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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 9




Nem Sempre Contudo Foi Assim

            Seja como for, despencou a tarde em estardalhaço de quebra de brinquedo. A noite e seus preciosos dentes de diamante brilhante. Também os mais entre os quais dos tais luscos e fuscos e boitatás e fogos-fátuos.
            - Você já conhece Itabaiana? Já viu já esteve em Caculé, Pindaí?
Eu me perguntava estava na farmácia Raiz-de-Sol, emprego garantido novo e atual. Recolhido como um cão na sua corrente. No pequeno circuito fechado pela corrente. O patrão no caixa e eu atendendo a clientela no balcão. A noite vinha e com ela a coceira de notícias fresquinhas.
Levantei os olhos, rodopiei no ar oito voltas, assustei, acordei, e como diria o tucano-de-bico-verde:
- Raaau!...
            Enigmática... apareceu bem ali de surpresa. Isso mesmo, um dia tinha que vir, nem?! Aparecia, hein?!
            Pois Enigmática ginasta e macia nas suas curvas, lombas, esquinas, paletas e ancas. Talvez fosse perna longa mágica. E olhos negros como a noite, e olhos verdes fundos como a mata no amanhecer de sol diante do mundo do mundo.
            Ela chegou ali como se fosse uma paina pousando na superfície de um lago de um remanso de rio. Então, muito quieta e calma e silenciosa e macia. Quando a vi... Quando acordei... Custei a acreditar que realmente estava assim ali diante de mim, frente a frente e sã e salva.
            Tudo é possível, pensei.
            Pensei até que fosse um aviso do além, do destino, do acaso, do jogo. Coisa feita para mim em especial, coisa do meu sonho realizado. Ou nem? Seria uma coincidência? Uma ilusão? Pois é. Isso tudo passava pela minha carapuça.
            E-nigmática chegou perto do balcão, se dirigindo a quem? A quem? Olhei pros lados. A mim, é claro. Pelo de jaguatirica, olhar de corruíra, curvas de lambari na sanga. Um bafo fresco lindo de chá de jurubeba-de-espinho. Eu respondi:
            - Oi! - disse, de olhos acesos na superfície, diante da surpresa.
            Olhei e olhei a boca dela falando e mastigando as palavras. É, eu estava ficando cada dia mais zoológico. Um zoológico doméstico de puxar carroça.
E Enigmática me pareceu um ser do ar, das águas, dos rios, dos matinhos, das borboletas, e com asas nas costas, e cabelos arrastando pelo gramado, flutuando no ar. Como eu nem sabia.
            Me virei nos quatro calcanhares de quadrúpede, e fui ver a receita, procurando entre prateleiras. Me escondi e caí na risada. Eu estava nervoso e preocupado. Que nervoso que me deu, cara!
            Eu devia nem estar ali e estava. Ou vice-versa. Como D disse uma vez: na hora certa no lugar certo.
            Mas eu queria aparentar frieza e fortaleza e machadeza. Sim, eu procurei me acalmar. Ninguém podia dizer que nem estava sob controle dos meus nervos e músculos. Estava calmo e ouvindo perfeitamente. Enxergando muito bem. E caminhei com os pés calçados nas patas. E nadei com os braços. E voei com as orelhas quentes. Ninguém podia dizer que nem.
            Mas eu tinha um grilo. Tinha em mim que ela estava lá e me olhando e me observando do balcão, me seguindo, me cuidando. E então, eu precisava fazer o quê? Fingir que estava calmo. Estava absolutamente tranquilo controlado maduro devagar. E se eu a olhasse e lhe desse um sorriso, até um ah, ah, ah?!... Seria melhor. Mostraria que estava muito muito à vontade. Mostraria meus dentes brancos. E também poderia confirmar se a minha intuição estava certa ou nem. Fui e me virei e olhei. Assim, talvez? Mas nem, nem queria ter essa certeza, quem sabe fosse já uma decepção. Nem olhei. Mantive a estudada calma e aquele olhar solene de boi manso amarrado na sombra do ipê-peroba. Olhar de boi ou de burro ou de carneiro ou de anta esperando seu dono. Eu queria ser osso duro de roer no meu zoológico do dia a dia.
            Enigmática... sorria misteriosamente extraordinariamente extraoficialmente extragalacticamente. Queria contorná-la com minhas mãos minhas mãos ou patas ou asas queria muito contorná-la. Quem eu pedia isso.
            Coloquei o pedido na sacolinha de plástico e entreguei ao caixa. Enig-mática pagou, pegou e partiu. Olha como foi! Sem me avisar. Sem trocar um olhar significativo um cumprimento. Que oi, meu! Nem olhou para trás. Nem olhou, nem olhou. E eu, minha querida? Nem olhou nada mais além dos próprios pés e nos seus passos. E sumiu depois da porta. Então, vi o cão...
            O cão estava ali o tempo todo? Talvez. E como foi que nem o tinha visto, como ninguém o vira ou pressentira? Nem era estimação da famosa Enigmática, com certeza, senão teria partido com ela. De quem seria esse bicho? Ninguém sentiu seu cheiro e sua presença e seu olhar insistente. Que coisa estranha, meu! O guaipeca me olhava de um jeito intrigante, entortando a cabeça engraçado. Procurava em mim uma reação? Procurava em mim um irmão?
            Era um vira-lata vadio ou fantasma. E que ele queria ali parado? Me olhando. Me olhava por quê? Me olhava por que eu o olhava, era isso? Enigmática fora e o cão ficara, nem eram a mesma pessoa. Ficou aí numa pose de bibelô. Cão misterioso. Cão gênio. Cão carnívoro.
            Eu ouvira falar de um lugar calor sol praia o ano todo o ano inteiro, novidades também, qual seja, Camaçari, oh! Camaçari. E árvores frondosas performáticas habilidosas plantadas durante a 3ª República.
            - Digo possuir um raro exemplar em minha bíblio particular.
            Fui até a porta da farmácia e expulsei o intruso a assombração. Aquilo me provocava arrepios. Ele nem correu, nem latiu, nem xingou, nem vomitou. Foi até ali e continuou me olhando. Nem parecia ter receio. Por que teria? Receio algum, aliás. Andou até um tanto e parou e sentou como um bibelô. Sentou sobre a cauda. Parecia tímido. Nem falara nada até aquele momento. Sempre olhando para mim com olhar fixo, urgente, animal. Um olhar que incomodava. Um olhar insistente e calmo. Um olhar de premonição. Um olhar de brilho verde garrafa. Um olhar sem perguntas sem as tais e quais orelhas altas. Um olhar de semideus.
            Me despedi saí e disse, me resumindo:
- Azira, meu!
Voltei para meu lugar no balcão da farmácia e cruzei os braços apoiei os cotovelos no tampo. O cão parecia ter uma bronca comigo, seria? Um cão impressionante. Parecia querer me hipnotizar. Um olhar de montanha escarpada, rochosa, alta além das nuvens. Estaria com fome e sede? Teria alguma missão? E ainda por cima mostrando a língua, babando.
Sem exagero sem esperar o dia de São Nunca, eu poderia ir e viajar e conhecer o museu do Ingá em Niterói, nem poderia?, me perguntei. A praia de Arembepe, também era uma opção. A bela cidade litorânea do município de Barão do Triunfo, por recomendação?
            Me lembrei de uma palhaçada que fizera uns meses atrás. E aquilo estava contando roendo o meu encefalograma. Parecia ter uma relação correlação. A cada meia hora pensava naquilo. Uma palhaçada que ali eu respondia como mó na consciência.
            A filha do vizinho viera lá em casa pedir uma xícara de azeite ou açúcar ou sal. Eu estava sozinho. Aliás, o anhangá estava pousado no meu ombro esquerdo, escorado atrás da minha orelha esquerda. Pois a menina veio e chegou e bateu na porta. Fui atender e me deu um branco um ruído. Me bateu a estupidez, um som hipnótico, tiiim!... Era a filha do vizinho e meu pouco cérebro apagou. Regulávamos em idade, uns 15 para 16. Nunca tivemos intimidade. Sempre fui contido, sempre a olhei e fiquei quieto, etc.
Ela bateu na porta e naquele dia eu abri a porta. Nos encaramos e eu, tiiim!... perdi o chão. Menina bonita, elegante, provocante, quente, ensolarada, gostosinha, engraçadinha, verdinha, trinta quilos, decote abissal, short marca v e de arrasar. Cabelo molhado do banho. O pessoal dizia que ela ia dar num mulherão de passarela. Vê só se podia! E a família a levava na soga curta. Mas aí eu, tiiim!... Me faça o favor! Um carneiro pensa, um capincho pensa, um jaburu pensa, um jeju pensa? Eu pensava como um bode um béee!... E que desculpem as comparações os bichos e os animais que só agem por estilo de conservação.
            Eu a convidei para entrar. Tentei uma conversa de colégio, de nem me lembro bem o quê, de livros e livrarias, de Enem e vestibular, de provas de geografia e ciências naturais. Até que ela riu um pouco, pouco descontraída. E tinha brincos de odalisca. E queria ser dentista porque o importante nas pessoas era o sorriso.
Ainda convidei para entrar. Acho que estava quase confiando ou querendo confiar. Então, aquela tonteira com ruído no início, tiiim!... Tentei acariciá-la. Ela saltou de lado. Disparou, quase correu. Eu procurei amenizar:
            - Só quero pegar a sua mão, Cujubim!
            - Nem precisa. Olha, tou até tremendo.
            Fui buscar a xícara de farinha de trigo ou de milho ou de mandioca, sei lá. Ela me olhava igual bicho preso pelo pescoço.
            - Olha que conto pro pai, hem!
            - Eu só estava brincando, se você quer saber.
            E depois, durante dias, aquela mó na consciência triturando o resto da minha paciência. Desse modo. Desse tamanho. Essa a vaidade. Que fiasco, meu! Bati três vezes na paracuuba mais próxima. Mas ainda havia tempo de contar, se ela, Cujubim, quisesse.
            Um rio do Rio Grande do Norte e com sete letras: seria o Potenji? Tribo do Pará com cinco letras: deve ser urupá ou guajá. Cidade litorânea de Santa Catarina começando com c, deve ser Caetité. Rua de Campo Grande seria rua Visconde de Pirajá?
            Bem, 20 horas. Fechamos a farmácia. O dono morava no prédio. Eu tinha que andar uns poucos quarteirões. Vesti o casaco, a touca, o cachecol, as luvas, um gole da canha que levava num miniaturizado vidrinho de bolso mocozeado no bolso e fui. Fomos, mãos nos bolsos, né! Caminhando devagar. Aqui e ali uns pindós impessoais. As ruas cheias de sombras ornamentadas de árvores capoeira. Próprio para criar fantasmas, planejar assaltos, tocaias, atentados aos bons costumes e etc. Ruas sem luz pública, casinhas distantes da outra. Noite encoberta e temperatura baixa de encarangar cusco.
            Vinha o inverno, partia o verão, vinha o verão, partia o inverno, vinha o verão. Estávamos no inverno. O dia podia amanhecer com muita luz, o dia podia surgir fechado em garoa, o dia nem aparecia atrás das nuvens, sol forte, o dia nublado, o dia nem amanhecia perdido na cerração, cinco graus negativos, noite friorenta e úmida.
            Enigmática me voltava ao miolo mole. Cheiro de jurubeba-de-espinho? Ou cheiro de chá de folha de laranjeira, camomila, cidrilha? Cheiro de quente, de corpo quente, corpo quente de jaguatirica, jaguatirica pintada e grrrrrraaaau!... É, podia ser, pensei. Nem, nem vinha ao caso. Bom esquecer. A pele dela com certeza era da maciez do pêssego maduro. Da maciez da pitanga amarela. De uma pétala madura. As pálpebras lindas dos olhos bonitos eram asas de borboletas verdes engraçadas. Estava muito interessado.
            Um cão uivou ou acoou ou latiu escondido ali pela noite sem fim sem fundo nas escuridões e etc. Escutei e nem entendi.
            Queria pensar na E-nig-mática. Que eu ganhava mais. Somente nela. Como se vestia, uma calça apertada, uma blusa até o queixo, um gorro vermelho com pompom, lá nas canelas um par de tênis com meiões. Assim mesmo. E assim mesmo toda embrulhada para inverno.
            Uma lua, umas nuvens assustadoras, um vento gelado com o clássico vuuu!... Só faltavam uns lobos-guarás para arrepiar a pele um tanto mais. Uma casa em ruínas com lenda de assassino foragido. Um carro vindo na contramão luzes apagadas marcha lenta uma ponte de madeira uma rua deserta envolvida nas sombras passando pela frente de uma casa desabitada. Sabe que ali mataram o fulano de tal e foi pelas costas com uma facada no peito?
            Mas por encanto, aquele dia eu só pensava em a Enigmatica. Era uma obsessão cinematográfica. E unilateral, unipessoal, deixar bem claro.
            Um nitrido, ri-tu-tu!... dentro da noite. Que calafrio é esse, meu!, pensei. Dentro da noite é brabo. E era sonoro. A noite gelada, ainda por cima. Seria o acaso de eu estar no território perdido do dinhonhinho? E se o estranho estava nervoso por alguma coisa que eu havia dito ou feito ou desfeito? Sabia lá eu?! Bem, é o que se diz: os cães nem atacam ninguém pela frente, só pelas costas. A menos que esse bicho fosse o Cão, está claro!, pensei.
            Estava naquele ponto estúpido que só via importância no mundo com a existência da E-nig-má-ti-ca. Sem ela nada interessava, sem ela nada feito, sem ela nada satisfeito. Que o mundo se explodisse, implodisse, acabasse em maremoto, em barranco. Fora da Enigmática nem existia conversa. Fora dela nem existia paz. Fora dela nem existia viagem passeio em Belém do Pará. Fora da Enigmática nem existia D.
            Que era aquilo? Ouvi outro grunhido prolongado, aiuuu!... Ouvi passos dentro das sombras, perto de mim, cheeeepe! cheeeepe!... pela capoeira. Ou seria só o vento?, vuuu!... Qualquer coisa eu estava pronto para correr. Qualquer coisa eu sos ali mesmo e pronto. Meu coração vinha com o descompassado, tum! tum! tum!...
            Mais um crocitar, nhauuu!... cada vez mais perto. Estava indo pro calabouço? Parecia que estava indo ao encontro do cão dono do fogo. Outro casquinar, miuuur!...
            Puxei do bolso do casaco a garrafa de canha. Tomei bons goles. Tomei mais uns. A droga da bebida esquentava. Era horrível, esfolava a garganta, matava os bichos, esquentava, anestesiava, tudo isso. Parecia que fazia bem e dava coragem. Estava no meio da noite, ou seja, do nada. Eu mais meus olhos os que suavam. Minha alma tinha o vazio o vácuo cibernético. Meus ossos se chocavam lá entre eles mesmos e sem controle.
            Se eu sair desta sozinho eu prometo que serei uma pessoa mais tolerante com meu próximo, pensei, decidi, me comprometi, prometi, jurei.
            O vento mexeu com folhas nas árvores, as folhas resmungaram coisas que nem saberia repetir. Estava sem memória. Sem tempo. Sem pátria ou mátria. Uma vez quando Tupã nem era natural daqui, quando os rios eram córregos chinfrins, quando as árvores eram brancas nas copas, quando as montanhas eram de horizontes azuis, quando padre Diogo Antônio Feijó era Regente do Império do B...
            O garrido estava muito perto mesmo, tauuu!... Se eu tivesse de correr correria agora e para lá? Ei!, de repente nem enxerguei mais nada. A noite estava muito escura e fiquei preso no limbo. Só tateando o nada, meu! Olhei em volta e nem encontrei uma saída. Olhei meus pés, cadê meus pés?! Nem vi mais nada de nada. O rangido parecia vir do chão, debaixo dos meus pés, miiiuuu!... E aí, meu?!
            Que fazer numa hora dessas? Pedir sos? Uma ideia.
            O vento soprava o seu soprar de frio noturno. Os morcegos ou corujas ou urutaus criticavam, ruuu!... gorgolavam, gla-glauuu!... ali e mais perto, mais longe. Mais uma vez a noite me pareceu do outro mundo. A escuridão como um mar, um lago, um aquário onde estava afogado, preso, abandonado, ilhado, rodando, atolado até o pescoço. A noite do outro lado.
            Tomei outros goles. Escutei passos, leeeque! leeeque!... Alguém me espreitava. Alguém algo se aproximando. Um bicho que vinha no meu rasto? Coisa fantástica? O meu último dia de noite. Morrer encurralado como um mocó.
            E de súbito, do nada mesmo, alguém passou a meio passo de mim a meio palmo de mim e falou, disse pra mim?, disse que eu ouvi:
            - Boa noite!
            As nuvens pesadas e baixas mexiam com a treva. Noite mexida. O vento parecia empurrar tudo para o fim dos tempos e dos planetas e das nebulosas.
            Enquanto isso, conversei comigo mesmo. Outra ideia.
            Para falar a verdade, pensei até no meu tempo aqui entre as gentes na terra. O meu tempo reservado aqui na terra, etc. Eu pensei como um burro. Eu achei que o lugar nem, esse nosso lugar, nem levava a nenhum lugar. Esse lugar e nada era a mesma coisa. Eu achei.
            Olhei para o lado que vem a chuva, 20h22min.
            Eu acho, nem deixo nunca de achar, achei antes de hoje, nem termino de achar, embora nunca tenha realmente encontrado alguma coisa, acho e etc. Continuo conversando comigo mesmo. Ainda as ideias.
            Até hoje ainda nem sei quem era a figura se foi se existiu que me cumprimentou se me cumprimentou no meio daquele escurão. E me arrepio de pavor gelado: boa noite!
                                                                       ***
            Aqui nem tem rua de Cima, rua de Baixo, rua da Direita, rua da Araucária, rua da Matriz, rua do Ouvidor, beco Anambé, praça do Enforcado. A cidade ainda é novinha, já adiantado um quarto do século XX. Aqui nem vieram desfilar com seus narizes dignos muito dignos a princesa Isabel e seu marido o marechal conde d’EU.
            Uirá, com tudo acontecendo, a cabeça noutro planeta, as pessoas falando sem parar, etc., ela nem sabia o que fazer. Ensinaram pra ela, então, que deveria tirar umas férias longe de tudo e de todos.
            - Em que província você quer ir espairecer, hein, Uirá?
            Uirá nem sabia de nada. Nem sabia que isso seria possível. Mas pensou num lugar longe de tudo e de todos. Araxá, a cidade onde o sol nasce primeiro. São José do Norte, a cidade onde as águas se encontram. Conceição do Coité, a cidade bem mais em conta ao norte. E que tal Boa Vista do Cadeado. Escolheu:
            - Eu quero ir para as praias de Torres. Lá me aparecem uns lugares bons e lindos e oceânicos. Lá já aportou D. Pedro I nos outros bons tempos idos e antigos.
            A viagem foi marcada pelo mais absoluto sigilo segredo silêncio. E ainda lhe ofereceram boas opções:
            - Assim, praia Morro dos Conventos, Araranguá! Tem certeza que nem quer Itapira? Urupema é bom, hein?! Tem Belterra, Itajibá, Carmópolis, Santanópolis, Paranaguá! Temos ainda uma boa estada na aldeia dos arecuna, quem sabe! O parna das Emas!
            Assim, Uirá foi para as praias de Torres passar uma ou duas ou três semanas, conforme. A mãe acompanhou, meio de longe, quase nem saindo do hotelzinho, sol muito forte, dor nas cadeiras, pernas cansadas, a idade, subir e descer estradinhas de areia solta.
            Uirá andou ruas da cidade no centro, praça Conde de Porto Alegre, andou vitrines, andou satisfeita, andou flertando. Uma vez tentou trocar de nome. Queria se chamar Juranda, viu na placa de um auto. Os lábios de batom café, as unhas de verde e o cabelo de loira. Falava com o mar e queria saber o que ele pensava.
            - Se existe um tipo de pessoa que muito mais me agrada, é o tipo que trabalha trabalha oito horas todo santo dia e sem reclamar. Eu aprovo e comprovo e admiro e admito esse tipo de ser humano. Estou satisfeita.
            Ela chegou mesmo até a pisar as espumas do mar na areia da praia da Cal, e voltou correndo, foi até o mar molhar os tornozelos e voltou correndo. Uma margarida de corola amarela e pétalas brancas desenhava um enfeite preso à orelha. Chegou a ir até o mar molhar os pulsos, voltou rindo, rindo. Foi até uma certa altura pela cintura e cheirou o mar, mas saiu apressada por quê. Parou na areia. O mar vinha rasteiro e calmo beijar seus pés. Nem demorou muito, se decidiu, foi de encontro a uma onda, braços abertos, abraçar o mundo, e mergulhou. Emergiu nadando como borboleta subindo e descendo com a onda. Nadou pra lá e pra cá paralela à orla. Chegava um momento, parava pra boiar. O mar gorgolava no seu natural. O sal e o sol na cara tinha de fechar os olhos. O balanço estava como de um sonho na cama, ou rede de deitar na área.
            Subiu a duna da praia da Guarita rumo à casa de pedra abandonada, em ruínas, sem dono ou sem para-raios. Chegou no alto da duna, as pernas molengas. Mão em pala pra reparar o mar e o céu, tudo azul, todo sol e vento. Renda de espuma ziguezagueava até a areia. Ondas macias com sons do fundo do oceano. Nem era bonito, nem era exótico, era lindo. Algo assim muito incomum e parapsicológico e paradidático e paraquedista. Era bom olhar, e ela olhava. O mar a areia as nuvens raras que se mexiam. Aves marinhas bicavam o mar e pousavam no penhasco, gaivotas atobás albatrozes andorinhas-do-mar. O mar insistia toda vida em bater nos rochedos. O canto do mar. O mar estava calmo e se mexendo. Confundido com o azul do céu mais Atlântico ainda.
            Sabia que o vento e o mar sempre foram dupla poderosa, coisas difíceis de agradar. Os deuses que os movem acordam pela manhã nos humores. Bastam umas nuvens pesadas e empurram tudo que estiver pela frente. O vento berra como fera, e o mar quer teimar em desobstruir os rochedos da costa. O vento casado com a chuva, a chuva aumentando o poder da tempestade da procela. Um maremoto parece então querer destruir até a casa de pedra abandona. E pela manhã seguinte tudo bem, tudo fingindo que nem fora nada.
            A iemanjá a Uirá caminhou pela areia quente brilhante, se interessou, se agachou, caminhou, olhou, beliscou conchinhas trazidas pela água salgada, o mar no som da concha. Nem eram bonitas. Nem eram nem feias. Nem eram novidades. Nem eram coisas. Eram conchinhas deixadas pelo desejo do mar. Umas conchinhas grandes, outras pequenas, ainda mais quebradas ou derretidas. Passavam transatlânticos de Itajaí para Rio Grande.
A moça caminhou na ponta dos pés de ponta a ponta sempre interessada em conchinhas, corais, caranguejos, ossos de baleia, garrafas com sos. Recolheu o que pôde carregar. Ela era muito pobre de conchinhas e cia. Nem resistiu e nem sossegou e nem respeitou quando viu as coisas ali perdidas, sobrando, esquecidas, atiradas, naufragadas, deixadas. Uma vez pensou em devolvê-las ao mar. A moça espalhou as conchinhas onde quis, na casa de pedra abandonada, ilhada, pela trilha até a casa em ruínas. Se enfeitou com conchinhas algas peixes igual a Iemanjá da estampa.
            Mas então era confidencial. De qualquer maneira que se olhasse, isso nem vinha ao caso. Já encontrara coisas raras ou inusitadas jogadas na areia pelo mar. Uma manhã encontrou uma estrela-do-mar. Toda vermelhinha toda pontas toda empedrada e menor que uma estrela-do-mar. Um dente de tubarão. Só podia ser de tubarão ou cação. Uma garrafa de vinho vazia ou lâmpada de azeite mágica. Uma louça de cozinha lá de Atlântida ou de Costa do Marfim ou de Itacaré. Uma baleia encalhada. O cetáceo finou se debatendo por três dias e três noites. Pediu sos e rabanou um absurdo um escândalo um vexame um fiasco. As aves do penhasco só esperaram o último minuto pra se pincharem em cima como urubus ou quiriquiris ou tucanos-pacova.
            Nas asas das preciosas instruções instruções franziu a testa guajuvira-da-baía sacudida com o vento caíram os óculos sim senhor! sim senhor! a mão tremente junto da quirica ninho de abelhas em forma de balão pendendo do galho fora de si olhar fino no horizonte sucumbiu e desmaiou. O rosto se iluminou se iluminou e um sorriso campeão nos lábios secos e cantarolou:
            - Até a péee... nóoos ireeemos...
Mas o que a moça queria encontrar e nunca encontrou era uma garrafa com carta-mensagem do outro lado do Atlântico ou de um transatlântico espetacular ou ainda de um navio rebentado durante borrasca. A moça achava que saber uma história alheia de gente estrangeira seria de muita importância para sua própria autoestima autossuficiência autocorrespondência automóvel.
            Uirá vagava pela casa de pedra abandonada. Toda pedra, pedra após pedra, pedregulho, tantas paredes empilhadas, como uma gruta dos tempos indígenas. Com saudades de estalactites e estalagmites. Toda como uma fortaleza exposta aos quatro ventos e à chuva. Quando ventava frio nem havia para onde se esconder. No começo de sua construção a casa de pedra tinha tudo para ser um hotel, mas em ruínas restou mesmo como uma ponte ou trampolim. O porão sempre úmido, e em épocas de chuvas fortes todo alagado. As aberturas de portas e janelas sem proteção alguma sem teto. Nenhuma mobília. O mato rasteiro invadira, e os bichinhos esquivos e olhudos tomaram conta dos buracos e frinchas e frestas e rachaduras. O vento andava muito à vontade pelas dez ou doze partes. E se via de longe o monumento ao desperdício.
            Ela tinha um cômodo preferido, que usava para dormir à hora da sesta ou descansar do sol forte. Andava pelas partes da casa só para espairecer só para variar. De uma janela cuidava do mar, do mar cantando sua canção de força e azul. Por essa mesma chegava e invadia o melhor do vento sul. Da outra janela e da outra cuidava com mais um pedaço de mar e das rochas subindo a encosta. Da maioria das janelas abertas no ar se via o mar. Ou o céu azul de dia e por certo de noite. De outras e outras olhava a vegetação persistente que nascia e crescia com dificuldades entre a areia e o pedregulho os mandacarus as árvores-de-coral. Para lá, mais longe, o horizonte das montanhas, o interior do continente. Apoiava os cotovelos no parapeito no paraíso. Sentava ioga nas janelas, também. Andava pelos corredores com calma, com as mãos nas costas igual monge ou irmã de caridade. A casa arruinada era um lugar e pronto. Deitava na rede e relaxava. Embalada pelo vento que, antes de a embalar, percorria os cômodos, vinha do azul, chegava de longe longe. A casa de pedras era refém do vento. A casa construída de pedras grandes que dois homens braçudos nem podiam carregar. Encostada na janela e olhos de mar.
            Lá vem um barco será que vai pra onde e se D quiser? Deve passar rapidinho e ir e voltar entre São José do Norte e Laguna, pensou. 
            Tentou povoar a casa com andorinhas-do-mar. A casa de pedras abandonada e em ruínas só podia ter sofrido uma maldição. Houve um erro qualquer em algum lugar de alguém. Talvez o mar ou o vento nem quisessem aquela construção ali. O vento de repente pouco se importava, mas as dunas... Ah! as dunas nem se sabia o quanto detestavam aquela ou outras construções.
Ela ocupava a casa de pedras como um morcego ocupa uma caverna. Nem poucas vezes por dia ela corria as peças da casa. Parava numa abertura de janela e olhava o quadro no ar: um naco de mar, umas pedras e gaivotas no costão, umas aves trabalhando na colheita de peixes em voos suicidas. Mudava de quadro quando queria. Podia deitar no parapeito da abertura, fechava os olhos e escutava o que fosse. O vento passava muito muito pacientemente. O sol era mais frequente e azul. O vento muito rente muito rente. E o vento e a chuva vinham lá de vez em quando, uma vez ou outra, e nos seus diferentes agasalhos.
No bojo do alto-mar o agito nem era menor ou menos importante. Uns petroleiros carregados de guindastes amarelos e plataformas. Uns navios de porte grande lotados de caixas de aço coloridas empilhadas. Armas de guerra partindo para a patrulha. Eram aviões sobrevoando.
Uirá olhava a lagartixa na parede. Como olhar o bichinho verde, magrelo, de cabeça para baixo. Se a lagartixa quisesse, quando quisesse, podia entrar por uma dessas frestas e sumir. Uma aranha fazendo teia. À noite esses droguinhas caçavam muito. Uirá já acordara da sesta com eles investigando seu corpo quente. Para a lagartixa e para a aranha ela era um bom prato e mas enorme. Uirá e a lagartixa e a aranha nem foram apresentadas. Só se olhavam meio mal e mal. Uirá sabia da presença daqueles droguinhas. Os droguinhas paravam o que estavam fazendo e olhavam quem os olhava. Fácil saber o que pensavam. Cada um seguia seu por que da sorte do jeito do rio que foi posto ali no mundo. Uma lagartixa ganhava o dia quando alcançava outro droguinha abaixo da sua cadeia alimentar. A aranha sabia que a eternidade se manteria quando alcançasse também seu droguinha comestível. Aquelas pedras nuas da casa abandonada e em ruínas escondiam muitos droguinhas. Quantas vezes passarinhos mesmo paravam no peitoril para olhar. Os droguinhas com certeza nem sabiam que a casa em ruínas era diferente das pedras do costão. Uirá nem se relacionava com esses insetos e, de vez em quando, ouvia canções vindo dos buraquinhos na parede.  Os droguinhas nem eram feios e nem nada.
            Pois Uirá sabia talvez que aquelas árvores ou arbustos à beira-mar sempre seriam pequenas e tortas ou rasteiras. Ervas pequenas e espinhentas podadas pelo vento. Umas ervas subiam e desciam as dunas se arrastando tentando agarrar a areia. Uirá parava na trilha para olhar os tortos ingás-de-flor-vermelha. Uma ou outra erva dava sua flor por aí, solitária, novidade. Ela parava para olhar os tortos arbustos e até esticava a mão para tocar uma folhinha, a casca do tronco, o espinho desenvolvido. Eram plantinhas sem passarinhos ou bichinhos quaisquer. Uma erva rastejante, sem nome, dava uma flor amarela certa época do ano. As aves do mar também nem precisavam daquelas plantinhas. As aves faziam ninhos de pedras nas pedras.
            Decidiu várias vezes durante os dias contar as folhas do arbusto. E da erva agarradeira contar as pétalas da flor amarela. O que seria então o amarelo? Que tamanho e textura e que comprido? O sol era amarelo e sorria. Olhando bem, quando bem o chão aqui e ali, Uirá reparava e descobria outras flores selvagens. Que nem aguentavam muito por causa do calor. Contava as pétalas uma duas três oito dez. As flores cantavam o que gostavam de se mostrar logo pela manhã. E rios de formigas-de-ferrão e bandidas entre as pedras. As formigas sempre encontravam o que fazer.
            A moça catava coisas pelo lugar. Tudo que brilhava era novo. Penas de aves, principalmente evidentemente praticamente marinhas. Colecionou tantas que uma vez pensou em sair de cocar e de índia pataxó ou com os tais enfeites ararás. As peninhas nem eram coloridas, uma pena. Encontrou aquelas pedrinhas torneadinhas, caprichadas, para jogar cinco-marias. Levava horas jogando e se desafiando. E droguinhas de borboletas raras saindo pelo ar. Os guajás cautelosos subindo se escondendo no buraco. O cheiro de mar no ar livre.
            Uma duas caravanas de férias no mar. A praia estava boa o sol quente o vento tranquilo. Acho que são de Antônio João. A bola correndo no jogo da gurizada. O pessoal de Mata gosta de praia como eu como nós, pensou.
            Então sim, Uirá subiu as perigosas penedias, trepou bem no topo, e criar por lá os horizontes, fazer o quê. As aves se escandalizaram. Passavam velozes muito rente da sua cabeça, greeei!... Mas tinha navio tinha ilha tinha uma curva tinha uma curva.
Aí, num momento de sossego, ela se sentou na pedra para olhar o mar. Ali o vento cantava de outro jeito. O vento cantava mais oxigenado, azulado, mais à vontade. As aves de tipos marinhos variados cuidavam se perguntando que que aquela veio fazer ali no tão alto. Foi quando Uirá se lembrou que gostava de ovinhos de páscoa. Eram muitos ninhos ali. O vento cantava mais forte um, vuuu!... Ela pôs a mão e as aves gritaram de horror, chamando por socorro, por sos. Da mão em garra foram os ovos direto para o papo. Uma colheita com seus riscos pois podia tropeçar cair do penhasco.
Uirá ainda espiou o mar, aquele lençol azul com renda aqui e ali. Viu também a casa de pedras como uma caixinha de fósforos jogada. De cima a casa parecia mais como uma tapera depois do abandono. A moça riu vez que vez porque as aves eram muito engraçadas, com comportamentos no mínimo inusitados, insólitos, agressivos, rasantes, estridentes, piiireeéu!...
            Às vezes nem apareciam nuvens para a chuva do fim de tarde. Ela via lá fora o sol derreter tudo. Dias e dias sem vento. Nada piava. As aves marinhas no alto do penhasco se abanavam com o leque de asas. Nem mesmo trilhas de formigas-cortadeiras e bandidas. Ela nem queria paisagem de olhos ardentes. As pedras pediam água. Toda a vegetação pendia entregue. O meio-dia gritava um urro, uuuh!... de fervura, de fritura, de brilho insuportável nos olhos. Baleia-de-corcova mostrando a cauda ensinando filhote a nadar amamentando.
            Uirá reparou um dia que um cão vira-lata veio querendo pedir arrego, ser bicho de estimação. A moça mandou-o embora. O cão nem entendeu. Ela repetiu muitas vezes que nem o queria. O cão ia e parava, ia e reparava, ia e olhava querendo voltar. Sem amizade. A guria jogou uma pedra nas costelas do cão. Ansim sim o bichinho rosnou se convenceu.
            E o que fazer e esqueceu o que fazer.
            Não obstante, nuvens em forma de bicho, instruções instruções!, ananases-de-agulha, favas-de-besouro, pixiricas, mio-mios... nessa época do ano, saudade da quirica, seguiu as instruções contadas uma por uma nos dedos e desmaiou.
Ela estudava as rotas das formigas-correição e bandidas, mas só por acaso. As formigas as primeiras a deixar o céu, as últimas a abandonar a terra. As formigas-brasa batiam chocalho, bre-bri-bri!... e faziam arrastões nos ninhos das aves marinhas, no alto dos rochedos. Então, as bandidas em bando, milhares delas quem sabe milhões, caçavam filhotinhos vivos de atobás-pardos e os devoravam em minutos.
                                                                       ***
            Tinha um baile logo ali na linha General Osório, capela Santo Isidoro. Eu mereço!, pensei. A turma resolveu, nós fomos, eu fui. Um baile num casarão antigo de madeira e coberto de zinco. Um lugar bucólico com joões-tiriris piando no capoeirão e no meio das árvores içarandubas jacarandás-caviúnas ouricuris juremas-pretas guaranhéns-do-campo perobeiras... perfeitamente uma floresta tipo reserva Tapajós-Arapiuns.
            E eu estava dançando com a Caxangá. Uma vizinha minha recente também perdida por aí e encontrada. Eu já a tinha visto duas ou três vezes pela rua Itália naquelas últimas semanas. Vira ela de longe e olhava e ela me olhava nos olhávamos. E então, a guria estava no baile e eu aproveitei. Convidei. Ela respondeu, garota ma-ravilhosa:
            - Demorô!
            E dançamos os vanerões que pintaram, uns vanerões que até hoje eu duvido, que hoje já esqueci.
            Uma altura do baile eu pedi licença e falei para Caxangá:
            - Vou lá buscar umas bebidas e já volto rapidinho! Me espere aqui sentada, né!
            E desci, dito e feito, cheguei no banheiro, estava alagado, fui respirar um ar puro, caminhei um pouco lá fora, ventilei, fumei, resfriei a cabeça no sossego.
Na volta logo na sequência encontrei um camarada, até puxei uma conversa porque já reconhecia a figura, etc., era um vizinho novo, fazia uns dois ou três dias que já o conhecia, já tinha falado com ele uma vez no futebol, era o tal do Juá.
            E tive de contar a minha conquista dentro da minha empolgação e contei. Nem sei o porquê da minha emoção de contar e fui contar logo pro primeiro que apareceu. Mas contei a minha ideia e meu sucesso e meus planos daí para o fim da noite e tudo em cinco minutos:
            - Cara! Estou com uma gatinha, meu! Vou me dar bem, tu vai vê, meu!
            E prometi pro carinha ali feito meu ouvinte da euforia, jurei:
            - Vou derrubar a guria, meu! Quer apostar o quê?!
            E voltamos para o baile. Eu parei no balcão para comprar as bebidas. Queria chegar junto novamente da gata e já ir oferecendo qualquer coisa. Pensei isso e achei uma ótima ideia comprar uma cerveja de pasteizinhos fritos na hora.
            Subi a escada para o primeiro andar e o fervo continuava levantando poeira. Dei uma olhada procurando Caxangá... Ih, meu! A guria já estava dançando com outro tipo. Essa nem! Sacanagem!, pensei. Por que Caxangá nem me esperou, meu?! E murchei na hora e decepcionado. Me caiu o facão, como diz o gaúcho.
            Frustrei e tive de me conformar e me sentar na cadeira junto a uma mesinha e beber solito. Nem queria acreditar que a Caxangá tinha me feito essa palhaçada. E era possível.
            Mais tarde outro dia outro lugar vim a saber que a Caxangá era irmã do Juá e vice-versa.