sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O Homem Que Laçar D (conto juvenil)




            Lilás e menina foi passar as férias de aula no sítio da família do primo Aramã. E interior do Estado de São Paulo, interior de Araçatuba. Por lá ainda brincavam Rê, Esmeralda, Pérola, e o Totó o cãozinho mascote do primo.
            Aramã: Ocês sabem que lá no morro tem um home querendo laçá D?
            Esmeralda: Seu mentiroso disfarçado. Onde já se viu possível?! Nem existe essa de laçar D. É impossível e desnecessário e inacreditável.
            Aramã: Uai, sô! Mais é pura verdade, gente. Vamo lá vê?
            Lilás: Pois então vamos, né?!
            Esmeralda: Nem vamos até lá por nada, pois é?!
            Rê: Por que nem brincamos de gueime de correr de roda de outras coisas de qualquer coisa de coisas quaisquer?
            Pegaram então a trilha, o trilho, a caminhada, que os levaria ao morro. Parecia uma subida fácil, porém o sol estava forte, o calor era muito, o morro era em rampa. Nem passarinho piava para nem se cansar. Era uma hora muito quente do dia, sem vento, terça-feira, onze e vinte da manhã, o mundo girando como um relógio acostumado.
            Pérola: Tá calor demais. Acho que nem vou aguentar.
            Esmeralda: É só uma subida... assim... um pouco mais cansativa que a maioria das subidas, ufa!
            Pérola: Nenhuma nuvem neste nosso céu azul-clarinho.
            Rê: Esquecemos de trazer lanche. Vamos passar fome e sede. Já pensaram numa boa melancia geladinha uma ótima sorveteria na sombra?
            Totó: Auauau!... Eu tamém tou com fome e sede e vontade de dormir na sombra.
            Bicho Totó era um legítimo sombra e água fresca. Era novinho ainda. Um cãozinho pouco experiente e afoito. Nem sabia nada das coisas ou do mundo ou da sorte. Era um pedinte. Corria e latia pechinchando. Aprendeu a falar a língua das pessoas porque sabia escutar com suas orelhas grandes seus ouvidos atentos. E balançava mais a cauda que a cabeça. E nem gostava de sol forte, não gostava de frio, nem gostava de chuva, nem gostava de noite de lua por causa dos morcegos.
            Lilás: E o tal homem, será que vai apreciar nossa visita, uma vez?!
            Aramã: Óia, nem sei, não.
            Totó: Auauau!... Intão vai sê perigoso e desnecessário.
            Rê: Eu por mim voltaria. Sabe, o pomar tá carregadinho de coisas ótimas pra comer. Tipo pitangas vermelhinhas tipo melancia vermelhinha tipo morango vermelhinho tipo caju vermelhinho tipo pequis amarelinhos...
            Esmeralda: Nem, nem me faz água na boca. E por favor!
            Lilás: E o que a gente vai fazer se o home nem quiser nada conosco e nos enxotar?
            Aramã: Nóis ficamos espiando do meio do mato só pra vê que que ele resolve fazê.
            Pérola: Vamos dar uma...  ufa!, paradinha?
            Rê: E aproveitar pra ver se encontramos frutos silvestres por acá. Umas gabirobas umas sete-capotes umas amoras pretas ou verdes uns guabijus uns araticuns...
            Aramã: Tamo chegando, gente. Vamos aguentá.
            Todo mundo pensou numa sombra com cadeira preguiçosa e tudo. Todo mundo então pensou no seu suco de abacaxi cheiroso geladinho, no seu suco de açaí madurinho geladinho, na sua seriguela doce geladinha...
            Esmeralda: Tomara que chova, aí refresca.
            Pérola: Chuva? Água? Muita água também nem, né!
            Rê: Preciso comer muito bem nestas férias. Estou magérrima. Nem devo morrer magrinha magrinha, igual um palito.
            Pérola: Ufa!, como cansa subir este... morro, essa ladeira...
            Lilás: Vamos pensar noutra coisa. Que tal se a gente cantar pra chamar chuva?
            Pérola: Chuva? Água? Chamar chuva como índio chama chuva batendo tambor, é? Estou desanimando.
            Totó: Auauau!... Minha língua caiu da boca e nem qué mais voltá.
            Rê: A minha vai de arrasto.
            Esmeralda: Alto!... Esperem!... Acho que vi uma cobra ou serpente.
            Totó: Auauau!... Onde? Onde? É das braba? Posso me escondê? Vô perseguir ela? Onde onde ela se escondeu?
            Esmeralda: Nem sei. Nem sei mais. Vamos. Foi engano ou miragem.
            Rê: Sua exibida! Quer aparecer, é? Assustando a gente.
            Lilás: Tô acabando. E meus pés estão fritando, largando fumaça e chulé.
            Pérola: Se eu tivesse ficado com minha sombra lá em casa...
            Aramã: Só mais um poquinho. É pra já.
            Esmeralda: Esse seu pra já vai longe longe!...
            Rê: Nem aguento... dá mais um passo... sem comer uma boa... sobremesa, hummmm!... de jabuticabas,  de abóboras, de abacaxis, ui!...
            Pérola: Nem provoca. Meu estômago já tá reclamando.
            O céu estava muito azul, bem azul, azul como era para ser, só uns fiapinhos de nuvens. Nenhum bichinho do mato à vista. Nenhuma asa no céu todo bem azul. Todos escondidos na sombra camuflados. O sol reinava sozinho, firme e forte. O vento era um bafo de forno aceso. A escalada da turma subia o morro quase de joelhos.
            Aramã: Falta nadinha de nada. Ói!, já tô ouvindo o home.
            Esmeralda: Eu mereço esta subida, gente? Eu nem mereço esta canseira, gente.
            Rê: Vocês estão sentindo o cheirinho de... amendoim torrado? Amendoim torrado com garapa bem geladinha?
            Lilás: Nem só imagino como já estou vendo e prevendo e degustando.
            Rê: Ah, uma salada... de frutas... bem... fresquinha. Incrementada com rodelas de banana, picados de abacaxi, fatias de melão, gomos de laranja, pedaços de caju...
            Esmeralda: Coitada. Ela tá delirando. E alucinando.
            Pérola: E eu... também... E eu tamém quero.
            Aramã: E esse home... que nem aparece.
            Lilás: Será que ele...  existe mesmo, ou é coisa da... da sua invenção, Aramã?!
            Totó: Auauau!... Deve de sê invenção nem inventada.
            Rê: Em vez... de comer comida... tô comendo poeira, pife! pife!...
            Pérola: Acho que... esse homem... devia laçar D mais... perto de nossas casas.
            Esmeralda: O melhor seria mesmo pela televisão.
            Aramã: Pois ó, gente, chegamo!
            Então, pararam um minuto para respirar melhor. E olharam em volta, o panorama, o horizonte, a paisagem, o que seja, o que for. A paisagem era tão nova, tão calma e a sorte tão curta, que parecia ser ali o centro do mundo. O umbigo por onde começava o mundo.
            Lilás: Ufa!, meus pés dizem amém e minhas pernas também.
            Totó: Auauau!... Tô com uns três quilos de menos, a goela seca, os olhos ardendo, as quatro patas queimando...
            Rê: E o meu estômago vazio e abandonado? Ninguém pensa nele, nem?!
            No alto do morro, e mais animada, a turma procurou pelo homem que desejava, queria, sonhava, imaginava laçar D. Sim, e o encontrou. E o encontro foi perto de uma árvore jequitibá, e deitado e dormindo na sombra, e tranquilo e sossegado e anônimo. A patota a galera foi acordá-lo:
            Lilás: Ei, home! Acorde, acorde...
            Homem: Quê? Que foi? É D? É Nosso Senhor? O Todo-Poderoso? O Dono do universo? O Criador do céu e da terra e dos oceanos?
            Lilás: Nem, nem é D. É a tchurma!
            Esmeralda: Você ainda nem laçou D? Tá esperando o quê, meu?!
            Homem: Nem estou esperando nada de especial. O caso é que nem estou com sorte. O tempo nem quer me ajudar. Olhem só pro céu... Nem há uma nuvem, fiapo de nuvem...
            Rê: Você tem um sanduba? Tô nas últimas. Nem aguento de tanta saudade de comida. Um sanduba com água de coco é e seria uma boa.
            Homem: Nem. Comi o último lanchinho há duas horas. Mas, eu ia dizendo, o tempo nem está bom, né?! Sem nuvens nem tenho como chegar perto de D, entendem?!
            Pérola: E o que a nuvem tem a ver com você laçar D? Essa eu nem entendi. Essa eu quero saber melhor e explicado.
            Homem: Com a nuvem D vem olhar a Terra, senta ali, bonitão, distraído, e aí... numa distração eu laço Ele, entendeu agora?!
            Lilás: Mas vai que Ele nem é bobo, ou então se vinga em você.
            Aramã: Aí, a porca torce o rabo!
            Totó: Auauau!... E um raio vem cair na sua cabeça.
            Homem: Nem, gente! D gosta de ser laçado. D é calmo. D é da paz. D inventou este mundo para se distrair e se divertir. D gosta de inventar. D gosta muito de brincadeiras.
            Rê: Quem falou isto pra você? Um anjo? Uma anja?
            Esmeralda: Deve ter sonhado, tava dormindo.
            Lilás: Pois é. Acho que é impossível laçar D daqui da terra. Quem sabe se você subir com um helicóptero um disco voador...
            Pérola: É, aí pode até dar certo.
            Aramã: E ocê pode explicar como quer fazê pra laçá D?
            Homem: Agora tô cansado. Foi o dia todo nessa lida, me dói o braço, sinto o pescoço. Joguei quinhentas e mil vezes o laço no espaço. Passei perto de laçar D e nem quero mais conversa.
            Totó: Auauau!... Mas é só uma vez, só até nóis vê...
            Esmeralda: É, uma amostrinha, e somente pra demonstrar.
            Homem: Tá bom, mas só uma vez. Se tivesse nuvem quem sabe eu laçaria... mas, hoje... apenas uma demonstração.
            Lilás: Claro, só uma atirada. Faz de conta que as nuvens estão ali e que D se sentou numa delas. Faz um ensaio e teatral.
            O homem então subiu no guamirim para ficar mais perto ainda do céu. Lá no alto da árvore preparou o laço, avisou que ia atirar, rodou o laço no ar, mirou uma nuvem imaginária logo ali, e D que poderia estar ali sentado, e vrrum! vrrum!... rodopiou ainda vinte vezes o laço em volta da cabeça e o jogou para a nuvem, lá pra cima, no ar, no espaço.
            Homem: Viu?! É assim. Apenas que hoje o tempo nem tá pra peixe, quer dizer, nem tá pra D o Nosso Senhor.
            Depois da demonstração, o homem desceu da árvore embira e veio descansar novamente, se deitando na sombra. Nem tinha nenhum bicho de estimação para lhe fazer companhia. Nem tinha nada para ler ou comer ou beber e distrair o pensamento. Se tivesse uma religião ou um time de futebol ou uma coleção poderia distrair sua aposentadoria.
            Lilás: O que ocê pretende fazer com D, se conseguir laçá-Lo? Vai vendê-Lo? Vai colocá-Lo num programa de  tevê? Vai exibi-Lo numa caixa de vidro a prova de bala? Vai leiloá-Lo? Idolatrá-Lo?
            Homem: Acho que na tevê é bom. Já me fizeram boas propostas. E eu prefiro mesmo a tevê, atinge mais público, este país enorme. Quero ficar famoso.
            Pérola: E se D o Todo-Poderoso tiver humor contrário, nem quiser representar, como é que fica, hein?! Sobra para todo mundo.
            Homem: Vou fazer um contrato com Ele. Talvez de um ano ou dois. Se Ele cumprir direitinho, sem reclamações, eu Lhe darei passe livre após dois ou três anos.
            Rê: Mas nem é maldade, nem?! E tua alma impura e corrupta?!
            Homem: Nem, não é maldade. D nem sofre dessas coisas. D é calmo. D é forte como uma montanha. D é o que Ele quiser ser.
            Esmeralda: Será mesmo? Tomara que você nem consiga, então!
            Lilás: É, tomara que Ele te lace primeiro.
            Homem: Que que deu agora? Estão contra mim? Chegam aqui na hora da sesta e ainda me contrariam? Nem quero nem saber. Cansei. Vão passeá!
            Totó: Auauau!... Nem aguento maldade. Auauau!... Nem aguento brincadeira de mau gosto.
            Aramã: Que tal nóis ir pra casa, gente! Vamos dexá o home dormi sossegado.
            Esmeralda: Vamos. Deixe aí esse vaidoso. Deixe aí esse pecador.
            Homem: Acho bom mesmo. Vão embora e nem atrapalhem minha paciência. Me deixem laçar D em paz.
            Rê: Onde se viu querer humilhar D, principalmente.
            Esmeralda: É, nem tem graça.
            Pérola: Sem coração. Sem razão. Sem religião. Sem esportiva.
            Lilás: E é a minha opinião.
            E a turma, contrariada, frustrada com a perspectiva da traquinagem do homem para com D, resolveu descer o morro. Morro abaixo todo santo ajuda. Borboletas com olhos nas asas tentavam voar, sacudidas pelo vento. O sol ria amarelo e de orelha a orelha. Qualquer um poderia achar que estava muito calor, e estava mesmo. Um bafão.
As árvores, coitadinhas, plantas de todos os tamanhos, de todos os verdes, as mucujês e as inajás e as andirobas, principalmente estas, derretiam debaixo do sol quente e seco e ultravioleta.
            Caiu a tardezinha, e tchibum!... Já bem de tardinha. E a turma já sabia sem ter muita certeza, perto da noite, o sol sumindo atrás do horizonte, a turma já sabia de ver os passarinhos que voltavam para as árvores onde se hos-pe-da-vam. Tardezinha, começo de noite. Entravam no escuro das folhas das mil árvores e ali dentro piavam, rezavam, contavam, cantavam, chiavam, bibicavam, chilreavam, aguardando a noite bem escura para dormir dormir.
            À meia-noite, Aramã ouviu barulho no pátio da casa e levantou da cama para ver o que era. Abriu a janela do quarto e teve um espanto. Totó já latia e acoava e gania, muito precipitado. O primo correu pelo corredor aos aposentos e acordar a turma:
            Aramã: Acorde, gente! Acordem!
            Lilás, sonolenta: Que foi, primo... no meio da noite...
            Esmeralda: Nem se pode, ooofe!... dormir, puxa!
            Aramã: Uma mula sem cabeça... Eu vi...  no pátio!
            Totó: Auauau!... Eu tamém acho que vi...
            Pérola: É mentira. É brincadeira de vocês!
            Aramã: Mais eu vi com estes olhos! Tá duvidando? Vem vê lá fora!
            Foram até a janela, olharam o pátio o quintal e nada. Somente sombras de árvores e no alto as estrelas espalhadas no céu profundo. Uma lua minguante, caco de prato prateado. E um silêncio que estralava de vaga-lumes em geral. Mas o primo nem desistiu:
            Aramã: Olhem lá no milharal... tão vendo? A labareda dela... no milhará...
            Lilás: Oh, gente! É verdade. Tem uma luz mesmo. Vamos atrás?
            Totó: Auauau!... Eu vô primeiro!
            Pérola: É imaginação. E só uma zoada!
            Rê: É uma festa? Pode ser fogueira de São João, gente!
            Esmeralda: Nem, talvez seja uma estrela cadente... Vamos ver de perto?
            Enfim se largaram pelo milharal atrás da luz, ou da mula sem cabeça. Fosse o que fosse, vai saber!, um animou o outro, um encorajou o outro e se mandaram atrás daquele mistério brilhante. Mistério de arrepiar os cabelos. Mistério de ver mistérios em tudo que era canto.
            Rê: Vamos voltar e dormir, gente. É perigoso. É esquisito. É diferente.
            Lilás: Que nada, vai ser legal.
            Pérola: É assombração? É coisa do outro planeta?
            Aramã: Que bem pode pegar nóis!
            Rê: Então nem vou, é suicídio é loucura é... é o fim da picada.
            Pérola: Também acho. E tá muito escuro.
            Totó: Auauau!... Que nada. Tem restinho da lua, dá pra vê. Sinto... isque! isque!... um cheiro de gente cachimbando no cachimbo...
            Muito importante que se diga logo o seguinte: ninguém da turma entendia de assombrações, superstições, mulas sem cabeça, sacis, matintapereras, juruparis e outras coisas diferentes e ótimas que andam ou nem andam nem voam nas noites de achados e perdidos e acasos e esconderijos e enigmas. Eles iam investigar por puro prazer de mistérios e arrepios de sustos, e mistérios de mistérios.
            Pérola: Nem dá pra vê bem. De repente pode aparecer uns morcegões uns chupa-cabras uns caaporas...
            Lilás: Olhem, lá adiante... o clarão da alma penada. Vamos sem barulho... Vamos sem muita pressa... Vamos pé ante pé...
            A noite nem parecia real. Nem se via nada em volta. Noite muito tenebrosa ou sinistra ou desconfiada. Iluminados mal e mal pela lua e as estrelas, pedaço de lua, a turma, vacilante ou nem, seguia a luz, a chama largada na noite pela possível mula sem cabeça, tudo ali por dentro do milharal. Era passo a passo, muito cuidado, muita tensão para nem errar, sem fazer barulho. Olhando onde pisar.
            Esmeralda: Dá pra ver o rastro dela?  Eu nem tô vendo por onde ela passou.
            Totó cheirava o local. Ia na frente. Parecia empolgado, corajoso, interessado, determinado, valentão, herói, brabo e preocupado. E Totó disse, a certa altura:
            Totó: Auauau!... É aqui! Vamos seguir pra este lado, gentem!
            Lilás: Olhem, turma! A coisa está indo lá para os lados da ponta da roça!
            Pérola: E se esta mula sem cabeça ficar braba com a gente?
            Aramã: Ela pode se revoltá.
            Rê: É bobagem, é perda de tempo. Vamos voltar e dormir e deixar pra amanhã de manhã.
            Pérola: Se ela vier pra cima da gente, como vai ser?
            Esmeralda: Aí a gente corre corre...
            Rê: Mas a mula sem cabeça corre mais que a gente, tem quatro patas, sabe trotar no escuro! Vai até no galope, se ela quiser!
            Totó: Auauau!... Pode dexá! Eu mordo os cascos dela!
            Aramã: Mas ocês esqueceram que ela nem tem os olhos, pois tamém nem tem cabeça, hein?!
            Lilás: Mas como é que tá indo aonde tá indo?
            Quando chegaram do outro lado do milharal, se depararam com um casebre, um quitungo, um barraco feito de costaneiras e coberto de palha seca da palmeira buriti. Totó já cheirava contrariado. Foram até o terreiro e bateram palmas. Mas para quê! Logo vieram dois cães muito nervosos, latindo e grunhindo sem parar. Eram já dois bichos impossíveis e ferozes corajosos valentões estupendos.
            Os dois cães, e ao mesmo tempo numa só voz rouca e grossa: Auauau!... Auauau!... Eu mordo! Eu corto! Eu remordo e eu recorto!
            Lilás: Essa nem, e agora... gente!
            Esmeralda: E mula sem cabeça que nada. Tem é cachorro brabo e muito feroz, isso sim. Péssimo negócio.
            Totó: Auauau!... Eu pego! Pode dexá! Eu pego e repego!
            Aramã: Esta e a casa que mora a dona siá Rosa. A cachorrada deve de sê...
            O menino parou de falar porque os cães chegavam mais perto. E vinham que vinham para atacá-los. Totó se encolheu, ficou parado, paralisado, encolhido, nervoso, cheio de furor nos olhos. Até muito nervoso e irritado e preparado para a luta. Totó também latia, mostrava os dentes arreganhados, tremia de nervoso, queria brigar e nem queria levar a pior.
            Lilás: Correm! Correm! São os cães!
            Esmeralda: D nos acuda...
            Os dois cães, e já mais próximos dos invasores: Auauau!... Auauau!... Eu mordo! Eu corto! Eu remordo e eu recorto!
            Pérola: Alguém diz pra eles parar...
            Totó: Auauau!... Eu pego! Eu pego e repego!
            Aramã, que conhecia a casa de siá Rosa, saiu pro limpo e tentou acalmar os bichos. Tentou acalmar Totó. Depois tentou os cães da vizinha. O menino até uma vez uns dias atrás já fizera amizade com aqueles cães. Uma amizade de visitas. Totó também. Nem eram cães grandes, eram até pequenos, mas estavam cegos de brabos, muito nervosos e histéricos. Totó nem se acalmava. Todo mundo falava ao mesmo tempo. Aramã se esforçava, suava frio e tentava conversar com os dois cães seus vizinhos de cerca vizinhos de propriedade.
            Aramã: Carma, Preto! Calma, Pandorga! Quieto! Calma!
            Preto: Auauau!... Eu corto! Eu corto em tiras!
            Pangorga: Auauau!... Eu mordo! Eu mordo e remordo!
            Totó: Auauau!... Eu pego! Eu pego e repego!
            Isso pouco adiantou. Preto estava muito brabo. Pandorga estava pra lá de nervosa. Aramã tentando inutilmente. Totó nem queria saber. Nem ia adiantando coisa alguma. Isso às vezes só piora a situação. A turma só foi salva mesmo porque da casinha veio uma voz de quem manda no pedaço:
Alguém que assobiou, e disse: Queto aí, Preto! Quieta aí, Pandorga! Vem pra cá os dois! Já e já, e imediatamente!
            Aí até o Totó se pacificou. A voz era de uma mulher mandona. E os dois cães, meio a contra gosto, pararam de querer atacar os visitantes noturnos estranhos àquela hora.
Depois que os cães se aquietaram, e mais ou menos, a turma foi se juntando e se aproximando da palhoça. Suavam frio, visivelmente assustados, surdos, tontos, zonzos, bobos. Totó suava como nunca. Preto e Pandorga cheiravam as visitas. Uma dona em trajes de dormir estava na porta da casinha e segurava um lampião de óleo e dos antigos.
            Siá Rosa: Mais ora se nem é o menino Aramã, sô! Que faz aqui mais esta hora, sô?
            Aramã: Me desculpe, siá Rosa... ufa!, foi por poco...
            Siá Rosa achou por bem, e já que a turma estava espantada, chamá-los para dentro. Nem era bom ficar batendo papo no sereno. Preto e Pandorga viram Totó entrar na casa e foram no rastro. Preto e Pandorga ficaram quietos e olhando e cuidando e cheirando de perto o Totó. Totó nem dava as costas pros dois o casal, “Nem falá!...”
            Siá Rosa: Sentem por aí, pessoal. A casa é pobre, nem repare. Mais, menino Aramã, que que veio fazê aqui esta hora da noite?
            Aramã: Pois olha, siá Rosa. Nóis viemos atrás da tal e qual mula sem cabeça. Nóis vimos ela passar com labareda pelas venta. Entrô pelo milharal...
            Esmeralda: É mesmo, siá Rosa. A gente seguiu a luz dela, sabe. As chamas ou labaredas que saem do pescoço cortado lá dela.
            Lilás: Infelizmente ela nos enganou e a gente a perdeu de vista. Foi aí que viemos parar no seu quintal.
            Siá Rosa: Pois olha... Nem vi mula sem cabeça por estes lados. Será que ocês nem tão enganados e imaginando?
            Rê: Eu acho também, pois eu duvido que ela exista e digo mais.
            Pérola: Quem viu foi o primo, né, primo?
            Aramã: Mais vi, gente! Tava dormindo e aí ouvi um toque! toque! toque! toque!... quatro vezes e de cavalo quadrúpede, e fui vê... era ela, a mula sem cabeça. Tinha fogo no lugar da cabeça.
            Esmeralda: A senhora nem viu nada? Nem coisa parecida? Nem coisa nenhuma? Fogo nenhum?
            Siá Rosa: Nada, nada mesmo. Ocês querem experimentar um bolinho de fubá? Um milho verde? Uma batata-doce? Umas pitombas? Então umas pipocas daqui mesmo da minha roça?
            Lilás: Obrigada. Mas sabe, siá Rosa, a gente seguiu a tal luz. Pois é, a luz existiu. O fogo corria pelo milharal. Parecia querer incendiá-lo.
            Siá Rosa: Talvez fosse a lua, as estrelas, uma estrela cadente e guia e peregrina...
            Rê: Pois a luz eu também vi, mas a mula sem cabeça eu duvido...
            De repente um choro de bebê. Siá Rosa vai até o quartinho e o choro sossega. Logo aparece Siá Rosa com uma criança de três ou quatro meses. As visitas rodeiam a mãe e o bebê. O neném era uma miniatura de gente enrolado numa trouxinha de panos e babados.
            Siá Rosa: Este é meu filho. E nem é uma beleza?!
            Esmeralda: Tá com fome, pelo jeito.
            Siá Rosa: Vô dá o peito pra ele. Toda noite é esta história. Mais ocês fique, comem do bolo de fubá e da pamonha e da rapadura e do pé de moleque... Comem o que tiver...
            Totó estava mais tranquilo. Preto e Pandorga já cheiravam Totó, numa boa. Faziam que já se conheciam e já podiam ser velhos amigos e compadres.
            A menina Lilás nem queria aborrecer a dona da casa. A dona da casa nem parecia muito aborrecida. Lilás procurou meio que se desculpar e falando:
            Lilás: Talvez fosse melhor voltar pra casa, nem é, gente?
            Siá Rosa: Pois fiquem até clareá o dia, ora. Caminhá por este milharal tarde da noite nem é bom ou nem é legal.
            Rê: Tô concordando. E até já sei: seu bolo de fubá é simplesmente um escândalo.
            Siá Rosa: Agradecida.
            Pérola: Pensando bem... a caminhada pelo milharal abriu meu apetite.
            Siá Rosa: Então, pra passá as horas... ocês querem ouvir a história da mula sem cabeça? Uma história que eu já ouvi falá ouvi dizê ouvi contá... e reconto.
            Lilás: A senhora sabe a história da mula sem cabeça? Que barato!
            Siá Rosa: Sei de ouvi dizê.
            Esmeralda: Pois conte, siá Rosa.
            Aramã: Vai sê de arrepiá.
            Rê: Então é melhor deixar a gente comê primeiro, senão pode embrulhar o estômago. A história é pesada? A história faz sentido?
            Lilás: Que nada, gente. É só uma história, uma lenda, um conto popular e até engraçado.
            Pérola: Mas se der pânico, pavor, horror?
            Siá Rosa se acomodou na cadeira de balanço com apoio para os braços. Cadeira boa de madeira de lei. Cadeira antiga e confortável de madeira nobre da aitá. Siá Rosa começou e recontou o conto, sempre num linguajar típico honesto do interior caipira paulista:
            Siá Rosa: Foi faz tempo no passado quando JC o Nosso Senhô ainda nem andava por estas banda. O causo que sei passô em minha família mesmo. Um parente antigo, avô do meu avô, chegô em casa um dia com uma arca cheia de ouro e prata e pedras preciosas. Todo mundo da família ficô feliz, deram pulo de contente e pensando que iam ficá ricos e mais ricos e poderosos. Mais o causo era que o tal tesouro tinha sido roubado. Que sucedeu? Daí pra frente o que resultou? Bem, ocês sabe, todo ouro roubado tem uma maldição por cima, por detrás e por meio, e este causo nem era diferente. Causo foi que, toda sexta-fera de lua cheia, esse tal passado parente de nossa família, esse tal de avô do meu avô, virava mula sem cabeça. E olhem só! O coitado virava uma mutante... mu-tan-te. Saía pra noite como uma fantasma uma perdida uma louca e atrás de fazê má-criação pra qualquer um que aparecesse pela frente. Fazia de tudo e todo tipo de coisas: era robá galinha caipira, matá porco no chiqueiro, robá melancia na horta, robá abóbora na roça, robá milho verde, estragá plantação de amendoim... Retornava pra casa só de manhã, as estrelas já apagando, o sol já nascendo e assim por diante. Aí, com os raios do sol ela a mutante passava a ficá boa de novo, quer dizer, bom de novo e virava gente outra vez, virava o avô legítimo do meu avô. Essa maldição durô toda vida lá dele. E isso de fato. Mais foi um dia que... Aconteceu que um senhô fazendeiro botô capanga atrás da mula sem cabeça. E esses espiões esperaram a mula sem cabeça chegá no galinheiro e quando ela chegô perto... tacaram fogo de espingarda. Com vários chumbos no corpo, a mutante ou o avô do meu avô, e sua tal de maldição, acabaram morrendo, finando. Para nem dexá pista, os capangas jogaram o corpo no meio do mato fechado. Quando clareô o dia, nossa família se perguntô: “Cadê o coitado do avô do meu avô?” Muitos dias após a esta pergunta, foram encontrados os resto mortais do seu cadáver que os urubus mais as formigas e os vermes tinham deixado de resto. Foi um horror e cheirava mal. E esta é a história que conheço, verídica, causo do avô do meu avô e uma mutante. Nem qué?!
            Siá Rosa parou de falar, olhou o bebê dormindo no colo, sorriu para as visitas, esperando que elas se desligassem do causo. Lilás foi a primeira:
            Lilás: Nossa! Deu pra assustar. Parece quase história de superstição mesmo.
            Esmeralda: Só que esta história tem é labaredas e chamas e fogaréu.
            Siá Rosa: Querem mais uma fatia do bolo de fubá? Uma xícara de café da casa?
            Rê: É uma história estranha. Coitado do tal parente, avô do seu avô, hem, siá Rosa?!
            Siá Rosa: Nem fale, menina. Uma maldição e mutante.
            O dia clareou e a turma se despediu de siá Rosa. Preto e Pandorga vieram acompanhar até o meio do milharal. Totó tinha outros amigos, compadre e comadre. E a turma voltou andando pelo mesmo caminho cruzando o milharal, o mandiocal, o arrozal, o aboboral, o capinzal...
            A sorte e o mundo e o tempo e o sonho são uma e única e mesma coisa tantos num só. E nem conseguem parar. Por que essas coisas? Nunca se saberá.
            E nem demorou muito. Na semana seguinte e já o homem que queria e sonhava laçar D passou cruzou passeando pela fazenda. Que evolução! E puxando o próprio D Todo-Poderoso pela corda, pela soga, pelo cabresto, pela guia. Nem é que o tal havia laçado mesmo! E é para acreditar? Umas figuras!
            Homem: Olhem! Reparem! Eu nem disse, eu nem disse?! Está aqui pra todo mundo vê! Lacei D, o Criador do céu da terra e dos oceanos!
            D Nosso Senhor, e o homem que o havia laçado, cruzavam o pátio naquele importante instante. D e homem laçador pisavam o caminho do chão, a estradinha britada do sítio, a ruazinha de terra vermelha batida. Cruzavam por baixo de cerca de arame farpado, avançavam por porteira de troncos de panã, enfrentavam por ponte mata-burros de toras de mangabeira. Eta, mundão!
            Sim, era D o Onipotente. Reconhecido. D parecido idêntico igual com os desenhos dos livros, das Bíblias, das capelas, das igrejas, dos templos, dos ícones. D e o homem laçador. Faltavam os anjos e anjas e arcanjos.
O povo todo da fazenda veio ver e conferir. Muitos ficaram perplexos, assustados, alarmados com a cena divina, praticamente divina. Os outros já ficaram com dor de cabeça dor de barriga dor de dente e mil complicações.
Mas vendo que a fisionomia de D era boa tranquila sorridente, nem pensaram em libertá-Lo. Afinal se D quisesse teria poderes de sobra para fazer qualquer milagre, quanto mais se desatar daquela cordinha. D até sorria e brincava!
            Pérola: Mas é D mesmo? E de férias? E ensaiando teatro ao ar livre? 
            Aramã: Pois é, gente. O tal do home, laçô mesmo D. Que sorte!
            Rê: Que travessura, que maldade, que pecado.
            Esmeralda: Será que D vai fazer alguma coisa? Quer dizer, um grande milagre, algum fenômeno, revolucionar? Uma missa campal?
            Lilás: Parece conformado. Tá até gostando e tirando onda.
            Totó: Auauau!... Eu pego! Eu pego e repego!
            E D ali mesmo, ao vivo em cores e preso na corda, sim puxado pela corda, de cabresto, atado, roupa amassada, sem chapéu, rosto tostado de sol. Todo Ele, tudo meio estranho, esquisito e o mundo continuando muito à vontade. E olhando bem, D parecia meio aéreo, fora de si, confiante demais, quase um homem muito simples e humilde.
            Esmeralda: Vamos segui-los. Estão indo no sentido da cidade de Cachoeira do Arari, se nem me engano. Vai começando uma procissão e acompanhamento.
            Rê: Pensei que D pudesse ter roupa melhor, coitado. Tá com o cabelo sem pentear, chinelo de dedo, muito pobrezinho, e coitadinho, quase um pobre homem pobre.
            Pérola: Vai ver que tinha recém-nascido... da nuvem do ninho da cama...
            Rê: Vão fazer o que na cidade de Viamão, a esta hora? Dar entrevista na televisão? Fazer sessão de autógrafos? Rezar uma missa na catedral Metropolitana?
            A turma curiosa e a vizinhança curiosa, seguiram os dois, homem e D, estrada afora, debaixo do sol forte, estradinha de poeira vermelha. O homem de guia na frente e D, o Criador dos tempos, conduzido pela corda. Os passarinhos se perguntavam.
            Era verdade verdadeira. Verdade grande e inédita e exclusiva. D estava ali no meio do povo e pisando o chão de terra vermelha. Todo Ele inteiro desfilando diante dos olhos da turma e dos olhos dos outros e dos olhos de todos. D o Todo-Poderoso e cabeludo, barbudo, bigodudo. O cabelo e a barba e o bigode brancos, muito brancos, totalmente brancos e próprio das nuvens brancas. Vestido somente com branca túnica dos ombros aos pés. Como um sacerdote se veste. Como um avô saindo de pijama da cama para o banho. E D, quem diria?, ainda parecia um simples comum como nós.
            Estrada rumo à cidadezinha de Jequitaí, estradinha estendida na paisagem como corda vermelha, caminho de passagem entre palmeiras buritis, cruzando os rios afluentes, campos, morros, bando manada de bois pastando no potreiro.
Dado momento, se vendo rodeado de bom público, D mandou parar a procissão, a passeata, subiu numa pedra da beira e falou como um político pedindo votos:
            Deus: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro pontos cardeais estão na minha mão! Os quatro ventos são: sul norte leste oeste! Em verdade em sintonia lhes digo: virá o dia, sem demora, que um grande terremoto abalará toda a terra! Cairão todas as casas e prédios e pontes e torres! Tudo sumirá engolido para o interior do fundão! As pessoas se perderão umas das outras; pai e filho nunca mais se verão, mãe e filha nunca mais se abraçarão! Tudo isso porque o erro e a pobreza tomaram conta das mentes e dos sorrisos! O dia do fim do mundo está próximo, e breve!
            Lilás: Que que D tá querendo explicar?
            Rê: Que está brabo com as pessoas que derrubam árvores, prendem passarinho, pescam na piracema, jogam lixo fora da lixeira...
            Esmeralda: Que já as coisas nem andam legais pelo mundo afora.
            Dizendo tudo aquilo, D e o homem continuaram pela mesma estrada. O povo interessado, crente e assustado, seguia no rastro. Uma carroça, puxada por quatro homens honestos, foi posta à disposição de D para a longa viagem. A partir daí, D viajou de carroça. O homem laçador, sempre segurando ou puxando D pela corda, subiu foi também de carona.
            D olhava as pessoas ao seu redor, e que o acompanhavam. Os pobres e as pobres que caminhavam ao redor da carroça. D olhava e admirava as tantas pessoas, mais que olhava e admirava as aves do céu mais que olhava e admirava as cores do céu.
            Mesmo com céu nublado o calor era muito, os mosquitos muito brabos, o mormaço era insuportável. A estrada de terra, de pedras soltas, cansava o passo. A carroça mesmo tinha dificuldades para rodar. Isso foi motivo suficiente para que D e o homem e carroça estacassem no portão de uma casa e ali bebessem uma caneca de água.
            Esmeralda: Será que D nem gostaria de pegar um táxi, hein?!
            Lilás: D é agora um homem simples e sem luxos e sem mordomias.
            A dona de casa Jandaia, que serviu a D e ao homem laçador com água boa e fresquinha, foi por Nosso Senhor abençoada e recomendada. A distinta senhora se ajoelhou, fez o sinal da cruz, cobriu a cabeça com os braços e as mãos, tapando os olhos, agradeceu o prazer que D lhe dava com sua divina visita e presença. Depois beijou várias vezes, com muito cuidado, as vestes a mão do Senhor. E D se ergueu na carroça e falou, declarando:
            Deus: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro ventos estão na minha mão! Os quatro pontos cardeais são: norte sul leste oeste! Em verdade em honestidade lhes digo: um grande maremoto subirá das profundezas do oceano e inundará toda a Terra! Como um tsunami! O sertão virará mar e o mar virará sertão! Essa é a condenação pelos erros da luxuria, bruxaria e injustiça! (Aproveitou para colocar uma bala de menta na boca). Eu sou o Pai Todo-Poderoso, e afirmo que o juízo é amanhã! O final se aproxima, todos baterão com a cabeça no chão e nem mais se erguerão! Nem haverá tempo para choro ou ranger de dentes! O fim está próximo, muito perto mesmo, quase ali na esquina!
            Pérola: D está brabo com Deus e todo mundo.
            Esmeralda: É mesmo, pois D perdeu a esportiva e fala pelos cotovelos.
            Dizendo mais aquelas palavras, D cantou ordem para que a carroça prosseguisse. A multidão crescia sem numerar. Muitos nem se contentavam somente em olhar, achavam melhor tocar as vestes, pegar na mão, tirar foto com celular, pedir autógrafo, abraçar...
            Rê: Eu nunca parei pra pensar que um dia D pudesse estar assim, bem perto de mim, ao vivo e tocável.
            Pérola: D já tem uma eternidade. Antes de tudo, durante tudo, depois de tudo todos.
            Lilás: D é assim e nem quer e nem pode mudar.
             Devido ao caminho irregular, a carroça quebrou uma roda e pifou e fracassou. Com o solavanco, D e o homem laçador foram jogados para fora e para o chão. Felizmente nada de mais grave sofreram, foram amparados pelo povo que os cercava. E para tirar o pó da garganta, o susto dos olhos, se sentaram na mesa de um bar-café o Bacuém. Foram bem servidos de uma cerveja e uma porção de batatas-fritas, e por conta da casa. D estava tão à vontade que ofereceu algumas batatinhas para as criancinhas que o rodeavam. Pegou criancinhas no colo, beijou no rostinho, acarinhou o cabelinho, prometeu brinquedos no natal e ano novo.
Logo logo, D se ergueu e olhou a multidão. Deixou o copo de cerveja meio vazio e os amendoins torrados no potezinho sobre a mesa. E foi falando com toda a razão, cheio de razão, muito justo e convicto:
            Deus: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro ventos estão na minha mão! Os quatro cantos do mundo são: norte sul leste oeste! Em verdade em realidade lhes digo: do centro da terra explodirá um vulcão fantástico, e sua força e fogo derreterá tudo na superfície! Todos sumirão num piscar de olhos de olhos! Isso porque nem me obedecem, esquecendo minhas leis ou mandamentos meus sinais e milagres! (Um gole de cerveja). O fim será amanhã! Eu sou o Paizão e condeno todos aos esgotos escuros profundos do inferno! E sem peninha de nada!
            D tomou o último gole, uma rapadurinha na boca, agradeceu a hospitalidade e seguiu caminho. Agora iam todos a pé, e ao ar livre. D constantemente era presenteado com biscoitos, quindins, doces os mais variados e deliciosos, iogurtes, quitandas, jabuticabas, gabirovas, potes de mel silvestre, broas de milho... Velhos, moços e crianças vinham para tocar suas vestes, tomar a bênção... Os desempregados ou fracassados, os viciados e preguiçosos gemiam, tossiam, choravam e apertavam os dentes, e eram consolados. E eram incentivados. E todos confortados. E todas incentivadas.
            Aramã: Gente! Será devo pedi pra D ressuscitá Merendinha, minha vaquinha malhada de estimação? É uma, né?!
            Esmeralda: Vá logo, então. Ele tem muito milagre pra fazer. Olha só quanto povo. A fila é enorme. A procissão é gigantesca. É preciso muita sorte e loteria.
            O caminho, o dia de sol forte, o povo falando igual colmeia de abelhas nervosas, exigiam muita atenção de D Nosso Criador e seu laçador. O povo também sentia o calor, mas as gentes eram curiosas e acreditavam e insistiam e queriam para ontem.
Pararam todos sob uma guamixira centenária amparada por duzentas estacas de apoio. D subiu o barranco, foi até o gramado, tirou os chinelos de couro fechados na frente. Uma moça trouxe uma bacia com água de coco para lhe refrescar os calos e bolhas dos pés assim assim cansados. D e homem laçador beliscaram brigadeiros, bolinhos de chuva, bolachinhas salgadinhas, sorvetes de pequi-caju-abacaxi, beberam suco de pupunha...
D o Superpopular, quinze minutos a seguir e cuspindo semente de melancia ali no chão tossindo preparando a garganta se preparando para falar preparado, e já interagindo com os ouvintes espectadores curiosos:
            Deus: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro elementos estão na minha mão! Os quatro mandachuvas caciques são: sul norte oeste leste! Em verdade em definitivo lhes digo: o dia que o sol se apagará está marcado para amanhã! A terra sem luz congelará e todos morrerão de frio! Isso porque insistem em fugir da minha palavra, da minha lei, da minha luz!  Pecaram contra Mim (orque!... - arroto) desculpem, e contra vocês mesmos! Contra tudo e contra todos! Minha ira nem deixará pedra sobre pedra, estaca ao lado de estaca, ponte sobre rio, viaduto sobre rua, prédio ao lado de arranha-céu! Eu digo e nem volto atrás! Eu digo e nem Me arrependo! Eu digo e nem repito!
            Pegaram, então, D e o homem laçador e o povo, subindo um morrinho, novamente a estradinha de amarelo rumo da cidade de Tabatinga. A procissão cada vez maior enorme caudalosa. Um homem se ajoelhou em frente a D e ofereceu seus ombros largos para o resto da jornada. Sobre os ombros do oferecido, D se sentiu mais feliz quase feliz muito agradecido mais sorridente bastante realizado.
            Quarenta e sete quilômetros à frente, o pobre homem oferecido, já cansado, esfalfado, derretido, tropeçou e caiu. Pronto. D foi jogado sobre os fiéis, e ainda assim bateu o nariz no chão, traque!... Tonto e doído passou a mão no machucado, suspirou, ai! ai!... e viu o sangue sujar sua túnica. Imediatamente foi socorrido. E em dois minutos estancada a ferida. D nem se deu por vencido, bebeu uma água de coco, bebeu uma garapa geladinha, se lavou, passou um pano úmido na mancha da roupa, olhou a multidão que o cercava, e falou, tá falado!, e nasalado:
            Deus: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro comandantes estão na minha mão! Os quatro principais capitães são: norte sul leste oeste! Em verdade em concreto lhes digo: cairá chuva e granizo os 50 dias e as 50 noites, sem parar. E dessa vez nem haverá helicópteros e botes ou barcos salva-vidas! Um simples nariz quebrado nem impedirá que minha voz nasalizada voe aos quatro universos deste mundo! Eu lhes digo, a condenação será amanhã! Isso porque a inveja e a avareza apodreceram todos os corações e mentes e sinais! (Parou para colocar um cubo a mais de gelo no suco de mangaba). Podem ir chorando, podem desde já arrancar os cabelos, se cobrir de areia fina da praia, porque nada e ninguém escapará! Nenhum ser, homem, bicho ou árvore, ficará para semente! Taparei de fumaça o azul e já que cobrirei toda a superfície da terra de lama incandescente!
            Lilás: O tombo foi muito feio. Machucou muito o nariz, coitadinho.
            Rê: Pensei que o sangue de D fosse de outra cor, e pra variar. Sangue verde-floresta, por exemplo. E sangue azul-claro, por ex.
            Pérola: Está um pouco cansado. Deve tá pensando em subir pro céu, e de supetão.
            Esmeralda: E D pode fazer um milagre a qualquer momento.
            Aramã: Pode transformar um pedaço de coisa em um avião... assim, ó!, num piscar de olhos. E sorrindo pra plateia.
            Prosseguindo na caminhada, D foi e montou num jegue cor de prata. Sobre o lombo do cavalinho chamado Timbó, que caminhava devagar cheirando e comendo o tapete de flores que o povo jogava no solo, entrou no perímetro urbano da cidade de Afuá. Sim, essa mesma e provavelmente.
            Pronto. Logo na entrada da primeira rua da cidade de Chapecó, houve o tradicional foguetório festivo. E escolas de samba e danças de capoeira, berimbaus, banda tocando marchinhas de carnavais antigos, acenos com bandeirinhas de cores e balões coloridos, arcos feitos de flores diversas e folhas da bananeira...
            Sempre o povo corria acompanhando, corria e ria e pulava, brincava de pegar, sem até mesmo saber o que fazer com tanta festa e faceirice e sorte. Maravilhados, todos pulavam e gingavam ao som do tambor, tum! tum! tum!...
D, o de Sempre, recebeu e das mãos do prefeito e autoridades, dos considerados, dos nomeados, dos escolhidos, dos pretendidos, dos conceituados a chave e o cetro da cidade. A multidão que já o acompanhava e mais a que o aguardava, se somaram causando um tumulto nunca visto. Parecia festa de padroeiro, todo o povo estava ali, os sinos da igreja repicavam de alegria, foguetes explodiam no ar da tarde, crianças correndo pra cá pra lá, buzinas de carros alegóricos... 
A multidão aglomerada aplaudia, gritava vivas, tirava o chapéu, se curvava, considerava. As mulheres debaixo das sombrinhas e guarda-chuvas se curvavam, as crianças corriam para frente e para trás procurando chamar a atenção. Todos Lhe jogavam beijos, flores e vivas. Sem contar os que desmaiavam, choravam, ajoelhavam, pediam... Era emoção única e inenarrável e tumultuada. D ao vivo na praça da Bandeira. Nem olhavam para o céu, nem erguiam as mãos para o campo celestial; D estava ali na praça, ao vivo. A bandinha aproveitou e tocou mil e tantas músicas de carnaval axé frevo maracatu e “Alá lá oh oh oh!... mais que calô oh oh oh!... estava atravessando o deserto do Saara... quando o sol queimou a minha cara... Alá lá oh oh oh!...”
            Nas escadarias da igreja D apeou do petiço, subiu os degraus, se voltou para a plateia o público, olhou o povo a seus pés, e o homem laçador por perto, a cidade de Divinópolis diante de Si, e falou com gestos eloquentes desenhados:
            Deus: Apocalipse! Apocalipse! Os quatro instrumentos estão na minha mão! Os quatro rios são: norte sul oeste leste! Em verdade em respeito lhes digo: vocês se autodestruirão com uma guerra sem precedentes! Dessa guerra, de uma só batalha, ninguém sairá com a sorte! Eu vim para prevenir que o juízo será amanhã! Isso porque vocês todos são uns loucos, uns insensatos, uns fanáticos! Pra falar francamente, já nem aguento mais! Nem querem me ouvir, pois bem, largo vocês todos de mão! Só nem vão dizer depois por aí que nem sabiam de nada!
            Pérola: D tá irritado, irado, furioso, perigoso, escandaloso.
            Rê: E nem manda dizer.
            Acabando essa falação, D o Gigantesco entrou no templo, molhou dois dedos na pia de água benta, dobrou o joelho direito, fez o sinal da cruz e caminhou até o altar. Ali, no altar bonito e bem pintado e rico de pão de ouro, diante do seu filho JC crucificado, se ajoelhou de vez, baixou a cabeça, e se concentrou se entregou à oração secreta.
O povo o seguiu discreto e pé ante pé. Pelos vitrais, coloridos com desenhos lembrando a história de JC, entrava um sol fraco de fim de tarde tardezinha. No teto as andorinhas e as corruíras e os tico-ticos esvoaçavam. Volta e meia carimbando as cabeças de um e outro devoto bem-vindo bem-visto.
            Enfim satisfeito, D se ergueu, fez novamente o sinal da cruz e saiu da igreja. Ladeado pelo padre e o prefeito e dezenas de políticos, caminhou em direção à praça XV, ao palanque dos discursos. A multidão espiritualizada o seguia quase em silêncio quase.
            Esmeralda: Puxa, tá anoitecendo. Será que D vai fazer outro discurso? Será que D vai dormir ali no hotel 4 estrelas o Polímero?
            Lilás: Talvez na casa paroquial.
            Pérola: D pode muito bem pegar um cometa de vassoura. Em dois minutos aterrissará na estrela Aldebarã. Conhecem?!
            Totó: Auauau!... Inté mesmo dormindo na viagem.
            Rê: Queria muito saber como é que é o céu, por dentro, hum!...
            D e as autoridades chegaram ao tablado palanque dos comícios e showmícios das retretas. As luzes da cidade de Veranópolis se acenderam por encanto por espanto. Parecia noite de natal, ou de ano novo, e ainda podia ser de festa de santo padroeiro. D olhou o povo, ergueu os braços... ia falar. Ia falar, mas nem pôde começar.
Uma moça, saindo do meio da multidão, e muito nervosa, atravessou o bloqueio das autoridades, tropeçou na subida da escadinha do coreto, e chegou junto a D. Sim, estava toda transfigurada pela emoção em presença de D e o Chefe do universo. Só que nem!
            Moça: Pai, meu pai, o que o senhor faz aqui, assim, preso a esta corda, exposto ao ridículo? Que teatro é este, e dos mais baratos?
            A multidão, que sempre acompanhara tudo crédula e satisfeita e festiva, agora, de boca aberta, procurava entender a cena fora das escrituras e das escritas e histórias.
            Lilás: Quem é esta moça? Será da família?
            Esmeralda: Deve ser uma devota, uma irmã de caridade, uma amiga de infância...
            Rê: Coitada, nem aguentou e foi lá agarrar o Nosso Senhor.
            Totó: Auauau!... Acho qui é a Virgem Maria. Por que nem?
            Pérola: Será uma anja, uma musa do poeta, uma iara?
            As autoridades competentes e incompetentes, ali presentes e junto a D, tentaram retirá-la, tentaram agarrá-la, mas nem houve jeito. A moça parecia possuída por uma força impossível, uma razão ainda maior e mais sei lá o quê. Sempre segurando o pai pelo braço ou pela mão, jogou a corda no chão com raiva, furou a multidão e se encaminhou...
Então, os dois e de mãos dadas, seguiram rua abaixo, andando sem parar, rua General Osório virando a esquina cruzando a ponte do rio Araguari e desaparecendo para sempre... Embora para sempre.
            Muita gente viu, e jura que viu, e conta que viu, e aumenta o que viu, quando eles subiram para as nuvens no elevador do arco-íris junto da cascata da Usina. O último feixe de luz daquele dia. O último arco-da-velha daquela semana. No último raio do sol caindo na tarde preguiçosa miúda. No último raio de sol caindo antes da noite estrelada. No exato instante que brilhava a primeira estrela nítida e serviçal e bem-vinda.

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