Da escola da carteira do livro em páginas numeradas...
Lilás partiu e aprendeu de uma vez até hoje que uma época, nos muitos tempos
idos e passados, existiam piratas corsários por toda a costa brasileira. Eles
roubavam, pilhavam, saqueavam, esnobavam, capturavam e saíam rindo, “oh oh
oh... uma boa colheita estamos satisfeitos, cambada!”, pelos largos mares azuis
verdes navegáveis. Então, fascinada a menina por essas coisas, aventuras tesouros
caravelas e naus, embarcou nas asas do pensamento e foi pro outrora caiu na
história colonial.
Depois de sequestrarem e saquearem a
cidade de Natal, Rio Grande do Norte, os piratas corsários correram ao cais,
pegaram a caravela Bufarinheiro e saíram fora:
- Vambora e vambora, gringada!...
E justamente nessa hora da partida foi que Lilás apareceu
surgiu e subiu na embarcação e, sem ser percebida, sem ser vista, sem ser
cheirada, sem ser notada, se enfiou no porão debaixo de lonas velhas, entre
barris de água doce e caixas baús de comida seca... Em poucas horas estavam em
alto mar e balançando forte. No tombadilho os marujos festejavam com gritos,
bebida, música agitada, anedotas picantes, discussões, empurrões, tiros para o
ar...
Quando a menina saiu do esconderijo, um marujo, cheio
de tatuagens pelos braços e ombros e pescoço, falou, já surpreso, aumentando a
voz:
- Cambada, oh oh
oh!... Temos uma clandestina a bordo a bordo.
- Fique na sua, marinheiro - lhe respondeu Lilás. Nem
mexa comigo porque nem tô pra palhaçada.
- Mas que é isso! Eu tô mesmo tonto e mareado - disse
outro marujo, com gancho no lugar da mão direita. Pois nem é que a menina é
lilás!
- Capitão! - gritou um de badana vermelha na cabeça,
cavanhaque plantado no queixo. Faz o nosso casamento!
- Esquece! - disse
a menina.
- Ela é teimosa. Cuidado que tem dentes afiados e
unhas longas - mangou o corsário da perna de pau.
- Se morder vai lavar o convés todinho, isso sim! -
riu um de cabeça raspada e de tapa olho no lugar do esquerdo.
E os marujos ficaram
naquela troça, rindo, gritando, jogando dados, bebendo, ainda por um tempo. Os marinheiros
eram desse tipo de comportamento, ninguém tinha nada com isso. Até que o
capitão, que levava no ombro um papagaio de pirata (papagaio de língua seca,
dura e despregada), resolveu colocar ordem no navio galeão:
- Olhe aqui, menina! Todo mundo nesta embarcação
trabalha para merecer o de-comer. E você, mesmo criança infantil, quantos
anos?, dez anos, nem vai fugir à norma e à regra. A menos que pretenda voltar
pro continente a nado e de braçada. Claro, há sempre o perigo dos tubarões moreias
orcas meros... mas, quem sabe!, tendo sorte, muita sorte...
- Sorte... crou! -
repetiu o papagaio de pirata, vulgo apelido Pepê.
- Então, menina?! Que ocê acha? Que você pensa? Quer
ganhar seu prato de comida ou virar manjar de tubarão-martelo ou cação-lixa?
- Cação-lixa...
crou!
- Tudo bem e
entendido, seu comandante proprietário - respondeu Lilás. Mas em que posso
servir? Nem tenho prática de mão de obra qualificada e profissional.
Lilás foi posta na cozinha, junto a dois cozinheiros,
para ajudar a descascar batatas cenouras abacaxis laranjas... Era serviço duro
e contínuo. Era serviço para fazer ligeiro com pressa e para ontem. Pior seria
virar isca de tubarão-vitamínico ou manjar de baleia jubarte.
Depois de dias no mar enfrentando os mais perigosos
elementos naturais, tempestades, furacões, calor sufocante, ondas enormes que
queriam engolir varrer a embarcação, bando de golfinhos curiosos, alguém, lá da
gávea, gritou enlouquecido:
-
Inimigo! Navio inimigo! Inimigo a estibordo! Inimigo!... Inimigo!...
Esse grito de alerta armou,
abalou, estourou a maior confusão no navio dos piratas corsários Bufarinheiro.
Ninguém mais se entendeu, caíram no pânico, corre-corre, adrenalina nervosos e
preparação para o combate o embate. Lilás pensou lutar também mas, antes de se
armar, já a colocavam de escanteio, para o fundo do porão, dentro de um cesto
de vime com abobrinhas paulistas. Ela e o papagaio de pirata, apelido Pepê,
ficaram ali no escuro. Enquanto isso lá no tombadilho a coisa pegava, e pegava
nervoso e esculhambado. Batalha terrível, dos infernos, dos piratas do mar
Atlântico de sul a norte.
- Acabou a história
calma e navegante e bonita - se lamentou Lilás
- Bonita... crou! -
replicou Pepê.
- Vamos afundar, naufragar,
encalhar, virar enfeite de coral ali em Abrolhos.
- Abrolhos... crou!
Se ouviam já os poderosos tiros de canhões,
p-tum p-tum p-tum p-tum!... As duas embarcações trocavam tiros de canhões,
muitos petardos. E muitos deles, de lá, acertaram as estruturas da embarcação,
de cá. Se ouvia também, desta banda, os berros, as pragas, maldições, ordens nem
atendidas, sapateado, correria, estouros, estardalhaços... Era uma guerra mesmo
pra valer. E ninguém no mundo está livre de guerra. Guerra é assim mesmo; e é
muito definitivo. Porém, fatal.
O
mar balançava sacudia no seu vaivém, o céu baixou um teto de nuvens cinzentas,
os dois navios inimigos se bicaram, os marujos marinheiros se cruzaram na briga
tipo briga de foice no escuro. E tudo ficou mesmo muito perigoso e atrapalhado
e forte, e seja lá o que D quiser!
O encontro, a abordagem, o choque, e homens
ferozes se atracaram no braço, na garrucha, na faca, na espada, na unha, na
adaga, na lança, no bacamarte, no arcabuz, no mosquete, e sem demora sem demora.
Foi luta de bicho e... se salve quem puder! Tiroteio no meio da fumaceira e
tudo pegando fogo fogo!... Os gritos o rebuliço e feridos aumentando dos dois
lados. E muita raiva, barrigas abertas, rostos escorrendo suor frio, narizes
quebrados, joelhos inchados, pólvora e enxofre temperando o chão, o mar, e o
céu por testemunha.
Um dos times tinha, como teve, que perder,
acabar e sair derrotado. Brigas de piratas sempre foram coisas sérias demais.
Naquele passado sem lei, e de muitos reis corsários, para cá ou para lá da
linha do equador, eram os assaltantes de várias bandeiras que desgovernavam os
mares do Atlântico e entre os outros tantos oceanos. O time do navio de cá o
Bufarinheiro, onde Lilás estava, perdeu para o time do navio de lá o Asperges.
Os piratas corsários flibusteiros do Asperges sempre foram melhores, quer
dizer, piores que os piratas corsários do Bufarinheiro. E pirata era tudo
igual. E pirata que roubava de pirata ficava um grande pirata muito mais rico.
O adversário Asperges acabou por conquistar o barco, a
nau, a embarcação Bufarinheiro. E o comandante atacante invadiu entrou e subiu
pro alto das cordas e gritou, em língua de pirata assaltante, e para os seus
marujos marinheiros, gritou falando de maus modos para a sua galera malcriada:
- Ordem! Basta, corja! Vamos limpar toda essa banheira
suja e destroçada! Joguem todo o lixo no mar e passem sabão no tombadilho!
Troquem a bandeira deles pela nossa! Vamos! Se mexam, mal-humorados!
Bem, houve a troca de donos ou de time na embarcação
Bufarinheiro. E os vitoriosos, se apossando do navio e de tudo que nele
continha, rumaram em dupla e lado a lado para casa.
Lilás foi poupada, e o papagaio de pirata, o Pepê,
passou pro ombro do comandante vencedor vitorioso novo dono e patrão, sim senhor!
- Como você, uma menininha, veio parar nas mãos desses
criminosos desalmados? Você foi raptada? Você foi roubada? Você foi comprada no
mercado cais do Valongo dos escravos? - perguntou o comandante vitorioso.
- Escravos... crou!
- Nem, não fui sequestrada ou outra coisa. Pensei em
viajar e peguei carona, entrei no barco clandestinamente - disse a menina.
- Esta história é
perigosa, viu?!
- Viu?!... crou! -
taramelou o maitaca-do-norte.
- Sei que nem é fácil, seu comandante, mas sempre quis
conhecer a sorte no mar. Tão espetacular, tão cheia de aventuras, tão fabulosa,
tão explosiva, tão dias e dias sem ver terra firme...
- Que nada, minha menina. É uma vida muito perigosa,
muito cheia de sol na cabeça, vento no rosto, vento frio, ondas gigantes, chuvas
e ventos e tornados furacões...
- Furacões... crou!
- Mas você nem troca
por nada, nem?!
- Nem sei fazer
outra coisa, embora. Sempre fui fiel servidor da rainha ou do rei de plantão.
Sempre fui um pirata. Sempre fui um bucaneiro. Sempre fui um corsário. De vez
em quando também um mercenário.
- Mercenário...
crou!
O dia foi todo pro mar e oceano e
céu limpo. Nem se viu nada além de céu azul e mar azul e ventos azuis. O
horizonte todo pintado da cor azul e verde. Nem havia, isso sim, novidade de
novo.
- Para onde estamos
indo, comandante vitorioso?
- Pra casa. Moramos a oeste, a poucos dias daqui, num
arquipélago sensacional paradisíaco com umas ilhas pequenas, quentes,
arborizadas... Vai gostar, são lindas ilhas, areias brancas, coqueiros tortos à
beira-mar, água de coco e sombra e rede de dormir...
- Dormir... crou!
Navegaram por mais dois dias até chegarem numa ilha e
uma aldeia caiçara. A ilha Grande, numa praia do Aventureiro e em pleno mar Atlântico
Sul. Desembarcaram com festa, carnaval, muita comida, bebida, alegria, batuque,
beijos e abraços. Todos os piratas corsários encontraram e abraçaram ali seus
familiares, mulher, filhos, amigos, bichos de estimação e uma rede na varanda ao
relento para descansar.
O sítio era um paraíso perdido, lugar
feliz, ideal para descansar na sombra, beber água de coco, dormir na rede carijó
tropical. Dias de sol e um dia de chuva para refrescar. Noites estreladas com
estrela cadente em parábola.
Uma noite talvez. Uma noite o comandante, que sabia
das histórias, contou que ali mesmo, no interior misterioso da ilha bonita ilha
Grande, havia uma montanha misteriosa. E naquela montanha uma caverna esquisita,
e naquela caverna uns perigos e uns escuros e uns milhares de morcegos e um
rico tesouro. Um fabuloso tesouro. Mas era um tesouro perdido porque ninguém o
encontrara até então. Um tesouro que se ouvia falar de ouro e prata e pedras
preciosas, mas ninguém provara que existia. Todo mundo que o procurara
procurava procurou nem o conseguiu encontrar. Era um rico tesouro; era um
tesouro difícil, isso sim! Porém todo mundo pensava que era um tesouro
possível.
- E digo mais, minha gente - continuou o comandante.
Dou os parabéns para quem tiver coragem e sorte de ir lá e trazer o tesouro.
Dou meus parabéns mesmo e choque aqui!
- Aqui... crou! - cantou mais uma o
papagaio Pp.
Lilás, quieta, quase aérea, ouviu a história, engoliu
em seco, coçou atrás da orelha, e foi dormir com minhocas, carambolas,
caraminholas, cambalhotas e outras voltas na cabeça em espiral.
Na manhã seguinte a menina, o
papagaio de pirata Pepê e o filho mocinho do comandante, o Barata, resolveram
ir atrás do tesouro fabuloso da caverna encantada. Saíram de fininho. Escapuliram
pela tangente. Bem cedo sem dizer nada aos adultos dorminhocos de até mais
tarde.
Em pouco tempo já estavam em plena floresta selva. Um
sol forte no céu. Seguiram pela sombra e pela margem do rio Madeira, na contra
mão, subindo. Lilás sorriu com seus óculos escuros. O papagaio de pirata no
ombro da menina. Barata bem que queria brincar perto de casa, brincar de subir
e descer de coqueiro, brincar de mergulhar na praia de Sibaúna, brincar de se
enterrar na areia quente ou fazer esculturas ou construir fortalezas:
- Tá ficando
cansativo - disse Barata. É melhor deixar pra outro dia. Pra ontem.
- Que nada, cara. Você é um menino ou um rato de porão
de navio? - desafiou Lilás.
- Navio... crou!
- Sou é muito corajoso,
sua metida!
- Então, vamos! E
cantando uma canção curta com estribilho longo...
- Longo... crou!
E cantaram em três
vozes uma cantiga mais ou menos lembrada e deste modo:
“Onde o marujinho?
Ele foi navegar
Entrou na caravela
Virou foca do mar.”
Continuaram pela margem do rio das Antas. Lilás toda
sorridente, saltitante, muito engraçada, falante, que todos gostavam. Maitaca
Pepê apontando as coisas da mata, coquinhos tucum, caraguatás, amor-crescido,
ananás-do-mato, marmeladas-de-cachorro, cagaitas... Barata com a cabeça girando
olhos girando pensamento circular.
Sempre bando e outros bandos de
passarinhos aves os chauás, anus-de-enchente, iratauás, bem-te-vis-patos...
Nuvens de passarinhos, os principais da estação, muitos bandos diversos, todos
voando sossegados para nem perder os matos ou banhados ou restingas de vista.
Todo verão era isso assim. Era sempre verão e meio baixo. Mais bandos de
passarinhos procurando jeito de fazer ninhos nas árvores tortas as tais e quais
curupiás.
Em tal hora estacaram sob uma árvore caroba para
descansar os pés os pés. Barata, todo arrepiado, apontou algo no meio da
folhagem e disse:
- Menina, acho que
vi um jacaré! Vamos cair fora, meu!
- Nem me diga!...
Por aqui! Vamos por aqui! - apontou Lilás, também assustada e afobada.
- Aqui... crou!
- Ele vai nos alcançar, vai nos pegar, vai nos comer
vivos - calculava o Barata.
- Se mexa, se mexa!
- gritou Lilás.
- Mexa... crou!
Os dois foram correndo, Pepê no ombro da menina, até
pensar que realmente estavam livres do perigo. E talvez estivessem. Tanto que
já avistavam ao longe, na linha do horizonte, a ponta da montanha que escondia
o tesouro. Tinha que ser ali e será que escondia ou mentia que escondia? A
menina testemunhou entre os presentes colegas:
- Opa, gente! Olha
lá a montanha. Umas nuvens na frente ao redor, mas tudo bem.
- Bem... crou!
- Nem será nada
fácil! - suspirou o Barata.
- Para de pensar no
difícil ou impossível, oh!, carinha.
- Carinha... crou!
- Psiu! Escutem...
Será que tem mais alguém além de nós três? Parece suspeito.
Os excursionistas pararam para escutar a mata. E,
claro, ouviram ruídos bem típicos do mato, ou seja, ruídos de mosquitos
zumbindo, de cigarras estridulando, do vento sacudindo folhas e ramas,
passarinhos piando sobressaltados, folhas caindo e outros sons que nem se pode
identificar, chios, grunhidos, estalar de folhas secas, passos furtivos. Então
era normal e natural.
- Vamos, vamos que
o dia já está todo descabelado em raios de cor.
- Cor... crou!
A mata era fechada, difícil de caminhar pelo seu
interior, um verde muito escuro, passagens de bichos, estreitos corredores de
porcos-do-mato, trilhas de antas. Aqui e ali, entre as árvores, uns coqueiros
altos e espalmados as caranaís-do-mato. Borboletas fracas e tontas escapavam
pelas sombras. Besouros negros azulados zumbiam entre as plantas trepadeiras. Abelhas
atarefadas as iraxins. Piados de pássaros assustados e tímidos e anônimos.
Assobios e urros de macacos-de-bando escondidos nos ocos das caaxiós.
Barata pensava
em tudo, pensava organizar organizado, olhava e pensava como um menino forte
deve pensar:
- Nem haverá onça braba por aqui, escondida entre a
folhagem, camuflada? Hein?! Talvez, hein?!
- Sim, por que nem?
- Nem... crou!
- Se for o caso da gente topar uma onça-pintada... -
resmungou Barata. Tô com pressentimento que esta aventura acabará em fracasso.
Ainda caminharam umas horas. Mata quase fechada,
catanduvas, bocaiúvas, ariris, pitombeiras, amoras-bravas... Depois andaram
mais um tanto. E mais e mais ainda. Total: era já hora de sol alto. O sol na
tarde de terça-feira, voando solto sobre a mata, sol de cabelos de ouro
espetados, perto dos ventos que ventavam longe longe, e até um sorriso também
de amarelo maciço.
As barrigas roncaram pedindo atenção. E o Barata
reclamou, e outro sim:
- Tá na hora do
almoço. Tô com fome. Vamos voltar.
- Ah, nem! Falta
pouco. Veja, Barata, a montanha está bem próxima.
- Próxima... crou!
E a montanha estava mesmo ao alcance da mão, se
entende assim. Já tinha uma cor a olhos vistos: era um verde por baixo, pela
barra da saia; e um cinza puxando para rocha, no alto. Teriam que escalá-la?
Teriam que esculpi-la? Teriam que enfrentá-la? Teriam que convencê-la? Pois é
claro!
- Boa pergunta, né,
Lilás! Vamos ter que subir tudo isso aí?
- Que tu achas, meu
parceiro de aventura?! Perfeitamente, né!
- Né!... crou!
- Pois eu já estou
arrependido. Já estou cansado. Vamos parar para comer. Para beber um caldo de
cana.
- Beber como, se nem
temos cantil? Comer o quê, se nem trouxemos merenda?
- Merenda... crou!
- Puxa vida! Que
falta de planejamento. Foi muita improvisação.
Isso mesmo, tinham que aguentar a sede e a fome e a
ansiedade. A floresta também nem oferecia nada de frutos, frutas e frutinhas.
Nem pitangas, nem cajus, nem araticuns, nem goiabas-do-mato, nem araçás, nem
guabijus, nem sete-capotes, nem pequis, nem gabirobas, nem muricis, nada.
- Sabe, essa caminhada é muito ufa! além do que eu
imaginei. Meus pés estão acabados. Estou com dor nas vistas de tanto observar
os labirintos da mata.
- Pense que vamos encontrar o tesouro, e ficar
milionários, bilionários com b. Praticamente uns potentados sofisticados.
- Sofisticados...
crou!
- Ah, se eu tivesse
asas como o baitaca Pepê!...
Em pouco menos pouco mais de duas horas, começaram a escalar
os pés da montanha tão falada e recomendada. Já estavam subindo a montanha.
Agora era olhar para cima, subir e escalar e trepar. Procurar pela entrada da
caverna, encontrar a abertura da gruta, e deixar para trás a paisagem ao
longe...
- Que altura terá
essa baita montanha, hein?! - suspirou Lilás.
- Hein?!... crou! -
chilrou o humaitá Pepê.
- Altura das
nuvens, ulalá! - soprou o Barata.
Estes nossos caçadores de tesouros não trouxeram nem
as coisas necessárias para essas aventuras de encontrar arcas perdidas e nunca
encontradas e fabulosas. Sentiriam falta de tudo, praticamente. Nem trouxeram
merenda, nem trouxeram binóculo, nem trouxeram relógio de pulso e nem bússola,
nem trouxeram facão para abrir caminho no mato, nem trouxeram isqueiro para um
fogo contra o frio da noite, nem trouxeram barraca, nem trouxeram repelente
contra mosquitos, nem trouxeram telefone; estavam mesmo no mato sem cachorro
sem mapa sem mantimentos e, de repente, sem coragem.
Então, a menina
Lilás viu algo importante e gritou, ouvindo sua voz:
- Olhe, olhe ali! É a abertura da caverna! Que legal!
Que massa! Nem me diga!
- Diga!... crou!
- Eta e parabéns!
Os pobres exploradores estavam bem cansados. Talvez
até com vontade de dormir. Com vontade de parar e lanchar. Seria a gruta
encantada de algum ente enfeitiçado? Só o papagaio de pirata, o Pepê, sempre
empoleirado no ombro de Lilás, viajava e viajou numa boa. Este papagaio de pirata
tinha muita sorte. Então, pararam para arrumar as ideias, pensar um plano.
Barata disse e se expressou ajudado pela esperança:
- E agora? Vamos
com calma e...
- Que nada, meu,
simboralá! Entramos na gruta e pronto.
- Pronto... crou!
- Como vamos fazer?
Nem temos tochas lampiões lanternas isqueiros fósforos!...
- É mesmo - reconheceu Lilás. A gente nem lembrou de
trazer. A gente nem lembrou de nada.
- Nada... crou!
Ficaram em silêncio tímido e calado. Escutaram os
ruídos do local do lugar. Só o vento passava por ali àquela hora, e de vagarzinho.
Fazia um silêncio fraco, longo, longe. Lilás tomou vontade e garra:
- Vamos entrar
antes que eu perca a paciência. E é agora!
- Agora!... crou!
Entraram na caverna. Lilás guardou os óculos escuros.
Estava muito escuro mesmo. Foram tateando, escorregando, tropeçando. O ambiente
estava mais friozinho e silencioso. Do teto caíam estalactites, do chão subiam
estalagmites. Barata pensou rapidinho e falou:
- E se a gente pisar numa cobra noturna? E se a gente
pegar sem querer uma aranha do escurão? E se a gente estiver entrando numa
fria? E se a gente estiver entrando na toca da onça-parda?
Com o passar dos minutinhos, os olhos até que se
acostumaram com o escuro. Somente um pouco. E o ânimo também se acostumou um
tantinho. Isto sempre acontece.
- Lilás-lás!...
Que-e é-é isto-to?
- Normal-mal. É-é
o-o eco-co.
- Eco-co... crou-crou!
Estava difícil caminhar o chão da caverna. Mais
adiante a caverna descia em rampa. Apareciam no teto as goteiras das
estalactites, no chão os montinhos das estalagmites. E assim dando cabeçadas, tropeçando,
esbarrando. Depois a caverna era subida e descida. Depois as esquinas e os vãos
estreitos. Parecia estreita, mas já se alargava. E cada vez mais úmida,
alagada, pingando na cabeça, escorregadia. E um silêncio preocupante que dava receio
que dava espirros que dava secura na garganta que dava tosse.
Contudo, de susto e de supetão, que
o Barata deu um berro ribombante ricocheteante:
- Aaaaaaah!...
Alguma-ma coisa-sa tentou-tou me-me atacar-car!
Que susto! E correr para onde, se tudo estava no escurinho?
Que susto! E correr para onde se tudo era um labirinto? E o coitado do Barata,
hein?! E o que pensava Lilás e o sôia Pepê? Era um momento crítico, delicado,
misterioso, difícil, embaraçoso. Lilás tentou acalmar a galera:
- Calma-ma,
Barata-ta! O-o que-que que-que foi-foi?
- Foi-foi...
crou-crou!
- Acho-cho que-que
foi-foi uma-ma lesma-ma gigante-te!
Então eles se precipitaram, tentaram correr, escorregaram,
tropeçaram, caíram todas às vezes, esbarraram pelos cantos de pedras, deram cabeçadas
e joelhadas e cotoveladas, estavam por conta do fracasso e do pânico e do
terror. Já nem tinham ideia, e nem sorte, para saber que rumo estavam tomando. Se
D quiser! A caverna era um labirinto escuro como breu. Coisa mesmo muito
difícil. Coisa inútil. Coisa nervosa. Coisa chata. Coisa sufocante.
- E-e agora-ra? - perguntou
Barata, batendo o queixo.
- Vamos-mos seguir-guir. É-é a-a única-ca coisa-sa
que-que se-se pode-de fazer-zer.
- Fazer-zer...
crou-crou!
Continuaram, ora essa! O negócio era andar, tentar
andar, tentar encontrar uma saída ou uma entrada. E aquela coisa lá no escuro
que tentara atacar o Barata? O que seria? Ele disse que era um ser energúmeno.
Mas podia ser um polvo, um jacaré-de-papo-amarelo, um peixe-boi, um muçum
gigante, uma esponja-do-mar, um legume. Podia ser aranha gigante, escorpião
gigante, um espírito fantasma encantado disfarçado gigante. Quem nem tem medo
de bichos gigantes, hein?
Pensa o quê! Acha que andar no
escuro de uma caverna escura é moleza, é fácil? Têm os riscos. Nem é coisa
fácil, nem. Nem é joia. Pensa que nem existem as tais e quais aranhas que andam
no escuro e de oito pés? E aquelas lagartixas que aprenderam a sobreviver no
escuro das cavernas? Ah, têm também algo do outro mundo! E têm muitas outras
coisas que no escuro nem se pode ver e se adivinha. Sim, no escuro da caverna
escura têm muitas possibilidades surpreendentes que nem se pode prever. Por
isso que quem passa por uma caverna escura sorteia muita aventura. E precisa
ter muita sorte para escapar com sorte. É só pedir para alguém que já passou
por isso e aquilo. No escuro olham os olhinhos inteligentes, acesos e à
espreita. Olhinhos à espera do menor descuido. E o pior é que o freguês nem vê
nada. Daí o seguinte: onde o perigo? Onde mora o perigo? O freguês sente até a
pele arrepiar. Sabe que há perigo em volta e nem vê um palmo à frente do nariz.
Todo mundo se preocupa com receio do escuro. Apesar de que nem se sabe se tudo
ou nada vai acontecer. Na maioria das vezes nem acontece grande coisa. E o receio
do escuro é só assombração superstição encucação ficção.
A caverna estava mesmo perdida na
escuridão. A caverna era mesmo úmida e escorregadia. A caverna guardava perigos
misteriosos. Eles três queriam sair o quanto antes da gruta, e sair abraçados cheios
com barras de ouro, objetos caros de ouro e prata e diamantes troféus
medalhas...
Barata perguntou todo aflito, e sim senhor!, com pose
de atleta:
- Como-mo vamos-mos encontrar-trar o-o tesouro-ro
no-no escuro-ro?
- Com-com muita-ta
sorte-te.
- Sorte-te...
crou-crou!
Andavam como por acaso, como tontos, como perdidos na
imensa montanha oca. Desciam e subiam por pedras escorregadias. E ouviam uns
ruídos estranhos, ruídos de bichinhos nervosos que acordavam no meio da noite e
mal-humorados. Como eram? Quem seriam? Quantas pernas pinças e antenas teriam
esses bichinhos esquisitos do escuro?
- Sera-rá o-o
que-quê? - indagou Barata, precisando falar qualquer coisa.
- Devem-vem ser-ser
morcegos-gos, ou pernilongos-gos, ou caranguejos-jos.
- Caranguejos-jos...
crou-crou!
- Ai-ai-ai!... ai-ai!,
meus-meus nervos-vos.
Tinham que continuar e logo em breve. E continuar para
onde, até quando? Estariam andando em círculos? Estaria andando tontos e
perdidos com certeza. E se fosse acordar do pesadelo nem seria melhor?
Então aconteceu um susto horrível.
Os morcegos começaram a atacar. Pareciam sedentos de sangue. E atacaram. O
papagaio de pirata, o Pepê, era o alvo preferido. Lilás e Barata também nem
eram poupados. Lilás se preocupou com os cabelos. Se ouviam os muitos
gritinhos, rangidos, chiados, miados, relinchos, silvos, pios, mugidos, roncos,
guinchos... Se ouviam os tantos e tantos ruídos brabos.
- Que-que
loucura-ra!! - declarou o Barata.
Agora sim os aventureiros estavam por pouco, ou quase
nada. Como escapar dos morcegos naquela escuridão? E estes bichinhos de orelhas
de rato sabiam voar no escuro. Para os morcegos era fácil; para os aventureiros
era ruim e péssimo. Azar dos aventureiros que invadiram o território e a casa
dos pobres morcegos pacíficos. Procurar tesouros? Onde se viu! E morcegos andam
à noite e no escuro das cavernas por quê?
Então, Lilás escondeu o papagaio de
pirata por dentro da blusa, e mais, pegou da mão do Barata e tentaram, juntos e
unidos, tentaram qualquer saída ou entrada. Tatearam no escuro, escorregaram.
Procuraram se proteger com os braços. Tropeçaram, derraparam, rolaram por
qualquer coisa. Era o que custava. Mas foram em frente como verdadeiros heróis
e heroína. E foram tentando. E tateando. E escorregando, tropeçando, batendo
com a moringa nas pedras. E... que surpresa! Viram a luz no fundo da caverna.
Assim aconteceu. Aos tropeções se
encaminharam para a luz, os olhos ainda nem acostumados, os olhos ainda nem
acreditando. Aí, os morcegos desistiram. Aí, os morcegos se deram por
satisfeitos, se deram conta. Os morcegos nem puderam com a luz; os morcegos têm
a pele muito sensível à luz.
- A luz... no fundo
da caverna... é a saída!...
- Saída!... crou.
Já era a luz de um dia que vinha de fora da caverna. Nem
havia mais o eco. Era talvez a salvação. Era a melhor hora. Era uma porta para
a luz do dia. Era a luz do sol que estava por fora da montanha. Era o sol e o
dia e o ar livre junto da floresta milenária.
- Uma porta na
montanha! - berrou entusiasmado o Barata.
Quase uma porta porque nem era porta. Se pode dizer
que era como uma janela. Quase janela porque montanhas nem têm janelas. Mas
como se fosse. Montanhas necessitam mesmo de aberturas na rocha. Uma fresta na
rocha por onde se podia ver o dia. Um belo dia de luz nas cores. Um belo dia
filtrado de azul. Um belo dia livre e muito mais.
- Estamos salvos! -
continuou comentando o Barata.
- Espere, meu! Nem
vá já jantando vantagem.
- Vantagem... crou!
Pois nem era vantagem nenhuma aquele buraco na parede
da montanha. Aliás, era um buraco bem no alto do corpo da montanha. E quando
chegaram pertinho e olharam... nossa! lá para baixo... um perau, a floresta do
alto, o panorama das alturas. Um precipício. Estavam no alto de um perau! Como
descer, agora? Como descer?, era a pergunta. Estavam muito alto e nem tinham
equipamentos de resgate. Estavam no alto do perau e sem tirolesa para descer de
brincadeira.
Novamente os três olharam a altura
do precipício e tremeram na base. Era uma altura respeitável, sem dúvida, sem
duvidar. Altura de um prédio de oito ou nove andares. Lilás pensou de leve, e
disse e falou e pois com calma:
- E agora?
- Agora?... crou!
Como nem podiam voltar pela caverna, pois sofreriam novamente
perigos escondidos na escuridão, resolveram, assim de improviso assim de
imediato assim de corrido, saltar dali mesmo. Saltar daquela tremenda altura e pra
baixo... Saltar com a ajuda da sorte. Saltar e... seja o que D quiser! Quer
dizer, mais ou menos, quase isso.
- Vamos saltar,
gente. É a única - disse Lilás.
- Única... crou! -
vozeou o maitá.
- Nem, jamé, de
jeito manera, tá alto demais - retrucou Barata.
- Ah, é?! Então,
fique. Eu vou. Vou ponto com.
- Com... crou!
- Ah, se eu tivesse asas como esse papagaio de
pirata!... - falou Barata, todo hesitante e nervoso na hora h.
Olharam mais duas ou dez vezes lá para baixo... É, o
perau dava arrepios. Calcularam. Tá certo que passava um rio lá embaixo, mas...
seria fundo o suficiente? O perau media uns dez ou onze andares, ou mais.
- Vamos pular? A gente cai no rio, nem vai se
machucar. Tem que ser pra hoje - incentivou Lilás.
- Hoje... crou! -
declarou o maitaca-verde.
- E se eu nem
souber voar? E se eu nem souber nadar? - temeu o Barata.
Enfim, a menina tinha que dar o exemplo e foi na
frente. Como? A menina foi perto da beirinha é... “Haaaaéeee!...” - pulou no
espaço como um pássaro uma ave um gavião-cauã - e caiu na água do rio Caí,
tchibum!... E o Pepê... “Vooooo!...” e voou como um pássaro uma ave um maitaca-curica,
aterrissou na folhagem da beira do rio Caí. Esta a vez do Barata. Agora o
Barata, para nem ficar sozinho ali, se obrigou e... “Meu diiiviiinooo!...”
pulou, voou como pássaro uma ave um piranga, e caiu de planchaaaaa!... nas águas
turvas do rio Caí.
Os dois nadaram até a margem junto do
maitaca-de-face-verde e correram para o mato. Quero-queros, dois ou três e em
turma, em posição de sentido, olharam piaram preocupados. O sol espiava daquela
nuvem lá no céu. A montanha subindo bem para as nuvens. E o mundo parecia muito
igual. E os ruídos da mata. Árvores diversas aí ali e organizadas. E o
gargalhar do rio Caí. O correr de perdizes, o se esconder de emas, o pipocar de
pombinhas-rolas, o bater asas dos gurundis-azuis...
Era hora do café da tarde? Talvez
sim, talvez nem, talvez quem. O sol nem se admirou de nada. Pregados de
emoções, os três decidiram parar na sombra de uma jabuticabeira ou palmeira
catulé.
- Vamos descansar
um pouco - sugeriu a menina.
- Pouco... crou! -
palrou o suia Pepê.
- Ufa! - soprou Barata. É duro ser herói, mas conforme
com as suas recompensas. E acontecem coisas. Será que nem é época de araçás
maduros?
Lilás enfiou a mão no bolso e puxou os óculos escuros.
Que sorte!, pois os óculos escuros estavam quebrados, amassados, trincados.
Faltava um olho. Guardou, então, para consertar depois. Barata pretendia mais e
mais:
- Puxa, né,
Lilás... nada de tesouro. Que tesouro que nada, hein?!
- É um tesouro
difícil, já foi dito e redito. É um tesouro que se deixa pra lá. E já muito foi
avisado e já muito se falou disso.
- Disso... crou!
Já descansados e com ânsia de chegar em casa para o
lanche das dezesseis horas, decidiram continuar a marcha. Rio abaixo por entre
os pés frondosos de curupiás. Rio Jacuí abaixo. Já viam em pensamento o sucesso
que fariam ao chegarem e recebidos na aldeia dos piratas corsários. Seriam
vistos como gente grande, e abraçados, e beijados, e esmagados pelos braços e
beijos, e festejados. Fariam pose a outros meninos e meninas da mesma idade.
Nem tinham tesouro algum, porém tinham um dia todo de aventuras no interior da
ilha. E podiam contar causo e aumentar o acontecido.
- Vão nos receber com carnaval, banquete, foguetório,
procissão, braços abertos e passeata - sonhava o bravo Barata.
- Três dias e
noites sem parar os festejos - sonhava a criativa Lilás.
- Festejos... crou!
- sonhava o esperto maritaca Pepê.
- Ninguém mais vai mandar em mim, faça isso! faça
aquilo! nem vai lá! desça daí! vê se cresce! nem amola! você é tolo! você é
isso e aquilo com assim e assado!
- É bom ser uma
famosa, uma muito famosa, uma sucesso mundial.
- Mundial... crou!
- Quando o pai for pro mar vou querer ir junto, vou
querer acompanhar, vou querer ser um bom pirata bandoleiro. Quero usar uma
garrucha e uma espada para guerrear com os inimigos estranhos estrangeiros
intrusos. E roubar todos esses ladrões dos sete mares.
- Quero assistir tevê até de madrugada, gastar muito
ao telefone, calçar sapatos de salto alto, salto agulha, salto plataforma. E
ainda uma saltitante coleção de sapos de verdade, de acordo com o Ibama.
- Ibama... crou!
- E pegar uma
prancha de surfe. Levar uma semana nas ondas mais perigosas da praia da
Joaquina. Andar de teleférico em Balneário Camboriú.
- Ei, gente! Psiu!...
- soprou Lilás.
- Psiu... crou!
Os três responsáveis pela aventura
pararam com tudo. Silenciaram. Levantaram as orelhas largas para tentar ouvir
tudo que podiam. Ouvir o quê? Que seria que acontecia? Nem estavam sozinhos?
- Que foi que você ouviu, Lilás? - perguntou baixinho o
Barata. Os morcegos estão atrás de nós? Nos alcançaram? Um bicho do mato? Um bando
de assaltantes?
- Quieto, meu! Nem
sei, mas... alguma coisa...
- Coisa... crou!
- Então tá, que a paz
de aventureiro dura pouco.
- Vamos continuar o
planejado. Pode ser que eu esteja ouvindo coisas inexistentes. Um alarme falso.
- Falso... crou!
- Se for bando de
bandidos ladrões larápios estaremos mal na parada, em?!
Continuaram andando, apesar de nervosos, apesar de
trêmulos e muito desconfiados. Muito ligados em tudo em volta. Pressentiam que
algo, que alguém, os seguia, e os olhava desde as sombras do mato. Já nem se
lembravam do cansaço, das bolhas nos pés, do sol forte na moringa, os espinhos.
O objetivo era chegar em casa, sãos e salvos, rapidamente, urgentemente,
praticamente, triunfalmente.
- Tudo indica que a
história ainda vai longe, né, meu?!
- Pois tenho a
impressão que... Ouviram isso?!... - a menina levantou a orelha.
- Isso... crou! - a
ave torceu o pescoço.
Nem havia mais dúvidas. Estavam sendo seguidos, ou por
morcegos, ou por outro bicho, ou por outro animal, talvez por sucuriju, por
matintaperera, por ente mairata. Deu para escutar direitinho um graveto se
partir, cleque!... ali dentro da mata, bem pertinho, atrás da plantinha.
- Estamos praticamente cercados estamos fritos e é o
fim - confirmou o Barata.
- Vamos andando, como
quem nem quer nada... - recomendou a menina.
- Nada... crou!... -
meio que quis dizer, meio que engasgou, meio que tremeu em sua última palavra o
ajurujuba Pepê.
Pepê nem pôde praticamente concluir o crocito porque
um bom número de piratas desertores já os cercavam. Surgiram assim... de
repente do nada e pronto, camuflados na mata. Todos armados de tacapes,
machados de pedra, arcos de cambuim, flechas com ponta de osso ou pedra, seminus,
tatuados, caras pintadas de urucum e jenipapo, e falando língua do pê língua
crioula língua misturada no nheengatu.
- E chegaram os
donos da selva e tudo mais, tá certo! - desabafou o Barata.
- Que situação! E é
assim! - suspirou a Lilás.
- Assim!... crou! -
grasnou o maitaca-azul.
Os desertores piratas falavam entre eles na língua enrolada
e nem queriam papo com os prisioneiros. Nem queriam saber de prestar ajuda aos
aventureiros sem tesouro. Nem adiantou a menina e o menino argumentarem, solicitarem,
pedirem, quererem convencer. Sem esperança, nada de explicação. Foram presos de
uma vez e pronto. Atados com embiras nas pernas e pulsos, erguidos do chão,
carregados na altura por cima das cabeças no muque dos piratas rebeldes.
Uma hora pela mata. Seguiam um
caminho de anta. Caminho diverso daquele que pretendiam Lilás, Barata e curica Pepê.
Natureza única e soberba. E porque tudo acontecia. E também o porquê de tudo
acontecer.
Por fim chegaram à aldeia escondida dos piratas. Ali
toda a taba veio recebê-los, curiosos todos da caça rara, como se fossem etês.
Viraram atração para adultos e crianças. Todos queriam cheirá-los, tocá-los,
atazaná-los, beliscá-los, chutá-los, estapeá-los, unhá-los. O papagaio de
pirata Pepê passou do ombro de Lilás para o do capitão de nome Tauá. Barata e Lilás
foram colocados em gaiolas suspensas no centro da ocara, pendendo do galho da
oeirana. Ali balançando para todos admirarem. Barata descascou o abacaxi:
- Que fria, hem,
Lilás! Estamos perto do fim e no rumo do nada!
- Eles nos olham como se a gente fosse fruta de feira,
pastel de queijo, pão de queijo, pratinho de bolo fubá, objeto de artesanato e
lembrancinha, colar de miçangas, broinha feita pela vovó, cacho de bananas...
- Vão nos engordar pra depois nos devorar, isso sim!
Vão fazer picadinho da gente e, por fim, sopa de menino e menina. Eu detesto sopa,
quanto mais ser a própria. Minha carne é magra e nem alimenta ninguém...
- Vão fazer isca
dos nossos corpinhos. E iscas, petiscos, aperitivos, tira-gostos, acepipes,
churrasquinho de gato...
- É, e é esta a
história que chega ao seu final e mal planejada - lamentou o Barata.
- Você viu o Pepê,
aquele espertinho aí? Meu amigo de ombro até agora e nosso amigo até esta hora
e que já se bandeou pro lado deles.
- Traição mesmo e confirmada. Mas fazer o quê. O plumoso
quer salvar o couro. Quer salvar idem as plumas azuis, vermelhas e verdes. É
compreensível e humano. Cara de bico, isso sim!
- E já está
aprendendo a língua geral do crioulo-pê-nheengatu, o vivaldino.
- Eu queria ir embora - se lamentou Barata, pela
centésima vez. Nem sou macaco de circo, nem sou cachorrinho amestrado, zebu nelore
de festa de rodeio, biruta de posto de gasolina, nem acarajé nem milho verde
nem paçoquinha...
- Vamos torcer pra gente
nem virar café da manhã de pirata revoltado desertor...
Por causa dos prisioneiros ou nem, aquela noite foi de
muita festa na taba dos assaltantes. Até porque a corja gostava de festa e a
veneravam. Todo mundo sabe como pirata fugitivo se veste. Um chapéu mais ou
menos, uma espada e uma garrucha sem balas na cintura, calças largas e
esfarrapadas, pé no chão, argola na orelha esquerda... Eles sempre fizeram a
lei da floresta das ilhas dos cafundós das baías e sempre que puderam.
Então, os velhos
piratas prepararam muitos peixes e animais do mato e insetos e ervas e frutos e
raízes. Banquete com temperos e molhos e perfumes. Em volta de uma grande
fogueira cantaram, “uh! uh! uh! quererê!...” e dançaram, rodopiaram batendo o
pé no pó, abalando a terra, assustando a mata. As poucas mulheres e a gurizada
olhavam, riam e aplaudiam. O mandachuva Tauá, com o maitaca-do-sul Pepê no
ombro, bebia cauim feito de milho, fumava cachimbo e ria à vontade. Para homens
e mulheres adultos a bebida corria solta. Era costume. Os velhos capitães
sacudiam os maracás, olhavam esquisito, rolando na poeira, tontos, zonzos. Precisaram
ficar todos muito doidos. Era assim que um destemido pirata tinha que proceder.
Cantavam, gritavam, falavam erguendo os braços para a noite, se jogando ao
chão, se voltando para leste e depois para oeste. Os tambores os batuques
acompanhando o bater dos pés no chão; davam vivas ao trovão; falavam com o deus
Netuno; pediam chuva e boa colheita de milho de amendoim de mandioca de abóbora...
De instante a instante inventavam pilhagens e criavam navegações e barcos
enfrentando tormentas; um momento queriam subir até a lua; por nada queriam
separar as estrelas das estrelas; outro momento queriam pintar o sol de
amarelo.
Um capitão, talvez o mais
experiente, o mais velho, cicatriz na cara barbada, saiu de uma oca de palha e
pulou no meio do povo e do tumulto. Saracoteou, rodou como fazendo pajelança,
dançando frenéticas coreografias, levado pelo álcool do abati. Era esse o papel
dos valentes. Andou pra direita e pra esquerda pra frente pra trás umas três ou
mais vezes e sem desistir. Tudo que fazia já era parte da festa, mesmo as
cuspidas que incendiavam ainda mais as fogueiras no centro da ocara. Ficou
nesse exercício meia hora e depois caiu desmaiado. Dois marujos ajudantes o
arrastaram de volta para a palhoça dos mistérios. Os capitães impávidos eram
muito respeitados e enigmáticos.
Vez ou outra
uma moça ou ainda uma cunhã com o filho curumim no colo ou um ex-marinheiro,
vinha espiar os engaiolados, lhes apertar as bochechas, falar piada na língua
do crioulo-pê-nheengatu. Os prisioneiros suspiravam, choramingavam, reclamavam,
sem saber se virariam sopa de corsário na ressaca da manhã.
Enfim, o alvoroço todo atravessou a noite festiva e
durou até de manhã. Até que o último flibusteiro cambaleou para sua oca e os
passarinhos na mata começaram a acordar, a fazer algazarra, a sair para pescar,
a sair para caçar insetos, a sair para buscar frutinhas... Alegria dos
passarinhos depois de uma noite bem dormida no galho da árvore. Passarinhos
sempre acordam de bom humor e esperando muito do porvir.
Raiando o dia novo, a aldeia quieta,
a ocara já bem quieta. Pelo chão muito lixo que os porcos-do-mato e cachorros
vira-latas e aves da mata aproveitavam. Quanto aos prisioneiros restavam
acabados e cansados nas gaiolas, os coitados. Vencidos pelo cansaço, pelo
horror da espera, enjoados, quase mortos de cansaço, rodeados de carapanãs vespas
mamangabas formigas-cortadeiras cupins micuins... Era demais mesmo quidemais!
Os piratas florestais, enfim, nem acho que lembravam ainda dos prisioneiros.
Por volta da tarde, vontade já
restabelecida, o movimento no centro da aldeia recomeçou. Os homens se
dividiram em dois grupos e disputaram competições. Cada time carregou um
tronco, e do mato ao centro do arraial. Tudo isso ao som de gritos, uivos,
flautas, tambores, vaias, gargalhadas, terminando com mais festa e comida.
Correr carregando tronco de buriti ao ombro era o esporte preferido do bando de
bandoleiros.
Quanto aos engaiolados, sem dormir,
abatidos, rodeados de borrachudos e abelhas arapuás, pensaram estar já nas
últimas horas. Lilás, desolada, falou a Barata, que também estava preocupado:
- Se ao menos eles nos dessem ouvidos... Se ao menos
conversassem com a gente numa boa... Se ao menos nos dessem uma chance... Se ao
menos nos distraíssem com uma boa refeição...
- Estamos fritos. Você viu como nos tratam mal? Querem
nos preparar para o pior. Daqui a pouco vai faltar caça e pesca e vão se
lembrar da gente...
- É, é isso mesmo.
Me sinto tão estressada, e com vontade de dormir na rede!
- Nem soltam a
gente nem pra fazer xixi.
- Estão todos muito esquisitos. Tudo pode acontecer. Pirata
bêbado nem vai com a cara de gente da cidade urbanos.
Os corsários piratas se divertiam na luta corporal.
Corpo a corpo, um contra um. Cada qual desafiava o outro e a luta iniciava.
Quase nus, só aquela tanguinha de nada na parte de baixo, e na frente e atrás.
Havia torcida e muita farra. As mulheres moças cunhantãs também lutavam. Acontecendo
vaias e aplausos para ambos os lutadores ou lutadoras. No final sobrou o
maioral o grande vencedor. No final sobrou a maioral a grande vencedora.
De repente toda a tropa silenciou.
Bico calado. Lá da gaiola, suspensa no galho da castanheira-do-maranhão, Lilás
mostrava, para quem quisesse ver, o óculo escuro e caolho. Lilás usava na cara
aqueles óculos trincados, riscados, caolho. Todo caso, e parecendo enfeite de
carnaval, era muito bonito e diferente. O chefão Tauá se aproximou, pegou da
relíquia, examinou-a, cheirou-a, mordeu-a e a pôs sobre o nariz na cara
pintada. O bando todo riu e deu os parabéns. Então, o morubixaba gostou, achou
legal, e tomou para si. Deu uns passos para mostrar a todo mundo, estufou o
peito, continuou andando, garboso, capitão dos capitães... Logo fez um gesto e
um marujo abriu as gaiolas libertando os dois aventureiros.
Barata, que nem acreditou no começo, que nem estava
acreditando no início, perguntou à menina Lilás:
- Que houve? Que
está acontecendo? Vão nos cozinhar?
- É melhor preparar
um bom discurso de despedida. Deve ser o fim. O fim mesmo.
- Vamos virar sopinha,
ou espeto corrido.
- Uma pena. Tinha tantas aventuras pra realizar.
Tantos planos. Foi um prazer lhe conhecer, Barata.
- O mesmo digo eu,
menina Lilás. Inté!...
A festa prosseguiu. O baitão Tauá destacou um grupo
para acompanhar os ex-prisioneiros até a praia enseada dos piratas caiçara. Se
despediram perto das casas da vila. E o maitaca-de-garganta-azul, o Pepê,
pousou novamente no ombro da menina. E aquele parecia muito confuso e lelé da
cuca. Falava tudo pela língua crioula-pê-nheengatu. Estava tonto de hábitos e
costumes e comportamentos de piratas selvagens fugitivos desertores. Tinha a
língua para fora e os olhos esbugalhados e as penas tostadas. Que pagou o seu
preço também.
Os piratas florestais deixaram os
ex-prisioneiros perto da vila, na praia na enseada das Estrelas e a uma pernada
ou remada da ilha Jorge Grego. Graças à sorte retornavam para casa sãos e
salvos. De mãos vazias, mas inteiros.
Quem contou isso pra mim... hum!,
nem sei nem lembro, jurou que aconteceu tudo de verdade realmente como faço o
favor de repercutir pra vosmecê.