domingo, 24 de janeiro de 2016

Este Mundo Terrestre Dos Esportes Pedestres

       


       É tempo de Copa do Mundo no mundo gigantesco globalizado. Metade da população mundial sabe o que representa é isso. O B todo sabe o que é isso. Da outra metade cinquenta por cento fica sabendo por parentesco. Até as mulheres gostam de futebol com loucura e paixão. O universo da bola rolar. Total, dos sete bilhões de seres humanos, cinco e meio ficam ouvindo o que é gooooool!... Nas ruas de todo o B só se ouve é gooooool!...
       - Este ano o time meu nem contratou ninguém de peso, é. Em compensação só vendeu o goleiro, é.
       - Olha, chapa! O time meu nem contratou ninguém mesmo, e saíram uns oito ou nove emprestáveis. Sei lá, né, vai saber!
       - Precisamos de um centroavante e dois laterais, é. Centroavante bom tá difícil quase impossível, é. Quanto aos laterais, nem se fabricam mais, é.
       - Olha, meu! Nós vamos disputar a Libertadores e com a prata da casa vai ser osso. Mas quem sabe! O elenco é guerreiro e valente e raçudo, pescou?!
       - Fora as dívidas que o clube fez o ano todo que passou e nem conseguiu nada de nada!, é.
       - Olha, véio! E nós com o negócio do estádio que nem se resolveu e nem se resolve e nem se dissolve. Sai fora, mano!
       - Nós precisamos de dois laterais e o resto é bobagem, é.
       - Olha, cara! A gente só quer ver um título esse ano. Um título já está mais que bom e obrigado, tá certo?!
       Era quando uma vez no princípio inicial incipiente da humanidade na terra, paciência, que rolavam cabeças no capim-de-colônia ou capim-santo ou fedegoso-dos-jardins ou mata-pasto, a cabeça do inimigo. Hábito antigo adquirido legal festivo e que veio vindo de lá pra cá até hoje praticado geralmente nos finais das tardes de domingo. Sentando tocando o pé no mundo rodado rolante, por analogia. Suaves calmas comemorativas beiras de tarde, até mesmo quando chove.
       Quem nem sonha ser um jogador de futebol o tempo todo o tempo todo? Correndo para o ataque asas nos pés em agilidade incrível, atacar, driblar, ultrapassar, chutando com força ou por cobertura onde o goleiro jamais alcança... Bem aí bem aí, eu já tenho a comemoração ensaiada e particularmente engraçada diferente para a torcida para as câmaras com as mãos para o alto agradecido a D e fazendo mil e um pelos-sinais. E o outro dia os noticiosos, hein?! Que pergunta.
       Me perguntam por que eu vou jogar na China. Por que vais jogar em a China, se lá pagam bem, tudo bem, porém, o jogo nem é tão assim tecnicamente falando de bom rendimento de bom nível de bons jogadores de bons campeonatos? E nem temes perder a Seleção? E eu respondo: bem, é óbvio, o jogador no caso o meu julgamento e o meu ponto de vista eu escolhi junto com minha família, claro, e meus amigos meu empresário que cuida de tudo isso por mim a burocracia toda, então, cada jogador tem que tomar uma decisão e a mais acertada possível, pois, o jogador tem de pensar na sua família tem de pensar que a carreira é curta só dura dez anos tem de pensar em uma porção de coisas, no caso, o que é bom pra mim pro jogador e fazer a escolha ideal garantir o pé-de-meia para nem se arrepender depois.
       Tem um poeta que disse uma vez que o grito de goool!... assusta o cachorro e ele foge se esconder as mãos sobre as orelhas para debaixo da cama. E é verdade, nem só os cães, principalmente quando o goool!... é contra.
       A gente estava com o tornozelo inchado e a imprensa, vocês, tá certo, vocês da mídia falada e escrita e perguntada, me perguntavam, tá certo, lá na concentração da Seleção em Quadalajara no México, tá certo, me perguntavam, abre aspas, “Então, como está esse tornozelo, Aporé? Vais pro jogo? Vais conseguir jogar a semifinal contra a Argentina?” E a gente tinha respondido, tá certo, abre aspas, “O Aporé quer muito jogar, tá certo, e esperamos estar em forma e sem dores até terça pela manhã, tá certo. Terça-feira a gente vai se submeter ao apronto, tá certo, e saber se pode atuar cem por cento junto com os companheiros. Inclusive a própria dona Santa Mônica, tá certo, também telefonou lá do Brasil puxando minhas orelhas, abre aspas, “Meu filho Aracati, você se machucou, te machucaram? Que história é essa, me explique direitinho, Aracati, meu filho?” A gente tinha respondido pra dona Santa Mônica tinha passado pra vocês da imprensa digo e repito pra vocês da mídia agora, tá certo, abre aspas, “Calma, dona Santa Mônica, tá certo. A gente só teve um pequeno deslocamento do tornozelo, tá certo, nada que não pode ser curado dum dia pro outro, tá certo.” Era uma semifinal muito dura, tá certo, e a gente precisava jogar de qualquer jeito. Aporé nem podia caminhar, tá certo, mas tinha muita fé e força de vontade. O médico da Seleção, Dr. Santo Antônio da Patrulha, tá certo, ficou preocupado e recomendou gelo e repouso, tá certo, o massagista seu São José do Cerrito passou unguentos pastas e filtros, tá certo. A gente não era nunca foi nem sou supersticioso nem acredito em mandingas, tá certo, mas o Aporé sempre entrava em campo, tá certo, com o pé direito e o sinal da cruz riscando na frente da testa com todo o respeito. E só por acaso, tá certo, nem quero lembrar, tá certo, tinha sido o nosso pé esquerdo que sofrera o entorse.
       As torcidas são exigentes e fanáticas e uniformizadas e encarteiradas. Querem uma arena multiuso. Elas só pensam em vitórias. Em taças. E mais nada. Exigem taças e fazem seus ídolos prometer dar o máximo comer grama beijar o distintivo. E quando faz um gol bater na camisa do lado do escudo. A maioria dos boleiros a maioria ergue os dois dedos indicadores ao alto e faz sinal da cruz trocentas vezes beija as tatuagens o anel de noivado manda beijos lá pra cima no camarote um beijo pra mãe um pra mulher e dois para os filhos.
       Se existe um jogador ou uma função que faz falta na Seleção é o da camisa 10. Eu queria um camisa 10 do tempo antigo. Aquele cara que sabe dar um passe de 40 metros ou mais, e que bate falta com perfeição lá onde a coruja dorme, na gaveta, e que o adversário respeita e marca em cima, e que é a referência técnica da equipe, e do qual a torcida brasileira espera muito. Dou dois ex., o Caracol que jogou no Sport e no Bahia o Santa Rita de Cássia que atuou principalmente pela Ponte Preta e o Bom Jesus da Lapa que defendeu no ano passado as cores da Chapecoense. Pois hoje em dia, esse tal camisa dez natural, já quase nem existe mais e nem mais ao menos se fabrica. Esse é o craque que eu ainda quero ver na Seleção pelos gramados do mundo mostrando como é que o brasileiro trata a bola. Que dê o Cara, né, minha gente?!
       Eu nem penso duas vezes nem dá para pensar uma vez sequer. A bola cai nos meus pés vem como vem e as minhas decisões têm de ser muito rápidas instantâneas mágicas acrobáticas precisas. Nem dá para pensar em nada. Tudo é meio que instintivo. A bola vem e a jogada que faço sei que posso fazer, então, eu faço, mas faço sem sentir sem pensar de acordo com os obstáculos e pronto acontece como já aconteceu. Vou dar um ex. Eu estava jogando no Atlético quando, isso me vem na cabeça agora assim no mais, eu estava no Atlético ou no Goiás quando uma jogada que eu fiz resultou num gol incrível vou contar como ex. Foi o seguinte, eu jogava àquela altura pelo Atlético e nóis jogávamos contra o... o Paysandu e era série A e o ano era o de 2011 se nem me engano. Caso que a bola veio num passe fenomenal do Cotegipe, eta!, que o cara era bom de bola diferenciado no toque da bola, né, bem, aí ele me passou e eu dominei com o pé esquerdo e fui em frente, aí, vieram dois me marcar querendo me tirar a bola eu simplesmente dei uma cavadinha encobri os dois passei entre eles como um furacão e fiquei cara a cara com o goleiro deles o Casa Nova, então, aí né, meu, ginga pra cá ginga pra lá mais pedaladas e foi só escolher o canto e correr para a galera. Ganhamos o jogo de 5 x 3 o que nos deixou muito bem no campeonato aquele ano de... acho que foi 2013 se bem me recordo.
       Apesar do dinheiro que se perde, ou melhor, se deixa de ganhar, quer dizer, o jogador perde em publicidade, entrevistas, férias com os familiares, em prestar mais serviços ao clube que paga o salário, etc., jogar pela Seleção sempre foi minha motivação e minha meta principal. Representar o meu povo o meu país honrar a minha bandeira e dar de si tudo pelo bem da nossa pátria sempre foi meu sonho desde criança e disso eu nunca abri mão nem o pé. Me considero um soldado em nome dos brasileiros todos defendendo as nossas cores, obrigado. Nunca simulei contusão ou pedi dispensa da Seleção, ou seja, nem mesmo naqueles amistosos sem repercussão sem noção os tais caça-níqueis tipo jogar atravessar os oceanos um dia inteiro de voo o fuso para um jogo qualquer na Nova Zelândia ou Austrália ou Japão, etc.
       Quando eu era pequeno queria ser jogador de futebol e jogar uma Copa do Mundo pelo meu país. Ser o artilheiro do meu time, o gênio, o etê, o diferenciado, igual um craque espacial como esse aí que anda ganhando os troféus de melhor do mundo o Canto do Buriti ou esse outro o Cristalândia do Piauí e vestir a camisa mais famosa do mundo, a canarinho. Depois eu fui crescendo e quis muito ir aos eventos de Copa do Mundo aos estádios espalhados pelo globo conhecer por tabela outros países as diversas culturas e tirar muitas fotos. A última Copa do Mundo eu assisti a todos os jogos, pela tevê. A próxima na Rússia, com certeza, já vou ver somente os jogos da Seleção e olhe lá.
       Vou dizer em resposta a sua pergunta algo que já escrevi na minha biografia de jogador de futebol. Sempre me chamaram o número Um, desde o mirim na base do clube lá no Vitória e daí pra frente fui o número Um dos times por onde passei e também o número Um da própria Seleção. Sempre o número 01. Quando eu chegava num lugar era sempre o primeiro no restaurante era o primeiro a sentar e ser servido, daí que os garçons me chamavam de número Um Em Tudo. Recebia como um elogio e um incentivo e uma marca registrada. Os colegas de equipe meio que me deixavam de lado me isolavam ficavam distantes de mim e de pé atrás porque era o único convocado sistematicamente para a Seleção e sempre procurei fazer jus ao apelido de o número Um o primeiro lugar. Que posso fazer se até hoje dizem as boas e as más línguas que fui o melhor número um que viram atuar e vestir a número um da Seleção?!
       Eu mesma aprendi a gostar de futebol acompanhando o meu namorado, na época. Eu virei torcedora com ele do time dele a favor dele porque gostava dele, o meu namorado naquela fase. Eu nem sabia que este mundo da bola existia, uma vez. Eu assistia, então, a todos os jogos com grande entusiasmo e sempre eternamente uma fanática torcedora. Eu e o meu time ultimamente só temos nos frustrado, porque o time não ganha nada, me dá pena, aliás, isso é uma fase e vai passar e logo passará. Eu comecei, assim, desde os quinze anos, a amar o futebol e frequentar os estádios atrás do meu time e junto com meus melhores amigos e amigas. Eu aprendi a ver os jogos pela tevê as mesas redondas ler os jornais acompanhar os debates no rádio etc e sou sócia torcedora. Eu, de fato, de lá pra cá, me apaixonei pelo jogo pelo futebol pelo meu time embora tenha trocado de namorados outras tantas vezes que achei necessário. Eu faço qualquer coisa pelo meu time de coração, principalmente, choro brigo perco sono peço dispensa do trabalho compro camisa discuto com quem for e vou na chuva ou no sol de rachar. Eu não troco o meu time por nada nem dinheiro e nem ninguém mesmo pintado de ouro. Eu supero tudo que vier sou forte eterna com o meu escudo do lado do peito e nem me assombro com os percalços os imprevistos as interrupções as frustrações as contrariedades. Eu tenho a camisa do meu time como segunda pele e o estádio como segunda casa e os colegas torcedores como meus irmãos.
       A fase mais difícil da careira de um atleta, e nem quero me lembrar, foi quando me lecionei e fui fazer uma cirurgia de joelho muito complicada especializada lá em São Paulo. Rezei muito fui a diversas igrejas e templos de diferentes credos, etc. Nem gosto de me lembrar, mas eu pensei que nem ia mais voltar para os gramados. Me falaram que aquilo era praga de alguém olho gordo uma coisa de louco um feitiço uma caruara. Fui em casa de terreiro lá em Formosa do Rio Preto tive que me benzer bater cabeça pra santo deixar oferendas. Os amigos começaram rarear os parentes nem telefonar os companheiros de clube esquivar de mim. Só grilos cri-cri-cri!... na rua àquela hora. Foi horrível tomar tantos remédios pesados e ervas e quinados alcaçuz-da-terra canafístula catuaba quina-cruzeiro beldroega alecrim-do-mato alfavaca-de-cheiro foi pesadelo atrás de pesadelos e horas de cirurgia dias de terapia suplementos alimentares glicídios proteínas sais minerais vitaminas calorias e para piorar tava no fim do meu contrato um tormento e nem tinha certeza se o Inter queria renovar.
       Aquela bola que vem do alto e do outro lado do campo, um olho-de-boi, a parábola, um passe longo, eu domino com o pé, num rápido olhar vejo tudo que posso fazer, e posso muito, então, vou em frente e ninguém pode comigo, driblar, atacar, ultrapassar, avançando em velocidade vertical para dentro da área adversária, todos no estádio se levantam, ficam de pé, a mão em pala para acompanhar, pois, a história do futebol, né!, meus amigos, se fez e se faz com esses lances geniais inspirados de craque, modéstia de lado e à parte. 
Trinta e dois países disputarão negócios, dinheiro, prestígio, e uma taça para exibi-la no final de todo o suado esforço. Opa! Esforço? Será que é tanto sacrifício assim ficar jogando a bola de um lado para o outro? O difícil mesmo é jogar seguindo à risca todas as regras ditadas pelo futebol.
Eu respeito todas as torcidas, mas nem gosto de ouvir falar em torcida que invade CT para cobrar de jogador. Eu respeito todos os professores seja medalhão seja prima-dona seja tope seja o que for seja novato, respeito todos e exijo respeito, mas o cara me tirar da posição, que é de centro-atacante, o setor do jogo que aprendi desde pequeno a jogar, me tirar da posição natural?, aí não, né! Eu respeito todos os times seja de que série for série A série B até da série C ou D se for o caso, mas atrasar salário, nem pensar, nem falá.
Me acalmei um pouco e comecei a pensar na minha família na minha carreira na minha profissão a única coisa que sei fazer no mundo o meu ganha-pão quando conheci a Ana Paula. Foi num carnaval em Jeremoabo. Ela é de Parnaguá e eu de Coribe. Ela me ajudou a me centrar mais na minha carreira e eu comecei a me respeitar mais e daí em diante fiquei me concentrei totalmente em recuperar a titularidade no Grêmio e voltar à Seleção. Fazem uns dois anos e de lá pra cá tudo tem dado certo. Agradeço primeiro a D e depois a ela e à família dela a minha família e aos amigos. Sem a família a gente não somos nada. Formamos eu e ela uma família perfeita e agora estamos esperando o segundo herdeiro que é a Ana Carolina.
Vou cobrar essa falta que foi marcada aqui fora da área. Ou seja. Eles põem barreira de sete homens, mas pra quê?, para mim isso nem é nada. Ou seja. Já sei o que vai acontecer. Ou seja. Tenho várias opções e uma delas irá surpreender o goleiro Sapiranga. Ou seja. Minha caixa de novidades de surpresas é extensa e variada. Ou seja. O Sapiranga nem vai ver por onde a bola vai passar que cairá com certeza na gaveta na gaveta. Ou seja. Um chute em arco por cima da barreira direto no ângulo superior da meta, minha especialidade, que perfeição! Ou seja. Antes do fim do campeonato quero de volta a artilharia é um dever para merecer um bom contrato no exterior de preferência na Europa ou quem sabe em Portugal.
O futebol é um sonho completo de olhos abertos. Todo mundo pode jogar em qualquer posição. Dá para jogar em qualquer terreno ou piso, com qualquer clima. Me lembro que fomos treinar no campo do... Cruzeiro, no CT perto do rio Serrano. O sol muito forte, uma lua. O verão muito seco. Sem vento. Nem chovia há meses. O alambrado repleto de marias-chuteiras gritando réu-réu-réu!... como as marias-macambiras. A grama mal hidratada toda esturricada carrascal o chão irregular buraco de teiús toca de tatupoiú ninhos de formigas-mineiras e quero-queros muito brabos. Não era o ideal para prática do futebol e principalmente para treino da Seleção. Mas, enfim, os jornalistas estavam todos lá e me perguntaram isso e aquilo e acolá eu respondi: “O jogo é jogado e a pirauaca é fisgada”. Uma jornalista muito bonita sorridente óculos escuros segurando os cabelos lisos castanhos os olhos verdes me perguntou e eu tive que responder na hora, né?!: “É como fazer amor, entende?!, querida.”
Milhões de pessoas ficam assistindo jogadores representando o seu país e só torcem ou distorcem e pensam em ganhar. Mas os jogadores, no que pensam? Muitos chorarão e só um time vai dar risadas. A grande esmagadora maioria é de fracassados, esta a pura verdade verdadeira. O jogo é cruel. Por isso que é jogo. Coisas do futebol! E muito incrível: só um gol pode acordar o maior dorminhoco da paróquia; ninguém resiste a um gol. Os gols da rodada é o programa favorito a melhor atração da tevê mundial.
Quando eu encerrar a carreira pendurar as chuteiras eu quero ser um técnico de futebol, mas vou me preparar muito bem para isso. Quero ser lembrado pelas ótimas jogadas os gols maravilhosos, mas também fazer carreira vitoriosa na beira do gramado como técnico. Nem é assim da noite pro dia que quero virar técnico, né! Sei que é outro mundo, outra fase. Terei que começar de baixo, treinando time pequeno, etc. Com certeza nem serei um técnico reclamão, tipo aquele que sempre dá a culpa pro árbitro quando perde e passa a mão na cabeça dos atletas indisciplinados e os pernas-de-pau os cabeças-de-bagre os chinelinhos. Nem aquele outro que se irrita com perguntas dos repórteres levanta vai embora da coletiva, mas adora inventar frases de efeito e andar entre aspas nas manchetes esportivas. Tem também um outro que se acha e se vê como um profeta como um filósofo antigo com a mão no queixo e o dedo na frente da boca sempre pensativo só porque deu certo uma vez ou outra, como se tivesse a fórmula mágica e o mundo nas mãos. Nem quero virar figura fácil entendido em tudo infalível sinônimo de líder de competência de paizão escrever livros, etc., etc., com entrevistas na tevê no rádio nas revistas e jornais em programas e colunas e cadernos que não são especializados nem nunca trataram de futebol. Pretendo fazer uns estágios no CT do Santos, quem sabe do Botafogo, quem sabe ainda do Coritiba, estou pensando em ir também pro exterior ou Europa por seis meses a um ano.
Aparecem aqueles dias que nada dá certo e o time não rende não resolve não acontece. Todas as jogadas ensaiadas ou não são anuladas pelo adversário. Sabe aqueles dias que quem não faz leva? Então, eu saio do banco e resolvo tudo em questão de cinco minutos num piscar de olhos numa abracadabra com jogadas mirabolantes. Viro o jogo e dou entrevista até para a tevê árabe.
       A Copa é uma disputa que não envolve somente quem está jogando. Ela pega todo o mundo. Os craques, em entrevistas, só falam no esforço que estão fazendo para ganhar a Copa e levar o título para o seu país. E os envolvidos usam as bandeiras para atrair os fãs do próprio país e, por que não?, os patrocinadores individuais ou coletivos.
Mas o nosso país, por exemplo, o que nós menos precisamos é de títulos e taças, e sim mais do dinheiro que eles jogadores ganham. Tem craque de futebol que ganha dois milhões e meio de reais por mês e só pensa em festas e carrões e loiras e badalações. Uns nem reconhecem mais o lugar o bairro onde nasceram e foram criados e aprenderam os primeiros passos movimentos do futebol. Deviam fazer esforço, isso mesmo, mas para aprender português e falar decentemente na frente das câmaras.
       De regras de futebol nem entendo nada. E duvido também que haja algum jogador ou técnico de futebol que as conheça por completo. Deve ser por isso que existem os juízes ou árbitros e bandeirinhas. Para lembrá-los e em alguns momentos dar uma ajudinha.
       Os aficionados pintam a cara, o corpo, as ruas, vestem a camisa de cinco estrelas, se cobrem com a bandeira e enchem o coração pra ver a bola ir de um lado a outro; jogador fazer pedalada, elástico, impedimento, cuspir, reclamar com bandeirinha, com qualquer um, arrumar o topete no telão, xingar até a mãe do Badanho, mostrar a língua, exibir a marca da chuteira, etc.
       Dentro da tarde loura e sem ventos em a cidade de Glória na Bahia vou em seguida a meu Deus junto da praça da República ruas esbatidas de sol daqui do estádio arena Uraçu do Aimoré Esporte Clube minhas senhoras senhorinhas e senhores para a grande jornada esportiva da prestigiada prestimosa emissora esportiva futebolística cem cavalos de potência a rádio Guaíba de Tabuleiro do Norte e quem vos fala é Serra Negra mais os comentários precisos corretos de Rio Negro reportagens de campo com os ótimos repórteres Porto Nacional que cobre o lado da equipe do Aimoré e o Pirapora que nos dá notícias do visitante o Esporte Clube Campo Grande nos estúdios o apoio técnico sempre necessário e preciso do colega Amarante num patrocínio das blusas Cauaíbe banco Catágua refrigerantes Iurimagua cerveja glo-glo-glooo! Suyá água mineral Caxinauá bicicletas Taurepangue vinte e uma marchas ferramentas Caiabi sendo assim está bem para a grande rede de emissoras associadas lideradas pela nossa valorosa e grande rádio GTN o árbitro Santo Inácio já está no centro do gramado mais seus dois auxiliares bem a postos o Angelical e o Barra e todos nós e a população em geral estamos aguardando o minuto para começar o jogo o espetáculo o confronto que decidirá mais três pontos importantes no campeonato e nem é para menos oferecimento da revendedora de automóveis Coroado e atenção D mora no céu minhas senhoras senhorinhas e senhores oferecimento dos bonés Carijó foooi soprado o apito e inicia o jogo a bola com o lateral Mucugê e nem me arrependo este Mucugê rapidamente para Barra Mansa você está ficando parecido comigo Barra Mansa até Carinhanha e Carinhanha para Xique-Xique pra gente ir junto Xique-Xique olha os companheiros melhor posicionados recebe falta de Bom Conselho volante do Campo Grande um oferecimento das casas Sanamaicã Mucugê cobra a infração e lança para a direita onde está Corumbá fica para outra vez a bola está com Lagoa do Ouro descendo para o ataque faz uma volta sobre si mesmo atrasa para Barreiras o Aimoré atacando Barreiras engata uma quarta ou quinta e avança pela lateral é o que eu digo o Remanso pede bola lá do outro lado e essa não um peladão entrou em campo a tevê não mostra mas eu tenho a obrigação de narrar os acontecimentos o doido deve ter saído do meio dos torcedores do Aimoré os seguranças estão atrás de pegá-lo alguém que quer aparecer oferecimento dos relógios Charrua e Barreiras opta passar para Januária sou eu mesmo Serra Negra com o mesmo meu jeito de ser e Correntina para Rio Verde oferecimento dos eletrodomésticos Acroá Rio Verde domina com o pé esquerdo e de três dedos a sorte é o que se vê lança Sento Sé e este domina no peito com elegância e de cabeça serve a Riacho de Santana em frações de segundo Riacho de Santana não alcança titubeia mas quem recolhe a redonda para o Aimoré se eu pudesse parar o tempo é o Juazeiro que dribla o primeiro marcador tenta driblar o segundo que é o zagueiro Jequié este consegue lhe tirar a pelota e procura agora imediatamente abrir contra-ataque do Campo Grande e lança em profundidade para a direita em procura do centroavante Poções e então de uns tempos a outros tempos para cá Poções escora de cabeça fazendo as vezes de pivô tentando seu companheiro o Itabuna com a participação também do Cariri do Tocantins mas a jogada é desfeita pelo ala do Aimoré o Corumbá oferecimento de óculos Xacriabá o apito piuuu! da rádio GTN indica 25 minutos decorridos no primeiro tempo que passa para Morro Cabeça no Tempo que passa Aimoré no ataque para Rio Verde só podia ter sido mesmo que vai à linha de fundo cruza na área olha o goool! é go-go-go-goool! goooooooooool! do Aimoré e o gol sen-sa-cio-nal eu só acredito no que me contam foi de Santa Maria da Vitória incrível como surgiu de repente na grande área o artilheiro Santa Maria da Vitória oferecimento dos pneus Matanaui e soube aproveitar o perfeito ótimo cruzamento de Rio Verde oferecimento de lajotas Xucuru-Cariri nada menos que isso mesmo seus comentários o que você ressalta aos nossos ouvidos seu Rio Preto. Pois eu vi e conto o seguinte excelente jogada do camisa dois o lateral do Aimoré Rio Verde que driblou seu marcador o bom lateral Pilão Arcado do Campo Grande e cruzou na área adversária para o grande finalizador o craque do Aimoré e da Seleção o Santa Maria da Vitória finalizar de pé esquerdo que não é o seu pé de sorte jogada de linha de fundo magistralmente executada pelo Rio Verde que encobriu o volante Piaçabuçu e o zagueiro Andaraí defesa vacilante do Campo Grande oferecimento de roupas da grife Minuano e o Santa Maria da Vitória estufou as malhas da meta do também grande arqueiro defensor goleiro Tabuleiro e esse gol vai tranquilizar a torcida aimoresista e deixar a equipe se o placar continuar a ser favorável em primeiro lugar no campeonato nacional da série B oferecimento das camisas da marca Fulniô um golaço para delírio do torcedor do Aimoré. E o que você viu dali de junto do gramado seu Porto Nacional? Nem me diga olha só como são as coisas seu Serra Negra e seu Rio Preto e nobres ouvintes da rádio emissora GTN pois o Santa Maria da Vitória saiu comemorando aqui bem pertinho de nós os repórteres de trás da goleira do arqueiro Tabuleiro e foi direto à câmara da tevê oferecimento da mecânica Tapes e jurou amor ao Aimoré Esporte Clube às filhinhas à esposa e toda a família que está assistindo em casa além de beijar todas as tatuagens com o nome de todos eles e elas é isso aí! oferecimento da boate Botocudo e tenho dito.
       O futebol para nós não é só esporte e lazer, é identidade, vida e morte. 
E a bola rola, rola e rola como roda que rola diz o narrador, comenta o opiniático, fala o repórter perto do lance atrás da meta. Rola a bola rotunda rolante rodada, enfim, em busca daquele talvez mísero gol para fazer a torcida vibrar.
      

       

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