Um Assunto e Várias
Informações
Me
perguntei, então:
-
Há vida na aba desta quinta-feira?
Nem
hesitei mais. Elevei meus sonhos para o começo do mundo, ou seja, o fim de
semana.
Mas
aquilo pouco exportava, no momento.
A
prima Mucajaí estava na janela do quarto lá dela da casa dos pais lá dela os
meus tios. Fui até lá pra encher o saco, dela no caso. Abri o portão, o
cachorrinho Macuco já me conhecia, fechei o portão. O cãozinho queria falar
comigo, latia, balançava o rabo e me deixava passar mal e mal. Atravessei o
pátio, o cãozinho embaraçando as minhas pernas os meus passos. Fui pelo costado
da casa até me postar debaixo da janela. Trepei e me sentei no parapeito
ouvindo música sertaneja numa rádio qualquer de Serafina Correa. O Macuco ficou
me olhando com surpresa. Chamei a prima para perto e ela veio, cabelos molhados,
correntinha de ouro no pescoço.
Beijei-a
na boca. Ela riu nervoso. Falou qualquer coisa:
-
Estava fazendo uma refeição frugal. Penso ir a Porto Seguro e Santa Cruz
Cabrália no carnaval. Já afirmaram que o mundo acaba em 2020 por causa da
coincidência dos 20. O rio da Prata cai no das Antas, o rio das Antas se junta
com o Carreiro e formam o Taquari, o Taquari se alia ao Forqueta e engrossam o
Jacuí...
Assoprei
umas coisas no ouvido dela. Ela balançou, quase caiu e riu histérica. Guria
fascinante, travessa, sorriso legendado como toda menina com pré-história,
rosto iluminado, olhos cintilantes, corpo interditado.
-
Quando passava por Caraíbas, ano passado nas férias, visitei por dois dias um
amigo Gervão-Cheiroso. Trocamos planos. Falei assim: “Vou até Colares comprar
um chapéu de palha de sapé trançado. O verão já vem muito quente e forte. Os
dias muitos e ensolarados e com pouco ou nada de vento. Quarenta e seis graus
na sombra, é dose.” Aí ele me perguntou me questionando: “Até Colares somente
pra isso?” Eu respondi: “É que é um chapéu importante e curioso.”
Eu
incentivei e ela falou mais. Ria como gosto de vê-la rir. Todo dia eu pensava Mucajaí
rindo. Era lindo e me dava água na boca. Ela falando de sorriso de amostra:
- Pois é. Assim
foi e papeamos outras coisas eu mais a planta que nem vêm ao caso e daí por
diante. Era até um domingo. Estávamos na varanda, eu sossegada ele no vaso
enfeitado com pedrinhas brancas, quando até uma corruíra estrilava por perto.
Ficamos
dois primos de mãos dadas. Muito bobinhos. Ela de short branco com cavadinha. Ficamos
de mãos dadas como dois bobos. Uns olhos verdes bonitos uns pés de rastos leves
bonitos uns braços fortes e roliços bonitos.
Apertei
o bico do seio dela. Ela riu mais ainda, riu com excitação. Segurou apertou o
peito com ambas as mãos, meiga meiga.
Mucajaí
nem era retardada, mas gostava de rir de todas as coisas, mas gostava de rir de
todas as maneiras. Era uma menina novinha, extrovertida, mal educada, chata,
ágil, cheia de energia para gastar e rolar. Ria com os dentes apertados, notou?!
Passava
a mão lá embaixo dela entre as pernas lá dela. Ela usava, aquele dia, um short
apertado todo desenhado de flores e plantinhas. Esticava o braço até lá embaixo
e passava a mão boba... Ela nem queria e dava uns pulos pra trás. Mas a gente
ria.
Eu
senti só um zumbido, teeem!... e também um zunido, pêeem!...
Me
olhei. Estava atirado no chão do pátio da casa da prima Mucajaí. Estranho,
escutava um... como? O Macuco cheirando meu focinho. Escutava um zumbido,
teeem!... Devia ser porque caí das nuvens ou da janela.
E
eu nem falara nada que ela nem era descontada?!
***
O
seu Lagamar Parangaba habitava lá para os interiores interior bem interior das
roças na linha General Osório, capela Santo Stanislau. E foi com 19 anos que
casou com a sua única mulher, a dona Juparanã Maraponga, também da mesma capela.
Ela casou com 17 anos e ainda virgem. Os dois estavam praticamente inéditos. Se
nem fosse vez em quando mais ou menos com a prima Saru ele também estaria
inédito inédito.
Quando
casaram em outubro de 68, Lagamar e Juparanã foram morar mesmo no bairro São
João Bosco rua General Andrade Neves onde compraram um sitiozinho para fazer
uma horta e criar umas galinhas. Lagamar viu que o sítio era pequeno e nem dava
para viver plantando tomate e repolho e alface e chuchu e abóbora. Lagamar
consultou Juparanã e decidiram que ele deveria abrir uma barbearia e trabalhar
de barbeiro. E foi o que fizeram. Isso ainda no primeiro ano de casados. Logo
logo chegaria mais gente.
***
Redonda e
comprida e chata e mal desenhada, ou seja, batata-doce.
Só
tinha de meu uma bicicleta magra, um isqueiro verde multichama e as ruas da
cidade. Nem seria pouco, mas era pouco. Uma vez na estação ou outra eu fazia
minha caminhada pelas ruas e bairros da cidadezinha. Era legal.
Pensava
viajar bastante comprar um apartamento no Centro um carro e seguir viajando de
vez em quando.
Sempre
sonhei que queria ser um bom turista e ver o mundo viajado o país. Sabe aqueles
que vão para Canoa Quebrada e ficam um mês acampados? Sabe aqueles que vão
acampar na lagoa Negra e nem se importam com os mosquitos? Sabe aqueles que
decidem que são doidos e vão sozinhos e ficam dois três meses no fundo do Itaimbezinho,
Aparados da Serra, Cambará do Sul? Sabe aqueles que vão até a reserva dos urupá
e convivem numa boa com os naturais e a falta das coisas comuns da cidade?
Veio
o sol, veio o vento, veio a chuva e muita água, veio a hora de pegar na
farmácia. Fui pro lado do pega. Os cargos e as funções distribuídos assim na
terra como no céu. Pensamento em nada, olhar vago e descansado.
E
ria sozinho pois era ator, tinha coisas interessantes para sonhar.
Era
ainda a mesma terça-feira. Passou um cachorro na rua. Um cachorro latiu e todos
ladraram. Todos que puderam foram atrás, os cachorros. Os que nem podiam,
estavam presos no cercado, também acoaram.
Já
havia lido o jornal da cidade duas vezes, aquela tarde. Terminei as palavras
cruzadas, os sete erros, lido a crônica do articulista de política. A última
palavra das palavras cruzadas fora: calavera.
Uma
jamanta parou na sombra da árvore da via pública. Que árvore era aquela? Nem tinha
certeza, um guamirim, um angico, embaúba, espinilho...
Nem
me bastava esse jornal local. Pouco jornal. A cidade nem dava notícias.
Fui
tentar me distrair com socos no ar, empurrando a parede, medindo passos de um
lado para o outro.
Estava
que estava aí, era uma jamanta mal conservada, suja de barro e outras coisas,
fora de moda, fora de linha, muitos eixos, vermelha.
Nem
era o melhor dia da minha vida, até ali; mas também nem era o pior, até ali.
Do
lado da jamanta, na calçada, fazendo uma sombrinha, estava a árvore. Uma árvore
que nem sabia identificar. Que árvore seria? Um umbu, uma aroeira, uma
canela-fogo, um timbé...
Passava
um homem empurrando um carrinho de mão, vendendo redes de deitar.
Para
lá da jamanta, e da árvore, num terreno baldio, plano e gramado, começava a
montagem de um circo ou parque de diversões. Nem alcancei ver os detalhes. E me
falei:
-
D-depois p-passo lá-lá-rá!...
Saí
da farmácia em companhia do Ema e do Jaó. Seguimos. Íamos jogar bola no
campinho da Sociedade Esportiva São Cristóvão. Parando para arrebanhar mais
camaradas. Virara nosso hábito. Uma beleza. Sempre os mesmos, hora habitual,
lugar todo nosso, gramado de potreiro.
Passamos
em frente à casa da Enigmática: “Cuidado com o cão!”, escrito na tabuleta do
portão. Detalhe: meus camaradas nem sabiam do meu amor secreto e invisível pela
Enigmática. E nem precisavam saber. Falei secreto porque era uma paixão nem
correspondida. Sabia que era impossível e unilateral. Por àquela hora e para
sempre, talvez. Tudo bem. Maomé precisava da montanha, a montanha nem precisava
de Maomé. Um dia desses, um dia desses outros, foi o que pensei, era o que
pensava.
Chegamos
ao campinho. Contamos. Tava faltando uma peça para o jogo ficar equilibrado.
Estávamos em sete. Faltava
um para virar quatro vezes quatro. Sem falar que ninguém nesse mundo quer ir de
goleiro.
Pensamos.
Pensamos possibilidades. Havia dúvidas e hipóteses. Tínhamos talvez que
improvisar e colocar uma planta, uma pedra, uma cadeira ali na zaga para
equilibrar as forças, dois gols de vantagem?
Estávamos
jogando. Sem goleiros. Com goleirinhas improvisadas com tijolos.
E
então...
De
repã... De repente, uma vez... Ou seria um ronco? Uma voz rouca? Olhamos. Quem
vinha de lá e falando? Quem falava rouco? O que estava falando ou roncando,
rooou?!... Olhamos...
De
repentemente era a voz de uma onça-parda:
-
Tem vaga para mais alguém?
Éramos
sete. Uns tremendo como varas verdes aos ventos minuanos, outros se pinchando
no chão. Sei que eu fiquei firme como palanque em banhado. Disse pros
meus camaradas, num resto de sopro:
-
Fiiiquem friiios...
E
a onça-parda desceu o barranco já de língua de fora. E veio na nossa direção. Àquela
hora vinha caminhando sem presa, toda felinamente, nos encarando e tal. Nos
olhando com seus olhos amarelos solares e um por um. Ninguém queria falar nada.
Ninguém correu. Todos batiam os dentes, torciam as mãos, encolhiam os pés,
escondiam o pescoço. Uma felina com quatro patas de garras enormes e duas
orelhas em atitude parabólica e mais uma cauda suspensa no ar.
E
a onça-parda, poucas pintas, bonita, felina, quase extinta, olhos de um amarelo-gema,
parou a poucos passos de nós, língua sempre de fora. A onça-parda, entendemos,
trovejou, bicho do mato, revelou:
-
Posso bater uma bolinha com ocês? - pois ela falava uma língua de português goiano
do Estado de Goiás símbolo a ave inhuma e perfeitamente entendível.
Aí,
todos queriam concordar ao mesmo tempo. Todos queriam ficar à vontade perto da
nova camarada. Todos queriam agradar ao mesmo tempo. Todos queriam jogar no
time da amiga onça. Todos queriam puxar o saco da onça-parda. Todos
concordaram, todos bateram cabeça.
Eu
pensei, e nem falei o que pensei, mas pensei assim, ó, mal e mal: a onça-parda
nasceu, cresceu, podia se reproduzir com o onça-parda e vai um dia desses, ou
daqueles, sei lá, acabar morrendo. E também... não, nem, já parei de pensar doideiras.
Esse
negócio de pensar besteiras pode custar caro, pode vir a ser mal interpretado,
pensei àquela horinha.
O
jogo de bola rolava no campinho. O clima era difícil, se imagina. A suçuarana
jogava desenvolta. Era ágil. Era felina. Era dribladora. Era artilheira. Jogava
descalça, de cola erguida. Com quatro patas ela derrubava todo mundo, passava
por todos, sempre tinha o controle da bola. Insuperável. Insuportável. Inatingível.
Inquestionável. Imperguntável. Inquebrantável. Quem diz que ela fazia falta?
Quem diz quem cobrava a falta? E pedalava com as quatro.
Bem, ela fazia
a jogada toda, desarmava, driblava quem tinha de driblar, avançava com a bola
nas patas, cruzava na área e corria e mergulhava para cabecear. Aí, ela inventava
umas coreografias para comemorar o gol. Irritante. Pensa bem, quatro patas com
unhas retráteis! Quem se arriscaria a derrotá-la? Ela driblava todo o time
adversário e fazia gol de cauda. De cauda nem valia. Quem diz gol de cauda nem
vale? Vá dizer isso pra ela!
Nem
valeria gol de cauda, nem é? Isso nem existe na regra do futebol. Mas quem seria
o idiota superior para discutir com a onça-parda? A regra do mais forte, nem é
mesmo? Deixe pra lá.
Por
aquela altura do campeonato... de repente outro susto, outra surpresa, outro ruído,
rooou!...
Ouviu-se
também um estésss!... e outro estésss!... e mais outro estésss!... e quantos
estésss!... foram possíveis.
Olhamos
o barranco de onde vinha estes sons de, estésss!... Um homem estalava um
chicote muito comprido. A onça-parda, então, se apavorou, encolheu todo o corpo
como um cachorrinho doente ou recém-nascido. E se borrou toda e se urinou toda,
os tais distúrbios neurovegetativos, etc. E vomitou polenta com carne de
galinha descabelada. E chorou como uma cachorrinha doente ou recém-parida. E
mordeu a própria língua. E, me pareceu, morria da vergonha que passava ali na
nossa frente.
O
homem do chicote desceu o barranco. E veio brabo, feroz, um onça-parda mesmo. E
veio buscar a própria onça-parda. O homem... estésss!... estalava o chicote sem
parar. O homem do zoológico estava babando de raiva. O homem, um esquisito
atrabiliário, bufava e espumava de raiva. O homem sem modos, suando, pingando
do nariz, estalava o chicote... estésss!... O homem blasfemava e urrava como um
onça-parda mal educado, rooou!...
O
homem do zoo ou do circo nem queria saber de nós, nem nos olhou um instante, nem
disse uma palavra na nossa direção, nem desceu o degrau. Foi falar e falou com a
suçuarana:
-
É aqui que você tá, sua gazeteira?! Já para casa! Já para casa que senão te corto
toda a chicote, estésss!... Nem sabe que ainda hoje temos visitas, show,
estésss!... apresentação, espetáculo, teatro, é, hein?!
Nós,
os camaradas todos, nós nos olhamos muito pálidos de espanto e frios de pavor.
Que que era aquilo, meu?! O jogo já era.
Pensei
comigo, já voltando pra casa: vou jogar no bicho: é tigre, só pode.
E
passei na barbearia do seu Tururim Cotiara e joguei seco no tigre e na cabeça
do tigre. Carreguei na cabeça.
Se
ergueu a primeira estrela, porta do céu. Se levantou a estrela, uma tropa
delas, a manada toda, o enxame completo. Apareceram, subiram, um bando com nome
e figura; e passaram devagarzinho.
Caminhei
pelaí. Àquela horinha, ultimamente, naqueles últimos dias, fazia caminhadas
pelas ruas da cidade, já pela manhã, antes do almoço, e antes de ir para a
farmácia. Era fácil, era legal. Caminhar era bom para relaxar. Andava muito
irritado. Me irritava comigo mesmo e aí precisava caminhar. Caminhar me acalmava,
um tanto. Estava assistindo tevê aqueles dias atrás, quando a ideia de caminhar
peripateticar me bateu. Adotei porque era ótimo e rua Coronel Niederauer rua Prudente
de Moraes...
Dia
seguinte e posterior, antes de entrar no batente, fui até a padaria do seu Irerê
conferir o número do bicho. Havia dado o burro no milhar.
***
Meu
tio Urubici - esse era realmente o seu nome - resolveu mesmo escolher uma tarde
de domingo para os encontros, reencontros especiais. Convidou todas elas as
suas ex-paixões, seus ex-casos, suas ex-namoradas, suas ex-flores-do-campo.
Estava com saudades e pensava muito nisso. Todas muito lindas? Todas muito
lindas ou pelo menos todas muito simpáticas.
Na
verdade eram as meninas que ele fora colecionando e catando ao longo das
aventuras e travessuras. Agora já maduro estava com saudades e tal. Ele já com
a idade dos seus 60 e tantos e lembrando alisando a barba e contando os cabelos
restantes. Estava aposentado cansado dos macroprocessos com tempo para pensar
por aí andar por aí fazendo biscates às vezes fazia isso outras aquilo etc e
assim por diante. E elas na idade que ele as conheceu, ainda gurias,
adolescentes, jovens, pouco mais de 30 quilos.
Uma
tarde de domingo e com chuva, ainda por cima.
E
Urubici ficou ali no apartamento, residencial Bocaiú, avenida Presidente
Vargas, no Centro, esperando que as gurias chegassem. Elas nem se conheciam,
iam se conhecer.
Urubici cheio
de expectativas. Cheio de planos. Que planos? Botou uma música no ar e ficou
ali no sofá tomando uma cervejinha. Às vezes ia até a janela. Ele mais de 59
anos, elas mais ou menos 30 quilos. Tinha saudades boas lembranças das gurias,
isso sim.
Quatro
horas da tarde, música da chuva, bateram à porta e a Juazeiro apareceu. Toda
vestida de branco como na lembrança, blusa manga curta, o cabelo liso e negro
até a cintura, guarda-chuva molhado. Juazeiro queria trabalhar no cinema, na
tevê, atriz de novelas, cantava o dia todo como um passarinho tietinga. Uns
olhos que Urubici já tinha esquecido, talvez de mel. Fora um namoro pelos
olhos, ela tinha uns 11 anos, depois 12, até uns 15 anos. A menina mais bonita da
rua, a mais bonita do colégio, que era a mais linda do bairro. E por incrível
que possa parecer à primeira vista, a mais inteligente de melhores notas na
escola até o fim do médio.
Quando
Urubici pretendia convidar Juazeiro para dançar... bateram à porta. Era a
Mulungu e seus seios enormes, os cabelos presos em rabo de cavalo. Muito mais
alegre e provida de carnes e coisas para pegar. Seios que enchiam as mãos. Ela
ria e os seios batiam cabeça. Na ideia de Urubici veio a lembrança daquele dia
quando quase quase foram flagrados se agarrando atrás das cortinas da sala lá
da casa dos pais dela. Tanto faz! Pouco fez! Tanto tempo!
Juazeiro
olhava uns cedês que estavam ali na mesinha de centro, e Mulungu foi abrir a
porta. Encostada no batente da porta, toda dengosa e manhosa e insinuante e
versátil, a bela Guajará. Guajará vinha de cabelos molhados, roupa molhada, uma
beleza. Guajará agarrou Urubici pela camisa e o encheu de abraços e beijos e
empurrões. Depois ela se juntou com Juazeiro. Era a mais jovem das namoradinhas
de Urubici, uns 13 anos quando trocaram os primeiros agarrões, olhar doce,
olhar arregalado, sardas pelo rosto, sardas por tudo, cabelos de fogo (embora
ainda molhados), sorriso assustado de pré-adolescente. Mulungu seguia Urubici
por onde ele fosse, pelos cômodos todos, na cozinha, na área, no banheiro.
Depois
das 5h e 30min que apareceu a última convidada, talvez a última saudade de
Urubici, surgiu a graça graciosa vertical da Sepetiba. E seus olhos brilhavam
acompanhados dos lindos dentes aperolados. Uns cabelos tão longos que era incrível,
era uma arte, era um fenômeno. Ela detestava que puxassem seus logos cabelos. Um
pouco resfriada pelo tempo. Urubici nunca puxara aqueles longos cabelos. E
Sepetiba nunca cansava de falar, sempre tinha o que dizer, falava com sorriso
na boca - o que era raro raro. Essa Sepetiba chamava Urubici de “Gabriel”, em
referência ao anjo. E Urubici gostava muito dessa palavra na boca mágica e
apetitosa de Sepetiba. Sepetiba jogava os cabelos para trás, com a mão.
A
campainha tocou e Urubici ficou surpreso e quase preocupado. Nem era para mais
nenhuma convidada, mais nenhuma saudade, mais nenhuma maravilha da natureza, mais
nenhuma visita... quem seria?
Urubici
foi abrir a porta e deparou com Tacaruna. Ela riu alto, abriu bem os braços e
pulou nas orelhas dele. Um cabelo curto, solto, bonito, toda ensopada da chuva.
Pinta preta no queixinho, cabelos em aros, molhados molhados pingando água
natural da chuva. Foram colegas quando Urubici foi trabalhar numa fábrica de janelas
persianas em Pinto
Bandeira.
-
Eta, Tacaruna! Ainda bem que você se lembrou de mim.
E
ficaram andando pela sala abraçados, ele fez as apresentações, tinha bolo de
chocolate, apareceram sanduíches, se empurravam com risos e deboches, havia
doces, umas bebidas na geladeira, queriam se olhar e se olhavam de perto, tinha
jabuticaba, tinha geleia de abacaxi, tinha vasinho com plantinha
couve-cravinho, tinha sorvete de caju, tinha tevê ligada no canal do comercial.
A
Juazeiro saiu como entrou, sem se despedir. Mulungu nem o largou por nada e
disse que queria dormir por ali, pelo menos uns três dias. Guajará disse que
tinha que acordar cedo na segunda, olhou o tempo pela janela, suspirou e pulou
fora. Sepetiba estava preocupada com os cabelos, tinha já de lavá-los com água mineral
e xampu de sabor limão e pô-los para secar. Tacaruna tinha viagem tratada excursão
trabalho para Prado, praia das Ostras, praia de Tauá, praia do Farol, praia da
Areia Preta, dia seguinte ali pelas 5h.
O
que aconteceu com tio Urubici deve e pretendo acontecer comigo e com todos nós.
Seria bom e convidativo. Pelo menos uma vez na nossa sorte no nosso rio de cada
um merecido.
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