Que Eu Conheci
Conheci
O
padre Graçandu desenhou a cruz no ar traçou pregou corações ao alto e disse
amém. Esvoaçavam voavam revoavam as corruíras as bandeirinhas as andorinhas... dentro
no côncavo nave da igreja a casa de D.
Então, saímos
todos tropa calmos pacientes concordados. Todos se mexeram e debandar para com alívio.
Saí na frente
em primeiro e olhei os angicos-rajados no outono plácido. Tudo bem? Me
perguntei também: e por que e de onde vinham e aonde iam toda esta turbamulta.
Uma manhã
muito sábia tenra e cuja beleza. Mas podia ser de tarde. O carnaval tendo o
preparo dali um mês, mês e pouco.
Olha só o céu,
pensei, céu azul, branco, liso, açúcar, calmo, piscina, digno, profundo como
uma certeza integral. Eu ainda pretendia ir a Chapadinha e agora mesmo, pensei,
queria estar assim ali em Prata do Piauí, navegar no rio São José, navegar no
rio dos Sinos.
D no céu? Nem
dava pra ver quem ia ali.
A
escada de cordas puxava os eleitos para o céu, por onde já subiram outros
tantos fantasmas. Índios iurimagua vendendo paiauaru e tupés e os olho-de-fogo
e sapos-aru e tucanos-pacovas na beira calçada da rua Visconde de
Jequitinhonha. Bergamotas amarelas no espaço de quase fim de ano.
O
sol saía descia subia voltava. Nuns movimentos naturais e esperados. O plano já
dera certo há alguns dias e dias.
A
vontade de beiju me matava. Pronto, já estava morto. A sede me matava. O sono
me matava. O meu rio descia fio de água ribeirão e límpido, serpenteando,
desequilibrado e montanha abaixo. O mar estava enchendo há séculos, bilhões de
anos, bíblias, baleias jubartes, navios petroleiros. O rio me remava para o
litoral.
O
vento movimentando as árvores da praça da Independência as árvores as copas
alterosas as folhas os galhos das plantas da avenida Dantas Barreto,
ipecacuanha-preta, siriúba, salsaparrilha-do-rio... árvores centenárias
seculares. A viagem ia embora para frente e num navegar de mar favorável.
Nem
podia acreditar nem podia duvidar, ou seja, era muita pura coincidência. E o
mundo a Terra me olhava e me dizia, martelava:
-
Continue e continue!...
***
O
menino sonhou com um avião bimotor e quis virar um pássaro grande que voava
alto, ipecuá, ipecuá. Quis pilotar um hidroavião, pousar na lagoa do Aviso,
sobrevoar as meninas de Vila Nova do Sul, Ribeira do Amparo, Campestre, Caldas,
Miracema do Tocantins, Roncador... Sonhou flanar, alar, espiar do alto da
castanheira-do-pará e se apinchar. Como um pássaro de raro voo,
bico-chato-amarelo. Nadar nas alturas azuis transparentes dos gaviões-de-penacho
ou tamuriparás. Caminhar nos telhados como os gambás, nos campos durante a lua
cheia como os lobos-guarás, em tardes silenciosas e calmas no cerrado como os
tamanduás-bandeiras. Usar as nuvens de algodão como trampolins e veja lá os
vinte-e-um-pintados. Sonhou também ser fantasma ou boitatá nas capelas das
minas de ouro. Dar rasantes como aviões de combate, esquadrilha da fumaça.
Sonhou navegar contra-atacar os corsários na costa do Recife, São Luís, Niterói,
Vitória, Brejões, Navegantes... viajar no tempo que governava um vice-rei ou um
imperador e imperatriz do Brasil. Sair pelos matos como índios pataxó, xavante,
parecis, arara-caro, tupari...
Depois
da montanha o sol depois do horizonte o sol... Mas vai aonde, meu?! E ele
empurrava mais pra lá que o próprio sol. E retornava como pássaro como peixe
pessoa árvore papa-piri... E vai aonde, meu?! Nova Andradina estava uma cidade
de tamanho conhecido preciso.
O
pai do mesmo menino nem sonhava, nunca sonhou. O pai caminhava lento, len-to,
lentamente, quase parando. Comia muito devagar, pensando, olhando o horizonte
dentro de si. A comida esfriava no prato. O pai caminhava lentamente para o
trabalho. E às vezes até esquecia alguma coisa, tinha que voltar da metade da
rua. E de noite retornava mais cansado mais calmo mais espiritualizado. Parava
no bar e bebia um trago de canha amarela, lenta-mente, engarrafada na cidade
mineira de Estiva. Muitos tragos, bebendo lentamente, parecia bom beber e o
menino disse para si mesmo prometeu que um dia também beberia.
E o menino que
sonhava ser caracará dos ares, via o pai caminhar lentamente, acender um
cigarro no outro, acordar sonolento, se ausentar demoradamente, se esquivar filosoficamente.
O time de futebol da família já nem supria mais as necessidades dos domingos à
tarde domingos de tarde sem nenhum gol para comemorar.
E
o avô do menino, pai do pai do menino, virou rei Momo papai Noel do shopping center
Uarini. O avô de barbas brancas e crescidas, barriga inchada, prometeu
presentes para as crianças que tirassem boas notas no colégio Tiradentes. O avô
se comprometeu e riu, fazendo, oh oh oh!... O bom velhinho riu e sacudiu a
barriga, a mão segurando a barriga. O menino viu o papai Noel, pai do pai,
sentado na cadeira estofada em veludo vermelho perto do pinheirinho enfeitado
rodeado de presentes lá no bairro Basalto, shopping center Uarini. E o menino
foi pedir uma bicicleta, um brinquedo de videojogo e uma bola oficial com CBF e
cinco estrelas.
Mas
era preciso olhar para o mundo com olhos garços gázeos verde-azulados olhos de
mar olhos de água da chuva esverdeados ora azul ora verde.
E
eu olhei os olhos que me olhavam no espelho: olhos fixos e frios. Muita dúvida,
ou seja, muita parede.
No
dia seguinte fui buscar meu primo minha prima e amigos para jogar nadar na
piscina do clube esportivo recreativo Acarapixuna. Depois também duplas de
tênis no saibro. Tênis brancos meiões brancos e raquetes fabricadas em
Vianópolis.
Golpe
do vento que balançou os meus cabelos fez dançar as folhas das açucenas-do-mato,
macambiras, paricás-de-curtume, ajurus, olhos-do-diabo... mas nem incentivou o
frio. Nenhum pouco de maus presságios voos e pios de sondaia. Veio a chuva,
muita chuva, uma cachoeira em água e espuma, e nem aconteceu de molhar os meus
olhos, as minhas têmporas, os meus cabelos finos. Chegou do nada uma nuvem de
mosquitos, zumbindo como alucinados, e nem fizeram me atacar.
Na
data conquistada de oito de março longo ano de 1978, me pensei.
Perto
do meu rio, perto das coisas, perto do meio-dia, perto da minha rua, perto do
meu pé de jabuticabas.
Então,
escutei um causo de fazer rir, morri de rir, mas nem me alegrei. Então, esperei
na faixa para que o trânsito de carros passasse, carro por carro, carros
buzinando, carros de farol aceso, porém nem queria atravessar a ponte nem dei
sinal com a mão para embarcar ou desembarcar do carro de aluguel.
A
mãe chamava o menino que queria sobrevoar:
-
Vem almoçar, guri! O almoço está servido e é muito bom!
A
mesma mãe disse ao pai do menino:
-
Senta e come, meu filho! Come de uma vez que está esfriando! Olhe que a comida
nem espera!
A
mãe para o pai do pai do menino:
-
O senhor vem almoçar, vovô! Tem sobremesa que o senhor mais adora!
É,
era isso. Meu pensamento era vago vagal vagaroso cabuloso e por aí. Eram alguns
dias assim. O rio Amazonas foi feito num só dia. Tapiranga pousou no ramo verde
da jequirioba. Minha prima Juçara já morava em Coração de Maria, vinha visitar
de vez em quando.
O
espetáculo de luz e sombra, de sombra e lua, já há muito inaugurara o Palácio
de Cristal, junto à praça 14-Bis, Petrópolis: “senhoras e senhores!...”
Ainda
hoje nem aprendi a voar de asa delta, parapente, balão, paraqueda, andorinha ou
tucano-de-peito-branco ou gavião-carijó ou ariramba-verde...
Gomeira
tinha os cabelos largados mais bonitos que já havia visto. Mangaba tinha os
cabelos mais lisos e negros que já cheirei. Jatiuca tinha os cabelos mais
ondulados que já naveguei. Guarajuba tinha os cabelos mais insatisfeitos
rebeldes que já abracei. Ibirubá tinha os cabelos mais frisados que já puxei. E
eram todas de além-mar todas de aquém-oceano.
A
planta alfavaca-carpunha plantada no quintal, as folhas que já viraram
dinheiro, as frutinhas em novembro, as flores muito cheirosas e doces, o verde
cheio de saúde, o vermelho muito suado, o branco muito prata, o passarinho
amarelo com sua esposa carijó, o gurizinho que invejava os alados e sonhava se
evadir. O vizinho de rádio ligado a toda no sertanejo popular. Árvores
inclinadas na sombra.
Me deitei e me
perguntei em pensamento isso: desligue esse rádio, quero dormir! A filha mais
bonita do vizinho de rádio sempre no sertanejo popular era a Majuba. E Majuba
chamava a árvore angico-amarelo de D. Mariana. Queria saber se D. Mariana
queria dirigir carro caminhão pilotar teco-teco. Se usaria suas folhas verdes
para dinheiro. Depois, na sombra da D. Mariana se realizavam vários eventos,
aniversários da família, pedidos de namoro, pedidos de noivado, pedidos de
casamento, abraços e beijos no escuro. E no são João a fogueira com balões e bandeirinhas
e fogos e pinhões e quentão e aquele auê... A árvore D. Mariana que um dia
falou para Majuba:
- Olha, Juba!
Eu também queria assistir tevê e nadar na praia das águas do mar olímpico, é!
Perto
da sorte, perto do nada, perto do todo, perto do nada, perto do meu rio, perto
da Ana Paula pernas de sol, navegando rio abaixo, à cerca da baía de
Todos-os-Santos, logo logo o mar, perto do céu-piscina.
Ana
Paula convergia os olhares atraía incondicional atração dos olhares
convergentes de quantos de todos. Seus olhos e que olhos que nem prometiam nem
largavam nem pagavam certezas.
No
percorrido das minhas contas... Depois de andar um pouco mais... Acho que devo
achar que somente tenho de presságio e péssimo e tonto a minha autocomiseração.
***
O
sol nasceu no mundo derramou paisagem aumentou tudo ouro raios verdes
araratucupis uvaias-do-campo araticuns-de-boi mais arrebol. Em boa hora
aconteceram nuvens brancas pássaros amarelos pavãozinhos-do-pará.
Total, estava
tomando café em casa. Que
horas? Café da manhã às 10h. Mas podia ser às 23h. Quando, de repente, a xícara
me escapou da mesa e pulou no soalho e saiu picando. Foi quicando, quicando,
te-teque! te-teque!... A porta por acaso estava aberta, cadê cadê?!... porque
eu sempre gosto de olhar lá fora e olhar o dia como vem como vai a noite de sons
e tudo mais. E a xícara aproveitou a porta escancarada e saiu para fora e foi
picando... Passou pela porta quicando, desceu a escada do primeiro andar,
quicando, passou pelo portão aberto àquela hora, quicando, te-teque!... passou
a calçada desse lado da rua, quicando, atravessou a rua Guaraíras, quicando, nem
vinha trânsito algum, ainda bem, quicando, chegou do outro lado, quicando,
começou a descer pela rua Marataízes que vem na perpendicular, quicando,
te-teque!... e a xícara só foi parar mesmo, de quicar, quando deu de chofre de choque
no para-choque de um ônibus urbano azulzinho novo em folha. O ônibus estava
estacionado no meio-fio perto da casa da vizinha, a dona Maristela Açuçuapara. Ônibus
urbano fazia a linha Centro e capela Santo Antônio e Centro. E consegui
alcançar e recuperar a minha xícara de porcelana fabricada na longínqua cidade
de Caldeirão Grande, te-teque!... uma relíquia e para continuar o meu café das
16h.
***
Aliás,
tanto foi a propósito que me lembrei pensei lá na hora do caso da menina Pequi parabólicas
ligadas o tempo todo com ela era assim:
A
uma menina de poucos anos, idade de ensino fundamental e de andar de bicicleta.
Idade de andar de bicicleta. E isso mesmo começou lá por volta da idade de se
abrir para o mundo e fugir de bíci. Pois era ela mesma, a guria se chamava Pequi
por causa da fruta.
Dentro
dela guria Pequi no íntimo dela um perfume no mínimo dela a aventura de
atualizar pelo mundo afora, confiar nas coisas, conhecer lugares arquipélagos
boqueirões subidas e descidas.
De
alguma forma a menina pegou aquele dia e resolveu sair no mundo e de bíci.
Parecia bom e ela topou:
-
Ei, dia claro! Vou contigooooo!...
E
foi pedalando bicicleta. Que era um esporte pacífico. Que era legal e dava até
para olhar paisagem. Praticamente um esporte com exercício pedestre. Descendo a
rua Bento Teixeira o bairro Santa Cruz a cidade de Utinga.
Ouviu
o rio tocar flauta-doce, o rio cheirar borbulhas, blu-blu-blu!... viu o rio
ligeiro, o rio em cascata, depois fazer um cotovelo e virar rio Tietê, rio
passar em frente da aldeia dos tapaiúna. Era uma sexta-feira do mês de
novembro.
De
modo que ela esticou assim os olhos para uma porção grande de árvores que
vinham caminhando lentamente pela margem pela várzea, jatobás,
cumarus-de-cheiro, tucumãs, landis, guaranás-timbós, canjeranas-do-brejo,
tucuns-do-brejo, camboatás-brancos, canelas-do-brejo... Que eram verdes e
parentes próximas dos inhames-de-folha-roxa-pintada. Que eram dependentes dos
bem-te-vis-do-chão das bandeiras-alemãs das irapuás...
Travou
a bíci e ficou admirando. Tudo era curioso, curiosidades. O rio Iguaçu passava
e era curioso vê-lo passar e nem passar. Rio orgulhoso e barulhento, chá-ché-chi-chó-chu!...
A
chave de tudo era a curiosidade. E assim o mistério. E ainda o enigma. As
coincidências. Os flagrantes de hora, tipo 20:02 ou 10:10 ou 08:16.
Agora,
já longe de casa e pedalando, ia longe, já nasciam as primeiras estrelas,
primeiro as brancas. E os grilos cricrilantes, bri-bri-bri!... dentro das
moitas escuras no aconchego dos arrebenta-bois no fofo das tipuanas no abraço
das favas-contras.
Pela
primeira vez na sorte, que levava sempre junto, acordou navegava pedalava
navegando pelo rio Arinos. A montanha da serra do Andaime realmente era maior
ou teria mais importância que o rio?
As
paisagens da estrada, lados esquerdo direito, eram verdes iguais precisas
interessantes. O uiraçu-verdadeiro a ave do Distrito Federal.
Parou
a bíci, assim, o pé no chão outro pé no pedal mãos no guidão, pensando, pensou,
disse para si mesma:
-
Mas isso é assim. É divertido.
A
guria Pequi conheceu um papagaio-moleiro e por acaso. Perguntou ao sujeito de
parolas:
-
Esta a estrada que liga para Floriano?
-
De acordo.
Nem
era preciso chegar a noite e dormir depois de um dia como aquele. Para onde se
olhasse e o mundo estava ali. E o papagaio retornou ainda e mais confiado:
-
De onde você vem, garota?
-
Venho pedalando desde Leopoldina, e você?
-
Concordo.
As
iraúnas-grandes ciscavam se comportavam se divertiam tomavam banho nas areias
brancas subindo e descendo os troncos caídos mangues-de-água-doce do rio
Corrente. Uma delas pegou falar:
-
Temos que pensar a chuva!
A
outra iraúna-grande também deu ideia, grasnou:
-
Penso a chuva!
Mais
outra esticou o pescoço como uma corda:
-
Pensa a chuva!
As
nuvens estavam gordas a pouco foram magras mas estavam gordas e se mexiam para
oeste. Que esperar um pouco que nada. Quem espera na verdade sempre alça voo.
Embora demorasse. Demorou uma brincadeira. E ninguém precisava de chuva mas de
sol e chuva casamento.
Oito
árvores da manhã. E árvores com nome de plantas e como nunca se viu, como a
menina nunca percebeu, palmitos-do-chão, cajazeiras, imbaúbas, meruás,
coiramas-amarelas, araticuns-da-mata, jaburandis, açoita-cavalos, marias-pretas,
piraguaias, angicos-brancos... E para onde uma floresta pedindo água.
Guria
achou a tribo dos canamanti. Moravam na beira do rio Ouro Preto. O rio que
sabia de tudo. Quanto muito quando para lá de Manaus e perto de Lábrea, Borba,
Nova Olinda do Norte... Tinha gente que ia no gaiola e parecia demorar umas
duas semanas abanando com lenço as pessoas na beira.
A
menina chegou para perto dos canamanti. E era já tarde perto da noite. Uma
cascata descia pelo rio e fazia, chuuu!... sempre chuuu!... O pajé Axuá veio e
se sentou num tronco de umbu junto da palhoça. Morava ali. O pajé chamou disse
erguendo a mão para o alto a voz do pajé contou:
-
As estrelas... Chegam até aqui... E fazem o favor.
Foram
se foram as horas do dia a dia, os dias, quaisquer todas as coisas. O sol
praticamente em todo lugar e até em Guarantã do Norte.
Pequi
demorou as idades, depois outras e outras, e quando fez sete anos começou a
estudar na escola estadual 11 de Agosto. Cadernos com todo o respeito e
florzinha no alto da página. Mapa com pedaços coloridos para cada um dos
Estados.
Quando
fez oito anos olhou as figuras dos livros e mexeu muito com revistas de
quadrinhos. Os livros tinham histórias de carreteiros histórias de tropeiros de
garimpeiros histórias de seringueiros e lendas tupis-guaranis.
Por
volta dos treze anos começou a ler em voz alta e peripatética. Lia com
entusiasmo e se achando muito esperta. Um livro bom, Mil Noites Tapuias do
autor Mário Palmério. Outros livros bons. Uma viagem de trem antigo dia de sol
olhando pela janela Caxias do Sul até Carlos Barbosa e principalmente passando
por Batayporã e a ponte sobre o rio Ivinhema.
E
quando fez dezesseis encontrou com o Uru, seu primeiro namorado. Quando fez
dezessete encontrou o Asa-Branca, seu segundo namorado.
Pequi
era linda e macia e suave e quase amarela como nenhuma outra fruta da sua tenda
e idade já fora. Gostava de se vestir de verde. E levava a herança dna da
família, ou seja, cabelos longos e bem pretos. Consumidora de sorvetes e
versátil no gosto.
Era
linda e macia e suave e cheirosa e tenra como nenhuma flor adolescente ainda
fora. Podia ser feliz quando e onde quisesse. Podia ser ótima atriz em Cabixi, Assunção,
Pedras de Fogo, Cacimbinha, São Paulo, Santa Rosa do Purus... Onde D aponta o
dedo é só alegria.
Asa-Branca
era entregador de pizza, naquela altura, e isso de estar sempre na rua, calcule!,
fascinou a querida querida Pequi.
Depois
de um tempo Uru nem amadureceu nem mesmo a Pequi.
As
nuvens vinham pelo espaço e aterrissando. E pesadas e azuis e confusas isso de
chover levavam dias e dias. Vai chover, diziam uns e outros. Vamos ver daqui a
pouco, já falavam outros e uns. Era estava claro que de chover ou fazer tempo
limpo ficava sempre no comum. E aí quando chovia chovia durante dias e quando
nem chovia ficava todo dia na ameaça de chover o chove nem molha.
Pronto.
Uru era astronauta e participava de escaladas na lua durante meses e meses.
Meses e meses sem ver o namorado deixava Pequi muito apaixonada e feliz e
infeliz. Ela se sentia muito feliz e dizia a todo mundo:
-
Sei, sou muito infeliz com a ausência e a incerteza das aventuras de Uru.
Quando
Pequi e Asa-Branca passeavam frequentemente pela frente da prefeitura e pela
volta da pequena pracinha, até escolherem um banco para sentar, para ver o
movimento passar, e se beijar calmamente, quando isso tudo acontecia, praça da
Bandeira, eles namoravam no domingo e eram alegres e contentes e satisfeitos. Pequi
era amarela e doce e tenra. Muitas crianças correndo e gritando nas gangorras. Vestida
de verde com cabelos longos e vaidosos e acintosos e espetaculosos.
Pequi
fazia duas coisas ao mesmo tempo: assistia desenho animado e conversava com
seus brinquedos, principalmente bonecas e comidinhas. Ora assistindo ora
ensinando a filhinha, todas as horas. Numa novela escolheu o nome da filhinha e
foi se chamar: Ivaí.
E
aí, naquela idade, ela parou porque nem tinha mais tempo para mais nada.
Estudar, Pequi estudava. Nem falava inglês, gostava das aulas de desenho,
detestava química e física.
No
começo Pequi hesitou.
Depois
no explodir da primavera ela aprendeu a descascar bergamotas amarelas e com as
unhas pintadas.
Mais
tarde aprendeu a gritar, mãos crispadas, curvando bem o corpo para frente,
despenteando os lindos cabelos negros negros como nunca se viu.
Assim,
ela já aprendia a beijar Uru na boca. E com perder o fôlego.
O
mundo estava certo e andando do mesmo lá seu jeito dele tudo que D queria.
Um
ano longo se passou. Pequi nem viu. Quando muito quanto.
Pequi
teve, dito e feito, uma noite de conformidade, de sonhos suaves, de como ela
bem merecia. Sonhou que estava caindo e caía sem parar. Mais que caía mais
dormia. Quando parou de cair, acordou. Olhou admirada as paredes surgindo
conforme o sol lá fora. E cantavam os bonitos-do-campo, os chibantes, as
tesouras-do-brejo, os arrelias e estrilavam os ajuruetês em grupo.
A
lua chegou no trem antigo das 18h e viu rostos conhecidos. Cães ladraram sem
certezas. Galos cocoricaram a partir das 05:05.
Pequi
tirou seis meses para trabalhar na malharia Guaximbé ali no bairro Coroados.
Pequi rosto fácil e contente. Tinha que ir e vir de ônibus. Pequi boca
desenhada em ondas. Pequi olhar amaciado olhos e espírito móvel móvel. Flor
preferida de Pequi, as orquídeas. Boca de Pequi como arco de flechas. Todos
riam para ela seus melhores sorrisos. Aonde ia era assim. A mão que fazia os
gestos que seguiam as palavras tudo muito simples e encantado e ajustado. Tão
bonita e querida que dava prazer, vencedora.
Que
altura distância tinha a sorte tinha a lua? Que notas musicais tinha o
arco-da-chuva?
Na
rua Anta Gorda todos se reuniram para ver passar a banda marcial, a escola
desfilar, a jamanta estacionar, um cavalo pingo e seu cavaleiro à gaúcha.
Sim,
aquele ano o minuano ficou mais frio.
-
Como é? Isso faz parte? - perguntou Pequi.
-
Claro que sim! - respondeu Uru.
Pequi,
depois de conhecer Asa-Branca, esqueceu que precisava estudar e correu dar
abraços quentes e uns beijos carinhosos no cara. Ninguém ou pouca gente sabe o
amanhã.
Ela
precisava de ajuda e começou a chorar. Ela nem precisava de ajuda e começou a
rir. Foi ver no palco do cinema Membi uma trupe de teatro que vinha de Curitiba,
uns do interior de Curitiba, Três Barras do Paraná, Guaramiranga, Foz do
Jordão, Boa Ventura de São Roque...
Um
dia Pequi viu um papagaio-canindé caminhando de lado e gostou. Se juntou a ele
e se apresentou:
-
Oi! Sou Pequi! E você?
-
Eu sou alado e me chamo Bétis! Venho voando desde Igaporã, já passei Boa Nova,
Vargem Grande, Cambuquira, Guarujá...
Aí,
Pequi aterrissou nos seus dias de hoje, voltando dos seus tempos passados de
antes e antigos, e teve mesmo de sorrir. O riso estalou no ar e se dilatou.
Pequi ainda vestia verdes tons da floresta amazônica. Gostava muito de guabirobas.
E
Pequi teve um pensamento colhido no programa de tevê da manhã ou da tarde.
Olhar reparar totalmente fixada na pretensão do interessado apresentador ou
plastificada apresentadora:
-
Uma pessoa, como eu como você como nós, só se apaga quando seu objetivo seu
alvo seu apoio seu salário atrasar atrasarem.