Alice
quis voltar no tempo. Era bom. Alice viajou no tempo. O vento e o rio em preto
e branco. Sesmaria do senhor Jerônimo Dorneles de Menezes. Foi presenteada com
um cavalo tobiano vermelho que se tornou bicho de estimação, a cabeça do equino
cheia de memórias. Por que Alice voltava no tempo?
Alice
sentada no barranco olhando o trem passar, vem-o-trem!, vem-o-trem!... e se foi
o trem. Acomodada na pedra mais alta olhando o porto, os saveiros e as urcas
entrando e saindo, piuiiiiiii!... fruuuuu!... Pousada no galho do guamirim,
olhando as carroças pesadas levantando poeira, teque! teque!... Descansando nos
degraus da escadaria, olhando os trilhos dos bondes sempre puxados por burros e
mulas, eieiei! eieiei!... Os olhos cuidando das coisas. Um azul de luz nos
olhos. Alice se virou, se retorceu, suspirou:
-
Eh, má!...
Os
dias revoltaram, os meses, os anos... e voltaram muito para trás. Um passado
sem começo e sem fim, quase que totalmente um eterno presente. Arraial de São
Francisco do Porto dos Casais, margens do lago Guaíba, nome tupi, rio largo,
rio que imita uma baía. Para reviver, para ficar por lá, para reajustar, para
recomeçar. Uma leiteira, na margem do rio-estuário, servia de poleiro e
trampolim a uma família de raríssimos bem-te-vis-de-bico-largo.
O
que o céu quiser terá de ser isso mesmo. Viajar é sempre uma pergunta. Não
parar nunca.
D.
Pedro II toda vida gostou de cavalos, cavalo ventana, azulego, tapado,
orelhano. Alice recolheu a memória do país e viu o Imperador e a família toda
do manda-chuva. O Imperador sorria, todos sorriam, Alice sorria, os passarinhos
sorriam, as jabuticabeiras sorriam. O mundo rodava, a tarde ainda não tinha
pousado.
Onde
andava onde caminhava o Imperador, seguia atrás a multidão, o séquito, a
comitiva, o cortejo, a procissão e todos juntos. Todo um bando tumultuoso de
familiares, parentes, aderentes, contraparentes, colaterais, políticos,
soldados, vendedores ambulantes, curiosos, palacianos, seguranças, pajens,
acompanhantes, jornalistas, agregados, escravos - parênteses, colchetes,
chaves. Onde passava o todo-poderoso D. Pedro II, lá ia seguindo atrás a
avalanche de gente e bichos de estimação. E não sobrava grama sobre a terra e
pedra sobre pedra.
Alice
espiava o pôr do sol pintar o céu de poucas nuvens do Portinho. Várias
tonalidades escaladas do vermelho e do amarelo, nuvens sonhadoras como poetas
românticos da terra, gritos de quero-queros, berros de tachãs, pios de
caburé-do-sol. A noite semeada de nomes gregos e latinos, nomes de bichos,
nomes de gigantes. Pela manhã em dias azuis, a festa dos insetos e pássaros nos
jardins e praças e parques. Alice respirou fundo, a brisa tocou perfumes
misturados, reagiu:
-
Bar-baridade!
O cavalo
tobiano vermelho recolhido ao piquete e ao seu saboroso e apetitoso capim com
pedaços de abóbora. Quando chovia era muito do gosto de Alice escutar junto à
janela a chuva caindo sobre tudo, os pingos batendo nas coisas, o mundo no
banho. O tobiano passeando no quintal, sem pressa, sob a chuva. Na rua os
bondes puxados por mulas e burros, às vezes escorregando nas subidas ou
descidas; cuscos sem dono cheirando portas e entradas de beco, tossindo nos
becos escuros; sapos-ferreiros trabalhando no meio-fio; gambás caminhando pelos
buracos dos telhados. Toda essa realidade antiga era boa, em branco e preto.
A manhã surgiu
lenta, árvores sem perguntas, cigarras, pássaros de peito amarelo, perfumes
confusos, carroças de entregar lenha ou carvão. Uma lagarta mede-palmo,
estica-encolhe, subia o galhinho verde do abieiro, toda cheia de pernas e pelos
e antenas e anéis, enigmática e silenciosa e educada, esverdeada ou meio
amarelada, corpo sanfonado.
Rua da Praia
esquina com a rua da Ladeira. Uma vista de olhos na paisagem, ilusões e sonhos
entrando e saindo, cumprimentando o dia, bom dia!, boa tarde!, boa noite!
Homens de bombacha, mulheres de prenda. As sombras dos prédios, das árvores,
das pessoas de chapéu ou sombrinha desenhando coisas gordas. A viagem, as
viagens, os passageiros, o sair fora sempre chamando. Viajar e encontrar um
destino que, no fundo, já a encontrou. Alice arremessou:
-
Vamos arrumar um emprego para o tobiano.
O
cavalo tobiano vermelho, calmo, dava a impressão de navegar seu mar de
memórias, cabeceando o tronco do guamirim, quebrando os galhos, coçando a
barriga. Alice olhava o mundo assim assinzinha sentindo a falta de Marcelle.
Breve, sem demora, um dia desses, voltaria à aldeia dos índios coropó para
buscá-la.
Outras vezes
Alice saía com tobiano para conhecer os pontos turísticos da cidade de Porto
Alegre, bairro Menino Deus, bairro Cidade Baixa. Os olhos cuidando das coisas.
O primeiro jaguara lambia a pata; o primeiro gato parou e olhou para trás; a
primeira mula cor de mel já pastava no terreno baldio, amarrada ao pé do
murici-do-campo. Passear de cavalo tobiano vermelho não era proibido e nem
raro. Tobiano ria fora de hora, no mais.
Alice cuidava
do seu bicho de estimação, espiava-o da janela, os dentes brancos sobrando pela
boca, a crina crescida, a cauda crescida, sempre com fome conforme o tamanho,
pastando na beira da urupema, Alice comentou de si para consigo:
-
O que o tobiano pode fazer ou desfazer: Um trabalho no circo? Voltar ao pampa,
correr campo afora? Experimentar abóbora, moranga, melancia, espiga de milho
verde, doce de batata doce, maracujá-azul? Um potreiro com éguas baias,
malacaras ou tostadas? Vontade de cancha reta? Morcegar à sombra de uma
bracatinga?
O
tobiano, chapéu com barbicacho na cabeça, ouvia, assobiava, não falava,
assobiava quando queria, sem propósito aparente, com propósitos lá dele, às
vezes passava dias sem assobiar, era mesmo um cavalo difícil, raro e de
personalidade. Se Alice sorria ele sorria, e os passarinhos cantavam, e o mundo
inteiro sorria.
Os jornais em
preto e branco contavam do casamento da Princesa Isabel, convidados de todo o
império, Quinta da Boa Vista, os barões e baronesas de Campos Lindos,
Ji-Paraná, Uruçuí, Videira, Dourados, São João del-Rei... Alice plantou um
pouco de tudo na horta, plantou alfaces, couve-flores, cebolinhas,
cumaru-amarelo, palmeira-barriguda, indaiá... e pretendia que fossem muito bem;
plantou melancias estriadas, onze-horas, buganvília, guabiju, jacitaratipiti...
e pretendia que dessem muito bem.
Mas o tobiano
não quis esperar, pois bem. Alice aguardava visita, aflita, sonhava ainda com
mais três coisas: uma ilha de verde e ouro e azul no meio de um rio tomado de
sol o ano todo; banho numa chuva de verão, pelas horas das tardes, nos verões;
que o país tivesse vulcão, a lava vermelha escorregando para o oceano, um
espetáculo do começo do mundo; acordar muito satisfeita pelas manhãs e ter o
que pensar e com quem trocar ideias e dividir risadas.
Os
rumos são feitos de rios, montanhas azuis, correntes de ar, lugares fabulosos,
cidades de quaisquer tamanhos e tudo que já tem nome e endereço. Alice queria o
país dos peixes-bois, o país dos rios serpentinos, o país dos índios
macu-hupdá, o país das cinco mil e quinhentas e tantas cidades.
Dia
alto, sorriso louro e tal, dia aberto, todo o dia, aliás. Alice viu a árvore,
viu uma árvore, olhou e viu um carro de bois, o porto, as ilhas do rio ou
estuário, ilha do Pavão, ilha da Pintada. Alice não subiu de joelhos os
degraus, tantos, da igreja Nossa Senhora das Dores, mas caminhou de cabeça
baixa, arrastando a alma, arrastando a asa, entrou para ouvir a prédica:
-
Um monge andarilho cumpria seu destino caminhando pelo mundo. Vestia uma túnica
amarrada com grosso cordão, um chapéu de palha desfiado na aba, um cajado, um
par de sandálias franciscanas de pescador. No peito, atado num fio de embira,
uma pequena cruz de madeira. Um peregrino, um caminhante inveterado, um
viajante contumaz, um cumpridor de missão, um pagador de promessa. Andava de
cidade em cidade, de arraial em arraial, de aldeia em aldeia. Já fazia tempo
como jamais se saberá. Os jaguarés acoavam na sua passagem. Conheceu cidades
diferentes tais como, Caxambu, Própria, Coroatá, Jurupá, Ibirubá, Formoso,
Casca... Andava sozinho de pé no chão ou chinela de borracha. Ele adorava andar
pelos vastos caminhos, procurando caminhos, descansar debaixo de um pé de
virola. Ele um errante, um incerto, buscando os caminhos, passos, trilhas. Ele
todo de alma bonzinhazinha, sem medo das pessoas, encontrando só respeito.
Procurava os talvezes, mas não sabia o quê. Pensava muita coisa nas suas
jornadas de sol a sol, chuva, estrela guia e lua em fases. Pensava
coisas que só o céu pode saber. O monge peregrino caminhante gostava do que
fazia, achava que fazia o certo, que se parecia com profeta do Senhor, que era
mesmo sua profissão, fosse quem sabe sua sorte. Já numa altura do caminho, seus
pés incharam maiores que o normal, como se tivessem doença de elefante verde.
Não se importou e continuou. O monge chegava numa cidade e plantava uma oficina
de espantalhos. Sempre fazia isso. Era sua missão caminhar e ensinar a fabricar
espantalhos. E tudo dava sempre certo. Depois seguia para outra cidade ou vila
ou aldeia, lugar ou porto. Conheceu cidades como as ricas Ouro Branco, Ouro
Fino, Ouro Preto. E subia montanha após montanha, atravessava caatingas, rios
caudalosos, florestas com antas olhando atrás das moitas, banhadões e coxilhas,
carreiros e varadouros. Andava a pé e chegava todo empoeirado, crestado de sol ou
gripado. Andava durante o dia e, quando queria, à noite. Quando repousava era
sob uma árvore frondosa, na aba de uma casa, no barranco de uma ponte, no alto
dos galhos. Morou nas árvores, escolhia um galho, escolhia um bom guamirim,
cambuim, guanandi. Esses bonecos, que ensinava a fazer, serviam para que as
crianças, sempre puras, inocentes, incautas, ocas, tímidas, frágeis,
exercitassem uma violência congênita que não se podia perder. Um vandalismo
infantil que tem sempre origem nos pais. O monge peregrino dava a roupa do
corpo, dava a mão e o pé, se fosse o caso. Ele ajudava a fazer espantalhos com
sobras e restos, roupas usadas, retalhos de espuma, estopas, farrapos, trapos,
palha de milho, sapê, santa-fé, canarana, folhas secas, marcela. Pronto o palhaço,
pronto o boneco, as crianças só esperavam uma ordem para atacar todos ao mesmo
tempo, munidas de paus, porretes, varas, reios, pedras, pontapés, socos,
cuspes, gritos, choros, unhas e dentes. Cada uma com sua dose interior de
horror. Paravam quando o títere estivesse reduzido a nada, em tiras, esgotado,
malhado, estraçalhado, mortinho da silva, em pedacinhos, mordido, incendiado.
Aí, o monge viajante pegava suas poucas tralhas, poucas mesmo, e sua sina, e
rumava para outra cidade ou aldeia, lugar ou ancoradouro. Subia montanha,
descia montanha. Conheceu e não deixou por menos cidades bonitas como, Araxá,
Formosa, Balsas, Viçosa, Primavera do Leste, Toledo, Ariquemes... Deixava a
tradição por onde andava, e seguia por aí afora ensinando outros povos no mesmo
nobre costume. Caminhante sem saber por quê. Com a divina missão de espalhar
bonecos de aleluia. Um grande e excelente mistério.
Duas
semanas após, vila de Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre, Alice
subiu no lombo do tobiano e olhou em volta uns 360 graus. Viu muito, cada
coisa, viu aqui e além do horizonte. Viu as costelas das montanhas, os rios
correndo para o oceano, os açudes gigantes, os siris nos mangues andando de
lado, os mangues-vermelhos de raízes expostas, lagarto correndo atravessando o
asfalto, o monte Pascoal, crianças brincando com vaca parada, bando de
palmeiras-do-brejo, cidades diferentes como Lucas do Rio Verde e Apuí. Eram 10h
30min no Rio de Janeiro, sexta-feira, capital do império do Brasil. A Princesa
Isabel e seu esposo, o Conde D’Eu, saíam para o fim de semana no alto da serra
dos Órgãos, provavelmente Petrópolis. Falar em Petrópolis e Bonito era a mesma
coisa.
Ainda montada
no tobiano - que trocava orelhas -, Alice viu a primeira avenida das paineiras,
a segunda avenida das preguiças-pardas, a terceira avenida dos araticuns, a
quarta avenida dos chapéus-de-sol-de-sapo. Alice olhou o plantio de gado zebu
no cerrado, as meninas do colégio andando de uniforme e rindo, rindo, trânsito
de bondes puxados por burros nas ruas de paralelepípedos, homens de chapéu coco
e bengala e mulheres acompanhando usando chapéu com flores e frutas de pano e
sombrinha na mão. Mulheres vestidas de renda, os homens de adaga e revólver.
Era muito, mas não tudo. Sua Majestade D. Pedro II, um homem de bem, perguntou
para sua esposa, Sua Majestade imperatriz do Brasil:
-
Vem longe o dia?
-
Vem longe o sol.
Alice
se demorou no banho, estacionou na frente do espelho, levou dias com a toalha
enrolada na cabeça, sem pressa se escutou, se escutou uma eternidade, e ficou
se ouvindo até acordar. O cavalo comia folhas no quintal, estava mais velho,
memórias acumuladas, os dentes mais amarelos, babava pelos cantos da boca, se
coçava no tronco do araçá. O rio Guaíba quis invadir as partes baixas da cidade,
muita chuva, foi um susto, tanta água, os afluentes em pé de guerra. Alice
acordou e continuou sentada, esperando, a esperança era um sonho que não havia
por que deixar para amanhã.
-
O que foi que o céu disse? O que foi que o céu deixou cair?
E
o sol ficou engraçado. Tudo engraçado, as ruas, as pessoas nas ruas, as
carroças puxadas por burros nas ruas, as carroças estacionadas nas ruas com
suas juntas de mulas esperando, os prédios fincados na calçada de cada rua, as
pontes de pedra ou madeira ligando as ruas. E havia cheiros de abacaxi, cheiros
de melancia, cheiros de café, cheiros de vento verde, cheiros de rio Guaíba
cintilando ao sol.
-
Vou mandar fazer uma garagem para o tobiano, é.
Alice
parou no alto das escadas da igreja das Dores, parou, virou o corpo, olhou o
rio, a ilha da Casa da Pólvora, os lados, as árvores que saíam dos quintais
próximos, timbaúvas, angicos, canjeranas, guamirins, pitangueiras,
guabirobeiras, parou e olhou as coisas, e comparou a sombra de cada coisa, dia
13 de agosto, o imponderável, o sutil, o impalpável, a pluma de corruíra, a
paina, a nuvem branca, o sonho do pássaro, a miragem do horizonte azul, a bolha
do mundo. Depois, entrou no templo para ouvir de ouvidos abertos a história do
padre:
-
Quando conheci o mar... Bem, esperaí. Eu sempre quis muito conhecer o mar. Já
viram que o mar é começo, meio e fim? Pois é. Aliás, eu queria ter nascido à
beira-mar. Nasci sempre em
Santa Rosa. E sempre sempre o mar me fascinou. De muita água
eu só conhecia de longe o rio Uruguai. E o mar dos meus sonhos era verde ou
azul. E tinha umas ilhas aqui e ali. Tudo bem. Pois o dia que eu vi o mar pela
primeira vez... Eu era, então, muito mais corajoso que hoje. E não esqueço o
meu dia, o primeiro dia que vi o mar. Desci o Guaíba e passei no meio da lagoa
dos Patos. De fato encalhamos meio dia nos bancos de areia. Passamos por Rio
Grande e lá chegou o mar. Não era só mar; era oceano. Na verdade não era só
oceano; era o céu tombado no azul ou verde. E os pássaros de um, os peixes do
outro. Os barcos a vela e caravelas e sumacas de um, as nuvens e aviões e barcos
a vela de outro.
Os
olhos de Alice queriam sair, sair fora, andar, visitar. Os olhos queriam
viajar. Olhos que gostavam de cuidar das coisas. Alice queria ver abelhas
amarelas procurando por doces amarelos, abelhas amarelas pousando em flores
amarelas, zangões procurando abelhas amarelas. Queria pegar excursão ao pico do
Neblina, ao pico da Bandeira.
-
Dentro dos meus olhos, nos meus sonhos, dentro do meu coração, tudo junto, há
muitas cidades, muitos portos, estações rodoviárias, ancoradouros, enseadas.
No
ano da graça do Senhor de 1879, uma parte do dia, Alice pegou e foi atrás de
Marcelle. Atravessou o rio Brumado na igá. A aldeia indígena dos uaurás ficava
muito distante dentro de Mato Grosso e Rondônia. A aldeia era lá pras bandas de
São Miguel do Oeste, ou Santana do Livramento, Santa Maria, São Borja,
Alegrete... Alice, então, chegou de mão estendida, falou, ouviu, comentou o
tempo, narrou a viagem, explicou:
-
Todo o meu tesouro é minha filha!
Alice
chegou à noite, uns guaipecas vieram encontrá-la, falou com o morubixaba. Alice
agarrou Marcelle com saudades. Se abraçaram apressadamente, sorriram muito
mutuamente. Se deram sete ou setenta e sete beijinhos com boca de merengue. Alice
olhou Marcelle que olhou Alice e viram que eram a mesma pessoa, a mesma mulher,
a mesma guriazinha, gêmeas, dormiram na mesma rede, abraçadas, e no outro dia o
rekakê falou:
-
Sonhei quatro coisas: lua, peixe, flor, uirapuru e mulher.
Marcelle
crescera conforme se esperava, voz líquida e límpida, os olhos que sempre riam,
os cabelos pintados de vermelho, sonhos macios, quentes, cintilantes, colar de
conchas, pauzinhos nas orelhas. A menininha não fazia outros milagres, passou
aquela mania de gentileza e perfeição, nenhum milagre a atrapalharia, tinha
adquirido outras palavras, esquecera o cãozinho Tapuio, pediu bala de goma,
disse que já sabia nadar, comer formiga e subir em árvore, e Alice destravou:
-
Sabe a melhor parte? Vamos pra casa dormir.
De
verdade mesmo, Marcelle já não tinha mais aqueles milagres fáceis na ponta dos
dedos.
Uma noite, na
madrugada, Alice despertou com terremotos de trovões e descargas de relâmpagos.
Será que a tempestade ameaçava as estrelas? Gostava de chuva, ia chover e isso
a fazia se sentir bem. E que chovesse mesmo! Chegou à janela e abriu, a noite
nervosa e agitada, a chuva já vinha no galope açoitada, chicotes de relâmpagos,
bombas de trovões. Vento chegando na frente, aproveitando para conhecer os
cômodos da casa, balançando o guarda-louças com portas envidraçadas.
Alice
consultou o seu relógio de parede: então, nove horas e oitenta minutos. E o
sono dos sonhos viraria sonho de toda a noite, de todas as noites. O bom seria
conversar, é. Mas com o quê? Com quem? O bom seria conversar o que com quem.
-
Pode cair, chuva! Não sou de sal, não sou de açúcar!
O
cavalo tobiano vermelho se refugiou na aba da área. Estava rolando entre as
aberturas do céu uma chuva muito pesada. Então, sim, a chuva caiu. Alice viu o
céu fechar de um jeito e foi dormir. O tobiano se deixava banhar comendo folhas
junto à cerca. Alice, sob o lençol, escutava toda a chuva sobre as coisas. O
tobiano nasceu para andar, andar, e caminhar procurando a memória, caçar a
memória, caçar os caminhos, trotar no campo.
A primeira
coisa, os raios de alto a baixo medindo o céu na distância da terra; a segunda
coisa, o estrondo como se o céu estivesse jogando bolão com planetas; a
terceira coisa, o vento e a chuva esbarrando com os galhos da sananduva na
vidraça.
Alice se
gostou tanto naquele instante no meio dos lençóis ouvindo a chuva, ouvindo a
noite se mexer, que a falta e a carência e a importância de um troço a fizeram
ainda mais ansiosa e contente. Sentir falta dos troços era já mais que demais.
E sentindo prazer sozinha ali fuçando os lençóis e fronhas e travesseiros. Não
perdia a doideira de corcovear. O troço fazia falta e era verdade, mas Alice se
divertiu mesmo assim rolando na cama como quis, até dizer: “é isso aí!” E quase
nem deu para contar como foi.
Alice
queria sair fora. Alice escutava de si mesma:
-
Sai fora!! Procure outros lances!! Vá a mais lugares!!
Ela
pretendia sim sair fora. As pessoas viajavam. As pessoas levavam mala e cuia.
As aves veraneavam. Outros animais abandonavam ou fugiam. Ainda outros se
exilavam. O vento sussurrava segredos nas cem mil folhas verdes da embaúba. O
rio chacoalhava muito, corria precipitado, virava esquinas. Cidades cor de
laranja. Cidades de preço alto. Cidades banhadas de rios volumosos. Cidades
muito ricas - rubis, esmeraldas, topázios, diamantes, safiras, ágatas,
turmalinas. Alice beijava o país dos bem-te-vis amarelos. E ela ainda sonhava
com o país das aulas de História colonial.
Alice
e Marcelle passeavam à beira-rio. Na contra-mão chegava o ano de 1883. Havia de
ser naquela tarde, justamente quente de céu claro, porque quem ama tem sempre
vinte anos. Zangões zangados de zês zumbidores e perfurantes. O Guaíba ali
seguro e tranquilo, na dele, deitado, correndo ou não, pintando suas ilhas de
verde. Marcelle viu primeiro e estrilou:
-
Algodão-doce escarlate! Bala de azedinha amarela!
O
rapaz do algodão-doce sorriu uma fisionomia disposta. Alice o reparou com
calma, e o olhou mais, de soslaio, se sentiu cercada na roda de fogo, custava
cair em si, era a hora de correr e ficou esperando acontecer não sabia o quê,
coração acelerou, seu cérebro descarregou raios e raios pondo-a tonta tontinha.
Um tiatã almoçava ali pertinho no alto do bracuí. Quando Marcelle soltou a mão,
Alice quase caiu, Alice quase estourou, Alice quase subiu no ar, Alice foi até as
nuvens e quase voltou, o chão tremia, sem falar que o rapaz do algodão-doce se
aproximava, se aproximou, Alice suspirou. O mais interessante era que não
precisava correr nem parar nem ir devagar nem esperar. Alice trincou, ergueu os
braços e pipilou para o rapaz:
-
Você me conhece?
-
Assim me parece.
Então,
o ambulante do algodão-doce - seu rosto era sóbrio e distante, sem ser vaidoso
- abandonou a carrocinha e se ofereceu para acompanhá-las. Passearam pacíficos
pela calçada de pedras basalto, como uma família legal na tarde trilegal, Praia
de Belas, fileiras de árvores frondosas apoiadas numa perna só. E os três foram
se falando coisas menos importantes próprias de uma primeira hora.
E na
quinta-feira, Alice foi espontaneamente procurar o rapaz do algodão-doce. Este
estava lá no seu ponto vendendo algodões-doces, balas de caramelo, línguas de sogra,
cocada escura e cocada clara, paçoquinhas, mandolates, pés de moleque, sonhos,
puxa-puxas... E quando se viram juntos, ele confessou:
-
Tchidjigo: eu sabia que você vinha hoje.
Alice
queria caminhar, foram passear, trocando frases em palavras amenas, estudantes,
ideias gerais sobre tudo. As mãos se encontraram no ar e cruzaram os dedos. Uma
vez brincaram de pega-pega entre as árvores do parque, e de repente se
encararam frente a frente como dois preocupados, olhos muito abertos, muito
perto um do outro, os olhos lustros e os corações a galope, às vezes
alimentando sonhos planejados, às vezes se lendo, às vezes se rindo, muitas
vezes rindo. Alice e o rapaz do algodão-doce esqueceram do mundo que trabalhava
em volta, que só atrapalhava em volta, que zumbizava em volta, por exemplo.
-
Vamos para a sua casa?
-
Vamos para a sua casa.
Os
sonhos de Alice, as fantasias de Alice, Alice cheia de movimentos, Alice
parecida com boneca de pano, Alice levava um cabelo de espantalho que parecia
estar na moda, Alice segurava os seios com as mãos, se abraçava com força, às
vezes ria muito se jogando para trás.
O
tobiano comia seu capim, suas espigas de milho, suas fatias de melancia ou
abóbora, ruminando memórias da infância que voltavam toda vida. Alice e o rapaz
do algodão-doce entraram no jardim abandonado de uma casa abandonada, a
goiabeira-do-mato em flor, verde cheirosa, se fingia de estátua baseada no
vento sem pressa. Sua Majestade D. Pedro II se empolgava com a preparação da
viagem à Europa; Sua Alteza princesa Isabel se preocupava com a saúde do Império.
Alice sentiu
que era pura ansiedade, estava ansiosa para mostrar seu par de seios ao rapaz
do algodão-doce, e também soltar os cabelos, passar a noite com lampião aceso.
Mal fecharam a porta do quarto, Alice já mostrou pomos subindo e descendo nas
ondas de um mar ansioso, montes bonitos cheios de suspiros. Os lábios abertos,
as gargantas secas, os braços abraçando, as pernas se debatendo. O rapaz do
algodão-doce teve um choque de feira livre num domingo de sol, e foi lambendo
os bicos, cheirou os bicos com os dedos das mãos, apertou os bicos entre os
dedos dos pés, amou joelhos e cotovelos, se interessou mesmo por tudo. Alice,
gaguejou:
-
Me estapeie os seios... um de cada vez... os dois ao mesmo tempo e de repente...
O mundo
deixava tudo para a hora adiantada do outro dia, nem dúvida nem memória, só
três pedidos: um vulcão que ri ou que põe a língua; um rio lavando pedras
preciosas e ouro e prata; um cometa voando num cabo de vassoura em volta da
Terra; e um beijo de peixe rimado estalado úmido. Dom Pedro II e a Imperatriz -
a família importante -, hóspedes do casarão na rua da Praia esquina com a rua
da Ladeira.
Alice
esperou, esperou. Naquele dia o tempo e a cidade demoraram para chover. Era uma
borboleta azul de leve voar, era um beija-flor verde de gola branca e era uma
vitrina de padaria com bolos, tortas, pudins, quindins e o que mais. Até que
choveu, caiu um aguaceiro; uma chuva com vento na perseguição. Vento a guaiar.
Alice assistiu da janela o tobiano tomando banho, salvo pelo chapéu de abas
largas com barbicacho e o pala de lã, Alice se perguntou e se respondeu:
-
Alguém já sabe que amar é dar bobeira.
E
Alice esperou enquanto a chuva caía, ou ainda andou pelo quarto sem pressa,
voltou à janela e parou. Olhou quem sabe a chuva sobre o mundo, todas as
montanhas, todas as florestas, todos os rios se enchendo, as cidades invadidas
pelas águas de janeiro. Olhou sobre todas as pessoas encharcadas passando nas
ruas alagadas. Apareceram poucas aves e pequenos insetos, menos flores e muitas
árvores e raros bem-te-vis, quero-queros, jacutingas. O tobiano brincou sob a chuva,
correndo na lama, caindo na poça de água. Alice, cada vez mais antiga:
-
Quais são os mundos, as estrelas, as galáxias que sempre guardam nossos
brinquedos quebrados?
O
cavalo tobiano vermelho tinha uma memória normal. Mas não sabia nada nada a
respeito do mar. Muitos rios já pensaram
antes o caminho para o mar. O primeiro cão tinha fome e se chamava pastor
alemão; o segundo cão tinha fome e se chamava fila; o terceiro cão tinha fome e
se chamava vira-lata; o oitavo cão tinha fome e se chamava buldogue.
As antas são
bichos teimosos. Engraçado, todos os rios vão para o oceano. O sal da terra
satura o mar. O rio Pardo, o rio Caí, o rio Camaquã, o rio das Antas, o rio da
Prata, o rio Ibicuí, o rio Capivari, o rio Taquari, o rio dos Sinos, o rio
Jaquarão, o rio Turvo, o rio Carreiro, o rio Retiro, o rio Tramandaí... correm
sem parar sem parar para o mar, acasos da memória, insistentes, fiéis,
tributários.
-
Viaje, Alice! Viaje, Alice! Viaje e ande no sol, ande na lua, ande debaixo de
chuvas, ande nos rios, ande onde você escolher, cante com os ventos
assobiadores!
Então,
o coração de Alice ficou atravessado, a garganta de Alice restou
desclassificada, o fôlego pifou porque o coração obstruiu a garganta de Alice.
Quanto tempo o tempo esperou assim?
-
Os exames de fim de ano são um terror muito assim.
E
o que mais? Vontade de escapar. Aquele olhar perdido nadando no nada. Aquele
olhar perdido no horizonte. Aquele olhar sem cuidar das coisas.
Na
altura do ano de 1884 da graça do Senhor, mês de novembro, uma tarde de
sexta-feira, um bem-te-vi-do-campo pousou no lombo do tobiano, andou de carona,
sossegado no dia sossegado. Veio do acaso de chegar, foi ficando. Dois dias
depois chegou a companheira. E já fizeram amizade muito chegada com o
hospedeiro. Os dois pássaros já não mais se separaram, e passaram a dormir
atrás da orelha do pingo. E ele cantava bem e muito, e ela repetia bem e muito:
-
Que-te-guê! Que-te-guê!...
Comiam
no lombo do cavalo, andavam na garupa, voavam quando queriam, dormiam atrás das
orelhas, almoçavam aqui e ali, trabalhavam aqui e ali, voavam até os altos do
umbu. Tobiano não parecia se dar conta, e via tudo muito bem natural. O sol
brilhava, o cavalo comia folhas verdes, pasto verde, espigas de milho verde, os
bem-te-vis quase de ouro e prata.
Medir
o dia, medir a estrada que se vai seguir, as estrelas que vão nos seguir, medir
os pedidos que vamos fazer, as estrelas que vamos seguir, medir os rios que
vamos pular, medir as distâncias, medir o fio dos rios, a largura dos rios,
medir a altura da estrela, medir as letras e números e figuras das cidades que
vamos encontrar.
Haveria
pessoas nas cidades. Haveria pessoas novas. Haveria pessoas distraídas. Haveria
pessoas aceleradas. Haveria pessoas alagadas. E numas e noutras cidades todos
sabem de tudo, dos outros, de todos.
O
imperador Dom Pedro II e a Imperatriz, consultavam mapas de viagens ou
aventuras, treinavam o dinamarquês, o italiano, o árabe, o russo, o alemão, o
persa, o mandarim:
-
Ah!, as sete maravilhas do país descoberto: São Miguel das Missões, cataratas
do Iguaçu, Itaimbezinho, o Pão de Açúcar, cidade de Diamantina, Sete Cidades,
ilha de Marajó, sítio de Calçoene, Alcântara, Parati. Vou divulgar lá fora a
nossa serra do Mar, os ares de Canela e Gramado, a enseada de Paracuru, o canto
do uirapuru e até o nosso ipê-amarelo de riso de ouro. Vou divulgar nossas
invenções de lendas de jabuti, os bandos de araras-azuis-grandes, as furnas e
grotões das suçuaranas.
No
dia 11 de novembro de 1846, D. Pedro II e a Imperatriz D. Teresa Cristina,
visitaram Porto Alegre, a capital sul-rio-grandense parou, a Terra dos Muitos
muito se alegrou. O Imperador - o avô que sabia de tudo -, vestiu bombacha,
comeu churrasco e tomou chimarrão durante as cinquenta horas que passou na
cidade. A Imperatriz se vestiu de prenda, encomendou um poncho bordado e comeu
churrasco e tomou chimarrão ao longo dos três quatro dias que passou na cidade.
O Imperador e sua esposa Imperatriz falaram o gauchês, entenderam, riram,
soluçaram, foram à missa das dezessete horas na Catedral, caminharam pela rua
da Praia, respiraram os ares do Portinho, pararam para admirar as paineiras
floridas, receberam presentes, falaram bom dia!, e boa tarde!, e boa noite!, os
homens tiravam o chapéu, as mulheres apagavam as sombrinhas, o Imperador
observou:
-
Pretendo e gostaria retornar dia desses.
Os
mimos e os grados e os presentes foram de navio para o Rio de Janeiro, eram
muitos, foram na frente. Enquanto isso, o casal real seguiu ainda para as
barrancas do rio Uruguai, Uruguaiana, São Borja. Assim, o tempo continuou
passando em Porto Alegre ,
Porto Alegre continuou esperando a volta de D. Pedro II e da Imperatriz. O que
é comum nesses casos.
Alice
e Marcelle iam ao centro da cidade, à praça da Alfândega, ao cais do porto, ao
mercado municipal, aos vendedores de chapéus. Alice ia conhecer o namorado,
próximo marido, o preparado, e como poderia saber se fora a convite do acaso,
agora, nessa hora, tal hora, quem poderia prever?
A primeira vez
que Alice viu o futuro marido foi num Banco e ele pagando contas, retirando
moedas, alguns contos de réis, conversando com o gerente, tomando um cafezinho.
Uns dias após foi vê-lo numa loja de materiais de construção e ele examinando
pias, torneiras, comparando cores e feitios, trincos e maçanetas, 700 réis, 200
réis. Sempre a mesma coincidência. O homem era advogado, tinha sempre um
sorriso fácil, uma testa europeia, uma gravata bicolor azul e azulzinha ou um
lenço vermelho de pescoço. Alice precisou aparecer, gesticular, porém, ele
perguntou primeiro:
-
Acha que devemos nos encontrar mais vezes?
-
Acho que devemos nos encontrar mais vezes.
-
Como vão o tobiano e o casal de bem-te-vis-do-campo?
-
Prontos e espertos para sair fora.
-
Esta é a época dos bem-te-vis-do-campo buscar mais sol lá pra cima.
Quando
Porto Alegre esfriou no inverno, quando veio o minuano, Alice e Marcelle e
advogado, venderam ou trocaram seus ponchos e palas e desertaram do sul. Alice
pensou bem. Alice estava ausente de si, ou mergulhada em si. Alice tentou esquecer
o tempo passado, voltar do tempo antigo e conseguiu.
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