É,
foi naquele dia. É, foi com o sol que passava, passando, passarinho e ficava
pelo dia, escalando o dia todo, gol de sol.
Uma
procissão de coisas de bichos de gentes que vinham chegando de Japurá, Lagoão,
São Gabriel da Cachoeira, Independência, Acará, Mocooca, Mata de São João,
Jacuípe.
Pois a moça Caúna recebeu de
presente, não soube de quem, um cavalo tordilho e bom dos de ótimo. O tordilho
tinha quatro patas e quatro anos de idade... Tinha uma cabeça que ia e uma
cauda esvoaçante que acompanhava meio a contragosto, volta e meia. Tordilho
porque é o que dizem quando o cavalo tem pelo escuro com manchas brancas. É, a
Caúna, a moça cunhantã dos cabelos esvoaçantes, a iara alada dos rios e lagos,
recebeu o tal cavalo de um admirador ou amigo secreto.
O sol veio ver, as talás
vieram ver, os canários-do-mato vieram conferir, enxame de cabatatus estava
presente, e o dia de orquídeas de três cores.
Quem
era esse secreto admirador da moça Caúna? Nada se soube. Ela menos ainda. Um
amigo espião que a espionava? Ela mesma não soube, dito e feito. Quase ninguém
soube. Os que quase souberam não contaram porque não tinham certeza e era
segredo. Então, ficou tudo em segredo de Estado. E raras pessoas e bichos e
coisas ficaram sabendo desse tal amigo secreto da cunhantã.
Caúna
pensou horas num nome bem interessante ou importante ou ainda dignificante para
nomear o seu cavalo tordilho. Dar nome ao cavalo, é. Pensou em abrir um
concurso para escolha do nome, mas isso levaria tempo. Caúna, cunhantã das
florestas, queria o nome para ontem. Assim pensou e chegou à conclusão que já
se decidia. Os cabelos dela bonitos e lindos até demais e mesmo sem querer e
fora de hora. O nome do tordilho só podia ser mesmo este: Galope. Escolhido o
nome, começou a divulgá-lo para toda a gente. E todos da cidade de Ivy-Marae
logo logo souberam.
Mas,
e existiu um porém, a Caúna não gostou da cor do cavalo. E pediu para trocar.
Queria trocar a cor para uma do seu gosto mais na moda. Com certeza uma cor que
estivesse na mídia ou que pudesse chamar mais atenção. Cores se discutem, cores
se experimentam, se trocam, cores se misturam, cores se aproximam.
Então,
a cunhantã foi a um veterinário esperto e pediu um remédio para fazer o cavalo
mudar de cor. O veterinário perguntou:
-
Hum... Então, tá. Que cor você está pensando para o seu tordilho?
Caúna,
moça de luz própria, a joia das águas doces, a pedra verde das águas, olhos em
duas esmeraldas compensadas, se manifestou:
- Eu
gosto muito da cor verde. Ou pode ser azul. Talvez marrom com listras brancas
verticais.
-
Pode ser preto, se a cunhantã assim desejar. É só dar para o tordilho beber
este remédio aqui, olhe. O tordilho não vai nem sentir e nem se importar e nem
ter sequelas. O cavalo vai até gostar e se sentir exibido.
A
Caúna, a moça dos cabelos no ar como parabólica, que alguns ainda confundiam
com a mãe-d’água, pegou o frasco com o remédio dentro e voltou para casa, o
Jardim Botânico.
Na cela da cocheira imperial,
aplicou uma baita injeção de azul na veia do cavalo. Sem pedir a opinião do
fabricante de cavalos. A moça ainda enfeitou a seu critério e gosto o equino,
ou seja, fez ele usar um lenço vermelho de maragato - digamos um lençol - no
pescoço. Sem pedir licença, mais uma vez, para o cavalo e para o supremo
criador de cavalos e similares e tudo o mais.
No
outro dia o cavalo da cunhantã já estava azulzinho, vá lá. No segundo, no
terceiro já era azul profundo. Totalmente azul. E o tordilho virou um outro
tipo qualquer de cavalo, talvez azulego. Talvez um cavalo de exposição, um
cavalo fuá. Aí, a cunhantã vibrou de contente:
-
Uau!...
Vibrou
e gritou e beijou, que todo o mundo ouvisse, e todos ouviram, e riu muito,
tipo:
- Cha-cha-chá!...
A
partir daí então, a Caúna passeou pela tarde toda, todas as tardes pela
vizinhança do palácio de vidro e à beira do lago e no Corredor da Vitória,
montada no seu belo cavalo azulego. Este cavalo azul de nome Galope e novo e
forte e impetuoso e azul. Ele relinchava assim, indo ou vindo pela rua, sem
tradução, pelas ruas:
-
Iiiiiiêh!...
Ou
ria, assim:
-
Iiiiiiih!...
Uma
tarde de domingo, na avenida dos Guaxi, e sombreada de jacarandás-cabiúnas
lilases ou azuis, esquina da avenida dos Jacarandás, quase em frente de uma
loja de produtos para hortas e jardins e gramados, o cavalo azulego Galope
disparou na correria sem freios. E foi um perigo. E foi uma sorte em aberto.
Foi difícil porque a cunhantã
era inexperiente, além de ter sido pega de surpresa. E porque também o cavalo
era muito novo e forte e cheio de sustos e de autoestima e livre-arbítrio.
Então - “seguuuura, pinhão!” -, se deu um desastre quase perfeito. A moça
Caúna, de cabelo alçado em touceira, de cabelo como em cachecol, foi jogada
fora da sela vindo a cair no chão de terra vermelha, assim... pofe!... A moça
caiu, bateu a cabeça e desmaiou redondinha.
E não foi só isso. O perigo
foi crescendo e foi maior ainda, pois o pé da cunhantã ficou preso ao estribo
e, assim, o cavalo azulego Galope ainda a arrastou por duzentos metros avenida
Piri afora até bem para lá. Levantando uma poeira que obrigou os comerciantes
da avenida Papa-Mel a fecharem as portas por uns minutos, e as andorinhas nos
fios de tensão a tossirem quase sem ar. As andorinhas até comentaram, trissaram
do jeito delas, muito surpresas:
- Que
coisa! Que coisa! Que coisa!...
E não
foi só isso na relação de amizade e camaradagem entre a Caúna e seu cavalo
Galope, que ganhara do amigo secreto. A cunhantã, mãe do ouro e das pedras
preciosas, gostava de andar a cavalo pelas bandas do lago e pelo pátio do
palácio de vidro. Pelas bandas do palácio há uma linha de palmeiras
tucumãs-araras imóveis, ou quase imóveis, com as franjas se descabelando ao
vento. Nesse lugar todo o povo de Ivy-Marae estava acostumado a ver a moça
passear todo santo dia. Até debaixo de uma chuvinha razoável a moça não perdia
o hábito de andar a cavalo. E no frio do inverno, envolta num pala felpudo, lá
iam os dois no troque! troque!... do patear do cavalo azulego Galope. A moça
ainda gostava de andar por aí no inverno para ouvir o assobio do minuano indo e
voltando ou rodeando. Que houve com o Galope que perdeu a confiança e disparou
no trote sem freios?
Pois
bem. De outra vez. Uma outra vez, quando a moça, de cabelão empinado no vento,
andava muito calma montada no seu cavalo azul de nome Galope, ali pela avenida,
em frente a uma ou duas lojas que vendiam produtos para hortas e jardins e
gramados, o bicho disparou numa velocidade, numa velocidade sem saber por quê.
A Caúna foi junto, já que estava montada na sela, segurando as rédeas. E a
Caúna também foi pega outra vez de surpresa. Não conseguiu mais parar o animal cavalo
amigo: “seguuuura, pilão!”. Este cavalo azulego Galope foi correndo muito
apressado e furioso, virou a esquina das Andorinhas num de repente muito
repentino e... cavalo azulego Galope e cunhantã Caúna dos cabelos alçados,
foram aí sim... foram pechar numa van que vinha pacificamente do sentido
oposto. Houve um estrondo... traaaarhs!... e logo mais um ou dois, assim...
triiish!... treeemm!... E olha!, o cavalo azulego, de nome Galope, se salvou; a
van, último ano e lotada de passageiros chegados recém do parque cabo Orange,
se salvou completinha; e a Caúna, moça dos cabelos suspensos no ar, se salvou.
Total de mortos: nenhum. Mas todos com graves problemas de ferimentos tipo
escoriações, luxações, sensações, outras ações. A Caúna bateu a cabeça no
espelhinho retrovisor externo esquerdo da van e rachou a casca. Total da Caúna:
caiu no chão profundamente desacordada e minando um vermelho pegajoso.
Ali
na vizinhança, do outro lado do muro que separava da rua das Andorinhas, um
quintal de árvores frutíferas e floríferas, trepado num pé de cajus maduros, o
Eduardinho viu tudo. Cajueiro em época de cajus. Claro, viu sem querer, e
acabou surpreso como todos. Aliás, cada um do seu jeito, todos ficaram
surpresos. Eduardinho, manifestou:
- Que
coisa! Que coisa! Que coisa!...
E o
povo, paralisado e fixado na surpresa, gritou junto de onde estava:
- Que
coisa! Que coisa! Que coisa!...
Edu
desceu do cajueiro porque esquecera dos cajus de castanha e madurinhos. Foi lá
na rua das Andorinhas, como muita gente fez, para ver de pertinho o desastre de
proporções pequenas, mas nem tanto sem problemas. Foi e viu de perto, cercando
como os outros os detalhes da obra contemporaníssima. Todos ficaram de espanto
com a mão na boca ou no queixo. Todos eram unânimes em falar e repetir:
- Que
coisa! Que coisa! Que coisa!...
Do
desastre todos também se salvaram. Todos os envolvidos se machucaram. E todos
não deixaram de se machucar, sem grandes problemas machucados que não pudessem
ser resolvidos com costuras, remendos, colas ou remédios, benzeduras, e quem
sabe com ervas, folhas, raízes, óleos, favas, pílulas, garrafadas, cascas ou
chás.
***
Cada
pessoa e bicho e coisa que aparece em Ivy-Marae, nasceu na cidade de sua
preferência e escolha. É natural de lá. Isso no mundo dos vivos, na terra dos
existenciais, uma vez. E cada pessoa e bicho fala por telepatia com sua cidade
seja ela qual for, onde um ou outro estiver, Nova Lima, Pilão Arcado, Sento Sé,
Carinhanha, Januária, Sarutiá, Corrente, Araguaiana, Casa Nova, Jaguari, Orocó,
Herval d’Oeste, Nioaque. Cada pessoa faz perguntas e respostas a sua cidade
natural. E a própria cidade fica agitada e elevada e confirmada. Todas as
cidades têm as mesmas árvores das outras cidades, os mesmos passarinhos, os
mesmos rios, o mesmo sol, o mesmo céu, o mesmo lugar, o mesmo tempo, o mesmo
tudo, o mesmo nada.
A
terra é feita de coisas visíveis e invisíveis. Ivy-Marae de gente de bichos de
coisas e invisíveis. Assim como também no céu.
O sol apareceu, o sol
apareceu. Surgiu, apareceu, dourou, chegou, amanheceu, tossiu e o sol iluminou
tudo, ah! Em volta das casas com árvores perto, zinzilulavam muitas andorinhas
pretas ou bem azuis com barriga branca. Além do mais, que dia de sol que dia de
cores que dia de árvores.
Os passarinhos estavam ali
naquele lugar, poderiam estar em qualquer parte, em outra parte qualquer, mas
estavam ali mesmo. E estavam todos atirados na poeira tomando banho de pó. E
poderiam estar em outra parte fazendo a mesma coisa, e outras coisas ou essas
mesmas coisas. Tudo bem. É.
As
casas não eram e não são muito altas em Ivy-Marae. Não há prédios de
arranha-céu e torres de antenas de telefone. Nas janelas dessas casas temos
plantas médias, ervas, alfazemas-bravas, beija-flores ariscos, besouros
mínimos, borboletas e flores, flores escalafobéticas.
Na
rua passam todas as perguntas. Passam por que não vão? Passam por que não
voltam? Passam por que não são? Passam por que não ficam?
Os
habitantes de Ivy-Marae são fãs das plantas, pequizeiro, peroba-vermelha,
canela-de-folha-larga, pequiá-marfim, bacuri, capim-gengibre, amor-do-campo,
mãe-boa, batata-de-purga, cipó-cabeludo, caiuiaçu.
Aí, então, Lilás e Hipocampo
se encontraram no calçadão perto da praça Triangular, meio assim por acaso, e
se associaram num passeio.
- Tá vendo?! Não te falei?!
- É. Pois é.
- Tudo bem.
- Só perfeitamente.
Os dois amigos continuaram a
caminhar despreocupados e conversando coisas muito da hora. Conversavam sobre o
quê. Enquanto conversavam olhavam as vitrines interessantes e diversas e
coloridas e decoradas. Numa loja de produtos de jardinagem, ao passarem pela
porta, viram lá no interior o jovem passarinho poeta. Um poeta quase poeta.
Quase um pouco poeta. Os dois amigos pararam aí mesmo, então. Trocaram uma
ideia:
- Ei,
não é o nosso conhecido poeta encantado cantador?
- É.
É totalmente ele.
- Que
será, hein?!
-
Vamos ouvi-lo de pertinho?
E os
dois entraram para ouvir o poeta maior, e ainda jovem da cidade de Ivy-Marae,
recitar ou declamar suas poesias muito naturais originais. O jovem poeta dos
cabelos escorridos, o cantor sabiá-laranjeira, dizia assim, muito concentrado
no que ia dizendo ou declamando, que trovou:
- O
sabiá-laranjeira se isolada no jardim! Fica apreciando de longe e cuidando o
seu mundo do quintal! Vem aí o estrelinha beija-flor à procura de flores doces!
Uma flor bordada na toalha de mesa pendurada no varal! Vem aí o beija-flor e
cheira e beija!
E o
jovem olhava os amigos em volta, pensava num mundo de nuvens e coisas
invisíveis e continuava, contou:
- O
sabiá-laranjeira corre como o vento! E sem ninho sem rumo! Corre por aí sempre
no limite da tardinha! E vive para amanhecer a cada dia!
O
poeta era um jovem que sonhava as coisas que queria, e queria o sonhado.
Continuou cantando, instruído pelos deuses, e declamou:
- O
sabiá-laranjeira bate as asas no peito! O céu é alto e o verão cheio de sol! A
ave descansa o coração no rio que passa! As manhãs de verão são muito de cores!
Os sorrisos das gurias são muito de quentes!
Daí o
romântico olhou a plateia e a reconheceu. Olhou sem querer os olhos de imã das
meninas. Continuou mais entusiasmado, disse:
- Que
o sabiá-laranjeira se confunde na borboleta da folhagem! Uma passarinha passa e
uma borboleta flutua! O poeta toca violão com as cordas das asas! O poeta entoa
na conversa das folhas verdes!
As
pessoas em volta gostavam de ouvir. O sabiá não cansava. Para o poeta jovem
tudo era pouco e nada era muito, falou:
-
Agora o sabiá-laranjeira descansa do amanhecer! O pássaro se olha no espelho
das próprias penas! E coça os olhos com o pé descalço! E olha em volta a
paisagem que canta e sonha!
Um
índio tacruque-craque de penas em cocar e cores na cara pintada de urucum, se
entusiasmou e perguntou:
- Amigo
poeta! Isto tudo é carreiro ou poesia?
E o
sabiá poeta respondeu, passando a mão nos longos cabelos lisos, desabafou:
- O
sabiá-laranjeira quase que não canta! Pula de árvore em árvore! Canta de manhã
antes do almoço! Gorjeia na tarde com o anoitecer!
O
Jabuti, antes de comprar um bom chapéu de palha de buçu, pois já pensara em
usar chapéu de palha no verão, falou para o poeta dos poetas:
-
Sabe do que mais, seu poeta?! Isto tudo é escada ou poema?
Então,
o poeta de plumas sabia que às vezes mentir era dar uma rima certa. E mentiu,
iludiu:
- O
sabiá-laranjeira mente por contar contente! E pede esconderijo de folhas verdes
em ramos verdes! E pede aconchego de frutas maduras e amarelas!
O dia
sempre estava bom para o poeta. As pessoas e os bichos, que o cercavam sempre,
sabiam e viam isso. O jovem dos cabelos crespos ainda foi cantor, cantar,
cantou:
- O
sabiá-laranjeira vai e reconhece os amigos! O sapo-ferreiro e o
ratão-do-banhado! O sapo pula na água e não se altera! O rato entra pelo túnel
de capim e não se mexe!
Umas
duas três quatro meninas perguntaram em coro ao poeta:
-
Poeta bem querido! Você já conhece o parque o lago e o domingo no lago do
parque? Quer ir até lá?
O
querido poeta dos bons, sorriu um sorriso tímido e respondeu:
- O
sabiá-laranjeira corre para a beira do tanque! O coração não pode mais remar! O
lago fica a boiar no céu! O rio descansa de passear!
Uma
senhora e uma senhorita acharam de comentar as declamações do magrelo poeta e
meio. A senhora de azul, para a senhorita de branco e preto:
- Se
parece muito com aquele poeta... o Cláudio Azevedo, não?!
A
senhorita de cabelos soltos e pretos, para a senhora de cabelos presos brancos:
- Não
tenho dúvidas. E muito me emociona. Obrigada.
E o
jovem declarou mais coisas, conversando, conversou:
- O
sabiá-laranjeira nasce na bergamoteira! De fato o beija-flor confunde a flor do
vestido! A cadelinha adota um cachorrinho de pelúcia! Já que as coisas moventes
têm gavetas!
O passeio foi esse. O passeio
do cavalo-marinho Hipocampo e Lilás foi, então, muito bom e foi esse. Hipocampo
e Lilás ainda não haviam chegado ao quiosque do lago.
A noite caía e o sol já dava
sinal de partida. O astro-central descia por detrás das montanhas que cercavam
a bela e saudável e infalível Ivy-Marae. Os últimos raios tingiam as altas
nuvens com cores amarelo, laranja e vermelho. O astro dos astros se escondia
por entre as nuvens que coroavam a invisível e sonhada Ivy-Marae. Cor de rosa
não era, carmim nunca viu, vermelho um exagero.
E sempre que se podia, sempre
à noite, preparava-se uma festa, um carnaval, um acontecimento, uma reunião, um
encontro junto ao monumento Amajá. Essa noite não seria diferente.
- Encontro na pedra!
Quem quisesse ver ainda mais
gente e bicho e animação ia para lá, vinha para cá. Seguia o caminho da
multidão.
Os cantores improvisavam
cantigas antigas que todos já sabiam de cor, e todos cantavam em coro, forte,
pra noite, pras estrelas ouvir e gostar. Se consumia pipoca cheirosa, pipoca
chocolate, pipoca com sal, pipoca com queijo, e pessoas comiam pipocas ouvindo
e olhando batuques, jogo de capoeira, as estrelas pisca-piscando e as pessoas
comendo pipocas carameladas.
- Hei, é um avião?! -
perguntou um moço, reparando num movimento de luz no céu noturno.
- Acho que é uma estrela
cadente como sempre - disse a moça que o acompanhava.
- Pode ser uma ilusão de ótica
ou um floco de algodão ou paina com asas luzes e tais - arriscou uma senhora de
cabelo enrolado em espiral.
- Pode ser ou não ser um
helicóptero cheio de holofotes - disse uma índia tucuna.
- Pode ser o boitatá - disse
uma esperta tuco-tuco.
***
E no
início do dia seguinte, em céu aparente de cristal, transparente que precisava
ver, surgiu a mensalista nave e que sempre costumeiramente vem apanhar os
especiais. Eram, o quê?, umas oito horas? Nove horas? Talvez onze e meia?
Pontualmente dez para as dez?
A
nave chegou com tudo e pousou como uma ave de outro planeta de outra era como
ave dinossauro de outro tudo. Abriu a língua da rampa e estendeu um tapete
verde imaculado.
Os
anjos verdes começaram a sair um a um. O chefe verde na frente dos outros
verdes dezoito verdes. Olhou em volta e esperou que o prefeito da cidade de
Ivy-Marae se aproximasse. Se aproximaram.
Na
ocasião o prefeito era o Salgueiro-do-Mato, árvore comum e muito alta. O
prefeito estendeu o galho e cumprimentou o anjo, que estendeu a asa e se
cumprimentaram:
-
Sejam bem-vindos vocês todos anjos verdes e aéreos dos céus azuis profundos,
etc.
-
Todo mês é a mesma satisfação - disse o anjo verde chefia.
O
povo de Ivy-Marae rodeava já a nave verde transparente. As tuiparas-estrelinhas
voltaram a voar e revoar. Um acontecimento. As casas continuaram olhando a rua
passar e repassar. O dia de verão estava quente e o mais quente dos últimos
dois dias.
-
Quem sobe para o céu desta feita, quais os pedidos e encomendas dessa vez? -
perguntou o prefeito.
-
Estamos convidando o verdinho e a jaguaretê e a murucututu e o rato-de-pentes.
-
Muito bem. Eu já esperava por isso. Eu até já sabia. Nunca duvidei.
- E
de encomendas destinadas aos habitantes do céu eterno, preferimos um pratinho
cheio de bolinhos de chuva, feitos fritados em dia de chuva; água boa do rio
Inhacundá; vídeos ou cartões-postais de Barcelos, Água Doce, Bituruna, Palmas;
vídeos do monumento Marco Zero em Macapá; vídeos das belezas do rio do Peixe;
dança e música do siriá na praça General Osório.
Dito
e resolvido isso, os verdes se despediram do povo todo ali na praça Triangular.
A nave se mexeu. Subiu. E desapareceu como uma visão sonhada. A nave se
ausentou. A espaçonave se arquivou. Tinha muita velocidade na desnecessidade de
asas. Bastou um piscar de olhos. Se apagou em miragem.
Depois
do céu é o céu o céu.
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