O Arcaz
O tempo o mundo o movimento o sorteio: são entes irmãos quadrigêmeos que sempre existiram no mundo.
Entes singulares. Prontos para qualquer coisa. E pedem pedem muito.
E os dias se sucederam, mais as noites, em par ou ímpar. Alarido de gralhas-do-pantanal.
Os entes irmãos todos juntos ou soltos tudo podem, tudo podem.
É pra ser assim.
E bem dispostos, dispostos, procuravam um assunto forte para conversar. Comiam algum tipo de cogumelo. Vestiam cores gigantes de azul em verde do vermelho no amarelo.
A paisagem sempre ali.
O tempo falou para os irmãos - pronto para encolher a perninha direita e esconder a cabeça debaixo da asa esquerda -, admitiu, ronronou:
- Acho que vou dormir.
De vez para vez - e se virando de cabeça para baixo, plantando bananeira -, o mundo concordou, e disse numa questão:
- Mais alguma coisa?
O movimento cochilou. Pescou. Cabeceou. Seguiu os passos.
O sorteio franziu a testa. Baixou a aba do boné. Tinha muito e tudo por fazer.
E o sol nasceu exato para mostrar como os milagres se fazem milagres todos os dias e bem feitos. E isto é bem mais provável.
A ave anambé-uma voou pousou aterrissou até ali na fava-de-três-folhas, e riu de qualquer coisa engraçada e piou:
- A árvore é minha!
Daí a dias.
Passagem estreita sinuosa acidentada, o rio Obim tropeça aqui e ali e cai, uma vez ou outra vez, em degrau, e altos degraus. Arapoca-branca, paricá-da-terra-firme, tanheiro, sobro, cairuçu-do-brejo, espinilho, plantas de sorriso tonto.
Já em mais ou menos dias a situação se definia, definia.
Quatro da tarde, como um quadrado ambulante, os quatro saíram juntos a caminhar. Todos olhando ao redor. Um procurou admitir o que o outro imaginara.
O dia era aberto, a tarde era agradável na sombra do tamboril-da-mata florido, o canto do neinei, bicicletas de gurias em cabelos ao vento pela calçada com algazarra gigante.
Os entes são imateriais os dias longos os dias cumpridos.
O mundo experimentou assobiar uma canção comum típica do guaracava-cinzento. O movimento colecionou pedras soltas de arredores de Sítio do Mato. O sorteio fez brincadeira de pular no rio Gargaú. O tempo copiou uma folha de centáurea-do-brasil.
Quem mais rápido?
Lá pra cima, lá pra cima tudo azul, mais azul que qualquer coisa mais azul. Lá por cima tudo aquilo por fora e por dentro.
O mundo nada perde, não perde alguma coisa, entende.
O sorteio escolhe cantar o que todos e todas merecem ouvir.
Todos os quatro habitam igual ou trabalham igual. São assim mesmo. São indestrutíveis.
O movimento é muito exigente e grandessíssimo.
O tempo tem pensamentos longe, fechando a tarde.
Entes moços demais, comem demais, bebem demais, idade correta demais. Uma feita tiraram férias para o alto rio Purus, Boca do Acre.
São os quatro entes livres. Sempre aonde um vai os quatro estão. Quarteto intergaláctico.
O que se pode dizer?
A lua apareceu e começou a seguir as horas da noite os grilos os morcegos os pios dos caburés-ferrugem, entre outros. A lua deslizando na parede estelar.
Um dia como outro qualquer, pela manhã, todo o ambiente esperou o sol e ele não apareceu. Assim, choveu desde cedo e o dia chuvoso. A chuva lá pelas tantas em vez de parar engrossou. Chove agora com tudo.
Nasceram flores de orquídeas e de bromélias de todas as cores e as abelhas e zangões e vespas não saíram mais do ambiente, os louva-a-deus, os escaravelhos, as formigas, as borboletas, as abelhas gostaram muito.
E as eras com os quatro entes irmãos inseparáveis - e que persistiram muito perto um do outro brincando juntos e namorando juntos as mesmas gurias juntas, habitaram o mesmo cômodo da itaquatiara (pedra pintada) -, as eras tantas praticamente se colocaram lado a lado uma a par da outra.
Foram eras, que bonitas e estranhas quando se viu, próximas aos quatro irmãos sempre juntos.
O movimento pintou as pedras da lapa com tinta de jenipapo. O sorteio contou as folhas da corticeira. O tempo aprendeu a ler de trás para a frente de cabeça pra baixo. O mundo trocou o dia pela noite.
O sorteio procura estar em por tudo e sabendo enigmas segredos mistérios. O mundo coberto de azul-ferrete longe. O movimento se deixa abalar por nada, por onde. Um momento depois, o tempo desparafusa:
- Difícil esquecer.
Árvores com os cabelos esportivos ao vento ao vento, pássaros com as pontas das asas às costas, com as pontas das asas nos bolsos das calças, com as pontas das asas nos bolsos do casaco, com as pontas das asas cruzadas sobre o peito. As cigarras melhorando as reticências de som no mormaço do meio-dia, sol amarelo-pequi, árvores sem sombra.
O lagarto-de-papo-amarelo correu durante o pedregulho e disse, mostrando a língua:
- A pedra é minha!
Conversavam tranquilos os entes, e tanto sem mudar de assunto. Nada era secreto para ninguém. São transparentes.
Daí, noite velha, as onças-pintadas grunhiram roncaram bufaram urraram que os pais do quarteto foram sumidos do mapa.
Aqui as eras se separam um pouco, se distinguem. A partir. Há uma abertura nos conformes. Há separação de quatro interesses. A coisa muda de lugar de figura de modo de sistema de conversa. Tudo balança. Um M de mão na encruzilhada das linhas da mão.
Os entes já não são os mesmos de outras eras e eras paralelas passadas. Os irmãos desconversam. Evoluem.
Quando os irmãos se encontraram de novo outra vez se viram de novo, perceberam que tinham muito, que tinham mudado. E todos falaram ao mesmo tempo. Mudaram para fundar quatro impérios distintos. Beberam cervejas comendo queijo de Minas. Separando a laranja em quatro gomos suculentos.
Mudaram para dentro para fora?
E os quatro entes negociaram pela herança do país dos pais e se dissolveram pelos quadrantes, se extraviaram bem para os lados cardeais, os quatro ventos principais.
E por aí foi.
Tudo completamente mudado as novas eras seguindo depois. Eras cheirando a novo em folha.
Os entes irmãos separados autônomos, era uma era a ser inaugurada, mas atuando separados. Cada um com seu problema. Era após era.
Era possível redescobrir?
E se passaram centenas de anos rios ventos continentes.
O rio Uruçuí-Preto borbotou para o alto da montanha de pedras. O rio milagre, o rio certo, o rio bom. O rio não muda, e mudo, e surdo, e cego como as formigas.
Tarde clara ao ar livre, gritaria de suiriris-cavaleiros nas aroeiras. Clara tarde ao cair livre.
Choveu muito, várias vezes, chovia na janela da begônia-sempre-florida, chovia na janela da vassourinha, chovia na janela do ananás. Convincente contente sorriso na mão, o cipoaba escalava pelos braços da maria-preta.
Passaram-se semanas, hora a hora, dia a dia, de par em par, longo em longo espaço, shopping às 11h de segunda-feira, número a número, cestos e cestos de cajus maduros, de um lado e de outro, e sem mais nem menos.
Aconteceu a pirajá. Nasceu o rio Correntes. Apareceu a perdiz do lado do perdigão. Voou já o gavião-real. Dormiram de dia e caçaram à noite, uiraçabas nos ombros, o jaguaretê a jaguaretê. Brotou o crautá. Brincou o quati. Murmurou o pé de ubiratã. O elétrico e metálico guanumbi. Ouriço-preto roeu coquinhos de pupunharana. Atas carregaram recorde de recortes de folhas verdes da porangaba. Grasnaram as gralhas-do-mato nos pajaús. Explicando sentimentos, o saí-açu-azul cantou trinou alegrou no pé de canela-sassafrás - esta planta com a copa já coada pela luz do novo dia que vinha nascendo ao fundo ao distante ao horizonte.
As folhas verdes do cajuí ventilam o ar no vento que passa. Dia rápido e importante. Aves medindo horizonte a horizonte com a ponta das asas.
Pajé Irara da nação guajá falou em anhangás.
Assim mesmo corria, já volumando progressivamente, já satisfeito risonho, já incontido espumoso, já rolando com as pedras, o rio Jaibaras.
Se plantou, na subida do morro, a cidade (passarada) de Aratuba. Se plantou, no meio do vale, a cidade de Araçuaí. Se plantou, no belo dia otimista, a cidade de Espera Feliz. Se plantou, do lado bom do sol preguiçoso, a cidade de Guaraciaba.
Não chovia não fazia calor. Manhã sol azul do espaço. Nuvens de abacaxis.
Se plantou, descendo o morro pelo lado sul, o rio das Contas. Se plantou, para brotar nas pedras lisas, o rio Urucuia. Se plantou, no planalto alto de clima ameno, o pico dos Marins e perto de Piquete. Se plantou, na região dos papagaios-de-cabeça-laranja, a serra do Japi. Se plantou, no meio do sertão típico das flores-de-quaresma, a cidade de Aquirás.
E isso ainda é muito é tudo é ninguém é nada.
Então, como história que o pajé Irara Guajá contou, esta maranduba:
- Cambacica recebeu uma arca de presente de prêmio de brinde de oferta. Esperadamente? Feita de madeira de jipoúba. Cheia de conteúdo pesando e soando lá dentro. Não quis abrir ali na hora de imediato e ver de repente o que continha dentro o conteúdo. Pensou. Não quis. Caminhou até ali durante o cômodo. Não queria saber o guardado da arca? Se debruçou na janela olhando um tanto da sua interessante cidade de Catuji - lugar ótimo de morar e excelente de visitar. E decidiu deixar o assim o baú ainda embrulhado no papel enfeitado decorado e com fita vermelha amarrada em laço, e correr contar mostrar exibir o conteúdo primeiro e com em companhia da prima Enxuí.
“O quaraci já nasceu. O saixê atravessou na igara das nove horas o rio Guaporé - este que nasce na chapada dos Parecis. A família do sagui-amarelo cruzou no maracatim o tal rio Truçu - este que banha a terra formidável dos mariatés. Os rios são lugares dos caminhos e senhores dos caminhos e guias dos caminhos. E rio Beberibe e rio Capibaribe e rio Capibaribe Mirim.
“E Cambacica subiu morros e desceu morros com a arca nos ombros nas costas nos braços na cabeça setenta para oitenta quilos. O quaraci mágico de dezembro a março subia em arco contínuo para o alto azul de sempre. Um quaraci antes do céu.
“E a prima Enxuí morava a vinte e dois quilômetros lá para o alto do morro do Taió, em Santa Terezinha. Lugar este muito afastado de Palma Sola. Lugares estes muito afastados de Vila Nova dos Martírios.
“A uma e uma iam e vinham as horas dos dias das noites. Ora quaraci ora jaci.
“E começou a chover. A chuva batia com o vento na janela da barba-de-lagoa. A chuva esbatia na janela da unha-de-vaca.
“E se entendia o que se falava grunhia gania miava ululava. As árvores sussurravam. As aves murmuravam. Os insetos titilavam. O cavalo fouveiro - vestido na moda, vestido a passeio, vestido conforme -, trocava orelhas, batia quatro patas, soprava hálito milho verde.
“A resistência física de um rio passa pela geografia.
“Não obstante, Cambacica escolheu o seu caminho com seu passo de gente remoçada. Colhia e comia mungubas das mungubeiras da beira da estrada. Quando subia morro parava e olhava para trás, olhava admirando a paisagem que deixava. Depois, instantes, concordava com tudo e ia em frente, deixava para trás, perneava com otimismo. Existem mil caminhos e duas mil e quinhentas caminhadas. E nunca a puranga, nem mesmo, nunca a guria antes uma fruta ou outra fruta lhe soubera tão bem.
“A guria caminhava por planalto médio, estrada de terra vermelha, cerca de arame farpado dos dois lados, estrada poeirenta no meio, sinuosa como nunca se viu, pipiras-pretas assobiando pios engraçados nos pés de tarumã-de-espinho.
“O rio embarcou o seu próprio roteiro.
“Pelo rumo, pela picada, pela trilha, Cambacica foi brincando, distraindo, reparando, descansando, cantando, assobiando, carregando, parando, descascando castanhas-do-pará, imitando palhaçadas dos passarinhos, trocando murmúrios com as copaíbas-marimaris. Já na bacia do rio Verde Grande. Guria leve entre 18 e 19 anos, jovial linda como sempre, toda empinada, idade correta, muque, cabelos vermelhos esquentando o ambiente, pescoço liso, motivada, braços cheios, lábios grossos, nariz de pedra afilada, sorriso rio Cassiporé, cabelo estrondoso. Enxuta fina dura seca palmeira catolé. Dentes verão nos dentes, quadril estreito e conforme, olhos de Balneário Gaivota. Chapéu de palha trançada de ouricuri e amarrado no queixo com fita verde. Tinha a consciência limpa e tranquila e verde e otimista. Descansava a arca no chão e corria atrás das borboletas azuis, toda tom galante, verde-amarelas, vermelhas, laranjadas com pintas pretas, roxas, numeradas, camufladas, tamanhos, esvoaçantes, etc.
“Uma hora da tarde de vinte e um, pela Vila Bela da Santíssima Trindade (cidade com mais nome do país), parou para comer o prato típico. E visitar as paredes. Um e outro caneleiro-preto trinando alerta. Todos num dia de quinta-feira e de quaraci forte.
“Cantou o sanã-de-cabeça-castanha bem no alto da copa da cuaxinguba. Flautou o trombeteiro no meio da saguaraji. Maracanãs-de-colar almoçavam entre as palmas da barriguda. Quero-quero cheirou chuva. Sapo-da-areia cheirou chuva. Surucuá-de-barriga-vermelha viu chuva. Juá-mirim tomou chuva.
“E cidades passaram por Cambacica, e a guria passou por elas seguindo o rio.
“A guria olhou e viu as árvores e seus frutos, seus ouvidos viram os pássaros de todos os assobios, seu nariz viu as fragrâncias das bromélias, sua pele viu o riso do rio Tererê. Assim estavam todos melhor assim.
“Rio por perdido, rio por achado. Rio por perto, rio por limite, rio por natureza. Rio abençoado.
A Cambacica riu igual junto e dizia, entre risos:
- Eu rio por dentro, rio por fora.
“Por ali um passo, por lá um cruzo, por aquele um atalho. Ela subiu coxilha, desceu coxilha, passou um boqueirão e chegou a uma canhada. Cidade de Alegre, cidade de Bandeira e rio Iraí. Cabelos de franja nos olhos, etc, cabelo formidável, cabelo amarrado com rabo de cavalo. Parou para olhar o tucano-de-bico-preto, escutou o gorjeio do tiziu, trocou pipios com o fruxu, bateu ferrinhos com o ferreirinho, grasnou com a narceja-de-bico-torto, tagarelou com o frango-d’água-azul, estalou língua com maitaca-verde, cascalhou uma risada embandeirada com o joão-pintado. Beija-flor borboleteou, borboletas beijocavam.
“Então, voando nas asas dos pés, Cambacica passou pela localidade de Jandira, na sombra do maciço de Baturité, nos saltos das águas do rio Pacoti. E, muito boa mesmo, a cidade crescia à margem direita à sombra da beira do rio.
“A luz toda do quaraci caminhava pressa pelo fundo do mar para acordar o dia de radiante. Grande é a floresta, ligeiro é o rio, flutuante o espaço, paciente a montanha de pedras. E o quaraci dentro clareou no começo do dia. Tinhorões arriscaram um tom verde, tangarás-falsos renasceram de bom humor. Um azul compromisso, um azul volátil, um azul missão-cumprida, um azul interpretativo. Antes da serra da Mantiqueira as tais de Rio Claro, Rio Bonito, Rio das Ostras, Rio das Flores, depois atrás da serra da Mantiqueira as tais de Riqueza, Capela, Mafra, Canhoba. Tudo reverberava, areia quente e trescalante.
“Mas, por que não se sabe. Os bichos que viajam e o que falta aos animais.
“Cambacica passou umas horas do dia imaginando como seria esportivo se fosse perambular por Curitiba. Girou essa ilusão essa viagem em torno do pensamento imaginoso. A ideia ia e vinha com escalas em Londrina, Cascavel, Apucarana, Foz do Iguaçu. Se acostumou. Buscou, trouxe, aproximou outras cidades, Maringá, Nova Prata do Iguaçu, Loanda, Guaraqueçaba.
“A resistência original de uma cidade passa pela história.
“Uma tarde de sábado, baú de chumbo arrastado, perto do rio Munim, longe um pouco da cidade Novo Triunfo, Cambacica deu em “atenção e cuidado” e virou uma capivara. Olhou para os lados e saiu de fininho e ligeirinho e grunhindo. Foi se resolver no meio do maricazal. Os dias e as noites comendo frutas caídas dos coqueiros. Cresceu bem, o pelo brilhante, as orelhas pequenas, grunhindo beatífica, as pernas curtas e fortes, praticamente sem cauda aparente, etc.
“No ano da graça de 2008, depois de quinze anos vivendo no mato como capivara, nadando nas piscinas do rio Pedreira, a tipa voltou a ser gente outra vez. A guria olhou as mãos, olhou os pés, olhou os braços, olhou o cabelo comprido de anos e anos sem pentear, reconheceu a pessoa dela mesma no espelho do açude, se admirou do cabelo espetado, olhou as unhas compridas e achou tudo tão bom.
“Depois a mesma guria seguiu, depois passou umas horas, depois prosseguiu, arca no ombro de cá, e mais logo reparou espantada nos besouros que esvoaçavam em tudo em torno ao redor. Árvores magníficas e brilhantes ao tomando banho de quaraci, cambará, cravo-do-campo, erva-mate, cravo-do-mato, carqueja-amargosa, mairá, cambroé, andiroba, caubi, macaíba, camacã, murtinha, manjerona-do-campo e muitas muitas guassatongas. Rio Anil banhava displicente a localidade de Ponto Belo. A luz nova do dia, a mata à luz nova do dia, etc. Frutificavam as goiabeiras-do-campo. Nidificava a cerejeira-da-terra. Recendiam amarelo os butiás-da-serra. Avencas se faziam confidências. Tinteiras-dos-mangais abraçadas se despediam pressurosas.
“Cambacica - monumento que salta à vista, e corpo estofado liso, sacudida -, confessava o motivo conforme o prometido.
“O rio deixa rasto por onde existe.
“Estava calor, estava claro. A guria desceu até o rio Chopim. Molhou molhou as partes interessadas alcançáveis. Bebeu um pouco com as mãos. Molhou atrás o pescoço, os braços, lavou a cara, sentou na pedra, passou a mão molhada nos cabelos soberbos em penteado Recife.
“Não obstante, começou a cair uma chuva de verão, passageira, temperamental, abundante, extrovertida, e Cambacica se abrigou sob uma árvore gigante, uma canela-capitão-mor.
“Os raios estouraram contra o céu e Cambacica olhou o céu todo estriado bonito trincado chicoteado riscado rabiscado rasurado. Quando mais, desceu uma noite em pleno dia das onze horas. Em um milionésimo de segundo, um raio-relâmpago estourou com a copa da árvore gigante. Foi o bastante. O golpe de explosão e raio foi fez o chão tremer os ventos assobiarem o céu ao contrário o ar parar no espaço. E o raio destruiu sem nenhum aviso sem nenhum compromisso. Com a pressão, a árvore estourou cheia de faíscas, e Cambacica foi jogada também para o alto a uma distância e caiu ao solo e já com os cabelos em pé ouriçados alçados enfeitados de folhas caídas. Começou a chover como ninguém.
“Mas amorosamente, mas toda acintosa, mas se achando - mais gostosa do que nunca se achando -, e duas horas em após, a cunhantã retomou o caminhar o passo solto e a jornada. Chuva exitosa já-já passara. A guria - carne pouco ampla distribuída rija -, olhou o céu também se renovando, tauató-pintado espiando o ambiente, e daí. Ela olhava sem cansar de ver, cabelos pretos bem negros explosão de negro, etc. Já muita luz, muito dia, muito espaço, muito calor, pouco mais de cores variadas.
“Rio Maracapi, rio abaixo, rio construiu umas casas triangulares de vidro concreto ferro gesso madeira fibra de vidro cimento com janelas triangulares com porta triangular.
“E Cambacica adquiriu um carreto de puxar para carregar a canastra. Como uma mendiga andarilha. E descia um morro anônimo pela altura da BR-101. Era tudo lento em relação aos carros automóveis caminhões motos bicicletas ônibus autos. Estava ainda na subida do morro sem nome e vendo muitos pés plantados de criúva criúva criúva xaxim criúva. Longe distante afastada uma lenda da cidade de Porto Velho, por exemplo.
“Para falar tudo, a guria virou uma maria-de-olho-claro e foi cantar no galho do sorocó. Ficou por aí uns dias procurando namorado para trocar figurinhas. Namorou uma semana foi acaso escolher entre três quatro pretendentes. Nidificou nos ramos ali mesmo do sorocó, num canto longe do vento, afastado da chuva, difícil para os predadores. Colheu por ali e por aqui uns grãos umas sementes umas frutas da estação pitangas guamerins sete-capotes milho perdido no acostamento da estrada. Teve três filhotinhos que amamentou até ensiná-los a voar uma semana de existência de sorte.
“De repente, tudo mudou do dia para a noite. E maria-de-olho-claro já não sabia mais cantar gorjear pipiar e nem voar sobre tudo. Aterrissou na sombra de um tucum-do-campo. Se despediu das asas e caminhou para frente. Tinha morros e coxilhas para ultrapassar no seu passo de guria determinada, arca na cabeça, pedra na cabeça, chapéu pintado de amarelo feito de palha trançada de babaçu na cabeça.
“E Cambacica e Cambacica seguiu seu futuro promissor. Assim por diante. Morou três meses em Delta, rua Presidente Costa e Silva, edifício Jaruva, número tal, vista para o rio Carinhanha. A escolha das esquinas, trevos, encruzilhadas, curvas, entradas, saídas foram acontecendo na vontade do acaso decididas assim na hora. Se deparou com um jacarandá-cabiúna, se olharam, se abraçaram, ela perguntou primeiro:
- É difícil ser peixe?
- Não, não me lembro.
“Os dois olhavam e apontaram a floresta atlântica. Cordia-preta pousava a jandaia-de-testa-vermelha. Socó-boi-escuro voava a amêndoa-de-espinho. Mutum-de-fava divertia a araçandiva. Curaru-das-caatingas embelezava a batuíra-de-coleira.
“E logo um pouco depois, logo depois, essa Cambacica seguiu seu curso normal em fora. Um pouco tonta. Um pouco aliviada. Um pouco mais pra lá do que pra cá. Bem visível. Entre Olindina e Brejetuba. Um pouco bem pisada na altura dos rins sentindo. Um pouco desgrenhada. Cabelo faraônico. Olhos afônicos. Dentes superlativos. No geral uma arquitetura original rápida e excelente.
- Em uma hora, uma hora e meia - me digo - chego lá em casa de Enxuí. Essas mudanças de temperaturas e climas e ambientes não me preocupam, pois.
“Rio Amapari acima construiu um ginásio de esportes, estacionamento, shopping, parque de diversões, jardim muito grande especializado em mirueiras, nhanicas, quinas, aguaís.
“Rapidamente, o quaraci levantou e rapidamente as partes foram se destacando do conjunto e rapidamente os pássaros eram os primeiros pulando da alvorada. As marias-leques em bando.
“O coco-de-espinho carregava um cesto de jabuticabas maduras e doces para vender na feira de Palmeirais. O grão-de-cavalo um cesto de folhas verdes esmeralda direção da escola 11 de Agosto. A pé-vermelho carregava um cesto de pães de queijo feitos em Presidente Médici. A aracuã-de-sobrancelhas um cesto de beijus fritos moda Campo Maior.
“Numa certa altura da jornada impossível. Muito afastada de Tufilândia. A cunhantã sentiu um calafrio umas cócegas um formigamento nos pés que chegou até as mãos subindo dos pés às pontas dos dedos das mãos. Parou e se dobrou em duas à margem do rio Água-Quente. Virou ipê-roxo e floriu na primavera. Esperou mais três quatro meses. Apreciava a paisagem com paciência. Falava sozinha ou com parcimônia. Apreciava a paisagem com as mãos nas cadeiras. Em pé com os braços cruzados, sentada com a perna cruzada.
“Um dia, meses depois, arrancou raízes, continuou a caminhada, sombra móvel, arca no arrasto, já virada outra vez em pessoa contente, gingando o corpo como dançando, se desfez do aparato arbóreo e virou voltou a ser gente bípede e continuou o caminho para a casa da prima Enxuí, uma vez.
“Pronto, a paisagem já tinha mudado. Ajeitou o rabo de cavalo. Ressoavam os sentimentos apaixonados do par de caracoleiros. Os urubus-da-mata buscavam os altos pinheiros-do-paraná. Caurés discutiam o valor da moeda nacional. Esmerilhão escutava prosa alheia e não falava nada. Picaparra conversava com o primo taperuçu-preto. Tempera-viola aprendia sanfona de ouvido.
“O quaraci da banda do planeta. As cigarras existiam no meio do dia. O chão vaporava moqueado. Gavião-de-asa-larga procurando do céu do alto. Nem sombra da sombra-de-vaca. Uma sabiá-coleira existia sim.
“O rio Longá alagou perto da mutamba-preta. Era bonito. Tinha até também um horizonte vindo da margem do lado oeste. Para lá o quaraci ia deitar. E acordar a jaci. Faltava pouco, a cararibá já esticava seu longo e fino perfil pela margem do rio Longá. A cigana foi se deitar. Os vite-vites-uirapurus foram dormir. A corujinha-sapo tomava café da noite.
“Cambacica tinha o ombro marcado, tinha o outro ombro pisado, tinha o ombro dolorido, tinha o outro ombro enfaixado, tinha o ombro mordido, tinha o outro ombro cabisbaixo de tanto pesar a canastra-baú recheada de coisas e feita de piúva-do-campo.
“A guria cunhantã viveu mais três anos como poáia. Viveu encurtou desabou desapareceu sumiu um curto espaço de meses, ressuscitou como garrincha-cinza. Depois, com o passar das primaveras, foi ficando verde, foi esverdeando, e se transformou em camará-de-lixa. Quando finalmente passou o ciclo e voltou a ser guria cunhantã, e se viu, entendeu que tinha passado por um longo processo poáia garrincha-cinza camará-de-lixa.
“Então, quaraci cada vez mais lento, e formidável, mergulhou no crepúsculo, procurando a noite, descendo para os lados do rio das Rãs, achando o pé de cumaru-amarelo, procurando cavernas, destacando pernilongos, lanternando vaga-lumes, transformando morcegos, etc, tomando sopa com jaci.
“O rio sempre passa onde fica a cidade a aldeia.
“Depois de oito nove dias e noites, Cambacica. Após esses caminhos caminhados, lugares conhecidos. Contente com o baú nas costas nas costas. Metade dos dias e noites sem dormir por causa do calor. Depois enfim até que chegou na casa prometida da prima.
“Já havia estado ali de pequena e em outras oportunidades. Reconheceu a rua Jaguaruna esquina com a Pacatuba. Ruas amparadas por alas de mirindibas. Gosto temperado no ar do rio Vila Nova. Nem precisava dizer que ouvia cantar os teque-teques.
“Chegando à casa da prima Enxuí, e Cambacica primeira coisa foi se abraçarem e se trocarem risos se olharem de perto rir uma para outra de bem de perto de bem com o tanto de sorte a cada uma, etc. Assim, tralalaram cada uma suas coisas dos dias:
- E eu chorava de dar risadas.
- E eu deixa te contar.
- E eu nem preciso te dizer.
- E eu perdia a noção das horas e do lugar.
“Mais tarde, Cambacica só então apresentou a arca que viera mostrar desfez o pacote descobriu o segredo mostrou o por dentro declarou o baú aberto abriu a tampa desfez o nó de fita vermelha e declarou seus secretos segredos escancarou o recheio o conteúdo.
“Quando Enxuí viu o interior da canastra, pois aí, teve um choque: dentro uma cobra-coral repartida em medidas precisas e combinadas de cores bem firmes distintas finas bonitas em preto e vermelho.
“A cobra-coral acordou, se mexeu, serpeou, deslizou como suavidade, procurou sintonizar o calor com a língua, coleou pra fora, esticou a língua bivalente, adulta e segura de si, e blasonou:
- Quero um roxo-forte contra a gripe.
“A prima Enxuí ficou tão assim e fora de si e deslumbrada que deu dez passos atrás até encostar as costas na parede e sem conseguir piscar e tirar a mão do queixo caído falando parabéns dando os parabéns olhos bonitos arregalados os cabelos crespos lindos caindo na cara linda uma tarde bonita um dia aberto uma janela aberta para a tarde linda.
“E por aí foi.
“Nove meses após esses episódios parciais, Cambacica deu à luz um lindo bebê guri de nome Marabá que Enxuí foi madrinha nunca as duas parando de rir contentes excitadas. Cambacica olhou a cria que dormia nos braços da tia e afirmou e discursou:
- Marabá terá vai ficar sempre assim para sempre. Marabá terá vai ser de acordo comigo. Marabá terá dentes fortes olhos brilhantes coração a mil cabelo cortado no estilo memória oxigenada, etc. Marabá terá vai ser sempre o primeiro aluno da classe da fila da chamada. Marabá terá uma profissão de medalhista olímpico. Marabá terá dois filhos casal com a Ana Paula. Marabá terá com muitos dinheiros e natais no bolso. Marabá terá me amparará me amará me não largará.
“Ninguém teve dúvidas que o filho era de pai anônimo topônimo onomástico. Nem a própria Cambacica tinha grilos quem era o pai onde era o pai por que era o pai.
“A família de Cambacica internamente oficialmente comemorava os dias comemorativos. A família achou melhor fazer o bem sem olhar a quem e rir para rir mais tarde disso tudo e rir para melhor. Mas acabou o fato do nascimento sendo tratado como magia, milagre, encantamento, deslumbramento, ilusão, comemoração, arte, decoração, paisagem.
“O filho Marabá de Cambacica passou a ser tratado como de nacionalidade patriótica pai divino pai airado pai boto-cinzento pai adotivo pai arcanjo pai de santo pai piloto da aeronáutica pai pajé.”
Os quatro irmãos, cada um a seu modo, cada um no seu retiro, cada qual no seu estilo, cada tal no seu canto do planeta, procuraram o dia o que fazer contando as horas os dias os anos as novíssimas eras coçando o queixo passando a mão no cabelo andando com as mãos nos bolsos andando com as mãos às costas.
Sabiam que eram irmãos, sabiam que tinham irmãos, mas cada um olhava para seu próprio umbigo. Tinham gostos individuais. Tinham gestos próprios. Tinham jeitos profissionais. E tudo parecia que ia sem volta.
O sorteio disse assim, falando alto para o deserto, para as paredes, para o horizonte das caatingas escaldantes, para as pedras fumegantes, para as árvores tortas de folhas pequenas:
- Tem um helicóptero parado ali! Tem um helicóptero para ali! Tem um helicóptero parado ali!...
O tempo inventou a roda. Seu tempo de espera. O tempo tem espinho.
O mundo largo pro gordo e pro magro. Um aquário no abismo entre planetas e estrelas. O mundo é ponte.
O movimento pegou o caminho do meio e foi pela estrada seguindo. Era uma satisfação de se sentir ocupado. E consultava o celular de vez em quando de vez.
Depois da maranduba do pajé Irara Guajá, o novo destino, destino novo, destino outro, destino em frente, destino reservado. Os dias as horas os instantes os rios as cidades. O futuro e os futuros de todos das coisas.
Não tem lá tanta ou quanta mais ou menos explicação. Tentar perguntar mais uma vez?
Volta e meia os irmãos ainda se encontram. Nas férias de fim de ano. A conversa em dia atravessa a madrugada. Quando podem se encontram. Abreciam comer talhadas de abóbora amarela com açúcar. Se encontraram recentemente em Palmeirândia, na beira espetacular do rio Utinga.
Índios e índias guajás brincavam de oca na ocara da taba.
O rio segue o seu rio.
Parecia impossível. A manhã, toda perfeita e misturada, já estava em obras em rebuliço em temporadas em festas em obras individuais e coletivas em matinadas em estações, a manhã toda nova sofisticada verde, novíssima, e todos prevenidos, de novo alvorecer, manhã excelente, ramos de maria-rosa espanando o vento, pixoxó, figuinha-do-mangue, tiê-bicudo, vissiá, corocochó, papa-piri, baiano, golinho, etc, e manhã resplandecente.
O graxaim se ergueu nas patas e cheirou o ar. Depois continuou pelo espaço da capoeira. Farejava tudo muito procurando interessado e presente. Muito satisfeito ainda suspirou. Mais adiante disse de si para si:
- A terra é minha!
Passaram-se semanas, vai e vem como ninguém, gole por gole, de parte a parte, dá cá aquela palha, isso vai ou não vai, duas a duas e três a três, a pouco e pouco, tintim por tintim, houvesse o que houvesse, pé ante pé, val valado valo valeta, dito por não dito.
E por aí vai.
O tempo - ente com molas nos pés -, o tempo anda sossegado os dias todos. Aparentemente sossegado? Veraneou nas praias claras do rio Inhambupe. Foi ali e voltou para lá mil vezes e de mãos nos bolsos e de mãos às costas e de braços cruzados e de chapéu de palha de licuri um pouco pendido do lado na cabeça. Trocando os canais no controle remoto. O tempo é tudo que é.
O mundo - ente que dorme rio abaixo rio acima -, o mundo rodou no máximo próximo o próprio eixo. Foi habitar uma constelação desenhada para este seu propósito. O mundo é tudo que é.
O movimento - ente artista plástico que estudou no estrangeiro cinco anos com bolsa do governo -, o movimento fez uma casa de pedra perto de um lago de água doce e cristalina na cidade de Retirolândia. Cuidou de uma taipa colhendo pedras soltas pelo campo aberto. O movimento é tudo que é.
O sorteio - ente que anda de barco e de trem e de bicicleta e de avião e de ônibus e de a cavalo -, o sorteio virou macela-do-campo virou cais-cais virou joaninha virou peixe de água doce virou saci e continua se virando. Como pode, leva e trás o poder de tudo que há. O sorteio é tudo que é.
O sorteio ficou perdido no meio do recado de um convite importante. O movimento perdeu o chapéu quando na chuva da praia do rio Mamuaba. O tempo consigo mesmo, mas os outros ninguém nem ouviram. O mundo nunca se viu nada igual, caiu em si, pensou, não falou o que pensou.
No dia seguinte e certo e escolhido e abençoado pelos quatro irmãos quadrigêmeos, entes mágicos e folhados a ouro, Cambacica teve um bebê menino três quilos e novecentos gramas com nome de Marabá.