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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ana Paula na Paisagem, 2




Impressão das Coisas

            Na minha rua passavam muitas gurias que eu observava. Nunca passavam uma a uma e sim senhor sim senhoras duas a duas três a três quatro a quatro etc. Quando passavam por mim nem me olhavam riam muito e nem olhavam para trás. Elas tinham sempre uma piada, que eu nem imaginava como podia ser, pra contar bem na hora que passavam. Umas usavam de costume o rabo de cavalo e eu achava a melhor coisa do mundo que inventaram para uma guria. Havia uma que parecia, todos diziam, uma pomba mocinha-branca, quando se vestia toda de branco, elegante, viva, quase todos os dias. Cantava as canções de sucesso da rádio e que se ouvia lá em casa. E outra, de shorts no verão abrasador, que cobiçávamos as coxas cheias, as bergamotas maduras, os olhos explícitos de caça e mais as infinitas possibilidades.
            Segundo entendem discutem diversificam os entendidos de diferentes crenças mundo cosmos universo D matemática esperança segundo esses especialistas ocultistas achistas seria tudo a mesma coisa e igual em cálculos de medidas e tanto fez como tanto faz tanto fará.
            Automaticamente despertavam as manhãs e etc. Poucas nuvens brancas de chapéu. Horas de sol flama chama labaredas. Uma árvore madura guajiçara sortuda paciente pacientemente ali no meio-fio quase dentro da rua.
E naqueles dias, perto de anoitecer, depois de uma tarde de sol quente, eram dias de olhar e eu olhava. Força de olhar.
            Eram tão comuns os dias abertos os bem-te-vis-gamela os coroados os pica-paus-amarelos os paturés o beija-flor-safira as azulonas os pucuís-caboclos no mato à vista e sempre verde, juazeiros, umbuzeiros, carnaubeiras, e guiruçus sobrevoando as flores e cuviara pouco escondido e camufladas as esperanças-dos-pastos, araribás-amarelos, mulungus, maniçobas-do-remanso, aroeira-vermelha, ingazeiras, caputunas, o verão a bicicleta a bola as gurias. Acho que só me refiro às tardes de calor mormaço e chuvas repentinas.
            Que em certos dias vislumbrava me iluminava reafirmava que teria de ir a Recife e Olinda, e isso era bom. E depois a Belém e Marajó.
            Um índio velho chapéu pantaneiro botas cano longo bombachas guaiaca com cinto-cartucheira pala enrolado na garupa para chuva e ou frio cavalo ruço-pampo pelegos encardidos no trotinho, “tro-pro-tro-pró!...” desciam demanda do Prata bem cedo na manhã da alvorada. Pelo menos uma vez por semana, “bueeenas!...” faça sol ou faça chuva. Dono de latifúndio em pinheiros-do-paraná colônias alqueires hectares benfeitorias lá de dentro lá do fundo lá de trás da capela São Pedro divisa com o município de Itatiba. Pouco antes de escurecer, voltavam da cidade, cantando baixinho, o passo marcando a ferradura, “po-to-po-tó!...” de repente meio desequilibrado na sela.
            Cada guria tinha o seu lugar na roda do jogo da peteca, onde guri nem entrava. E avoante estava querida e linda e flutuante e apontando a blusinha sem mangas porque flutuava. Por qualquer lado que se observasse.
            Estávamos em expectativa na pequena rua transversal subidinha de morrinho paralelepípedos sol de rachar disputando a sombrinha de umas poucas piaçavas e bacabas-brancas. Aguardando a vez de marchar o 7 de Setembro. Se ouviam os “tum-tum-tuns!...” dos tambores marcando o pé no chão. A rua pintada de listas brancas. E eu tinha certeza: toda a cidade estava. Principalmente quero dizer que praticamente era a primeira vez que me via no meio de um evento.
            Mas a minha rua era bem simples e pacata. Nem era curiosa como as ruas com blocos de carnaval, feira livre, mercadores ambulantes, circo, pracinha com balanço gangorra tobogã. Nenhum homem ou mulher genial ou famoso apenas nascera ali. Nem que fosse um bandido sem alma sem coração e vingativo. Nem mesmo um padre ou uma professora que dava nome ao grupo escolar. Nem mesmo era uma rua calçada eletrificada aparelhada de tevês a cores até o fim. Queria tanto que a rua Itália fosse arborizada dessas árvores da Amazônia e em fila indiana gigantes formando túnel frutíferas na época das frutas e floríferas na época da primavera e que perdem de folhas na ventania e que desprendem de flores nos fins da estação. No seco era um sufoco o levantar da poeira, e no molhado era a lama de galocha.
            Devaneava com a princesa Isabel. Nem com a sua pessoa. Com seu governo, de Regência. E tinha sido legal a paisagem. Era o Rio de Janeiro com bondes puxados por burros e nem o metrô, o Pão de Açúcar sem o teleférico, o Largo do Boticário passando uma pequena ponte sobre o rio Carioca, Copacabana ficava muito longe meio deserta esquecida nos dias úteis raro a gente ir até lá. Pois o céu visto na lagoa estava ótimo prático doce aves plantas ciliares, fedegoso-grande, vassourinha, camará-açu, borragem, anajá-mirim, trapoeraba-vermelha... Porque o céu visto na lagoa Rodrigo de Freitas era de vidro azul-azul e até se podia mergulhar.
            A tarde quente era de carnaval no Salão São Cristóvão, as músicas marchinhas na vitrola, “Alá lá ôooh oh oh oh!, mas que calô oh oh oh!... estava atravessando o deserto do Saara... quando o sol... queimou a minha cara.. Alá lá ôooh oh oh oh!...” olhei pro lado... era ela de pomba-de-santa-cruz, “mã mã mã mãe eu quero mamá... me dá a chupeta, me dá a chupeta pro bebe não choráaaa.... mã mã mã mãe eu quero...” a tarde o trenzinho de mãos nos ombros o dia as gurias de brilhantina grudada na pele suada as horas os confetes e serpentinas e balões as gatas e aviões e minas tudo voava rápido demais e melhor, “cidade... maravilhosa... cheia... de encantos mil... cidade...” e ela mesmo nem me reconhecia na minha fantasia de índio trumai cocar apito urucum jenipapo e “uh-ooô! uh-ooô!...”
            Tivemos um vizinho de quarteirão que amanheceu difundindo buraco. Começou o buraco durante o dia abria o buracão torcendo para nem vir chuva e fez o fundo depois encheu de água fez açude e semeou peixes exóticos de outros lugares do país. Com isso aí, virou a pesqueira do seu Zeca Macaná. Vinha gente e bichos e aves que vinham de Minas Gerais e Maceió e Guapimirim e Tambaú e Aratuipé e Santa Rosa de Viterbo e Cabo Frio e São Domingos... para ver e pescar no pesque-e-pague.
            A arte de pensar sem risos. Força de mim. Eu queria ser muitas coisas com a certa idade daqueles tempos 23 a 28 de novembro de 1984 por aí. Eu queria ser... ah! deixa pra lá.
            Fiquei espremido entre dois cais o mundo dos outros e o mundo das gurias. No mundo dos outros eu queria ser jogador de futebol e jogar no meu time ser convocado para a Seleção. No mundo das gurias eu queria passear no parque de Vila Velha pedalar lado a lado de bicicleta 21 marchas no parque Aparados da Serra com a guria de branco pomba-do-ar.
            Essa coisa de lembrança é como uma bola de neve. Só vi neve uma vez na história, foi em 65 com poucos anos de idade, uns dois dedos ou nem isso de neve. A bola rola e vai enchendo de coisas incorporando aumentando rolando adquirindo mais e mais caraminholas neves nomes coisas. Força de rolar. Um baita pinheiro bem no meio do potreiro branco todo de branco na manhã, “Vamos lá vê se caiu pinhão?!”
            Um piá vinha todos os fins de tarde, lá do outro lado do nosso bairro São Cristóvão, para apanhar as vacas no pasto no capim-rabo-de-gato. Ele fazia sinal de positivo sorrindo, segurava uma corda e nem parava para ver o que a gente estava fazendo. Eram três as vacas preta malhada avermelhada. Passava correndo, sempre atrás duma bola invisível ou imaginária e aérea, chutando o ar, cabeceando as nuvens, aparando um cruzamento com o peito, gritando gol e socando o ar comemorando como se fosse um craque fazendo gol em Copa do mundo.
            Inexplicavelmente o sol a chuva as árvores. Aguardar o sol a chuva as árvores, baga-de-tucano, camboatã-branco, tamatarana, ituá-açu... Contar com o sol a chuva as árvores. As ipus fazendo casa no barranco. Força de esperar aguardar ter paciência antes de entrar no palco.
            Em o meio-dia, voltando da escola Onze de Agosto, passava uma turma uma porção de guris e outras gurias. Isso provocava a ira incontida dos cães de quintal. O Avião, cachorro fila do avô, punha os pés na grade da área e acoava grosso rouco forte ameaçador, “rau! rau! rau!...” ou seja, como Emília Moncorvo B. M., traduzido, “Mas isto, mais que isto, pois não?!” Parte da turma se sentava conversava ria o mais saliente escolhia ao acaso o pátio aberto de uma casa e na sombra da árvore para jogar bolinhas de gude trocar marcas de maços de cigarros papel de balas figurinhas de álbum de jogadores de futebol tampinhas de garrafa às vezes surripiando bergamotas ou butiás ou jabuticabas ou uvas verdes.
            Se tinha uma pitangueira alta muito antiga frondosa senhora dos seus 40 em pé frondosa atlética esperançosa etc automaticamente ali sua sorte junto da casa da dona Juçara Caruá? Força de árvore! Ali as formigas-de-novato tinham muito trabalho e competência e paciência. Ali se passara o caso do resvalado Jô Maniva. Tinha uma época de cigarras. E as abelhas jataís nem apareciam ou neeem meee leeembro maaais. 
            Uma carroça puxada por 2 bois lentos e pesados tri parceria chegavam da roça ou de volta do moinho. O condutor seu Maritaca Iurumi, pai de nove filhos cinco netos dois bisnetos, trovejava e dava ordens:
- Anda, Calango! Te ajeita, Urutau!
Levavam um tempo... Subiam o morro na estrada de terra vermelha um capão de trocentas araucárias sobranceiras onde catávamos pinhão no inverno rumo capela Três Mártires lá adiante naquela lentidão o cusco Tição sempre na frente do lado atrás acompanhando língua de amostra a lenta e rangenta subida sob o sol de caderno escolar.
            À noitinha a gurizada ia pra frente das casas brincar de qualquer coisa. A tevê nem tinha seriado àquela hora. Se ouviam os gritos de alegria das gurias que era melhor, a bola era melhor, confusão das andorinhas trissando a partir dos telhados era melhor, a bicicleta e as gurias eram melhores, etc. As gurias vinham também jogar vôlei, pular corda, pular sapata, jogar caçador. Se toucavam entre elas mesmas, umas com cabelo liso e longo, outras com cabelo caracolado e longo, outras mais com tiara e plique-plaques. Mas tinha uma que era sempre mais engraçada bem diferente pouco aparecia fita no cabelo e vestida de branco pomba-de-espelho dos pés à cabeça.
            Eu nem só olhava tudo de verdade de cor e salteado. Fazia perguntas que eu mesmo respondia em voz baixa. Fiquei irresponsável com as gurias. Eu nem queria ser mas era muito maroto.
            Depois existia a prainha o lajedo as águas turvas. A praia e o lugar onde rolávamos a bola. Era lógico. E era um lugar meio inclinado para o rio Retiro onde as marolinhas vinham babar. O riacho entrava no nosso campinho. E a bola rolava com as ondinhas, etc.
            Sempre os domingos de tarde matinê o cinema o centro do Prata à procura do melhor lugar junto das gurias os doces puxa-puxas as terras do fim do mundo as gurias de sentar junto no escurinho o mundo das galáxias em espiral o canal 100 “noventa milhões em ação... pra frente Brasil... do meu futebol...” nem havia morcegos nem baratas mas tinham as Amazônias dos índios itatim quase ou semiextintos se escondendo da câmera atrás da árvore os elefantes da Índia enfeitados para o desfile dos deuses nem havia mosquitos nem pulgas mas existiam os amassos e na saída secar a guria que sentou perto “para onde a gente vai?” pergunta a turma do cachorrão comer cachorro-quente e guaraná dar voltas e voltas na praça da Bandeira sorvetes de três bolas e gurias as árvores enfeitadas para natal paxiúba mocitaíba bacupari-de-capoeira tamaguari... o palco para carnaval de blocos e queríamos um bloco “Amigos da Sofia” com  a pomba-de-bando ficando como nossa porta-estandarte bandeira vermelha-azul e carreata no fim do campeonato regional. 
            Um dia ela me perguntou se eu tinha mesmo olhos cor do mar. E eu nem entendi. E ela nem estava toda de branco como a pomba-asa-branca mas de verde e outras cores e bem falante e bem assim:
            - Você tem olhos verdes?! Que barato, meu!
            Cabelos soltos ou livres. Eu achava, olhando para ela, que o mundo ia acontecer. E que o mundo tinha de acontecer. E que ela mesma nascera para ser o mundo inteiro. Ela incrível nem era normal. Era o meu interior. Força de guria. E ela perguntava e respondia para mim mesmo:
            Um tempo pra estranhar tudo isso. Nem vou mais voltar para trasantontem. Força de labirinto. Em vez de pegar uma condução própria ou de aluguel, vou a pé.