês, de uma ema, outros tempos até.
            Detesto meus amigos de bate-papo. Fecho o computador. Fecho também a janela do quarto. Abro a porta e corro ao bar mais distante na cidade onde o garção nem me espera nem me conhece ou nem nunca me viu como freguês como cliente.
            As pessoas, pelas ruas e casas, me pareciam pequenas. Nem acreditava fossem gente. Os homens dirigiam os carros e as mulheres iam de carona olhando admirando em volta. Na sacada dos prédios - pequenos ali na cidade pequena - nem eram jardins suspensos nem jardins bonitos de orquídeas e bromélias.
            Aí a iara subiu o barranco num pulo de gato-mourisco sentou na beira do fogo junto dos índios marabitana e jogou lenha na fogueira e foi narrando mão no queixo cabelos longos negros molhados olhos verdes espelhados molhados foi narrando para todos os presentes:
            É, cada vez mais Enigmática se afundava na geografia. E via a paisagem qualquer toda dentro de molduras ou páginas ou canais de tevê.
            Aquela mania de viajar e a curiosidade de conhecer viajando era como um ímã que puxava que atrai qualquer um. Como um representante comercial que viaja as cidades conhece todos os lugares.
            Enigmática seria capaz de fazer amizades ir em os bares tomar cerveja com polentinha frita junto dos amigos sentar no banco da praça e ficar olhando em torno até o sol descer?
            Então, aí a iara parou de contar e olhou o mundo. Olhou seu redor. A luz da fogueira fazia ideia do sol colorindo a paisagem lá fora tudo. E ela viu eles todos ainda prestando atenção. Recomeçou a contar e explicar o início do mundo:
            Vontade lá foi dela Enig de ficar ausente de casa. O bom era mesmo lá fora de casa. A ave nova quer pular do galho do ipê-mandioca. Para a frente e para a frente, mesmo. E as coisas tinham de acontecer como estavam escritas no secreto dos astros.
            Enigmática voltaria depois de descobrir que o mundo nem tinha nenhum lugar de segredo? Que as montanhas são altas mas o céu continua o mesmo? Voltaria depois de descobrir que o mundo era finalmente redondo? Que a roda termina onde termina e começa?
            Que nenhum lugar é suficientemente cheio ou vazio. A água adquire a forma o molde do recipiente. Um copo meio vazio meio cheio ou pela metade.
                                                                       ***
            Estava eu andando... Nem, eu estava sonhando uma coisa outra vez estranha. Eu estava sonhando. Mal me lembrava. Muito mal me lembro.
            Limpávamos a cidade de... nem sei. Todos os moradores limpavam a cidade tal dos detritos dos lixos das gramíneas das daninhas dos inços. Íamos pelas ruas como lixeiros como garis e isso e aquilo. Um caminhão tombeira na frente e nós seguindo atrás limpando e recolhendo o lixo. Tinha um cara nos vigiando. Esse cara era mais alto de todos e uns brações tatuados braços cruzados pernas abertas e sorriso de corujão-orelhudo. Talvez dois três metros e dez doze.
            O importante é dizer que tinha um cara nos vigiando e arma na cintura. Era uma espécie de chefe, de patrão, de delegado, de zagueiro, de autoridade, de carcereiro, de mais forte. Ele era exigente e nós sempre merecíamos ser vigiados de perto. O chefe queria as ruas da cidade tal muito limpas e bem cuidadas e nos conformes até para turista ver e fotografar.
            E cansei de delirar, a bronca era comigo?, e acordei meio com vontade de fugir do lugar e das pessoas do lugar e dos poucos bares do lugar da falta de aviões rios trens do lugar.
                                                                       ***
            A população ilhada em São Vicente, litoral brasílico, lá por volta de 1537, já se organizava aquele final de ano para as festividades e festivais e festas e carnavais de virada de ano. Os motivos escolhidos os dias com noites escolhidos o espaço a rua escolhida de preferência sem chuvas sem chuvas.
            Na primeira vila brasileira residiam, entre os entorno de mil e trezentos habitantes vindos do mundo todo, muitos homens endemoninhados muita gente em fórmula de capeta. A cadeia estava repleta de homens os mais loucos possíveis. Esses animais maus, degoladores, assassinos, estupradores, esquartejadores aguardavam o fim do ano com ansiedade e gargalhadas histéricas. Entre os bandidos perversos e da pior espécie e dos mais perigosos, o melhor dos piores deles, segundo altas estatísticas e medidas cranianas e pesos encefálicos, era o tal e qual chamado de Jupicanga.
            O arraial da ilha de São Vicente sobrevivia as duas últimas semanas do ano com a ideia nas comemorações e folias e patifarias. As casas se enchiam de reboliço, as ruas de enfeites, as pessoas de músicas ou brigas arruaças bebedeiras. Na maioria ex-soldados ex-marujos mamelucos casados com índias ou negras escravas. Tipos desalinhados degredados ou desertores ou náufragos de navios piratas, a pior espécie, a ralé do restolho e que tinham sido banidos execrados em pelo mundo afora, etc.
            Então, como sempre acontecia na vila de São Vicente na ilha de São Vicente, durante a última quinzena do ano, uma tradição ilhoa, se fazia a escolha, e por voto dos moradores e visitantes forasteiros, se escolhia um presidiário para que ele governasse a ilha durante cinco dias, os últimos dias do ano.
            Naquele longínquo ano de 1537, os votos deram a maioria ao famigerado e desalmado ao facínora indigitado Jupicanga. Sujeito sujo e sanguinário e escroto autor confesso de dezoito mortes por encomenda e mais umas quantas e perdida a conta por desfastio para ver o tombo para ver a sola do pé, etc. Foi mandado de Portugal para o degredo na colônia na capitania de São Vicente e aqui ali ainda fez de pior que a encomenda e melhor que a tradição. Um animal troglodita da pedra lascada.
            No dia vinte e cinco de dezembro retiraram Jupicanga da cadeia e o conduziram ao casarão colonial que era uma espécie de prefeitura da vila. Lá o empossaram, com pompa e circunstância, ao cargo mais alto do arraial, com tapete vermelho e jarros de flores e cochinhos de frutas da estação. Vestiram-no com as melhores roupas, as maiores pedras preciosas, uma coroa de ouro, um chicote cabo de prata. Rodeado de pessoas influentes e de vastos cabedais. Rodeado de subalternos e subalternas e capangas e cupinchas e puxa-sacos. Rodeado de nuas raparigas virgens rosadas bonitas risonhas gostosas e raras raras.
            E o governador Jupicanga podia baixar decretos e estipular leis e dar muitas ordens aos borbotões. Baixou decretos, assinou leis e deu muitas ordens aos berros aos pontapés. Sempre com autoritarismo e arrogância e gargalhadas e empurrões e cuspidas. Na base do lenta gradual e segura.
            Jupicanga mandou todo mundo para aquele lugar. Pegou três quatro raparigas e se internou nos quatorze dias de um quarto de suíte. Liberou bebidas a todos comida à vontade e rios de dinheiro para gastar. E seus mínimos arrotos eram comemorados com palmas vivas gargalhadas e tapinhas nas costas. E seus mínimos anseios eram atendidos prontamente. Uma bagunça ampla geral e irrestrita.
            Durante os quatro cinco dias de governo, Jupicanga fez tudo que passou pela sua cabeça de malfeitor. Quase nem dormiu e soçobrou bêbado e drogado. Livrou da cadeia todos os seus colegas e sócios. Distribuiu sesmarias para os familiares todos até a quinta geração. E quis porque quis viajar à Bahia. E planejou botar os filhos a estudar em Recife. 
            E foram cinco dias de loucuras e muito samba e muita folia de frevo e maracatu e congada e coco agalopado. O arraial tremeu fervendo dia e noite. Todo o povo festejou em estado de euforia êxtase delírio. Cinco dias sem tirar de drento.
            Nos últimos segundos da última hora do último dia do ano por expirar, e quando faltava nada para acabar o governo, isso bem à meia-noite, Jupicanga, de passado de estuprador e homicida e ladrão perverso, foi com seus próprios passos e lentamente ao centro da única pracinha, no pelourinho, ao cadafalso, rodeado de todo o povo do arraial de São Vicente. E abriu os braços em pontos cardiais e como JC.
            Ali, na pracinha que levaria e trocaria os diversos nomes de acordo com o tempo ao longo dos tempos, ele já sabia, já estava ciente, já estava careca. E seria executado diante de todos. E para o bem de todos, para um próspero ano novo, para um sucesso com muito dinheiro mulheres sombra e água de coco. Ele nem tinha mais cura nem pensou em dizer qualquer coisa em ajoelhar em pedir um padre em rezar.
            Soou o último minuto da última hora do último dia e pronto, o povo gritou bem alto, descarregou as garruchas para o alto, jogou os chapéus de palha, soltou foguetes para as estrelas, uivou, vivou, bateu tambor, etc., e o carrasco puxou a alavanca que soltou a trava do alçapão, tum!...
Jupicanga pedalando o ar. De imediato os pés bateram no ar em vão. E eram e foram os dois à procura de algo para se apoiar e nem tinha onde se apoiar. As pernas desarticuladas loucas desengonçadas com pés perdidos no espaço vazio sem apoio central. O povo sempre dançou ao redor das fogueiras aqui ali acolá na tribo na caverna e na pracinha com o nome do primeiro enforcado.
            A execução de Jupicanga seria exemplar e bem como ele sempre mereceu. O ponto alto da virada. Tudo porque o povo miscigenado procedente de todos os rincões do universo moradores compilados pelo grande acaso de São Vicente queria entrar no ano novo de 1538 com os pecados limpos e bem pagos e o pé direito e o pelo-sinal.
            O ex-Jupicanga foi morto com perto de mais ou menos os novecentos e oitenta e cinco tiros, número de habitantes homens adultos votantes do lugarejo, depois esquartejado, depois repartido em pequenos pedaços, até virar frango desfiado. Cada um do povo - somente os homens adultos eleitores - levou seu pedacinho para casa onde ia fazer um caldinho um ensopado para comer junto dos seus da família um naquinho para cada um e com outros acepipes e quitandas e doces e iguarias. Para dar sorte saúde e prosperidade, que três coisas como estas já bastam.
            E todos ficaram contentes e satisfeitos e tranquilos porque o ano novo ia ser bom e promissor e límpido e sem pecados.
            Pronto, o ano novo...
            Uma manhã que era de claridade que nem se sabe em os contrafortes da serra do Mar. A saracura-do-mangue gritou chegando nos raios poderosos do sol, as ararapirangas em casal grasnando no rumo do continente dos oitis-da-beira-do-rio, os guardas-várzeas rinchando na azeitona-da-terra. O dia bem cantante aberto claro brincante aberrante verde alado, papos-brancos, tietés, batuíras-do-campo, socós-grandes, maitacas-roxas... um mico-leão-dourado-da-cara-preta comia tarumã, aruá-do-mato passeava de casa nas costas...
            Como a manhã como o sol como o mar aberta amarelo tranquilo que surgiam comemorativos pela frente a curto médio longo prazos.


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