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sábado, 30 de maio de 2020

Outra Vez no Carnaval (juvenil)




Parte 1
                                                          
            Para quando Lilás acordar levantar do berço pular da cama rolar da rede botar o pé no chão em pleno dia, a primeira impressão que vale muito, o dia já tem que estar aceso ligado e pronto ar aberto pra fora. Para quando o sol apontar nas horas 5 e 35 da matina, despertar de passarinhos incidentais e tucãos e caraúnas e tiés-pretos e aturiás e estrelinhas-do-pará..., o dia tem que estar já amanhecendo e crepitando e recebendo automaticamente o “bom dia!” e tralalá!...
Tudo isso é ótimo se D quiser, quando quiser. De mais a mais D tem que querer. D existe ou nem existe, então? Ah, aí que quero ver!
            E a verdade? A verdade verdadeira. Que a verdade seja dita a todo povo a toda gente a toda parte a todo instante.
            Uma vez, uns anos atrás, aquela vez em fevereiro começos de março... Nem tinha vento enchente inflação desemprego copa do mundo olimpíadas e nada de coronavírus. Logo cedo a matinada: passarinhos espertos rápidos caaingás verdes avenida Miguel de Frias e Vasconcelos bicicleta escola história geografia recreio merenda jogo no ginásio da associação poliesportiva Mari-Mari... Uma manhã lépida tarde limpa de verão estabanado fazer o quê. Nem é exagero e algum.
            - Estão construindo uma ponte estaiada enorme sobre o rio Juma! E vamos ver! - se sabe que foi a menina Lilás, muito querida eloquente.
            Correndo na esteira na bicicleta ergométrica, o mundo acordou e acordou naquele exato momento naquele preciso instante precioso momento e com um olho aberto de sol amarelo. E ela sempre gostou de férias e festas e viagens. O mundo azul de olho amarelo aberto no céu translúcido parecido. Um mistério sofisticado que nem dá para imaginar idolatrar paginar. Como nem pensar em túnel Morro do Boi, parque Serra do Curral, rio Acre, Santa Margarida do Sul, Senador Guiomard, Eirunepé... e mais opções de lazer e entretenimento por este B grande bonito e nosso, né?! Só vendo e convivendo.
            Quando Lilás tinha dez anos e tão galante. Essa história passou o tempo pra trás. Do faz tempo, mais ou menos. Foi lá para trás antigamente uma vez. Quando Lilás levava dez verões e bem de férias. Quando a menina ainda se encontrava imortal. Quando a Lilás desfrutava num tempo e num espaço que nem cultivava o cronológico digital ou analógico. Tempos passados passatempo de ver ouvir andar e rir. Quando se escrevia farmácia com ph, assim: pharmácia. A guria ficou assim muito enamorada encantada. Foi mesmo foram os tais e quais aqueles tempos - e que ainda hoje tem espinho...
            - Quando eu crescer quero ser uma empoderada voleibolista do vôlei, tão ligadas?!
            Lilás finalmente acordou recordou abriu os lindos olhos janelas. Acordou e começou a sentir o justo meio ambiente. Começou a rever os sonhos, se possível. A interpretar os sons que vinham de fora de fora. Reviu um dois três sonhos sonhados submersos no sono, e quantos tempos brincara ali junto com a turma: um barco batendo na janela e pedindo vento norte amazônico e rio Surumu e capital hemisfério norte Boa Vista; um trem mergulhando pelo fundo do mar, pilotado por um cavalo-marinho, puxando uma longa fila de vagões repletos de telespectadores; uma senhora, vestida de baiana típica, oferecendo acarajé numa feira livre em pleno Pelourinho, praça Castro Alves, farol da Barra, passarela Joaquim Macedo; um voo de asa-delta suave lento filmado cartão-postal da paisagem tropical baía de Guaratuba, rio Potinga contornando bem pelo morro Itapiroca, mata atlântica nos sete e meio por cento preservada flora e fauna, a praia Brava na ilha de Santa Catarina; e o soberano mar do oceano ondas fáceis comuns barulhentas estouradas todas iguais do Atlântico pão nosso de cada dia e redes pra deitar relaxar redário atado debaixo das palmeiras locais tucumãís-uaçus 10 reais à hora.
            A menina deu corda na magra fina vontade de levantar da cama, ora!... Levantou como um trapo mareada e sempre aventurando. Abriu a persiana e abriu a vidraça corrida e abriu o sol e abriu o céu e abriu as ruas da cidade e abriu mais uns quebrados de paisagem. Olhou dali mesmo o céu e viu tudo parecer tranquilo e pacato ou quase parado devagar parando domingo, tudo junto incluído. A manhã iniciativa iniciava pela pequena manhãzinha desnatada, recém-nascida, sonolenta e pouco mais. Alados aqui e mais ali riscando de asas invisíveis e ciciares invisíveis, corruíra-de-casa, tinguaçus-de-cabeça-cinza, pincha-cisco, curicacas-pardas... o sem peso do espaço aéreo transparente rarefeito. Uma multidão de insetos em volta dos capões das árvores doces verdes amarelas vermelhas, todos pintando o setecentos e setenta e sete, formigas-vespas voejando, polinizando, ziziando!... trilando!... caminhando, descaindo, sumindo nas correntes quentes e altas ou como acharam melhor.
            - A tal de crisálida é uma fase dos insetos, positivo correto. E depois voa com asas de borboletinha-do-mato ou borboleta-listrada ou borboleta-da-restinga..., exatamente.
            Assim ela mesma, Lilás cunhantaim, abriu os braços em cruz e se esticou e se esticou e subiu na ponta dos pés e bocejou. Empurrou o cotovelo para que a mão chegasse a coçar o centro das costas. Garotinha de quatro costados e indiferente. A menina até deu uns pulinhos de ginástica aeróbica. Nem qué?! Ficou tão contente com tudo isso, nossa!
            - Nem tenho cachorro gato peixe tracajá de estimação. Porém nem é urgente...
            Há dias e dias que se ouviam os tambores e os tamborins e os berimbaus, os surdos e os agogôs. Já se ouviu o reco-reco? Já se viu teco-teco? Já se pesquisou os tico-ticos? Ouviam-se também, camuflados ou escondidos ou separados ou reformados, o chocalho e o canário-da-terra e o saíra-de-asas-verdes, as motos para entregas rápidas, o bate-estaca da construção no pavilhão do festival gastronômico de Sanclerlândia. O tambor rufava, a cuíca uivava, a borboleta-azul irisada metálica sobrevoava silenciosa as flores do pé de piquiá.
            Vem que vem da linha faixa tela do horizonte aurora que chamam chamam esperam de manhã cedo. Um sol controlado por quem e que toma importância importante caminho de passos viagem o verão na praia Mole. Já faz horas e minutos e parece aparece que nem vai nem volta o tempo que será como o de sempre matinal.
            Lilás mais o trio, Rê, Pérola e Esmeralda, total quadrado da hipotenusa, quatro borboletas-folhas cada qual na sua flor, combinaram baile no clube Laranjinha e ali perto. No horário de um sábado à tarde sessão matinê grito de carnaval, “chiquita bacana... lá da Martinica... se veste com uma casca de banana nanica!...” As meninas se equilibravam nas idades: de nove a dez anos; se equilibravam na altura: a altura de um cabo de vassoura; se equilibravam na tagarelice e no verbete e na verborreia: olhando e comentando tudo que as cercava. Falando sério ou nem tanto. Vai aonde, camarada?!
            - Te digo, antes que me perguntes - esta Lilás que gostaria de tirar férias de vez no rio Cebolano e Arapoti e Cunha Porã e Ibirajuba e Pontal do Paraná...
- Vocês são boas para guardar segredo secreto? - Rê queria fazer férias sinceramente preparada fisicamente pela única ferrovia do Trigo já em Muçum e Iraceminha e Doutor Ricardo e Piraí do Sul...
- Vocês sabem o que é o alvitre? - Pérola queria muito ir daqui para uma aventura caminhada ao morro Pelado e Vespasiano Corrêa e Riqueza e Conceição das Alagoas e Campo do Brito...
- Amanhã vou sair de caipira ou caipirinha ou camponesa - Esmeralda queria era mesmo sondar a elevada íngreme majestosa brilhante temperamental cachoeira da Pedra Furada e Campina Grande do Sul e Itaporanga d’Ajuda e Planura e Santa Rosa...
            O carnaval tem fome tem sede tem coisa brilho fantasia tribo gauchada e se esconde atrás de uma estrela, atrás de todas as estrelas e planetas e constelações e universos. O carnaval se esconde atrás do zodíaco das nebulosas do céu e do mar e da terra. Carnaval amanhã é outro dia, depois passa, passará pássaro sabiá que sabia assobiá, “lata d’água na cabeça... lá vai Maria... lavai Maria!...” Apenas só isso mesmo, gente! Show de bola!
               Estavam presentes as quatro meninas descendo a rua dona Princesa Isabel a regente. Outros bichos faziam o mesmo e pensavam já o mesmo: carnaval no clube Laranjinha. À tarde e a fauna peculiar em trânsito sistemática numerosa, guaipeca, neurônio, colunas dorsais, estatelada, utc-3, afro-luso-brasileiro, para-sol, raia... E eram vizinhas visitas amigos amigas conhecidos parecidos parentes aderentes marcianos colegas, camaradas irmãs. O dia estava bom como um doce com guaraná gelado. Idades em crescimento ou nem, turmas, grupos, juntas, pares, duplas, trios, quartetos, bandos, colorados, acompanhados, disfarçados, anônimos, sertanejos, conjuntos de pagode de samba maracatu carimbó.
            Já as meninas também ainda desciam a rua dona Princesa Isabel. Vinham eufóricas e emparelhadas e risonhas. Lilás de quê? Pirata de minissaia sol marciano estampado, cor vermelha. Rê de quê? Pirata de bermuda de florzinhas margaridas e loirinhas. Esmeralda de quê? Pirata de calção de surfista paisagem da praia de Torres. Pérola de quê? Pirata de calça de pescador com motivos da Festribal de Juruti coqueiros verdes de cocos maduros. Adereços alegorias acessórios miçangas lantejoulas e enfeites adornos penduricalhos munhequeiras...
            - De verdade... eu queria me fantasiar de tubarão-lixa, sabe! Porém o bicho é fortemente fatal. Muito cafona. Além de opções variadas estranhas tipo, silhueta, microfibra, armarinho, artesã, bilha, lápis-borracha, palavra-ônibus...
            - Um poraquê saindo aí e dando choques elétricos peixe-elétrico, bizzzz!... é.
            - Praticamente um inseto, estridulando!... mosquito da dengue e enxame. Nem tem?!
            - Mil vezes um alucinante ácaro aumentado em tamanho etc antenas braços pernas e transtornos multiplicados. Quem diria!
            Entraram partiram as melhores amigas num pátio largo e muito povoado àquela hora. Nem é preciso falar da bagunça que estava. Cheio de gente e bichos fantasiados os mais estranhos possíveis, peixe-boi, tuiuiús, jacaré-de-papo-amarelo, bororós, caburé-de-cupim, maricauas latinos peregrinos condes viscondesas curumbas jogadore de futebol... a maioria em família em grupo em bando em alcateia em cáfila... Uma escada de 30 degraus conduzia subia a uma entrada de portão grande de madeira e ao salão da folia propriamente dito, “hoje eu acordei com saudade de você... beijei aquela foto que você me ofertou... sentei naquele banco da pracinha só porquê!...”  E se conversava muito e com as mãos com os pés com as gargalhadas aos gritos aos saltos uivando empurrando... uma algazarra uma zombaria que todo mundo participava... bom relativo quase ótimo legal internacional legal sensacional... “ai, ei, a bruxa vem aí... e nem vem sozinha... vem na base do saci!...”
            Uns dez ou doze meninos, dragões da independência ou pica-paus-carijós, olharam se interessaram pelas quatro e de uma vez. Todos os meninos que podiam olhar, olharam, miraram. E riram, e riscaram uma espécie de sorriso, de riso, ou até gargalharam. As meninas nem aí nem te ligo, etc., “sai fora, meu!”, “nem tô nem aí, carinha!...” Um céu sossegado e maneiro e côncavo mais 2 ou 3 barcos a vela velejando...
            Em tudo e por tudo o pessoal gritava com vontade, caminhava, comprava pipoca, comprava algodão-doce, comprava guaraná de latinha no copinho de papel. Quem passava de carro buzinava lançava música no ar queria comprar queria trocar queria vender. E muitos bichos e tipos e coisas e objetos à solta, formigas curupés gigantes invadindo o baile e comendo amendoim torrado pelas beiradas, monges e monjas de Buda enrolados em toalhas de banho com desenhos de palmeiras buritis, moços e moças vestibulandos com cara de paisagem, pescadores caiçaras politicamente corretos de Maripá e Angra dos Reis e Touros e praia de Lagoa do Sal, índios remanescentes dos aimorés vendendo arcos e flechas temperadas com veneno urare... A rua Sete de Setembro já estava solta de bichos de penas e de couros carapaças e de cascos e de escamas e de marcas e motivos e formas e etiquetas modelos engraçados, “haverá sempre um fio, de pavio... haverá sempre um pio, de navio!...” E festa apreciada sim e nem sofisticada e exageradamente por muitos.
            - Por que recordo emboralá! na hora h de um sonho que estava viajando? Agora procuro na imaginação... e junto da tribo povo tapirapé...
            - Se eu lembro de um sonho que lembro de tudo e onde estava? Agora descubro imaginar ao som dos curuquis... e junto da guerreira nação mundurucu...
            - Como imagino esse sonho que subia o rio Cristalino num dia de sol e choveu e voltou o sol o pôr do sol como já tive? Agora busco reencontrar... a gaiola a barcaça capitaneando junto aos botos-cinzas...
            - Quando abro os olhos e de repente materializo e realizo e o que resta de real e verdadeiro? Agora encontro o sonho natural... nas terras e matas e rios junto aos capaxó...  
            As meninas amigas necessárias já estavam pelo pátio do tal clube Laranjinha e envolvidas misturadas. Lilás cruzou os braços. Desembarcaram de um táxi duas odaliscas cheias de purpurina e brilhantina e com véus verdes, azuis, vermelhos, brancos, pretos, lilases, verdoengos. Também apareceram muitos índios tupi-guarani de diversas etnias vestidos solenemente com penas e armas ecológicas modernas tacapes celulares miçangas jenipapos enfeites de madeira botoques tarugos nas orelhas e nos lábios chocalhos nas pernas riscos de cores na pele, faraós de muitos dourados e ouros e favos com mel das abelhas-de-cupim das abelhas tataíras... Quando muito vinham em caravana de outros rincões, Porto Walter, Manoel Urbano, Acrelândia, nação nauá, tribo nuquini... E povo muitos tantos seres entes máquinas músicas tropicais e foguetório, tummm-chiiii!... com chuva de estrelinhas brilhantes multicoloridas estalantes gritantes ferventes...
            A Pérola se arrependeu de quê? Ela mesma descontou, e numa hora dessas:
            - Pois ué! Eu queria me arrepender de vir de pirata, é. Adorei uma fantasia aí de odalisca e muitos véus, entendem?! Muito oriental.
            - Incrível se arrepender tarde demais no meio do auê, filhinha! - disse a Rê.
            - Queria ser uma iara de lagoa no meio do mato e de braço dado com um índio de cocar. Isto eu queria mesmo. Muito amazônico! - relatou novamente a Pérola.
            Pois então, patrão. O mundo nem para de acontecer acontecendo. E Lilás queria ser uma piloto de avião comercial como quem? Ela olhou, viu... pensou e decidiu ser pilota comandante chefe de avião internacional: podia? Pensou em ser uma cantora da moda mpbu: podia! Pensou em ser uma empoderada jogadora de vôlei e oposto: podia? Ponderou morar em Toledo e quase todos os dias ir pra escola de bíci: podia! Analisou demoradamente adotar comprar um cachorro (ser elemento indeterminado) com nome escolhido Tapuia: podia. Sentiu vontade de nadar nadar no rio Muru correr descalça visitar o museu Casa dos Povos da Floresta: podia!
            Passou um grupinho de índios charrua que falavam “refrigerante” no sotaque minuano. Ninguém entendeu. E passou, seguiam e voltavam, cheques e gurus e xamãs que falavam “refrigerante” em árabe e em hindu em tememinó. Somente eles e entre eles se entendiam. Ninguém mais entendeu, uffffe!...
            O Laranjinha este clube grande e moderno e reconhecido, estava enfeitado e pronto e lotado e trepidante e engalanado. Maioria gente baixinha, novinha, inexperiente, caçula, acompanhado de babá. Uma multidão por aí já curtindo paradas de carnaval, uns pessoal escorados e outros pessoal sentados de qualquer jeito gentem ou como achavam melhor. Sorvetes de chocolate picolés de pequi, caju, jabuticaba, sete-capote... Sobre tudo uns cordões com bandeirinhas de papel de seda, balõezinhos estufados em cores de azul, verde, vermelho, etc., e som de tambores, tamborins, apitos, meninas e meninos fora do comum fora da curva de outro planeta, de outro hemisfério, de outro polo... Brincantes pulando rindo zombando beijando rindo sacudindo abraçando agarrando... Salão agitado de bichos agitados e esquisitos e exóticos, guapuruvu, jacaretinga, batata-do-rio, parauaçu, aramatá... sem falar os naturais da terra locais, estapafúrdio, ocre, 100°C, empetecada, coloidal, dna... quando nem em casais inseparáveis, fivelas, caixotes, autopeças, átomos, interfones...
            - Poderia pegar a sua mão com muita afeição, guria?! Você nem é de e mora em Santa Juliana? Tenho quase totalmente certeza, hein?! Que eu notei!
            O jeito era pular como pipoca. E dançar como na taba na tribo no bloco. E já subia um pó com cheiro de poeira perfumada. Ninguém reparava na bagunça e cada vez parecia ficar mais divertido. Ninguém deixou de vibrar e sacudir na chuva de confetes e serpentinas. Estavam todos aí para virar a tampa do caldeirão, pular a tarde toda, e o resto. E por quê? “Tomara que chova... 3 dias sem parar... tomara que chova... três dias sem parar!...”, “daqui nem saio... daqui ninguém me tira... daqui nem saio!...”
            Voavam serpentinas tiras tripas desenroladas, aterrissavam papéis picados, pousavam confetes de cada cor, caíam confetes das altas nuvens, corriam rios e rios de sorrisos, apareciam os tipos, pigmento, pré-requisito, bem-sucedida, lisa-de-água-doce, elite, maquiagem, superego... surgiam fantasmas de muitos feitios e idades... “cidade... maravilhosa... cheia... de encantos mil... cidade, maravilhosa, cheia, de encantos mil!...”, uma tartaruga patriota bebendo refri no copo de papel puxando o líquido essssfrrrriiii!... pelo canudinho também de papel, “bandeira branca, amoooor... nem posso maaaais... pela saudade que me invaaaade... eu peço paaaaz!...” e outros bichos, e outros nem tanto animais, joias de ouro e prata, rubis falsos, brincos falsos, coroas falsas de rainhas princesas baronesas legítimas e bonitas e tão galantes.
            O mundo todo girava na roda em volta do salão de baile. Uma grande roda bola bagunçando e rodopiando para lá. Um barco balançando nas ondas nas altas ondas tempestades para cá. Pipocas esquentando, encontrões, abrações, puxões, empurrões, “foi o 22 de abril... foi o 22 de abril... que Cabral descobriu o Brasiiiil!...”, um grande redemoinho que nem afundava, nem naufragava, apenas tonteava e desequilibrava e subia, subia e descia descia... “oh, você aí... me dá um dinheiro aí... me dá um dinheiro aí!...”, bichos como os porquinhos ou porquinhas-do-mato, tartarugas-da-amazônia, onças-pardas pintadas pretas... “Alá lá ô oh oh oh!... mas que calô, oh oh oh!... estava atravessando o deserto do Saara... quando o sol... queimou a minha cara!...” multidão para pegar o refri, multidão para ir até ali, multidão para falar com ocê... “agarra, agarra, agarra carrapicho... nem sossega... sossega sossega o meu benzinho!...”, os brincantes tripulantes de nave à deriva se seguravam pela cintura, pelas mãos, pelos braços, pelos cabelos... pegavam o desfile, “ooooooh!... abre alas que eu quero passar!... eu sou da lira... nem posso negar!...”
            Seguiam num trenzinho maria fumaça, com apito e chaminé e lengalenga! lengalenga!... que virou trem, e virou minhocão e rima e ritmo e logo já era um trenzãozão um cordão uma alegria um treme-treme... E o trem andou por lugares divertidos e sempre em ondas gingando balançando de lado a lado, o comboio subiu serras, Ouro Verde do Oeste, João Câmara, Delfinópolis, praia Ponta das Pedras... desceu morros e apitou na curva sobre a ponte. A locomotiva ergueu braços, cruzou túnel, apontou o céu do teto todo excelentemente decorado, gritou sem parar e nem parou mais. Muitos bichos se penduraram nas janelas dos vagões do comboio em glu-glu zigue-zague tique-taque... E outros animais bípedes, e outros etc ou extraterrestres e coisas e objetos, grandalhões, humanidade, fanáticos, aviús, curuquerê-do-capim...
            A Rê, muito depois, noutro lugar, outro esporte, mais um capítulo, foi dizendo para as melhores necessárias amigas:
            - Sabe o cordão, gente?!
            - Sim, o trenzinho o bloco...
            - Pois é. Quando vi, quando percebi, um carinha então pousou a mão lá dele no meu ombro nos meus ombros.
            - E você?
            - Eu nem olhei, é claro. Fiz esforço para nem olhar. Que tipo!
            - Nem olhou? E como foi o resto? Passou?
            - Quer dizer, quase nem olhei. Somente fui mesmo olhar agora e, assim mesmo, de canto de olho, de relance.
            - E ele insistiu? E ele era bonito? E ele queria dizer o quê?
            - Era um índio coroado da nação caingangue, né, guria!
            Os ponteiros das horas varriam escovavam lixavam o piso o chão do relógio carregavam pra dedéu sem que se pudesse ver o tempo dançar. A caravana passou e os cães nem deram conta de tanto que ladrar ladrando. Mas, por outro lado, se a bailarina é bela é bonita, a caravana que espere espere.
            - O tempo sempre late, au-au-au!... quando vê nuvens passageiras passando, é.
            - Tu achas que tenho cara de abóbora-do-mato?
            - O tempo sempre chia quando vê nuvens pesadas se aproximando carregadas, em!
            - Você sabe quem foram Peri e Ceci?
            Um índio charrua de penas e miçangas raptou Pérola para o fundo da floresta florestal? E a mata era no fim do mundo ou no canto do palácio de festival numa festa do Sairé em Alter do Chão. E as matas muito verdes de folhagens tenras copadas frondosas. No mato muitos rios se fazendo passar por estradas ruas e praças. Muitas árvores gigantes se fazendo de pessoas importantes, capitarizeiro, avenca-paulista, muirajuba, paricarana... e falando coisas ótimas de se ouvir e rir. Além disso, uma chuva logo ameaçou desabar com tudo e águas por todos os lados banhados ratões-do-banhado saracuras-três-potes taãs marrecas-cricris... E desabou, veio do alto, toda de uma vez, caiu, enxurrada catadupa. E caiu uma boa chuvarada com enchente. Uma bomba-d’água com cordas lençóis cortinas chuveiros. E aí, era de dia de tarde de noite e tempestade de confetes?
            A chuva lavava a maquilagem no rosto da menina Lilás. As três companheiras amigas restantes ensopadas aguardaram nem sei o quê esperaram ensopadas encharcadas que um milagre caísse do céu do céu. Molhadas dos pés à cabeça bebendo água da chuva língua pra fora. Molhadas as três muito bem molhadas tiritantes até os ossos.
            Esmeralda levantou uma dúvida normal e corriqueira e urgente:
            - Vamos atrás de Pérola, tá claro, né?!
            - Será o quê, galera? - questionou a Rê. Será que foi acompanhada? E se sim, com quem quando por quê?
            - E se for uma trama-cilada? Telefone que é a mesma coisa, vai, gente! - disse Lilás.
            A chuva ocasional caía e as pessoas passeavam tranquilamente debaixo da chuva. Talvez o aguaceiro nem fosse parar antes das 22 horas. Nem fosse parar por hoje, uma vez. Nem o carnaval, claro, que nem parava com a chuva com a seca com a fome com a sede com a política com a temporada; até mesmo os foliões se motivavam bem melhor e mais além. E a chuva era uma coisa prática definida e as pessoas outras coisas particulares que sabiam fazer. Assim como tem bicho que gosta de chuva e outros nem.
Lilás desejou ser um barco a vela: podia? Ou uma ave de penas impermeáveis: podia? Ainda desejou ser uma virtual mensagem de otimismo qualquer viralizando pelaí, etc: podia? Ela sempre pensou que o paraíso era em ilha da magia Florianópolis: podia? Viu na tevê a praia do Cururu: podia? Ela ainda procurou negociar um cão (ser elemento fonte) de nome Golpe: podia?
Pela avenida João Pessoa acontecia um desfile de personagens como o boi Barroso, a chinesa de chapéu de cone distribuindo flores amarelas e vermelhas, o faquir de turbante vermelho e calção xadrez vermelho e preto, o soldado com roupas camufladas e armado de metralhadora multiuso, a budista santa de cabeça raspada enrolada numa cortina amarela ou dourada, um jogador da seleção com camisa da seleção número 10, um gaúcho largado de celular no ouvido pilchado no estilo...
            Um certo tempo depois a chuva nem havia desistido. Pelo contrário os riachinhos começaram a aparecer de todos os lados de todos os morros de todos os barrancos e subindo sempre sem parar. Vinham rios de fora do subsolo do alto de todos os cantos. Praticamente alagou tudo virou um banhado um pântano e mais pra lá... um estuário um santuário um mostruário um supermercado.
Pérola foi vista de relance saindo em direção à floresta mais próxima. Pegando o caminho do Peabiru. Então, as três detetives amigas da amiga Pérola resolveram, por puro acaso, por puro faz de conta, seguir aquelas pegadas marcas e sinais.
            Rê apontou o dedo apontador indicador na areia fina da praia marinha da Galheta:
            - Olhem! Vêem? Estão vendo? São pegadas dos dois, uma vez, apesar da chuva insistente duradoura.
            - Estão indo pela praia e à beira-mar litoral e costa - falou a Lilás.
            - Debaixo da chuva e sob a chuva, também - completou o panorama a nossa intrépida urgente corajosa a Esmeralda.
            O trio de três parou num quiosque para comprar pé de moleque, quindim, cocada branca cocada preta rapadura cartucho de amendoim torrado suco de abacaxi cupuaçu pupunha. Logo continuaram andando e num trote cadenciado e maneiro. Uns ônibus e alguns carros de passeio passavam passeando por elas buzinando dando sinais de pisca-pisca interpretando os trios elétricos. Um mundo uma fauna uma flora de gente ou bichos ou coisas e gritos desfilando pela cidade aprontando. O carnaval nem estava caminhando, estava correndo. A trinca passou por uma capela de santo ou santa de anjos e anjas de oferendas devotos ofertas ex-votos. Árvores frondosas ramos gorjeando, inharés, tembetarus, chapéus-de-frade, paxiubamirins... e possivelmente de alados aladas gorjeando, cardeal, sebinhos, surucuá, juriti-carregadeira, irerês, sairuçu, periquitões-maracanãs... as músicas da onda da moda dos gritos de carnaval, “olha pra mim... meu amor!, olha pra mim... minha flor... e me abraça, por favor! por favor!...”, “a canoa virou... deixa virar... por causa da menina... que nem soube remar!...” O som de orquídeas bromélias tomando banho de chuva duchas de águas chuva peneirada, u-lá-lá! u-lá-lá!... As pessoas ensopadas ainda brincando pelas ruas ladeiras molhadas escorregadias. O carnaval nem estava por ontem, estava por hoje e amanhã. A chuva veio para brincar, fazendo o favor de cair sobre tudo e precipitada. A dança festa da chuva promovida pelos pajés pajelanças. A chuva molhada e bonita que caía de pé e corria deitada. Índios botocudo e aborígenes sapará dançando em roda cantando ruidosos urrando, uuuh!, uuuh!... pra continuar a chover pra parar de chover. Para navegar toda a chuva do céu do rio dos rios numa única só vez, e chuá!...
            Na altura das pedras à beira-mar, onde o mar também vinha atacar as pedras, ali mesmo, as meninas pequeno bondinho perderam os rastos dos namorados enamorados. Namorados ou fugitivos, ah ah ah!... É, sim, fugitivos! E o mar tudo azul, ou verde, destino azul ou verde com evoluções e coreografias. Mar irracional com planos e projetos desde o começo do mundo na terra. Um mundo de oceano e parar para ver...
            - Olhem o mar, gente boa! Tudo de bom e útil e engraçado e eficaz, gente boa!
            A Esmeralda, sempre mais preocupada com a irmã que fugia que fugira, abriu o bico e exclamou reclamou confirmou:
            - Olhem, gente! O que que a gente faz ou nem faz, hein?! O celular mesmo cai na caixa de recados e ninguém atende! Então?!... Assim?!...
            - Perdemos o rasto os cheiros os tons os sons - sublinhou a Rê.
            - Eles estão assim pertinhos aí de mãos dadas passeando de mãos dadas e abraçadinhos juntinhos, é - interpretou a Lilás.
            A poucos metros da praia de Jurerê bonita e linda, quase no meio de um capãozinho verde e legal, apareceu uma aldeia com duas três ocas e taba e ocara. Na tabuleta se lia, apontando no sentido que ia para lá e mais além no rumo:
            “Sejam bem-vindos.
            Aldeia da nação minuano.
Dez reais o ingresso
- estudante paga meia entrada.”
            As meninas se entreolharam e coçaram os bolsos. A Lilás meio que sugeriu:
            - É uma, né, gente?! Emboralá! Convenhamos!
            - Por que nem? - disse a Rê. E já estamos aqui!
            - Tudo bem, vai! - concordou Esmeralda. Nem tem tu, vai tu mesmo!
            Então, de repente, as três... contando até três... um dois e três, entraram na taba dos índios minuano da grande família guarani. E foram entrando e indo ao encontro da aldeia. As palhoças e os índios e as índias lá esperavam, quase quase nus ou nos trajes típicos da região da época do ano mantendo a tradição. Faltava pouco para se apresentarem aos turistas e curiosos gringos nordestinos sulistas visitantes de lugares distantes ótimos do país, Resplendor, Apicum-Açu, Pancas, Marechal Thaumaturgo, Parazinho... E as visitas encontraram os índios esperando a cerimônia de apresentação. Com fotografias autografadas ao estilo. Com fotos de celular e caras e caretas e trejeitos. Cestas de taquara, tangas de pano decorado com motivos florestais diversos, cocares com penas artificiais estilizadas de gaviões-carijós ou araras-vermelhas-grandes ou araras-azuis-grandes, colares e chocalhos feitos de tipos de sementes secas ou pedrinhas redondas, potes de barro pintados de vermelho e amarelo com desenhos riscos muito diferentes... Sete ou oito guaipequinhas chegadores e atiçados. Uma turma de papagaios-maracanãs domesticados autorizados anelados pelo Ibama.
            A terra nem parecia girar constantemente e ao redor de si. E depois de girar um tanto aparecia o sol com raios de radiação gama beta alfa ultravioleta etc atravessando o espaço. E a lua amiga comprometida com a terra. E a terra esperança do sol depois a lua cheia luar, uau!...
            As meninas cansaram e procuraram sentar por aí em algum cepo ou banquinho de madeira beri sempre à disposição. A chuva nem parava para almoçar. As visitantes, as piratas de folia, sentaram no chão mesmo debaixo de uma aba de palhoça. O mais naturalmente possível e comendo lanchinho de biscoito recheado com chocolate. E apareceu um índio que podia ser o cacique ou o piaga ou o Ubirajara. E é bom dizer que chovia assim... uma barbaridade. E apareceram umas índias cunhãs cheias de sono e tédio recém-casadas no civil e religioso. Falavam um português pensado e sem conjunções de apoio. As meninas esperando algum milagre, a apresentação, a dança da chuva, a festa da colheita do milho da colheita da mandioca do torrar da farinha... O índio, tipo chefe morubixaba, olhou o relógio digital preocupado com o quê. Penosas e rabicós andavam ciscando e focinhando o terreiro da taba. Um cachorrinho molhado veio latir para as visitas e pedir arrego. Outra coisa importante: havia um papagaio-real ao vivo de verdade e falante andando com calma e pra lá e pra cá num poleiro no meio da sala às vezes resmungando outras vezes apenas curiosando ainda comendo grãos de amendoim balançando o corpo e a cabeça para nem e para sim uma aliança na canela com data de dois anos atrás - ano das olimpíadas no Rio de Janeiro, “o Rio continua lindo... janeiro fevereiro e março... alô alô gente boa do Realengo... aquele abraaaaço!...”
E mais que o papagaio-real e curioso, viviam ali outros papagaios curiosos e falastrões arengões palrões parlapatões. Muitos papagaios e suas amigas muitos periquitos e suas consortes que se podia dizer ser ali o país das araras. Muitos papagaios e papagaias empoleirados em poleiros repletos e vários de variados tons de aves falantes eloquentes. E araras, periquitos, louros, baitacas, maracanãs, humaitás, papagaios-verdadeiros, papagaios-caboclos, e todos em abundância assembleia algazarra.
            O índio gerente presidente da associação falou no português pensado e que ele achou melhor se explicar:
            - Menina qué passeá igara arquipélago Maiaú?
            - Que é igara, cacique? - questionou Esmeralda.
            - Eu jamé ser cacique. Eu guia turístico - disse o moço da agência.
            As meninas, e logo as três de uma vez, olharam a chuva que caía cair caindo do mais alto precipício. Os trocentos papagaios falavam confusão, mas falavam uma língua enrolada lá no idioma deles, “chirriar! chilrar!...” E chuva já caía que dava gosto sabor e tempero. As meninas até que gostariam de falar com os papagaios e lhes oferecer pipocas petiscos manjares. Será que os papagaios sabiam falar português comum e urbano? O guia índio mais uma vez insistiu com razoável suave sotaque carioca da gema:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué passeá Santa Rita do Itueto?
            A aldeia ficava no meio de um mato matinho perto de um morro, perto de um riachinho. No riachinho talvez que almoçasse e jantasse uma cachoeira. Um lugar legal e tanto pra passar um fim de semana. Debaixo da chuva os passarinhos vermelhos viravam já verdes ou lunares rebrilhantes luzidios luzentes. Depois os mesmos pássaros, lunares ou verdes ou vermelhos, caíam no chão para se tornarem serpentes ou lagartos lagartixas. E já mais um minuto a mais e surgiam como peixes alados igual borboletas ou passarinhos. Tudo acontecia ia e voltava, e passava bem e passava de novo.
            Lilás balançou as pernas, fez física exercícios malhou, imitou um atleta de corrida. O rekakê prosseguiu:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué arco e flechas? Qué comê mio verde ou tapioca? Qué esperá chuva tudo todo caí? Vai visitá Nova Santa Rosa?
            Os olhos firmes da flibusteira Lilás faziam cócegas e também queriam olhar. A Lilás pegou e espiou. Era a Lilás, volta e meia, muito e extremamente meiga e doce e açucarada como um sorvete de cobertura. Os papagaios da aldeia nem sabiam falar brasileiro, e resmungavam um pouco brincalhões um pouco zangados um pouco de tudo um pouco carnavalescos. Esmeralda lembrou de perguntar, quebrando o jejum:
            - O senhor morubixaba viu uma menina chamada Pérola? Quer dizer, ela é do nosso tamanho, tem presença, linda, fala muito quando quer, etc., um tipo assim... Estava a passeio com um índio fantasiado da tribo pareci ou parauá ou pojixá. É importante pois é minha irmã e mana de sangue.  
            O guia turístico indígena nem pensou duas vezes, e comunicou na língua do português-brasileiro pensado e ideal pra turista ver e ouvir:
            - Arrã?! Hã-hum! Quem disse qui aqui é tribo pareci ou parauá ou crenaque? É tua parente? É tua melhó amiga?
            - É, sim senhor. Sou parente próxima. É a maninha. Onde ela se meteu? O senhor a viu por acá e ali e acolá?
            - Arrã?! Hã-hum! Olha... - suspirou o guia.
            A chuva cantava sobre a terra toda, sobre tudo e mais. A chuva pretendia se dirigir ao estrangeiro se voltar pra fora? Uma chuva de exportação? E a água da chuva corria para os melhores lugares, lagos, rios, poças, barragens, pem do parcel de Manoel Luís... Um milagre. Um fenômeno. Uma chuva enorme e doce e perfumada de terra molhada e folha verde folhas tenras. Uma chuva que parecia morar por aí mesmo. As árvores gostavam e respiravam melhor. As árvores que mais adoravam chuva, uma vez: angico, camboatá, açacuzeiro, maria-mole, salso-chorão, catajé, arapari... As aves adoravam corriam voavam e se divertiam mais. Aves que mais bebiam chuva, uma vez: quero-quero, tesoureira, tico-tico, biguá, araquã, uru, sanhaço-frade, guiraponga... Os insetos tinham o voo atrapalhado ou interferido impedido imperfeito interceptado. As formigas-da-chuva, por ora pois e ora tíbi e ora veja!, nem se arriscavam a sair de casa sem capa de chuva ou guarda-chuva e ficavam na porta só olhando o tempo... Extraterrestres com discos voadores também nem falar na chuva tempo fechado.
            A Rê pensou duas ou três coisinhas soltas desfiadas. E depois pegou uma e indagou:
            - O senhor nem gosta de carnaval? Por que nem vai brincar? É legal.
            - Arrã?! Hã-hum! Eu trabalhar muito muito preocupar, fia. Onde si viu?! - falou e disse o índio, preocupado em nem ser muito urbano no falar e no trajar.
            A Esmeralda ofereceu duas notinhas de dinheiro ao índio chefe Içabitu, dizendo ao mesmo tempo, sem querer ofender pela gorjeta:
            - Aqui para o senhor, um agrado e um consolo pelo favor. E também me dizer para que lado foi a mana Pérola. Que vale ouro, tá legal?!
            - Arrã?! Hã-hum! Entrô montanha alta - respondeu o índio tape, ao mesmo tempo que esticava um sorriso satisfeito.
            - Entrou na montanha? Como assim? Por um túnel, uma caverna, uma gruta? Duvido! - duvidou a Esmeralda. A mana tem muito receio dos morcegos e dos percevejos e das mariposas e das lacraias e das aranhas e das lagartas...
            Lilás aproveitou o tempo para olhar a paisagem e diversificar sua curiosidade, os papagaios empoleirados que nem sabiam falar o alagoano ou nem entendiam falar o goiano, e ainda olhou a aldeia, as palhoças cobertas de palha, os habitantes com apliques no cabelo, o mato, a montanha arborizada, o lago do pesque e pague, a chuva torrencial, o riachinho córrego igarapé. Tudo razoável. E coçou o pé direito com o pé esquerdo numa ânsia de sair andando pedalando a bíci. Sonhou em ser uma harpia voando e piando entre as nuvens escuras do dia chuvoso: podia? Sonhou ainda ser uma nuvem de cabelos ruivos longos relampejantes: podia? Sonhou em ser uma gruta cheia de ouro emparedado profunda: podia? Sonhou em ser uma espécie de mata ou florestinha morando ali mesmo na doçura verde da fronteira entre a floresta de araucárias e a cidade de cimento: podia?
            O guia indígena Caacambuí aventurou, dirigindo-se à menina Esmeralda:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué trabalhá aldeia tribo turismo? Qué casá co-mi-go?
            É claro que o cacique índio guia turístico indígena aborígene só podia estar de brincadeirinha. E se rindo por dentro. Ora, vamos e venhamos, né?! Claro, assim rindo.
            O índio dos carijó voltou a falar:
            - Arrã?! Hã-hum! Menina qué passeá ilha dos Lençóis, Cururupu? Qué ensiná papagaio falá língua urbana e e-mail? Qué pintá corpo guerra festa fogueira? Qué dançá chamá chuvê? Qué comê formiga-de-novato assada cozida sapecada temperada?
            Cinco horas a aldeia fechou e terminou o expediente, nem um minuto a mais. Os papagaios fazendo o maior auê! nos poleiros e balanços e casinhas de dormitório. As meninas voltaram pelo mesmo caminho. A chuva caía verticalmente em cachoeiras, em toalhas, em cascatas, em baldes, em cataratas, em vasilhames. E por tudo, pelas mil ruas paralelepipóides, ainda o povo brincalhão brincava brincando brincadeiras artísticas engraçadas. Então, o carnaval ainda nem apagara o fervor. Carnaval, em primeiro lugar de alegria, carnaval de cores vivas, carnaval de bichos, advogado, autoestima, bla-bla-blá, bufunfa, fotógrafo, poia, cafeteria, empolgada, vassoura, “varre varre vassourinha... varre varre a bandalheira!...” carnaval de tamborins e cuícas e reco-recos e cotecás, carnaval de bagunças no bom sentido da palavra, “parabéns, para-béns, pa-ra-béns... você conseguiu... parabéns... você merece... meus parabéns!...” E Pérola sumira para sempre ou, até logo! Ou será que foi apenas uma decisão comum, um acordo, um encontro, um passeio, um arranjo completamente inocente adolescente?
            Voltaram, as três estrelas solteiras descomprometidas desinibidas, costeando o mar, pela praia, pela orla. O mar, amestrado como animal felino ou mamífero de circo, ia e vinha, meio brabo e sempre igual, lambendo e recolhendo a língua na areia. O mar é agitado, estava agitado, sempre agitado, em ondas assim, com um ânimo ou nervosismo que acontecia lá com ele no fundo desde longe. E diziam o que queriam:
- Chove, chove de chuá!...
- Dizem também que o mar está subindo e se elevando...
- Dois terços da população mundial se recolhe se encolhe no mar-oceano...
Povo distribuído pelas ruas e artérias praças preferindo as avenidas de mão dupla. Chovia por quê? Mas chovia mesmo e com aprovação de D. Chovia no nariz da menina Lilás. O clube Laranjinha entupido de foliões. Gente e povo e pessoas saindo pelo ladrão. A banda embalando uns axés, uns samba-bois, uns samba-enredos, umas marchinhas das antigamente bem especiais gostosas conhecidíssimas, “a bem da verdade, alô!... hoje é quarta-feira, alô!... afinal das contas, alô!... mais do que isso, a isso tudo, alô!... apenas as cinzas, alô! alô!...” Rei Momo, rainha, princesas, simpatias, soldados dragões da independência, “se você fosse sincera, oh oh oh... Aurora... veja só que bom que era, oh oh oh... Aurora!...” E a Pérola? As três parceiras gritaram assim e ao mesmo tempo, sintonizadas focadas:
            - Pérola!!!
            Então viram a Pérola, lá estava ela ali estava ela a Pérola celular no ouvido. Toda ela em pessoa. Inteirinha e saltitante, igualzinha como sempre foi. Em carne, ossos e fantasia de pirata e desacompanhada. As três chegaram na avalancha com cataratas, com cascatas, com catadupas avalanche de perguntas, um climão:
            - De onde tu vens, menina? Onde tu foste, guria? Perdemos um tempão atrás de tu! Onde estavas por essas horas, gente? Repare que nem quer ficar na nossa irmandade e companhia, gente, meu!
            A Pérola, uma mão na cintura, aceitando o golinho de refri, suspirosa, suspirando, se rindo, balançando a cabeça, foi falando, quando lhe deram vez e oportunidade:
            - Estava... estava atrás de vocês, ora!
            - Quê?! Como?! Quando?!
            - Eu estava, es-ta-va! procurando por ocês... suas pupunhas!
            - Nem brinca?! Jura! Conta como foi! E o namorado?
            - Que namorado!? Amiga de quem? A guarda nacional?! Estão sonhando delirando com febre alta viajando, surtaram, bateram a cabeça?
            As três de cá se entreolharam, e a de lá ficou intrigada e surpresa, ou, espertinha, fingindo ficar surpresa. Vai saber, chapa! O fato era que havia um enigma, um mistério, um plano secreto, um bastidor ou um mal-entendido.
             Depois a Pérola repetiu o prato com entrada fria e sem sobremesa:
            - Que namorado é esse que vocês me deram? Onde está que nem vi! Façam uma mágica, e por favor!
            - Ora, Pérola!, o carinha lá, o tal índio charrua ou minuano ou coroado que te raptou! Nós todas vimos e fomos no encalço tentar resgatá-la, tá ligada?!
            - Me raptaram? Me levaram? Me abduziram? - Pérola abriu bem os olhos para mostrar que estava surpresa. Um índio tupinambá ou tupiniquim me roubou, é?
            - E nem foi? Nem duvide da nossa cara, meu! - questionou outra vez a Esmeralda.
            - Claro... que nem! Meu amigo Marquinhos, fantasiado de índio caingangue, apenas me acompanhou até o bar para um guaraná gelado. Só isso, conselheiras! Esquecem a lenda, pessoal! Descem das nuvens, sujeitas!
            - Mas a gente viu e mais que isso...
            - Aliás - e Pérola cravou as mãos na cintura para mostrar que estava um pouco chateada ou fingindo se aborrecer -, eu que fiquei perdida e sozinha pelo salão à procura de ocês. E agora vejo que ocês saíram simplesmente por aí e nem me convidaram. Então, tá, né! Podiam ter telefonado. Assim que são amigas, hein?! Umas sacerdotisas, isso sim!
            - Nada a vê!!! - as três responderam de uma vez, para encerar o assunto.
            A folia continuava solta pelo salão do clube Laranjinha e pela cidade toda, amém! Havia flores e cores de todas as cores e flores e assuntos e temas e contrarregras. As ruas do mundo estavam naquele ritmo de pagode e samba, samba-canção, Tarauacá, Mâncio Lima, Bicas, Lábrea, pátria dos iauanauá... E seria assim por uns quatro ou cinco dias uma semana quinze dias, no mínimo. Os tambores e surdos e atabaques e tamborins nem descansavam. Tempo de carnaval sempre será o melhor tempo para renascer, e com certeza.