terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Contos de Santa Luzia (12)


                                               
        
         Apareceram Jegue carregado de Moça. A dupla em cheio em meio do território terrão bem pelas dez e doze. Eram dez e quinze. O sol as constantes correntes de poeira tudo era muito calor e confuso e sufocante. A caatinga em dia de sol chapado e poeira poeira nos olhos. Fazia um calor mormacento.
Pouquinho antes da aldeia, aconteceu isso: Jegue travou as quatro rodas as orelhonas cruzaram recruzaram e nem queria dar mais um passo e de jeito nenhum. O burrinho ficou estátua. Focinho filtrando a poeira reinante insuportável. Ouvidos à espreita.
Seu quadrúpede com Moça nas costas desenhados no chão em a sombra da manhã. A hora que ia passando tiquetaqueou Jegue e Moça indecisos. O vento que sempre dizia aaaaa e terra solta no ar quente queimada.
Jegue de olhos azuis e pelo cor cinza pela Moça de olhos acinzentados. Empacou e amarrou o burro. Dali ali além nem mais. E riscou a pata dianteira na terra seca requeimada chamejante. Ainda chiou zurrou ooooo até a Moça se flagrar que era o fim da linha da picada.
         Moça as pernas longas os pés em sandálias franciscanas de pescador quase arrastando o chão. E levava o cabelo cor de fogo todo torcido no alto da cabeça e preso por espetinho de osso marrom brilhante envernizado. Boleou a perna apeou do Jegue dorso em arco e esperar o quê.
E ela com a descolorida cara de maquiagem-poeira. Vê se achava uma saída miraginal. E nem soube mais o que fazer. E ele olhava à frente olhos fixos em alvo olhos lacrimejantes cheios de poeira. Jegue tinha nome de árvore. Moça já nem sabia o que dizer o que fazer quantas vezes passou as mãos nos cabelos engomados aterrados.
         Pois Moça pegou a bolsa de couro cru a tiracolo passo compassado para fugir de uma possível intermação e seguiu desacompanhada. Caminhou trocentos mil metros em duas horas e tanto. Sol entre nuvens pesadas de poeira vermelha. Mais meia hora. Passos deixando rastos. Mais outro tanto. E mostrava maneira jeito de balançar os braços em o caminhar. Fazia um calor de quarenta e sete graus.
E Moça entrou na aldeia Santa Luzia na manhã das 11 e 22 horas. A coisa evoluiu. E veio 13h e 30 min. Para falar ministério, ela procurava um ser das espécies dos fanerógamos - podia ser oposto ou nem -, do signo de capricórnio, para com esse juntar as manias e idiossincrasias e horas e dias e anos de por vir.
         Um tempo teimoso que caía sobre a pacata ou pataca aldeia de Santa Luzia. Nem chovia há meses. Plantas já haviam estorricado. Um silêncio de tudo abandonado sem insetos ou quaisquer outros bichos semoventes, etc. Um calor impossível. Diferentes crianças, pés descalços e cascosos, brigavam e fumavam cigarro de palha na calçada da capela. Calor de fornalha. Golpes de vento jogando terra seca na cara. Calor terrível de derreter o rasto da freguesa.
         Que a Moça se dirigiu ao ex-açougue para ter com onde quem conversar. Queria muito tomar um comprimido para dor de cabeça. Suando pegajosa perfume vencido cabelos empapados. Estava cansada demais, a boca cheia de terra. Sol inclemente das quatorze. O ex-Açougueiro lhe apareceu de supetão pela esquerda e:
         - Ei, Moça! A Moça chegou a pé, cansada e desabitada?
         - Olha, meu! Sei que é difícil, mas preferiria um chá de cidrilha.
         - Uma coisa eu garanto garanto. A vila nem come e nem bebe há doze anos dois meses e duas semanas e vinte e dois dias.
         Moça contou até cinco dedos. Fácil chegar num lugar estranho e já fazer de conta que tinha aprendido as quatro operações. Mulheres boas fazem sensação pelos quatro cantos e muito rapidamente. Moça nem era de marte nem de saturno nem de Divinópolis nem de Ibaté nem de Itaboraí nem de Corumbá nem de São Miguel do Araguaia.
         Moleques unidos na pracinha a fim de derrubar, do alto daquele galho seco de paineira derretida, derrotar mesmo um molequinho o mais jovem entre eles de uns onze anos com feições de trinta. O pequeno via aquelas pedras voando muito perto da cabeça uuuuu e nem bola. De repente, até pensava fossem comidas voando, mas... passavam tão rápidas uuuuu passavam tão nervosas sozinho passavam tão assoviantes uuuuu. E moleques ali do chão caprichavam cada vez mais com as estilingadas, bodocadas, fundadas. Que um pivete o acertou tooooo bem nos peitos. Foi uma comemoração geral, alarido, escarcéu, gritaria, barulheira. Molequinho empoleirado, ou avezinha torta, o atingido em cheio, caiu com tudo, se despencou, voou sem querer, sem as asas, caiu direto no chão tuuuuu já durinho, sem um pio, desfolhando as perninhas, erguendo poeira, esparramando as asinhas e os bracinhos e os cabelos engessados de terra. E gurizada aplaudiu o seco atirador, o certeiro atirador, bater de latas, gargalhadas, pontapés, petelecos nas orelhas, tapas fortes taaaaa nas costas.
         Assim, que horas eram?, Moça ficou conversando assuntos ali no ex-açougue com o ex-Açougueiro. Conversa que o ex-Açougueiro olhos amarelos puxava afiava o facão testava a serra de fita e vestiu o jaleco apropriado.
E Moça aceitou aquele papo baaaaa porque nem tinha nada de certo para aquela tarde naquele lugar fodido. Já passavam das quinze horas. Dezesseis horas e quinze minutos. A coisa evoluiu. Dezesseis e cinquenta e cinco. Quantos assuntos? Oito, nove, vinte, quinze recontos um atrás do outro. Cinco e mais seis da tarde. O saci rodava rodopiava no meio do pó vermelho da única rua, rua Única. Fazia um calor modorrento. Moça nem viu o ferruginozinho, viu foi só o redemoinho, ouviu o iiiii. Às cinco e meia da tarde. Moça fingiu nem ter sono, mas quase dormia, vacilava, pescava, batia cabeça, e delirou:
- Eu fui essa figura no quiosque comendo pastel de queijo com garapa em plena praça José de Alencar em o Rio. Eu fui ao Rio em junho uma vez na primeira e fui outras e pretendo mais algumas.
- Eu lá estive já um tempo, dois anos atrás, morei dois meses e duas semanas e dois dias na ilha de Marajó. Nadei de peixe gurijuba apapá aruanã curimatã andei de barco e fui muito ao redor das ilhas e mais ilhas e canais do tal arquipélago de Marajó. O boto-cinza o peixe-boi a pororoca o grande rio Amazonas Melgaço Soure Afuá o oceano Atlântico uau. Eu já tinha apreciado “Três Casas e Um Rio”.
Depois, Moça se arrastou como um lagarto bêbado até uma pequena janelinha lateral. Suor cintilante na testa. Nem tinha pressa em fazer as coisas. Subiu pela parede. Media a parede a palmos. Paciência ou complacência. No fundo do delírio procurou fazer um plano de fuga, e caiu. Tanto sono nem era para menos e:
         - Acho que... vou cair... desta pa-rede... opa...
         Os pés querendo andar as mãos agarradas na parede que caía com ela sobre ela. E se pegou pensando, perdeu o que pensava. A parede raaaaa caiu junto. Suando muito o peito sufocado. Imaginou coisas do passado distante e nem tão distante, delirou:
         - Eu compareci presente no carnaval de Olinda. Igual todo mundo, subi os morros de Olinda e olhei Olinda coqueiros-carandaí e o mar de Olinda. Coisa em si pra nós todos tão liiiiinda. E dançamos frevo na frente da igreja de N S das Neves. Também, o dia os turistas a vista estavam tão lindos!
         - Eu corri nós corremos era eu e ele, corremos até alcançar a marquise da loja de ferragens Timbé. Chovia como nunca como sempre como D mandava. Sem parar de rir sem galochas verdes guarda-chuva sem capa transparente impermeável. Plena tarde fim de tarde rua Voluntários da Pátria começo de verão fim de dezembro capital dos gaúchos.
         - Eu, de volta de Valença, eu que já conhecia a taba dos praquio, fui levada para dois dias em Vitória. E a primeira coisa que fiz em Vitória foi olhar o forte São João, de longe. De noite mandei e-mails. E a manhã seguinte, a praia do Canto que se destaca merece.
         O ministério da aldeia de Santa Luzia, disso aí sem chuva sem chover, tinha muitos tucurus de anos e anos abandonados. O saci, a bordo do seu redemoinho em espiral, levava embora os redemoinhos e escondia todos os rastos de todos. Tudo vermelho e o que não era cinzento, poeira e calor.
         Uma bola atômica abrasava a vila o fim do mundo o fim dos tempos tudo. Um sol medonho que só fazia esfarelar pulverizar a terra. Daí, uns bafos de poeira vermelha, venenosa, daninha, irrespirável.
         - Eu andando de bicicleta. Meu caminho preferido. A praça o horto o parque. Pedalando. Quando jaguapebas passeiam de coleirinha com as donas. E parei na sombra de uma gigantesca pracaxi. Postada ali olhando em volta um pé no chão outro no pedal as mãos no guidão. Era relaxante re-laxante.
         Pronto, agora assim, de Moça um peso quadrúpede nos ombros canga pesada. Pendeu a cabeça para frente e capotou. No meio da rua Única pequenos remoinhos parecidos com os malfeitos e feitiços e arruaças e artes iiiii do saci.
         Sete horas e tanto da tarde. Vinte horas em ponto. A coisa evoluiu. Vinte e pouco e vinte e tanto. Quase nove da noite. Uma palhoça de telhado de sapê pegou fogo ministeriosamente. Uns aldeões e umas aldeãs correram lá. Tentaram abafar as chamas atirando terra seca com as pás enxadas picaretas, as cumbucas as próprias mãos.
         Acordou acelerada ofegante e coberta de suor. A imaginação berrava caleidoscópio eeeee corres berrantes variadas. Sentia os pés frios enformigados. As mãos segurando a testa os cotovelos no balcão muita muita fadiga. Pensou pedir um pouco de beijos nos pés aos pés:
         - Alguém vem vindo...
         A moça se viu agarrada com unhas e dentes na cadeira. Nem conseguia traduzir o que o Açougueiro argumentava. Tentando engatinhar, encontrar defesa, fazendo suposição. Do ponto de vista da moça, ela já dormira e acordara dez vezes naquela última hora. Na verdade já estava anestesiada. Nem queria se entregar. Fazia um calor de matar. E o tempo, de repente, nem fez a menor sombra menor diferença menor mossa. Nem ela mais se preocupou com o peso dos minutos que não passavam. Olhos fora da cabeça. E outros fora do corpo e sobre o cepo do açougue.
         Os bichos noturnos os diabos sempre saem pela noite. Cada qual pega seu rumo como num trevo de quatro folhas. São todos por si e procurando, o lobisomem, brigam como cachorros, o caapora, se atiram pedras e paus e facas e tiros, a mula-sem-cabeça, disputam no coice no soco tudo que encontram, o anhangá-pitã, irônicos neurastênicos vaidosos e demônios infantis outros já adultos.
         Os olhos abertos bolinhas de gude parados no cepo. Era dia, era noite, era poeira, era delírio, era susto? Era ontem, era hoje, era amanhã, era de manhã, era de tarde? Nem curto, nem longo, nem largo, nem alto, nem nada. Os olhos o olhar fixos sem brilho sem luz querendo ver bem abertos sem ver fixos firmes longe. Tudo desaparecendo fugindo dos olhos. Meia volta e volver. Seis a sete passos? Emergência, alerta. Os de dentro sair, os de fora querendo entrar. Que horas? Noite adentro noite afora. Tudo parecia calmo e andar sempre devagar. Falta do que fazer? Queria descansar e dormir dormir.
         Lá outro lado da rua, a ex-casinhola de duas portas sem janela, o fogo comera tudo. O alto da noite pegava no breu como um trapo sujo encardido de poeira e cinzas. Subia uma lua confusa poluída contaminada. Nem havia razão nenhuma de nada.
O caapora passeava no capoeirão seco estalando gravetinhos secos chutando pedras pedrinhas assoviando viiiii como extraterrestre. Vento em ondas vermelhas pesadas aterradas. O caapora se espojava no pó vermelho atrás dos tucurupucas abandonados. Dava muita bola para a lua, as sombras de nuvens de poeira as estrelas os ventos com sabores de terra queimada os planetas, saturno.
         O Açougueiro puxou um pito do bolso do casaco pendurado no cabide. Sentou fumou, praticamente sem tirar os olhos dos olhos da moça. Agora era anúncio o preço os fregueses clientes espetinhos tira-gostos aperitivos. Por onde começar o produto final? Que janelinha aberta para a noite...
         - E aí, vai que vai?!
de lua arrastada em plena onda de poeira fumaça. Um silêncio sozinho mexido pelo vento aaaaa carregando a poeira vermelha as cinzas cinzas.
         Pegou Açougueiro passou passou algumas peças no moedor. Um cubinho na boca para aplacar o seco da boca. A moça com os embutidos. Onze horas da noite. Vinte e quatro horas. Uma hora. A coisa evoluiu. Uma hora e dois minutos e doze segundos. A moça ensacada engarrafada amarrada com barbante na ponta. Uma e tanto e passando...
O que o Açougueiro encontrou no bucho da moça?, vejamos ali, então: uma tampinha de garrafa de cerveja marca importada engarrafada em Vassouras; uma esferinha de aço de rolamento de roda de bicicleta dezoito marchas lembrança do triatlo de Ribeirão Bonito; uma chupeta de plástico de mamadeira tamanho de um dedo fura-bolo cor mais ou menos furta-cor; um resto de massa de tomate Siparuna enlatada em Macaíba, Sergipe; uma moeda de cinco centavos platinada começo de um milhão; um grampo de cabelo marca Iuberi; uma camisinha colorida de amarelo e verde com sabor levemente caju; um farrapinho de lã sem cor definida desses de limpar móveis e utensílios e óculos; um esgoto sobra baba de comprimido genérico para dor de cabeça.
         Quando muito, o lobisomem procurou entrar nas choças das aldeãs solteiras, viúvas, nervosas, insones e a fim. Nem importava a longevidade adiposidade escolaridade. E empurrou portas quase despregadas, forçou janelas podres, subiu telhado de palha seca procurando cair já dentro sobre a cama a esteira nos braços da anfitriã. O terrível mutante querendo entrar a qualquer custo pagando o preço que for. E rondou as casas pela noite toda, uivou, arranhou as paredes de barro seco, mordeu as paredes de urupema trançada. As aldeãs solteiras nem conseguiram mais dormir nem rezar. Lobisomem vezes ficou uivando ruuuuu aprendendo a assoviar em cima de tucuruvas abandonados.
         A mula-sem-cabeça veio pateando pela única rua da aldeia de Santa Luzia, rua Única. Soltando labaredas, expelindo fumaça, relinchando nem se sabe como ieeeee olhos lacrimejantes nem se sabe como. Parou e cravou os cascos no pó da rua quando viu a lua ultrapassar uma pequena nuvem de poeira. Aí, sim senhora, relinchou ieeeee.
         O Açougueiro raspava os ossos os artelhos da ex-moça. Duas horas. Duas e pouco. Mastigava uns petiscos aqui e ali, de guloso. Duas e tanto da madruga. A coisa evoluiu. Três da madrugada - para uns era tarde e para outros era cedo. O estava cansado, molhara a camisa, leve dor nas costas com a hérnia de disco. A pancada insistente latejante de um lado do crânio de um início de dor de cabeça crônica.
         O nos últimos derradeiros e petiscava beliscava assim e assim, de guloso. E faltavam rapar dois ou três dos ossos mais delicados e pequeninos e charmosos do pezinho da ex-moça. Ela sempre fora magrinha, modelo de magreza, uma elegância, caule de palmeira-iará, tinha balança de precisão em casa. A noite ia indo embora. Três e meia. Três e trinta e três tigrinhos tridimensionais trescalantes tigrando na trilha de trigo da tribo: bem rápido. A coisa evoluiu. Três e quarenta e quantos.
A mula-sem-cabeça, ou burra-de-padre, pateou no pátio da choça, catou a chave escondida no vaso de folhagem seca, olhou cuidou olhar para os lados, ieeeee rinchou, mugiu:
- Melhor deixar o assunto me descansar, uma vez.
O lobisomem uivou ruuuuu com o coração desabrigado, caminhando no ritmo do seu desagrado, a boca cheirando palha seca e terra queimada.
E anhangá-pitã, de repente, se derreteu com os primeiros respingos de sol e foi escorregar escorregou cheio de artimanhas teeeee fulminado para o fundo do poço seco.
O viiiii caapora, cocar caído na cabeça, quatro e um quarto, olhos cheios de poeira vermelha, andando de costas de volta para o ex-capoeirão, lá para trás das casas de cupins vazias, e voltar a ser índio ou bicho invisível.
         Um redemoinho no meio da rua poeirenta. Já era dia de dia outro dia quinze pras cinco. Antes um riso escarninho madrugador iiiii. E lá se ergueu um pó vermelho e umas folhas secas rolaram umas pedrinhas rolantes seeeee cantaram. E o saci aterrissou. O saci riu alto iiiii. Olhou em volta... A aldeia já o conhecia, a vila já lhe cheirava conforme, e já lhe pertencia. Farejou os rastos pelo pó vermelho da rua Única, esfregou as mãos, riu iiiii. Depois saiu andando num quique. Saiu quicando e rindo iiiii sempre.
         O sol esticou um ou dois raios flagrantes, entre nuvens baixas de grossa poeira vermelha, raios contados raios interrompidos raios raros raios sujos de poeira. O dia como que gaguejou e tossiu acordando, balbuciou de garganta seca, estremunhou ainda tonto de sono e preguiça e noite mal dormida. Os raios tímidos raiaram um a um e lenta e fracamente. Fazia um calor de amassar de arrasar. O lugar todo de Santa Luzia acabado e sem graça carcomido requeimado requentado.
         Falando em ministério, o sol levantou mesmo naquela horinha sem matinada. E já tinha suas flamas de fogo para sair pelo dia poeirento. Pois o sol era uma lenda. O sol ou o dia de cinzas. Começando pelo começo, o sol torrando a pequena vila perdida no meio do nada descampado. Outro dia de sol que já se transfigurava em forno fornalha. Nem chovia há meses. Ao meio-dia a bola de fogo já era uma bicicleta. Mas o sol era uma lua. Na tarde abafadíssima, o sol já estava desfilando e falando com a senhorita Maria Alice. Uma após hora era com a irmã da senhorita Patrícia, nativa de Ribeirão Pires. Na sequência imperou tostar bronzear com Isabel mais Leopoldina, as princesas do palácio São Cristóvão e Quinta da Boa Vista. Porém o sol era uma espaçonave. E no fim do dia de janeiro, avermelhado, o Quaraci passeou para a noite em prata com a Jaci. E no outro dia de pela manhã, nem muito cedo, cinco e vinte e cinco da manhã, sem arvoredos e passaredos, antes do solzão, passeou no terrão queimado do arraial com a filhinha Duda no colo. Era isso mesmo uma biografia uma ilha uma caminhonete verdezinha tração nas quatro patas um chafariz esgotado e um dia inteiro de sol imperial queimando carvão mineral.
         Sol quente naquele momento, tudo terminado, tudo embutido, cortado, retalhado, desossado, triturado, embutido, costurado, moído, que o Açougueiro se sentou e fechou os olhos vermelhos vermelhos. Cerrou os olhos por um momento sonhando com os olhos da Moça. As mãos bem trêmulas do esforço, da pressa, do cansaço.
O saci entrou pulando e rodando pelo meio da rua poeirenta dono do dia. Queria saltar virar cambota fazer círculos redemoinhos espiralados dono do mundo. Queria correr nos remoinhos de pé-de-vento até o fim da rua e voltar levantando poeira. E ria muito alto iiiii vaidade dos vaidosos erguendo poeira vermelha.
         Cinco e meia da manhãzinha ressequida cor de palha seca. O dia já saía apontando pedras e faíscas. O sol vinha para rachar mais uma volta no fim do mundo. O Açougueiro dormia sobre a esteira no chão da lojinha abarrotada de embutidos gulosos. Eram cinco e trinta e um. Eram cinco e quarenta. A coisa evoluiu. Eram quatro e cinquenta e seis.


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