Entrevista Com a Doce
e Fraternal ENIGMÁTICA
Eu
estava no café-bar porque adorava e venerava bares-cafés o Taquari-Guaçu. E já passavam
os seus dez minutos. E era naquele ano abalroado do 168º da Independência. Com
meus dois camaradas cupinchas, o Itimirim e o Alambari. Sentados os três numa
mesinha para quatro. O garção nos trouxe um tubo, ou torre, cheio de chope
gelado - chope a metro. Depois também veio batata frita, veio queijinho em cubo,
então, tá.
-
Isso mesmo. E me disse me disse que aconteciam mais coisas surgiam coisas, é.
-
E O MUN-DO SÓ A-CA-BA QUAN-DO CA-IR DE A-VI-ÃO!!
-
Porque somente os alemão e as alemã, originais, sabem reproduzir as mais
mulheres especiais bonitas lindonas e macias; em resumo total: loiras.
Fomos bebericando
e tal falando de meninas e de futebol e mais nada. Conversávamos. Rimos mais
que conversamos. Às vezes ríamos da piada sem mesmo entendê-la ou articulá-la
direito. O ambiente nem era muito à vontade para trocar altos papos, muita
gente se mexendo, zunzum, um entra e sai, música alta pelo ar, fumaça,
relinchos, foguetes lá fora para vivar futebol de gol, casais acalorados, etc.
Mas estava ótimo. Frases de lugar algum para nenhum lugar:
- É, sempre
foi assim: quem ri tem razão.
- Quem ri é
superior.
- QUEM RI TEM A
ÚL-TI-MA PA-LA-VRA!!
- O macaco-de-bando
ri a hiena ri o papagaio-poaieiro ri...
- E pulando de
saco pra mala... Alguém já ouviu das principais e mais importantes ipseidades,
autarcias, gnosiologias?
E havia muitas
meninas rodando pelaí, passando, rindo, bebendo, quase convidando para beijar
na boca e coisa e tal. Nós três ficamos bebericando, rindo, olhando,
comparando, descartando, comprando, discutindo, apostando até o máximo do nosso
salário mínimo. Rindo e relinchando mais que conversando. O Itimirim comunicou:
-
Sabem o que tenho vontade de nem fazer? Ah! ah! ah!...
Eu
ia respondendo com outra pergunta... aí, antes de lhe responder com outra
pergunta, escutei alguém me chamar de uma mesa próxima:
- Ei! Oh, seu pá-lerma! Aqui! Nem me conhece
mais?
-
Ah é, é!
Deixei
meus camaradas nem me despedi, pensando talvez que fosse breve e retornaria
imediatamente, e fui até a mesa vizinha falar com cumprimentar a Juquiá. Mulher
tem prioridade sobre qualquer outro interesse e tal. Meus cupinchas que me
esperassem, ficassem chupando o dedo, que entendessem, que ficassem no ora veja.
Que que ela queria? Que que ela mandaria.
Queria me
cumprimentar, me ver, me apresentar as suas amigas, uma duas três e quatro com
ela cinco ali na mesa um sambinha rondando econômico de mão em mão. E eu sentei
na cadeira que Juquiá me indicou a Juquiá me ofereceu. As gurias eram todas
mais ou menos, vá lá. Sentei entre a Juquiá e...
-
Como se chama mesmo? - perguntei.
Daí
a Juquiá me apresentou para as todas ali. A que estava me deixando tonto,
sentada ao meu lado, se chamava Cotia. Tentei gravar o nome e que me lembrava
um bichinho sapeca do zoológico de Sapucaia do Sul. Um bichinho encolhido
tímido esquivo entre as plantinhas atrás do cercado tela de arame no zoológico:
-
Hum... Cotia, hein?! Nem me é estranho. O nome daquele animalzinho, né?! O nome
daquele rio, hem?! O nome ou sobrenome da
atriz da novela do filme tal e qual, nem me lembro, nem é?! Com certeza é nome
de flor ou de árvore também, nem?! É nome de rua, nome de praça, nome de cidade,
nome de doce que as mulheres de Pelotas fazem com muita receita e tradição e categoria
e suspiros, hein?!
Ela,
Cotia, trincou, tilintou, zumbiu, zumbizou:
-
Achou o meu nome bonito? Você mora no bairro? Conhece a turma? Quer acompanhar
num sorvete de pequi com açaí? Um samba, guaraná com cachaça bastante gelo em
cubo e rodela de limão na borda?
Me
perdi em conversas que iam e reviravoltavam sem que eu tivesse intenção firme a
respeito. Nem lembrei nem importei mais os meus dois camaradas que ficaram lá
noutra mesa noutro hemisfério chupando o dedo outra dimensão. Uma vez ou duas
na História com H maiúsculo olhei para eles e os dois estavam meio aborrecidos me
evitando me detestando me cuidando de viés e chupando o dedo. Nem podia fazer
nada, nem podia perder um minuto nem podia trocar elas por eles. Tinha que
ficar perto de Cotia. Aquela horinha que a conheci nem podia deixá-la, acho que
nem pensei mais outra coisa, etc. Que entendessem lá os meus amigos e depois eu
explicaria tudo e pediria desculpas teriam que entender e me esperar e me
perdoar. Paciência. Era outra coisa mesmo. Menina tem prioridade sobre tudo e
todos no mundo. Até porque o mundo foi forjado desse jeito. Até porque são
sempre elas que dizem sim... ou não.
Perguntei
para a minha Cotia, assim, só interessado nela mesmo:
-
Sabe o que tenho vontade de fazer? E nesse momento?
-
Sei lá, meu! Nem imagino! O que será?
Ela
me olhou de alto a baixo como se olhasse um bicho exótico com bico de pato e
garras de tamanduá-bandeira e cauda de macaco-de-cheiro. Como se olhasse um
bicho falante e uns dentes de capivara. E o bicho esquisito, esquivo, eu mesmo,
era verde com duas anteninhas, três perninhas secas e um relógio em cada
orelha. O bom foi que, por fim, levou na esportiva e jogou:
-
Beber mais um sambinha com rodela de limão verde! Tudo bém!
O
grupo das meninas, onde eu estava metido e aportado e transplantado, se repartiu
em conversas paralelas bisonhas bifocais. Eu e Cotia nos entendemos e ficamos
nos avaliando. Ela me olhava com interesse, eu a olhava com interesse dobrado. Tentei
pegar na mão mas ela já me evitou. Eu ria pra ela e ela, me entendendo sempre,
ria pra mim. Talvez o mundo já estivesse parado e só aguardando o meu sinal.
Talvez o mundo já fosse mesmo travado e eu que me iludia. Talvez o mundo já andasse
encarcerado pelas ruas e prédios da cidade preso ao labirinto no tubo de ensaio
de algum cientista no diagnóstico de algum profeta. Talvez o mundo já nascera entubado
ou encubado ou encasulado ou encasquetado ou encascado como jabuti-carumbé. Esperando
que sinal? Ela calcou de cima pra baixo:
-
Você tem olhos... verdes, é isso? Como é olhar tudo assim por tudo por aí com
essa cor esses olhos, em?!
-
Você leva muito feminino no cabelo esse enfeite de flor, entende?!
Eu
expandi até para o céu lá fora estrelado quem sabe estivesse. Eu expandi até o
Estado de Porto Alegre na capital Paraná. Eu expandi até nadar no rio da Prata
perto da cascata da Usina no domingo de tarde. Eu ampliei até Nova Hartz e
Praia Grande e Tapejara e Cedral e Itagibá...
-
Tenho? Às vezes. Durante o dia são mais verdes que à noite. Um processo original
de tintas misturadas em contato com a luz natural e outros quantos de deneás.
Ela
passou e repassou e aprofundou os seus olhos coruscantes nos meus olhos faiscantes
e etc:
-
Sabe por que pergunto isso? Vou lhe explicar. É que minha mãe também tem olho
verde. Aliás, um verde e outro azul-claro bem clarinho, eu acho. Isso sim que
me impressiona, entende?!
Eu
tentei fincar bandeira brasileira tremulando na Amazônia dos índios mapuá, rio
Capinguí, praça Raul Pilla:
-
Ah! Por isso que seus olhos são assim... acho que... assim meio que lilases ou
coisa parecida. Nem sei se concorda comigo. E seus cabelos pretos ondulados que
sugerem aperfeiçoamento em gerações e deneás.
Ela
até arregaçou as magas da blusinha, cruzou as pernas grossas, a perna esquerda
sobre a direita, um braço que apoiou no encosto da cadeira, uma blusinha xadrez
com barbantes para amarrar em volta do pescoço o decote e cheio de florzinhas
artísticas elaboradas criativas chamativas estilizadas compiladas em
acabamentos bordados:
-
Você gostou de minha pessoa, nem? Diga sempre a verdade me olhando nos olhos.
Você já me ama, é?
Eu
caminhei ao encontro dela em câmara lenta em câmara lenta:
-
Só quero saber, daqui pra frente, como vai ser da sua alma. Sua pessoa
propriamente dita e profunda. E nem me importo se acredita em D ou no acaso. Se
reza para oxalá ou um arroiozinho que corre entre as pedras e aguapés-brancos
da cidadezinha de Nova Pádua.
Cotia
nem se segurou. Olhou rapidamente pra baixo, voltou a me olhar nos olhos, olhou
para outro lugar, e:
-
Nossa, meu! Que profundo esse jogo. Nem cutuque a onça com vara curta, meu! O
paraíso é numa ilha do Atlântico. Quem sabe um dia ainda vou morar em Ilha de
Itamaracá.
Talvez
o mundo já estivesse brecando. Talvez o mundo já estivesse se acomodando na calçada
de um anoitecer olhando o trânsito o desfile das famílias dos pares de
namorados o dia caindo a noite levantando. Talvez outros talvezes. Talvez eu estivesse
assistindo ao trem fantasma ao navio fantasma à espaçonave alienígena noite
clara e temperatura amena. Talvez eu estivesse num momento de há muito
esperado. Talvez eu ainda nem estivesse maduro e pronto. Talvez eu estivesse
deixando Enigmática. Talvez eu estivesse ouvindo um zumbido de cérebro
desmoronando, biuuu!... Talvez estivesse no rio Solimões voltando pro mar numa
condição de peixe pacamão:
- Olha só como
eu era!
Sussurro
no ouvido dela, já sentindo o perfume da orelha de Cotia:
-
Trabalho... numa farmácia. Farmácia Furuba, ali no bairro São Cristóvão, rua
Itália com Cristo Rei, em frente ao capitelzinho do santo padroeiro.
Ela
esclareceu, soprando um hálito doce de sorvete de pitangas trescalantes nos
meus olhos:
-
Acho legal, meu! Sério! Eu trabalho na fábrica de calçados Araguá. Parque Industrial,
rua Cruz e Sousa, bairro Piau. Quase esmoreço todo santo dia. Muito calor no
verão, muito frio no inverno. O serviço o mesmo o salário o mesmo já faz uma
cara, meu!
-
Acho legal, digo eu. É, sim! Embora tô aqui querendo mesmo é abrir. Vou pra
capital, acho, um dia desses. Ou no ano que vem, no seguinte, quem sabe. Se nem
vou pra capital vou para outra cidade, outro Estado, outra capital, mas vou.
Esses dias pensei em Vitória, mas aí depende de outras coisas, você sabe.
-
Hum... É melhor, parece, né?! Faculdade, outras coisas legais... legal. Meus
parabéns! E você merece.
-
Você nem quer sair pelaí?
Talvez
o mundo já dormisse o sono dos justos apóstolos. Talvez o mundo já estivesse dando
tudo de si tudo que podia. Talvez eu já nem estivesse nem aí. Talvez a iara estivesse
dormindo com a cabeça no rio São Francisco e os pés no arquipélago de Fernando
de Noronha e de Marajó.
Confessei,
medindo nossos narizes, olhos nos olhos, queixo com queixo, quase beiço com
beiço:
-
Nem sei ainda quando.
-
Tem tempo pra pensar. Vai acabar decidindo ir. Eu sei. É sempre assim. Pode
crê.
-
É, viajar é demais mesmo. Eu queria ter asas, e é quando se vai muito mais rápido.
-
Todo mundo quer viajar, decide viajar e quase todos viajam mesmo. É para longe
ou para perto, mas viajam, vão embora e às vezes, por que não?, desaparecem,
desaparecem.
-
As montanhas escarpadas com mata atlântica... Tem um rio chamado Cristalino...
Os pássaros da fauna, ajuruaparas, cucus, tiês-pretos, arapongas, garrichas,
cantos-de-macaco...
Talvez
o mundo já estivesse desistindo de tudo. Talvez o mundo gostasse de namoro e
estivesse parando, olhando, parando a namorada na parada, os dois indecisos.
Talvez eu estivesse dormente sonolento preguiçoso. Talvez eu estivesse olhando
uma paisagem de cartão-postal e ficando nisso: me sentindo como por um triz; e
me achando em boa paz e circunstâncias.
Talvez
a dona Caixeta cinco filhos menores devendo o último aluguel abandonada pelo
marido namorado preso por venda de drogas estivesse trabalhando à noite pelo
pouco mais que o salário mínimo.
Cotia
voltou do riso, voltava rindo, rindo e me olhando e louca para me dizer, e
juntou:
-
O meu salário tem uma piada. Quer ouvir?
-
Conte, comigo.
A
primeira coisa que olhava numa menina, numa guria era a boca, os dentes, o
hálito, a autoconfiança. Que cheiro tinha a boca o sabor da Cotia. Sempre,
antes que me esqueça e em um minuto, já vou tocando os ombros o ombro mais
próximo - continua até hoje sendo uma mania. O que sempre procurava ouvir, daí
por diante, era um riso de guria ajustado a um corpo desejado um riso de
flauta-doce de passarinho cambaxirra de cigarra. Quando beijar na boca o gosto
tinha que ser de morango maduro ou sorvete de pequi ou limão puro ou de
dentifrício gosto de açaí igual da Cotia quando sorria quando ria.
-
Que árvore você é?
-
D fechou os olhos e olhou tudo em volta. Nem havia nada. Parece simples, mas
complica. E por isso calculou calculou calculou... Pensou uma pedra e inventou
uma pedra e colocou uma pedra. Nem de falar nada. Uma pedra do tamanho de um
bonde. E a pedra levou um tempo para sobreviver diante das intempéries e
sobreviveu.
“Aí,
o que mais? Dias de paz incondicional.
“Então,
D voltou à tona e plantou duas plantinhas guarantãs. Era 1985 e aquela história
de distensão abertura e transição... As duas plantinhas vicejaram depois de uma
boa e longa chuva. E pronto, viraram um h e um m.
“O
casal teve uns 80 filhotes. Todos eclodiram amigavelmente sem predadores por
perto. Vários na variedade. Apareciam na areia da praia e se arrastavam até a
água. Quando morria um logo era substituído por novos dois ou três. Muitos
elogios. Muitos abraços. Os que morriam voltavam na condição de pássaros
árvores coisas e outros materiais de utilidade pública, coxa-de-frango,
boca-de-velha, unha-de-morcego, braço-de-mono, cabelo-de-negro,
coração-de-estudante...
“Pois
é. Quando fotografei a cidade de Água Doce assim do alto um dia eu te mostro a
foto fotografei do alto do morro eu sem querer fotografei junto por obra do
acaso um disco voador um óvni. Sim senhor! Em pleno céu de anil! Eu te provo,
eu te mostro! Nem acredita?!
“E
tudo que se vê por aí tem a idade do tempo do espaço do sol da lua do vento das
águas do rio que vão pro mar.”
No
conjunto da obra eu estava siderado hipnotizado hipotecado. Trocamos telefone, cumprimentos,
beijos, abraços muito ternos. Fomos nos levantando, nos afastando, já passava
da meia-noite. Acompanhei a suçuarana até o carro das meninas. Beijei no rosto
dos dois lados com ternura ternura. Meus dois camaradas cupinchas nem sei se
ainda amigos estavam cansados de esperar e me aturar e me ver por um triz.
Deles dois fiquei com pena de pato-almiscarado. Eu já segurava uma mão e falei
pra ela nós dois um casal de pombas-rolas:
-
Quando volto te ver?
-
Quando for da capacidade de D.
-
Mas eu queria te ver ainda amanhã.
-
Pois vá ao balneário do rio Retiro, então.
Me sentia bem rondando
no mundo redondo. Talvez o céu estivesse parando mesmo, e esperando por mim.
Tudo bem. Talvez o céu estivesse andando em câmara lenta mesmo, e só me
aguardando. Talvez o céu estivesse cheio de estrelas coruscantes, algumas
cadentes, e astros e espaçonaves visíveis e invisíveis, e eu apenas pensando em
mim e por um triz. Eu era um tibirro-do-brejo gorjeando na manhã inaugurada e por
um triz.
A
oportunidade realiza, mas depende. Sempre fui um cara comum. Se tivesse jogado
se tivesse acertado na mega-sena.
-
Deu no que deu!
Os
meus camaradas estavam acabrunhados chateados doentes de misericórdia. Acharam
frustrante me esperar e me ver por um triz. Andamos andaram comigo um de cada
lado juntos fumando andando emparelhados curiosos reticentes eles mais mamados
que eu. O Alambari perguntou alguma coisa assim do seu jeito falando alto e
sincopado lá do jeito dele que a gente já tinha assimilado e sempre que chamava
a atenção dos circunstantes:
-
VO-CÊ O-LHO-U DEN-TRO DO DE-CO-TE DE-LA E SE FOR O CA-SO?!!
***
Nunca
me esqueço mesmo. Trinta ou vinte anos atrás, eu vinha da bodega do seu
Guanumbi, rua Itaoca, vinha com cinco cervejas na cara, nos cornos, cervejas e
queijinhos e salaminhos, mil conversas e risos miudezas sobre nada nada. Tropeçando
vinha lembrando de Enigmática, falando sozinho, lembrando de Cotia, resmungando
sozinho e baixinho e bem no ouvido íntimo de mim muá:
-
Aquela querida pessegueira!...
Urubus
de preto e pontas de asas brancas em pleno sol das 13h e 31min. Céu azul sem detalhes.
Eu diria sem manchas. Carros um que outro, casas acompanhando as ruas de
paralelepípedos, som de nem sei onde com nem sei quantos decibéis, som a todo
volume à vontade pela rua mormacenta as árvores da pracinha, dos quintais, as
que acompanhavam a rua, árvores de tons de verde quase todos os verdes desse
planeta, urucuns-da-mata, perobinhas-do-campo, angicos, jacarandás, leiteiras,
saguarajás...
Domingo de
tarde, cães de língua de fora sentados na sombra, sem um ruído no mundo, um que
outro raro automóvel pela rua estreita e sinuosa. O ala do time, o Beruri,
descia em velocidade com a bola nos pés, ala da direita, controlando a redonda,
já estava perto da grande área adversária, talvez fosse cruzar, talvez driblar
mais um, talvez chutar direto, talvez bicar para o alto para fora do estádio...
Pois o sol nem
muda de ideia. Se o sol nem muda de ideia fraçamos o seguinte.
Por uns
tempos, por minutos, por muito tempo, nem me lembro quanto quando como por que
vaguei pela floresta. Contei as árvores caso a caso no acaso,
perna-de-saracura, bico-de-arara, canela-de-garça... E tive esse tempo todo
para pensar. E nem pensei em nada absolutamente.
O mato tanto
ou quanto iluminado barulhento ruidoso conversador, ipecutauás, pixoxós,
maçaricos-do-campo, caraxués, ferros-velhos, amarelinhos... eu nem podia nem
queria nem conseguia me concentrar.
Era como um
maracajá ressabiado que olhava a cada segundo para todos os lados nas direções
possíveis. Se podia dizer que dividia espaços com ariranhas, porcos-do-mato,
saimiris, iaiás-de-cintura e... oi-oi-oi-tiiiooo!... sabiás-laranjas.
Repeti isso
várias vezes durante o dia:
- Porque ela é
lei!
E nem mais
tirei todas aquelas ideias do pensamento da cabeça da cachola. Isso mesmo.
Pelas trilhas umbrosas da mata, buriti-palito, mirindiba-bagre, tararanga, pacaí,
angelim-de-morcego, arimaru... Olhei mais uma vez para Enigmática. Nem havia
mais o que fazer o que errar, perguntei:
- Para que
time você torce, Enigmática?
- ?? Oi?! Como
é que é, como é que é? De que como é que você me chamou?
E fomos dia a
dias dialongando:
- O seu nome,
pra começo de conversa.
-
E-nig-mática!
- Pra onde
você vai sair nas próximas férias de natal e final de ano e carnaval?
- Bem, a bem
da verdade. Um pouco de sorvete faz bem. Sobrenatural de qualquer espécie,
obrigada. Pra onde vou agora digo eu. Penso três palavras. O que foi mesmo que
a nuvem abanou? Quando o planeta aportou e nunca foi minha amiga do peito. E
nem te digo nada. As árvores categóricas. Eu queria lavar os cabelos depois das
23 e 24 mas achei muito em cima de dormir. Muitas coisas pra se divertir e me
direcionar. Entendo perfeitamente aquele vento entre as árvores e as cores
verdes deslumbrantes das folhas farfalhantes. Os matizes dos jenipapos-rosas,
uma vez. Os hábitos costumes dos caxixó.
- Onde você
tem andado e o quê?
- Hum...
Chapéu de palhas trançadas de carnaúba.
- E se você
nem fosse D?
- Certa vez me
acompanhei numa dessas minhas caminhadas e passeios os meus divãs móveis ambulantes.
De vez em outra olhava para trás, tranquila, roupas leves, boné de pala, óculos
escuros. Tinham construído prédio novo a poucos metros. Parei na sombra do
guarabu-da-serra e enxuguei o suor da testa. Mas por pouco tempo, dois ou três
minutos. O agitar das folhas me dizia que o vento vinha chegando de passagem pelaí.
Uma hora ou outra encontrava cachorro vira-lata e estalava o dedo. De qualquer
modo e como ultimamente nem bem sabia mais o que fazer. Olhando a cidade e
descendo ao seu encontro, dela cidade em ao seu redor, bela cidadezinha, muito
mato e pouca pracinha.
- É, né?!
- Depois
daquele dia, todas as luas que encontro reconheço se me parecem iguais e
parecidas e as mesmas. Tem lua de foice, tem lua de prato, de queijo, de berço
esplendido.
- Você gosta e
prefere o longe ou o perto?
- Para quem
quiser para os índios uaurá ou os jenipapo-canindé ou os ingarune, os cracmum, etc.,
o que vale é o conselho dos mais velhos e anciões e sábios. Que são fantasmas e
ao mesmo tempo muito humanos e presentes. Moram nos vasos camotins. Também
alguns reaparecem como bicho ou árvore ou corixo. Partiram mas voltam quando
precisam voltar basta serem chamados. Os pajés têm o poder de acordá-los e
acordá-las. Nem demora nada. Se prega a fé se acredita nos mais experientes se
acredita na prática, é isso.
- Quando você
foi árvore? Quando você foi gigante?
- Já na
descida do sol para a noite estrelada. A montanha era maior no meio do azul. As
árvores se misturavam, tibornas, carajurus, buris-do-campo, cebolas-bravas-do-pará,
mapuxiquis, paracuris... O horizonte mais próximo e que categoria! O centro do
mundo mais no meio do lago. Árvores com verdes na voz e perfumes aromas doce
nas folhas, língua-de-tucano, orelha-de-onça, pata-de-vaca, mão-de-gato,
cabeça-de-frade... A serra do Cunha caía na cabeça de quem olhava. O rio Passo
Fundo se apressava na cascata. Os maracanãs comendo frutas-de-papagaio. As
sombras das árvores deslizando conforme o rio. As sombras aumentando conforme o
vento. As sombras mudando de lado conforme a temperatura. As nuvens namorando
nuvens conforme o parentesco. As horas apostando maratona no campo alto do
firmamento.
- E você
usaria óculos de grau se fosse o caso nem se importaria com o que fossem dizer
com o que fossem rir e pensar?
- É. Deve ser
difícil negociar a última a única coisa no mundo que existe, as fotografias
antigas. Parece uma mungubeira inteligente e melhor que a maioria. As pessoas
na rua com calma bem domésticas patos andando engraçado cavalos relinchando
engraçado bocas de sapos engraçadas. Onde está ficando quem seria a mais urbana
povoada? Acho que nunca mais vai acontecer de novo e a perda dos giros e giros
em volta da praça no carro conversível honesto moderno vermelho. Parava na
esquina saía de casa me olhava da janela na esquina me via na janela olhando a
esquina sem sequer sem dizer nada. O que salvou foi um pouco materialista. D
apontou mediu comparou aquilatou pesou e com o dedo de deus. As crianças caindo
o queixo no cãozarrão da vitrine.
- E os dias de
chuva? Gosta, prefere, participa, recomenda?
- O rio
Vermelho que banha Xinguara. O rio Urupá rente de Dois Irmãos do Buriti. E rio
Anari limite separa um lado de Ivinhema e outro de Venâncio Aires. Em torno aos
rios perto dos rios a mata as árvores um casal de seriemas outras árvores
vizinhas araticum-do-brejo, juruvá, muriti, cragoatã-branco... muitas folhas
tagarelas copas e mil falas. O rio Caipora continua do seu jeito.
- E se fosse
morar na tribo dos cupinharó?
- Minha amiga
Janaúba foi para a serra do Coqueiro falar e pesquisar e colher mel com os
ariqueme. Ela subiu o rio Palha de canoa. Os índios ali tinham uma empresa de
turismo ecológico autossustentável. Faziam a região com as voadoras. País das
formigas. A amiga e seu amigo preferiram ir de canoa que de avião de trem de
carro de asa-delta. As canoas eram feitas artesanalmente e de acordo com o relógio
biológico da biodiversidade local. De árvores nobres como louro-da-serra,
bicuíba-do-amazonas, moela-de-mutum, embaúba-puruma, caxuá-branca...
- O céu é nas
estrelas?
- A Janaúba
outubro para novembro desceu o rio das Minas. Ia de barquinho sentada na proa abraçada
ao amigo Tabujajá olhando as margens olhando a água olhando o céu de poucas
nuvens de vez em quando casais de jandaias-de-testa-vermelha pelo ar espaço. O
país dos mosquitos. Nem quis ir de trem automóvel ônibus caminhão embora
preferisse preferia o trem. Viajavam papagaios-de-cabeça-laranja e retornavam
periquitos-de-bochecha-parda. Ararajubas gritavam dentro do prazo de sete
horas. Macurus piavam em de euforia.
- Você já
esteve numa caverna numa gruta furna? Já esteve no Parna do Jaú?
- E se for o
único jeito em milhões de anos e espaços então tá certo vou fazer o meu melhor.
Já paralisei uma montanha-russa e isso de tanto gritar. O jardim em frente de
casa mudou de estação coisa perfeita antes de ontem e amanhã espero que
continue. Nem preciso contar nada a ninguém nunca. O que vem a ser e o que é:
conteúdo impactante? Seja para onde for o truque é o mesmo e simples embora com
a melodramaticidade. Tenho certeza de que sim, embora nem sempre. E no caminho
aquela explicação clássica clara percentual na hora h. Eu estava bem ali e
postada. Com autorização para trabalhar do lado de cá e circunstanciada.
- Quem foi
onde nasceu o tal e qual João Capistrano Honório de Abreu?
- O mundo ia
acordar em breve e o cacique Ibioca. E começar a contar os rios as aves as
árvores os bichos os peixes. Há mais espécies de peixes nos rios da Amazônia
que em todo o oceano. O rio Amazonas é abastecido por mais de mil afluentes-sócios-irmãos-contribuintes.
De manhã cedo os marabitana acordam levantar para plantar colher pescar tomar
banho fazer tudo o que tem de fazer. O babaçu fez óleo para passar no corpo
todo do índio da índia fez chapéu para vender na feira fez esteira fez tudo
cobriu oca tudo vem do babaçu. O rio mistura fantasia com princípio de dia a
dia. Um terço de todas as plantas do planeta. Em minha tenra idade na escola a
gente aprendia que o babaçu era mil utilidades e nada se desperdiçava.
- E você já
subiu em árvore quando era pequena pegar comer água na boca jabuticaba no pé?
- Era de verão
e de noite uma noite. Mas as histórias precisam de um clarão para acontecer. A
tribo em volta do fogo. Olhando o fogo ouvindo o cacique Meruquiá filho do
cacique Ibioca. Do outro lado do rio, do lado de lá do rio, muitas
garças-brancas enfeitavam a árvore oiti-do-pará como flocos brancos de algodão.
A garça-branca bateu asas, desceu do ducentésimo andar, resolveu esticar o voo
para o lado de cá do rio. A garça-branca parou de narrar história do começo das
idades, pediu água, alguém jogou ainda lenha na fogueira. Lá fora da oca a
chuva deu mais dois passos e parou. A história do cacique Meruquiá parou por
ali mesmo. O rio dormindo. A garça-branca cochilando. E o mundo era outro. A
coragem do cacique Meruquiá era feita de rios árvores aves pássaros peixes
montanha abelhas. O cacique filho do cacique Ibioca disse que ia se ausentar
para além das montanhas da serra da Canastra acompanhar a filha Narinari nos
estudos em São José do Rio Preto e nem sabia se já nem voltaria a falar com
mais ninguém.
***
Hoje
mesmo, já recém e agora, eu estava mesmo almoçando e lendo o romance Diva,
livro fabuloso rural do famoso João Simões Lopes Neto. Estava lendo os momentos
finais da história e almoçando quando me parei e fiquei me pensando, o livro
passava numa minissérie de tv, me intrigando, pensando, pensando... as orelhas de
abano grandes indo e vindo, ardentes, clecleque! clecleque!...
Eu
tinha, naquela altura dos idos de 1971, eu tinha uns 12 anos e dois meses e
doze dias e seis horas e uns minutos que iam passando mais ou menos rápidos e
sorrateiros e confusos e orbitais.
Aquela
manhã, 10h e 10min, eu subia o morro do potreiro da dona Manicoré rumo onde ela
plantava na rocinha uns pés de cana-de-açúcar. E a gente ia lá quase sempre só
para roubar cana ou melancia ou bergamota ou guabiroba. Era minha ideia. E eu
nunca tinha nada que fazer de pela manhã quadriculada.
Sentei
na terra vermelha, calção sujo sem camisa, de repente se eu descobrisse uns
rastos de lebre ou onça-vermelha ou jaçanã crucitando ou guará assoviando ou sagui-de-coleira
pulando ou acuri botando frutas amarelas maduras até seria melhor umas
pedrinhas bonitas de cristal ametista seria sensacional, e bati a cana na pedra
até amassá-la. Olhei as horas do sol... umas 11h e mais 12min.
Eu
fechei os olhos em sol muito forte e nem mais acreditei no que estava vendo e
ouvindo e acreditando. Uma vez ali na floresta e araucárias e etc. Depois tinha
os índios coroado. Mais depois umas trilhas no mato para passar com burros de
carga e passavam também carretas puxadas por parelhas de bois pesados. E em
seguida a cidade e de outras tantas. Eu estava ali de-boa na cidade ouvindo a
urbanidade imaginando a prosperidade na posteridade.
***
Nem
aqueles dias com 18 pra 19, nem hoje com os 40 pra 39 e meio, quando eu era mais
menino talvez 12 pra 14. E nem era nem mais nem menos contente. Quando eu era
mais menino que nunca, e isso já me dá arrepios pensar, quando eu era mais
menino, eu tinha essa mania boba de brincar de caminhar como um bêbado ou como
um macaco bugio. Depois me arrependia com receio do castigo dos céus. E outras
brincadeiras engraçadas que nem tinham graça nenhuma. Por quê? Nem sabia. Eu tentava
imitar um animal, uma ave, como um gavião-fumaça, como um cachorro, como um
ratão-do-banhado, um lacunari... E se o céu nem gostasse?
-
Meu amigo Guanaré saiu andando andando... pela calçada da rua Riachuelo. Do
lado que tinha os postes de luz. E havia muito verde em tradicional fila
indiana, cedro-cheiroso, jacaré-do-mato, madressilva-verdadeira...
Era
sábado à tarde e caía aquela chuva peneirada e meio gelada. E ninguém ouvia ou
via futebol. Uma chuva pra lá de engraçada. Ninguém falava de futebol. Nenhum
rádio, jornal de tevê falava ou mostrava documentário sobre os temporais na
Amazônia. Enfim, nem tinha jogo e o mundo era apático, aquático, aquário.
-
O Guanaré estava na rua andando andando... quando lá longe se juntou com a
Cambaxirra namorada trocaram beijo abraço olhar sorriso o de sempre que já
fazia uma cara uns dois anos que se amavam.
Sonhara,
noite aquela passada, que estava perdido numa cidade grande possibilidade para
São Paulo ou Curitiba ou Viamão ou Campinas e estranha e nem nada hospitaleira.
Um labirinto de ruas rodeadas de altos prédios, com janelas e roupas estendidas
nas janelas, nem havia sacadas, havia jardins cercados e cães nos pátios
cercados. Era um sonho recorrente, nem sei por quê. As ruas perigosas por causa
do trânsito pesado. Eu passava pelas ruas mais difíceis da cidade, trânsito
confuso e cheio e engarrafado. O povo me olhava com ódio com desdém com
perseguição com revolta. Pareciam prontos para me linchar me incendiar. Nem
diria só com ódio total, mas com desprezo muito grande, às vezes até o rancor.
Pareciam cachorros brabos esperando que eu tropeçasse para se jogarem sobre mim.
Ou simplesmente que eu desse as costas. Nem conhecia nenhuma rua daquele lugar.
Nem sabia também como fora parar ali em que tempo em que abandono. Uma sopa de
letrinhas em cada placa. Eu ia e voltava, era difícil passar ali outra vez. Tinham
sido quem foram tais e quais homens ou mulheres com nome de três a quatro sobrenomes.
-
Guanaré e Cambaxirra estavam nessa andando andando... ela acariciava a barriga e
mostrava e falavam da barriga dela e da próxima brasileira a vir andar andar...
por este mundo pelaí e etc.
Esss
dessspoisss usss vêntusss nusss seusss cabêlusss... A noite enxugando seu
capote escuro, a hora começando a tocar vários instrumentos de corda de metal
de madeira. Isso mesmo. Eu tentei chegar perto quando cheguei perto ela gritou.
O vento vinha mexendo com os cabelos da guria, e fazia as horas, e já fazia
cócegas nos ouvidos da guria, e ela olhando revoltar para o ninho.
***
Acabara
de comer muitos biscoitos de mel de uma lata de biscoitos bem em frente da tevê
e assistindo um filme sobre o antigo mar tido e havido no Nordeste. Encontraram
até peixe seco no meio das pedras. Tinha até muita areia entre um morro e outro
chapadão. Viram os morros com cara de plataformas onde os discos voadores
preferem em noites claras abertas.
Minha
prima Cambacica chegou para me visitar e com surpreendente. Chegou flutuando e aterrissou
na poltrona que lhe indiquei. Antes mesmo me deu dois beijos um em cada
comissura da boca bem gostosos promissores. Sentou e suspirou da boca pra fora
e me olhando de olhos turbinados. Eu pensei: é, estou por fora. Pensei ainda:
estou por fora porque esta peça - minha prima Cambacica - está uma loucura de
mulher está um cavalo e dando, dando pelaí, é. Mas eu... Nem, nem tinha nada
com aquilo. E continuava pensando: que preparo de mulher, meu! Coisa de morrer
ou de matar, escolhe, mue! Um doce divino feito no céu, né, eum! Depois e daí,
bem...
Naquela hora nem
chovia nem fazia sol, era verão e inverno ao mesmo tempo e mesmo espaço em
mesma importância. Para resumir, ficando quieto na minha, eu só quero dizer,
ainda hoje, que desejava me jogar com tudo pra cima dela, e beijá-la e lambê-la
e mordê-la... Esquece! Mas nem esqueço, e ainda hoje. O peitinho liso dentro da
camisetinha folgada. Devo esquecer. Devo nem nego pagar por isso.
-
Tive saudades das nossas risadas, lembra?! Ah! ah! ah!... - disse a Cambacica.
-
Eu queria nadar com você lá no açude, lembra?! Eh! eh! eh!...
Faz
alguns anos que nem vejo mais a Cambacica. Pintado o cabelo, os brincos de
odalisca, a pele do rosto mais ou menos mais endurecida. E fazer o quê. Impressionante
como o dia passa e a gente nem nota.
As pessoas são
iguais em toda parte. A sorte o rio é difícil porque realiza só uma opção. E a
sorte ou o rio sempre pega a opção mais perto mais em conta mais rápida mais
estelar.
Me aproximei
Cambacica sentada no sofá da sala e me aproximei. Me aproximei como um
sacerdote e pastor de cajado para apascentar ovelha desmamada. Ela queria e
ansiava de boca aberta água nos dentes espumante.
O meu cérebro
gritava um ruído ensurdecedor, zuuu-iiim!...
- Os cem pila.
A porta se
abriu de par em par. O tem-tem-coroado tinha de acordar e saltar e trocar as
horas.
- Licença!...
licença!...
- Sopesar...
sopesáveis... e de balançar... de vergastar...
- Faz caminha
que eu agósto...
- Os seus
cabelos são fofos... muito mais cabelos que... só a... depois de... alto a
baixo... do capilar até a copa... ufa!...
- A
constituição brasileira de 1824... nossa primeira constituição... a faculdade
de na área da diplomacia... Parnamirim no Rio Grande do Sul... foi na tribo dos
aricapu...
- Nem quero...
que se afogue... upa!...
-
RA-PA-RI-GA... ES-TOU-VA-DA... AAAIII!...
- Você gosta
de mel de rapadura... então...
- Desculpe me
apoiar me apoiei nos seus ombros senão caía as pernas bambas comecei a tremer as
pernas fracas você está ciente larguei todo o peso as pernas me abandonam...
- Você sabe me
explorar. Você cobra caro, hein? Esperasó que já volto...
Fui lá dentro
buscar a grana. Voltei. Antes que pudesse dizer soletrar, a-ri-cu-ri-ro-ba.
- Mais cem
conto total duzentinhos sua esganada.
Foi me
acarinhando com muita lentidão e interesse e carícia e eu diria até sonolência.
Com agrados e beijinhos e fosquinhas. Tão suave com as mãos o rosto o nariz e
as bicotas. Era um brinquedo profissional. Eu nem fazia nada. Às vezes eu abria
os braços como se estivesse na pregado na sacrificado.
- É por sua
causa... dependente...
- Lembra um
sorvete, não?... Uma espiga de milho... um pirulito... E badala badala...
- Você queria
ter um assim?... Eu imagino... todas dizem isso... todos os dias?...
- Agora
calma... muita calma nessa hora... oba!...
- Acho que vou
me... já vou me apoiando nos... seus ombros...
- Gosto de
brincar com... seus cabelos... cacheados... ora, ora!...
- A chuva
caindo... o guariba dono da tropa... braços cruzados... sim senhor imagino sentado
equilibrado na forquilha... a árvore luminosa... o mundo molhado... o céu
rachado em ziguezagues... parecia uma jalapa-de-mato-grosso... a chuva caindo
em cordas... o mundo respeitando a natureza...
- Eu sei eu
sei... você quer saber quem é o x quem é o y... nem eu sei... nem sei eu...
- Por favor...
nem tente... trocá-los de lugar... hum!...
- Encoste o
rosto... beija... cospe... comece tudo de novo do começo...
- Diga quem
inventou... o jurutau... nem pode falá... ufa!...
- E vieram
outras novas e interessantes constituições... a de 1891... a de 34... você sabe
o que é o que é... já ouviu dizer Ipiguá?... uta!...
- Tou com a...
ligeira im-pressão... pre-visão...
-
RA-PA-RI-GA... ES-TOU-VA-DA... AAAIII!...
Caí sobre ela
de novo seus ombros os joelhos duros os dentes firmes uma certa e estranha
raiva resistência esgotada e todavia com os meus pesos concretos de setenta e
tantos quilos.
- Sinto um
pouco de fome... uma sede gigantesca... uma câimbra mal se ajustando mal se
instalando... eu beberia um açude inteiro... de cerveja com batatas fritas...
- Tá tua tara...
vá os queixos... ah ah ah!...
Cansado de ficar em pé com as mãos forçando as
cadeiras, o rio pegou fogo, depois desceu o barranco, sentei me joguei
exageradamente no sofá em primeiro lugar, voltou para o leito seu lugar de
costume, escorregou barranco abaixo e cruzou os braços.
***
Uma
alucinação esquisita, das brabas, etc., nem entendia o que significava: cavalos
alados, papéis pastas cadernos livros alados, capivaras aladas, torres de
igreja aladas, outros quadrúpedes alados, ruminantes alados, paquidermes, deuses
e deusas alados, então nem se fala, meu! Os alados e aladas muitos, borboletas
gigantes, besouros grandões do tipo de helicóptero, pontes ligando o nada a
coisa alguma... o mundo possível pois nem só de dinossauros, em?!
Em
pouco tempo olho-de-gato mexeu flores amarelas, olho-de-cabra conversou flores
amarelas, olho-de-boneca falou flores amarelas, olho-de-pombo agitou flores
amarelas.
Na
farmácia, eu estava mais próximo de três ou quatro clientes freguesas. Me
distraíam. Escutava e eles trocavam fofocas os mexericos os diz que diz que.
Uma e outro bisbilhotando saber das histórias de todos eles. Entre os tais e
quais estava o pai da Enigmática. E a nossa amiga comum Xaiá perguntou ao pai
da Enig-mática:
-
Mesmo, é? A guria passou no vestibular?
-
É e tá-tá-tá-tá!...
-
Então, isso é bom, seu. Pra quê?
-
Geografia. Que é o que ela mais adora e sempre quis e tá-tá-tá-tá!...
Pensei
que o tal papo todo podia nem ser verdade e nem deveria mesmo ser verdade.
Continuei achando meio falso o que tinha ouvido, nem queria acreditar. Será que
escutara bem? Cheguei na hora certa foi será mesmo?
-
Ela trabalha no consultório da Drª Paturi Ipirá e tá-tá-tá-tá!...
-
E o negócio todo nem é meio puxado demais, seu?
-
Olha. Vai viajar de ônibus fretado duas vezes por semana até Caxias do Sul e tá-tá-tá-tá!...
Voltará e chegará pelas horas da madrugada e tá-tá-tá-tá!...
Então,
eu escutava duas verdades claras e lineares? Uma que Enigmática passara no
vestibular para geografia, e outra que tinha um emprego de recepcionista numa
clínica de emagrecimento ali na rua Lagoa Vermelha. E era mesmo? E outra: Vou
até lá?, pensei. Claro... que nem.
De
tarde Tangará saiu da oca para caminhar a ocara. Tinha a aldeia em volta a mata
e o rio que passava sempre ali pertinho. Descer o barranco e se banhar. O rio
nomeado Itacaiúnas.
E
se houvessem os tais e quais muitos enganos? Ultimamente, àquela altura dos
meus dias, nem confiava no que escutava e ouvia e olhava e intuía. Nem entendia
muito bem de mundo real. Nem precisava de futuro. Nem sabia exatamente até onde
ia a destreza da re-alidade. O que era real e o que nem significava essa denominação?
Tinha minhas dúvidas e meus parafusos soltos e... depois, bebia demais, fumava
demais, dormia de menos. Eu só nem perdia o sentido de sobrevivência porque tinha
sempre em mente os sonhos de Enig-mática.
Pois
o Tangará saiu como quem saía foi por aí para apreciar descendo no rumo do
leito do rio um carreirinho batido segurando casco-de-peba por causa do vento
tocando em cada árvore muitas favoritas pegando as árvores que ia encontrando
nhambuí, jacarandá, jerivá, virola, lixa, iperana, tapinhoã... todas pousadas
de jacamins, araçaripocas, vaqueiros, beija-flores-de-cinta, e guarandi
solfejando no alto da guabajara.
Garotas
como Enigmática são difíceis internacionais importadas, embora com motivos
nacionais e até local. Eu também achava... ou até achava com toda calma e
certeza e clareza, que Enigmática ficava toda se fechando e fechada no seu
mundo lá dela. Pensasse quem sabe em ser modelo em Rio de Janeiro, Recife,
Natal, Novo Hamburgo, Araricá, Bady Bassitt...
Quer
ser geógrafa, a guria geografia, hein?!, pensei, já meio pra lá de preocupado.
O
tal Tangará parou no alto do barranco e sentou na laje. Surripiou da gramínea
uma haste verde tenra suculenta para mastigar. Olhando o rio conhecido pela
prioridade da primeira vez. Quem sabe lá pela última hora. E todos os dias.
Umas tucuns palmeiras moravam na beira. Veio de lá uma gambá de sorriso manhoso
olhar importante e disse:
-
Espere espere, moço! Nem me arranque o couro, oquei?!
Tangará
surpreso olhou do lado e viu a gambá se aproximar pelo chão. Os dois se
encararam para daí em diante ficarem amigos. A gambá repetiu:
-
Espere espere, menino! Nem me arranque o couro peludo, uma vez!
Então,
a imagem de Enigmática subiu e desceu por mim, por dentro de mim, o dedo dela
se arrastando pra cá e pra lá sobre o atlas do meu mundo como coisa para entender
e nem descia. Pensei que tinha um sonho e que ela poderia estar ali dentro. O caderno
o diário lá dela carregado de montanhas e picos, chapadões e vales, rios e
baías e lagoas, reserva tupiniquim e praias na manhã de sol antes das 10h. Ela
se acostumaria fácil com as longitudes e latitudes e altitudes. As diferentes
línguas e cores de países. Sonhava e esperava visitar todas as regiões do país
e até morar na Amazônia Legal e na beira do rio Tocantins.
E
mais tarde Tangará retornar à aldeia passou pela extensão da ocara até sua oca.
A gambá subiu no pé de cumbaru alçou voo e sumiu no céu azul com poucas nuvens.
Foi visitar pernoitar na casa de parentes.
-
E que é que tem? - Tangará se perguntou.
E o meu
sentimento oficial por isso ficou ali na cidadezinha, mudo, ofendido, acuado,
bobo, embalsamado, perdido, encolhido como doente saí-açu-azul. É, ela
certamente estava assim pensando em se mandar do rincão da querência. Os olhos
perdidos no horizonte, e sem ver. Louca para viajar e se perder de mim. Pensei
num sonho que eu e ela a gente podia estar dentro e viajando e muito próximos e
rindo sem parar, pensei.
Com
o que Enigmática se importava? Com o mapa mundi. Com os rios afluentes do São
Francisco. Com as capitais das unidades federadas o número de habitantes o ano
de fundação. Com os parques nacionais, as reservas de preservação, o pantanal
mato-grossense, o arquipélago dos Abrolhos, o parque Cerca Grande, o curió
símbolo da BA.
Imaginava.
Seus olhos de procura denunciavam: ela era de viajar. Mas queria buscar aonde
encontrar o quê? Todo lugar nem é o mesmo lugar? As pessoas nem são todas
iguais? As praças nem são todas geométricas?, pensava.
Enigmática
queria atravessar a caatinga, o sertão nordestino, o Seridó. Navegar fora a
fora os cerrados de Goiás e Mato Grosso e Minas Gerais. Cruzar os ares num
balão colorido, apontar o dedo para o nome dos rios debaixo dum céu invejável,
apontar o dedo para as cidades e dizer o nome, São João das Duas Pontes, Manacapuru,
Montenegro, Osório, Ibiaçá, Cotiporã, Parobé... Caminhar pela costa atlântica
em noites estreladas, no sopro dos ventos diversos, navegar sem sentir e se
guiar pelo Cruzeiro do Sul, abandonar os pais e ir morar com os pacanaua os
bocaiú os caxuiana...
Um
dia uma garça-branca contou:
-
O mundo nem começou e terminou num dia e noutro. O mundo nem foi feito tudo de
uma nuvem só. Para falar sério o mundo nem era de doze meses.
Ela
a Enig já se via numa cidade usando cocar azul e vermelho conforme as araras.
Praticamente um país dentro do país. Umas ruínas rodeadas de histórias antigas
e lendas primordiais, sambaquis. Zoológico com jaguatirica-maracajá. Uma
estranha vontade de tirar fotos, tomar banho de cascata, ver preguiça no galho
da embaúba. Barcos nos rios, trens velozes, metrô bonito e moderno e
automático, tudo vermelho vivo e cheio de anúncios que vão trocando de imagem
de impressão. Estátuas na praça Marquês do Herval. Carnavais e desfiles de
carnaval gigante, praça São Geraldo, Moinhos de Vento, Cidade Baixa, Partenon,
Restinga, Belém Novo... De as plantações de prédios de apartamentos viadutos cidade
grande.
Já
sabia. Enigmática queria fugir. E fugir para onde? E fugir de quem? E por quê?
E fugir com quem? Sem nada na conta? Com a cara e a coragem bonitinha lá dela?
Com um corpitchu acima dos trinta quilos e todo tenro e macio e prioridade lá
dela mesma propriedade particular e autossustentável?
Era
capaz dela nem querer mais voltar. Nem querer mais sua natural cidadezinha seu
bairro com sua rua seu colégio de primeiras instâncias.
Quanto
mais longe pior. Nem me acostumaria? Nem me fala! Quanto mais longe melhor.
Enterraria enfim meu sonho requentado?
E
modéstia à parte o sol nascente radiante amarelo comunicativo e uma arte. O
vento vinha sempre cantando do nordeste carregando poucas nuvens de papel. As
aves de banho tomado cedo, japus-gamelas, papagaios-campeiros,
canários-do-brejo, talha-mares, manguaris, tucanuçus... cantavam pelas árvores
suas canções como nunca acostumadas ensaiadas decoradas.
Hoje,
passados tantos anos, eu penso. Penso que a farmácia tinha cheiro de tridente e
coisa parada e casinha de joão-de-barro. Água parada, pedra lascada, árvore
tombada, caracol patinando no seco. A farmácia tinha cheiro de ferro velho,
ferro enferrujado, ferro frio, lata velha, caco de garrafa, prego na planta do
pé. Eu mesmo achava que já estava ficando verde com limo no branco dos olhos.
Eu sonhava muito à toa pois antigamente em aqueles dias a iminência do fim do
mundo no início de milênio.
Naqueles
sonhos eu tinha receio de nem poder chegar... Eu tinha receio de nem poder
alcançar... Eu tinha receio de nem saber em tempo... E hoje mesmo, que que
aconteceu de verdade? A família do sonho, da fantasia, do delírio nem é toda
pirada, nem?!
Bem,
o que importava àquela horinha lá era que Enigmática queria tirar geografia.
Ela na vida de aventuras e buscas e caminhos e altas montanhas. Buscando um
ponto para ela mesma. Seria só um ponto de alvo distinto conforme o número de
habitantes?
Ela
queria sair pelo mundo, morar mesmo em Belo Horizonte ,
Brasília, Florianópolis... dar o pira. Ela via coisas na tevê. Talvez sem
pressa, parando ali e acolá, e indo, avançando pela geografia do país. E de lá
mandaria notícias por telefone e pelo correio aos seus.
De
dia o rio Branco caminha entre as folhas ramos de árvores verdes, de noite o
rio anda grudado nas estrelas comerciais originais estelares.
Andando
pelos caminhos e sendas e rotas fantásticas e no lombo de um cavalo tordilho,
de um burro pedrês, de uma ema, outros tempos até.
Detesto
meus amigos de bate-papo. Fecho o computador. Fecho também a janela do quarto.
Abro a porta e corro ao bar mais distante na cidade onde o garção nem me espera
nem me conhece ou nem nunca me viu como freguês como cliente.
As
pessoas, pelas ruas e casas, me pareciam pequenas. Nem acreditava fossem gente.
Os homens dirigiam os carros e as mulheres iam de carona olhando admirando em
volta. Na sacada dos prédios - pequenos ali na cidade pequena - nem eram
jardins suspensos nem jardins bonitos de orquídeas e bromélias.
Aí
a iara subiu o barranco num pulo de gato-mourisco sentou na beira do fogo junto
dos índios marabitana e jogou lenha na fogueira e foi narrando mão no queixo
cabelos longos negros molhados olhos verdes espelhados molhados foi narrando
para todos os presentes:
É,
cada vez mais Enigmática se afundava na geografia. E via a paisagem qualquer
toda dentro de molduras ou páginas ou canais de tevê.
Aquela
mania de viajar e a curiosidade de conhecer viajando era como um ímã que puxava
que atrai qualquer um. Como um representante comercial que viaja as cidades
conhece todos os lugares.
Enigmática
seria capaz de fazer amizades ir em os bares tomar cerveja com polentinha frita
junto dos amigos sentar no banco da praça e ficar olhando em torno até o sol
descer?
Então,
aí a iara parou de contar e olhou o mundo. Olhou seu redor. A luz da fogueira
fazia ideia do sol colorindo a paisagem lá fora tudo. E ela viu eles todos
ainda prestando atenção. Recomeçou a contar e explicar o início do mundo:
Vontade
lá foi dela Enig de ficar ausente de casa. O bom era mesmo lá fora de casa. A ave
nova quer pular do galho do ipê-mandioca. Para a frente e para a frente, mesmo.
E as coisas tinham de acontecer como estavam escritas no secreto dos astros.
Enigmática
voltaria depois de descobrir que o mundo nem tinha nenhum lugar de segredo? Que
as montanhas são altas mas o céu continua o mesmo? Voltaria depois de descobrir
que o mundo era finalmente redondo? Que a roda termina onde termina e começa?
Que
nenhum lugar é suficientemente cheio ou vazio. A água adquire a forma o molde
do recipiente. Um copo meio vazio meio cheio ou pela metade.
***
Estava
eu andando... Nem, eu estava sonhando uma coisa outra vez estranha. Eu estava
sonhando. Mal me lembrava. Muito mal me lembro.
Limpávamos
a cidade de... nem sei. Todos os moradores limpavam a cidade tal dos detritos
dos lixos das gramíneas das daninhas dos inços. Íamos pelas ruas como lixeiros
como garis e isso e aquilo. Um caminhão tombeira na frente e nós seguindo atrás
limpando e recolhendo o lixo. Tinha um cara nos vigiando. Esse cara era mais
alto de todos e uns brações tatuados braços cruzados pernas abertas e sorriso
de corujão-orelhudo. Talvez dois três metros e dez doze.
O
importante é dizer que tinha um cara nos vigiando e arma na cintura. Era uma
espécie de chefe, de patrão, de delegado, de zagueiro, de autoridade, de
carcereiro, de mais forte. Ele era exigente e nós sempre merecíamos ser
vigiados de perto. O chefe queria as ruas da cidade tal muito limpas e bem
cuidadas e nos conformes até para turista ver e fotografar.
E
cansei de delirar, a bronca era comigo?, e acordei meio com vontade de fugir do
lugar e das pessoas do lugar e dos poucos bares do lugar da falta de aviões
rios trens do lugar.
***
A
população ilhada em São Vicente, litoral brasílico, lá por volta de 1537, já se
organizava aquele final de ano para as festividades e festivais e festas e
carnavais de virada de ano. Os motivos escolhidos os dias com noites escolhidos
o espaço a rua escolhida de preferência sem chuvas sem chuvas.
Na
primeira vila brasileira residiam, entre os entorno de mil e trezentos
habitantes vindos do mundo todo, muitos homens endemoninhados muita gente em
fórmula de capeta. A cadeia estava repleta de homens os mais loucos possíveis.
Esses animais maus, degoladores, assassinos, estupradores, esquartejadores aguardavam
o fim do ano com ansiedade e gargalhadas histéricas. Entre os bandidos
perversos e da pior espécie e dos mais perigosos, o melhor dos piores deles, segundo
altas estatísticas e medidas cranianas e pesos encefálicos, era o tal e qual
chamado de Jupicanga.
O
arraial da ilha de São Vicente sobrevivia as duas últimas semanas do ano com a ideia
nas comemorações e folias e patifarias. As casas se enchiam de reboliço, as
ruas de enfeites, as pessoas de músicas ou brigas arruaças bebedeiras. Na
maioria ex-soldados ex-marujos mamelucos casados com índias ou negras escravas.
Tipos desalinhados degredados ou desertores ou náufragos de navios piratas, a
pior espécie, a ralé do restolho e que tinham sido banidos execrados em pelo mundo
afora, etc.
Então,
como sempre acontecia na vila de São Vicente na ilha de São Vicente, durante a
última quinzena do ano, uma tradição ilhoa, se fazia a escolha, e por voto dos moradores
e visitantes forasteiros, se escolhia um presidiário para que ele governasse a
ilha durante cinco dias, os últimos dias do ano.
Naquele
longínquo ano de 1537, os votos deram a maioria ao famigerado e desalmado ao facínora
indigitado Jupicanga. Sujeito sujo e sanguinário e escroto autor confesso de
dezoito mortes por encomenda e mais umas quantas e perdida a conta por desfastio
para ver o tombo para ver a sola do pé, etc. Foi mandado de Portugal para o
degredo na colônia na capitania de São Vicente e aqui ali ainda fez de pior que
a encomenda e melhor que a tradição. Um animal troglodita da pedra lascada.
No
dia vinte e cinco de dezembro retiraram Jupicanga da cadeia e o conduziram ao
casarão colonial que era uma espécie de prefeitura da vila. Lá o empossaram,
com pompa e circunstância, ao cargo mais alto do arraial, com tapete vermelho e
jarros de flores e cochinhos de frutas da estação. Vestiram-no com as melhores
roupas, as maiores pedras preciosas, uma coroa de ouro, um chicote cabo de
prata. Rodeado de pessoas influentes e de vastos cabedais. Rodeado de
subalternos e subalternas e capangas e cupinchas e puxa-sacos. Rodeado de nuas raparigas
virgens rosadas bonitas risonhas gostosas e raras raras.
E
o governador Jupicanga podia baixar decretos e estipular leis e dar muitas
ordens aos borbotões. Baixou decretos, assinou leis e deu muitas ordens aos
berros aos pontapés. Sempre com autoritarismo e arrogância e gargalhadas e
empurrões e cuspidas. Na base do lenta gradual e segura.
Jupicanga
mandou todo mundo para aquele lugar. Pegou três quatro raparigas e se internou
nos quatorze dias de um quarto de suíte. Liberou bebidas a todos comida à
vontade e rios de dinheiro para gastar. E seus mínimos arrotos eram comemorados
com palmas vivas gargalhadas e tapinhas nas costas. E seus mínimos anseios eram
atendidos prontamente. Uma bagunça ampla geral e irrestrita.
Durante
os quatro cinco dias de governo, Jupicanga fez tudo que passou pela sua cabeça de
malfeitor. Quase nem dormiu e soçobrou bêbado e drogado. Livrou da cadeia todos
os seus colegas e sócios. Distribuiu sesmarias para os familiares todos até a
quinta geração. E quis porque quis viajar à Bahia. E planejou botar os filhos a
estudar em Recife.
E
foram cinco dias de loucuras e muito samba e muita folia de frevo e maracatu e
congada e coco agalopado. O arraial tremeu fervendo dia e noite. Todo o povo festejou
em estado de euforia êxtase delírio. Cinco dias sem tirar de drento.
Nos
últimos segundos da última hora do último dia do ano por expirar, e quando faltava
nada para acabar o governo, isso bem à meia-noite, Jupicanga, de passado de estuprador
e homicida e ladrão perverso, foi com seus próprios passos e lentamente ao
centro da única pracinha, no pelourinho, ao cadafalso, rodeado de todo o povo
do arraial de São Vicente. E abriu os braços em pontos cardiais e como JC.
Ali,
na pracinha que levaria e trocaria os diversos nomes de acordo com o tempo ao
longo dos tempos, ele já sabia, já estava ciente, já estava careca. E seria
executado diante de todos. E para o bem de todos, para um próspero ano novo,
para um sucesso com muito dinheiro mulheres sombra e água de coco. Ele nem
tinha mais cura nem pensou em dizer qualquer coisa em ajoelhar em pedir um
padre em rezar.
Soou
o último minuto da última hora do último dia e pronto, o povo gritou bem alto,
descarregou as garruchas para o alto, jogou os chapéus de palha, soltou
foguetes para as estrelas, uivou, vivou, bateu tambor, etc., e o carrasco puxou
a alavanca que soltou a trava do alçapão, tum!...
Jupicanga
pedalando o ar. De imediato os pés bateram no ar em vão. E eram e foram os dois
à procura de algo para se apoiar e nem tinha onde se apoiar. As pernas
desarticuladas loucas desengonçadas com pés perdidos no espaço vazio sem apoio
central. O povo sempre dançou ao redor das fogueiras aqui ali acolá na tribo na
caverna e na pracinha com o nome do primeiro enforcado.
A
execução de Jupicanga seria exemplar e bem como ele sempre mereceu. O ponto
alto da virada. Tudo porque o povo miscigenado procedente de todos os rincões
do universo moradores compilados pelo grande acaso de São Vicente queria entrar
no ano novo de 1538 com os pecados limpos e bem pagos e o pé direito e o pelo-sinal.
O
ex-Jupicanga foi morto com perto de mais ou menos os novecentos e oitenta e cinco
tiros, número de habitantes homens adultos votantes do lugarejo, depois
esquartejado, depois repartido em pequenos pedaços, até virar frango desfiado.
Cada um do povo - somente os homens adultos eleitores - levou seu pedacinho
para casa onde ia fazer um caldinho um ensopado para comer junto dos seus da
família um naquinho para cada um e com outros acepipes e quitandas e doces e
iguarias. Para dar sorte saúde e prosperidade, que três coisas como estas já
bastam.
E
todos ficaram contentes e satisfeitos e tranquilos porque o ano novo ia ser bom
e promissor e límpido e sem pecados.
Pronto,
o ano novo...
Uma
manhã que era de claridade que nem se sabe em os contrafortes da serra do Mar. A
saracura-do-mangue gritou chegando nos raios poderosos do sol, as ararapirangas
em casal grasnando no rumo do continente dos oitis-da-beira-do-rio, os
guardas-várzeas rinchando na azeitona-da-terra. O dia bem cantante aberto claro
brincante aberrante verde alado, papos-brancos, tietés, batuíras-do-campo,
socós-grandes, maitacas-roxas... um mico-leão-dourado-da-cara-preta comia
tarumã, aruá-do-mato passeava de casa nas costas...
Como
a manhã como o sol como o mar aberta amarelo tranquilo que surgiam comemorativos
pela frente a curto médio longo prazos.