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sábado, 25 de janeiro de 2020

O Lugar Onde Tudo Começou (juvenil)





     Lilás saiu do banho com toalha enrolada no corpo e toalha enrolada em espiral na cabeça. O dedo fura-bolo no ouvido. Que horas? Era cedo. Pássaros sabiás-laranjeiras e outras aves cantavam sem parar na manhã de sol. Anunciando chuva.
     A guria tinha uma cascata de perguntas, mas era bom deixar para depois.       Se olhou no espelho, e se olhou na manhã. Acreditou e cantou e saiu cantando:
     - Oi! Eu te amo, o meu dia. Você sabe disso.
     Ela foi até a janela. Olhando toda vida. A manhã estava ali. A manhã se agitando procurando lugares para pousar as cores os insetos as casas. É, todo o mundo respeitava respirava a manhã.
     Uma piúva em forma de escada pastava o alto do céu, o sol a quilômetros, o vento invisível e calmo e sudeste, ainda o azul sem nuvens, alguns morros com arvoredo, etc., pássaros dos diversos em distintos assobios e gencianas-da-terra, sempre-vivas-da-serra, açapuvas, guaximas, cururus, paratudos... Era isso o mundo? Estava ali assim o começo da manhã no mundo.
     Os verões e dezembros e janeiros têm fama de bonitos, satisfeitos e tais e quais. E os pássaros acordam mais cedo e tais e quais.
     A menina saiu para comprar qualquer coisa. E a rua estava inteira, rua Sataré, apreciável e quase deserta. Que horas? Rua da Moeda. Era cedo assim? Pensou alto:
     - Oi! Será tão cedo assim, meu?! Onde está todo o mundo? As pessoas, hein?! Será surpresa de aniversário? Quem aniversaria?
     Um gavião-carijó riscava o alto todo em azul do céu. Ia em direção ao sul, Porto Alegre do Tocantins, Datas, Vereda...
     Lilás continuou andando, vestia uma bermuda desbotada tipo bem comum, olhando para os lados, olhando atrás de si. A rua Sataré infinitamente reta, deserta, resplandecente, loja agência de turismo convidando final de semana em Ubatuba. Canteiros com arvoretas multicoloridas, primaveras, quaresmeiras, jurubebas, mimosas... As aves, os pássaros e os passarinhos que tinham razão e a sorte. Eram alados, e voavam desde pequenos e um pouco mais.
     Entrou na padaria Caroá. Tudo abandonado. Pegou de grátis picolé abacaxi-caju, saiu. Tudo solto no tempo e no espaço. Carros no meio-fio esperando condução. E numa mistura de queixa, surpresa e dúvida, ela desabafou:
     - Oi! Que sossego e quietude fora do comum, meu!
     Chegou no parque do Ibirapuera, ribeirão Arrudas. Um silêncio! Mas um silêncio de gente, silêncio de automóveis, bem entendido. Pois de pios e cantos e gorjeios o parque estava bem servido. E se ouviam bem-te-vis, tesoureiras, coleirinhas, quero-queros, curutiés, baguaris, maritacas, e mais. A Lilás parou e suspirou e falou para si mesma:
     - Oi! Quede todas as pessoas que deviam estar passeando no parque? Pergunto.
     O parque enorme sem rastos de bípedes e sem ninguém. O sol estava bom, mas fazia friozinho. Frio desabitado frio sem ninguém. Um frio no interior, por caridade. E ela desatou à meia-voz:
     - Oi! Que está acontecendo? Eu só queria, nhe-nhe-nhê!... entender.
     E Lilás presenciou as araras-de-barriga-amarela em pares, em duplas, em dobros, em casais, duas a duas entrar para o coqueiral. E os bem-te-vis-piratas em um, em dois, em quatro... aterrissar também no guabijuzal. E as pombas-pararus não eram só uma não, eram cinco, seis, e muitas, muitas, mas muitas mais, um bando, invadir o butiazal. As almas-de-gato em grupinhos, em grupos, em algazarras, se jogar para dentro do pitangal. E outros bandos e espécies de que-re-que-quês!... se pinchar para a mancha verde-escura do jabuticabal. E muito mais ainda.
     - Olha! Uma torre sem asas, meu! - exclamou a guriazinha.
     A menina estava no parque e daí. Ainda bem! As árvores conversavam. Árvores, plantas, arbustos, vegetais rasteiros, caponetes, matos, guaximbés. As árvores conversavam flu-flu!... fru-fru!... O quê? Urupês escutando. Acutirembiús parasitando. As árvores trocavam ideias verdes, fru-frus!... flu-flus!... Lilás se perguntou preocupada ou não:
     - Oi! Que dizem estas árvores, meu?!
     Depois ouviu uma ventania. Veio a ventania. E a ventania levou, nas asas mornas do ar de verão, tudo para lá, tudo mesmo para bem longe e bem distante e bem acomodado. O lugar das aventuras para lá no horizonte.
     Na base do chão de areia, num caminho feito de areia, apareceu uma cadelinha do tipo salsicha. A cadela sempre pronta na risadinha pronta. A cadelinha riu e continuou rindo. Pararam as duas frente a frente:
     - Ora! Você vem vindo lá da tribo dos canamari? - acoou perguntou a cadelinha.
A menina quis saber melhor:
     - Oi! Quede todas as pessoas que estavam aqui? Quede o mundo de pessoas que não vejo? E quede a graça do mundo sem as pessoas daqui?
     A cadela se sentou na areia. A língua pendente da boca cheia de dentes. As orelhas enormes. A cadela ainda rindo. Olhar meio de lado. Com vontade de mentir? A menina insistiu:
     - Oi! Me diga tudo, não me esconda nada. Quede os meus semelhantes? Quede os bípedes que falam, galram, cantam, gritam, uivam, cochicham, resmungam, riem? Onde está toda a gente as pessoas os humanóides com ou sem seus automóveis?
     A cadela, depois desse discurso, passou a língua nos beiços, engoliu a saliva, tossiu de leve e disse, acoando:
     - Ora! Você não viu nos jornais da tevê de ontem e de anteontem e de trasantontem?
     - Oi! Que que havia de interessante ou especial para se ver nos telejornais de ontem? Alguma coisa importada e inédita e exótica? Ou algo extraordinário?
     - Ora! As pessoas foram todas ao jogo de futebol, nhe-nhe-nhé!... É o tal clássico da cidade. Imperdoável, imperdível, impossível. Felomenal. Tá todo o mundo lá e uns quebrados. Uma febre da razão da paixão. Uma dor de dente. Uma dor de cabeça.
     - Oi! Mas por que não fiquei sabendo? Onde estava com a cabeça que nunca fiquei sabendo?!
     - Ora! São várias vantagens que você leva. Não passará pela dor de dente, primeira vantagem. Segunda vantagem, não passará pela dor de cabeça. Terceira e última vantagem, se é que me entende, não passará pela febre da razão da paixão. Tem mais, mas guardo pra mim. Obrigada.
     A cadela se ergueu de onde estava sentada e foi para o meio da capoeira alta, chá-mineiro, capim-navalha, vassourinha-doce, macega, sapê, sensitiva... Procurava mesmo um lugarzinho fofo e macio macio. Daí, fez um ninho e se deitou. Lilás só olhando, concordando com tudo, apreciando, e praticamente.
***
     O dia era da semana a quinta-feira, rival da sexta-feira que viria e rival também da quarta-feira que já fora.
Se passaram duas horas e meia e os tique-taques. Ninguém viu as horas. Lilás se sentou no chão e deu um prazo. A cadela ia dar cria de cinco novos habitantes deste planeta. Um de cada vez, aos poucos, com calma. E os partos se sucederam.
     Um lugar ótimo e satisfeito para começar uma aventura.
     E a cadela foi parindo os cinco filhotinhos, um a um, um em seguida do outro, etc., contando nos dedos. Cada vez que um caía da barriga, a mãe olhava o novo freguês deste mundo e o lambia. O pequenino ou a pequerrucha caía na grama, cego, pelado e chorando chorava. Todos eles, um após o outro, um a um, cada qual a seu tempo. Muito cegos e frágeis e tontos. Pareciam bananas descascadas e se mexendo. Até que a fábrica parou de enviar clientes e freguesas ao mundo. Aí, a cadela descansou no sexto dia.
     Era assim mesmo a história. Era sempre assim, uma vez. A cadela paria filhotes por aí, os filhotes estavam já no mundo e o pai nem as caras nem na foto. Era essa assim a vida de cachorro vira-lata. E Lilás, sinceramente, não sabia onde pôr as mãos não sabia o que dizer não queria perguntar acreditava em D.
     Pronto, a cadela acabou se levantando do ninho improvisado. Procurou coçar uns micuins atrás da orelha. Contou e recontou os filhotes. Isso mesmo, eram cinco. Depois, falando ou latindo baixinho para não acordar a turminha, foi explicando para a menina. E Lilás foi ouvindo a explicação:
     - Ora!, o número um dos meus filhotes eu vou doar para o seu Totonho das Lebres, e que mora em Santo Antônio do Itambé. Ora!, o segundo filhote eu vou entregar à moça Maria Tiguera, e que mora com os pais e irmãos em Tuiuti. Ora!, o seguinte eu mesma vou recomendar à dona Sofia Ingazeira Naraguagê, e que habita uma choupana muito bonita em Iracema no Estado do Tocantins. Ora!, o quarto vai ser destinado ao senhorito Mário Martinho Murta Mapoão, um marinheiro e que viaja pelos sete mares a bordo de uma fragata chamada Marabá. Ora!, finalmente, o caçula foi prometido à menina Lilás, guria essa que passeia pelo parque e aqui presente.
     Depois de parir tantos brotinhos de cachorrinhos ou cachorrinhas e explicar os seus destinos, a cadela se sentiu zonza e desmaiou. Que é desmaio? Desmaiou caindo deitada e desacordada no capim-gordo verde e macio. Desmaiou caindo com todo peso. A cadela foi fechando os olhos devagarzinho, fechou um primeiro, foi fechando o outro devagarzinho e em câmera lenta, fechou o segundo. Fechando os olhos, a boca, repousando de mansinho, baixando as quatro patinhas mais a cauda em câmera lenta. Pronto, desmaiou com tudo. Como se o mundo não existisse mais ou fosse esquecido, amém.
     Outras coisas aconteciam pelo planeta afora em volta longe muito distante em mil e um lugares. As camoatins trabalhavam acarás-pretos nadavam algodões-do-brejo rebentavam araputangas cresciam jenipapeiros floriam lava-pés partiam e chegavam os bichos-preguiças ou aís escalavam a embaúva. Mas também ali era o mundo, ainda bem.
     Lilás tentou alguma coisa de emergência. Olhou para todos os lados e só tinha ela ali. Ninguém do outro lado do telefone celular. E abanou vento, abanou vento, depois correu procurar água. E o cachorrinho prometido foi correndo atrás dela e farejando o rasto e procurando coisas possíveis.
     E o jaguarinha a seguiu como um cachorrinho. Era bonito. Será por que que o bichinho a seguia simplesmente e sem palavras? Ninguém o havia chamado. Como pode? Um mistério. E a Lilás parou para pensar. O jaguarinha também parou, olhou, rindo com aquele riso sempre pronto que todos os cães têm na hora que querem ser amigos e sociáveis. Descobrindo as coisas do mundo. Lilás falou assim para o atrasadinho:
     - Oi! Vai me seguindo, é?
     O cachorrinho sentou e continuou rindo. Talvez tenha nascido para seguir as pessoas, e rir para as pessoas. Talvez ainda não soubesse falar, ou seja, latir, ladrar. E já se sabia um ser doméstico. Atendendo um simples estalar de dedos. Lilás, plique!... tentou:
     - Oi! Então, como tu te chamas, meu?!
     Aí, o coisinha tão bonitinha olhou de lado e resolveu balbuciar:
     - Nhau-nhau-nhau!...
     Lilás, essa sim, olha!, foi e confessou:
     - Oi! Olha, não entendi nada.
     Lilás levou a mão ao próprio queixo, pensando. Cuidado, gênio matutando! E logo a menina devolveu a parada, deste modo:
     - Oi! Vou te batizar, carinha. A partir de agora você se chamará... Avião. Gostou? Hein, gostou?! Avião é legal, não?! Eu mesmo gostei que até queria esse nome pra mim, e ocê?!
     O petezinho acoou assim:
     - Nhau-nhau-nhau!...
     Lilás pensou alto consigo mesma e só para si:
     - Oi! Acho que ainda é muito miúdo pra saber falar e ter ideias, é!
     Lilás deixou assim e foi em frente, continuou o caminhar. O baixinho, agora chamado Avião, a seguiu com curiosidade e alegria. Ele não entendia de caminhos e destinos, mas entendia de cheiros e paladares e companhias. E os dois continuaram rumo de um pouco de água para a cadela desmaiada.
     Seguiram um atalho entre dois capões de mato. Eram árvores que plantadas cresciam e importantes tanto quanto essas caxicaém, cipó-violeta, manacá-da-serra, lisianto, mogno, aroeira-de-bugre, taioba, coco-amargoso... Alguns casacas-de-couro-amarelo entre palmeiras de pindoba, tirirerê!... tirireri!...
     Foram um pouco mais para lá, um tanto mais longe que o previsto, e encontraram foi mesmo um rio. E bota rio nisso! Foi uma descoberta fabulosa. Era o rio mais... maior que já se viu ou se ouviu falar. Foi uma descoberta embaraçosa. Um rio o rio e que interrompia paisagem.
     Lilás agora, ali ali, tinha muitas perguntas. E era mesmo hora das perguntas. Um rio de perguntas. Um rasto de rio. E a menina se voltou para o Avião, falando e perguntando:
     - Oi! Quem sabe o que é o que é o rio?
     Pararam Lilás e Avião ali na beira da praia, na areia da prainha. As ondinhas vinham recuando até ali, chegavam e iam, voltavam e retornavam, saíam e entravam, sempre rindo em círculos soltos. Lilás olhava o espetáculo. Um rio acostumado. Parecia que nunca tinham visto antes um rio ou tanta água. Parecia? Avião olhava dava dois passos e retrocedia. Não só parecia como era fato: nunca tinham ouvido falar daquele rio tão cheio de água doce. Rio mexido. E o rio tão grande era tal e qual cobra criada boiúna se arrastando.
     - Oi! Sabe, Avião! Acho que tem presente esperando por nós ali na prateleira, é!
     Depois de uns minutos a menina encabulou, ou seja, não sabia o que fazer com aquele baita rio. E não sabia mais o que perguntar. Não sabia o nome do rio. Podia ser o rio Jauru. Não sabia se havia peixes na água, piraputangas, piavas, piranhas-doces, mandis, pirás-tamanduás, etc. Não sabia por que o rio estava ali, a sua frente, a sua espera, todo para ela, se oferecendo, disponível, canalizado, largado. Não sabia se o rio sabia assobiar. Não sabia das aves de rio, pernilongo, anhuma, martim-pescador-da-mata, socó, camixi, narceja... Não sabia bem certo se o rio sabia molhar. Ora, faça o favor!
     Passou pelo centro do rio um arquipélago multiplicado carregadinho de muitas ilhas tipo camalote periantã matupá... Desciam o rio junto com a correnteza. Umas duas ou três verdes de arbustos tortos, três ou quatro só de rochas, quatro ou seis com animais domesticados pastando bovinamente, seis ou sete ou oito muito rasas com roças de arroz milho amendoim. Algumas aves acompanhavam, pelo alto, essas ilhas. E eram mesmo ilhas flutuantes sem placa. Uma massa um peso de plantinhas aquáticas seguiam enroscadas aguapés piris canaranas saras... No inverno subiam o rio até a nascente, no verão retornavam com o rio até a foz. E isso não acabava nunca.
     - Que dia é hoje?
     Lilás e Avião ainda estavam ali fazendo um favor no panorama. Lilás era muito sossegada, desempregada, dez anos, cabelos ao vento, etc., e precisava aprender a nadar. Já estava na hora. E o dia chegara.  O dia era aquele mesmo: dia de sol, sol ou chuva casamento da coruja caburé-do-sol.
     É, Lilás estava ali. Ela estava ali, sem dúvida. Diante dos olhos da menina o rio espetacular, sensacional, inimaginável.
     - Oi!, meu. O cara que inventou o rio... é genial!
     Pertinho, pertinho mesmo dali, havia um salgueiro-do-rio debruçado na beira do rio. As pontas dos seus ramos beliscavam a superfície da água. Uma árvore muito bonita e chorona. A menina olhou a árvore, olhou o rio e teve a seguinte ideia: subir na árvore para brincar. E assim, correu para a árvore já correndo de braços abertos. Avião se lançou atrás e sem cerimônia, sem pensar duas vezes. A menina alertou o Avião:
     - Oi! Não, talvez você nem consiga subir e pode até cair, meu!
     O vira-latinha latiu qualquer coisa assim, lá na língua dos cães:
     - Nhau-nhau-nhau!...
     O tal esse nhau-nhau-nhau!... queria dizer? Só os cães do céu e as iaras do rio para entender a língua que ele acoou. Paciência e era assim mesmo e tudo bem.
      E o fato foi que a menina se entusiasmou tanto que pegou, na corrida, e subiu na árvore e se acomodou lá no galho. Os galhos que debruçavam sobre o rio. E a menina gostou e começou a ficar mais alegre e a gritar e rir. Perigava até quebrar o galho e no meio da euforia. Aí, então, o Avião... aconteceu foi uma coisa incomum. O Avião correu e subiu na árvore, indo pular nos braços da Lilás. E assim os dois brincaram ali com alegria de brincar no alto de árvore. Tão bom se balançar sobre o rio! E era mesmo uma brincadeira de muito proveito do ser ou não ser.
     E uma coisa ou duas a menina aprendeu durante aqueles momentos. Até foi falando para o cão:
     - Oi! Já percebeu, Avião?
     O baixinho rebateu as orelhas no ar, olhando fixo para ela e latiu:
     - Nhau-nhau-nhau!...
     Aí, não se sabe se disse sim ou não. Todo caso podia ser sim e não. E Lilás, sendo sim ou não, continuou pregando:
     - Oi! Já percebeu, seu Avião, que o rio não para pra nada?
     A menina fez uma pausa, ficou em silêncio, só para impressionar e ver no que ia dar esse ar de novidade. Depois prosseguiu:
     - Oi! Ahã!... É, o rio não para um minuto. E o rio corre, parece o mesmo rio, mas não é. E não é mesmo o mesmo rio sempre, é. O rio estica e nunca arrebenta. Pacificamente enxuga a montanha. As águas continuam sempre rolando que é uma beleza e nunca que nunca acabam. De onde vem tanto rio, meu?!
     Então, se ouviu bilhões de zunidos, zumbidos... zzzzzzu!... bzzzzz!... trzzzz!... E era fabulosa nuvem de mosquitos. Muitos borrachudos. Uma nuvem escura e enorme. Muitos pernilongos. Eram bilhões ou mais. O céu parecia acabar devido o tamanho do ruído. Curiango abriu a boca. Passavam nuvens de insetos sobre o rio e sem pressa. Uns trilhões deles e crescendo e aumentando e zumbindo. Acompanhando o rio na descida ou na subida. Até que demoraram a passar. E demoraram com zunidos decorados. Depois, impacientemente, foram se sumindo se resumindo.
     Naquela hora os dois macacos-guigós, podemos dizer, resolveram pular da árvore. Subir em árvore era melhor e mais fácil que descer. Os acidentes acontecem na descida. E os dois desceram com muita atenção, no mínimo.
***
     Pararam na praia como estátuas de latão. Lilás olhando o rio. O cão obedecendo sua chefa e olhando a menina que continuava a olhar o rio. A menina tinha certeza que o rio era o seu logotipo. Lilás suspirou e destravou:
     - Oi! Avião, você sabe que eu preciso aprender a nadar? E é agora nesta hora e já?!
     O Avião pareceu entender:
     - Nhau-nhau-nhau!...
     Assim, Lilás deu um dois cinco passos e foi chegando até o rio. Ali era ainda rasinho. Molhou as canelas e riu cheia de cócegas e ansiedades, tipo assim:
     - Oi! Ah ah ah!... que delícia, Avião! Ei, Avião! Vem tamém, meu!
     O cão Avião latiu, saltitou, sapateou, quicou, latiu, balançou a cauda, e latiu na sua língua estrangeira:
     - Nhau-nhau-nhau!...
     A menina insistia com o bebezinho o peticinho:
     - Oi! Vem de uma vez, meu!
     E, como é costume e natural, todo cão obedece seu chefe ou patrão ou dona. No caso Avião obedeceu Lilás e foi para a água. E a menina descobriu rapidinho que o Avião já sabia... já sabia?! É, o cãozinho já sabia nadar. E nadava muito. E nadou cachorrinho. E nadou muito bem com o focinho de fora com estilo.
     - Oi! Que surpresa, meu!
E para a menina foi um achado. Nunca que a menina podia pensar ou imaginar ou saber que seu cãozinho já nascera sabendo nadar. Era demais para a cabeça da guria, faz favor! E agora uma coisa: e daí?! A Lilás teve de dizer com cinco letras cinco pontas:
     - Oi! Como foi que você aprendeu tão depressa, A-vi-ão?! Você nasceu sabendo, A-vi-ão?! Você aprendeu sem saber, A-vi-ão?!
     É, a menina estava passada de assombrada. E Avião deu umas nadadas para lá e para cá, provocando. E rindo seu riso pronto. Talvez só para se exibir. Pelo sim ou pelo não, a menina estava de queixo caído e frustrada e de braços caídos. Como um bebezinho cão podia saber e ela não?!
     Lilás, assim ludibriada, saiu da água e foi se sentar na areia. Precisava pensar. Aí, a menina se sentou, apoiou os cotovelos nos joelhos, as mãos segurando o queixo, o olhar meio perdido sobre o rio. Pensou, mas pensou com raras ideias. Pensou com folga entre uma ideia e outra.
     Tudo isso foi interrompido, tudo isso foi por águas abaixo, por quê... porque surgiu assim, do nada, aparecendo de supetão, uma atropelada de garotos e de garotas. Apareceram garotos nem se sabe de onde. Vieram todos chegando na corrida. A menina já fazia um tempo que nem via esses seres humanos por aí. E todos correndo para o rio. Lilás e Avião ficaram de banda, na deles, só observando a avalanche. Vieram tirando as roupas e chinelos e bonés e tagarelando como bando de periquitos-verdes:
     - Eia!... Eia!...
     - Carancho, caracará, carcará!...
     - E daí?! Tô fora! Fui!...
     - Coepucha!...
     - Itapanhoacanga!...
     - Chiiii!... qua-qua-quá!...
     - Jacarepaguá!... Jacareacanga!...
     E todos se atiraram de pronto na água do rio... tchibum!... espirrando para todos os lados e se divertindo. E muitos meninos, todos sem camisa, e uma que outra menina de camisetinha sem manga, descalços, aos gritos e esbarrões. E nadavam com tudo: alegria, brincadeira, gritaiada, pressa, empurrões, biquinhos, cangapés e trampolins. Sem pedir declarada licença ao senhor rio dos Sinos ou rio Juruena ou rio Paraitinga ou rio Içá ou rio da Prata ou rio Coxim...
     Os dois, Lilás e Avião ficaram ali do lado. Observando. Para falar como era a causa toda, Lilás ficou olhando, cuidando de braços cruzados os carinhas que sabiam nadar muito bem. E sabiam mesmo. Se eles faziam, ela também podia fazer.
     E a turma não parava de gralhar. Pareciam curicacas em festa. E eram mesmo uma tropa de papagaios-do-mangue:
     - Sabia que o sabiá sabia zapiá?!
     - Biguá, jundiá, guará, tauá, moiá!
     - Paralelepipóide!
     - Bambuzal, bambual, bamburral!
     - Maranduba, poranduba!
     - Soldado, cabo, sargento, tenente, capitão, coronel!
     - Aiiií, chimango!
     - Mas bah, tupinambá!
     A turma ficou brincando ali como nunca. Parecia que o tempo era todo deles e não teria fim. Ou até gostariam de depenar o rio? Lilás e Avião sentaram para não cansar e foram colocados fora do filme. Pois a turma ainda brincou muito e cabriolou, cambaleou, rodopiou, caracolou, parafusou. E mergulharam, e fizeram trampolins, e subiram nos galhos do salgueiro-do-rio, e se pincharam, e buscaram pedrinhas no fundo, e se espirraram água, e boiaram, e nadaram de costas. Ave de rapina tauató-pintado crocitava espantado desde o céu. As risadas estrepitosas. Mergulhavam um dois três cinco metros. Fazendo fosquinhas. Brincaram até cansar e mais algumas horas.
Lilás olhava com os olhos, com as mãos, com os pés, com os dedos desenhando na areia, e com o corpo todo. Após uns vinte dias e uns quebrados, os piás foram indo e saindo até que foram embora.
- Dizem que, nem confio de certeza, na época de Pedro Álvares Cabral a descoberta do Brasil nem tinha avião nem tinha celular, é.
Tudo estava bem claro, inclusive o dia. Os ouvidos acostumados compreendiam assobios de joão-de-barro, curruiruçu, arrelia, cauanã, arirambinha, arribações, pica-pau-do-campo, chorró-boi, corixo...
     Daí, apareceu sobre o rio uma expedição náutica. Chegavam muitos navios. Eram muitos. Uns vinham com motores, outros com remos, ainda mais com velas sopradas pelo vento. Uns barcos de papel. Outros de madeira e pintados. Mais outros de aço e apitando. Barcos a vapor. Embarcações sem nome com nomes próprios tipo, Canguaretama, Arapuá, Baía Formosa, Guaxi, Jacumã, Brumado, Nova Lima... Navios que eram montanhas e pareciam montanhas flutuantes pilotadas por deuses por gigantes, caravelas, galeões, sumacas, transatlânticos, jangadas, cruzadores, igás, pirogas, lanchas, igarités... Foram passando lentamente derrapantemente. Eram tantos que não contavam. Há gosto para tudo. Continuavam passando e navegando. Hoje descendo o rio aproveitando a correnteza. O vento também. Cansaram a beleza de quem viu e reparou. Demoraram, mas já foram. Demorô!
     Mas logo a dúvida. Lilás percebeu o impacto de um problema, um problema: como aprender a nadar?? Toda a galera dos piás já sabia, ela não sabia. Até o Avião entendia de nadar, e ela nada nada de nadar. Então, aí estava o problema e a questão tão frustrante.
     A menina resolveu qualquer coisa e chegou até o rio. Foi ensopar as canelas e parou. Avião parou na areia, achava ele que nem precisava mais se molhar. Lilás pensou por si mesma. Pensou como iria fazer para nadar até a praia de Torres ou até o parque Campo de Santana ou mais um pouco até a África. E como aprenderia a nadar e a nadar sozinha? Observara os garotos e as garotas da turma dos piás e já queria ser como eles e imitá-los muito bem. Nadaria algumas braçadas e pernadas? Só vendo!
     - Seria bom ser um peixe do tipo que nada feito o xué o canivete o acari o curimbatá.
     E a Lilás ficou olhando o rio esperando convite. Lilás olhou Avião e este falou latindo já meio sem paciência:
     - Nhau-nhau-nhau!...
     Avião incentivava a menina ou atrapalhava? Avião incentivava a menina, é. E a menina precisava mais que coragem que valentia. Aí, se arriscou mesmo assim. Era uma questão de vaidade. Tirou a sandália deu um nó no cabelo. Olhou para os lados, se concentrou em não se sabe o quê, o rio ali todo total, respirou fundo uma duas três vezes e se pinchou na água do rio... que podia ser o rio Corrente, o rio Sabia, o rio Pinheiros...
      Foi a luta começar. Ela mais pesada que o rio. E a luta era uma luta, faz favor! Lilás e a água do rio lutaram com muita pressa. Pedalaram de lados opostos. E se via muito bem que a menina não era do rio, não nascera para o rio, não era surubim-lima, jaraqui, matrinxã, jaú, piraíba, etc., por exemplo. Ora, quem é do rio? Os peixes são do rio e já nascem nadando. Os carás ou acarás, os jundiás, os trairás, os biguás, os gravatás ou caraguatás, as lalás, os tralalás, os cururás, os butiás, os tracajás, as preás, os jabás, as igás, os crachás...
     Lilás saiu da água ensopada até a raiz dos cabelos. O rio continuava correndo e parecia sério. O tempo também. O vento alisando a superfície do rio e etc. A guria parou para secar ao sol. E o rio era curioso e provocava curiosidade. Lilás para Avião, e no seu jeito de falar baixinho:
     - Oi! Vamos embora do rio? Amanhã a gente retorna pra terminar de nadar e aprender a nadar.
     Não era possível aprender a nadar tudo num rio. O rio era maior. O rio conhecia mais. O rio tinha árvores ciliares, mapixi, paricá-de-esponjas, sapirangui, crista-de-mutum, cairuçu-do-brejo, buritirana, cambará... O rio era pari e cacuri para os não associados. O rio tinha irerê, arapaçu, garça-cinza, carqueja-de-bico-manchado, socó, tapiretê...
     Avião respirou, ligou, obedeceu, seguiu a menina. Um arco-da-chuva bebia água do rio e puxava água do rio para abastecer os raios do sol.
     - Oi! Gosto do rio.
     Entre o céu e o rio havia muito espaço. Além do próprio profundo do rio. Quem era este rio que ninguém falava dele? O rio de uma ponta a outra ponta do rio. Todos os rios se parecem, rio das Velhas, rio Jangada, rio Capivari, rio Nhamundá, rio Japurá, etc.
     Desta margem onde Lilás e Avião estavam, nascia o famoso sol; do outro lado, o sol maioral pousava. Sol sempre nascia e sempre pousava. Sol parecido com quê. Sol rio de cá e sol rio de lá.
     Carandás fazendo favor fazendo favor. Canafístulas sorrisos floreando florindo florescendo. Um vento brincando alto na copa das maparajubas. Uns sons de leve levinhos levíssimos e verdes, quirirus, japuíras, cicas, arapongas...
     O casalzinho ainda olhou e viu um hidroavião fazer manobras e tais, fez que deu volta, se preparou para o pouso no rio, foi baixando, rente à água mesmo, igual fazem os tuiuiús, e pousou no remanso do rio espirrando água e ruído para todos os lados. Acabou mesmo por quebrar o espelho do céu.
     - Oi! O rio tem irmão, irmãs, tios, avós... competentes?
     Antes do rio em um dia qualquer fazer enchente e entrar pela cidade, invadindo ruas e bairros e casas e residências e garagens e lares, antes muito bem disso, chegou a hora da menina e do cãozinho voltar para casa.
     Na volta pelos ziguezagues dos caminhos, os dois encontraram um saruê. Foi Lilás para o bicho:
     - Aonde vai parar esse rio?
     - Em lugares escolhidos sorteados premiados conquistados paradisíacos.
     - Quais, então?
     - Muitos lugares cômodos com esses nomes próprios de cidade, Matutina, Iporã do Oeste, Taquara, Serrana, Lagoa Real, Caetité, fortaleza do Príncipe da Beira, praça Brigadeiro Sampaio, bairro Santo Antônio na capital Recife...
     Ainda andando pelas trilhas e trilhos e travessões, Lilás e Avião encontraram um índio dos urupá com chapéu de palha de tucum. Lilás para o pajé:
     - Aonde vai parar esse rio?
     - Hum! Em muitos lugares no tempo e no espaço. Além do quê.
     - Quais, posso saber?
     - Hum! Em Pati do Alferes, Sertãozinho, Raposos, Nova Bandeirante, Vargem Bonita, Rio dos Índios, parque Piqueri, serra da Piedade, etc.
     - E lá tem sorvete de abio?
     - Tem sol, tem bocaiúva, tem panapaná, tem aranquã, tem jaguatirica, tem açucena-d’água, tem tipiti, tem tucuru, etc., tudo o que você quiser.
     Falando nisso, Lilás e cãozinho continuaram pelo carreiro. Por hoje, a menina e o Avião se encontraram com um pé bem dos grandes de cabiúna-do-campo. A Lilás foi para sempre perguntando:
     - Aonde vai aonde acaba esse rio?
     - Vai por aí olhar o mundo as constelações e os arredores.
     - Quais esses mundos e profundos?
     - Os nomes de tais e quais que se ouvem e que se falam, Aripuanã, Resende, Nonoai, Maetinga, largo do Machado, Abaeté, Ribeirão dos Índios, Passagem das Pedras em Sousa na Paraíba, etc.
     - E lá tem dia feriado dia santo dia Sete de Setembro com café da manhã na janela da rua?
     - Antes tarde do que nunca, uma vez.  
     De volta e pelas estradinhas do parque, a menina e seu ótimo amigo viram encontraram uma moça tocando piano debaixo de um jacarandá florido. Parecia um cartão-postal. E mais ajuntamento de pessoas tirando autorretratos... Muita gente ao redor olhando e ouvindo. De onde surgiram multidão e povo? Lilás era sócia das perguntas e se perguntou. Concerto para piano. O mundo se povoava de novo. É, as pessoas da cidade estavam de volta para ver uma moça tocar piano. E todos adoravam? E todos pareciam apreciar muito. A moça de óculos escuros. E como acabou o futebol do clássico? E as perguntas saíam sem querer da mente da menina. As perguntas que provocam.
     - Oi! E como é aconchegante, não vê?!
     A moça vestida de roupas brancas e leves e soltas parecia uma pomba da paz. E era preciso ouvir dizer que tocava muito bem o teclado. Tocava um bom teclado. Tocava um teclado, meu! Tocava o teclado como um pássaro canta como um cangoá nada como um sauá pula de galho em galho.
     E todos que estavam ali apreciando a tecladista descobriam uma grande e perfeita tecladista. Tocando muito bem o teclado. E todos estavam gostando e adorando. A moça da paz tocava um teclado de encantar de aumentar. O pé batia o ritmo no chão, o espírito se ausentava para a distante de longe a formosa Areia Branca, por exemplo.
     A menina e o cão também pararam para ouvir. A tecladista era nota dez no inventar sons e acordes e recordes. Todos sentiam isso também e tão bem mesmo. A pianista da paz tocava divertido com as asas no lugar das mãos. E não errava. Uma loucura de teclado! Olhava e apertava as teclas de cor e com total confiança, os cabelos gigantados, eletrizados, frondosos, desfraldados, um sorriso oceano Atlântico quase permanente.
     - Que teclado, hein?!, meu!
     E todos queriam falar e elogiar ao mesmo tempo. Quando a moça da paz terminou a apresentação foi um aplaudimento, um elogiamento, um assobiamento e um fotografamento que não tinham fim. Tudo com muitos fleches e selfies e muitas palavras e risos e gestos de vivamento:
     - Que teclado divino!
     - É, eu não disse que ela era a Cara?!
     - Eu sou muito seu fã!
     - Vou pedir autógrafos pra mim, meus filhos, tias, netos!...
     - É, ela foi sempre e é demais!
     - Conheço ela e a família dela!
     - Toca teclado fan-tas-ti-ca-men-te!
     - Ah, como toca teclado!
     - Uma Villa-Lobos de vestido vaporoso!
     - Só podia ser gente da minha terra, São Bento do Sul!
     E o povo rodeou a tecladista. A própria Lilás entrou na fila a fim de cumprimentar a artista. Quando chegou a vez da menina... ao estender a mão... a menina aí percebeu que pegava a pontinha dos dedos da asa da moça da paz. No mínimo era diferente. Depois de diferente era já surpreendente e mágico. E assim por diante. Até a menina achar que ficou mesmo toda vermelha pelo susto e pela surpresa e pela falta de referência. Mas tudo bem.
     - Você me parece flor de ipê-roxo - disse a tecladista, admirando Lilás com a cor lilás.
     - Eu queria tocar teclado como você. E fazer ondas de cores no céu fazer letras voar pelo ar, etc. E viver como uma artista que você é - a Lilás teve como resposta.
     - O que me importa e me faz importante são os sons das coisas dos bichos das plantas - respondeu a moça do teclado.
     Por isso que a menina olhou para o céu da tarde já caindo, tarde de bronze e partindo. Muitos sabiás. Um bando de sabiás subindo do céu e entrando nas matas do parque. Um grupo deles, sabiá-cinzento, sabiá-coleira, sabiá-da-campina, sabiá-da-capoeira, sabiá-da-mata, sabiá-da-praia, sabiá-do-banhado... Ótimo, e parecia não ter fim. E não tinha mesmo. Uma nuvem cobrindo a tarde. Até que era bonito. Cantos variados e finos e afinados. Tanto sabiá só podia dar em muita chuva, sabiá-do-campo, sabiá-ferreiro, sabiá-guaçu, sabiá-pimenta, sabiá-preto, sabiá-da-restinga, sabiá-da-serra, sabiá-da-barriga-vermelha... E tinha mais. Um encontro de sabiás. Algo curioso. Coisa rara e importante. Uma sorte de sabiás, sabiá-do-brejo, sabiá-do-piri, sabiá-gongá, sabiá-pardo, sabiá-piranga... O país dos sabiás, o mundo sabiá, os deuses eram sabiás. E pousaram nuns coqueiros-ariris carregados de coquinhos. Não faltava nenhum. De certo talvez pernoitariam ali. Não faltava mais nada. Muito sabiá sabido que sabia assobiá, pirerori-perirorê!... pererori-pirirorê!...
     Aí, Lilás quis abraçar a moça divina e lhe dar os parabéns. Tinha toda a oportunidade para abraçar a tecladista. E abraçou mesmo. Então, outra coisa esquisita. O abraço da moça da paz era muito leve leve e cheio de cabelos longos lisos de panos brancos e penas de saiotes enduapes. Um abraço de asas. Mais uma pura falta de prática da menina.
     - Oi! Onde você estava que nunca te vi?
     - Eu sou conterrânea. Mas já toquei em diferentes paragens, desde garagens até barragens, Araricá, Sapiranga, São Pedro de Alcântara, Panambi, Apiacás, São João do Rio do Peixe, Juquiá...
     E o que importava era que a tecladista da paz tocava um teclado bárbaro. Era o que bastava. A moça ria sempre e ria sempre com vontade e ria como se fosse um passarinho sempre cantando. Rir era a ciência da risologia dela. A tecladista falou com a Lilás:
     - Meu nome é Sabiaúna, e o seu? Ah, o cãozinho está contigo, é? Que criatura de Deus ou Tupã! Vamos sair para tomar um sorvete de pitangas? Pode ser um suco de açaí, eu gosto. Um suco de abacaxi cai bem nessa hora do dia de verão. Vamos caminhando e passeando. Vamos até a padaria ver um misto-quente com suco de pequi? Gosta de música? Eu adoro teclado. Nasci para os teclados. Os teclados sorriem para mim, obrigada! Vocês apreciam teclado?
      Sabiaúna tocava mesmo um excelente teclado. E Lilás a admirava por isso. O Avião a olhava por isso. E a Sabiaúna por ter asas no lugar de braços e mãos causava uma certa surpresa causava uma certa sensação de raridade. Mas a moça da paz continuava muito bem no teclado. Respirava teclado. Não era para qualquer uma tocar teclado nas asas brancas da paz.
     Lilás tinha uma cascata de perguntas. A menina era a mania das perguntas. Lilás perguntou:
     - Oi, Sabiaúna! Posso fazer várias perguntas como se fosse interrogatório?
     - Então, bode... quer dizer, pode.
     Assim, Lilás e Avião conversaram muito com a anjo Sabiaúna. Às vezes as perguntas são bem vindas e dizem muito. E assim se descobrem muitas coisas, como um detetive sabe fazer. Isso era bom e era ruim de uma vez só e ao mesmo tempo.
     - Oi! Você sabe onde eu encontro bergamotas nessa altura do verão? - foi a menina Lilás.
     - No país das bergamotas. Na festa da bergamota em Piumhi - respondeu a moça branca.
     - E se eu quiser aprender a nadar, para onde iria? É para onde vai o rio?
     - Justamente para a aldeia dos pucobié-gavião e à beira do rio Paraibuna. Lá é tudo natural. Têm árvores na beira do rio. Tem rio nos peixes, e têm peixes no rio. Tem rio que tem ilhas flutuantes na cheia, tem rio que tem coroas de areia na seca.
     - Oi! E posso levar o Avião?
     - Nhau-nhau-nhau!...
     - E bode... pode sim. Todo mundo gosta de cachorro e acha engraçado.
     Sabiaúna tocava um teclado! Coisa muito dos altos céus e o firmamento. Se pensa o quê?! E tocar teclado não era fácil nem rápido nem assim. Sabiaúna de olhos castanhos de mel ou sol. Tocava teclado oito horas por dia. E a moça era muito celeste e mestre no teclado, meu! Tocar bem era um dom uma cor uma sensação de alívio.
     - Oi! Suas mãos são as asas dos passarinhos, talvez?
     A moça olhou para os dedos para as pontas das asas.
     - É isso. Eles já sabem tocar de cor e decorado e salteado.
     Para o agora, Lilás e Avião pretenderam voltar para casa para casa. Avião ia conhecer o seu lar. A tarde já ia entrando pela noite. Avião caminhava do lado da menina, andava na frente, olhava para a menina, andava no lado, olhava para cima buscando a menina, ficava para trás farejando à toa e já corria na frente, olhando sempre cuidando da menina. O mais das vezes iam lado a lado. O dia com a noite faziam a mistura da sociedade. O cão parecia confiante e principalmente amigado, obrigado.
     Uma foice de lua abraçada a uma bolha de sabão. Era. Aquela a lua no céu. Verão, janeiro, aí pelas sete horas, rua Marquês de Olinda. Faça o favor!
     - Onde vivem aqueles seres distantes cheios de si completos formados tomados de luz calor sol incêndio silêncio: os deuses as deusas?
     Um céu de pontos de luz tremeluzindo. A noite entrando debaixo do cobertor escuro. Astros e estrelas se descobrindo. Desenhos de constelações, Escorpião, Cruzeiro do Sul, Centauro. A lua já bem disposta. Ursa Maior? Não se sabe. Estrela da tarde, Vênus. Estrada de pingos de leite. Milhões de vaga-lumes espaciais. Fogueirinhas de São João. Gatos maracajás de olhos acesos. Janelinhas abertas do céu. Jacarés no meio dos aguapés. Uma reunião de estrelas e planetas além do universo.
     Lilás, no caso da menina ela, a idade ainda não havia chegado. Querer ser astronauta ela aguardava. Pretender ser artista do teclado ela adorava. Querer ser esportista nadadora olímpica ela praticava. Morar na aldeia com os índios potiguar ela sonhava. Almejar navegar todo o rio Jutaí ela estudava. Visitar as praias de Aracruz e os morros de Taquaraçu de Minas ela planejava.
     A menina Lilás ia pensando o dia. Banzando, se for o caso. Ela mesma e o Avião, seu amigo e sócio. A cidade que ficara deserta durante o jogo clássico agora se repovoava. Pronto, o rio passava em frente à cidade. O rio tudo aquilo e parecido com o destino. Que o rio nasce não se sabe onde e por quê, e vai para não se vê nem por quê. Onde nadavam os meninos que sabiam nadar muito bem. E Avião já sabia nadar e que ela aprenderia. A gloriosa moça do teclado que deu uma palhinha no parque e todo o mundo adorou.
     Assim e então chegou o verão e pronto assunto em aberto.
     E Lilás era ela. Vivia num país onde existiam coisas do tipo, irapuãs, tacacas, ajapás, preás, taiocas, gabirobas, anhumas, cancãs, uapuçás e araticuns-do-campo. Toda ela e completamente ela, a Lilás, e bem dona de si mesma, e para sempre. Assim era que é.
     Antes porém de voltar para a sua casa, Lilás e cãozinho passaram na casa da avó D. Clara Camarão e ver de comer e se fartar e se lembrou e se lembrou de comer o sagu com musse de chocolate.