A ave
viu o voo. A ave no voo. A ave voou e flutuou e nadou e cantou ou piou. A ave
na ponta das asas. Nenhuma nuvem por dentro ou por fora. A ave ou o ovo? A ave
segurando as pontas das asas. O céu azul-ferrete se derretendo. Nenhuma nuvem
por Deus. O sol de cabelo espetado. O vento contra o tempo.
Então, eram outras aves.
Apareceram aves e pássaros e passarinhos. Se reparou ali que havia um muito do
que se ver. Aves chegaram em grupos, em bandos, em temporadas, em gritarias, em
pares de casais. E chegaram e grasnaram e gracejaram e partiram. A habilidade
dos alados pousando aterrissando levantando voo.
A ave botou o ovo. Outro dia
foi outro dia. Tardes do mês de maio. Todas as cinco cores do dourado.
Algazarras, arapongas, bairaris, acauã, mutuns, juruvas, maguaris, diz-que-diz-ques,
pio-pios, gorjeios, que-re-que-quês, bentevis!
***
Sorro
chegou. Todo mundo conhece Sorro por graxaim ou cachorro-do-mato. Sorro chegou.
E o pessoal todo de Ivy-Marae, gritou:
- Seu
Sorro chegooou!!... Seu Sorro chegooou!...
Sorro
vinha na companhia amigável da anta de nome Camaquã. E Sorro era magro, pesando
25 quilos, corpo de menos de metro, pelagem cinza-amarela-marrom, olhos grandes
e escuros e redondos, cauda felpuda, vestia uma batina branca e um turbante
amarelo enrolado em espiral na cabeça para tapar as grandes altas triangulares peludas
vigilantes orelhas, focinho estreito e farejador. Nas mãos ou patas segurava
uma pedrinha branca, com a qual vivia brincando, jogando-a para o alto,
trocando-a de mão ou de pata, etc., como sendo um talismã, como um bichinho de
estimação. O peludo sedoso Sorro falou, olhando para a pedrinha branca que
estava na palma aberta da sua mão ou patinha direita:
-
Acordei com o pensamento andando sozinho e adiante de mim. Achei que era isso
ou aquilo. E era assim mesmo, ou seja, qualquer coisa. Então, paciência. E a
hora não interessa. Depois parei para ouvir o pensamento. E ele me disse cada
besteira! E o desliguei. Desliguei porque pareceu igual um trem correndo muito
veloz na paisagem. Foi foi que naquela altura consegui laçar o pensamento e
subir na garupa, de carona. E estou aqui, agora. Quinze para o meio dia. Dia
mês ano? Dia dezoito do mês maio do ano presente.
Sorro,
ou graxaim, ou zorro, ainda ergueu a cabeça e olhou o céu cheio de sol forte.
Depois voltou a falar com a pedrinha branca companheira predileta inseparável:
- Eu
vi todos os meus dias iguais. Aí, pensei em Tupã... Aí, sonhei e pedi a Tupã
uma cangalha, um caminho.
Porque
na verdade vamos dizendo que Sorro já não queria mais contar o tempo, não
queria mais contar o tempo. Sorro, o peloso Sorro, mais conhecido como
graxaim-do-mato.
O que
era e que aconteceu, foi que Sorro morreu. Quando começou a feder, sua alma
resolveu cair fora e procurar outro lugar. Saiu andando procurando não sei o
quê. Assim mesmo.
Quando
Sorro apareceu em Ivy-Marae, naquele dia pela manhã, já perto do meio-dia, ali
no centro da cidade em torno da praça Triangular, ele já tinha uma idade muito
madura e bem avançada. Ninguém sabia ao certo sua idade em números. Nem ele
próprio. Mas era já longa e curtida. Tudo bem. Tudo bem e ninguém também tem
nada com isso. Aliás, Sorro não desejava mais contar com o tempo. Por isso
mesmo era ditoso e rabugento e apreciador de chocolate.
No
outro dia Sorro, o iluminado, se separou da anta Camaquã e foi mergulhar os pés
nas águas tranquilas e transparentes do lago. Parou com a água até as canelas.
Parou como estátua. Brincou com os aguapés-brancos. Aí, os peixinhos vieram
curiosos rondar seus pés ou patinhas. Um lambari, outro jundiá, mais um bagre,
um cascudo, uma traíra, um piapara, uma mãe-de-anhã, um pirá-tamanduá. Sorro os
olhava... e brincava distraído com a pedrinha branca na mão... e olhava os peixinhos
pela sombra dentro da água. Ali mais à frente uma ilha flutuante feita de
gravatás e sarandis.
Sorro era muito brincalhão e
alegrão, e também calminho e paciente. Até assobiou coisa do dia, ou de chamar
sol ou chamar chuva. Viu um socó, outro biguá, mais um guará, par de
quero-queros, casal de juruebas, colhereiros. Sorro tinha calma com os bichos
que só vendo.
***
Esse é o mundo vivo e colorido
de Ivy-Marae. Quem não conhece ou ouviu falar?! Trânsito livre para todos os
seres que vivem no mundo normal, que têm seu tempo normal de tempo e agora só
esperam a vinda dos anjos verdes para subir definitivamente aos setecentos e
setenta e sete céus.
E
outra coisa é bom que se diga. Antes que esfrie. E já. Quem não conhece a praia
do Cassange, lá em Maraú, quem não ouviu falar do rio Taquari, ilha
Taperebateua, e de Tupanatinga, de Angelim cidade, de Bom Conselho, de Buíque?
A cidade de Ivy-Marae é parecida e tão bonita quanto.
Choveu
a chuva. Choveu. Choveu muito. Choveu um dia e uma noite, mas com a vontade de
querer desabar um mundo sobre um outro planeta. Uma chuva que Tupã mandava.
Choveu de correr rios. Choveu cascatas cataratas. Choveu cortinas. Choveu de
desabar o céu. Choveu tanto que foi de abrir rios no teto azul do céu. Choveu
de fazer fumaça no morro. A chuva cantou, ululou, nadou e correu deitada.
E ali
pelas oito horas da manhã o céu limpou que era uma maravilha, e liberando para
que o sol viesse se esquentar. Abriu um sorriso no céu. Um arco-íris de ouro de
um pote a outro de ouro. Um sol no céu de vidro transparente. Um céu infinito.
Onde se encontra o poderoso Deus.
Um
par de quero-queros, provavelmente esposo e esposa, voaram baixo no banhado.
Aí, usaram as asas para enroscar no arco-íris e desconjuntar os fios de ouro do
sol. As cores se esgarçaram, as cores brincaram, as cores se espicharam, as
cores se coloriram. As cores se abriram. As cores do dia se dividiram e se
divertiram e cada uma foi para seu lugar de costume. O mundo do dia parou para
ver as cores tomando conta e pintando o sete das coisas. As cores tomaram conta
e o sol prosseguiu sua estrada azul. As coisas também apareceram e o dia
aconteceu.
Nesse
instante despencou do arco-íris na serra do Caraça, a moça dos cabelos
absurdamente longos e esvoaçantes. Ela desceu e tinha mesmo aquela cabeleira
cheia e esvoaçante como cortina de janela ou capa de super-herói ou cauda de
tamanduá-bandeira ao vento. Ela era bela, modelo, cunhantã, contente, tranquila
e bonita.
A
moça dos cabelos absurdamente longos e esvoaçantes e avassaladores, longos como
os próprios raios do sol, veio à Ivy-Marae para namorar e casar. Desceu com o
arco-íris se materializou para namorar e casar. A moça ou banga dos cabelos etc
e tal tinha um cabelo amarelo, vermelho, preto, azul, branco, verde. Era filha
das lagoas ou nuvens com o sol, depois da chuva. Uma moça feita para ser
deslumbrante e feliz.
A
bela moça, dos cabelos levantados para trás, seguia pelo acostamento da
estrada. O vento brincava com seus longuíssimos cabelos. Já bem perto de
Ivy-Marae que era para não cansar de caminhar. Se pode dizer que o vento lhe
fazia um carinho nos cabelos. E o vento cuidava dos cabelos longos da moça dos
cabelos longos. A moça acabou falando com a brisa:
-
Ora, Vento! Não puxe meu cabelo. Antes de acordar desse sonho, quero olhar e
reconhecer os meus pés.
O
vento assobiou:
-
Psiiiiu!... Deixe que eu carregue seu cabelo como um véu de noiva. Eu quero ser
seu escravo, viu, Mãe-d’Água. Não tenho outra pretensão.
-
Ora, ora, Vento! Eu desci do céu para namorar um alguém prometido já
comprometido comigo. E esse alguém não será você, um vento que vai e que vem
sem pouso certo sem amar ninguém sem ficar com alguém. Antes de acordar desse
sonho, quero olhar os meus pés.
-
Hum!... que pena, que pluma, que suspiro...
O
vento continuou a esvoaçar os cabelos da moça, cabelos, aliás, absurdamente
longos e alçados como planta xaxim. Tinha os cabelos pesados não mais que o
necessário. Os olhos eram dois diamantes impossíveis. Aniversariava seus vinte
anos, quase. E ela que ia buscar seu destino final finalíssimo finalmente em
Ivy-Marae.
***
Gavião-Carijó entrava em
Ivy-Marae de carona no ônibus. A ave reconheceu a cidade, o ônibus reconheceu a
cidade. E os dois ficaram sem o que fazer. Por quê? Porque em Ivy-Marae não era
preciso fazer nada. Só curtir e esperar e passear pela cidade. Ruas novas ou
antigas como em Nísia Floresta, Ijuí, São Luís Gonzaga, São José de Mipibu. E
esperar que os anjos verdes viessem convidar para o céu. Céu do divino.
Aí, o
rapina já estava por conta própria andando nas ruas de Ivy-Marae. Casas comuns
de Ivy-Marae, calçadas comuns, sol comum, cidade doce de Ivy-Marae. No banco da
praça Triangular, G-C viu um moço fazendo gestos, rodeado de um povo. Gavião se
interessou e chegou perto para ouvir o sabiá poeta cantar ou trovar ou declamar
ou recitar suas composições inspiradas. O moço era muito jovem para ser um
grande poeta, mas se esforçava. E falava suas poesias acompanhado os gestos das
mãos e dos braços, mais seus lisos cabelos ou penas, e procurando o olhar das
pessoas. O moço cantou assim, muito satisfeito por merecer um público como
aquele, disse:
- O
sabiá-laranjeira entica por causa da sua namorada! Ninguém vê, eu vi! Todo
mundo vê!
O
rapaz, quase totalmente inexperiente, todo de penas caídas para as costas,
penas do pescoço encaracoladas, prosseguiu assobiando:
- O
sabiá-laranjeira em pleno ar! Ou entre galhos e folhas verdes! Na piscina de
poeira vermelha! Mede seu território para conquistar a amada.
O
poeta não gosta de carnaval, de festival da canção, show de boi-bumbá, de
espetáculo de orquestra, de festa de aniversário, de jogo de futebol. Prefere a
improvisação ao ar livre, o cordel, e apitou:
- O
sabiá-laranjeira assobia para a namorada! Ninguém vê, eu vi! Os bem-te-vis as corruíras
os quiruás ficam ouvindo.
Alguém
perguntou ao jovem poeta, de repente ou de abrupto ou de chofre, indagou:
- Mas
querido poeta! Isto é poesia ou é caminho?
O
rapaz logo logo respondeu de imediato com um quase poema na ponta da língua,
trilou:
- O
sabiá-laranjeira pega-pega o amanhecer! Cisca no ninho imitando a hora de
levantar! Canta como encanta para todos acordar!
Chegou
o Sorro, também ele quase distraído com sua pedrinha branca de brincar, e
interrogou:
-
Jovem pássaro poeta! Isto que você diz é poesia ou é caminhada?
O
moço das penas lisas e lustrosas, e lavadas do tanque por opção, resolveu
imitar a ele mesmo, trissou:
- O
sabiá-laranjeira briga com a namorada! Ninguém vê, eu vi! Os tico-ticos as
juritis os guarubas também vêem!
Embora
todos os dias de Ivy-Marae fossem felizes, faustos e iguais, o cantor poeta
ainda encontrava tempo para cantar mais satisfeito, dublou:
- O
sabiá-laranjeira bate as asas! Troca agarrões! Faz greve de silêncio! Dá prazo
para a tarde chegar! Decora a trilha sonora! Canta imitando todos os cantores
do dia! É este o sabiá-laranjeira que todos reconhecem!
Um
quero-quero ou tero-tero ou téu-téu ou gaivota-preta de peito preto, barriga
branca, costas das asas escuras e o resto cinzento, crista na cabeça e pernas
longas e vermelhas, pés vermelhos, pousou ali perto e ouviu:
- O
sabiá-laranjeira perde a namorada! Ninguém vê, eu vi! Os pintassilgos os
guainambés os ajurucuraus vêem também!
Quando
todos pensavam que o rapaz cansava, estivesse de garganta ressequida e pedindo
água, ele prosseguiu irradiando, debateu:
- O
sabiá-laranjeira muda o verão! Muda a geração! Sai do seu fofo copé! Muda o
coração! Muda a emoção! Muda a modulação! Muda o mundo!
Rê se
aproximou do bolo de pessoal em volta do poeta iniciante, e ouviu. O sabiá
pássaro discursava ou pregava ou chilreava, e filosofou:
- O sabiá-laranjeira briga com
a idolatrada! Ninguém vê, eu vi! As corruíras os arumarás as arirambas-da-mata
também!
Aí, a
Rê fez a pergunta que não queria calar, indagou:
- Me diga,
poeta! Isto é caminho de ida ou poesia?
O
rapaz olhou para ela com carinho, com caridade, com pena, e resolveu imitar,
grinfou:
- O
sabiá-laranjeira ouve andorinhas zinzilular! Olha lá para fora do butiazal! Vai
volta correndo voando! Olha que passa no alto entre nuvens um bando de
maritacas conversadeiras!
Uma
folha seca caiu do galho daquela árvore de angico, nadou um ou dois segundos no
ar e pousou no chão. Repare só o cantador o que foi reclamar, e conversou:
- O
sabiá-laranjeira beija a namorada! Todo mundo vê, eu vi! Ninguém vê!
Camaquã,
a anta elegante e amiga de Sorro, barritou, berrou:
-
Jovem engenhoso poeta dos bons, não se incomode, mas isto que você canta é
caminho de vinda ou poesia de volta?
Então, o jovem das penas
soltas e lisas e despenteadas, improvisou:
- O
sabiá-laranjeira canta na timbaúva! Canta na manhã de sexta-feira! Canta no
verão de sabão! Canta do fundo do pulmão! Canta como o verão nunca viu!
O
moço, bem mais poeta e tranquilo, descansou um pouco, sentou na grama.
Porco-espinho perguntou uma coisa, assim, e que ele foi responder lá em
seguida, flauteou:
- Que
estrada é esta, ou que poesia é esta, poeta? Você pertence à espécie dos
jaguarabas ou dos caraís?, pergunta.
O
poeta voz de cantor não deixou sem uma trilada, que destampou:
- O
sabiá-laranjeira voa no quintal! Aterrissa no muro da divisa! Afia o pico no
tijolo! E sonha com valentias estripulias!
Uma
senhora para um senhor, que os dois ouviam o declamar do poeta emplumado,
discou:
- O
nosso poeta não parece aquele moço poeta... o poeta Olavo Alves Gonçalves?
O
senhor para a senhora sua esposa em resposta, certificou:
- Não
só parece como pode ser réplica quase perfeita. Estou de acordo.
Bem
certa hora da tardezinha, depois das sombras e das andorinhas, surgiu a noite,
surgiu o crepúsculo, boitatá, caracará, surgiu a estrela-d’alva. A escuridão
veio a partir das plantas arbustos árvores e foi subindo se alastrando tomando
tintura de preto, negro e escuro. Um pouco da noite veio do meio da vegetação
das sombras das árvores, outro tanto dos buracos grotões e cavernas e locas,
mais um pouco do porão das casas garagens dos prédios viadutos e túneis. Juntou
tudo e a noite cresceu e existiu. Dentro da noite mesmo estavam as estrelas a
lua o saci os sonhos e os fantasmas.
E a
cidade de Ivy-Marae era mesmo perto de tudo. E longe do céu só um pouquinho ou
um instantezinho. Tenhamos paciência!
***
Rê
tentava aprender piano às quintas-feiras pela tarde e aos sábados pela manhã.
Sempre na casa da madrinha Nhandecy Pocema. Mas o que Rê gostaria mesmo era de
ser um peixe uma surubim-lima uma abotoado uma mandi, por ex. Às vezes se
imaginava um peixe do rio da Prata, outras um peixe da lagoa Mirim, outras do
mar grande oceano. Nunca quis ser um peixe de aquário.
Rê
disse isso uma vez:
-
Madrinha Nhandecy, eu já decidi. Eu vou ser um peixe de rio de água doce e
límpida, quando eu crescer, quando eu for dona do meu nariz, quando eu puder me
transformar em peixe, quando Deus quiser.
A
madrinha Nhandecy olhou o piano, olhou Rê, olhou os olhos escuros e o nariz
pequeno de Rê e suspirou e disse:
- Mas
que tipo ou espécie de peixe? De escamas ou de couro?
-
Hum!... Talvez dourado, lambari.
-
Morando no rio Madeira, hein?!
Rê
pensou o que responder. E não achou. Aí, perguntou:
-
Peixe bebe muita água?
-
Claro... que não.
- Não
mesmo?
-
Não, imagine. Peixe não bebe tanta água. Peixe respira água.
- Não
faço ideia nem tenho noção.
-
Enquanto o pássaro voa e respira ar, o peixe nada e respira água.
Depois
da aula de piano, Rê retornou para casa. Morava ali pertinho. Foi pensando na
vida de peixe que poderia ter, que poderia ousar, que sonhava ter e viver.
Disse para si mesma, já em voz alta, blu-blu-blu!
- Bem
que gostaria mesmo de ter nascido uma peixe. Já que não nasci, que me
transforme em uma. E o mais rápido possível. Porém, não uma peixinho de
aquário. Quero mesmo é ser uma peixe de rio de água doce, tá certo, tipo rio
das Antas, rio Retiro, rio dos Sinos, até mesmo outros rio Guaxindiba, rio
Urucuia.
E Rê
seguiu para casa pensando o que seria de bom se fosse um peixe. E Rê passou em
frente da pizzaria e tinha dinheiro para entrar e consumir; passou em frente à
sorveteria e tinha dinheiro para entrar e degustar; passou em frente da loja de
sapatos e tinha dinheiro para entrar e escolher. Passou, tá certo, em frente a
todas as lojas e não deu a mínima bola. Rê era forte e merecia os parabéns. A
guria, ainda assim, tinha a qualidade de querer ser um peixe de água doce. Ia
mascando chiclete porque era bom e mania, isso mesmo, pela rua Santos Dumont.
Rê
viu a rua e a rua tinha muitas coisas sortidas. Passava homem lendo jornal,
passava menino de bermuda e bicicleta, passava caminhão de mudança, passava
besouro de quatro asas acesas, passava índio da tribo camaiurá, passava boi e
vaca e terneiro família zebu, passava maracajá. Toda a rua cheia de muitos
assuntos e conversas e risos e ruídos daqui pra lá e de lá pra cá.
A
menininha parou, discou um número de telefone e falou com a Lilás. Falou
andando, telefone no ouvido e cuidado para não tropeçar:
-
Olha, Lilás! Já me decidi. Vou me tornar uma peixe. Em Ivy-Marae tudo é tranquilo
é organizado, mas no céu tudo é possível. Deus vai me devolver para a terra na
forma de peixe ou peixa.
E
Lilás, respondeu:
- Chiiii!...
Será que vou ver você nadar? Será que ainda é impossível? Você tem essa
obsessão?
-
Acho que a qualquer momento vou para o céu. Quem sabe se o meu querer
desesperado não ajuda, hein?!
-
Talvez você aguarde a próxima subida aos céus e uma reencarnação! A próxima
vinda a terra pode ser na forma de tal peixe piapara!
-
Será esperar uma eternidade, mas vai acontecer.
Lilás
ficou confusa, e foi obrigada a dizer:
-
Peixe toca piano?
Rê,
respondeu:
- Tá
certo que... jamé!
Assim
então se faz o tempo em Ivy-Marae. Ali passa boi passa boiada, quem arrisca
corre risco, morrer é nascer para a eternidade.
Como
ver o vento mexer com as folhas verdes das árvores altas, como ver as pedras
deitadas sonhar à beira do lago, como ver o sol ricochetear resplandecer na
água azul transparente da lagoa.
As
árvores se mostrando, as folhas faladeiras rindo dando tchau os galhos de
abraços e braços para o alto, casca-preciosa, pé-de-perdiz, pitombeira,
maúba-amarela, balata, malva-branca, guibá, carrapeta, arumã, jetirana. E
macambira que procurava morar de frente para o sol.
***
O lugar, a cidade de
Ivy-Marae, é um sítio escolhido, organizado, confiável, próprio para gentes e
bichos e plantas e outras coisas, e inteiramente grátis. Um mundo à parte,
saudável e plano que faz bem aos pulmões. Ninguém que vive ali se sente por
fora, desprestigiado, descartado, sem graça ou sem serventia. Até as pedras têm
energia de sobra, e para ver.
Um
dia desses. Hipocampo encontrou o Jabuti na praça Triangular. Hipocampo achou
Jabuti muito sonhador e..., sonhador não, pensativo, e lhe perguntou:
-
Você é distraído, é filósofo, é santo ou é anjo barroco?
-
Hã?! Olha. Eu, por mim, prefiro ser santo ou anjo. Mas ser um quelônio
distraído não é tão ruim como dizem, não. Até posso experimentar namorar uma
nuvem em forma de carapaça, tá bom ou quer mais?
- Sei
lá, meu! Cada um cada um! E cada uma!!
Mas a
praça estava povoada de crianças gritando, correndo, buscando. Gritavam não
sabiam bem por quê. Berravam numa língua que não era o português. Mas eram
gritos sem desespero. Eram gritos soltos e alegres e absurdos. E a praça,
então, tinha ali e agora uma quantidade de passarinhos que trabalhavam à
procura de alimento os mais variados, guácharo, ipecuacamirá, catirumbava,
urumutum.
E olhando bem, havia muitas
formigas espalhadas pelo chão à procura de migalhas e pedacinhos de folhas
verdes. Uma vaca malhada olhava, mastigando, lá do outro lado da avenida
Presidente Vargas, num pequeno campinho de potreiro. Um galo cantou que-que-quê!...,
galos responderam sem que nem para quê. O Jabuti falou para Hipocampo, narrou:
-
Depois que morei em Baliza cidade aprendi muitas outras coisas.
-
Aprendeu alguns enigmas?
- Enigmas não somente, oquei?!
Foi bom. Também enigmas ignorâncias superstições coincidências pressentimentos.
E
Hipocampo pensou só um pouquinho e descobriu que o Jabuti falava com emoção.
Mas o jeito era ir curtindo a cidade e passear para distrair. Cidade toda
grátis e exemplar.
Agora,
por exemplo, brincavam aí por perto, num chão de areia do parque, um número de
garotos e de garotas jogando bola. A bola quicava para lá e os gritos corriam
para o mesmo lado. A bola furava as redes do gol e era uma debandada de garotos
e de garotas para abraçar o artilheiro. No céu quase todo igual no azul, um
avião cruzou rasgando o ar de sons fortes. Aí, alguns passarinhos, na maioria
andorinhas, voaram para outro lugar. E também havia muitos insetos encontrados
pelo espaço, parecendo cheios de zunidos e procurando o que fazer. Uma menina
de cabelo em duas tranças brincava de perna-de-pau, tuque! tuque!... para lá de
dois metros e vinte de altura.
- Na
minha viagem a Itamarati de Minas cidade choveu tanto foi pra lá de barbaridade
- colocou o Jabuti.
- Os
dias passam num átimo, digo, numa rapidez de jato supersônico - foi o Hipo.
-
Viajava eu na janela. E ia rapidamente pronunciando os nomes das plantas que
surgiam na paisagem, angico-rajado, tinhorão, antúrio,
jarrinha-bico-de-passarinho, erva-de-bicho, amapá, corticeira, cipó-de-imbé...
- O
que as árvores iam pensando ou falando? Era muito?
- Em
aventuras venturas desventuras.
Jabuti
lembrou de algo que fazer e foi atrás. Hipocampo ficou meio perdido ali sozinho
e olhou em volta procurando com quem conversar. Olhou e ninguém lhe chamou muito
a atenção.
Hipocampo
então caminhou subiu uma colina para talvez olhar toda a paisagem e de uma vez
só toda a cidade de Ivy-Marae. Chegou no alto e de fato ficou ali olhando a
paisagem. Não demorou muito percebeu um grupo de pessoas conversando na sombra
debaixo de uma capororoca. Foi até lá muito curioso. Era Gavião-Carijó e seus
camaradas ouvintes.
Hipocampo
se aproximou muito mais. E se misturou com os ouvintes. Todos estavam ouvindo
Gavião-Carijó discursar. Gavião-Indaié contava uma história, uma poranduba, uma
maranduba, desfiava assim:
-
Quando acordei, a bem dizer, eu estava no labirinto da noite ou da mata ou do
ouvido. Olhei em volta, e tudo era muito escuro tenebroso. Tudo muito trançado,
enredado, enleado, secreto, desconhecido. Olhei para o alto, as estrelas mais
bonitas acompanhavam o rolar da lua de marfim. E a lua espalhava seu eterno véu
de luar. Mas ainda assim estava muito escuro no labirinto do meu ouvido
esquerdo.
“A
resposta da noite? O silêncio. E mais para lá do silêncio uns grilos cortando
vidro, uns vaga-lumes alumiando verde, casal de saruês namorando, um
curiango-tesoura assobiando, uma ou outra cigarra serrado madeira de árvore
guararema. Paguei para ver.
“O
luar brilhava no chão das trilhas, picadas, carreiros, caminhos e atalhos. O
labirinto do jardim. A encruzilhada era minha. Pensei: se eu fugir, a
onça-pintada bebe da água; se eu ficar, a canguçu pega o pato no ninho. Eu
pensei outra vez: estou no mato sem o meu sinal da cruz, sem o meu escapulário
e sem o meu patuá, sem o meu talismã e sem o meu muiraquitã de pedra verde cara
de sapo.
“Não
foi muito tempo, apareceu uma luz muito forte ou um fantasma ou ainda um
espírito de índio piratapuia ancestral. Também desconfiei que era Deus ou Tupã,
o meu querido pai. Ali sentado na pedra, as mãos segurando os joelhos, ele ria
muito de mim, me debochando. Eu estourei:
- Eu
fora, meu!
“Deus,
o meu próprio e mandão pai-pai, sorria e foi e me jogou uma pedra no calcanhar.
Eu gritei tanto de dor:
-
Aiaiai!...
“Fiquei
quicando como o saci e logo caí no chão, coçando o calcanhar atingido e ferido
e contundido. Deus, o pai, ria e foi desaparecendo como névoa. Pensei alto, só
para não perder o costume:
-
Falou, tá falado!
“A
teia do luar iluminava as trilhas e caminhos e estradinhas e varadouros e furos
e travessões. Labirinto do fundo do rio. Que catega de noite! A resposta da
noite? O silêncio. E mais para lá do silêncio umas corujas tipo
caburé-de-orelha que piavam, assim... inhau! inhau!... e uns morcegos que
rasgavam roupa, assim... traaaache! traaaache!... Paguei para ver.
“Caminhei
à vontade, sem pressa e sem saber para onde. Topei com uma vaca de duas cores
separadas, ou seria um touro dos nervosos, e até quem sabe podia mesmo ser um
rinoceronte fugido do zoológico de Sapucaia do Sul. Pois o bicho lia um livro
bem sentadão na esquina, com a colaboração dos raios lunares e a luz do alto do
poste. Desviei e me fui. O silêncio batia no meu coração solitário, tuque!...
tuque!... O vento soprava meus cabelos ao contrário. Pode ser, poder ser, me
deixe ver!
“A
resposta da escuridão? O silêncio. E mais para lá do silêncio uns
morcegos-pescadores rasgando roupa escura e pesada, assim... rrraupe!
rrraupe!... e um mutante uivando, desse jeito... uaaaaahu! uaaaaahu!... Paguei
para ver.
“A
rede lívida do luar, dona Jaci, apontava as várias opções ou trilhas ou atalhos
ou veias ou corredores ou carreiros ou estradas que eu poderia optar. O
labirinto das linhas da mão. A fechada mata das margens.
“Não
durou o tempo do nada, apareceu uma luz presa ao chão, concentrada ao chão,
assentada na pedra do caminho. Era Deus ou Tupã, o meu onipotente e vaidoso
pai. E ele ria a bom rir. Ria de rolar, ria de se engasgar, ria de tossir, ria
de se jogar para trás. Eu falei democraticamente:
- Eu
fora, meu!
“Deus,
o nosso pai, se ria, pegou de uma pedrinha solta por aí e me acertou
violentamente. E me lascou o calcanhar. E me matou o calcanhar. E me arrebentou
o calcanhar. Doeu uma barbaridade, doeu de cair desacordado, doeu de ajoelhar
de tanta dor:
-
Aiaiai!...
“Me
joguei no chão de tanta tanta dor e desilusão. Não pude segurar a mágoa entre
os dentes. Cheguei a lacrimejar e a suar frio. Tive febre e bati os dentes.
Deus, o sem tempo, ria alto e, pofe!... desapareceu como um sopro e por mágica.
Falei outra vez com a minha voz já um pouco rouca:
-
Falou, tá falado!
“Eu
poderia ficar e esperar a manhã clarear no novo dia e decidir por mim. Porém,
resolvi seguir em frente com a noite e seu labirinto de segredos nas costas.
Ali mesmo em volta vi uma preguiça-de-coleira, talvez até fosse mesmo uma
borboleta pré-histórica. Pois o bicho bateu os braços ou as orelhas ou as asas,
subiu com estilo e se apagou na escuridão nublada. Não tive medo ou susto, mas
me senti perdido e sem futuro. Na verdade eu não sabia escolher meu caminho. E
meu pai, o senhor Tupã, não colocara uma sinalização adequada ou perceptível ou
comestível ou iluminada para eu seguir sem dúvidas.
“O
silêncio. O silêncio era frio, já percebia. E o silêncio era a resposta que se
ouvia toda a noite. Para lá do silêncio uns pássaros piando noturnos, assim...
miiiiau! miiiiau!... e uma mula-sem-cabeça pisando nas folhas secas do caminho,
assim... pleees!... pleees!... Paguei para ver.
“De
repente apareceu a luz que eu já esquecera, mas que já conhecia de vista, e era
de Deus, o patrão, e com rastro de sol. Pousou numa ilha, ou melhor, numa
pedra, se assentou como uma pluma. E Deus já me olhava e ria às gargalhadas. O
ruído da gargalhada só espantava o silêncio, carrrracacá!!... carrrracacá!...
Eu tossi de nervoso e resmunguei:
- Eu
fora, meu!
“O
paizão, senhor Deus de tudo, se ria de mim, larrrrralixa!... larrrrralixa!...
Segurava a barriga para rir. Será que eu estou mesmo tão engraçado?, pensei. E
ele catou uma pedra solta do chão e me jogou com força, me acertando em cheio
aqui no calcanhar já machucado e arrombado e destroçado. Doeu e não parou tão
cedo de doer, lati:
-
Uiuiui!...
“Senti
um tal golpe de maus tempos que me joguei no chão. Não era só a dor o que eu
sentia, era muito mais que o vexame, o desprezo, era mais que o vazio no
coração, e o tudo da desilusão, do fracasso. Vi estrelas na consciência. Vi ou
não vi estrelas nos sonhos. Cheguei mesmo a miar ou latir ou grunhir, quer
ver... nhaque! nhaque!... E Deus, meu próprio, primeiro e último pai, ria, ria
mesmo e por último e por favor, tarrrrrataquá!... tarrrrrataquá!... Sem mais
nada e, pofe!... escapou, se escafedeu, se desintegrou. Falei assim mesmo com
essas minhas boas palavras:
-
Falou, tá falado!
“Pensei
arrumar uma escora, uma bengala, um apoio, cajado, pois o calcanhar estava para
lá de lesionado. Como estava escuro, não consegui encontrar nada satisfatório,
e nada em que me pudesse apoiar, nada em quem pudesse confiar.
“Mas ainda continuei com a
força que não tinha. Arrastei aquele pé machucado. O labirinto do presente era
minha prisão de alta segurança. Vi um cavalo, ou seria a esposa dele, e esperei
por uma leve esmola de ajuda. Se eu puder convencer o cavalo a me tirar daqui!,
pensei. Mas o bicho não me ouviu. Nem quis me ver de perto. Talvez o bicho
alazão-ruano não me adivinhou. Mal me aproximei do cavalo e ele se transformou
numa árvore enorme e distante e fria e para lá das nuvens, um pé de
pente-de-macaco. A árvore subiu tanto que ficou impossível conversar. Não se
mexeu mais do lugar ali bem plantada, enraizada.
“O
pólen finíssimo do luar apontava várias trilhas, trechos, cruzadas, passos ou
estradinhas de porcos-do-mato ou de tatus ou de tuco-tucos, ali entre as
plantas. Aliás, umas árvores tinham caras de espantalhos, outras de bichos
pré-históricos, e ainda as que tinham um jeito de morcegos gigantes. As árvores
que faziam sombra no escuro cheiravam os seus aromas, condurango,
ipecacuanha-preta, cipó-chumbo, candeia, maçaranduba, jaracatiá.
“E o silêncio só. Para lá e
para cá do silêncio somente o ruído de vaga-lumes com suas lanternas de acender
e apagar e acender, assim... prrrris! prrrris!... caburés-de-orelha espiando e
piando e sacudindo as orelhas de plumas, assim... firiiiiu!... firiiiiu!... e
ouriço-cacheiro espiando debaixo dos gravetos e folhas amarelas ciciando,
rilili!... rilili!... Paguei para ver.
“De
supetão apareceu aquela luz muito viva e branca e fenomenal. Era o meu precioso
e perigoso e todo-poderoso senhor pai. Pois se sentou na pedra inaugural, e
riu, barrrrritatá!... barrrrritatá!... e rindo de se dobrar em dois desse aqui
que vos fala. Eu explodi um berro para o ar noturno e soturno, alardeando:
- Eu
fora, meu!
“Deus
olhou de lado à procura talvez de uma pedra, olhou para outra banda talvez à
procura de outra pedra ou pedaço de pau, que afinal todo mundo sabe que queria
me jogar no calcanhar. Foi aí que, acho eu não sei ao certo, ele, o meu próprio
pai mandão, teve uma outra ideia luminosa e perfeita e criativa. Em vez de
jogar a pedra, ou rir com gosto, ou me sacanear, o que ele fez? O que ele fez?
O que um pai faria, é claro. Me perdoou. Ah, e como isso me doeu. Resmunguei:
-
Nhanhanhai!...
“Foi
aí também que eu vi que já era tarde, ou seja, Deus, o meu senhor, tinha me
perdoado e pronto. Não havia nada que eu pudesse fazer ou desfazer. Era o
perdão e mais nada. Meu poderoso pai me perdoava e eu perdoava meu divino pai
por me perdoar. Eu mesmo não sabia se queria ser perdoado ou merecia ser
abençoado. Eu completei dizendo num só tom de voz:
-
Falou, tá falado!
“Então,
para completar... não sei se foi o tempo, a esperança, a sorte de principiante,
só sei que as coisas me fizeram chegar ao fim da noite, ao fim do labirinto do
mato, ao fim da mata, ao início do caminho traçado. E eu saí para o dia. O sol
raiava. E eu saí para o limpo. A estrada estava ali. O sol me chamava. A
estrada estava aberta.
“E,
já no território do sol, vi o meu pai único, sentado ali me esperando. Sentado
na pedra como um ás de ouro, como um herói dos tempos bíblicos. E Deus dessa
feita vinha em forma de barra de gelo, parecendo um cubo um iceberg de ouro.
Estava suando ou derretendo. Antes que se fosse, ele, o pai dos pais, me deu os
parabéns e me vivou e me aplaudiu. Ao me aplaudir se quebrou todo em milhões de
pedacinhos e centenas de fragmentos ou pingos doces de gelo.
“E eu
fecho a minha história com um problema e uma pergunta:
-
Vocês também me perdoam?”
Dizendo
isso, Gavião-Carijó se ergueu de onde estava sentado, bateu a poeira e começou
a andar por aí. Queria desenferrujar as penas as asas as garras as pernas.
E os outros ouvintes também
começaram a circular, uns por perto, outros para ali ou aqui. Parecendo todos,
afinal, como peixes pequenos em semivoltas pelo aquário.