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sábado, 24 de dezembro de 2011

Adanhamica

            Era uma vez...
            E “era uma vez...” é uma excelente pergunta.
Sempre andando o caminho, atualizando o placar, testando o vigor, melhor compondo a minha forma, temperando a filosofia, desligando a ansiedade, abastecendo a coragem. Que me lembro, é isso.           
            Peguei meu boné, sempre de boné e tudo bem. Quando é calor, bermuda e manga curta; quando é frio, calça de abrigo e blusa de abrigo; quando é chuva, guarda-chuva. O calçado um par de tênis amaciado como se deve usar.
            Nasci totalmente dentro do São Cristóvão. E faço as caminhadas. Estou fazendo ultimamente. O seguinte roteiro. Vou pela avenida Placidina de Araújo, vou pela rua Flores da Cunha com ipês-amarelos; e volto pela avenida Borges de Medeiros de jacarandás-cabiúnas. Essas plantas, na temporada de novembro e dezembro, vivem cheias de flores e atapetam o chão. São as ruas mais incríveis e que vão fora a fora da cidade, praticamente.
E não caminho todos os dias, mas muitos dias no mês e durante todo o ano.            
Naquele dia campeão, pretendia cumprir esse mesmo tema: ir até o centro descendo a Placidina e a Flores e voltar subindo pela Borges, bastantes árvores, etc, casas, lojas, ruas.
            Eu aprecio muito isso e raramente vou à noite. Posso ir na boca da noite, de tardezinho, o sol fraquinho, o sol descendo, o sol no horizonte, o sol com pôr do sol. Prefiro ir sempre pela manhã, quase cedinho.
Aquele dia estava se indo já ali pelas umas dezenove horas. Tudo bem. Pássaros flechando pra cá e pra lá a todo instante, joão-de-barro, coleirinha, cricrió, pomba-de-espelho, arapaçu-de-bico-preto, tico-tico, cochi-de-garganta-branca, pintassilgo. Um gavião-carijó levitando no espaço em branco, brincando na corrente de ar quente.
Energias magnéticas, elétricas, caloríficas, luminosas, ondulatórias, radiantes, hidráulicas, cinéticas, nucleares.
            Não vou caminhar necessariamente para pensar, mas o pensamento vem e às vezes me governa.
            O sol nasce, pelo menos uma vez por dia, quase sempre do mesmo lado no mesmo ponto. Acontece com o sol com a lua. O sol vem e vai, mas não muda, não se muda, mudo.
            Todo mundo sabe disso, mas às vezes se esquece.  
Quando vou pensando, penso em qualquer coisa que me vem à cabeça. Quando não penso em qualquer coisa, penso em pensar qualquer coisa ou me esqueço até de pensar. Ou penso sem saber sem querer muito levemente suavemente placidamente. Pitangueiras cheias de folhas e adornos de pingentes pitanga. Vez ou outra procuro pensar um pensamento invisível e não acho o pensar e não encontro o que pensar e o pensamento me dribla sem eu saber.
O dia marcado, eu descia a Placidina por trás do colégio Onze de Agosto, tarde macia, e um cachorrinho malhado começou a me seguir. O sol em idade de decrescimento. Quando olhei para trás o cãozinho descalço fingiu e não me olhou. Mais um pouco ele passou por mim cheirando o chão de paralelepípedos. Passou por mim, não me olhou, fingiu não me perceber, etc. Seguiu na frente, na minha frente, em frente, a cauda alçada em arco. Parava a cada latão de lixo e ficava farejando, procurando para um lado e outro da rua.   
Eu gosto de pensar enquanto caminho. É bom pensar coisas amenas leves conformes. E sempre se arranja algo para pensar até mesmo sem querer sem precisar sem concluir. A diferença entre uma lesma e um caracol. Prefiro as coisas surrealistas pra pensar. E tem gente que até gosta de caminhar ouvindo música, por quê?, porque não precisa pensar e tem gosto pra tudo.
            O que eu mais gosto, nessas horas de caminhadas, é pensar uma ideia completamente complacente. Complacentemente, que eu digo, é uma ideia fora do meu dia a dia. Por exemplo. Como seria bom e confortável e prático e saudável se eu acertasse na loteria. E faço já uns planos de milionário ricaço. Se eu fosse milionário, voaria sem demora no meu jatinho até São Paulo no estádio Morumbi pra ver o meu time campeão. E pilotaria o meu jatinho particular, junto com mais os amigos e as amigas, e iria dar um bico até o Japão ver meu time ser bicampeão.  
            Vou caminhar sempre que posso. Ultimamente é isso que vem acontecendo. Vou me distraindo, olhando as coisas, e eu olho os prédios de sete andares, os carros de lanterna acesa, um ou outro buzinando e dando adeus, bicicletas, gurias interessantes com muito cabelo até os ombros e franja caída nos olhos, vitrines com livros da moda, cachorrinhos acompanhando senhoras em passeio pela calçada, penca de pessoas paradas frente às vitrines, uma guria de cabelo curto azul, outros entrando para tomar sorvete, estudantes com mochila nas costas e celular no pé do ouvido.
            Saí para a caminhada que gosto que sempre faço sempre que posso. De manga curta e bermuda. A tarde rebentando e se fazendo noite daquele jeito, naquele dia, estava tépida. Tépida? Tépida. A boca da noite campeã estava quente agradável tranquila, muito tépida. Aqui e ali vaga-lumes taxiando entre as moitas de vassoura, são joão, cinzeiro, guamirim-felpudo, carijó, jaguaramuru, maria-pereira.
            Ainda na descida rumo ao centro, Flores da Cunha e tal - os ipês-amarelos nessa hora bem tão amarelos, ou amarelos adivinhados -, não contive minha gulodice e parei e subi no pé da cerejeira-do-mato, ali na beira da calçada, ali sob o foco de luz do poste e para apanhar um punhado de cerejas pretas de tão maduras.
É meio atitude de guri fazer uma coisa dessas, mas como ninguém estava vendo, tudo bem. Não olhei pro lado pra ver e ter certeza se alguém me cuidava. Porém, um passarinho que já estava recolhido ali entre os galhos ficou assustado, confuso, irritado e reclamou. (Um passarinho ou uma coruja ou um morcego, sei lá - não deu pra ver direito, não vi muito bem na hora do tal lusco-fusco -, mas só podia ser). Como piou na língua dele e eu não entendi, deixei ele piar sozinho, guinchar à vontade, bater as asas irritado, rir solito no mais, e continuei minha caminhada.
E fui descendo a rua comendo as frutinhas que muito me vinham na lembrança da infância pelos matos e capoeiras do bairro São Cristóvão e do bairro Retiro. Achei mesmo que o pássaro se riu, gargalhou, achei.
O sol é mecânico. O sol na verdade não para de andar de um lado a outro dentro de casa - deste para aquele outro lado do mundo.  
            Passei em frente à parada de ônibus dos alunos do Aparecida, umas 7h e 32min, dia decrescendo, hora campeã, fui caminhando sossegado, não sou de correr nem fazer o trote, fui caminhando pela calçada, olhando o chão para não escorregar e nem tropeçar e nem atropelar e nem ser atropelado e nem pisar em procedimento de cachorro, passei ali pela parada de ônibus quando uns brincalhões começaram a gasguitar qualquer coisa tipo, assim:
            - Mosquito, mosquito!...
            Nem te ligo!, não é comigo, pensei na hora. E não pensei duas vezes em mim, não pensei em nada, olhei pros postes iluminados que atraíam mariposas engraçadas. Apesar de ter achado exagero, eu nem me voltei para olhar a galerinha vaiar. Por que não vão então pra casa jogar vídeo gueime, hein?! Pensei e não falei, e achei mesmo que era um pensamento desarrazoado e que a vaia não era cabida e nem dirigida a mim.
Continuei caminhando, tranquilo, na minha, subindo o morro, já do outro lado da cidade e passando pela igreja Matriz.  
            Olhei para o alto da igreja. Pois uma curicaca vinha descendo até que pousou com calma no telhado do templo. A ave gigante escolhera descansar ali e ninguém tinha nada com isso. Aterrissou mesmo naquele enfeite em pontas apontando para o céu lá no alto escurecendo e àquela hora. Pousou e ficou olhando. Os braços e mãos nas costas. Como uma bonita e esquisita clave de sol. Um bando de andorinhas, pilotando jatos supersônicos, declarou a guerra.
E continuei andando porque era bom caminhar e a noite estava boa e crescendo campeã. Se encontrasse os meus amigos João e Cade e Rogério poderíamos jogar conversa fora até secar uns chopes com tais porções de batatas-fritas.
Uma copaié subiu sobe desde muito entre a aba da casa verde de olhos azuis e o muro de branco na rua do Basalto. É uma árvore boa de se ver. Ramos para o alto, procurando o espaço, folhas aéreas. Na aparência, ótima de saúde. Autoestima astral astronáutica.  
E fui sempre no meu passo, fazendo a minha caminhada e tal. Os pés avançando pelas lajes da calçada, contando as pedras, um saquinho de plástico “por favor me joga na lixeira”. Um pouco com tensão na batata-doce da perna direita, mas isso me era normal.
            Pela frente do boteco Pirajá, passando na calçada, olhando para dentro só para ver, ouvi o pessoal ali conversando, vi uns tomando traguinho, outros fumando porta pra fora, a tevê ligada na novela, ouvi conversas sobre futebol, sobre o governo pra ruim mais pra péssimo. Fui observando da calçada, passando no meu passo de jabuti sossegado, fui vendo e ouvindo pouca coisa.
            Já sei, ainda tive tempo de pensar andando comigo: esses tipos chegam em casa, esses aloprados, conversam dois minutos com a esposa e os filhos, e a mulher já descobre que assistiram o capítulo da novela, e ela pergunta:
            - Mas onde você estava que assistiu novela?
            - No Pirajá, vendo os melhores lances dos jogos da rodada.
            E antes que me esqueça, foi de dentro do Pirajá que um tipo que ainda não identifiquei até hoje - e se era meu conhecido ou meu meio-conhecido ou meu desconhecido, sei lá! -, gritou pra fora, talvez na minha direção:
            - Mosquito, mosquito!...
            Fiquei intrigado e olhei em volta, olhei para trás... Que será, meu?! Será que é comigo ou estou com mania de perseguição?, pensei. Deixei pra lá, dispensei, desencanei. Podia ser o apelido de alguém. Eu nunca tive apelido de Mosquito.
            No céu uma lua seca, redonda, novidade, plenilúnica, notívaga e platinada. Pulou de repente que até me fascinou. Umas estrelas por trás do mundo, vamos dizer assim. Não tive tempo de contá-las. Não quis arriscar o passo. Alguns carros estacionados em diagonal junto ao meio-fio, as placas de alguns países próximos do planeta Terra, Dois Irmãos, Cotiporã, Vista Alegre do Prata, Erebango, Vila Flores, Barras-PI, Fagundes Varela, Protásio Alves, André da Rocha, São Jorge. O vento soprando calminho nas folhas dos sapuvuçus, e nas palmas da pindobeira.
Uma casa baixa com uma vaca de fibra de vidro parada na varanda. E eu olhar para as árvores me faz bem. Não, não ia chover, talvez amanhã, pensei, só lá por próximo sábado, catapultei. Sempre chove no sábado que é pra alegrar a chuva do fim de semana. Contando cada quadra uma lua exótica e outra quadra. E aquele fim de semana seria...
Levemente pensei telefonar pra Alice e sugerir jantar fora na pizzaria ali em Veranópolis, por exemplo, ou mais pra lá em Caxias do Sul, ou ainda mais longe em Nova Petrópolis, fazia três dias quê.
            Passei em frente de uma loja amarela com a tabuleta explicando no alto da entrada: a Hixcariana, loja cantinho dos bichos de estimação e pets e mascotes. E um cãozinho colorado latiu por dentro do cercadinho de ripinhas pintadas de azul e branco. Me cheirou, me visualizou, me uivou, me olhou com desprezo surpreendente, ergueu o focinho me cheirando e me latiu na língua fácil dele que eu já traduzi na hora, assim:
            - Mosquito, mosquito!...
            Não acreditei, claro. Desde quando cachorro late coisas traduzíveis, legendáveis, dubláveis?! Isso não existe, meu!, pensei.
Continuei subindo o morro pela calçada de cá da Placidina de Araújo. Acontece com a lua com o sol. Os guabijus campeões estavam largando frutinhas pelo chão que era uma barbaridade. Tentei alcançar umas quantas e estavam muito altas e era perigoso escorregar, mas... mas peraí, meu! Me caiu a ficha. Que história foi essa de cachorro latir em português?! Não, não era uma boa hora para ficar imaginando coisas do desenho animado. Não era momento para ter esse tipo de absurdo no meio dos pensamentos. Eu estava surtando, estava sonhando extraordinários, levando o mundo na brincadeira, caminhando com ideias na altura das nuvens, só podia ser. Quase voltei falar com o guaipeca, mas resisti, desconversei, disfarcei e aí pensei... sei lá!
            Na esquina da Júlio de Castilhos com a Presidente Vargas, passando esbaforido pela frente da barbearia Anaiá, o próprio barbeiro seu Aracati me olhava da soleira da porta e me acenava com a mão dele. E ele repetiu um refrão com a voz arrastada igual a dele mesmo, um bordão que vinha me acompanhando e me seguindo pela caminhada não sei desde onde e por quê, alguma coisa que eu ouvia e não assinava, esse estribilho mesmo:
            - Mosquito, mosquito!...
            Mas será que é o pé da cobra, meu! Isso é comigo ou estou piorando?! Onde se viu tamanha viajeira, meu! Eu pensava essas e outras e me questionava. Mas também pensei que a rua é pública e democrática e campeã e qualquer um pode gritar o que quiser.
E quase voltei pedir maiores explicações ao seu Aracati. Olhei para trás e ele havia sumido. Olhei para os lados, olhei as solas dos tênis, olhei para trás outra vez... continuei a caminhada. Hum!... será que era a dengue? Que será esta história de mosquitos, pernilongos, borrachudos, hein?! Não pode ser comigo, pensei, nunca tive esse apelido, repensei!
            Olhei a lua lunática. Agradecer àquela noite como aquela noite. Sem aquela noite a lua não seria necessária, não seria possível, não seria impossível.
            O mundo dá voltas e voltas. O tempo não passa. O rio corre para a foz. Depois, pensando bem, o rio tropeça em algumas cascatas, o vento faz o tempo revoltar arrepiar, o mundo não sai sequer das idas e vindas de um globo giratório.  
            Parei no alto do morro de lá. Ali num degrau da escadinha da Gruta, no Horto. Respirei uns cinco minutos, dez minutos, talvez vinte, respirei, bebi água da garrafinha, olhando a noite com ruídos de noite, carros rodando, tevês nos telejornais, olhando a cidade campeã um pouco do alto. Era legal e eu apreciei e aprendi e me diverti.
            O vento soprava nos caaxiras, marmeladas, sapopemas, angicos, cragoatãs-brancos, paineiras. Noite astronômica. Era outra coisa, outra coisa!    
Tinha até um pinheiro araucária campeão falando com a lua bola de prata. O pinheiro abrira os braços. A lua tirava fotos com o celular. Depois conversaram mais um pouco. O pinheiro não ia embora.
Será que em Aquidabã essa hora da noite, será que lá está chovendo?, pensei. A hora era a mesma, talvez um pouco mais cedo. Aquidabã devia ser legal, Aquidabã supercampeã, continuei pensando. Aquidabã tem um nome bonito. Deve ter uma pracinha chamada praça da Bandeira ou praça Tiradentes ou praça Landell de Moura.
E o ar que se respira e a água que se bebe. Passaram duas potrancas no trote. Uma delas tinha rabo de cavalo, a outra uma faixa de pano branco segurando as crinas. Trotavam num galopar esquipado como duas bonitas azulega e baia.
A praia de Arambaré. Que será que é. Nunca fui, um dia irei. Tem que estar ventando por lá, pensei. Fazendo ondas no mar. Lugar de sorte. Arambaré foi achado.   
E bebi mais um gole de água e me ergui e vim embora. Tudo estava bem. Queria pensar algumas coisas. Fui pensando o que pensar. Se a ideia não pintasse, paciência. O que fazer nas férias de janeiro: pescar na beira do rio Sabia, acampar na beira do rio da Prata, nadar nos remansos do rio Itacaiúnas, remar canoa nas corredeiras do rio Cacondé junto das terras dos oro-uins. Já eram uns três para quatro quilômetros de caminhada, lua matemática, meia-volta volver. E tudo bem.
            Entrei pela rua Pinheiro Machado e mais adiante pegaria a rua Visconde de Mauá até topar com a avenida Borges. A lua flutuava, chutada pra fora no espaço. Pela altura passei ali em frente do ginásio do União e um camarada de outros futebóis me jogou essa, me cumprimentando, me saudando, me alugando:
            - Mosquito, mosquito!...
            Dessa vez eu estranhei e estranhei o meu amigo. Quando se viu, meu! Parece noite de mosquito e mosquitos! Mas pera aí!... E comecei a reparar que não eram só mariposas pelo espaço. Havia mais que isso. Talvez alguns besouros, zumbidos e outros insetos campeões. É, podia ser!
            Pensei telefonar pra Alice e convidar até uma pizzaria em Nova Bassano, por exemplo, ou mais longe até Vila Maria, quem sabe lá por Santo Antônio do Planalto, três dias quê, é muito.
            A lua parada no meio da estratosfera. A lua com a cara e cheia de pontos alternados alternativos. A lua nasce de uma árvore, de uma cidade, de um sétimo andar, de um açude, e depende.
            No fundo da panela, no centro da cidade, e subindo para São Cristóvão, antes Sagrada Família, a loja Manaí: calças, camisas, etc, calçados, e com moças ajeitadas em uniforme verde segurando a porta de vidro. Algumas pessoas sentadas na varanda tomando chimarrão. Subir todos os santos ajudam. E eu estava ali pra isso.
            Dali mesmo olhando o alto, se via o céu lá pro fundo contado de estrelas Marias. O Cruzeiro do Sul voando na constelação. Céu campeão cumprindo ordens.  
            Por perto da casa do tio e tia e primas - que eu não ia entrar pra tomar um mate e bater um papo, deixaria pra uma outra vez, quem sabe -, por ali nessa altura, uns carinhas que desciam na contramão, e eram uns quatro, um deles me olhou riu e disse, uma velha canção da moda, só podia ser:
            - Mosquito, mosquito!...
            Passei por eles, eles quatro passaram por mim, eu parei, foram indo, esperei tomarem uma distância, e xinguei cobras e lagartos com arame farpado. Em voz baixa, claro. Chegando a uma única conclusão possível:
            - Me deram apelido de Mosquito e eu nem imagino. É, é isso mesmo. Ou sei lá, meu!
            Me sentia já com certo cansaço e meio requentado pelo corpo inteiro. A caminhada fora de uns três quatro mais a volta de uns três quatro quilômetros. O normal o de sempre, mas cansa, cansou. Tudo bem, era isso mesmo. Obrigado.
            Olhei a padaria Itaguari. A padaria com vitrines rebrilhando, e motivos natalinos, heras imitando plástico, pinheirinho imitando plástico, nuvens imitando algodão, bonequinhos imitando família de Belém do Pará. E pensei entrar por que não entrar. Um pão de queijo, um pastel de queijo, uma fatia de bolo de chocolate, uma fatia de torta de chocolate, um suco de açaí, um suco de caju. Parei no vidro como um inseto. Fiquei trocando sabores entre um bolo de laranja e um bolo de pequi. Pensei, calculei oito ao quadrado, muito, assaz, bastante, foram três voltas ao mundo pensando. Me sugeri entrar e comer uma massa-folhada. E decidi mesmo passar vontade e seguir adiante embora. Oxalá! Parabéns! Queria comer qualquer coisa doce porque estava em fase de crescimento. Paciência.
            O cãozinho cheirando pela beira da rua. Meio de lado no trote das quatro pernas. Me apareceu ali na entrada dos postos de gasolina. Olhou para o latão frente do hotel e continuou pela rua, pelo meio-fio. Era o mesmo vira-latinha de manchas pretas e brancas, cauda aérea em arco, língua pendente, orelhas grandes, língua de fora, etc.  
            Passei por baixo dos araçás da calçada perto de casa, na calçada de casa, abri o portãozinho e tal. E cheguei em casa, e fui subindo a escadaria, abri a porta, o quarto, o cômodo, a peça, e fui direto tomar meu banho, e me olhei no espelho de passagem... mas... peraí, meu!...
            - Mosquito, mosquito!...
Foi o que gritei comigo mesmo ali no meio do espelho que me devolvia:
 - Mosquito, mosquito!...
E mais mosquitos. O boné... Não, não era possível, meu! Não tinha acontecido comigo! Meu boné estava sujo de procedimento de passarinho, cara! E um enxame de mosquitos rodeava, acompanhava, talvez de onde, seguia desde sempre, a caminhada toda... uma sujeirinha branca rodeada de mosquitos.
Pensei, repensei onde poderia ter sido o incidente... Só pode ter acontecido na hora que fui roubar cerejas da cerejeira-do-mato, pensei. E o passarinho ou coruja ou morcego, dono do pedaço, acabou se vingando e me sujando, só pode, pensei. Aquela risada ainda ressoava nos meus ouvidos. E o aladinho tinha feito procedimento no meu boné, etc. E a sujeirinha atraíra os insetos e os danadinhos ficaram me acompanhando o itinerário todo da caminhada. E o pessoal da rua tentando me alertar:
- Mosquito, mosquito!...
            Que pena! Que sorte! Que mico! Que nada! Que mala!