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domingo, 28 de fevereiro de 2016

Contos de Santa Luzia (1)

                                              


         Uma quinta-feira ou sexta-feira com cara de sábado à tarde, com silêncio de domingo pela manhã, com nada que fazer de feriado de Sete de Setembro; certo ou nem tão correto das horas do meio-dia ou pouco mais ou pouco menos, se tanto, o sol rachando caindo em chapa no ouro atômico, ressolana terrível.
         A Fera felina pulou agilmente da carroceria do caminhão-jaula placa de Santa Maria. E começou a andar e procurar pelo deserto de terra vermelha. Caprichosamente e perfeita pintada com pintas e pingos amarelas e pretos. Os grandes olhos bem acesos, pupilas verticais, olhos de dentro do sol, redondos, estalados, recortados, ligados, amarelos, solares. Maleável perfeitamente como uma felina original nacional profissional. E seguiu sempre preocupada na planície deserta e escaldante minada de tucurus.
Uma baita felina que podia muito bem ser uma leoa, uma tigresa, uma guepardo, uma leopardo, uma pantera, uma modelo de passarela. Nem podia ser a onça-pintada ou parda ou negra ou vermelha, a puma, a jaguar, a jaguaretê, a jaguatirica, a suçuarana, a gato-maracajá, a canguçu, a gato-do-mato-pequena.
         A Fera xucra foi vazando pela terra esturricada. Tocos podres ou requeimados de ex-árvores, passariúvas, tucunarés-mereçás, dois-por-dois, butuas-catinguentas. E olhando assustada, alerta, escaldada, cuidadosa, se movimentando macia, camuflada, trocando orelhas, treque-treque!... Nem reconheceu do lugar coisa alguma. O coração tocando fora do normal, em marcha acelerada, em tom de tambor, com gosto amargo na boca, pelo incendiado. O grande chapadão de terra vermelha vento vermelho nuvens vermelhas. Desconfiada, melindrada, nervosa, ressabiada. Nem era seu território e nunca seria.
Parava intermitentemente indecisa para escutar, cheirar, pensar, estudar, calcular, olhar para trás. Tentou tentou se orientar. Olhos ardidos, língua de fora, unhas quebradas, pés cortados no pedregulho e requeimados na terra quente. Sol muito forte e daí para mais.
Cravou as garras no chão de terra requeimada, cavou, cavou procurando. Olhou os lados, levantou a voz rouca e desafiadora, ruuuuu!... Queria descansar mas o sol forte do meio-dia.
Depois, quando, horas do meio-dia, encontrou subiu num guamirim-felpudo arrancado caído e olhou em torno o descampado desnaturado. E nem pôde dormir nem nada. Um longo bocejo, uma boca normal de fera, uma boca enorme de dentes grandes e pontiagudos, boca aberta com a língua de fora mal resfolegando o ar quente do mundo todo. Pontada do lado.
         Dia e horas e horas de silêncio. Sol desesperado. Sol desleal. O vento jogando punhados de poeira nos olhos. O vento carregando a terra seca sem parar sem parar. Calor e poeira sem necessidade.
         A vila de Santa Luzia sempre pobre, silenciosa, mínima, arruinada. E nuvens de pó vermelho, polvadeira, poeirada, poeirama. Poucas casinhas, vinte ou vinte e uma, todas cobertas de capim, ladeando a única rua, a rua Única. Casas de pau-a-pique praticamente quebradas pelo esforço do sol diário, pelo esforço da poeira constante, pelo esforço dos redemoinhos de saci. Uma pracinha com ex-arvorezinhas todas torradas e requeimadas de sol, tangaracás-açus, jacitarapuís, bacuparis-do-campo. Fantasmas de homens e mulheres esquálidos, desgrenhados, descadeirados. A vila os vilões apodreciam no vazio. E uma capela em honra à Santa Luzia.
         Nuvens nem muito altas nem muito rápidas tocadas por um bafo quente, sopro nem muito forte nem muito insistente mas seco e vermelho e constante. Sol confuso e ofendido. Um sol que ainda nem nunca havia saído de cena.
         Na sombra mormacenta do casebre torto, óculos escuros e palito no canto da boca, o ex-Tratorista agrícola nem olhava a rua Única. Mastigava o palito e nem pensava em mais nada. Dia de meio-dia coberto de poeira.
Uma pequena onda de terra vermelha se ergueu lá na ponta sul da rua Única. Ninguém viu. Todos podiam ver. Era sempre assim mesmo. Um deserto de sol muito chapado no fim de tudo. Sol espantoso que já torrara o mundo todo.
         A estiagem mais os incêndios fizeram do lugar um ambiente abafado e irrespirável e arruinado e infernal. O mundo coberto de cinzas e poeira vermelha.
Os poucos semoventes do arraial perdidos na fumaça, na poeira, na soalheira, no silêncio. Vilões e vilãs sonolentos, cansados, preguiçosos, esmolambados, desgrenhados, desalinhados, mudos. Os olhos ardidos, as gargantas ressequidas, os cabelos requeimados. Vila e vilões sem altura de pouca estatura. E tentavam dormir e nem se olhavam e nem se falavam.  
Vento em ondas quentes de terra vermelha, tudo sufocante: mundo sob as cinzas, mundo sob o pó vermelho, mundo sob o sol atônito. O mundo todo já derretido.
         Durante todo o sol e a claridade do solar e o sol que aniquila, a Fera já arrependida e já boquiaberta e já com dor de cabeça. Sentia o vazio e o frio do fogo pelo interior do bucho. A força do instinto a alertou para o perigo da gastura estomacal. A garganta apertando, quase sem voz, rouca, greeeee!... focinhando a terra esturricada. Procura que procura uma saída e um lugar novo em pleno meio-dia.
         E a Fera engolia os redemoinhos de poeira. Prestava atenção no vento quente e nem nada nas distâncias. O sol quente e tudo silencioso. Assim, foi andando delirando foi andando vendo fornalhas nas horas plenas do meio-dia. O solo baforando fumaça e calor e poeira e silêncio e nada.
Desceu até umas lajes escaldantes e entrou no leito de ex-rio que virara caminho de areia e de pedras soltas. Lambeu umas pedras lisas, cavou à vontade na areia, cavou, bufou e bufou, vu-vu-vu!... A Fera estava afobada, cansada, inchada de calor. Com uma dor de cabeça de rachar o crânio, e que só fazia aumentar. Urrou, urrrrro!... ao mundo todo, garganta seca e dor de estômago e pontadas do lado. Nem conseguiu esquecer o vazio na barriga. A língua de fora, os pés em chapa quente. A luz excessiva tirando faíscas das pedras e doendo nos olhos amarelos amarelos.
         Se encaminhou para qualquer lado. Na mente derretida a figura insistente de um abrigo qualquer. E tentou achar graça nas folhas secas do chão, nos gravetos requeimados, nas pedras soltas, na poeira das mãos. Ciscou aqui e ali, cavou e cavou, o coração fora de compasso. Ergueu as garras para o ar, arranhou a sombra das pedras, escarafunchou o chão encardido, bramiu, braaaaa!... Caiu estonteada cheia de cansaço e preguiça e formigamento pelo corpo.
         A Fera, criada guaxa, nem se perguntou mais nada. A Fera somente se cozinhava no caldeirão do meio-dia. A mente felina já vazia de imagens. A Fera tentou respirar o ar quente, quentíssimo. As meninas da felina nem se acostumavam com tanta luminosidade. A Fera fechou os olhos diante de tanta luz. O incêndio que borbulhava desde dentro dela mesma.
         O ex-Açougueiro de chapéu de palha macaúba trançada desfiado, camisa amarela de mangas curtas desabotoada na frente e bermudão azul desbotado sem bolso, deu meia volta na casa pequena e foi para a frente na porta da ex-loja. No alto do batente uma ferradura pregada. Abriu a porta da sala vazia, escancarou a janela do nascente, esfregou as mãos. Olhou a única rua da vila. Tudo silêncio e poeira e sol. Tudo muito calor. Sentou numa cadeira de balanço, ali no meio da porta. Olhou a rua Única e nem esperou nada. A praça deserta cheia de luz intensa. O sábado ou domingo por volta das doze horas nem tinha nada.
         Sentado na sombra vacilante da ex-farmácia, chapéu de palha buriti no joelho direito, o ex-Farmacêutico coçava a orelha esquerda com a ponta da unha do dedo mindinho esquerdo. Um céu meio confuso de poeira vermelha, um mundo que seguia em ondas de calor e poeira, vento quente, mormaço e terra andando. As ex-plantas da pracinha pareciam espetos de pontas pretas voltados para o céu, espetos tucuns, espetos gervões-do-alagadiço, espetos jerivás, espetos azedas-do-prejo.
         Encostada no batente da porta de casa que dava para a rua Única, a vilã descadeirada, uma ex-Lavadeira, cabelos em desalinho, olhava sem ver o horizonte escaldante. Chão e alto tomados de toda luz e poeira vermelha e redemoinhos de saci. Colunas e mais colunas de poeira, nuvens e nuvens flutuando fazendo o ar irrespirável, vermelho. O silêncio era tudo total. Sol insuportável do meio-dia e estalando.
         A Fera felina só fazia grunhir, graaaaa!... cansada de andar, e andar tanto, andar ao léu. Nem ouviu um som, nem conseguiu pesquisar um cheiro, nem seguiu um rasto. Aí, lembrou o vazio absurdo no estômago. Lambeu sem querer os beiços peludos e chamuscados, as solas dos pés requeimadas, e tentando a todo custo iludir a falta de ar. A dor de cabeça insuportável, latejante. Os olhos desolados e ardidos diante de tanta luz.
         A capela em homenagem à Santa Luzia ficava sempre atenta, sempre de porta aberta. Casinha de pau-a-pique coberta de palha santa-fé. Dentro, em altar, Santa Luzia segurava os olhos azuis numa balancinha com bandejinha empanados de pó.
Guria e moça e cunhantã, Luzia nunca esquecera de insistir: “Haveria de ser santa”. Era de família nobre e rica e poderosa e requintada e numerosa. A beleza da menina era beleza de uma lindeza mais que admirável, incomparável, longos cabelos brancos com pontas cacheadas, olhos grandes negros, dentes certinhos brancos, lábios carnosos rosados e tudo ajustado em os um metro e setenta e cinco. Uma beleza incontrolável, incontestável, eloquentíssima. Levava uma sina de criança esquiva e quieta e estudiosa.
Depois, Luzia tinha muitas árvores e flores no jardim enorme bem cuidado, árvores frondosas com milhões de folhas para contar e que tagarelavam com o vento, e flores magníficas como a brinco-de-princesa cor vermelha cor branca cor azul, e os dois-amores, e as rosas-do-campo, e os amores-do-campo, e as begônias-sempre-floridas. Muitos avinhados e pinéus e mães-da-taoca e tangarás e quenquéns e joões-arredios e saurás vinham cantar no seu quintal. Tinha de presente uma potra baia cebruna para voar e correr subir e descer as coxilhas e as canhadas e os boqueirões.
Com dezesseis anos, Luzia foi submetida à torturas, os seios foram decepados, acabou morrendo. O céu ficou escuro na hora e choveu três longos dias e noites sem parar sem parar. A enxurrada levou barrancos e casas e carroças para o fundo do rio Itoupava. Fora de dúvida que foi um desastre ecológico e tanto para a cidade de Jaquirana e arredores em Amapá.
Cedo, Luzia se revelou para a vocação monástica. Aceitou sem reservas as regras severas do confinamento. Passou sua vida no convento, marcada por acontecimentos milagrosos. Parentes e amigos que a visitavam no aniversário diziam ver uma aura de ouro em sua volta. Viveu para as meditações e orações e cuidados com os doentes terminais. Tinha enorme predileção para com as árvores as flores os pássaros falando com os bichos que encontrava por acaso pequenos médios e grandes. Passava horas e horas do dia ajoelhada contra a parede, rezando. Passava dias e noites em jejum caminhando entre as pedras e dunas e ou escrevendo na areia da praia da Enseada.
Luzia recusou casar com o Imperador e por isso foi encarcerada, chicoteada, estuprada, torturada na roda de quebrar ossos - a roda se despedaçou e os estilhaços de madeira atingiram alguns espectadores. Decapitada, de suas veias jorraram leite. Seu corpo teria sido levado por anjos, anjos todos com branco, anjos de grandes asas brancas de bordas douradas.
Quando ainda bem mocinha, no século IV, Luzia fugiu de casa e foi ordenada freira. O convento ficava no morro mais alto da cidade. A cidade de Serra Negra na serra da Mantiqueira foi invadida e saqueada durante perseguição aos cristãos. E todos procuraram se esconder, todos procuraram cavernas e lapas e minas, todos procuraram ocos de árvores e ninhos de araras-azuis-grandes. Cães farejadores farejaram Luzia, que foi presa e morta - degolada, corte de orelha a orelha.
Conta-se de Luzia, que ainda foi raptada durante uma invasão dos bárbaros e vendida como escrava. Levada arrastada presa acorrentada de lugar para lugar imigrou contrabandeada para até além do rio Mucuri na região da serra da Cantareira. Aí, por não querer renunciar a sua fé cristã, foi torturada, os pés arrancados e crucificada de cabeça para baixo.
Ela, a bendita Luzia, se dedicou aos pobres e enfermos e desenganados da justiça. Beijava e lambia as feridas dos doentes. Foi martirizada, por volta do século II, durante a perseguição aos cristãos na cidade de São Francisco de Paula. Teria tido os olhos arrancados por seus carrascos e executada por se recusar a violar o voto de virgindade. Depois seus olhos voltaram a suas órbitas, por milagre. É representada com os olhos sobre um pratinho limpo.
         Dias do mais quente dos verões e bem nas quentíssimas horas do meio-dia na vila de Santa Luzia. Uma calma que o lugar dava. Um sol que derretia as pedras. Troncos secos de ex-árvores espetavam o céu pardacento, jatobás-do-cerrado, samaumeiras-da-terra-firme, sumarés-do-campo. Calor que causava tremores calafrios. As ondas de poeira indo de um lado pro outro. Terra vermelha em brasa.
O ex-Açougueiro, sentado na cadeira de balanço, suor escorrendo no pescoço encardido, coçava as canelas, coçava os joelhos, já ia coçando os cotovelos. Os pés empoeirados e rachados com sandálias de franciscano pescador. Olhava tudo cansado e via as coisas abrir e fechar, e sair e voltar, e distanciar e aproximar. De repente, um redemoinho de saci no meio da rua Única. E sempre o si-lên-cio.
         Um homem de sessenta e dois anos, braços cruzados, a perna apoiada na grade torta da varanda, acompanhava com os olhos vazios a poeirama levantar do lugar deserto. Tudo precisava ser feito, nada se podia fazer. Nem chovia havia duzentos anos. Tempo fixado no sol do meio-dia. Uma mulher desgrenhada apareceu na janela da cozinha. Olhou o nada. Farejou o dia mormacento poluído de serragem. Depois, baixou a cabeça e desapareceu pelo interior do casebre.
         A aldeia evaporava sob sol vermelho e impiedoso. As coisas meio que crepitavam, estalando com o calor. Um vapor subia do chão criando miragens. Nem chovia há décadas. E as horas do dia nas doze sufocantes e paradas como amortecidas. As miragens e mágicas sofriam terrivelmente por falta de ar puro.
         Então, sentado na cadeira de ferro e lona junto do batente da porta, o ex-Açougueiro olhou sem enxergar a pracinha, o ex-gramado agora já derretido e as ex-árvores, já árvores carbonizadas, espetos de angico, espetos de pau-ferro, espetos de itapicuru, espetos de araticum-cortiça. E reparou o casal de vizinhos sentado na cozinha lá deles as cabeças de ambos pela janela aberta. Ele tossia e olhava o dia ensolarado, ela nem falava nem gesticulava espreitava o dia máximo de luz. O ex-Açougueiro ainda olhou o fundo da única rua da aldeia, olhou para a ponta do sul e para a ponta do norte. Do sul vinha outro pé de poeira de saci. Tudo isso acontecia, nada acontecendo. Tudo derretendo sob o astro de fogo. Sol abobado. Horas sem sombra. E o mundo nem pensava em mais nada.
         O Padre veio à janela da casinha paroquial. Se debruçou na janelinha e olhou o sol que fazia e desfazia. As figuras consumidas das ex-árvores da pracinha, espetos de jabuticabeiras, espetos de pinheiros-do-paraná, espetos de murtinhas. Ou ainda olhando para o céu sempre o mesmo e turvo e cheio de luz, mais das vezes misturado com nuvens de poeira vermelha. E o Padre só podia esperar o sorteio do par ou ímpar.
         Havia uns meses que nem chovia. Sol pesado e ameaçador. O ex-Açougueiro se abanava com o chapéu de palha bacaba-de-leque. Dois homens sentaram na sombra quente da capela. Os dois compadres ficaram quietos como o dia cansado. Dois sócios das horas lentas vestidos com roupas leves e curtas, roupas rasgadas e encardidas. Em volta, um silêncio de tudo e de nada.
         A aldeia mal passava as horas em silêncio e nuvens de pó. Os vilões e as vilãs e os vilõezinhos nem sabiam o que fazer. Passavam o dia cochilando pelos cantos sem poder realmente dormir e descansar.  
         Meninos descalços, sem camisa, então, iam brigar de camoa lá entre as árvores mortas e requeimadas da pracinha, espetos de cambuís, espetos de jabutapitás, espetos de imbaúbas. Todos os piás armados até os dentes com revólveres e fuzis e estilingues. Caíam para trás ao impacto da bala assassina. Espetacularmente se jogavam para trás ao impacto das balas da metralha. Jogavam de matar e assassinar e morrer e se maltratar. Às vezes se amontoavam para focinhar o chão de poeira com arte de se agarrar. Curuminzada de pé rachado, de lábio cortado, de cabelos duros, de lombo riscado de vara e pele pintada na poeira vermelha.
         A Fera se aproximava da aldeia de Santa Luzia. Cansada, louca, variando da cabeça, desequilibrada dos pés, arrastando a cauda. A imagem das casinhas dançava no olhar perdido. Tudo confuso, avermelhado, cheiro de poeira. E quieta como o silêncio, como uma gata, como uma sombra, como uma estrela distante, foi chegando, se arrastando. Nem curtia praticamente mais nada. O gosto de poeira vermelha no ar. Cheiro de queimado, cheiro de dia requeimado, cheiro de tudo passado pelo fogo. Delirava numa dor de cabeça. Viu, por miragens caleidoscópicas, uma placa de metal picada de pedradas e balas de revólver, e com a inscrição: vila Santa Luzia. E isto por muito a incendiou.
A felina foi avançando pela macega requeimada, por entre touceiras de barba-de-bode torrados, se agachando entre a guaxima incinerada, pisando as pedras lascadas e quentes, foi avançando e foi chegando. Nem prestou toda a atenção necessária e devida. Nem olhou realmente nada. A perturbação dos sentidos fazia errar o raciocino, e estragar as horas do meio-dia, as memórias, fazia se perder de tudo. Entrou pelo sul da rua Única. Rua cascalhada e poeirenta.
         O dia em pleno meio-dia de cansaço e forno e fogo e fogão. O céu esperava ainda em vermelho. O sol ainda pingando fogo. E os meninos brincando de pneu correndo pela pracinha. De repente, faziam de um coleguinha um cabo de guerra. O calor estava insuportável, estonteante.
O ex-Açougueiro esborrachado na cadeira de balanço. O casal nem olhava a rua Única, nada interessado, as cabeças no quadro da janela de guilhotina aberta. As pedrinhas da rua faiscavam, tiravam poeira dos olhos. O chão soltava a fumaceira constante. Um saci brincava de anarquia com outro saci e mais outro saci total cinco ou seis sacis.
         O céu sem sinal de qualquer coisa. Um avermelhado de terra e calor, de cristal no forno, de vidro fundido. A luz forte abatendo as coisas. Tudo seco e gretado e esturricado e requeimado e torrado. Dia na hora do meio-dia nem tinha nada. O silêncio desolador. Um mormaço e um cheiro de requentado.
         Depois, o ex-Açougueiro, sentado na soleira da porta da extinta loja, olhou o nada sem ver nada. Os olhos fundos, as órbitas cavadas e escuras, a pele vermelha de poeira. Olhando o nada sem pensar qualquer coisa. Pensamento seco. Tudo fervendo, reverberando. Tudo cheio de muita luz. Nenhum movimento. Ninguém atravessaria a rua sob o sol do meio-dia.
         E apareceu a Fera como uma miragem um vazio virtual. E o ex-Açougueiro apertou os olhos doídos. O casal se levantou da mesa e veio até a janela aberta. Os dois compadres se entreolharam se ergueram interessados ali na sombra quente da capela.
E a Fera foi chegando assim, se arrastando, nariz ardendo, olhos inundados de poeira, subindo pelo sul da rua Única. A língua já nem cabia mais na boca, a cauda entre as pernas vacilantes. E a Fera parecia rir, gargalhar. Comendo poeira. E realmente ria, ria para si, ria de si mesma. Ria para o ar quente, ria para o chão estorricado, e ria para a rua de sacis.
         E a Fera chegou ali, num bom ponto no meio da rua Única. A Fera felina nem tinha nada o que dizer. Nem pensou mais nada. E caiu, caiu principalmente no chão de poeira vermelha e entre as pedrinhas soltas, caiu já entregue a domicílio. Um pofe!... no chão de poeira vermelha. Levantando uma pequenina nuvem vermelha de poeira que irritou os sacis de plantão.
         Daí, de repente, rapidamente, todos os cinquenta ou quarenta e nove moradores da vila Santa Luzia apareceram, surgiram, levantaram do chão duro e seco e antigo. Como enxame de zumbis. Sem perda de tempo. Como cardume de peixes mortos. De certo que estavam cuidando da Fera por trás das venezianas e cortinas encardidas. E todos apareceram correndo. Todos ao mesmo tempo. Saindo de todos os lados como cachorros uivantes, iuuuuu!... e avançando. E avançaram para cima da ex-Fera sempre armados de picaretas enxadas facões foices martelos e pregos.
         Tanto silêncio depois e demais. Silêncio que era excessivo e insistente. Quietude de sombra chegando e mudez. Silêncio da surpresa. Nem havia nada demais em mais nada. Os vilões e as vilãs e as vilãzinhas olharam como às vezes olhavam aquelas ondas de poeira.
         Havia uma certeza na altura dos acontecimentos: ninguém levava a cabeça no lugar.
         Chegava um redemoinho da ponta sul e vinha um outro da ponta norte pela rua Única. Os dois ao mesmo tempo. Com certeza iam se encontrar e iam se chocar e iam se pechar no meio da ruazinha. E logo se encontraram e se chocaram bem no centro da ruela. Foi um encontro de nada. E foi muita confusão de nuvens de poeira se misturando. Muito pó vermelho e vermelhos sacis irritados.
         Se fosse só o vento sob o sol causticante no deserto de terra vermelha.