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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 31




Elã

            Eu estava... nem sabia onde. No meio de um povo? No interior de um fogo cruzado. Num lugar reservado? No meio do mundo. Nem sabia. Para mim mesmo, continuava sendo um lugar anônimo e incomum. E com quem? Também nem sabia. E pior, eu estava brigando com um dinossauro um mapinguari. Um famigerado sem cara nem alma. Eu brigava com um tipo louco qualquer um demônio um monstro um robô. Tipo briga de rato porco cachorro graxaim e o diacho a quatro. Até o fim da terra e início do mar, até o fim do mundo e início do universo. Logo, porém, o inimigo arrumou um sócio e eu fiquei sozinho lutando contra três. Ah é, é?!
            Foi aí que eu corri. Os dois inimigos perpétuos atrás de mim e eu correndo como um desesperado, e como um desgraçado, um perdido, e como um condenado. E eu corria pela calçada de uma cidade grande estranha inimiga. Eles no meu encalço. Dois contra um eu ia ser logo alcançado e esfolado e destroçado. A rua estava povoada ou deserta? Nem fazia diferença. Nem me lembro. Nem vinha ao caso.
Uma hora me cercaram e tive que lutar pela minha permanência entre nós. Vi a morte ou as fraturas por todo meu corpo muito próximas da realidade, muito expostas à realidade. E lutei contra os dois mundos imundos controversos. Quer dizer, naquela horinha eu achei que lutava. No sonho eu lutava ou queria acordar. Me debatia como um chiru índio velho de guerra que nem foge à peleia. E no sonho mesmo era tudo muito próximo e violento e indesejável.
            Me safei dos dois amigos da onça e corri mais e mais campo afora. Andei pela linha do trem me equilibrando no trilho. Aí, chegou o trem e pulei em cima do vagão. Era uma maria-fumaça dessas que ainda existem nos caminhos de Espírito Santo para turista ver. Subi no teto dos vagões de passageiros para me esconder melhor. Que nada. Os caçadores de gente me descobriram me cercaram e vieram no meu encalço. Sorte que eu era o mocinho o macanudo. Pelo menos isso me parecia. Azar que isso nem era filme para cortar na hora h. Na ação me pareceu tão real! Conto porque foi mesmo um sonho. Mas deixa estar.
            E os dois na minha perseguição na minha cola. Eu fugindo porque nem podia brigar contra dois bandidos ao mesmo tempo. Como é que sabiam onde me escondia? Aí, então, sobre o teto dos vagões de carga, com o trem andando, os dois inimigos figadais me cercaram e ao mesmo tempo. O trem andando, a paisagem voando, de um lado um facínora, do outro o outro capanga. E eu entre tudo aquilo sem saber o que fazer, sem poder aproveitar a paisagem, desarmado, e um gaúcho a pé. Pular do comboio nem era possível, nem me ocorreu, poderia me machucar gravemente ficar rengo pra sempre ou até morrer de febre amarela, nem me lembrei de tentar pular nas águas do rio Carreiro do rio Mambucaba. Enfrentar os dois guaxos nem dava conta. Então? Que fazer, meu?!
            Acho que o sonho foi tão longo longe que acabei me desinteressando dele. Obrigado. E nem me lembro da continuação se era uma série. Sei que ainda nem conheço o sertão de Minas Gerais e Cuiabá e Gurupi e Sorriso e Esperantina...
                                                                       * **
            A cidade de Nova Prata tinha em 1990 os 18 mil inquilinos para os sicranos, 20 mil habitantes para os beltranos, 25 mil almas para os fulanos. Somando dividindo por 3 total: 23 neopratenses, autóctones e ou adotados.
            Eu me perguntava naquela ocasião, me perguntava naquele dia, naquela hora, naquela estação desta região serrana: a minha vontade está nesse mundo? O meu caminho está nesse planeta? Pode ser Candiota, Hulha Negra, Aceguá, Rio Grande do Norte?
            Chegou ali na farmácia um tipo de alcunha Tapiti. Disse que era pintor de retratos e de paisagens.
            - Conhece alguém que queira pintar o retrato?
            - Eu nem.
            Ele queria pintar retratos e esse era seu ofício ou profissão. Disse que era natural de Quixadá ou Maçambará ou Confins ou Belém de São Francisco... Mas que viera ontem mesmo passando por Fagundes Varela e onde fundou um atelier. Pintava retratos de corpo inteiro, pintava paisagens, naturezas mortas e o que for.
            Aí, entrou a intrépida acelerada Pirapitinga. Ela veio comprar uns comprimidos para a vovó, dona Catanduva. Solicitou o pedido, eu fui atender. Enquanto isso o Tapiti pra ela:
            - Conhece alguém que queira pintar retrato ou uma paisagem predileta?
            Pirapitinga, dois bicos de seios apostando em o por vir e apontando debaixo da camiseta, ficou em estado de choque estarrecida olhando assustada. Os olhos cada dia mais claros. Mas ela já tinha mesmo cara de assustada. E ficou olhando o pintor como se o cabra estivesse no horizonte. O pintor ficou admirando a guria. Ficaram assim. Ela olhando o artista e pensando. Ele olhando a gostosa de corpo inteiro e imaginando se imaginando e imaginando o que ele bem quisesse imaginar. Eu cheguei no balcão com o remédio da avó. Pirapitinga quis saber melhor:
            - Oigalê!... Como é que é, como é que é?
            - Eu sou pintor de retratos, pintor de paisagens, pintor de nus artísticos, pintor de naturezas mortas, etc., e eu desenho e pinto o que for.
            Pirapitinga já queria saber mais:
            - Mas, bah!... Quanto custa?
            - Pechincha.
            E o andarengo Tapiti acertou pintar um nu da Pirapitinga. Olhou ela de cima pra baixo de sul para o norte e imediatamente, com beiço para fora, sentenciou:
            - Guria mui prendada. Caso de começar amanhã mesmo. Claro que serve, hum!...
            Contingentes foram os ventos as nuvens. O rio passava contornando arrodeando. Das ordenações vindas diretas abriram dias claros de sóis e outras nuvens pinceladas conforme. Feixes de raios luzes em espectros de cores. As testemunhas foram muitas e as comuns os pássaros árvores automóveis programas de televisão. 
            Todas as tardes Tapiti chegava na casa da avó da Pirapitinga, enquanto a avó dormia a sesta, e pintava o nu em pelo da Pirapitinga. Foram algumas tardes e tal. Eu mesmo sapateava lá dentro da farmácia imaginando, olhando pela janela, excogitando, escavando o chão feito um touro bravo, e tudo por medo, por ciúme, por ansiedade, inveja, despeito, por nem sei mais quanto quê. Eu até respirava de boca aberta igualmente um cusco esfalfado.
            Depois de duas semanas Tapiti terminou a pintura. Pirapitinga atendeu minha curiosidade e trouxe a tela enrolada e enorme e retangular, corpo inteiro topografia deitada sobre um divã. Desenrolou na minha frente com amplos detalhes, demorados pormenores, cuidadas pintinhas espetaculares, carecendo ainda de uma boa moldura. Um mapa do tesouro da montanha ao vale. O caminho das índias ocidentais orientais. A lagoa Mirim preservada com a intacta mata ciliar, etc., e “me vou embora para Pasárgada...”
Eu admirei a fantasia dela e tal, falei, cuê-puxa!... estendida de corpo inteiro, muito cabelo comprido, dois bicos de seios apostando no por vir da humanidade inteira. E ela rebateu um grito de sapucai:
            - Quibibiu!... O que tou a fim de fazer eu vou e faço, e pronto.
            Tá certo!, pensei. Eu nem tinha nada com o peixe lá dela e seus pertences e a ilha do Fogo e seus parabéns.
                                                                       ***
            Íamos para o fim do ano letivo. Nem sabia se tinha ânimo de passar de ano. Seria bom. Mas seria bom muitas coisas, nem só passar de ano. E por falar em fim de ano, a Enigmática estava num muito bom do alto astral. Ela nem podia deixar de dar suas boas gargalhadas, mexidas de cabelo, badalos de rabo de cavalo. E dava gosto mesmo olhar e chegar perto da alegria dela. E todos achavam muito engraçado, agradável, interessante. Pessoa bonita famosa influente e o que mais tudo de bom.
            Eu nem tinha Enigmática, queria Enigmática, nem nunca mais ia ver Enigmática. Mas ainda Enigmática nem estava toda hora comigo e quase sempre longe distante isolada das minhas mãos. Eu merecia Enig, mas ela bandana na cabeça tinha lá com ela diferentes ideias e planejamentos.
            E ela ria de quê?, como sempre. Uma doce alegria de energia sincera.
            O rio o rio Pajeú se desdobrava corrente para que tudo saísse pontual conforme contento.
                                                                       ***                                                    
Então, eu estava ali no clube Imperatriz Leopoldina esperando as voltas do mundo, as voltas do bobo, e que rumo seria esse ou aquele que me vou?, quando me aparece a amiga Bicuíba-Cheirosa. E avoquei:
- Ei, guria! Vem vamos tomar um chima!
            De pronto nos abraçamos com entusiasmo com estrondo e satisfação de longa data eterna de espera. Grandes peitos que lhe davam uma caixa, meu! E falei pra ela a dois centímetros dos meus lábios molhados de quentura e ternura e carinho e carícia por carecer:
            - Conte seu vínculo profundo com o pago a querência o rincão, guria!
            Vai daí que Bicuíba-Cheirosa foi me contando, me revelando, e na língua dela, e os braços dela altos fazendo mil voltas em torno dos empinados seios, e me dizendo tudo que tinha se passado, listas ou relações, mangas curtas e axilas raspadas, e o que ainda pretendia:
- D fez do mundo uma história escrita nas estrelas. Um lugar como quase talvez brincadeira de roda ciranda. Uma tábua de xadrez. E um sinal de fumaça com um escolhido prisma.
            Bicuíba-Cheirosa parecia uma chirua muito mudada de lá pra cá, de cá pra lá, daqui pra ali. Parecia mais uma praticante de ioga que uma amada-amante, mais profetisa que filósofa:                                   
- E D criou a Bicuíba-Cheirosa, a protagonista. Me escolheu a dedo. A protagonista convencida. Se eu contar o triunfo que eu ultrapassei! A protagonista que, no mesmo dia, ri e chora e murcha.
Logo em seguida fez uma carinha de pureza extrema, um muxoxo, um biquinho retorcido para o lado. E ela ainda me disse, segurando a minha mão, bom juízo, segurando o meu ombro, o meu pulso, os meus dedos desta mão, segurando meu queixo, pronta para ler minhas linhas da mão esquerda, bom senso, cofiando minha barba tão rala que ela preferia as ralas:
- Eu sou uma pessoa profunda.
Tardes ansim em os dezembros dos verões sempre muito quentes e o olhar parado árvores na sombra, manga-do-mato, guarabu, corticeira-do-campo, alfavaca-de-cobra... mate sentado na cadeira de balanço na área. A pressão que o mundo se tornava para adquiri-lo, Uauá, Sítio do Mato, Ipueira...
            - Continue, guria. Estou ouvindo. Estou gostando.
- Sério?! É que no limite entre esse nosso mundo decorado de amarelo e de vermelho e de verde, está o outro, está o mundo espacial da luz e da nuvem e da lua; está o mundo dos puros e das purezas. Os anjos e anjas que viajam de estrela em estrela a bordo de estrela cadente. Os puros que são mensageiros de religião, re-ligação.
            Fomos sentar numa mesinha plástica perto da piscina, entre nós e a piscina uns janelões abertos, o barulho dos mergulhos, o burburinho das conversas, os risos depois das piadas moleques, música ambiente, uma porção de outros ruídos e nós dois ali se olhando nos olhos e trocando conversas e apertos. O corpo dela tão giz, cara! Quantos banhistas saíam pingando da piscina e se recolhiam à sombra dos caramanchões cobertos de ramada ou quincha. Ela mesma olho vivo e com suas ideias extraterrestres:
- Mas no início, antes do espírito santo, D se comunicou com o primeiro casal de humanos através de dois barbantinhos esticados. Num amarrou uma banana e noutro um planeta. O casal se deparou com esse enigma, esse dilema, cheirou, tocou, pensou e pensou, passou a língua, balançou, trocou um olhar enamorado. O casal sabia, por apegada intuição, que era jogo de independência ou morte. E conversaram por horas e dias e semanas. De mãos dadas se dirigiram ao centro do universo do problema e pararam em frente do portal e escolheram... a banana.
“Sou a protagonista, mato um boi, choro agarrada aos pilares e pilastras e paredes nas noites de tempestade, faço promessa aos santos prediletos, tenho pavor de vacina, tenho um time de futebol. Na época que aguardava meu quinto irmão, nem aceitava colo de estranhos, tinha pesadelos no escuro, acreditava em anjos anjas e juruparis. O tempo e o vento contavam cinco ou seis revoluções intestinas, a lua fazia poças na água parada da chuva e rolava uma chupeta ou mamadeira com leite morno. A escuridão era uma velha senhora de longos palas e ponchos e saias e vestidos e mantas e mantilhas.
“Meus primeiros heróis - já toda protagonista tem seus heróis ou heroínas, os mitos, as lendas - foram avó e avô paternos. Avó adorava mentir a respeito do clima, e só caminhava arrastando, estalando, plete!... e plete!... as chinelas pretas de couro cru fechadas na frente. Avô aproveitava o pequeno espaço sem o dente de baixo para cuspir com estilo. Tomavam o chimarrão quente depois das 11h e 12min e das 17h e 18min. Isso no inverno ou no verão, dia comercial ou feriado, enlutado ou nem. De manhã cedo se exercitavam pela área olhando o sol nascer, a algazarra dos espaços assobiantes, japu-verde, arapapá, supi, sabiá-laranjeira, teque-teque... o pinheiral do outro lado da estrada vicinal. O Tanatau seguia farejando as chinelas do velho ou da velha, acoava na capoeira, corria atrás dos autos. A terra era dos gigantes. Eu uma figurinha do tamanho de um inseto uma formiguinha uma iraxim.”
Pedimos uma cerveja ou um chope de colarinho. Nem sabia que ela tinha feito faculdade de geologia na UFSM. Pela janelona aberta víamos o gramado, as árvores se mexendo, bucarés, ouricuris, jenipapeiros, buritis, pitombeiras, tinhorões, arubatãs... a luz do sol nas crinas altas das copas, os passarinhos passando, andorinhas trissando em preto e branco ou azul e branco, pios, trilos e gorjeios espalhados porque bem distribuídos. A frase dela coleou no espaço aberto do dia propício, um dos melhores dias dos meus tempos, ruídos de buzinas tráfego na rua Manoel Viana, faro fino, algazarra dos piscineiros:
- Cada dia sou diferente. É o que te digo. É o que me consta. Mas, também, um tempo, minha mãe comprou um desses quadros de anjo da guarda. Era uma figura de saiote até os pés, duas asas muito altas de jaburu ou beija-flor ou carnaval, feito de cores de água e de céu e aí fiquei sabendo: parecia com mulher divina. Estendia os braços alados colocando as mãos de penas sobre as cabecinhas das crianças. A gurizadinha brincava despreocupadamente junto à fonte e ao abismo. A mulher-ave, um ser perfeitamente translúcido, sonhada e ideal na paisagem tranquila.
“Comecei a fugir de casa nos desenhos animados e nos desenhos de gibi e nos desenhos de caderno escolar. Juntar coleção de papel de bala, olhar da janela, comer bergamota quando era época de bergamotas, abraçar e beijar as bonecas como as atrizes com os atores nas novelas. Dava nome às coisas. Conversava com árvores. Eu tinha alguma coisa com árvores. Queria viajar de trem. Um mundo cheio de piscinas olímpicas e sol e laranjas e guerras de carrapicho. Fui protagonista com a bicicleta, corri na chuva, caí da bíci. Conversava com os sonhos. Conversava comigo mesma. Conversava com as árvores. Conversava com as plantas, tamatarana, flechilha, carqueja-amargosa, quina-cruzeiro... Eu queria entender de ouvir as verduras.
“Há Protagonistas e protagonistas. Eu via o mundo. Procurava minha identidade, batia a cabeça procurando, tentando alternativas. Uma viagem de gaiola pelo rio Madeira ninguém paga.”
Estava me sentindo giz ali ouvindo Bicuíba-Cheirosa falando e tentado alçar voo agitando as asas arpejando. Nem sei se contava tudo de verdade. A moldura da janela, a natureza verde em pleno dia, andorinhas em guerra de mentira no céu, curiós, pararis, anus-pretos... risos da galera na piscina, a música na desarmonia das vozes:
- Eu falei a protagonista eu esta pessoa mesma aqui presente. Tirei meus olhos das nuvens e descobri: estava no mundo. A protagonista estava no mundo. Mas nunca fiz parte da elite. Mas então nem nasci para mandar no mundo. E em que mundo vim parar.
“E para você ter certeza eu te conto. Fui caminhando assinzinha, peguei o trem na estação Xambioá, ninguém me dizendo nada de novo a respeito de seres de óvnis, o quadro alado na parede do meu quarto, etc., importante que as ruas são presenças assíduas nos poemas de Mário Quintana. O poeta andava pelas ruas de Porto Alegre, Sergipe, Brasil...
“A protagonista fugiu da casa sitiada. Por tempos andou na floresta, nas tocas das onças-pintadas, passou frio e calor, o isolamento nas noites de uivos, dançou xotes e polcas e fandangos e havaneiras nos bochinchos de galpão. Quando deixou o labirinto da floresta, deparou com o vasto agreste de pedras, mandacarus, xiquexiques-do-sertão, canudos-de-purga, juazeiros... miragens, caminhos cruzados. Durante dias e noites varou tempestades de poeira. Por fim encontrou uma birosca um boliche de beira-estrada e contou sua história entre um trago e outro gole aos guascas queras gaudérios calaveiras e chinas.”
Ali pelo clube nem soprava vento que os umbuzeiros já nem soubessem. Tinha uma brisa ocasional incidental e a preceito. Outros grupos humanos se formavam aqui e ali espontaneamente. A voz do vento, o sopro de cada palavra, cada cor, cada ritmo e a frase um feixe de modelos na moda em plena passarela tapete vermelho:
- Que me tocava fazer? Quando avó morreu, também avô morreu. O casarão que nem seria mais o mesmo. Os quadros da sala de visitas se dispersaram. Venderam as árvores, o jardim com aquelas flores esquisitas, os tico-ticos, os canários-da-terra, as arribações, os anambés-raio-de-sol... e que vinham se divertir no pó vermelho entre os canteiros rodeados de tijolos ou telhas ou pedras.
“A protagonista procurava paisagens. Nessas horas que eu ficava por um triz como de vez em quando. Eu que maior parte ficava chateada como sempre. Mas, daí a pouco, a protagonista ficava quieta como nunca. Nem chá de camomila nem limonada nem açaí me prefiro mesmo o café.”
O vento soprou um bafo quente passando rápido pelos janelões corridos. Algumas músicas pairavam no ar com muito custo. Gurias andavam de biquíni tão na moda, tão na moda, que nem eram mais os biquínis do verão do ano passado. A frase espaçonave e brilhando ao sol e ricocheteando nas lajes e ladrilhos e potes de aráquis:
- Mas para que me afobar, né?! O mundo pode ter anjos e anjas. O mundo carece dos guaxi, dos juruna, dos mápanai... Seria correto se porfiassem também os pacus, dourados, surubins...
“Mãe esperava meu sexto irmão, uma guria bonita que só vendo. Eu muitos bisonhos e pouquíssimo poder. Entrei para a escola o colégio 11 de Agosto e lá conheci a Juçara, a Ariramba, a Cutipuruí, a Paranaí, o Ariquém, o Paxaú, o Timbatu... Acho que me apaixonei por Ariquém, natural de Bom Jesus da Lapa. Mas elas e eles nem davam bola para mim. Ariquém tinha uns olhos garços, e bastava. Ah!, e sardas no nariz, e nas faces, e nas orelhas. Minhas amigas sempre foram as primeiras alunas em matemática. E hoje o senhor Ariquém Massapé parece que é um tuxaua pai de família, trabalhador da loja de tecidos Nhupicanga, casado com a mesma mulher a Guariúba que pintou os cabelos de verde, sustentam ainda os dois filhos maiores a Ruana e o Ruão, uma cadelinha a Jacina que levam para passear em roda das ruas do aeródromo todo santo dia sem falta senão ela chora aí pelas bem cedo 05h e 05min.”
Compenetrado com a paisagem, bebericando meu chope no ponto, eu via o mundo lá fora trepidando, trepidando absurdo, talvez giz a seu modo, embora agitado, tocado por magia de gurias com biquínis verdes, amarelos, outras cores misturadas combinadas. A frase rindo solta, a boca de Bicuíba-Cheirosa, cabelos molhados das gurias na calçada pegando fogo a ressolana corpos verdes e tenros:
- Sempre gostei de me ter azul. O contraste da pele bronzeada com o azul-turquesa é proveitoso.
“Pois eu gosto de anjos, e nem me desculpem, e nem me arrependo. Anjos ou curumins arteiros, peixes feitos de luzes de cores, etês com asas de pato-de-crista ou gavião-de-penacho ou marreca-cabocla. Uns acham que é mentira. Há beleza e leveza nos sonhos, nas mentiras, nas alegorias de passarela e carnaval.
“Uma manhã, aquela manhã de camisa manga curta, que podia ser aquela mesma manhã, ou a minha com a sua manhã misturadas, fui à biblioteca. Logo me vi invadida de livros por todos os alados. Muralhas de livros de diversos países e pessoas e bichos. Tudo cheirando a livros presos em os pombais, nos currais, nos calojis. Comecei ali a perceber que nem ia poder dar conta de todos. Um fim de mundo e me abracei. Gostei dos rios das montanhas das capitais das baleias dos animais pré-históricos da invenção do avião da origem do guarda-chuva das cavernas de inscrições rupestres no Piauí dos índios da tribo guanaré com vincha no cabelo mais a pena de nhandu. Perdida desassossegada e meia nos rios das figuras das viagens das expedições pioneiras.
“A protagonista acordava dias bons e outros nem tanto. A descoberta do ouro das pedras preciosas mandava escrever no caderno mil e quinhentos século dezesseis vezes a mesma frase, até acordar. Um vizinho me convidou para subirmos no alto da guabirobeira, baraúna, copiúva. A folhagem fechava tudo e beijos, beijos longos, pedagogia de abraços, apertos, cócegas, arrepios, longe dos olhos gerais.”
Eu mesmo senti uma ansiedade de tocar os dedos da mão da amiga Bicuíba-Cheirosa. Mas nem toquei, mas esperei. Aguardei com economia de gestos. Os raios de sol se infiltravam pela janela aberta, o riso dos passarinhos, o vento perdendo as borboletas sobre as flores de um canteiro, e a frase do dia, os sons que eu via, os sons que escapuliam, a frase manhãzinha da tarde:
- Todas as mulheres são anjos. Todo anjo é anja. Toda cunhantã gosta de viajar. Dizem que da lua se vê a cicatriz ziguezagueante da serra do Rastro ou a BR-101. Horas e dias, meses e anos, séculos sem tréguas, os homens e as mulheres e as crianças, os povos, milhares de famílias, gerações, quantos nomes escritos a carvão, cafuzos e caboclos e mulatas, deixaram seus sonhos sob as pedras da ponte Rio-Niterói. Sei que pedra a pedra, de mão em mão, as caçambas os carrinhos de mão as picaretas e as pás de terra, os longos invernos e os tórridos verões, ajardinaram o Anhangabaú o viaduto do Chá. A capital federal aberta à visitação parece uma obra de arte. Uma obra muito, muito anônima como se fosse a própria floresta ou uma montanha ou uma catedral.
Como porque a tarde macia, que o sol ia puxando tranquilo para si, e as cores mais ou menos, quando muito até emudecer. A janela aberta negociava o dia passarinho, duas nuvens se trocando no poente, vá lá que sejam cinco da tarde e a frase pronta e acabada, a frase escalada, a frase assim distribuída aos convidados:
- Conversar com os rios as almas espíritos entes fantasmas? Ando pelas ruas da cidade conversando com vira-latas, com árvores, comigo mesma. Até que ponto o poeta acreditou nas suas ruas do Portinho? Certa altura fugi de casa. Parecia ser para sempre, mas sem volta, mas sem saída. A protagonista conheceu alguns caras, nem tantos, e que vivem na imaginação, monarcas e maturangos. Caras magníficos caras necessários caras no momento certo escolhidos ocasionais baio alazão zaino tordilho azulega mas nem necessariamente nessa ordem. Quantos pilungos redomões tambeiros uma protagonista deve ter acontecer hoje em dia? Amei os meus caras até onde eles puderam. Até onde puderam comigo e vice-versa.
“E aqui estou marcada por jagunço cangaceiro. E a protagonista só podia contar comigo mesma. Talvez esteja me repetindo. Fui procurar trabalho, me concentrei e até que o futuro pesou na consciência. Fiquei chocando meus próprios ovos. Os planos mudaram como mudou a viagem mudando o itinerário. Aprender a paciência. Um monge chinês sabe a ciência da paciência e eu queria ser muitos monges hibernando no templo-palácio de pedras diante da montanha. Todo santo dia aprender a ouvir; a paciência exemplar dos santos do dia. A ave símbolo do Pará o pavãozinho-do-pará. E os sacrifícios antes e só depois os milagres. A protagonista já já urgente no seu mundo padrão. Tenho vários irmãos e todos espalhados pelaí. Nem sei como.
Pela abertura eu acompanhei um avião teco-teco roendo contornando o perímetro urbano. Era realmente uma tarde de verão patrocinada pelo céu bonito límpido. A frase que veio e que pousou que repercutiu:
- Você já viu essa, meu querido navio de velas enfunadas?! Um reino foi invadido pelo exército bagual. Muita gente morreu na escaramuça e dos dois lados. Muita gente morreu defendendo a pátria e a roça de batatas. E a família imperial foi julgada culpada ali mesmo no meio da praça Oswaldo Cruz, diante de todos, no marco zero, no pelourinho. O puava vencedor republicano queria ridicularizar dobrar o corincho do imperador e sua prole. Por isso o deixaram nu e o insultaram. Mas, me contaram, o imperador nem chorou. E pegaram a imperatriz e fizeram a mesma desfeita e outras patifarias vilezas. Mas o imperador nem chorou. Por isso pegaram as duas princesinhas e as deixaram nuas e as insultaram com risos deboches e dedos em riste. Mas o imperador nem chorou. Por isso por desfastio pegaram a escrava mais velha mais cansada e frágil e louca do palácio Imperial de Petrópolis e a deixaram nua e a insultaram cuspindo na cara. Mas aí o imperador chorou.”
Nós dois estávamos gostando daquele dia, daquele hoje suave, daquele ambiente de piscina coletiva brincante berrante, etc. Bicuíba-Cheirosa me contando passagens da Bíblia e que eu nunca jamais em tempo algum saberia ler. As janelas para a tarde de sol que já ia tombando, a frase dando voltas lá por fora como um pássaro procurando o melhor lugar, o poleiro de sempre na árvore de sempre, o lugar na mesinha do bar:
- Será que a gente vai e volta muito? Para que que serve reencarnar, por exemplo? A protagonista tem seus limites, cansa, olha para trás com saudade, e quem olha para trás volta. Basta estar aqui na tarde festiva? Cada um crê no que quer. É melhor deixar pra lá.
Mandei vir dois outros chopes e estalados de frio. Tinha conhecidos em Serra do Ramalho que sempre todas as férias me insistiam que fosse uns oito dias por lá. Eu gostava da hora assim na beira da piscina, de frente para minha mina, ouvir ela falar, o vento empurrando a frase com moderação, olhos negros como seus olhos como seus cabelos negros se sacudindo contribuindo para os reflexos dançarinos:
- Derrotada, a protagonista nem é mais protagonista, é uma fracassada. Nenhuma desculpa aliviará a vergonha de perder. A protagonista é uma protagonista qualquer. E nunca se aprende a perder. E sempre se perde. A protagonista está próxima do nada. Cada vez que se perde se perde mais. Nem há tempo a perder a ganhar a protagonizar.
Umas gurias passaram desfilando pernas que só vendo. Tinha uma guria principal com um calção verde muito sensual e meu olhar acompanhativo. Pela janela aberta meio que brilhava o ar dos morros em contorno da cidade. A logística de cada cidadão me comovia. Morros selvagens de arvoredo e tocas de esconderijos para mãos-peladas, jurumins, bacuraus-cauda-barrada...
- A protagonista gosta de sair de férias, sozinha, sem máquina fotográfica. Os rapazes olham mais. Que dias foram que eu estava em Foz do Iguaçu, Ceará.
Quantas vezes olhei em volta, e o gole de chope, quantas as mesmas olhadas que admirei o pescocinho lindo com a correntinha de ouro e crucifixo em o vale do paraíso. Em toda parte gente procurando gente e os murmúrios e os sussurros e os cicios e os cochichos. A frase se arrumando, escorrendo pela hora do ambiente, pensando como frase e pronto, em trote de pingo manso no rumo de casa:
- O auto fechado surgiu na quebrada da rua deserta, mas faiscando de sol. Escutei seu ronco determinado dominador de motor. A protagonista tinha dó de si. Nem lembrei se era crente. O carro estacionou com ruído terminado em, rrrrraaah!.. Então, espere!, a poeira baixou, o carro esperou, o carro nem abriu a porta, o cara do carro nem apareceu, o vidro fumê do carro impediu que eu visse o interior, o carro esperou a encomenda se dignar e chegar ela mesma pelos seus próprios passos até o alçapão.
“A protagonista sentiu a casa trepidar. Caiu poeira do teto. O chão afundou balançou desequilibrou, meio molenga como as ondas de mar ao navegar. O Tanatau latiu assustado recolhido debaixo da mesa. As velas se apagaram, as flores murcharam, os cristais trincaram e nas paredes as rachaduras correram em ziguezagues. Os encapuzados ergueram carregaram no ombro e levaram com o pacote.
“E digo mais, a protagonista sentiu teias de aranha na ponta dos dedos nos buracos das narinas nas pálpebras. Vultos parentes comendo bolo e tomando café aparentemente praticamente conformados. A sensação de formigamento se alastrando pelo corpo. O pensamento nem ia a lugar algum.
“Então, os matungos puxaram o carro que foi andando em câmera lenta entre as alas de ipês-amarelos e ipês-roxos e jacarandás-cabiúnas e tapirás-caienas, juquis-de-cerca, espinhos-de-cristo...
“A rua D. Pedro II terminou em portão de ferro pintado de cal branca. Capelinhas de pedra basalto polidas e lustradas de um verniz. Crianças correndo de pega-pega esconde-esconde empurra-empurra... Cruzes de mãos espalmadas para o alto ideia de assalto ideia de terror a gaveta o buraco.
“O tempo passou, e passou tão rápido que apenas ensaiou. E eu vi a protagonista passando por mim. E que tinha ficava grilada de sublimar em privada pública. Os cães são de raça mas perguntam a mesma coisa. Ela que nem nunca aprendera tocar soubera cantar.”
Algumas árvores alguns passarinhos transvoavam ali pelo ar lá fora na tarde que diluía. Era tão tudo agradável que me senti por um triz. As janelas abertas, e a frase anunciando viagens para a Manaus, o Pernambuco, o Brasil:
- A protagonista desossada fantasma. Subi a escalada do espírito, deixei o resto para trás, saí do resto. Subi e fui embora, total: me separei. E nem restou mais nada mesmo. Bem ou mal que olhei para trás, acintosamente.
“E, pronto, o meu anjo ou anja era eu mesma. O meu espaço acabara. E que o tempo eternizara. E a consciência sem memória era aquilo mesmo e muito bonita. Nada mais me pesava, estava assinzinha, estava ali, estava por ali, estou zanzando. O meu ser de asas era eu completamente eugênias vapor. Uma fumacinha ao vento, chama sem calor, sem sal, sem som. Quem dera o azul.
“A sorte da protagonista, então, era leve, menos que vapor. Já quase chegava. Ah!, nem queria me esquecer que um dia queria conhecer a Amazônia. E a protagonista, um mito, sua memória, ficava assim. Até porque, quando se vai, nem se pode fazer mais nada. E voltar na pele de uma planta que pode ser a minha escolha a hortelã-do-campo...”
            Sendo tudo dito, tudo isso mesmo, a amiga Bicuíba-Cheirosa pegou da bolsa pendurada no encosto da cadeira e foi embora. Antes me revolucionou com uns beijos alegres enérgicos babosos descabelados bem perto da boca. Juntamos as mãos e fomos andando um bom pedaço até o estacionamento entre árvores, ingás-ferraduras, mapatis, dormideiras... E me apertou as bochechas como quem diz ou desdiz ou atriz.
                                                                       ***
            O astro recém-criado recém-amanhecido recém-dourado com o vento recém-chegado recém-soprado e as árvores recém-achadas recém-descobertas com o rio recém-formado recém-brotado todos juntos uniram as mãos e matricularam a recém-amada a recém-nomeada... Enigmática.
E eu queria estar em outro lugar e a toda hora. Da farmácia eu olhava umas imagens, uns filmes na tevê, documentários de Goiás, Mato Grosso do Sul, Chorrochó, rio Verde Grande, e me perguntava: será que eu poderia viver melhor em Vitória, Espírito Santo? E se eu fosse morar em Maceió, Paraíba? E se eu pedisse emprego num transatlântico costeando o litoral brasileiro, entrando pelo rio Trombetas, subindo o rio Pirapetinga?  E se eu morasse na ilha do Bananal? E se eu conhecesse os índios jarawara e aprendesse a comer pati moqueado? E se eu fosse guia turístico em Marajó? E se eu pedalasse até Teresina, no Pará? E se eu tivesse nascido em Arujá? E se fosse o filho predileto de Rio Branco, Roraima. E se merecesse Centralina e Aimores e Canudos no Mato Grosso do Sul.
            Sem o que fazer e o que inventar, parabéns pra mim!, fui até ali e olhei a rua Itália, com esquina da Candiru, a rua pouco movimentada as árvores andando em fila, bicos calados, verdes, árvores, aroeira-vermelha, cambará-de-meia-légua, salgueiro-do-mato, caixeta, canafístola... os pássaros ao léu atingindo o céu de amarelos, total: céu limpo chuva talvez no cair da tarde e eu nada eulalia.
                                                                       ***
            A grande minha eleitora Cotia mandou um recado decoroso delicioso deleitoso desditoso pomposo:
            (Meu amigo e coisa e tal, vou te presumir: meu horóscopo de hoje me disse isso, vá lá: “Escorpiana: precisa explicação? Quer explicação, hein!, escorpiana? Explicações no romance? Está precisando e querendo e buscando uns carinhos e amassos e apertões e nem estão lhe dando a mínima? E nem se trata ou nem se quer mudanças superficiais, nem é mesmo? Se trata sim de mudanças que mexam com bases emocionais profundas, profissionais, essenciais, salariais, abissais. Considere, minha amiga, a possibilidade de mudar mesmo e muito de assunto de conversa de categoria. Mudar ideias, mudar as cores, mudar de ares, mudar de galáxia, mudar o ritmo musical do vizinho, se você quiser. Aquela que está no escuro (escorpiana), está perdida da luz. Sabia? Pare e pense nade até a margem e respire fundo, sim!”
            Bem, meu bem e meu amigo, isso foi meu horóscopo que falou e disse. Agora o que eu acho... O que eu acho segue a seguir: em outras palavras, acho que você nem veio ao mundo para me dar segurança ou ser a minha outra metade. Você é imaturo, meu amigo. Você é uma criança grande. Você é milimétrico - com as devidas raras exceções. Nem deve mais me procurar. Nem leve a mal, nem leve pra esse lado ou o outro lado, mas... adeus. Estou sincera e a sinceridade dói, mas nem mata nem montanha. É melhor assim, antes que a gente se complique ainda mais, nem é? Procure a sua turma a sua santa a sua mina. Nem, nem leve a mal mesmo, adeus e antes que a morte nos separe porque o amém é para todos, fui!)
            Com as tais poucas palavras, assim mesmo, sem explicar muito bem, Cotia me mandou passear. Foi? E eu merecia?  Me perguntei ainda e achei que todos naquela hora, na mesma situação, fariam se perguntar também: o que foi que eu fiz, meu?! Ah, nem falá! Telefonei:
            - A princesa... Cotia está?
            - Nem. E nem sei praticamente se ela saiu ou se nem saiu pois nem voltou.
            - Hum...
            - ...
            - Tá bom. Eu telefono mais cedo ou mais tarde, certo?
            Era um domingo de tarde e eu preferi esperar sentado. Depois fui lavar o carro da família na frente da garagem e ouvir sempre ouvindo música do musical da rádio local com os sucessos da parada sertaneja. À noite, telefonei novamente. A mesma voz neutra adoçada de sucos naturais ao telefone, a mãe de Cotia:
            - A Cotia se encontra, por obséquio, dona Itajuba?
            - Está no banho. Entrou agora mesmo. E ela demora um século por quê...
            - Hum...
            - ...
            - Tudo bem. Nem tem nada, nem. Eu tento daqui a pouco ou depois ali pelas 9, tá?!
            Uma hora depois, uma hora e meia depois. E como fora difícil ficar preocupado sentado todo aquele tempo. O canal dos repetecos o canal das reprises o canal dos documentários os tais e quais amauaca vendendo cestos de taquara na rua da cidade e comprando sorvetes e picolés. Meia hora depois, insisti:
            - A Cotia?
            - Ah!, dormir. Saber como ser, né?! Amanhã cedo colégio. Difícil acordar hora noite. Quinto sono. Sonhar anjos voador.
            - Hum...
            - ...
            - Fica pra... adiar. Fica amanhã, q sabe, né?!
            E só assim nem me convenci de uma realidade amarga e clara e estranha. E só depois desse ponto que nem resolvi pensar melhor para nem entender melhor. Era o fora. Passagem de ida.
            Sempre achei que o sonho compensa melhor que a realidade. O que aconteceu entre mim e Cotia provava isso mesmo. E é bom sonhar. Mas eu queria mesmo era viajar. Quem sabe viajava para Macapá, capital do Acre?, pensei. Viajar para Alpinópolis, hein?! Visitar Verdelândia, né?! Vai ser giz assim lá em Cacequi, cara!
            Foi mesmo por um dia daqueles que conheci duas turistas paraenses. A Mucuri, cabelos lisos até os ombros, me fizeram sanduíche, e a Ururaí, cabelos crespos até os ombros. Vieram muitos em bando conhecer a região daqui dos parreirais, dos invernos rigorosos, das araucárias, dos pampas, etc. Vieram em famílias clãs parentadas com os ônibus lotados e tal. As duas lindinhas me conversaram, falaram sobre o Pará, sobre Belém. A Ururaí descansou a mão no meu ombro, me olhou de cara boa e perguntou:
            - A maioria de vocês aqui tem esse olho claro, é mesmo?
            Então a Mucuri me empurrou um passo pro lado e me falou dentro do meu ouvido esquerdo labirinto o mais confuso o mais barulho do mar e soprou:
            - No alto inverno de vento frio e geada vocês dormem de pelegos na frente da lareira, nem é?!
E me disseram mais ainda que tem uma praça lá em Belém que está cheia de castanheiras-do-pará e espalham muita sombra e vendedores de coco verde. E no subsolo da praça aparecem diversos túneis e grutas e degraus onde se esconde a boiúna. Ou onde se refugiavam escravos do tempo da colônia. Ou por onde os padres jesuítas arrastavam seus tesouros, percorrendo várias igrejas que moram ali pelo centro da cidade até alcançarem o porto que está mais lá longe. Olha essa! só pensei, acho que vou conhecer muito tempo lá em Belém do Pará.
                                                                       ***
            Acordei no meio da escuridão do meu quarto. Sonhei que me perseguiam pelo sem fim de ruas da cidade tumultuada. Um bando de coisas ruins. Depois um bando de cães ferozes. Acordei sem vontade de acreditar na hu-ma-ni-da-de.
            Eu quero entender de árvores e suas paisagens, pensei.
            Acordei bufando no meio da noite. A casa em tenebroso silêncio. O silêncio da escuridão da caverna do túnel do presídio do corredor de hospital.
            Que horas? Olhei o relógio: três e trinta. Mesma coisa que duas e trinta, quatro e trinta, cinco e trinta. Por que nem sete e trinta de uma vez?
            Eu fugia sem ter para onde fugir. Sem saída sem remédio sem defesa sem chegada. Me escondia num buraco e eles me achavam, corria tudo que podia e eles me alcançavam, me caçavam, brigava com unhas e dentes e eles me quebravam todo. Uta! que combate.
            Vento ou rio ou guria me levou julgou pesou esperou e me trouxe.
            Esperei o dia surgir com toda luz, a certeza do calor, a sensação dos objetos comuns presentes. Esperei o cantar dos pássaros, o fru-fru das árvores, esperei o ruído dos carros, o transtorno da rua movimentada, a padaria vendendo na hora pão feito ali agora bem quentinho.
            De olhos abertos contei muito e acordei com o sol batendo na janela da paisagem em as cores aquarelas responsáveis.