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sábado, 24 de dezembro de 2011

Contos de Santa Luzia (5)

           Sol indivíduo incrivelmente verão e empoeirado. Labirinto de nuvens baixas vermelhas tecidas de terra vermelha. Encontro congresso assembleia reunião de compridas nuvens de poeira. Um vento incidental movimentando nuvens de poeira de lá pra cá, de alto a baixo. Poeira que surgia de alguns lugares, que se apresentava ali, que se arrastava para todos os outros lugares. Chão calcinado e pedregoso. Tudo incendiado cinzento incendiando queimado torrando. Poeira demais.  
O carreteiro parou tudo:
            - Ôoooa!...
            - Uuuuh!... Uuuuh!...
            - Auaaau!...
Olhou, se virou, se revirou, calculou, coçando o peito varonil e volumoso e peludo. Tudo falido, tudo abandonado, tudo seco, tudo acabado, tudo vermelho de terra vermelha. Ninguém por perto dando sinal de sorte. A estrada poeirenta e pedregosa e abandonada. Sol homem por trás além sobre as nuvens vermelhas. Um lugar sem fim sem começo nem fim. Em o meio no fim de o mundo. Total meio de um mundo extinto, desidratado, distante, balançante, gingante, periclitante.
            O carreteiro, a carreta de duas rodas raiadas e coberta de lona marrom, dois bois de novecentos e cinquenta quilos e tanto, um cusquinho preto com manchas brancas na cauda e nas mãos e nos pés.
Chegavam ali muito sucumbidos pelo calor, aturdidos pelo mormaço, sacudidos pelos dias de distância, os dias de verão. A carreta gemendo, rangendo, rinchando, raspando. Os possantes incapazes com o próprio peso, o tamanho do reboque, o valor dos trastes. O cusquinho não erguia mais a cabeça, língua pendente, focinho requeimado, olhos semicerrados, acompanhava a sombra da carroça pelo chão de cinzas. Haviam andado muito aqueles dias e eram de outro mundo, outro tempo, outra sorte.
Durante o caminho a bifurcação. Um chão de terra vermelha e pedras soltas seguia para a direita, para onde; a outra estradinha de terra e pedras soltas seguia para a esquerda, e com tabuleta indicando o distrito de Santa Luzia.
O da carreta pensou, repensou, coçando o peito, arranhando o peito de bronze, alisando o peito de cobre, afagando com a mão direita o peito montanhoso. De repente já resolveu tirar um cigarro de palha do bolsinho flutuante lado esquerdo da camisa aberta. Bombachas de pano riscado, chinelas de couro fechadas na frente. Chapéu largo de palha quebrado na testa preso pelo barbicacho, óculos de grau de lentes amarelas, a barba hirsuta, camisa de gola manga curta marronzinha com riscas amarelas e dois três botões abertos no peito bombado.
A comichão no cérebro buscava uma resolução. A mão esquerda já alcançava a garrafa de cachaça. E bebeu o último gole. Daí mesmo, sentado na tábua de ex-imbuia feita banco da carroça, jogou o vasilhame contra uma pedra da beira do caminho, tlafe!... mil cacos e caquinhos, o cão se assustou:
- Auaaau!...
O se decidiu pelo rumo da vila de Santa Luzia. A curiosidade abria pedaços soltos no seu pensamento cansado, travado, derretido. E cutucou os bois com a ponta da longa vara tirada de uma ex-ibirarema:
- Uuuupa!...
- Mmmma!... Mmmma!...
O condutor tinha já seus 160 anos na cacunda. Esquecera de desaparecer. Um peito largo e avantajado, mais avantajado e largo devido à camisa aberta descobrindo o peito espaçoso. A sorte o olvidara completamente. Só se morre uma vez.
Entrou na aldeia lentamente no passo lento dos bois assoleados e lentos e pachorrentos, chiado monótono das rodas desengraxadas, umas incertas horas, lugar quieto e poeirento e moribundo. Sol senhor confirmando o estio sem tréguas.
A aldeia de Santa Luzia sob o calor insuportável, insuperável. Sempre verão, sempre o verão. Ex-árvores paineiras ali na pracinha espetando o amarelo do céu com seus braços queimados. Nenhum pouco de movimento, nenhuma intenção de movimento, poeira no ar, tudo parado, nada acontecendo.
Estacaram ali no meio da pracinha sem sombra e chão esturricado, terra assada na brasa:
- Ôoooa!...
- Uuuuh!... Uuuuh!...
- Auaaau!...
O olhou a sua volta, procurou, reolhou. Uma vilinha de nada, minúscula e chapada pelo astro de fogo. Uma única rua no meio e vinte casebres de pau-a-pique dos lados cobertos de sapê. Pedras soltas ao acaso. Boca de forno. Aqui e ali cercas de pedras empilhadas em taipa, cercas de caniços fincados um lado a lado o outro, capoeiral queimado pelo verão sem fim, chão de cinzas e pedras amarelas, tucurus arruinados...  
O carreteiro aliviou os pesados. Soltou a canga para um lado. Parou olhando ao redor. Coçou o peito de cerdosos pelos. Depois, apontou o nariz para a padaria. Sempre seguido pelo estropiado cusquinho. Chegaram ali na ex-vitrine da ex-padaria. Tudo fechado, tudo tapado, tudo entregue, tudo acabado, tudo zerado. Olhou em volta.
Voltaram para junto da carroça na pracinha pelada. O cachorrinho de cauda entre as pernas trôpegas tossindo alérgico ao pó. O bípede se sentou na borda da carreta e puxou um cigarro de palha de milho. Bebeu o último gole de pinga e jogou fora a garrafa vazia, se espatifou, tlafe!... contra uma pedra, o cão se assustou:
- Auaaau!...
O chegante ainda tirou mais um crioulo do bolsinho flutuante esquerdo da camisa e fumou. Deitou no chão mesmo, sob a carroça, e dormiu a sesta. Acordou uma e meia hora depois, esticou os braços e pernas estalando as juntas e os ossos, se contorceu, cheirou o ar entupido de poeira. Coçou o peito de longos e enrolados pelos. Socou a caixa do peito. Olhou em volta, reolhou, recapitulou. A vila ali toda extinta e mal paga. A capela da santa Luzia, e descascada, e rachada, e destelhada, e pelando ao som do astro-rei. O cusco de boca aberta e língua caída e olhos fechados e filosofia apagada.
            Pois o viajante reparou, lá mais adiante próximo a uma cerca de taquara seca mal e mal em pé, uns aldeõezinhos descalços e magros e ossudos e arteiros brincando de bandido. Um dos malvadinhos foi escolhido e preso. O tipinho queria fugir, mas o resto do bando não o largava. O preso lutava e gania e tentava morder e tentava chutar. Puxavam-no pelas orelhas, pelas pernas, pelo cabelo, pelo burrinho. Estavam com propósito de fazer uma cirurgia plástica no sorteado.
Então, o estrangeiro embicou para o lado da ferraria. Não convidou o cãozinho, e o guaipeca acordou na hora e se convidou e foi sem cerimônia, e seguiu acostumado o rasto do patrão. Ex-ferraria fechada lacrada, nem ferreiro nem ex-ferreiro. O precisava arrumar alguma coisa da carreta. Desapontado, e voltaram à pracinha desfigurada. Pedras soltas atiradas por ali. Sol gente importante sempre muito quente.
No trajeto entre a ex-ferraria e a pracinha, conheceu a viúva. Coçou o peito total, alisou os pelos avermelhados, os fios de arame farpado do peitoral. A solteira bem mais alta que o carreteiro uns dois palmos e tanto. Cocó no alto da cabeça e calçando tamancos de ex-caroba-branca, o cumprimentou:
- Boas tardes.
- Tardes.
O carreteiro seguiu para o seu acampamento. O cusco, depois de lamber os tamancos da viúva, seguiu atrás no rasto do chefe. A mulher ainda esperou no mesmo lugar mais um instantinho. Ficou olhando fixamente os dois personagens.
Dona daqueles olhos insones passou a língua seca pelos lábios queimados, balançou a cabeça, sacudiu o corpo todo, fez muxoxo e, enfim, meia volta voltou para casa. A viúva passava noites e noites sem pregar os olhos. Talvez mesmo por serem noites muito quentes, os dias muito mormacentos, as noites de poeira e lua e estrelas frias, os dias de céu amarelo, sol índio velho macanudo muito quente e quentíssimo.
Alguns anos sem uma gota sequer de da chuva. A vila já vaporada coberta de poeira vermelha e pedras soltas ao léu. Tudo seco para sempre, sempre. Sol pessoa física entornava diariamente, atrás sempre das nuvens pesadas de terra vermelha, o seu próprio caldo de vulcão.
            A turma de pivetes arteiros às voltas com o ladrãozinho indigitado. Já tinham sacaneado o preso umas tantas horas e tanto. Não bastara. Puxavam o pivete ladrão por uma coleira. Puxavam-no pelo burrinho. Puxavam-no pelas orelhas. O preso não resistia mais, não latia, não miava, não zumbia, não vaiava. O pivetinho, ladrão de fantasia e descoberto por sorte, só obedecia, obedecia. Passeava obrigado com os torturadores por aí, para cima e para baixo, de cá pra lá e de lá pra acolá. Curumins todos deslumbrados, atrevidos, olhos lunáticos, arranhados nas pernas nos braços, cabeças encaroçadas, cabelos sem cor ou da cor da terra vermelha, todos sem camisa, bermuda ou calção vermelho de terra vermelha, sempre dos pés a cabeça vermelhos de poeira vermelha.
A carreta deixada sozinha, apoiada no chão pela haste, derretia com paisagem na brasa. Sol senhor branco. Debaixo do toldo, aberto na frente e atrás, poucas mercadorias para vender ou trocar. A canga deixada no chão. A parelha de mansos e pesados e franqueiros ali deitada respirando com lentidão o ar quente. Os gigantes chacoalhavam as guampudas cabeçorras, preguiçosos e sonolentos. O cusco deitado, língua pendida do lado da boca, tirando ossos especiais de dentro do sonho, esgravatando o chão na ilusão de encontrar alguma coisa para manducar, raízes, insetos, cheirando e mordendo pedras amarelas. O homem sentado no chão com as pernas encolhidas, os joelhos junto ao peito de ferro rebrilhante, os braços abraçando as canelas, o cigarro no canto da boca.
Então, horas depois, o carreteiro se ergueu. O cusco o imitou muito cansado tonto. O homem coçou o peito de pelos aéreos, bateu o tambor peludo do peito, socou o peito com as duas mãos fechadas. Apontou para o armazém, ex-armazém, armazém despovoado abandonado. O cusco o seguiu, o seguia sempre, e sem ser convidado. Sol primo por parte pedalando entre nuvens de poeira. O carreteiro encontrou, encontraram o ex-armazém fechado e abandonado e falido e arruinado. Deram meia volta e foram ao açougue. Encontraram, encontraram o ex-açougue e tudo fechado e pregado e lacrado e caindo aos pedaços.
Poucos metros da carreta, o carreteiro armou uns paus de lenha, preparou um fogo para assar o frio da noite. Já a tarde entrava na boca do lusco-fusco, noite engolia a tarde indefesa, as nuvens pesadas de pó topavam com as primeiras estrelas. O cusco o rodeou esperançoso, lambendo-lhe os calcanhares rachados, perseguindo e cheirando seu rasto na poeira vermelha. Os bois bateram as guampas, sonolentos, hipnotizados pelo calor. O céu escurecia de um jeito confuso. Pedras soltas mil deixadas assim assim por ali. Céu fechado de poeira. Coçou o largo peito povoado de pelos grossos, peito descomunal. As ex-árvores queimadas da pracinha, estorricadas pelo calor, pareciam espetos pretos em direção do cosmo, do infinito.
Não se ouvia um pio, um zumbido, um ronco, uma pancada, o som qualquer de uma presença aérea ou terrestre ou subterrâneo. E pintaram por si uma, duas... todas as estrelas e a lua. Confusas, atrás das nuvens de poeira. Os bois engoliam em seco. A lua, as estrelas, os planetas, as nebulosas, as volutas, as espirais. Olhando bem até disco voador tossiu, pintou, sacudiu, riscou, pirilampou.
O cusquinho lambia uma pedra doce. O capoeirão incendiado pelos meses e meses de verão direto, minado de tucurus podres - lá por trás dos casinholos que se esfarelavam caindo de um lado ou de outro -, o capoeirão escondia fantasmas noturnos, fantasmas às vezes com sombra outras sem sombra, fantasmas que não respondiam nem perguntavam...
Nessa oportunidade reapareceu a viúva. O carreteiro coçou o peito enciclopédico, ilha inteira de rocha vulcânica, quina de navio. Ela vinha de braços cruzados, coque no alto da cabeça, estalando nos calcanhares umas chinelinhas de borracha de dedo, olhando, calmamente reparando. Alta como uma mulher muito alta. Seca e elegante como uma estaca seca retirada de uma ex-escova-de-macaco. O cusco a olhou com apetite com esperança com ilusão de apetite. Os bois ficaram num silêncio cansado e sem mugido e dorminhoco. A mulher parou ali em pé, braços cruzados no peito, olhos insones, lenço de seda floreado no pescoço fino comprido, vestido floreado comprido até o meio das canelas, e como uma visita tímida:
- Boas noites.
- Noites.
A solteira perguntou, queria saber, inquiriu, indagou. E ela cheirou e vasculhou as mercadorias na carreta. Depois, ela se virou para o cusco e o chamou de Totó. O cusco gostou, riu para ela e balançou a cauda, balançou a cauda. Aí, a viúva foi até os bois, não tão perto, e quis saber o nome dos bois, seus nomes, raça, pesos, medidas, procedência e costumes. O carreteiro ali acrocado perto da carreta a bunda mais baixa que os joelhos. A mulher era lenta, calma, era seca em praticamente quase tudo, e também em compensação não tinha bigode.
O carreteiro reparou os olhos mal dormidos da viúva. Coçou o peito de escova de aço, fios de escova de aço. Ele nunca esperava nada de nada de ninguém de nada. Mas a viúva o convidou para chegar em casa. O carreteiro não se encorajou, não se mexeu, não se convenceu, não se animou, não foi. A dupla de bois nem ali, jogada no chão de terra escaldada. O cãozinho procurava lamber os pés da mulher. Ela ainda caiu com os olhos ardentes ardidos sobre a cheirosa montanha peluda do visitante. Queria bem enfrentar aquele paredão escarpado, colar o ouvido na parede, ouvir o tum! tum!... do outro lado. Bater como um inseto na vitrine. A viúva se despediu, braços cruzados sobre o peito, passos por dentro da noite, passos se transferindo, entrando na escuridão, deixando um rastro de teque! teque!... na poeira.
A noite avançou. As estrelas quietas, pálidas, embaçadas, distantes, políticas, irreais, perenes, trêmulas, esquisitas, aéreas, incríveis, encobertas. A lua mudando de lugar, um caco branco de louça, um pedaço de prato, uma colher de sopa de prata. O cusco dormitava sobre as mãos cruzadas, com frio, sonhando deveres de casa. Os plenicórneos quietos, bocarras abertas, sufocados de ar quente. O carreteiro secou a garrafa de branca e a jogou, tlafe!... nas pedras, o cusco deu um pulo nervoso, elétrico:
- Auaaau!...
Aí mesmo, ali e aqui, cá e acolá, a noite parecia um breu puro, sem lados, sem chão, com teto de olhinhos acesos, com cheiro de poeira, despovoada de som, sabor indiscutível de poeira no ar. Os bois não resolviam mais nada. Um mutante correu por ali pelas quebradas, se pressentiu a corrida pela capoeira queimada, escalando montes de pedras, atravessando cercas de taquaras-pocas, imitando perfeitamente rastos de mula-sem-cabeça saci lobisomem...
Pela manhã, o carreteiro encangou os gigantes preguiçosos mal dormidos:
- Muuuu!... Muuuu!...
O carreteiro coçou o largo peito taurino de fios maduros e crespos. Paredão do peito enfeitado de pelos misturados de cores, uns mais longos, etc. Socou o muro rochoso do peito. Subiu na carreta e tocou:
- Uuuupa!...
- Uuuuh!... Uuuuh!...
- Auaaau!...
Sol sujeito raiado de vermelho. A poeira voava em nuvens, procissão de nuvens, assim isso isso o porquê do rei-sol branco com raios vermelhos.
O homem tocou para a ex-ferraria. Pedras soltas perdidas esquecidas por ali. Precisava tratar de uma roda. Queria estar preparado para desistir da vila e atravessar o longo longo terral vermelho e escaldante. Seria uma longuíssima jornada e tanto.
Um repente, o carreteiro estava cercado por todos da vila aldeãos e aldeãs e aldeõezinhos. Que todos saíram de onde. O carreteiro coçou o peito peludo de macaco grande. O cusco se atiçou, se enervou, rosnou, grrrrrr!... Os aldeãos cercaram o carreteiro e os bois e o mascote com olhos carregados de rasgar, amassar, retalhar, partir, bifar, picar, destroncar, quebrar, fatiar, serrar, cortar, embutir.
Os aldeãos lançaram a rede para cima do carreteiro, assim como as aranhas enredam uma mosca para a refeição. O cusco achou ruim, péssimo, horrível, xingou e acoou:
- Auaaau!...
O carreteiro não conseguiu sair da renda, da trama, da rede, da teia, da malha fina. Não conseguiu alcançar e coçar o seu grande e peludo peito bronzeado. Preso pelas orelhas, o cusco tentava morder a canela mais próxima, chupar a barra da calça mais próxima, lamber as correias da sandália franciscana mais próxima. Os bois fecharam os olhos cansados esgotados pesados bovinos. Bois anestesiados pelo calor.  
E os aldeões e as aldeãs e os aldeõezinhos seguraram o carreteiro aí no meio do círculo, da ciranda, cirandar. Um aldeão se destacou com um tacape. Depois, ergueu a madeira de extinta totajuba bem acima da cabeça. E largou o malho na testa do carreteiro. Foram tantos golpes, várias vezes, várias vezes, tantos golpes pesados. O cusco xingava com uivos latidos acoos rosnados. Até que a cabeça do carreteiro finalmente entrou para os ombros. O cusco não se conformou, não se conformava, não podia se conformar, esperneava, tremia, batia o queixo, rilhava os dentes, ganiu:
- Grrrrrr!...
O relógio poeirento parado das horas lentas. Sol irmão grande fogueira amarela por trás das nuvens vermelhas de poeira. Vila despachada para o meio do deserto de terra vermelha. Pedras soltas sem conta por tudo pedregulho. Rua única e poeirenta. O lugar tudo rebocado de poeira vermelha.
E da sua costumeira cadeira de balanço, na varanda coberta de ramos secos de palmeira catolé, a viúva olhava meio cochilando o dia inútil e poeirento da aldeia. Tomou aquele susto ao ver um carreteiro entrando pela única rua de terra e pedrinhas soltas. Vinha o desconhecido lá na sua carreta puxada por dois bois cansados, esgotados, cabisbaixos. Por baixo da carreta se esgueirava um guaipeca tonto e torto e esgoelado. Vinham do lado da manhã muito quente e astro amarelo, amarelo. Sol pessoa rebrilhante demais. E a mulher tomou esse susto e se pôs de pé como um espeto a jato. Pensou sozinha e para dentro de si, engolindo em seco: “Não é possível, mas poderá vir a ser, se já não está sendo.”
Desceu a escadinha torta da varanda, escadinha de três tabuinhas de ex-arco-de-pipa, escadinha poeirenta, e foi até o portão, portãozinho feito de ripas de ex-manacá-açu, portão escangalhado e coberto de poeira vermelha. Ela ficou ali, no meio do verão sem fim e da poeira da rua única, um tempo, mais um tempo e tanto. Pedras soltas incomparáveis número tamanhos pelo chão. Sempre de olho firme sobre o carreteiro, seus bois tontos e seu vira-lata zonzo. Ela mesma de braços cruzados amparando os peitos. Só mais tarde entrou para a casa, para a casa, arrastando os tamancos de ex-peroba-tabuada.
A solteira pensou muito. Inquieta toda vida. Enquanto pensava também se olhou no espelho pendurado na parede do quarto. A mão procurava a babaquinha. Queria muito tomar um banho, se perfumar de rosas ou outras flores, soprar da cara as olheiras insones, se livrar da poeira vermelha, etc. Pegou da escova e se penteou diante do espelho oval. E voltou a se pentear demoradamente em frente do espelho oval da penteadeira. Depois, armou um pericote no alto da nuca. E voltou à varanda, se sentou na cadeira de balanço, se balançou, geeeelim! geeeelim!... cadeira feita de ex-coração-de-boi. Não tirava os olhos e ver o estrangeiro, seus bois, seu cusquinho lá na pracinha acampados. A mulher desejava o carreteiro a apertasse de qualquer jeito, com as mãos, com o peito de couraça, com as mãos cheias de dedos, com o peito em escudo.
Quando o carreteiro se dirigiu à ferraria abandonada, a viúva tomou a decisão de interceptá-lo. Aguardou o momento certo. Aí, pegou e foi mesmo. A garganta secava e foi secando, secou, seca. Ficou nervosa e quis tossir. A garganta queimando. Gosto de poeira, cheiro de poeira. Ela cruzou com o carreteiro bem no meio da rua única e poeirenta:
- Boas tardes.
- Tardes.
- E o moço é ambulante viajante mascate regateiro?
- Compro, troco, vendo. 
A viúva viu o homem coçar o peito peludo de fios encaracolados em molinhas. O cusquinho se enamorou dos tamancos da madame e se enrodilhou ali no chão junto dos pés da mulher. Esta olhava o homem de peito de pedra pedreira peito peludo. Ela olhou o peito do homem e não pôde desenvolver um pensar muito além. Ficou vendida pelo colosso encouraçado. Não pensou muito bem. Fixou somente o peito de sino de bronze. Não conseguiu pensar duas vezes. Não contou até três. E falou qualquer coisa para dizer, dizendo:
- Que negócio que é?
- Livros e gibis e revistas usados ou seminovos, álbuns antigos de figurinhas de times de futebol, antigos álbuns de famílias, bulas de remédios, tevês portáteis, cds antigos, dvds usados, bolachões de vinil, fitas cassete, caixinhas de música com berliques e berloques, tudo usado ou de segunda mão.
- Ãhn!... O moço não tem um romance de 870 páginas ou mais?
- Se tenho.
- Gosto de livros grossos, volumosos, lentos, psicológicos, longos, circulares, pesados, densos, profundos.
A mulher secou o carreteiro com o olhar analítico de um técnico de academia de ginástica aeróbica. O carreteiro fez um sinal com a mão na aba do chapéu e seguiu em direção ao seu acampamento, escoltado pelo cão de estimação, pedras de feitios e soltas e lascadas por aí no chão esturricado, cãozinho mirrado e nervoso e desconfiado.
Então, dali para frente, a viúva suspirou, cruzou os braços no peito e voltou para casa. Poeira poeira cobrindo tudo. Voltou no seu estilo de passos medidos e uniformes e cansados. O pensamento querendo inventar ou achar uma saída para as horas longas, intermináveis, incontáveis, fundas, secas, poeirentas. Pensou na babaquinha já há muito sem um trato um troço um tapa um teto.  
Na varanda descascada da antiga cor azul, a viúva procurou a cadeira, a cadeira. E se sentou na cadeira de balanço, se balançou, geeeelim! geeeelim!... Embalava-se numa ideia de evasão. Os olhos não viam nada, embora voltados para o acampamento do viajante. Esses devaneios cansados lhe davam ainda cansaço maior, alergia nas pernas e nos braços, tremedeira, irritação, inquietação, coceira. Queria o tempo perdido de volta, muitos tempos. Os dentes apertavam e rilhavam, a língua seca e a garganta quente, a boca com gosto de terra. As ordens mais ou menos elétricas dos nervos chegavam às mãos e precisavam ser atritadas, esfregadas, coçadas, descarregadas na babaquinha. Uma ânsia que lhe dava dor na barriga vazia. E a curiosidade abrindo pedaços em branco no seu pensamento, pensamento. E a ideia ia e voltava, cada vez mais se escurecendo, empastelando, enovelando.
Anoitecera. Fora mais nada que as nuvens de poeira engrossando a escuridão. Talvez ainda um e outro ente fantasma pela capoeira seca, fantasmando, escalando o pedregulho, invadindo tucurus desabitados...
Então, a viúva achou melhor ir até o carreteiro. Ainda amarrou um lenço floreado de pescoço. O homem tinha feito um fogo para afastar a friagem da noite. A mulher foi indo e se chegou e se aproximou, já estava lá. Braços cruzados junto aos peitos:
- Boas noites.
- Noites.
- Lugar para um acampamento.
- Hum...  
A viúva foi até a carreta olhar para as mercadorias. O cusquinho veio cheirar seus pés e tamancos, lamber os calcanhares empoeirados. Ela revirou para descobrir um livro grosso, pesado, massudo, pacote, tijolão.
- O moço já leu todos estes livros? Já ouviu todos estes cds? E assistiu todos estes dvds? E colecionou todos estes álbuns com suas figurinhas de futebol?
Assim, a madame se agachou junto ao cãozinho. Chegou perto do cão e só esperou que este lhe abanasse a cauda para acariciá-lo, alisá-lo, adulá-lo. O cachorrinho se jogou no chão com desmaio, balançou a cauda, falou, soprou, quatro pernas para o ar, pediu, pediu. E a mulher o escovou na testa, entre as orelhas. E o sacudiu pelo focinho. E olhou o cusquinho nos olhos. Deu-lhe um abraço. O cãozinho lhe lambeu as mãos, o pescoço, as orelhas, o rosto, o cabelo, o nariz, a boca, etc. Ela lhe deu um beijo na boca. Se beijaram na boca com lambidas. Ele retribuiu com lambida. A mulher entendeu assim:
- Cãozinho manero. Por que não vem comigo pra casa? Por que não vem me fazer companhia?
De surpresa, a viúva se lembrou dos bois. Estes estavam ali quietos, deitados, cansados, dormitando, atrás da sombra da noite. Bois enormes na sombra da noite, fracos de cansaço e preguiça e sono, olhar apagado, cansados de tudo, orelhas caídas, entorpecidos, desativados, desleixados. A viúva queria saber o nome dos elefantes, dos hipopótamos, dos rinocerontes, dos dinossauros:
- Que nomes?
- E é o Bordado e é o Vermelho.
- Hum!... Bordado... Vermelho...
A viúva chegou mais perto dos gigantes. Os bois direcionaram as grandes orelhas. As aspas bonitas e quase altas. E a viúva queria tocá-los nos pelos, talvez sentir-lhes o calor, o cheiro, fazer um agrado nas ancas, tocar nas guampas, tocar nas aspas, tocar nos cornos, tocar nos chifres, tocar nos galhos, tocar nas antenas:
- São sociáveis, esses pés-duros?
- Olha...
A viúva acariciou o Bordado e olhou o Vermelho. Já alisou o Vermelho e admirou o Bordado.
E esse era o ponto, até que enfim, que ela mesma resolveu falar o que viera falar, buscar, negociar, contratar, pedir, trocar, oferecer, permutar. O cãozinho se arrastava no rasto da mulher, sempre nos garrões da solteira, lambendo a borda dos pés secos da viúva. Era mesmo difícil para ela ter essa coragem toda, mas teve, tinha de ter, e falou para os bois - que o carreteiro estava perto ouvindo:
- Tenho uma babaquinha bem sozinha lá de casa. Vem dá uma chinelada na babaquinha lá de casa.
A viúva desabafou assim, mas assim de cabeça baixa, braço esticado sobre o Bordado, olhar solto sobre o Vermelho, acrocada ali mesmo e de saia balão cobrindo as pernas. E se o carreteiro gostasse de flores, a saia era florida. As flores se foram se extinguiram há muito no lugar, então, restou o vestido dela florido, e que o homem podia reparar.
Falada a provocação, ela ergueu os olhos para os quatro do carreteiro. Esperando confirmação. Admirou o homem coçar de pelos fortes o peito de casco de tartaruga. Esperou que o homem e ele demorava numa resposta, num quase longo coçar o baú do peito, o guarda-roupa do peito, a cama quadrada do peito. Aí, ela ainda olhou de soslaio para o meio das colunas arcadas do carreteiro a ver se enfim o burro dele dava um relincho, um sinal, um solavanco, um pinote, uma estocada, um sinal, uma cambalhota. O burro lá dele não deu por nada. De qualquer jeito a viúva tinha que acreditar até o último minuto da prorrogação.
A escuridão se atolou no meio profundo da noite mundial. Uma nuvem inteira de pó vermelho tomava pela vilinha. A nuvem interminável e seus grãos doces de terra amarela. A resposta que a viúva aguardava não veio e cansou e chateou e já demorava demais. E a resposta dele não apareceu. Então, depois de longos tempos, a viúva procurou aperfeiçoar a mesma ideia:
- Levamos um dvd. Levamos um cd de música lenta. Levamos um álbum com fotos antigas de família.
Assim sendo, ou não, a viúva olhou o céu fechado em amarronzado. Olhou tentando ver as estrelas querendo contá-las querendo saber o nome de todas querendo nem olhar para nenhuma. Queria ouvir um som lunar. E procurou adivinhar os planetas e o nome dos planetas e a cor dos planetas e o lugar distante dos planetas e as luas dos planetas. Seriam planetas ou estrelas. Estariam acima ou abaixo. Seriam nuvens de poeira ou pedras preciosas.
O escuro, então, se confundiu se misturou num abraço com a escuridão. A noite se povoou de sacis nos redemoinhos, lobisomens na capoeira seca, mulas-sem-cabeça entre os tucurus abandonados...
Pois aí, dessa vez, a viúva para o carreteiro:
- Meus parabéns.
- Quer levar o livro grosso e pesado e emparedado de letrinhas miúdas?
E sem mais o quê, a viúva foi se retirando. Entrou no escurão, livrão sob a axila, sem olhar para trás, sem olhar para a ponta empoeirada dos tamancos de ex-guaçatumba, gosto de poeira na língua, sem olhar para trás, engolindo em seco, dentes tritando grãos de terra, peque! peque!... o tamanco nos calcanhares, o cachorrinho atrás até ali, lambendo o rasto, cheirando e lambendo as pegadas.
Em casa, diante do espelho oval, os olhos vazios e sombreados, o pensamento desanimado, o pensamento fracassado, o pensamento frustrado, o pensamento desiludido, os gestos lentos, a babaquinha na mão, na mão. O olhar esquecido. As sombras na parede de um tal azul descascado. Os cabelos soltos até pouco abaixo dos ombros. Testa franzida e dor nas costas, nas juntas. Falta de ar puro. Garganta seca. Dois braços, duas medidas, duas pernas, dois dedos, duas entradas, duas saídas.
Depois, depois das horas longas, se conformou para o quê. Olhou da janela lá para a pracinha. A sombra do carreteiro na pouca luz da fogueira. A noite quieta sem um som de qualquer. Mas a babaquinha insone era o pior o mais ruim. Surrando a babaquinha. Os mesmos móveis de antigamente, a parede de um azul depois do azul. As paredes que não falam, as paredes de pau-a-pique, as paredes frouxas, as paredes esburacadas. Uma noite entupida de calor e poeira.  
Passou as horas, a noite toda, uma noite esperneada, três séculos de noites sem pregar os olhos. Levou um tempo desse jeito. Aniquilada e grudada na ideia do carreteiro. Gorila de peito peludão pesando 90kg, 100kg, 120kg, 200kg, quantos e tantos quilos.
No dia seguinte acordou olhando pela janela. Olhos quebradiços. Olhar pisado. Olhando sem paisagem. Olhos empedrados, ardidos, secos, míopes, vidrados. O carreteiro sumira, esvaziara, não estavam mais lá acampados na praça.
Um pouco depois para o sul ouviu os latidos do cãozinho, os xingamentos do totozinho, os desaforos do vira-latinha, os acoos do cusquinho, os ganidos do cachorrinho:
- Auaaau!... Grrrrrr!... Tsouuu!...
A solteira se encaminhou, então, para a única rua e rua poeirenta e rua pedregosa. Sol pessoa esbranquiçada batendo forte, torrando, esturricando. Pedras soltas sem conta de tamanhos pelo chão cinzento.
Ela reparou os aldeões dando um trato no carreteiro. Afundavam-lhe a cabeça com um tacape feito de galho da ex-piá-banheira. A viúva chegou bem perto. Ouviu estalos de ossos. A cabeça do carreteiro enfiada entre os ombros, como se fosse uma tartaruga recolhida. O cãozinho vociferando, arranhando, mordendo, bufando, uivando muito pior que inconformado:
- Aiuuuu!... Aiuuuu!...
Naquele dia os vilões ainda precisaram do dia todo para carnear o carreteiro, os bois, o cusco. Não viram nem o tempo cinza-claro passar. O dia sempre um forno e as horas quentes. Sol indivíduo amarelo guardado de nuvens de poeira vermelha.  
            Os moradores da vila Santa Luzia ficaram estavam carnavalescos. Cegos de apetite, surdos de apetite, mudos de apetite, tontos de apetite, delirantes de apetite, contentes de apetite. E tocaram flautas, gaitas, pratos, reco-recos, panelas, triângulos, frigideiras, trombetas, apitos, trombones, violas, saxofones. Trocavam risadas, safanões, risos, beliscões, tafonés, gargalhadas, sardelinhas, empurrões, socos, gargalhadas, tapas, chutes, piparotes, cascudos.