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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 20




Que Eu Conheci Conheci

            O padre Graçandu desenhou a cruz no ar traçou pregou corações ao alto e disse amém. Esvoaçavam voavam revoavam as corruíras as bandeirinhas as andorinhas... dentro no côncavo nave da igreja a casa de D.
Então, saímos todos tropa calmos pacientes concordados. Todos se mexeram e debandar para com alívio.
Saí na frente em primeiro e olhei os angicos-rajados no outono plácido. Tudo bem? Me perguntei também: e por que e de onde vinham e aonde iam toda esta turbamulta.
Uma manhã muito sábia tenra e cuja beleza. Mas podia ser de tarde. O carnaval tendo o preparo dali um mês, mês e pouco.
Olha só o céu, pensei, céu azul, branco, liso, açúcar, calmo, piscina, digno, profundo como uma certeza integral. Eu ainda pretendia ir a Chapadinha e agora mesmo, pensei, queria estar assim ali em Prata do Piauí, navegar no rio São José, navegar no rio dos Sinos.
D no céu? Nem dava pra ver quem ia ali.
            A escada de cordas puxava os eleitos para o céu, por onde já subiram outros tantos fantasmas. Índios iurimagua vendendo paiauaru e tupés e os olho-de-fogo e sapos-aru e tucanos-pacovas na beira calçada da rua Visconde de Jequitinhonha. Bergamotas amarelas no espaço de quase fim de ano.
            O sol saía descia subia voltava. Nuns movimentos naturais e esperados. O plano já dera certo há alguns dias e dias.
            A vontade de beiju me matava. Pronto, já estava morto. A sede me matava. O sono me matava. O meu rio descia fio de água ribeirão e límpido, serpenteando, desequilibrado e montanha abaixo. O mar estava enchendo há séculos, bilhões de anos, bíblias, baleias jubartes, navios petroleiros. O rio me remava para o litoral.
            O vento movimentando as árvores da praça da Independência as árvores as copas alterosas as folhas os galhos das plantas da avenida Dantas Barreto, ipecacuanha-preta, siriúba, salsaparrilha-do-rio... árvores centenárias seculares. A viagem ia embora para frente e num navegar de mar favorável.
            Nem podia acreditar nem podia duvidar, ou seja, era muita pura coincidência. E o mundo a Terra me olhava e me dizia, martelava:
            - Continue e continue!...
                                                                       ***
            O menino sonhou com um avião bimotor e quis virar um pássaro grande que voava alto, ipecuá, ipecuá. Quis pilotar um hidroavião, pousar na lagoa do Aviso, sobrevoar as meninas de Vila Nova do Sul, Ribeira do Amparo, Campestre, Caldas, Miracema do Tocantins, Roncador... Sonhou flanar, alar, espiar do alto da castanheira-do-pará e se apinchar. Como um pássaro de raro voo, bico-chato-amarelo. Nadar nas alturas azuis transparentes dos gaviões-de-penacho ou tamuriparás. Caminhar nos telhados como os gambás, nos campos durante a lua cheia como os lobos-guarás, em tardes silenciosas e calmas no cerrado como os tamanduás-bandeiras. Usar as nuvens de algodão como trampolins e veja lá os vinte-e-um-pintados. Sonhou também ser fantasma ou boitatá nas capelas das minas de ouro. Dar rasantes como aviões de combate, esquadrilha da fumaça. Sonhou navegar contra-atacar os corsários na costa do Recife, São Luís, Niterói, Vitória, Brejões, Navegantes... viajar no tempo que governava um vice-rei ou um imperador e imperatriz do Brasil. Sair pelos matos como índios pataxó, xavante, parecis, arara-caro, tupari...
            Depois da montanha o sol depois do horizonte o sol... Mas vai aonde, meu?! E ele empurrava mais pra lá que o próprio sol. E retornava como pássaro como peixe pessoa árvore papa-piri... E vai aonde, meu?! Nova Andradina estava uma cidade de tamanho conhecido preciso.
            O pai do mesmo menino nem sonhava, nunca sonhou. O pai caminhava lento, len-to, lentamente, quase parando. Comia muito devagar, pensando, olhando o horizonte dentro de si. A comida esfriava no prato. O pai caminhava lentamente para o trabalho. E às vezes até esquecia alguma coisa, tinha que voltar da metade da rua. E de noite retornava mais cansado mais calmo mais espiritualizado. Parava no bar e bebia um trago de canha amarela, lenta-mente, engarrafada na cidade mineira de Estiva. Muitos tragos, bebendo lentamente, parecia bom beber e o menino disse para si mesmo prometeu que um dia também beberia.
E o menino que sonhava ser caracará dos ares, via o pai caminhar lentamente, acender um cigarro no outro, acordar sonolento, se ausentar demoradamente, se esquivar filosoficamente. O time de futebol da família já nem supria mais as necessidades dos domingos à tarde domingos de tarde sem nenhum gol para comemorar.
            E o avô do menino, pai do pai do menino, virou rei Momo papai Noel do shopping center Uarini. O avô de barbas brancas e crescidas, barriga inchada, prometeu presentes para as crianças que tirassem boas notas no colégio Tiradentes. O avô se comprometeu e riu, fazendo, oh oh oh!... O bom velhinho riu e sacudiu a barriga, a mão segurando a barriga. O menino viu o papai Noel, pai do pai, sentado na cadeira estofada em veludo vermelho perto do pinheirinho enfeitado rodeado de presentes lá no bairro Basalto, shopping center Uarini. E o menino foi pedir uma bicicleta, um brinquedo de videojogo e uma bola oficial com CBF e cinco estrelas.
            Mas era preciso olhar para o mundo com olhos garços gázeos verde-azulados olhos de mar olhos de água da chuva esverdeados ora azul ora verde.
            E eu olhei os olhos que me olhavam no espelho: olhos fixos e frios. Muita dúvida, ou seja, muita parede.
            No dia seguinte fui buscar meu primo minha prima e amigos para jogar nadar na piscina do clube esportivo recreativo Acarapixuna. Depois também duplas de tênis no saibro. Tênis brancos meiões brancos e raquetes fabricadas em Vianópolis.
            Golpe do vento que balançou os meus cabelos fez dançar as folhas das açucenas-do-mato, macambiras, paricás-de-curtume, ajurus, olhos-do-diabo... mas nem incentivou o frio. Nenhum pouco de maus presságios voos e pios de sondaia. Veio a chuva, muita chuva, uma cachoeira em água e espuma, e nem aconteceu de molhar os meus olhos, as minhas têmporas, os meus cabelos finos. Chegou do nada uma nuvem de mosquitos, zumbindo como alucinados, e nem fizeram me atacar.
            Na data conquistada de oito de março longo ano de 1978, me pensei.
            Perto do meu rio, perto das coisas, perto do meio-dia, perto da minha rua, perto do meu pé de jabuticabas.
            Então, escutei um causo de fazer rir, morri de rir, mas nem me alegrei. Então, esperei na faixa para que o trânsito de carros passasse, carro por carro, carros buzinando, carros de farol aceso, porém nem queria atravessar a ponte nem dei sinal com a mão para embarcar ou desembarcar do carro de aluguel.
            A mãe chamava o menino que queria sobrevoar:
            - Vem almoçar, guri! O almoço está servido e é muito bom!
            A mesma mãe disse ao pai do menino:
            - Senta e come, meu filho! Come de uma vez que está esfriando! Olhe que a comida nem espera!
            A mãe para o pai do pai do menino:
            - O senhor vem almoçar, vovô! Tem sobremesa que o senhor mais adora!
            É, era isso. Meu pensamento era vago vagal vagaroso cabuloso e por aí. Eram alguns dias assim. O rio Amazonas foi feito num só dia. Tapiranga pousou no ramo verde da jequirioba. Minha prima Juçara já morava em Coração de Maria, vinha visitar de vez em quando.  
            O espetáculo de luz e sombra, de sombra e lua, já há muito inaugurara o Palácio de Cristal, junto à praça 14-Bis, Petrópolis: “senhoras e senhores!...”
            Ainda hoje nem aprendi a voar de asa delta, parapente, balão, paraqueda, andorinha ou tucano-de-peito-branco ou gavião-carijó ou ariramba-verde...
            Gomeira tinha os cabelos largados mais bonitos que já havia visto. Mangaba tinha os cabelos mais lisos e negros que já cheirei. Jatiuca tinha os cabelos mais ondulados que já naveguei. Guarajuba tinha os cabelos mais insatisfeitos rebeldes que já abracei. Ibirubá tinha os cabelos mais frisados que já puxei. E eram todas de além-mar todas de aquém-oceano.
            A planta alfavaca-carpunha plantada no quintal, as folhas que já viraram dinheiro, as frutinhas em novembro, as flores muito cheirosas e doces, o verde cheio de saúde, o vermelho muito suado, o branco muito prata, o passarinho amarelo com sua esposa carijó, o gurizinho que invejava os alados e sonhava se evadir. O vizinho de rádio ligado a toda no sertanejo popular. Árvores inclinadas na sombra.
Me deitei e me perguntei em pensamento isso: desligue esse rádio, quero dormir! A filha mais bonita do vizinho de rádio sempre no sertanejo popular era a Majuba. E Majuba chamava a árvore angico-amarelo de D. Mariana. Queria saber se D. Mariana queria dirigir carro caminhão pilotar teco-teco. Se usaria suas folhas verdes para dinheiro. Depois, na sombra da D. Mariana se realizavam vários eventos, aniversários da família, pedidos de namoro, pedidos de noivado, pedidos de casamento, abraços e beijos no escuro. E no são João a fogueira com balões e bandeirinhas e fogos e pinhões e quentão e aquele auê... A árvore D. Mariana que um dia falou para Majuba:
- Olha, Juba! Eu também queria assistir tevê e nadar na praia das águas do mar olímpico, é!
            Perto da sorte, perto do nada, perto do todo, perto do nada, perto do meu rio, perto da Ana Paula pernas de sol, navegando rio abaixo, à cerca da baía de Todos-os-Santos, logo logo o mar, perto do céu-piscina.
            Ana Paula convergia os olhares atraía incondicional atração dos olhares convergentes de quantos de todos. Seus olhos e que olhos que nem prometiam nem largavam nem pagavam certezas.
            No percorrido das minhas contas... Depois de andar um pouco mais... Acho que devo achar que somente tenho de presságio e péssimo e tonto a minha autocomiseração.  
                                                                       ***
            O sol nasceu no mundo derramou paisagem aumentou tudo ouro raios verdes araratucupis uvaias-do-campo araticuns-de-boi mais arrebol. Em boa hora aconteceram nuvens brancas pássaros amarelos pavãozinhos-do-pará.
Total, estava tomando café em casa. Que horas? Café da manhã às 10h. Mas podia ser às 23h. Quando, de repente, a xícara me escapou da mesa e pulou no soalho e saiu picando. Foi quicando, quicando, te-teque! te-teque!... A porta por acaso estava aberta, cadê cadê?!... porque eu sempre gosto de olhar lá fora e olhar o dia como vem como vai a noite de sons e tudo mais. E a xícara aproveitou a porta escancarada e saiu para fora e foi picando... Passou pela porta quicando, desceu a escada do primeiro andar, quicando, passou pelo portão aberto àquela hora, quicando, te-teque!... passou a calçada desse lado da rua, quicando, atravessou a rua Guaraíras, quicando, nem vinha trânsito algum, ainda bem, quicando, chegou do outro lado, quicando, começou a descer pela rua Marataízes que vem na perpendicular, quicando, te-teque!... e a xícara só foi parar mesmo, de quicar, quando deu de chofre de choque no para-choque de um ônibus urbano azulzinho novo em folha. O ônibus estava estacionado no meio-fio perto da casa da vizinha, a dona Maristela Açuçuapara. Ônibus urbano fazia a linha Centro e capela Santo Antônio e Centro. E consegui alcançar e recuperar a minha xícara de porcelana fabricada na longínqua cidade de Caldeirão Grande, te-teque!... uma relíquia e para continuar o meu café das 16h.
***
            Aliás, tanto foi a propósito que me lembrei pensei lá na hora do caso da menina Pequi parabólicas ligadas o tempo todo com ela era assim:
            A uma menina de poucos anos, idade de ensino fundamental e de andar de bicicleta. Idade de andar de bicicleta. E isso mesmo começou lá por volta da idade de se abrir para o mundo e fugir de bíci. Pois era ela mesma, a guria se chamava Pequi por causa da fruta.
            Dentro dela guria Pequi no íntimo dela um perfume no mínimo dela a aventura de atualizar pelo mundo afora, confiar nas coisas, conhecer lugares arquipélagos boqueirões subidas e descidas.
            De alguma forma a menina pegou aquele dia e resolveu sair no mundo e de bíci. Parecia bom e ela topou:
            - Ei, dia claro! Vou contigooooo!...
            E foi pedalando bicicleta. Que era um esporte pacífico. Que era legal e dava até para olhar paisagem. Praticamente um esporte com exercício pedestre. Descendo a rua Bento Teixeira o bairro Santa Cruz a cidade de Utinga.
            Ouviu o rio tocar flauta-doce, o rio cheirar borbulhas, blu-blu-blu!... viu o rio ligeiro, o rio em cascata, depois fazer um cotovelo e virar rio Tietê, rio passar em frente da aldeia dos tapaiúna. Era uma sexta-feira do mês de novembro.
            De modo que ela esticou assim os olhos para uma porção grande de árvores que vinham caminhando lentamente pela margem pela várzea, jatobás, cumarus-de-cheiro, tucumãs, landis, guaranás-timbós, canjeranas-do-brejo, tucuns-do-brejo, camboatás-brancos, canelas-do-brejo... Que eram verdes e parentes próximas dos inhames-de-folha-roxa-pintada. Que eram dependentes dos bem-te-vis-do-chão das bandeiras-alemãs das irapuás...
            Travou a bíci e ficou admirando. Tudo era curioso, curiosidades. O rio Iguaçu passava e era curioso vê-lo passar e nem passar. Rio orgulhoso e barulhento, chá-ché-chi-chó-chu!...
            A chave de tudo era a curiosidade. E assim o mistério. E ainda o enigma. As coincidências. Os flagrantes de hora, tipo 20:02 ou 10:10 ou 08:16.
            Agora, já longe de casa e pedalando, ia longe, já nasciam as primeiras estrelas, primeiro as brancas. E os grilos cricrilantes, bri-bri-bri!... dentro das moitas escuras no aconchego dos arrebenta-bois no fofo das tipuanas no abraço das favas-contras.
            Pela primeira vez na sorte, que levava sempre junto, acordou navegava pedalava navegando pelo rio Arinos. A montanha da serra do Andaime realmente era maior ou teria mais importância que o rio?
            As paisagens da estrada, lados esquerdo direito, eram verdes iguais precisas interessantes. O uiraçu-verdadeiro a ave do Distrito Federal.
            Parou a bíci, assim, o pé no chão outro pé no pedal mãos no guidão, pensando, pensou, disse para si mesma:
            - Mas isso é assim. É divertido.
            A guria Pequi conheceu um papagaio-moleiro e por acaso. Perguntou ao sujeito de parolas:
            - Esta a estrada que liga para Floriano?
            - De acordo.
            Nem era preciso chegar a noite e dormir depois de um dia como aquele. Para onde se olhasse e o mundo estava ali. E o papagaio retornou ainda e mais confiado:
            - De onde você vem, garota?
            - Venho pedalando desde Leopoldina, e você?
            - Concordo.
            As iraúnas-grandes ciscavam se comportavam se divertiam tomavam banho nas areias brancas subindo e descendo os troncos caídos mangues-de-água-doce do rio Corrente. Uma delas pegou falar:
            - Temos que pensar a chuva!
            A outra iraúna-grande também deu ideia, grasnou:
            - Penso a chuva!
            Mais outra esticou o pescoço como uma corda:
            - Pensa a chuva!
            As nuvens estavam gordas a pouco foram magras mas estavam gordas e se mexiam para oeste. Que esperar um pouco que nada. Quem espera na verdade sempre alça voo. Embora demorasse. Demorou uma brincadeira. E ninguém precisava de chuva mas de sol e chuva casamento.
            Oito árvores da manhã. E árvores com nome de plantas e como nunca se viu, como a menina nunca percebeu, palmitos-do-chão, cajazeiras, imbaúbas, meruás, coiramas-amarelas, araticuns-da-mata, jaburandis, açoita-cavalos, marias-pretas, piraguaias, angicos-brancos... E para onde uma floresta pedindo água.
            Guria achou a tribo dos canamanti. Moravam na beira do rio Ouro Preto. O rio que sabia de tudo. Quanto muito quando para lá de Manaus e perto de Lábrea, Borba, Nova Olinda do Norte... Tinha gente que ia no gaiola e parecia demorar umas duas semanas abanando com lenço as pessoas na beira.
            A menina chegou para perto dos canamanti. E era já tarde perto da noite. Uma cascata descia pelo rio e fazia, chuuu!... sempre chuuu!... O pajé Axuá veio e se sentou num tronco de umbu junto da palhoça. Morava ali. O pajé chamou disse erguendo a mão para o alto a voz do pajé contou:
            - As estrelas... Chegam até aqui... E fazem o favor.
            Foram se foram as horas do dia a dia, os dias, quaisquer todas as coisas. O sol praticamente em todo lugar e até em Guarantã do Norte.
            Pequi demorou as idades, depois outras e outras, e quando fez sete anos começou a estudar na escola estadual 11 de Agosto. Cadernos com todo o respeito e florzinha no alto da página. Mapa com pedaços coloridos para cada um dos Estados.
            Quando fez oito anos olhou as figuras dos livros e mexeu muito com revistas de quadrinhos. Os livros tinham histórias de carreteiros histórias de tropeiros de garimpeiros histórias de seringueiros e lendas tupis-guaranis.
            Por volta dos treze anos começou a ler em voz alta e peripatética. Lia com entusiasmo e se achando muito esperta. Um livro bom, Mil Noites Tapuias do autor Mário Palmério. Outros livros bons. Uma viagem de trem antigo dia de sol olhando pela janela Caxias do Sul até Carlos Barbosa e principalmente passando por Batayporã e a ponte sobre o rio Ivinhema.
            E quando fez dezesseis encontrou com o Uru, seu primeiro namorado. Quando fez dezessete encontrou o Asa-Branca, seu segundo namorado.
            Pequi era linda e macia e suave e quase amarela como nenhuma outra fruta da sua tenda e idade já fora. Gostava de se vestir de verde. E levava a herança dna da família, ou seja, cabelos longos e bem pretos. Consumidora de sorvetes e versátil no gosto.
            Era linda e macia e suave e cheirosa e tenra como nenhuma flor adolescente ainda fora. Podia ser feliz quando e onde quisesse. Podia ser ótima atriz em Cabixi, Assunção, Pedras de Fogo, Cacimbinha, São Paulo, Santa Rosa do Purus... Onde D aponta o dedo é só alegria.  
            Asa-Branca era entregador de pizza, naquela altura, e isso de estar sempre na rua, calcule!, fascinou a querida querida Pequi.
            Depois de um tempo Uru nem amadureceu nem mesmo a Pequi.
            As nuvens vinham pelo espaço e aterrissando. E pesadas e azuis e confusas isso de chover levavam dias e dias. Vai chover, diziam uns e outros. Vamos ver daqui a pouco, já falavam outros e uns. Era estava claro que de chover ou fazer tempo limpo ficava sempre no comum. E aí quando chovia chovia durante dias e quando nem chovia ficava todo dia na ameaça de chover o chove nem molha.
            Pronto. Uru era astronauta e participava de escaladas na lua durante meses e meses. Meses e meses sem ver o namorado deixava Pequi muito apaixonada e feliz e infeliz. Ela se sentia muito feliz e dizia a todo mundo:
            - Sei, sou muito infeliz com a ausência e a incerteza das aventuras de Uru.
            Quando Pequi e Asa-Branca passeavam frequentemente pela frente da prefeitura e pela volta da pequena pracinha, até escolherem um banco para sentar, para ver o movimento passar, e se beijar calmamente, quando isso tudo acontecia, praça da Bandeira, eles namoravam no domingo e eram alegres e contentes e satisfeitos. Pequi era amarela e doce e tenra. Muitas crianças correndo e gritando nas gangorras. Vestida de verde com cabelos longos e vaidosos e acintosos e espetaculosos.
            Pequi fazia duas coisas ao mesmo tempo: assistia desenho animado e conversava com seus brinquedos, principalmente bonecas e comidinhas. Ora assistindo ora ensinando a filhinha, todas as horas. Numa novela escolheu o nome da filhinha e foi se chamar: Ivaí.
            E aí, naquela idade, ela parou porque nem tinha mais tempo para mais nada. Estudar, Pequi estudava. Nem falava inglês, gostava das aulas de desenho, detestava química e física.
            No começo Pequi hesitou.
            Depois no explodir da primavera ela aprendeu a descascar bergamotas amarelas e com as unhas pintadas.
            Mais tarde aprendeu a gritar, mãos crispadas, curvando bem o corpo para frente, despenteando os lindos cabelos negros negros como nunca se viu.
            Assim, ela já aprendia a beijar Uru na boca. E com perder o fôlego.
            O mundo estava certo e andando do mesmo lá seu jeito dele tudo que D queria.
            Um ano longo se passou. Pequi nem viu. Quando muito quanto.
            Pequi teve, dito e feito, uma noite de conformidade, de sonhos suaves, de como ela bem merecia. Sonhou que estava caindo e caía sem parar. Mais que caía mais dormia. Quando parou de cair, acordou. Olhou admirada as paredes surgindo conforme o sol lá fora. E cantavam os bonitos-do-campo, os chibantes, as tesouras-do-brejo, os arrelias e estrilavam os ajuruetês em grupo.
            A lua chegou no trem antigo das 18h e viu rostos conhecidos. Cães ladraram sem certezas. Galos cocoricaram a partir das 05:05.
            Pequi tirou seis meses para trabalhar na malharia Guaximbé ali no bairro Coroados. Pequi rosto fácil e contente. Tinha que ir e vir de ônibus. Pequi boca desenhada em ondas. Pequi olhar amaciado olhos e espírito móvel móvel. Flor preferida de Pequi, as orquídeas. Boca de Pequi como arco de flechas. Todos riam para ela seus melhores sorrisos. Aonde ia era assim. A mão que fazia os gestos que seguiam as palavras tudo muito simples e encantado e ajustado. Tão bonita e querida que dava prazer, vencedora.
            Que altura distância tinha a sorte tinha a lua? Que notas musicais tinha o arco-da-chuva?
            Na rua Anta Gorda todos se reuniram para ver passar a banda marcial, a escola desfilar, a jamanta estacionar, um cavalo pingo e seu cavaleiro à gaúcha.
            Sim, aquele ano o minuano ficou mais frio.
            - Como é? Isso faz parte? - perguntou Pequi.
            - Claro que sim! - respondeu Uru.
            Pequi, depois de conhecer Asa-Branca, esqueceu que precisava estudar e correu dar abraços quentes e uns beijos carinhosos no cara. Ninguém ou pouca gente sabe o amanhã.
            Ela precisava de ajuda e começou a chorar. Ela nem precisava de ajuda e começou a rir. Foi ver no palco do cinema Membi uma trupe de teatro que vinha de Curitiba, uns do interior de Curitiba, Três Barras do Paraná, Guaramiranga, Foz do Jordão, Boa Ventura de São Roque...
            Um dia Pequi viu um papagaio-canindé caminhando de lado e gostou. Se juntou a ele e se apresentou:
            - Oi! Sou Pequi! E você?
            - Eu sou alado e me chamo Bétis! Venho voando desde Igaporã, já passei Boa Nova, Vargem Grande, Cambuquira, Guarujá...
            Aí, Pequi aterrissou nos seus dias de hoje, voltando dos seus tempos passados de antes e antigos, e teve mesmo de sorrir. O riso estalou no ar e se dilatou. Pequi ainda vestia verdes tons da floresta amazônica. Gostava muito de guabirobas.
            E Pequi teve um pensamento colhido no programa de tevê da manhã ou da tarde. Olhar reparar totalmente fixada na pretensão do interessado apresentador ou plastificada apresentadora:
            - Uma pessoa, como eu como você como nós, só se apaga quando seu objetivo seu alvo seu apoio seu salário atrasar atrasarem.


domingo, 16 de dezembro de 2012

Borboletas de Açúcar

Nos meus caprichos, nos meus princípios nos meus caprichos o meu palácio é o mais bonito do mundo, possuo dinheiro para fazer o que quero e desejo muito mulheres de todos os povos, e há uma negra saída agorinha do avião com Angola preta como um azul de chuva entardecer e que tem uma língua desse tamanho e muito vibrátil e áspera e certeira e úmida, ah se tem!

Quando a boa-vistense embelezou maravilhou abrilhantou o meu quarto todo folhado a ouro e a prata e a sedas esvoaçantes e a rendas de bilros da Lagoa da Conceição, janelas abertas escancaradas para o pátio das goiabeiras-do-mato em flor, gorjeios de borboletinha, olhos nos olhos e isso é muito bom e se vive uma vez, despenteei os seus longos e seus morenos cabelos lisos que iam e vinham até a cintura de um corpo duro relevo tenro assado de sol, o jogo do pião rodava sete bilhões de loterias lá fora e em toda parte inclusive as nossas, segurei-a pelos ombros quase na minha altura, lambi os olhos o queixo o nariz, beijei os frutos de pequi e fiquei de bobeira admirando admirando babando etc a minha língua vibrando como linguinha de cobra e água na boca, no meio da descida tinha um rio e uma cascata com redemoinho, com a língua e os dentes fui fazendo favores carinhos alisamentos graças cócegas banzeiros no rio, ela caiu no chão e toda suada desgrenhada arrepiada inacreditável, começava uma tarde de beiju no forno junto do horizonte entre as árvores e o céu de andorinhas, não sobrou mais nada de nós durante mais de três horas de peleja e resmungos e rumores e variáveis, e o que é mais bonito é uma árvore como o exemplo da poaia-do-campo.

Não me preocupo com conquistas desgastantes avassaladoras que levam tempo paciência nem com angústias de coração aflito dúvidas de escolha correr atrás dessa ou daquela trama ou intriga mandar flores e-mails ficar nas expectativas etc fazer cobranças pensar para criar calo na testa, pois quando quero e desejo alguma a mais pro meu harém vou e compro adquiro e mando trazer não vou até ela é ela que vem ao meu palácio compro a guria a família o namorado o esposo mando trazer pro meu lugar e crio e engordo se for o caso e depois eu experimento durante um tempo vê se serve até onde serve contrato assinado respeitado por ambas as partes e muito bem pago conforme as leis do comércio da oferta e da procura. E é isso mesmo.

Minha alma é boa. Então, visito minha alma pacífica boníssima conformada cordata apaziguada.

Tenho loura que acorda sempre após o almoço, ali pelas 14 horas, que não gosta de sol, branquíssima, despojada, poucas peças de roupa sempre em tons de verde. Já te digo. Essa não sai pra fora do quarto sem que antes chegue a noite, a lua, as estrelas, os morcegos, os lobisomens, os vaga-lumes, os discos voadores, o saci, as estrelas cheias de cricris. E até faz poesia livre, quando quer. Tem um defeito que eu aprecio adoro venero, gosta de gastar o meu dinheiro. Sai para compras e volta carregada de sapatos que nunca irá usar, não vou atrás dela não mando segui-la, e ela sempre me agrada com um presentinho inusitado e por ela mesma e com criatividade.

A minha propriedade não é nenhum castelo europeu medieval com ponte móvel mosteiro no alto de um penhasco inacessível fortaleza colonial inexpugnável ilha no meio do oceano rodeada de arrecifes aldeia com caiçara e buracos encobertos porta-aviões atômico e ou coisas desse tipo. É um palácio protegido como tantas casas suntuosas desse país e de outros países. Só entra quem eu quero e saí quem está insatisfeito, que não sou de segurar ninguém ou cultivar dissabores ou pensar no que mal passou.

Vocês acreditam que posso fazer isso?

Essa outra japonesa já acostumou bárbara e não vai mudar daqui pra frente, perigosa, letal, assassina. Se esconde pelos cômodos, jardins e telhados, armando encrencas, espionando, botando fogo nos colchões, veneno na comida das concorrentes, camuflando alçapões, escondendo arapucas, disfarçando laços. Seu apelido ou cognome é Bandida. Aprendeu todas essas manhas solertes apanhando muito e sendo muito humilhada e bastante perseguida pela sua ex-companheira. Comigo não precisa de nada disso, mas já se acostumou e parece que gosta, aprendeu e acabou adotando. Anda sempre armada com uma pistola chinesa de repetição com silenciador cabo de osso de dinossauro do Piauí.

Ainda de uma certa vez...

A sul-mato-grossense me disse que nasceu em Santa Isabel depois foi com a família para Sete Quedas onde morou oito nove anos e daí ela sozinha e por necessidade de aventuras se foi para Tacuru e comprou um avião monomotor para pulverizar a lavoura de soja ficar mais ou menos bem de cobres até 2009 quando caiu com o avião e tudo e mais nada e foi morar em Feliz Natal de onde resolveu atender o meu chamado. Muito mais ensimesmada... E suas ofertas são de primeira grandeza e grandes, comparados, pujantes, abundantes. Fica olhando a paisagem que vê das minhas janelas e sacadas e terraços. Cruza os braços no seu jeito de ser e olha olha. Vai num pátio encosta num tronco de árvore e chupa o dedo positivo. Seu perfil me lembra aquela música antiga e clássica do famoso compositor paraibano Cândido Portinari "os sentimentos sublimados, engrandecidos/ os sintomas do amor quais são/ paixão admiração respeito". Sempre ela com um riso fácil e uma risada cristalina de cachoeira. Peguei-a esses dias querendo beijar a rio-branquense à força. Não fiz nada na hora nem depois ou mais tarde, fiquei olhando de longe de esguelha de como não querendo nada, segundos após me aproximei, fiquei curtindo a maravilha, me enterneci, me aproveitando da visão doce visão e até gostei. Essa sul-mato-grossense tem o seu prazo de permanência e eu busquei aprender com ela e aprendi. Lá isso é.

Certa vez semana passada comprei a peso de ouro uma negra de sorriso fácil brilhante como marfim e alta pra mais de com mais de dois metros e vinte. É ainda muito tímida e esquiva e indiferente, mesmo não a conquistei, prefere andar na companhia do quarteto de norueguesas.

Que é que tu faria nesse caso?

Aquela que se vê ali de longos cabelos lisos e negros, esta gosta de nadar nua na piscina. Se adonou de um dos meus filas que a acompanha como uma sombra. Ninguém chega perto, nem eu, se ela não quiser. Se preciso for vira peixe e nada como ninguém e só batendo os pés ficando cinco minutos debaixo da água. Tem olhos de peixe cor esmeralda escamas de peixe nadadeiras de peixe asas transparentes de isabelinha e cabelos de iara do rio das Garças.

As gêmeas, junto com a mãe delas, costumam passear nuas pelo meu palácio. E de noite quando vêm pra cama comigo exigem que eu apague a luz. Pelo cheiro é que tenho de me virar e revirar e acertar ou não com as três com cada qual e tal. Nasceram e se criaram em Balneário Gaivota.

São tantas que nem lhes dou nome. Procuro-as na hora que mais me importo me alerto me amo me careço. Perco a conta dos dias e das noites, dos meses, dos anos. Vou pelos quartos ou corredores ou salas à cata de uma figura que me arrasta me empolga na hora, e eu escolho recolho e pronto já vem junto a fantasia. Leio o mapa da pele com os olhos e os dedos e o olfato e depois me entrego à degustação. Umas são de mel, outras de açúcar, as seguintes de sumo de pitanga.

Subo na alma no alto do marfinzeiro para notar minha alma. E ela tão leve levezinha altamente leve com leveza pureza enleio poesia surrealista, e o dia, o cheiro das folhas, descubro formigas curupés, muito ouvindo minha alma ouço calmamente, e aconteceram coisas esse ano o mês passado ontem o ano que vem. Minha bela alma arejada, limpidez absoluta, alma branca como das gralhas-azuis e vice-versa. Me lembrei de alguma coisa.

Eu, particularmente, deixo encompridar o cabelo encurto armo o topete e às vezes raspo zero. Mas as minhas meninas não, todas elas sem exceção, eu as quero de muitos cabelos pelos penugens. Mulher tem que ter muito cabelo é lei e eu não abro mão. Não é tara depravação luxúria perdição. Mulher feminina tem que ter todo cabelo do mundo, é regra, é mais divertido, é mais fácil, e ponto. Até porque aqui no meu palácio quero faço o que quero e quem manda soy yo.

Tenho uma rondonense que estou tratando a pão de ló. Ela tem sangue de índia mápanai. Esta eu apresento mais mais tarde uma outra hora porque vale a pena um pouco de suspense e mistério e enigma.

Um axioma que carrego no bolso todo o sempre comigo e junto de mim e muito próximo aqui:

- O céu é duro!

Não sei porque o mundo o país gosta muito tanto das mulheres gaúchas. Elas viram misses com facilidade todo santo ano nesse país, etc. São belas, são; são altas, são; são tipo europeias, são; são louras, são; são fortes, são; são inacessíveis, são; são inteligentes, são; são sãs, são; são torcedoras da dupla grenal, são, mas nada disso importa é fundamental é exclusivo sem um roteiro uma escrita uma descrição um texto um argumento um enredo bom de se fazer lazer, tá entendendo?!

Hoje é segunda-feira e é o dia da semana que tiro para passear no meu lago particular que fica na parte sul da minha propriedade. Mandei plantar umas árvores e plantas do meu agrado, tamboril, limão-do-mato, cocão, paricá-preto, amarelão, taioba, sarandi-vermelho, curiúva, canjerana-do-brejo, tarumã que na beira da água deixa cair flores e frutinhas para os lambaris micholas pacus charutinhos bagres. Ultimamente eu sempre convido a paranaense para me acompanhar. Damos umas pedaladas na superfície do espelho de água e depois sempre resolvemos caminhar em torno. Ela é fácil e sempre dá um jeito de achar e botar uma flor de mirindiba-doce por exemplo atrás da orelha. E a gente vai de mãos dadas conversando sobre tudo se distraindo com o meio ambiente o dia inaugurando uma nova porta pintando as duas ou três janelas aderindo à recém-inaugurada trilha das flores do campo anônimas e rodeando o lago exercitando geralmente duas horas depois estamos de volta. Hoje mesmo ficamos contando os ninhos dos passarinhos na beira do caminho e tinha uma porção fazendo casa tratando já de preparar a vidinha lá deles de casal e de família muito engraçados os papa-formigas, as gralhas-picaças, os pica-paus-do-campo, os curixos, os miguins. O sol arrastando o dia, o lago perdido no tempo. Rimos tanto eu e a balsa-novense que tive de ampará-la nos meus braços. E nos beijamos e procuramos um ninho de papuãs bem fofo para fazer um pega meio cheio de micuins. As chanchãs vieram nos achar. O guarundi-azul nos espiar. Ficamos felizes de uma felicidade superlativa absoluta sintética.

Sobre o quê, sobre quem, sobre como. Não posso ficar na indecisão.

Às dezoito e vinte e dois, uma sexta-feira de março de dois mil e treze, falsa magra, entramos no quarto somente eu e a recifense. As cadeiras cheias de frevo. Os olhos cheios de pontes Beberibe Capiberibe Pina Tejipió Jiquiá. Embora nos atiramos na cama como viemos ao mundo. E comecei a torturá-la. Tão linda e tenra que me dava tonturas superexcitantes. Pernas bronzeadas e torneadas no exercício da dança das praias. Conversando sobre o melhor bolo de chocolate sobre um filme da moda sobre outras coisas, etc., eu acariciava os cabelos longos macios meio ondulados, depois os morrinhos gêmeos com penugem de sete-capotes, eu fui beijando mas muito muito sutilmente, lambidas na sola dos pés que ela ria se revirando toda, ela parecia uma escultura do tipo esculpida pelo grande escultor catarinense de estátuas em mármore Oscar Niemeyer, fui sugando cada dedinho do pé, cada dedinhos das mãos, escorregando a língua e soprando a espinha dorsal como soprando um rio abissal, lambendo a espinha com todos os ossinhos e espinhos e soprando, uns beliscões na bunda, uns beijinhos de muito leves nos joelhos, desenhando com o dedo na barriga as várias figuras geométricas, fazendo de morder os bicos pontudos cor de caju, estapeando a quentinha, chupando a orelha, penteando-a com os dedos, reparando muito devagar as penugens da coxa ou que desciam do umbigo, lambendo a ponta do nariz, me encostando, me aninhando no ombro, repousando minha cabeça nos bonitos, resmungando como um bichinho faminto, conversando sobre outro filme famoso da hora, sugando a jugular, olhando-a nos olhos, mostrando a língua vibrátil, lambendo todo o corpo escolhendo partes aleatoriamente, até finalmente cair de boca e ouvir um uivo de alucinada de alucinada em êxtase de alucinada no cio de fera alucinada de carnaval alucinado das ruas estreitas alucinantes de Olinda.

É alma noite na minha cama olho a minha alma. Com calma me enrodilho no lençol penso e estou com minha alma descendo um rio. E essa era a melhor solução. Sonho com minha alma cândida perfumada bela. Experimento degusto e bebo minha alma e reconheço e tem gosto de mel de abelha jataí muito colhido no mato tirado do oco do guajará-branco alto antigo excelente manhã de sol.

A imprensa olha meu palácio lá de fora e fica falando o que nunca viu nem vai conhecer por dentro. Mesmo assim eles dizem coisas a meu respeito sobre as meninas tirando conclusões absurdas apressadas e sem pé nem cabeça. Dizem que meu palácio é uma lenda, que é faraônico, que é fantástico, que é a oitava maravilha do mundo. Eu não concordo nem discordo, não ligo e ignoro. Deixo os tanhaçus falarem grunhirem relinchar papaguearem latirem. Não aceito provocação. Não dou ousadia. Se queixam que contrato dezenas de seguranças, mantenho cães ferozes, muros altos, arame farpado, cacos de vidro, barreira de copados cajueiros-bravos. Tentam todos os meios e recursos para me entrevistar para me invadir para me provocar mas eu não dou retorno. Inventam helicópteros, túneis, espionagens, armadilhas e todas as outras artimanhas. Eu não ligo me protejo e não dou sinal de nada.

Todo mundo teve ou terá ou tem uma namorada baiana. É da lei de Deus e fascina. Eu sou especialista. Tenho baiana dos quatro quadrantes. Tenho até baiana do Recôncavo Baiano ou Baía de Todos-os-Santos de peito pequeno tenro abocanhável. Tenho pra ver baiana que não gosta de axé ou carnaval. Tem baiana de todas as cores e que não gosta de miçangas nunca comeu acarajé não foi na igreja de Nosso Senhor do Bonfim.

Estávamos passeando pelo campo, sempre nos limites da minha propriedade, caminhando e conversando eu e a tocantinense, bombeando a paisagem gentil útil fascinante agradável, quando uma lebre saiu afoita de dentro das gencianas-roxas capitães-do-mato guaiacãs e cipós-de-imbé da beira do caminho e disparou na nossa frente. A tocantins riu muito do estilo do bicho, orelhas altas, saltitante, e riu mais do que já ria antes e vinha rindo, se alegrou e me alegrou ainda mais. E a inhuma grazinou, o joão-congo, o jaó, a pipira-preta, o matim-pescador-da-mata, a cambaxirra. O dia era dono de todas as cores e que bonito. Os gorjeios e pipios faziam pregação no meio dos verdes. Foi o tempo suficiente para a realização de todos esses prodígios.

Na sala de jogos uma vez mais. Eu estava com a russa e era nosso primeiro contato desde que chegara direta de Cumbica poucas horas antes. Ela entrou na sala e eu a abracei. Trocamos perfumes. Tentamos nos comunicar. Eu não entendia uma palavra de russo e ela não entendia português, nem existia outra língua intermediária. Aí, a solução era arriscar a mímica, o brilho do olhar, a sinceridade do sorriso, a suavidade do carinho, o tom de voz. Trocamos salivas. Fomos para o jogo de bilhar e eu resolvi esquentar as partidas. Fiz ver a ela que cada partida perdida se sacaria uma peça de roupa, por brincadeira. E era verão e estávamos muito à vontade, sós, música ambiente lembrando a floresta tropical com assobios de mutum-do-sudeste. Assim, em pouco tempo eu perdi todas as poucas roupas. Daí pra frente comecei a ganhar e ela começou a se livrar dos pequenos e poucos panos. Surpreendentemente começou a aparecer com as tatuagens e piercings. E terminou o jogo porque não havia mais roupas a tirar. E fomos para o banho de chuveiro. Fui medindo os palmos das suas costas, das suas pernas, dos seus cabelos amarelos. Ela tinha acidentes geográficos importantes internacionais. Nos beijamos profundamente e com ansiedade e durante uns minutos sem tomar fôlego. Nos arrastamos para o corredor. Ela tinha muitas tatuagens e eu fui lambendo todas uma por uma e com requintes de crueldade. A lua no tornozelo, o sol estilizado no fim da espinha dorsal, os olhos gregos contra mau-olhado na barriguinha, o nome de alguém em russo na coxa direita, o nome de Deus em cirílico na outra coxa, etc. Trocamos suores. Praticamente levei duas horas e meia percorrendo todos os pontos tatuados. E eu já aproveitei que estava de joelhos para erguê-la nos braços até os ombros, tipo assim como uma cangalha só que ao contrário e comecei a fuçá-la. Ela não tinha onde se agarrar escapar amparar e se prendeu com dedos e unhas nos meus cabelos com força com tensão com tesão com raiva até, às vezes rindo histérica, às vezes uivando como loba das estepes geladas, arrancando meus cabelos cacheados bem cachados. De supetão ela esguichou na minha cara e foi... imaginem, acabamos nos largando no chão e rindo sem parar e mais rindo e cada vez mais soluçando e rindo.

E, faça-me o favor, me lembrei de um axioma que dia desses li na internet e escrevi na parede do meu quarto número doze:

- Precisa roupa adequada para dormir!

Cada um de nós calcula e tenta e joga o jogo que puder jogar. Existem regras que podem ser respeitadas melhoradas ordenadas e devem ser acompanhadas. O seguinte pra frente é destino rio estrada.

Eu tenho um axioma que borbulha e no cérebro ferve de vez em quando, e que me serve, e que descarrego, falando com minha palma:

- Faça escolhas sensatas nesse verão.

Todas as minhas amantes que chegam ao palácio são mulheres que ficam anônimas. O máximo que sei que vêm de um lugar tipo Venezuela, Panamá, Criciúma, Vista Alegre do Prata, Santarém, Goiânia, Coruripe, Águas Lindas de Goiás, tribo caripuna-do-amapá, Abre Campo, Iuiú, aldeia dos guató, reserva dos aramuru, paisagem dos galibi-maruorno. Cada uma ao entrar nos meus domínios recebe um apelido tipo gaúcha potiguar baiana capixaba marajoara paraense maceioense são-luisense caripuna guaicuru javaé. O contrato varia muito, dois meses, três dias, um ano, vinte anos, um feriadão, oito horas, e tudo porque é conforme. A relação o dia a dia o confronto a intimidade vai ditando o compromisso o prazer o encanto a felicidade. A grande maioria é jovem ou até trinta e cinco. E tenho mulheres casadas e tenho solteiras convictas. São mães de família, biraias profissionais, universitárias estudiosas. Eu ofereço um bom dinheiro e risco zero. Todas chegam aqui mais cedo mais tarde. Não quero amor só quero desperdício de fluidos.

Lutei muito com o pensamento e abusei com esse axioma novato e nutritivo e temperamental:

- Quando se sabe o que se quer, assim mesmo, então se é feliz.

As mais ansiosas são as donas de casa com filhos pequenos. Ficam telefonando aflitas o dia todo e choram de saudades dos filhos. Se consolam com a gorda mesada que vão ter. Já as universitárias são mais bem resolvidas e dormem horas e horas depois do esfrega. Têm mesmo as que gostam de ler e leem grossos volumes tipo As Minas de Prata do famoso escritor alagoano José Mauro de Vasconcelos. Têm as que se vestem de monge xintô-zen-budista, fecham os olhos e não pensam em nada; e quando acordam parece que não querem sexo só pensam em ioga e arroz integral e água mineral sem gás e erva-cidreira-do-mato. Têm as outras que comem banana ou maçã ou butiá e bebem suco de abacaxi ou açaí ou cupuaçu o dia todo. Tenho uma que gosta muito de abraçar e deitar e dormir na sombra do tronco da uaimiuru do pátio sudoeste.

Estou de alma de volta visito visitando a alma minha bonita alma. Agora no escuro o planeta Marte é visível está a lua natural me deito na grama-paulista me levanto caminho pela trilha do jardim de verão me levito ao luar da plácida lua rua via láctea o Cruzeiro do Sul quase de cabeça pra baixo Marte Júpiter Saturno Vênus, e a alma com elegância capricho e idade de elefante coloco a mão no peito a alma macia confortável confortada limpa e que me agrada. Penso dessa maneira. É bom. A noite vai passando com cosmo e tudo. A alma bela o dia bonito a tarde a noite linda. A lua encanta um filhote de coruja-preta. Suavizo e aliso os rins. Procuro não fazer ruídos para assustar os grilos, ouvir mais que pensar. A alma é o presente atual hoje minha alma desse palácio que vos fala.

Pois eu gosto disso, e trabalho essa carne feminina vinte e quatro horas sem parar, adoro essa comida macia viva tenra perfumada apetitosa e tanto na horizontal como na vertical. Eu não tenho outro pensamento. Nem outro passatempo. Nem outro emprego. Nem outro desejo. Nem gosto de pintar cantar estudar modelar colecionar calcinhas.

Estou aqui muito bem e preciso do mundo lá de fora por causa dos rabos de saia das curvas das estradas de Santos. Não viajo pra nada. As mulheres que eu preciso eu mando buscar e elas vêm até mim. Meus cachorrinhos de estimação chegam para fazer festa nas minhas pernas lamber as minhas canelas. Tenho olheiras espalhadas pelos quatro campos do planeta e elas me escolhem as melhores beldades negociam não pechincham compram o passe e me mandam. Não, não precisa ser virgem. Se for o caso e precisa perder peso ou ganhar peso, tenho professora para condicioná-la. Não quero de menor pois não preciso me envolver com a justiça e a polícia aqui nunca entrou e não vai entrar. O que é mais bonito no mundo é um peixe pirarara, por exemplo.

Por quanto tempo estou lutando com esse axioma, por tanto tempo:

- Todo pensamento se volta para si mesmo.

Ontem fui conhecer uma dependência do meu palácio que ainda não sabia que existia. O meu tempo é caro e raro e presidencial, é isso. Mas estive lá, me falaram do lugar, me recomendaram, e achei e vi tudo muito bonito. É uma casa de vidro uma estufa gigante para preservar a vida das orquídeas e das bromélias e dos cogumelos orelhas-de-pau da mata atlântica. Tudo organizado bonito fechado bem tratado aclimatado. Minhas jardineiras cuidam de tudo e gostam do que fazem. Quem me acompanhou dessa vez foi a marroquina. Fomos de mãos dadas e ela muito saliente muito saltitante muito alegrinha muito cabelo trançado em longa trança negra ela. Foi um gritinho dela que despertou uma borboleta-rubi. Foi um oh! dela que me apresentou as abelhas borás. Passamos lá a tarde. Aí pelas dezoito horas voltamos e eu tive de carregá-la nas costas pois a fofinha estava mortinha de sono e cansaço e preguiça e manhas e ponta de trança arrastando na areia branca do chão.

Não exagero e só faço o que me manda o destino, que me manda.

Eu sei, eu sei. Mais dia, menos dia, outros vinte dias, dia a dia, o dia.

Ainda estou com o lábio inchado, dolorido, em brasa viva, aiaiai! Tamém aquela maluca da potiguara me mordeu ontem durante. Ela se empulgara e não mediu consequências. Não pediu desculpas. Mas pode deixar que a passei no capricho. E dei-lhe uma senhora tortura de língua para cima e para baixo. Então eu lhe dei umas mordiscadinhas na bunda. E ela em vez de pedir para parar ria e gritava para eu continuar. Cansei de lamber seu suor e me esborrachei no leito. Quando acordei ali pelas depois de duas horas, ela comia fatia de melancia acocorada sobre a cama o sumo escorrendo da boca as sementes cuspidas no lençol o sumo escorrendo no seu peito livre ronronando de gosto suspirando de sabor.

Ande com isso, minha alma! Estou contente, vê se me aparece. Eu sei disso. Pretendo.

Eu estava há horas negociando infiltrações com uma negra Haitiana, quando ouvimos uma zoada enorme muito alta muito espalhafatosa, corri fui ver na janela, era um bando pluvial e muito, pois era verão. A negra correu atrás veio ver pulando de alegrinha dando pulinhos com palminhas e gritinhos indo e voltando da sacada ao quarto.

Houve só uma época que me deu a primazia de só gostar de ruivas e sardentas, vê se pode! Fora uma época que me dá saudades, e que já passou. E era de manhã, de tarde, de noite principalmente, eu só queria as ruivas sardentas e de pelos trançados. Pra cima e pra baixo, pra dentro e pra fora, etc. Assim como veio essa mania, também se foi. Eu gostava muito das tranças dos cabelos ruivos e mexer com o ânimo delas puxando os cabelos.

Quando chega guria nova - nova que eu digo no sentido de pela primeira vez comigo no palácio -, eu faço questão de dar pessoalmente o primeiro banho. Quero ter ideia do troféu e se me empolgo começo ali mesmo e naquele momento. Preciso acariciar o monumento para criar o calo psicológico. E o palácio se movimenta inteiro interessado para aquela. Abro o guia turístico. Os pontos turísticos, as imagens com explicações, sons, vídeos. Cada coisa. As ilhas fluviais, cidades, matas ciliares, lagoas, ruas, praças, ilhas atlânticas, cascatas, florestas urbanas, avenidas com fila indiana de imburanas-vaqueiras.

Essa uma paulista de Fortuna de Minas tem os olhos de jabuticaba da chuva. E parecida bonita como uma cunhantã uarequena, doce meiga como chá de folhas de laranjeira bebido na colherinha, lembra aquela personagem das selvas fluminenses das histórias antigas de Raul Pompeia, lembra florzinha de indaiá-rasteiro, lembra frutinha de angelim-pintado, lembra o voo sutil da curiantã, lembra a florzinha da gameleira-branca, lembra a folha verde tenra do landi, lembra a voz meiga meiga de uma uaraperu anunciando a tardinha. Dei-lhe uma joia de quilates pois me surpreendeu com originalidades ousadias delícias comprometimentos quintessências. Ela toca as coisas com a ponta dos olhos. Come pouco e separando os alimentos, devagar e cada vez um alimento. Ela não toca com a ponta dos dedos.

Aqui comigo no meu reino claro elas todas têm a sua liberdade individualidade preservada as vantagens. Faço com essas amantes um contrato como um contrato de patrão e empregado. Agora, como todo lugar desses de fábricas empresas agências, quem manda soy yo.

Aquelas que fingem pedido de socorro ou carinho ou gemidos ou uivos, etc, eu descobrindo desconfiando dispenso e mando embora por justa causa. No mínimo quero empenho e atuação de excelente atriz. Menos que isso é muito pouco. Se meu cabelo não arrepiar...

Tenho um axioma pendendo da minha espádua direita, que quer aparecer, me permite:

- Sobre a mesa de marmelo-do-mato, um copo de água mineral sem gás meio vazio meio cheio.

Para o lado leste do prédio do palácio, sempre nos meus domínios, fica um pedacinho de campo e mato e tem até um riachinho que sabe cantar entre as pedras. Eu não cultivo gado de nenhuma espécie. Vou lá uma vez ou outra para olhar as árvores os pássaros sentir o vento o sol pensar as nuvens com chapéu de verão. As árvores e os pássaros são meus preferidos. Sempre passeio por lá e em boa companhia. As irmãs de Brasília gostam também do local e me seguem sem eu chamar. O céu de flor de biribá-verdadeiro o verão de frutas de araçá-do-mato as borboletas de mel comentando o sal da terra preta.

Olha, cada um cada um, eu sou desse jeito. Levo a minha sorte assim e sou feliz redondamente. A minha ideia dessa tarde é apreciar uma salada de pernambucas. Mas a tarde sempre leva a noite e a madrugada acorda a manhã.

Me falavam que a minha prima andava dando de cinto na mulher lá dela. Eu sou independente, não gosto de visitas e nem visito ninguém. Não trato com parentes aderentes contentes descontentes. Elas não vêm aqui e eu não saio pra nada e de jeito nenhum. Pois bem. A polícia já tinha sido acionada umas duas vezes contra a cara, se não me enganaram. E a famigerada da minha prima continuava batendo na despreparada. Então, mandei chamar a desditosa despreparada ao palácio. Dei um banho nela, codinome Caxambu, fomos dormir, ela não queria, eu esperei, conversamos, ela estava meio em choque, muito tímida, muito ressabiada, muito cheia de não-me-toques, muito cachorrinha com medo de água, a quentinha muito friorenta e fui ronronando, alisando, e contei todos os ossinhos das mãos e dos pés, revirei o mundo dos assuntos. Até que dormiu no meu colo. Na manhã ela sorriu pra mim e disse que queria tudo e estava carente curiosa e até faminta sedenta necessitada deste jeito desde muito e com raiva muita de fazer tudo agora e muito a quentinha preparada. Pois ficou por aqui ficou por aqui e vive aqui há um tempo virou minha cozinheira uma das melhores e cozinha como ninguém aqueles quitutes mineiros que ela conhece já da infância de mãe para filha. Como toda mineira de lei ela é boa e cozinha como panela velha.

A minha alma é alma melíflua. Antecipa os julgamentos os acontecimentos e se veste conforme, imperturbável. Minha alma tem o meu rio. É alma azul e branca, tem outras cores, prefere os tons de verde, branca e azul com listas horizontais e número às costas, como água cristalina, as tonalidades de azul da montanha da lua na minha alma. A alma esta está acorrentada aos pensamentos e vem descendo remando no meio do rio na correnteza sem assustar os colhereiros os tapicurus-de-cara-pelada, os jundiás os piratantãs.

Aprecio as brincadeiras meio infantis. A colombiana estava no corredor, nua em pelo, distraída com o celular dela, etc, quando eu cheguei por trás na surpresa e a agarrei. Apoiei o meu queixo no ombro dela e a segurei firme pelos bonitos. Ela tremeu assustada e tremeu excitada, ambas as coisas. Tremeu na base, como se diz. E que corpo dessa colombiana, minha santa santíssima! Um corpo rijo, sem uma polegada a mais de gordura, uma escultura, vinte e um anos de pura madeira de lei, tipo assim como uma pintura do famoso pintor rondonense Carlos Gomes, como uma índia natural de Joaquim Manuel de Macedo, como no romance O Garimpeiro.

A grossa e comprida e complexa e flexível e pontuda e bipartida língua da imprensa não me deixa de provocar, acicatar, cutucar. Eu vou andando e não dou trela não tou nem aí. Esses maníacos dizem escrevem que eu... (eu não os leio, as meninas me falam) que no meu palácio há porão enorme com quartos secretos portas falsas paredes móveis armários com fundos de portinholas para corredores ou túneis de fuga que existe um verdadeiro labirinto como o do Minotauro ali por baixo dos meus domínios. E eu só tenho que rir e pensar n outras coisas.

Há pouco tempo, uns meses somente, tive a companhia de uma turca dos seus dois metros e vinte. Não cabia na cama e a gente só fazia rolar no chão, atapetado com os melhores tapetes do país dela. Os seios da beldade eram maiores que meus cotovelos. Mostrava os dentes abria bem a boca completa e daí vinha de longe do fundo o riso depois a bela gargalhada.

Quase sempre me aparece uma foto ou um vídeo lá para o lado de fora e feito nos limites do meu palácio. Aí a imprensa cai em cima. Eu rio mais ainda. Querem fofocar sobre minha sorte? Tem gosto pra tudo. Nem quero saber direito e rio muito desses coitados. Estou com a esperança em dia, estou bem, estou no meu país, sigo as leis do mercado, o traço do mostruário da minha conduta com a polícia é diagonal e para quem não tem preconceito eu digo: estou na minha me divirto e não devo nada a ninguém. Rio com prazer. O que é mais bonito é um alado chincoã-pequeno.

A maioria das mulheres que contrato pouco ou nada se apaixonam por mim. Sabe aquela balela de amor? Pois eu não espero e não compro de ninguém. Se isso existe e alguém quer perder tempo com isso, cada um cada um. Eu sou do tipo que gosta de carne. Como carne de manhã até a madrugada do dia seguinte. E carne tem que ter o tempero da ocasião do diferente do novo do tenro do colorido do estrangeiro da química. E é só.

Eu sou rio, embora, o destino segue eterno. O tempo volta mesmo, assim como o rio o destino o verão o sonho o vento o tempo.

Agora dão licença pois tenho uma novidade pra mim para mim. Vem aí uma cunhantã aracadaini de um metro e oitenta e dentes ótimos. A primeira coisa são os dentes. A terceira coisa são os olhos. Eu mandei contratá-la semana passada e estou ansiosa, olha só como meus seios arfam, olha só como já escorre pelas pernas, olha só como meus olhos brilham, olha só como meus cabelos esvoaçam, olha só como meus dentes brilham, olha só como minha boca se enche de água, e não preciso dizer mais nada, precisa, fui!