Conversas Para
Árvores Distribuir
As
coisas vistas de cima. Uma ave, um peitica. A serra de Maracaju, o rio
Aquidauana. Uma árvore, uma pitombeira.
Era um como
que começo de março respeitando pensando bem analisando ainda a fevereiro. Quem
foi quem foi visconde de Mauá? Onde nasceu o rio e donde vieram as árvores.
Eu
estava numa casa, num começo ou resto de casa ou prédio, sobre os escombros de
uma construção. Ventava muito e forte. O vento queria me empurrar para o fundo
do poço do calabouço. Tremia, me desequilibrava, chorava que fazia parte da
chuva. Me negava a cair e sumir no buraco suicida do elevador.
Pareciam
as ruínas de uma igreja jesuíta, Campina das Missões, São Paulo das Missões, São
Pedro das Missões, Salvador das Missões, Santo Antônio das Missões... E o poço
um fundo de escuro abismo sumidouro. Pareciam as ruínas da cidade arrasada pela
enxurrada de verão, Santo Antônio de Jesus. O poço sem fundo da nebulosa perdida
no vácuo escuro. Pareciam as ruínas de aldeias incendiadas, os macurape, os
caiapó-cubem-cram-quem, os xipaia, os camacã, os cainguá... depois de ataques
dos apresadores. O poço do tinhoso cheio de políticos e juízes e advogados e
jornalistas babacas me olhando com olhinhos pequenos vermelhos naturais de
cainamés.
Fiquei
exposto ao vento por dias e noites e meses e horas. O desequilíbrio era
permanente, tanto que não podia nem pensar. Nem acontecia nada. Nem caía no
fundo do poço nem saía do perigo. A ameaça vertical constante aterrorizante. O
perigo sempre a um passo a um palmo no escuro. Na borda no parapeito na amurada
na sacada na corda bamba no trapézio sem rede embaixo.
***
Era
uma passarela era um filme era um sonho. Ou um delírio de bêbado. E nem eu sabia
se era apenas sonho ou tudo lembrança. Mobília rastejante. Que horas? Um cavalo
alado que se desmanchava no ar. Umas garças-brancas em esgarçadas nuvens. Sem
Enigmática depois do desfile após desfilar assim assim.
O
sol tomando o céu todo atirado enfileirando raios amarelos nas plantas árvores,
urucuranas, alcaçuzes-do-cerrado, espinheiras-santas, begônias-sangues,
alfazemas-bravas, cedros-batatas, etc., e ainda ou mais um monte de coisas
pendentes.
Enigmática
desfilou passou e nem me viu nem me olhou nem me sorriu nem me prestigiou, ave
ave. Nem me viu, nem me sorriu. Nem quis me olhar ou nem me viu. Nem me olhou nem
quis me olhar. Nem se interessou, árvore árvore. O comum dela mesma.
Pensei,
pensei, falei comigo e disse para mim mesmo:
-
Dia brilhante e azul, brilhante e horizonte, brilhante e gorjeios.
Nem
sei se o mundo ventava, rodopiava, trocava rápido de estação. A imagem, as
imagens, o desenho era a lápis. Era verão com ventos fortes, inverno com ventos
chatos, outono com calafrios intermitentes, primavera de passarinhos amarelos e
tesoureiras e andorinhas nos fios dos postes de energia.
Àquela
horinha eu via e nem discutia. Era difícil entender, mas via e nem discutia. Eu
nunca havia visto nem discutido, porém àquela horinha eu via e nem discutia. O
quê? A Enigmática vestida somente com lingeries brancas, transparentes. O corpo
elegante, modelado, esculpido, desenhado com lápis preto número dois. Um corpo de
seda e vestido com calcinha e sutiã brancos, transparentes. Só isso. Até ali.
Até logo.
O
dia amanheceu de cores e bons humores e as árvores como novas arribando tudo de
novo, matinada.
E
Enigmática andava, desfilava, ria, deitava, rolava e nem me olhava. Nem falava
nada, mas deitava e rolava e ria e piava como uma ave rara. E eu via e nem
discutia. Toda ela de sorvete de açaí com pedaços de frutas amarelas para ser
degustada.
Falavam
tanta coisa boa de Áurea, Viadutos, Dionísio Cerqueira... e se espraiando pelo
Estado do Espírito Santo ave símbolo o beija-flor-de-peito-azul. Se eu fosse
morar por lá, pensava, logo logo aprenderia todas aquelas histórias.
Amanhã,
ou hoje mesmo, e eu pensava, Enig virará uma passarinha livre. Depois de
amanhã, ou amanhã mesmo, virará uma libélula de asas grandes. Alada borboleta
procurando o caminho aéreo entre as folhas do gervão-do-alagadiço. Alada potranca
tobiana-colorada. Como nunca, alada. E por que nem uma fogosa alada? Uma imagem
modelo.
Era
melhor assim, em carne viva, carne de amostra, nua, nuinha? Podia ser. E estava
de fato ali, de lingeries transparentes, brancas, calcinha e sutiã brancos de amostra.
Enigmática.
Toda com carne de pegar. Com carne de amassar. Com carne de assar. Toda corpo
de pegar e provar. Os cabelos de sempre, os olhos voando. Toda macia e fêmea e
harmoniosa como se fosse feita de música.
Toda
viva toda tesouro toda dourada toda macia a olhos vistos. E eu a via e nem
discutia com estes mesmos meus olhos.
De repente
alçou voo das alturas da goiabeira-do-mato...
Àquela
horinha eu já sabia e nem me preocupava. Um jeito de andar e mexer as coxas e muito
interessante. Agora eu podia olhar. Mistura em tudo fina bem combinado dos
atributos todos e um por um. Agora ela, toda pintura, podia sobreviver de lenda.
***
Dias
seguidos de chuva, hoje nada de chuva, o sol, as curicacas grasnando repassando
pelo espaço baixas desde a manhãzinha, xexéus-bauás, galos-do-mato,
guaranicingas, lavadeiras, chupa-dentes, bem-te-vis-cavaleiros, guirapongas...
parecia mundo de coisas e que nem mais ia chover.
Um parente, um
primo da mãe Juparanã, chegou um dia na casa-barbearia da família Parangaba e
chegou com uma incrível surpresa surpresa. Ele chegou na barbearia se
anunciando já pro seu Lagamar:
-
Opa!
Seu
Lagamar estava distraído e quando viu o primo da mulher quase nem o reconheceu.
Ficou olhando de olho fixo até que reconheceu:
-
Mas, tchê! Aonde tu vai, meu?!
-
Caminhando...
-
Tudo bem?
-
Pois é.
E
os dois ficaram proseando. Depois, Lagamar deu um berro pra dentro de casa
chamando a mulher. Juparanã já veio com uma pressa e tal e olhou a visita e se
admirou:
-
Mais é o primo Messejana, gente! Que honra!
E
se abraçaram e se cumprimentaram e se apertaram a mão e se pediram como vai de
lá e como vão de cá e como vai de cá e como vão de lá. Depois, mais um pouco, e
a Juparanã chamou os três filhos que estavam no pátio brincando de qualquer
coisa e ela foi até uma janela do lado deu um berro grande e os três já vieram
correndo nessa ordem: Papari, Papeba e Papebinha.
-
Cumprimentem o tio Messejana, seus arteiros - mandou a mãe.
Nem
demorou muito, o tio Messejana foi lá fora na caminhonete e pegou um cestinho de
taquara com um gatinho dentro. Chegou ali e foi logo dizendo:
-
Olha, gurizada. Um presente pra vocês três. É um filhote de onça-parda. Nem vão
maltratá-lo. Nem brigá por causa dele, tá?!
Ninguém
sabe se foram as curicacas, os quero-queros, os sabiás-coleiras, os
jesus-meu-deus, os tururins, os corruchiões, os capitães-de-bigode... mas
choveu com ritmo alucinante e de pegar no sono e quem subiu foi o rio da Prata,
o rio Miranda, o rio Copioba... Chuva governada por quem podia mandar.
Ora
em ziguezagues ora rindo simpático os relâmpagos chegavam na frente, depois os
rugidos e os tremores de planeta. A chuva continuou e com o vento à deriva.
***
O
mês de maio correu sem maiores melhores respostas.
Nem sei se me
explico agora o de ontem. Mas eu era um cara perdido e vazio. Alguém sem convicção
do próprio futuro, do próprio filme, do próprio nome, da própria viagem. O
futuro que vem depois, sabe. Eu buscava tanto o futuro, meu! Isso sim.
Vi
sozinho a rua Itália noturna escura sozinha e pregada de latidos.
E
eu preciso dizer. E eu tenho um grande respeito e admiração por mim mesmo, juro.
Vendo
Natália muda.
***
Cheguei
no acampamento, para os lados da capela Terra Gorda, pouco depois da Chapada do
Carneiro, um pouco atrasado em relação ao resto da turma, mas cheguei. Quem me
recebeu foi uma guria loura de cabelos longos amarrados em feixe. Me animei. Ela
me ensinou o lugar da barraca e me disse:
-
Bem, gente. É ali que você deve ficar. E muito bem acomodado.
Aí,
eu pensei em tomar um banho e olhei em volta, olhos-de-boi, juciris,
caimitos-do-monte, jacarandás-caviúnas, caetés-bravos... bem rodeado no meio do
matinho. Pedi onde posso tomar um bom banho. Ela disse que o banheiro era
coletivo e ficava lá para o outro lado. Ela foi me mostrar. Passarinhos
cantavam no arvoredo preservado, haja vista, pelo menos os mais conhecidos do
grande público, gainambés, sacis, guiraguaçuberabas, titeris,
galos-de-campina-do-oeste, sabiapocas...
Então,
chegamos na casa do banho e tal. Eu agradeci, tudo bem, pode deixar, valeu...
essas coisas. Ela me disse:
-
Eu também vou tomar um banho agora mesmo. O calor está de matá e muito do
insuportável.
Pensei
para mim mesmo: E essa, meu!
É
e eu me impressionei foi com a disposição da guria. Eu nem me impressionei foi com
a liberdade da guria. E já estávamos muito adiantados nos preparativos quando
começou a aparecer muita gente lá por fora e por perto nas conversas com risos gargalhadas
debiques, etc. A guria me soprou:
-
Acho que vou tomar banho daqui a pouco. Senão, já viu.
E
pegou e saiu a trouxa abraçada só de calcinha vermelha mínima com lacinhos dos
lados. Eu fiquei e tal. E me encaminhei para a ducha.
Quando
cheguei e abri a porta dei de cara com a cozinha do acampamento. Mas peraí,
meu! Abri a porta do lado e nem era o banheiro, era a porta da despensa que
servia à cozinha. Mas peraí, meu! Abri outra porta e nem era banheiro, era o
depósito de lixo da cozinha. Mas peraí, meu! Uma confusão e a guria me ensinou
tudo errado? Eu que nem havia entendido?
E
fiquei procurando, olhando como bobo onde estava o tal banheiro sala de banhos que
eu queria tomar um banho, queria sumir, queria me transformar em sombra. E pedi
gritando como louco, já que chegava mais e mais gente ali por perto e se ouviam
conversas de todo tipo:
-
Me ensinem onde fica o banheiro! O chuveiro! Onde fica o banheiro!...
E
todos riram e um fulano me apontou calmamente para aquele lado de lá, bem no
fundo do outro lado, lado oposto de onde estávamos:
-
É pra lá, mano!
Eu
peguei tudo que tinha de rouparia abraçado e corri para lá. E antes que o
banheiro sumisse novamente ou fosse parar noutro departamento.
***
Uma
manhã de sol, eu me lembro, uma manhã de sol e mais coisas que nem me lembro,
uma manhã do outro lado do mundo, uma manhã de sol próximo, muito próximo. O
sol vinha de longe mas parecia perto perto. Os seres humanos iam para o
trabalho. Todo lugar tinha gente, eu sabia, Maragojipe, Sumaré, Siderópolis, Itaitinga,
Jutaí, Ribeira do Pombal... Uns barcos chalanas desciam o rio Paraguai.
Meu
avô Caparaó encilhava o Petiço:
-
Você vai vê, guri! Calma que você vai vê, uma vez.
Uma
época antiga boa e faz falta e faz tempo. Era uma época que as meninas e os
meninos choravam com pavor de visitas. O ano me lembro mas o General confundo
muito. As meninas as moças choravam por qualquer coisa. Nunca mais voltei a
encontrar aquele tempo aquele lugar.
Mas
eu e meu avô montamos no Petiço. Eu na garupa. Eu me agarrando para nem cair.
Eu nem via nada. Eu só via dos lados e com pressa e com surpresa. E nós quatro
íamos para umas plantações do meu avô. Avião, o cão do meu avô, ia junto, ia de
cá pra lá nos olhando, ia todo feliz e às vezes se adiantando, parava cheirava
qualquer coisa, às vezes latindo com humor.
Eu
olhava dos lados, olhava barranco vermelho, cerca de arame farpado, alagado com
saracuras-do-banhado, coaracimimbis, ajajás, mato, capoeira, casal de seriemas,
tovacas, tico-ticos-do-campo, potreiro com vacas malhadas e boi zebu de cara
braba. No meio do potreiro dois pés de carandaí por que alguém quem os deixou
ali. A estradinha de terra batida vermelha subia tanto que desaparecia no morro
lá adiante. Era raro passar um auto. Eu perguntei e avô respondeu:
-
Calma com calma, guri! Calma que você vai vê, uma vez.
No
alto de uma coxilha, no topo do morrinho, bem do lado da estrada poeirenta, um
alto jerivá dos mais altos que já tinha visto. Eu já trepava em árvores, mas
trepar num jerivá daquele tamanho era coisa para gente grande ou guri arteiro.
Aonde
nem ia parar aquele fim de estrada que nem tinha fim e ia embora até capela dos
Três Mártires e ia pra bem mais longe até capela São Pedro e ia embora até
capela Santa Catarina e ia embora até Fagundes Varela.
Uma
hora, duas horas, toda a manhã? Nem pensava nisso. Uma certa altura entramos
por um barranco e pegamos uma trilha dentro do milharal. Todos os pés de milho
já muito grandes e cheios de espigas de cabelos brancos fazendo continência nos
olhando com respeito. Perguntei ao meu avô e ele já me respondeu na hora:
-
Calma mais um pouco, guri! Calma que você já vai vê, uma vez.
Aí,
o Avião começou a acoar no meio do milharal. Era o quê, calango, ticaca, sorro,
guatapará, suçuarana? Avô parou o Petiço, oooh!... O Petiço parou na hora. Avô
apeou, eu apeei. O Petiço se interessou pelas folhas dos pés de milho. Eu
perguntei, avô respondeu:
-
Calma que é o tatupeba, guri! Muita calma que você já já vai vê, uma vez.
Nunca
tinha visto um tatupeba de verdade e ao vivo. Mas estava chegando a hora. Avô
tinha prometido. Isso se o Avião pegasse o tal. E podia ser uma briga muito
feroz entre o Avião e o tatupeba. Que tamanho de tatupeba seria?
E
daí um pouco eu esperei parado em pleno milharal, o Petiço pastando umas folhas
verdes de pés de milho, meu avô atrás dos latidos do Avião. Eu esperei com
vontade de ir junto, com vontade de chamar meu avô de volta, com receio de
ficar sozinho ali abandonado para sempre.
Um
tempo depois mais latidos e mais latidos. Um tempo depois Avião já vinha de
volta. E depois avô de volta e tal. Perguntei e ele respondeu:
-
Calma uma vez, guri! Calma que desta vez passou perto, uma vez.
Engraçado
que a volta eu nem lembro de nada. Nem lembro se voltamos. Mas claro que
voltamos. O Petiço marronzinho com crinas do lado da tábua. Eu estava cansado. Perguntei,
avô respondeu:
-
Calma mesmo, guri! Calma que o Brasil é nosso, uma vez.
***
Acordei,
desci, nem tomei café. Feriado internacional. Subi, fui deitar outra vez, acordei,
desci. O dia internacional continuava ali. Dia acostumado. Dia de horas e
minutos e segundos. Impressionante aquela marcação aquela arrumação.
Nem
tinha onde me pegar. Dizem que o arco-íris só aparece quando D quer. Mas o sol
brilhava como peixe. Baronesas plantadas no açude. E o rio Mauá corria solto.
Fui
visitar Apuí. Nem fizera a barba porque Apuí gostava de barba por fazer. Aí,
estávamos passeando. A serra da Cantareira por colosso. E nuvens vazias. Um
punhado de lagartas-de-fogo dependuradas dos ramos do juá-arrebenta-cavalo e tiotios
trinos pipios de fogos-apagous, carretões, chincoãs, gralhas-cancãs, sede-sedes,
beija-flores-grandes-do-mato...
Caminhamos
lado a lado pelo ar livre ou ainda tomamos chimarrão sentados num banco de
pedra com sombra. Me declarei empolgado. E ela me disse que ia pensar. Estava
indecisa entre eu e fulano e beltrano e sicrano. O este último tinha um sítio
em Portão cheio de caixotes com abelhas jataí.
Ela tinha pra
escolher. Eu detesto mulher que nem sabe escolher logo e que tem para escolher.
Ela tinha pouca idade e usufruto.
Uns
pés de laranja. Laranjas maduras, amarelas, feitas de sol, feitas com ouro,
feitas em casa, outras árvores, xiquexiques-do-sertão, calungas, coronhas,
cainanas... Passaredo de ir e vir, cantos, gorjeios, gueteguês, os que eu
adivinhava, pipiras, juritis-vermelhas, guriatãs, coleirinhos, almas-de-gato...
Uma e outra nuvem jogada ao acaso. Mais alto, longe, o sol espevitado arrepiado
pintado de lápis de cor em caderno escolar de criança.
Comemos
laranjas. Domingo de tarde. Espantamos as avezinhas azuis, as amarelas, as outras.
Tive ganas de pular em cima da Apuí. Nem para matá-la, mas para comê-la. Nem só
para degustá-la. Para agarrá-la apertá-la jogá-la estraçalhá-la lambê-la
cheirá-la chupá-la espremê-la. Puro entusiasmo e exaltação e bobice. Muita
vontade de ficar com ela e as bergamotas. Uma alegria de nem parar de rir. Uma
ansiedade de parar o tempo. Uma tonteira aquele seio solto e pontudo dentro da
camiseta branca sem mangas.
-
Nem conheço o mar. Nem as praias de Nazaré, o rio Jaguaripe - ela me
confidenciou.
-
Pois eu queria era mesmo acampar na beira da lagoa Caçonde, viajar pelo rio
Purus, conhecer a serra do Cipó - eu disse, já emocionado, o rosto dela lindo.
Eu
estava no mundo. Eu a mirava. Eu vi ela me olhar. Assim, nos olhamos. Dentro
dos olhos. Que coisa, meu!
-
O Purus é muito mais distante, e demorado - eu disse.
-
O mar é verde-azulado, garço, gázeo - ela falou, desconversando.
-
Deixa eu pegar o teu seio?
-
Nem falá!
Estávamos
empoleirados num galho da laranjeira. Balançando. Uma cigarra se arrebentava de
cantar ali perto. Nem achei que cigarra cantasse, mas tudo bem. Um oitizeiro
dominava ecológico imponente o meio ambiente.
-
Gostaria de ir a cavalo. Mas coitado do cavalo, em primeiro lugar. Mas coitado
de mim, em segundo lugar - eu disse.
-
Preciso fazer família antes de vê o mar. Prefiro assim. Aí, iremos de bicicleta
até o Atlântico. Bem equipados pelo acostamento das rodovias expressas as tais
BRs. Serei eu e o escolhido entre alguns que eu já vi e mais o filho ou a filha
nós três - disse ela Apuí.
Caminhamos
até a beira do abismo turístico. Era bonito. Era louco. Era fantástico
espetacular. Um longo e dinossáurico buraco no meio do mundo. Itaimbezinho
cavava toda a visão abissal mágica, muito rasgado, cortado na pedra. Chegamos
mais perto. Ela me disse, segurando o chapéu:
-
Nem queria mais sair daqui, sabe?!
-
Então, vamos viver eu e você ali naquela caverna, tá vendo lá?! A gente se
acostuma. Todo dia a gente levanta e vai pescar mandi-bandeira, piapara, abotoado,
pitu, inhame-de-folha-roxa-pintada, mel de abelha guarupu... Todo dia a gente
levanta tarde e toma banho no açudinho. O rio passa na nossa porta na nossa paz.
Vez em quando cai uma vaca e a gente tem até carne para assar e couro para
vestir.
Andamos
mais oito quilômetros em ziguezague pela beira do precipício. Ela nem estendia
a mão e eu nem pegava na mão dela. Era aquela a teimosia? Que maravilha, meu!
Atravessamos
ruas sem que nos déssemos as mãos. Um perigo. Mas Apuí se enroscava do meu lado.
Me provocava. Talvez fazendo tipo para que eu tomasse iniciativa. E eu esperava
por ela. O corpinho dela tinha dois seios bem maneiros, eu já sabia, eu já
disse. A gente se empurrava de ombros. Que alegria, meu!
Depois
chegamos num prédio, o mais alto da nossa cidadezinha, sete andares. Tinha
quantos andares? Tinha a loja do térreo os sete andares e a caixa do elevador.
Mais que isso a prefeitura nem concordava. Pois bem. Subimos o mais alto prédio
da cidade. Tinha um bar na cobertura. O bar tinha um olhar privilegiado. Chegamos
devagar e cansados, pelas escadas.
-
Por que você tem terror de elevador?
-
De repente ele para entre dois andares e tal, né!
Fomos
correndinho para a grade de proteção. Olhamos o panorama animador da cidade do
horizonte. Era bonito legal verde perfeito. Além daquela serra de Botucatu o
capim-gordo o massapé as cidades de Santa Inês, Laje, Parobé, São José do
Barreiro, São Miguel das Matas... E também nos olhamos. Eu olhei Apuí. Ela
sorria. Olhávamos para baixo e aparecia o bairro de São Cristóvão onde
começamos e eu a convidei para dançar. Comecei:
-
Por que você está rindo, Apuí? Nem me diga que está felicidade?
-
Mais feliz quem me diz!
As
pombas-rolas lá dela, comemorativas, sonhos meus, comestíveis, firmes e pequenas
e bicudas, soltas na camiseta verde sem manga, tenras, prontas para pegar, para
voar, apontando o espaço o destino o por vir. Espaço aéreo interminável
infinito internacional universal.
De onde se via
D.
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