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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 12




Um Assunto e Várias Informações

            Me perguntei, então:
            - Há vida na aba desta quinta-feira?
            Nem hesitei mais. Elevei meus sonhos para o começo do mundo, ou seja, o fim de semana.
            Mas aquilo pouco exportava, no momento.
            A prima Mucajaí estava na janela do quarto lá dela da casa dos pais lá dela os meus tios. Fui até lá pra encher o saco, dela no caso. Abri o portão, o cachorrinho Macuco já me conhecia, fechei o portão. O cãozinho queria falar comigo, latia, balançava o rabo e me deixava passar mal e mal. Atravessei o pátio, o cãozinho embaraçando as minhas pernas os meus passos. Fui pelo costado da casa até me postar debaixo da janela. Trepei e me sentei no parapeito ouvindo música sertaneja numa rádio qualquer de Serafina Correa. O Macuco ficou me olhando com surpresa. Chamei a prima para perto e ela veio, cabelos molhados, correntinha de ouro no pescoço.
            Beijei-a na boca. Ela riu nervoso. Falou qualquer coisa:
            - Estava fazendo uma refeição frugal. Penso ir a Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália no carnaval. Já afirmaram que o mundo acaba em 2020 por causa da coincidência dos 20. O rio da Prata cai no das Antas, o rio das Antas se junta com o Carreiro e formam o Taquari, o Taquari se alia ao Forqueta e engrossam o Jacuí...
            Assoprei umas coisas no ouvido dela. Ela balançou, quase caiu e riu histérica. Guria fascinante, travessa, sorriso legendado como toda menina com pré-história, rosto iluminado, olhos cintilantes, corpo interditado.
            - Quando passava por Caraíbas, ano passado nas férias, visitei por dois dias um amigo Gervão-Cheiroso. Trocamos planos. Falei assim: “Vou até Colares comprar um chapéu de palha de sapé trançado. O verão já vem muito quente e forte. Os dias muitos e ensolarados e com pouco ou nada de vento. Quarenta e seis graus na sombra, é dose.” Aí ele me perguntou me questionando: “Até Colares somente pra isso?” Eu respondi: “É que é um chapéu importante e curioso.”
            Eu incentivei e ela falou mais. Ria como gosto de vê-la rir. Todo dia eu pensava Mucajaí rindo. Era lindo e me dava água na boca. Ela falando de sorriso de amostra:
- Pois é. Assim foi e papeamos outras coisas eu mais a planta que nem vêm ao caso e daí por diante. Era até um domingo. Estávamos na varanda, eu sossegada ele no vaso enfeitado com pedrinhas brancas, quando até uma corruíra estrilava por perto.
            Ficamos dois primos de mãos dadas. Muito bobinhos. Ela de short branco com cavadinha. Ficamos de mãos dadas como dois bobos. Uns olhos verdes bonitos uns pés de rastos leves bonitos uns braços fortes e roliços bonitos.
            Apertei o bico do seio dela. Ela riu mais ainda, riu com excitação. Segurou apertou o peito com ambas as mãos, meiga meiga.
            Mucajaí nem era retardada, mas gostava de rir de todas as coisas, mas gostava de rir de todas as maneiras. Era uma menina novinha, extrovertida, mal educada, chata, ágil, cheia de energia para gastar e rolar. Ria com os dentes apertados, notou?!
            Passava a mão lá embaixo dela entre as pernas lá dela. Ela usava, aquele dia, um short apertado todo desenhado de flores e plantinhas. Esticava o braço até lá embaixo e passava a mão boba... Ela nem queria e dava uns pulos pra trás. Mas a gente ria.
            Eu senti só um zumbido, teeem!... e também um zunido, pêeem!...
            Me olhei. Estava atirado no chão do pátio da casa da prima Mucajaí. Estranho, escutava um... como? O Macuco cheirando meu focinho. Escutava um zumbido, teeem!... Devia ser porque caí das nuvens ou da janela.
            E eu nem falara nada que ela nem era descontada?!
                                                                       ***
            O seu Lagamar Parangaba habitava lá para os interiores interior bem interior das roças na linha General Osório, capela Santo Stanislau. E foi com 19 anos que casou com a sua única mulher, a dona Juparanã Maraponga, também da mesma capela. Ela casou com 17 anos e ainda virgem. Os dois estavam praticamente inéditos. Se nem fosse vez em quando mais ou menos com a prima Saru ele também estaria inédito inédito.
            Quando casaram em outubro de 68, Lagamar e Juparanã foram morar mesmo no bairro São João Bosco rua General Andrade Neves onde compraram um sitiozinho para fazer uma horta e criar umas galinhas. Lagamar viu que o sítio era pequeno e nem dava para viver plantando tomate e repolho e alface e chuchu e abóbora. Lagamar consultou Juparanã e decidiram que ele deveria abrir uma barbearia e trabalhar de barbeiro. E foi o que fizeram. Isso ainda no primeiro ano de casados. Logo logo chegaria mais gente. 
                                                                       ***
Redonda e comprida e chata e mal desenhada, ou seja, batata-doce.
            Só tinha de meu uma bicicleta magra, um isqueiro verde multichama e as ruas da cidade. Nem seria pouco, mas era pouco. Uma vez na estação ou outra eu fazia minha caminhada pelas ruas e bairros da cidadezinha. Era legal.
            Pensava viajar bastante comprar um apartamento no Centro um carro e seguir viajando de vez em quando.
            Sempre sonhei que queria ser um bom turista e ver o mundo viajado o país. Sabe aqueles que vão para Canoa Quebrada e ficam um mês acampados? Sabe aqueles que vão acampar na lagoa Negra e nem se importam com os mosquitos? Sabe aqueles que decidem que são doidos e vão sozinhos e ficam dois três meses no fundo do Itaimbezinho, Aparados da Serra, Cambará do Sul? Sabe aqueles que vão até a reserva dos urupá e convivem numa boa com os naturais e a falta das coisas comuns da cidade?
            Veio o sol, veio o vento, veio a chuva e muita água, veio a hora de pegar na farmácia. Fui pro lado do pega. Os cargos e as funções distribuídos assim na terra como no céu. Pensamento em nada, olhar vago e descansado.
            E ria sozinho pois era ator, tinha coisas interessantes para sonhar.
            Era ainda a mesma terça-feira. Passou um cachorro na rua. Um cachorro latiu e todos ladraram. Todos que puderam foram atrás, os cachorros. Os que nem podiam, estavam presos no cercado, também acoaram.
            Já havia lido o jornal da cidade duas vezes, aquela tarde. Terminei as palavras cruzadas, os sete erros, lido a crônica do articulista de política. A última palavra das palavras cruzadas fora: calavera.
            Uma jamanta parou na sombra da árvore da via pública. Que árvore era aquela? Nem tinha certeza, um guamirim, um angico, embaúba, espinilho...
            Nem me bastava esse jornal local. Pouco jornal. A cidade nem dava notícias.
            Fui tentar me distrair com socos no ar, empurrando a parede, medindo passos de um lado para o outro.
            Estava que estava aí, era uma jamanta mal conservada, suja de barro e outras coisas, fora de moda, fora de linha, muitos eixos, vermelha.
            Nem era o melhor dia da minha vida, até ali; mas também nem era o pior, até ali.
            Do lado da jamanta, na calçada, fazendo uma sombrinha, estava a árvore. Uma árvore que nem sabia identificar. Que árvore seria? Um umbu, uma aroeira, uma canela-fogo, um timbé...
            Passava um homem empurrando um carrinho de mão, vendendo redes de deitar.
            Para lá da jamanta, e da árvore, num terreno baldio, plano e gramado, começava a montagem de um circo ou parque de diversões. Nem alcancei ver os detalhes. E me falei:
            - D-depois p-passo lá-lá-rá!...
            Saí da farmácia em companhia do Ema e do Jaó. Seguimos. Íamos jogar bola no campinho da Sociedade Esportiva São Cristóvão. Parando para arrebanhar mais camaradas. Virara nosso hábito. Uma beleza. Sempre os mesmos, hora habitual, lugar todo nosso, gramado de potreiro.
            Passamos em frente à casa da Enigmática: “Cuidado com o cão!”, escrito na tabuleta do portão. Detalhe: meus camaradas nem sabiam do meu amor secreto e invisível pela Enigmática. E nem precisavam saber. Falei secreto porque era uma paixão nem correspondida. Sabia que era impossível e unilateral. Por àquela hora e para sempre, talvez. Tudo bem. Maomé precisava da montanha, a montanha nem precisava de Maomé. Um dia desses, um dia desses outros, foi o que pensei, era o que pensava.
            Chegamos ao campinho. Contamos. Tava faltando uma peça para o jogo ficar equilibrado. Estávamos em sete. Faltava um para virar quatro vezes quatro. Sem falar que ninguém nesse mundo quer ir de goleiro.
            Pensamos. Pensamos possibilidades. Havia dúvidas e hipóteses. Tínhamos talvez que improvisar e colocar uma planta, uma pedra, uma cadeira ali na zaga para equilibrar as forças, dois gols de vantagem?
            Estávamos jogando. Sem goleiros. Com goleirinhas improvisadas com tijolos.
            E então...
            De repã... De repente, uma vez... Ou seria um ronco? Uma voz rouca? Olhamos. Quem vinha de lá e falando? Quem falava rouco? O que estava falando ou roncando, rooou?!... Olhamos...
            De repentemente era a voz de uma onça-parda:
            - Tem vaga para mais alguém?
            Éramos sete. Uns tremendo como varas verdes aos ventos minuanos, outros se pinchando no chão. Sei que eu fiquei firme como palanque em banhado. Disse pros meus camaradas, num resto de sopro:
            - Fiiiquem friiios...
            E a onça-parda desceu o barranco já de língua de fora. E veio na nossa direção. Àquela hora vinha caminhando sem presa, toda felinamente, nos encarando e tal. Nos olhando com seus olhos amarelos solares e um por um. Ninguém queria falar nada. Ninguém correu. Todos batiam os dentes, torciam as mãos, encolhiam os pés, escondiam o pescoço. Uma felina com quatro patas de garras enormes e duas orelhas em atitude parabólica e mais uma cauda suspensa no ar.
            E a onça-parda, poucas pintas, bonita, felina, quase extinta, olhos de um amarelo-gema, parou a poucos passos de nós, língua sempre de fora. A onça-parda, entendemos, trovejou, bicho do mato, revelou:
            - Posso bater uma bolinha com ocês? - pois ela falava uma língua de português goiano do Estado de Goiás símbolo a ave inhuma e perfeitamente entendível.
            Aí, todos queriam concordar ao mesmo tempo. Todos queriam ficar à vontade perto da nova camarada. Todos queriam agradar ao mesmo tempo. Todos queriam jogar no time da amiga onça. Todos queriam puxar o saco da onça-parda. Todos concordaram, todos bateram cabeça.
            Eu pensei, e nem falei o que pensei, mas pensei assim, ó, mal e mal: a onça-parda nasceu, cresceu, podia se reproduzir com o onça-parda e vai um dia desses, ou daqueles, sei lá, acabar morrendo. E também... não, nem, já parei de pensar doideiras.
            Esse negócio de pensar besteiras pode custar caro, pode vir a ser mal interpretado, pensei àquela horinha.
            O jogo de bola rolava no campinho. O clima era difícil, se imagina. A suçuarana jogava desenvolta. Era ágil. Era felina. Era dribladora. Era artilheira. Jogava descalça, de cola erguida. Com quatro patas ela derrubava todo mundo, passava por todos, sempre tinha o controle da bola. Insuperável. Insuportável. Inatingível. Inquestionável. Imperguntável. Inquebrantável. Quem diz que ela fazia falta? Quem diz quem cobrava a falta? E pedalava com as quatro.
Bem, ela fazia a jogada toda, desarmava, driblava quem tinha de driblar, avançava com a bola nas patas, cruzava na área e corria e mergulhava para cabecear. Aí, ela inventava umas coreografias para comemorar o gol. Irritante. Pensa bem, quatro patas com unhas retráteis! Quem se arriscaria a derrotá-la? Ela driblava todo o time adversário e fazia gol de cauda. De cauda nem valia. Quem diz gol de cauda nem vale? Vá dizer isso pra ela!
            Nem valeria gol de cauda, nem é? Isso nem existe na regra do futebol. Mas quem seria o idiota superior para discutir com a onça-parda? A regra do mais forte, nem é mesmo? Deixe pra lá.
            Por aquela altura do campeonato... de repente outro susto, outra surpresa, outro ruído, rooou!...
            Ouviu-se também um estésss!... e outro estésss!... e mais outro estésss!... e quantos estésss!... foram possíveis.
            Olhamos o barranco de onde vinha estes sons de, estésss!... Um homem estalava um chicote muito comprido. A onça-parda, então, se apavorou, encolheu todo o corpo como um cachorrinho doente ou recém-nascido. E se borrou toda e se urinou toda, os tais distúrbios neurovegetativos, etc. E vomitou polenta com carne de galinha descabelada. E chorou como uma cachorrinha doente ou recém-parida. E mordeu a própria língua. E, me pareceu, morria da vergonha que passava ali na nossa frente.
            O homem do chicote desceu o barranco. E veio brabo, feroz, um onça-parda mesmo. E veio buscar a própria onça-parda. O homem... estésss!... estalava o chicote sem parar. O homem do zoológico estava babando de raiva. O homem, um esquisito atrabiliário, bufava e espumava de raiva. O homem sem modos, suando, pingando do nariz, estalava o chicote... estésss!... O homem blasfemava e urrava como um onça-parda mal educado, rooou!...
            O homem do zoo ou do circo nem queria saber de nós, nem nos olhou um instante, nem disse uma palavra na nossa direção, nem desceu o degrau. Foi falar e falou com a suçuarana:
            - É aqui que você tá, sua gazeteira?! Já para casa! Já para casa que senão te corto toda a chicote, estésss!... Nem sabe que ainda hoje temos visitas, show, estésss!... apresentação, espetáculo, teatro, é, hein?!
            Nós, os camaradas todos, nós nos olhamos muito pálidos de espanto e frios de pavor. Que que era aquilo, meu?! O jogo já era.
            Pensei comigo, já voltando pra casa: vou jogar no bicho: é tigre, só pode.
            E passei na barbearia do seu Tururim Cotiara e joguei seco no tigre e na cabeça do tigre. Carreguei na cabeça.
            Se ergueu a primeira estrela, porta do céu. Se levantou a estrela, uma tropa delas, a manada toda, o enxame completo. Apareceram, subiram, um bando com nome e figura; e passaram devagarzinho.
            Caminhei pelaí. Àquela horinha, ultimamente, naqueles últimos dias, fazia caminhadas pelas ruas da cidade, já pela manhã, antes do almoço, e antes de ir para a farmácia. Era fácil, era legal. Caminhar era bom para relaxar. Andava muito irritado. Me irritava comigo mesmo e aí precisava caminhar. Caminhar me acalmava, um tanto. Estava assistindo tevê aqueles dias atrás, quando a ideia de caminhar peripateticar me bateu. Adotei porque era ótimo e rua Coronel Niederauer rua Prudente de Moraes...
            Dia seguinte e posterior, antes de entrar no batente, fui até a padaria do seu Irerê conferir o número do bicho. Havia dado o burro no milhar.
                                                                       ***
            Meu tio Urubici - esse era realmente o seu nome - resolveu mesmo escolher uma tarde de domingo para os encontros, reencontros especiais. Convidou todas elas as suas ex-paixões, seus ex-casos, suas ex-namoradas, suas ex-flores-do-campo. Estava com saudades e pensava muito nisso. Todas muito lindas? Todas muito lindas ou pelo menos todas muito simpáticas.  
            Na verdade eram as meninas que ele fora colecionando e catando ao longo das aventuras e travessuras. Agora já maduro estava com saudades e tal. Ele já com a idade dos seus 60 e tantos e lembrando alisando a barba e contando os cabelos restantes. Estava aposentado cansado dos macroprocessos com tempo para pensar por aí andar por aí fazendo biscates às vezes fazia isso outras aquilo etc e assim por diante. E elas na idade que ele as conheceu, ainda gurias, adolescentes, jovens, pouco mais de 30 quilos.
            Uma tarde de domingo e com chuva, ainda por cima.
            E Urubici ficou ali no apartamento, residencial Bocaiú, avenida Presidente Vargas, no Centro, esperando que as gurias chegassem. Elas nem se conheciam, iam se conhecer.
Urubici cheio de expectativas. Cheio de planos. Que planos? Botou uma música no ar e ficou ali no sofá tomando uma cervejinha. Às vezes ia até a janela. Ele mais de 59 anos, elas mais ou menos 30 quilos. Tinha saudades boas lembranças das gurias, isso sim.
            Quatro horas da tarde, música da chuva, bateram à porta e a Juazeiro apareceu. Toda vestida de branco como na lembrança, blusa manga curta, o cabelo liso e negro até a cintura, guarda-chuva molhado. Juazeiro queria trabalhar no cinema, na tevê, atriz de novelas, cantava o dia todo como um passarinho tietinga. Uns olhos que Urubici já tinha esquecido, talvez de mel. Fora um namoro pelos olhos, ela tinha uns 11 anos, depois 12, até uns 15 anos. A menina mais bonita da rua, a mais bonita do colégio, que era a mais linda do bairro. E por incrível que possa parecer à primeira vista, a mais inteligente de melhores notas na escola até o fim do médio.
            Quando Urubici pretendia convidar Juazeiro para dançar... bateram à porta. Era a Mulungu e seus seios enormes, os cabelos presos em rabo de cavalo. Muito mais alegre e provida de carnes e coisas para pegar. Seios que enchiam as mãos. Ela ria e os seios batiam cabeça. Na ideia de Urubici veio a lembrança daquele dia quando quase quase foram flagrados se agarrando atrás das cortinas da sala lá da casa dos pais dela. Tanto faz! Pouco fez! Tanto tempo!
            Juazeiro olhava uns cedês que estavam ali na mesinha de centro, e Mulungu foi abrir a porta. Encostada no batente da porta, toda dengosa e manhosa e insinuante e versátil, a bela Guajará. Guajará vinha de cabelos molhados, roupa molhada, uma beleza. Guajará agarrou Urubici pela camisa e o encheu de abraços e beijos e empurrões. Depois ela se juntou com Juazeiro. Era a mais jovem das namoradinhas de Urubici, uns 13 anos quando trocaram os primeiros agarrões, olhar doce, olhar arregalado, sardas pelo rosto, sardas por tudo, cabelos de fogo (embora ainda molhados), sorriso assustado de pré-adolescente. Mulungu seguia Urubici por onde ele fosse, pelos cômodos todos, na cozinha, na área, no banheiro.
            Depois das 5h e 30min que apareceu a última convidada, talvez a última saudade de Urubici, surgiu a graça graciosa vertical da Sepetiba. E seus olhos brilhavam acompanhados dos lindos dentes aperolados. Uns cabelos tão longos que era incrível, era uma arte, era um fenômeno. Ela detestava que puxassem seus logos cabelos. Um pouco resfriada pelo tempo. Urubici nunca puxara aqueles longos cabelos. E Sepetiba nunca cansava de falar, sempre tinha o que dizer, falava com sorriso na boca - o que era raro raro. Essa Sepetiba chamava Urubici de “Gabriel”, em referência ao anjo. E Urubici gostava muito dessa palavra na boca mágica e apetitosa de Sepetiba. Sepetiba jogava os cabelos para trás, com a mão.
            A campainha tocou e Urubici ficou surpreso e quase preocupado. Nem era para mais nenhuma convidada, mais nenhuma saudade, mais nenhuma maravilha da natureza, mais nenhuma visita... quem seria?
            Urubici foi abrir a porta e deparou com Tacaruna. Ela riu alto, abriu bem os braços e pulou nas orelhas dele. Um cabelo curto, solto, bonito, toda ensopada da chuva. Pinta preta no queixinho, cabelos em aros, molhados molhados pingando água natural da chuva. Foram colegas quando Urubici foi trabalhar numa fábrica de janelas persianas em Pinto Bandeira.
            - Eta, Tacaruna! Ainda bem que você se lembrou de mim.
            E ficaram andando pela sala abraçados, ele fez as apresentações, tinha bolo de chocolate, apareceram sanduíches, se empurravam com risos e deboches, havia doces, umas bebidas na geladeira, queriam se olhar e se olhavam de perto, tinha jabuticaba, tinha geleia de abacaxi, tinha vasinho com plantinha couve-cravinho, tinha sorvete de caju, tinha tevê ligada no canal do comercial.
            A Juazeiro saiu como entrou, sem se despedir. Mulungu nem o largou por nada e disse que queria dormir por ali, pelo menos uns três dias. Guajará disse que tinha que acordar cedo na segunda, olhou o tempo pela janela, suspirou e pulou fora. Sepetiba estava preocupada com os cabelos, tinha já de lavá-los com água mineral e xampu de sabor limão e pô-los para secar. Tacaruna tinha viagem tratada excursão trabalho para Prado, praia das Ostras, praia de Tauá, praia do Farol, praia da Areia Preta, dia seguinte ali pelas 5h.
            O que aconteceu com tio Urubici deve e pretendo acontecer comigo e com todos nós. Seria bom e convidativo. Pelo menos uma vez na nossa sorte no nosso rio de cada um merecido.