segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Montanha Roraima (juvenil)




            Num país muito iluminado e muito verde, muito distante de nós, claro, e bem muito ao norte do mapa, muito ligado, caminhava um povo de muitos índios ianomâmi entre outros diversos, e que ainda passa por lá. O monte colossal de pedras ou pedreira monumental emparedada num penhasco. Aí se dormia e se acordava, se despertava no dia com tudo no mesmo lugar, tudo bem e ouvindo cantar esticar as vogais semivogais:
            - Oi! - gorjeou mineirinho.
            - Eu! - soprou o piau-da-lagoa.
            - Obrigada! - disse coirana-de-pernambuco.
            - Parabéns! - continuou o quatimundéu.
Uma terra gigante, rios riscando o chão e o solo recoberto plantado de muita floresta, mamoeiros-bravos, amoreira-do-mato, ananás-de-raposa, jaborandis... Ali as noites eram Amazônicas. Os bichos acoavam por qualquer pretexto. Os animais vivos fixavam olhares, trocavam orelhas, conversavam entre si:
- E aí, tudo bem! - gritou o cauanã.
- Vejam isso! - berrou a ema.
- É possível, é normal! - concluiu a jalapa-vermelha.  
Os índios e índias de pé descalço e de pé no chão, fibras de catolé trançadas em saia caindo pela cintura, tatuados com tinta preta ou vermelha, batoques de madeira enfiados nas orelhas, corriam correr o quarup com pesado tronco de buriti no ombro. E faziam festa todo ano por altos motivos. Puçanguara tomava santo-daime para refrescar a cabeça convocar os espíritos subir às nuvens.
País chamado Roraima, país do verde e azul, e dos rios verdejantes e resplandecentes. Nem se sabia qual era o dia melhor. E ninguém prestava atenção em ninguém nem nada. Dia afora colher mel no mato, noite adentro dançar em roda do fogo. O dia todo cheio de coisas, coisinhas, idas viajantes ou passageiras, tudo num dia só, por tudo. Apontando uma ou outra estrela que caía. Xerimbabo sagui-leãozinho animal gestual expressivo:
- E aêee!... E aêee!...
            Ao tranco, sem pressa, quase sempre, a manhã vinha abrindo, devagar e sonolenta, a porta de ouro novo o portal. Umas nuvens acolchoavam, quase todos os dias, dos lados, o sol branco de amarelo crinas fogaréu.
            - Em tal lugar Paranatinga eu fui ver o rio Vermelho - saltou a jaçanã.
            O sol forte o ano todo, cabeleira dourada inacreditável, dentes de ouro, sorriso quente e amarelo, fazia tremer a natureza em geral e principalmente os alados. Muito sol durante o dia, lua e estrelas na noite. Chovia todo santo dia e era bom. Os rios eram muito grandes; muitos rios corriam por ali; muitos rios procuravam o mar. A floresta suava transpirava de todos os verdes e sombras.
            - Pois é assim! - falou a pomba-de-espelho.
            - Mas olhe! - contou o ingaí.
            - Pois tudo! - jurou a saracura-do-mangue.
            - Diga refece, re-fe-ce!... - cantou o caxinguelê.
            Neste país de verdes tinha uma castanheira. A castanheira, árvore mais alta e mais velha, tudo sabia porque era antiga, tudo via porque era mais alta e esgalhada. Era a mãe e o pai das árvores da floresta e da floresta das árvores. Era a rainha da mata. Os braços alcançavam os quatro cantos do planeta, sua sombra chegava até o final do mundo, até o fundo dos oceanos, suas raízes aprofundavam o centro da terra, suas folhas falavam com todos os 4 ventos. Conseguia numa perna só e igual como uma ave quando dorme. Seus pés apoiada andando em pés de pássaro muito forte. Embalada pelas eras que conforme o tempo o clima as estações as chuvas apoiada muito amparada.
            - Isso é uma! - relatou a árvore macaco-patrona.
            - Agora mesmo! - declamou o tracajá.
            - Mesmo a ser! - afirmou a garça-real.
            Lilás, a menina mais doce e lilás do mundo, pegou a bicicleta e saiu de casa para passear pedalar. Um dia imenso de folga e sei lá. Um dia amarelo e anil. Era domingo e o sol latejava de quente. Ela, a bíci e a estrada, a menina totalmente à vontade e solta no mundo os cabelos. A menina foi cedo para chegar no mesmo dia lá do outro lado do mundo, no norte do país, lá no mapa de Roraima da grande soberba floresta tropical. A brisa soltava seus cabelos alargava suas mechas.
            - Eu vou indo! Eu própria preciso tenho que viajar! São 10 e 10 já!
Passou na ida por Porto Alegre, Camaquã, Ribeirão Preto, Brasília, Araçatuba, Mossoró, Natal, Campinas, Teresina, Treviso, Ji-Paraná, Rio Branco... que mais? A ideia principal e final da menina era conhecer a aldeia dos índios kayapó. E era possível. Bom e possível. Ainda hoje.
- Vou tirar selfies alguma coisa de passagem, tá certo?!
            A menina ia pedalando parecida como uma arvorezinha pedalando, mas nem uma árvore exatamente, e sim menina disfarçada de árvore, planta, arbusto, folhas flutuantes, igual caapuã e como por exemplo. Cabelos presos em rabo de cavalo, como ela mesmo mais gostava, e longo trançado às vezes.
            - Me deixe contar uma coisa! Vamos ao que importa!
            O sol queimava a cabeça, o chão de areia feria as meninas dos olhos da guria, quando Lilás pegou definitivamente a estrada federal para Roraima. No caminho viu bandos de aves homônimas, homógrafas, homófonas, e se possível, etc. Piavam almas-de-gato, titicuãs, crocoiós, rabilongas... algumas em bando outras em pares inseparáveis casais casados parelhas.
            Por trás das sombras das sombras e folhas da mata fechada, embora, muitos olhos acompanhavam as pedaladas da menina. Quem olhava? Quem via? Olhos tantos de quem? Muitos olhos. Muitos olhos de cores diferentes. Nem olhe agora!
            - Quem? Mas você está aí, nem está?
            Lilás sempre gostou de pequenos mamíferos felinos. Uma ave era sempre mais rápida que uma preá, que uma cutia, que um jacaré-de-papo-amarelo. A menina sempre adorou aves alados bichos do ar. Sempre adorou todas as espécies de plantas que aparecem nas beiras de igarapés igapós. Peixes no rio e no mar oceano. Borboletas, besouros, abelhas, formigas, libélulas e todos que chamam insetos. Por isso sabia que era muito acaso, muita sorte, muito milagre e, então, muito sol ou lua.
            - Que tenho visto! Que tenho de nome de bicho, meu! Já viu sernambi, hein?!
            O pequenino pintinho de quero-quero andava pisando pela primeira vez a terra vermelha natal onde nasceu. Dava uma corridinha e parava todo atônito e chamando pela mãe pelo pai pela família. Parado, olhava em volta, olhava o rasto. Corridinha e parada. Andava meio querendo entender de tudo de uma vez. Andava até ali e voltava preocupado. Se escondia nas touceiras de barba-de-bode, por exemplo. Olhava tudo de olho redondo inédito. E a mãe dele sempre por perto, toda alerta, toda atenta, toda vigilante, piando e ameaçando os estranhos que podiam ameaçar o filhote o pimpolho.
            A anta levantou a cabeça, estava almoçando pasto de erva-de-anta. A mesma roupa de sempre. A anta perguntou, se é que precisava de pergunta às 8h e 16min:
            - Aonde vai?
            - Vou até o rio Guaporé - disse a Lilás.
            - Eu já sabia! - respondeu a anta.
            - Todos são assim! - concluiu a mesma anta.
            Mais perto das onze horas e sol fácil, a menina encontrou o jegue. O burrinho orelhudo a viu e começou a zurrar, zurrar o quê:
            - Zurro e zurro!... - que queria dizer já traduzido: “vem nem vai!...”
            A Lilás aproveitou para perguntar ao matunguinho:
            - Você nem ouviu dizer do jurupari e aí, lá, acolá, em algum lugar?
            A floresta com muita árvore, corticeira, aroeira, coqueiro, tarumã, nhanduvá, sananduva... descendo ou subindo um morrinho de pedregulho, guaçatumas, arimarus, pinheiros-do-paraná... estes eram mais pros lados de Serra da Saudade e sibipiruna, arataciú, açoita-cavalo, dedaleiras-amarelas, pereiro-amarelo, acapus... confederados também em capão e capoeira.
            - Árvores recobertas de verde e musgo e barbas! Olhe ali um o joão-gomes, em!
            Cada macaco no seu poleiro, cada jabuti na sua pedra predileta, cada lebre na sua toquinha camuflada, cada sapo acocorado na sua folha do aguapé, cada peixe lambari no seu bando cardume e em movimento constante.
            A macaca caiarara, comedora de folhas e flores e frutos, guinchou bem do alto e se balançando pra cá pra lá agitada apressada:
            - Guincho e guincho!... - que queria dizer: “vem nem vai!...”
            A guria parou um instante as pedaladas e perguntou à símia de cara assustada:
            - Você viu o caapora, aí?
            Lá mais adiante, lá pelas tantas, quando a menina já estava por dentro da floresta e fazia um tempão, foi que ela mesma viu uma colossal gigantesca... E parou para olhar. E exclamou se perguntando para si mesma:
            - O que é isso, meu?!
            Ela olhava com a mão em pala sobre os olhos, para o sol nem atrapalhar os olhos, para a luz forte do sol nem queimar a cor dos olhos. Ela mesma se respondeu:
            - É uma baita árvore, tá certo!
            Então a menina Lilás chegava ao país de Roraima, no território dos índios krahó. E conhecia de vista, de longe, a grande árvore imensa castanheira, à vista. E somando o sol, os pássaros, a castanheira, a manhã de domingo, o total era uma hora do dia do dia muito bonito e aconchegante. O mundo muito útil.
            - Os sinais!... Os sinais!...
            E continuou pedalando com energia. Já ouvia os índios da tribo tucano tocando urucá dançando o ticumbi. Virou uma curva do caminho de terra vermelha bem entre a floresta. Viu a aldeia dentro de um circulo de terra batida. Pedalando sem pressa e o coração cheio de alegria. O sorriso estampado de contente. Os cabelos tocando o vento calmo. Entrou pela aldeia dos mauaiana. Muitos indiozinhos e indiazinhas a seguiram, muitos cachorrinhos e macaquinhos e saguizinhos e periquitinhos também os tais e quais mumbavos. A menina finalmente parou a bíci no centro da taba, rindo satisfeita e na emoção. Hora certa e em pontos, 14h e 42min.
            - Agora hoje eu você e todos nós!
            Aí todos correram mais a menina todos para o rio Jaguarão. Se largaram na água de tchibum!... E tomaram banho, e nadaram, e brincaram na água umas horas. Todos gritando muito os risonhos. Rolavam do barranco para dentro da água. Era um outro mundo surreal. Espanavam e espadanavam água uma no outro. Nadavam competindo. Nadavam de comprido. Nadavam o nado livre.
            - E o que tem de bom!
            - Esta é que é!
            - É preciso isso sim!
            O sol nem podia parar nem andava devagar nem tinha interesse, e por que parar? nem reclamar de correr tanto e pra cima pra baixo.
            - Eu vim por Altaneira, é!
            - Onde fica Rosário Oeste, hem?!
            A menina, meia hora depois, pouco mais tarde, já adorava muito toda a tribo caiapó-quicretum e, ao mesmo tempo e do mesmo modo, toda a tribo já a adorava. As mais velhas faziam cauim preparavam nos recipientes cauabas amassavam grãos de milho colorido milho tradicional.
            Lilás conversava animadamente com Janaína. Janaína, adolescente índia de cinco anos mais que Lilás, uns quinze anos, queria andar de bicicleta. Uma aracuã voou por cima de tudo e piando, tiiiiriu!... Lilás e Janaína cunhantã brincaram de andar de bicicleta pela taba inteira, a tarde inteira, o mundo inteiro e outros lugares pares ímpares.
            - Sobre o quê!
            - Quer me ouvir? Me lembro...
            À noite, Janaína cantava perto da beira do rio das águas correntes. De noite cantava e se penteava no barranco do rio. Janaína era muito linda e sabia disso. Os guerreiros da tribo sabiam disso. Às vezes, noite de lua, Janaína conversava com sua mãe fantástica, a dona Iara. De dia Janaína se penteava e se olhava e pegava uma cor nas águas nas praias quase calmas do rio Doce. Depois era janeiro depois era sábado.
            O gavião-pescador, do galho alto da árvore mututi-da-terra-firme, piou, guinchou:
            - Piré!... Piré!...
            Os papagaios-de-cabeça-amarela passaram por cima da aldeia palrando em bando:
            - Arenga!... Arenga!...
            Muitos macacos-prego, comedores de frutas e brotos e raízes e flores, chiaram, gritaram:
            - Guincho!... Guincho!...
            As nhandus engoliam tudo tudo que viam pela frente e achavam muita comida espalhada. Um macaco bugio-ruivo pegou um cipó e despencou mergulhando da árvore. O bem-te-vi-de-três-riscas abriu o bico e bateu as asas. O saracura gritou assim mesmo:
            - Quem-quem?!... Quem-quem?!...
            O rato-do-banhado correu por uma trilha de rato no meio do capim-rabo-de-boi encharcado molhado, apregoando:
            - Cuim-cuim!... Cuim-cuim!...
            Os sapos-aru do alagado respondiam coaxando, com água na boca, com insistência:
            - Ah, é, não é?!...
            Bando de saurás, voando baixo, procurando pouso, ralhava, ralhavam:
            - Quiriri!... Quiriri!...
            Pronto, o dia se encheu de nuvens baixas, estranhas e carregadas de faíscas. Vieram de longe na carona dos ventos mais longos. Os animais todos da floresta ficaram de orelha em pé, de penas arrepiadas, de olhos no céu. Bichinhos de patas escondiam a cara com as patas, bichinhos que voavam pousavam e escondiam a cara com as asas. Todos os índios da aldeia tapimirim olhavam o tempo, olhavam as nuvens, olhavam as árvores se sacudindo, olhavam de olhos parados e em respeito. E a barulheira da tempestade se fez anunciar e começou troando:
            - Tro-vão!!... Tro-vão!!... Tro-vão!!!...
            Sapos e jias nas beiras dos rios e banhados respiravam, estufavam o peito, enchiam o peito e esvaziavam os papos. E coaxavam, entre um e outro suspiro:
            - Tu-ruuu! Tu-ruuu!...
            Desabou uma chuva grossa, pesada e demorada. O toró desabou com relâmpagos e barulhos, estrondos, pancadas, batidas, bumbos e surdos. E pingos de chuva enormes caíram no chão e em toda parte. O céu desabafou, veio abaixo, desmoronou, ruiu, desabou com água e tudo. O vento chegava chegando empurrando bufando.
            - Começaram as horas da chuva!...
            - Quando é que vai parar?!
            - Eu já tenho visto que um dia para uma hora!
            - Daqui a quinze dias!
            O mundo fazia um barulho e uma ventania bem legal de ambiente aberto. O meio do mundo era tomado de barulhos e ventanias que vinham de distâncias distante. Punhados de ventos homônimos, homógrafos, homófonos e outras palavras nomes esquisitos importantes difíceis. Ventos de toda parte partindo chegando para todos os lados, e por quê? Redemoinhos torciam grandes e médias e pequenas árvores na paisagem, impressionante.
            - A natureza inventa coisas, é!
            - Vai pelo caminho mais perto, então!
            Os aviões e aerodinâmicos, que quase sempre conseguem voar muito acima das nuvens, também nem passavam mais pelo país de Roraima. Receio, desassossego, precaução, distâncias das tempestades, etc.
            - Se bem que por toda parte temos árvores rio e pássaros!
            - Volta pelo caminho mais longo longe!
            Choveu muitos sóis e muitas luas, muitos dias e noites. Choveu muito, inundou tudo, alagou a terra toda. Rios de  cascatas. Foi bom. Muitas e mais e bastantes chuvas, que levaram semanas cheias. E se instalou a enchente, o alagado, o pântano. Era um mar de água doce que estufava o rio, subindo, chegando e chegou. O rio acima e abaixo tomou conta de todo o país. Tudo por baixo da água e árvores altas, craveiro-do-maranhão, pereiro-da-serra, imburis, manacás-açus... pela cintura. Roraima submersa, praticamente.
            O tanto de água doce foi ouviu Janaína cantar e ficou enfeitiçado. O mar provocou as tempestades, enchentes e inundações. A potência da água observou viu Janaína, subiu o rio, alagou tudo e a raptou.
            - Nem posso falar mais nada mais que isso? Nem é uma resposta sem pergunta, hum?!
            Assim, o morubixaba dos índios kaxarari convocou os homens a se pintarem com jenipapo e urucum para a guerra declarada ao mar de águas doces. Sempre era assim. O cacique, debaixo de grande chuva, no alagado da aldeia quase afogada, gritou para seus guerreiros jovens e mais velhos:
            - Atacar água invasora! Atacar água estranha estrangeira!
            Os guerreiros pintados para a guerra, ali sobre canoas feitas de casca de árvore embaúba, responderam gritando:
            - Atacar o mar doce! Atacar o oceano que invadiu a floresta! Atacar por atacar!
            Os índios todos da aldeia araueté foram para o igapó da floresta. Pegaram suas canoas e foram combater o mar de águas calmas. Remaram entre copas de árvores. Navegaram no topo de árvores, ingá-ferradura, batalhas, imburana-de-cambão, guarirobas... Os guerreiros nem tinham mais terra firme, quase nem tinham mais floresta, mas somente águas e mar sem fim.
            Uma coruja caburé chirriou:
            - Trololó!... Trololó!...
            Um rato-de-banhado saiu nadando e chichiando:
            - Chim!... Chim!...
            Uma grande anhuma piou para alertar e alarmar e trilar:
            - Teeee-é!... Teeee-é!...
            Os pavôs empoleirados nos galhos do mucajá, gralhavam, gralharam:
            - Fraaauuu!... Fraaauuu!...
            Um pixoxó pediu perguntou cantou:
            - Você me conhece?
            Com a enchente e a invasão de todas as águas doces do mundo, as terras da aldeia dos índios baticola se encheram de bichos de outros planetas. Ali já nadavam, muito à vontade e relaxadas, as baleias jubartes, as estrelas-do-mar, os cavalos-marinhos, as esponjas de mil espécies, os peixes-papagaios, os peixes-palhaços, os peixes-fantasmas... e esses mais que exóticos.
            - Por que e quem diria?!
            - Nada nada a ver, né, meu!
            Com os dias e dias e noites e noites de muita chuva e vento com chuvas, os sóis nem apareceram, as estrelas do céu nem apareceram, os astros nem apareceram, a lua nem apareceu, a chuva continuava caindo caindo como uma cortina. Durante essas longas chuvas, desapareceram os passarinhos, grande parte da floresta, e apareceram cardumes de peixes sardinhas, tubarões-lixas, namorados, meros, golfinhos-cinzentos, pinguins da Antártica, focas, leões-marinhos, polvos de oito braços, peixes-pedras... E demais a mais estranhos estrangeiros exóticos mesmo.
            - Acho melhor deixar para amanhã!
            - Acho melhor deixar até segunda-feira!
            Para separar as águas invasoras das águas normais do rio, para segurar a subida dos peixes do mar e separar os peixes do rio, os caciques e pajés e homens mais velhos e mulheres mais velhas da aldeia guaianá decidiram derrubar a grande árvore castanheira. Essa gigante que mais ali estava. Levariam vinte dias para destroná-la. Vinte e um dias para destocá-la. Vinte e cinco dias para desmatá-la.
- Eta, coisa colossal! - falou comadre dona índia cunhã mãe de três guerreiros e duas cunhantãs avó de duas cunhantains e um curumim.
            - Vamos derrubá-la, nem temos outro jeito! - gritou o curandeiro da tribo.
            - E vamos derrotá-la com quê, meus compadres? - perguntou o cacique.
            - Acho que com um bom machado feito de pedra lascada, né?! - falou a cunhã mais velha da aldeia.
            - Mas nem vai ser fácil, hein?! - foi outra índia sicrana antiga.
            - Eu mesmo nem tenho força pra tanto, quer saber! - foi o que falou o índio avô.
            - Bem, mas temos que fazer o estrago e é logo sem demora agora, né, gente?! - disse o cacique já decidido decidindo.
Derrubaram a castanheira gigante e muito mais gigante. Huuu-tum!... caiu de comprido no chão tombou de lado. Derrubaram a árvore espetacular e magnífica e fantástica. No alto da castanheira um carcará ficou alarmado voou. A grande árvore gemeu e caiu com tudo, do alto, caiu de lado, estalou, teee-léee-queee!... caiu sobre boa parte do país com ruído, eschuaaaa-ah!!... E fechou a enchente a subida das águas. Agradavelmente.
- E pelo menos alguma coisa aconteceu, então.
- Vamos lá ver e de perto!
A árvore caiu, se petrificou mesmo, e virou montanha verde com o passar dos anos. O rio ficou preservado e o excesso de água doce sossegou limitou.
- Sim, por que nem?! - falou um índio dos antigos.
- Claro! Podemos comemorar o feito! - disse uma índia mais contente.
- E almoçar fora na floresta na beira do rio Cubatão do Sul! - falou mais uma comadre.
            E todos os índios e índias importantes da tribo senabó foram derrubar a grande árvore, como já foi dito. Com machado, serrote, serra elétrica? Foram todos derrubar a castanheira de mais de cem anos. Mulheres mais jovens, cabelos lisos e longos e pretos, ficaram olhando de longe com a mão na boca. Os curumins subiram em árvores próximas junto com saguis-caratingas de estimação. E já os adultos derrubavam a castanheira com aquele mesmo estrondo longo barulho, huuu-tum!... e eschuaaaa-ah!...
            Quando viram a grande árvore cair... os deuses da floresta ficaram irados ou nem. Uns ficaram muito brabos, e outros nem deram bola. E a árvore castanheira caiu no chão, caiu de comprido ao longo do rio cheio, huuu-tum!... e eschuaaaa-ah!... A queda fechou a porta de entrada da enchente. Fechou a porteira. Que bom! Separou o volume excesso do rio normal. Nem deixou mais que o mundo virasse em pântano permanente. De um lado a água tranquila corrente do rio Formoso, do outro a água que sobrava. A árvore foi derrubada e deitou no meio do caminho entre a terra firme e a enchente. E foi bom mesmo.
            - Vamos pular em cima!
            - Com muito gosto!
            - Só se for agora!
            O tronco enorme e gigantesco da árvore castanheira, imperatriz da floresta, ficou da altura de muitas montanhas amontoadas que se vê por aí. Uma cadeia de montanhas ou serra ou espinhaço. E com o tempo foi empedrando, e virou tudo umas montanhas de rochas. Era, no conjunto, o monte Roraima. Uma lenda. Uma prenda. Uma tenda.
            Com esse fenômeno todos que viram foram à lua e voltaram, ou seja, ficaram muito muito espantados e cheios de si. Os urubus-de-cabeça-vermelha, os urubus-de-cabeça-preta, os urubus-de-cabeça-amarela, foram à lua e nem voltaram tão cedo. O mutum flauteou:
            - Flau-flau-flau!...
            A jaguaretê, que sabia nadar muito bem desde criança, desabafou seu espanto, grunhindo:
            - Gruuuuuaaauuu!...
             Os mosquitos, por toda parte por toda parte, seis pernas, zumbiram sem entender:
            - Zuimmmmm!...
            Um papagaio-curau de olhos bem abertos, gritou do galho da figueira, gargalhou:
            - Corrupaco-paco-paco!...
            E assim, diante de muitos espantos e olhos arregalados e gritos de suspense, o país perdeu uma árvore gigantesca e ganhou uma alta montanha de rochas calcárias. Caiu a castanheira e nasceu o monte Roraima em RR. A aldeia dos índios barauana ou xirianá, também ganhou outra taba. Os rios Marari e Demeni, onde a tribo curtia as férias e tomava banho, também respiraram e se espreguiçaram aliviados. Aliás, todos os rios e lagos e lagoas estavam bem em forma e fisicamente. Nem muito fortes nem muito fracos. Falantes, isso sim:
            - Vamos descer por aí.
            - Agora lentamente devagar quase parando.
            - Conforme o progresso do dia a dia.
            Quando as águas baixaram, tudo reapareceu e voltou ao seu lugar, o rio ficou no seu lugar no seu leito, os rios caminharam em paz, a aldeia ressurgiu, a floresta desaguou, a mata enxugou, apareceram esses resultados: emas pastavam nos campos do país, jabutis passeavam em procura de frutas, o lago Cajari demarcou o território, tamanduás-bandeiras farejavam o cupinzeiro, o graxaim fazia rasto na campina, o candimba corria apostando velocidade mais de 80 por minuto...
            Daí em diante, então, nem veio mais para dentro do país aquelas águas todas estrangeiras desnecessárias. Nem mais inundou o país. Nem nunca se misturou com os rios. Nem mais invadiu terreno que nem era dela. Daí para frente os excessos batiam nas pedras altas do monte Roraima e ficavam brabos e nervosos e irados, porém nem passavam nem passavam dali. E o rio comum e normal podia correr à vontade, relaxado, tranquilo aqui desse lado, como uma estrada serpentina, como um bengo líquido, como um caminho navegável, como a estrela cadente no céu noturno.
            - Então quem quer descansar pode descansar agora. Agora quem quer remar pode remar. Quem quer ficar olhando pode ficar admirando...
            Com toda essa confusão de dias e noites de chuva, com todo esse alagamento, com todo esse aguamento, com a queda da castanheira, com o nascimento da serra de Roraima, ninguém da tribo ararau se deu conta que Janaína fora raptada pela pororoca. E, então? Então, se deram conta e abriram a boca e puxaram os cabelos e se enfeitaram cobriram de penas.
            - Quede foi parar Janaína! - gritaram boa parte das gentes.
            O rekakê da tribo amarrou uma embira pintada de vermelho no braço e elevou a voz para todos ouvir:
            - Vamos resgatar Janaína! Vamos salvar Janaína!
            Os guerreiros em volta do cacique também gritaram para os deuses do céu e da terra e da montanha Roraima:
            - Salvar Janaína! Resgatar Janaína!
            Os sapos coaxaram, os macacos guincharam, as aves em geral piaram gritaram gorjearam, a cobra sibilou, o gavião-carijó assobiou:
            - Fiiiuuuu!... Fiiiuuuu!...
            Lilás nem se deu por achada e falou, gesticulando muito, se desculpando, desabafando, falando com as mãos e palavras ao vento:
            - Janaína estava comigo, brincando comigo, andávamos de bicicleta pra cima e pra baixo... Foi tudo muito rápido. Depois... a esta altura Janaína já virou iara da beira dos igarapés e paranás e canais. E então?
            Todos da aldeia ficaram nervosos com o rapto de Janaína. Confirmaram. Mas o índio Macunaíma ficou mais que preocupado, ficou pensando numa estratégia estratagema.
            - Sim, eu devo pensar em algo e o que fazer. Devo ir resgatar a bela Janaína. É o mínimo que eu posso fazer devo fazer. Sim, é isso mesmo. Vou salvar Janaína das garras da Pororoca. E é pra já, entende?!
            Com muito muito peso no coração, muito vazio nas mãos, muito amargo na boca, Macunaíma saiu por aí, pela floresta, correndo pelos carreiros da mata, pelo monte Roraima, saiu por aí tropeçando nas raízes salientes. Virou o bicho do mato. Um caapora ou um jurupari diabo da floresta. Ele virou um ente impossível e destemido.
            - É que eu nem entendo isso.
            Macunaíma ficou um índio esquisito, temperamental, estranho e escorregadio. Macunaíma gostou de se refugiar na floresta. Vez ou outra voltava na aldeia dos índios nhandeva para comer beiju e pamonha que as índias cunhãs faziam pra ele com todo respeito. Voltava com mágicas novas e incríveis. Era já de poucas palavras, poucos sorrisos e tantas gargalhadas:
            - Ora, veja isso... ah! ah! ah!...
            Macunaíma nem esquecia da sua amiga Janaína, mas nem queria falar disso. Macunaíma virou virou mágico, virou o que quis, virou o que ninguém acreditou, virou um grande perigo para ele mesmo. Alguém duvidava?
            - Como se chama? Onde você habita? Você conhece o nome das plantas?
            E se passaram os dias com as noites na mochila. O angico-branco agradeceu, agradeceu. A coruja-buraqueira agradeceu, agradeceu em nome da ninhada. O almeirão-da-terra agradeceu, agradeceu. Os mandis-bandeiras cardume borbulharam, ba-ble-bluuu!... O tatu-canastra agradeceu, parabenizou, vivou:
            - Agradeço, agradeço!...
            Depois de tudo isso acontecer, a menina Lilás resolveu voltar para casa. E voltou. E foi voltar justamente num dia amarelo e vento nas orelhas. E foi no melhor da tarde, do sol dourado do dia, que a guria olhou para trás e ouviu o uirapuru:
            - Uiiiiiii-haaa!... Uiiiiiii-heee!...
            Lilás trocou carinhos, beijinhos, tepe! tepe!... com os curumins e as cunhantains. Olhou a taba dos índios cainguá e bateu com a mão no coração. Lilás disse, expandiu:
            - Já vou indo... e techau!...
            Disse Lilás isso mesmo e se foi, veio, voltando para casa. E nunca mais se viram. E se voltou para outro lugar. Os lugares que são sólidos e muitos e lógicos.
            - Olha só esse carrapicho-da-praia que planta maneira, meu! E esse olho-do-mato!
            E foi ótimo porque o cavalo cavalgou, o jabuti tartarugou, o canário-da-terra chilreou, o gato-do-mato miou, a anta assobiou, o peixe cascudo-barbado mergulhou, a cutia soprou, a jia fungou, o casal de araras-azuis-grandes palrou, o casal de coaracimimbi arrulhou e ruflou asas. Lilás já caminhava pela rua Teodoro da Silva em Vila Isabel e achou muito bom e disse:
            - Eles têm uns sonidos ótimos ouvir e de respeito.
                                                                       77                                                      
            De volta, retornando, ela e a bíci e a estrada, chegaram em casa na varanda da casa da avó. A vovó estava ouvindo o quintal e vendo o pomar ali sentada na varanda e sentada mesmo na cadeira de balanço que balançava pra frente pra trás. As duas se abraçaram. Trocaram tepe! tepe!... beijos dos dois lados bochechas.
            A vovó falou numa voz de quem nem quer nada nem sequer tem dúvidas:
            - Vamos até a sombra do pé de oiti-bravo. É perto. É logo ali, hum!...
            A avó e a menina, depois, desceram a escadinha de três degraus da varanda. E olhe lá! Vovó e menina abraçadas, de braços dados, de mãos dadas. No pátio as duas andaram até as sombras da ingazeira ou tibuquina. Pararam aí. Era ótimo.
            - Aqui é legal e muito bom! - contou a avó.
            E avó tinha com seus brincos de argola em cada orelha. A menina com a aba do boné virada para trás. A menina ainda suspendeu o boné e passou a mão pelos cabelos ruivos. A vovó, parando de andar automaticamente sem querer, disse para a menina:
            - Existe uma lenda indígena, talvez da tribo tabajara ou nambiquara ou guajajara, a respeito do abati.
            - Quem é abati? Pra que que serve? Se comporta perto do viaduto da Grota Funda?
            - Abati é milho em tupi. Abati ou avati ou auati é milho em tupi. Já ouviu?
            De repente a avó e a menina olharam o tico-tico passeando com a família lá dele. Os passarinhos estavam sem pressa e beliscando o chão. As avezinhas olhavam o catar de comer e seus próprios pios piando pipiando...
            - Oh!... e por quê?
            O passarinho sanhaço-de-coqueiro, passando pelo alto, disse que falou, gorjeou:
- Quis-quis-quis!...
            A dona vovó convidou a netinha, foi assim:
            - Vamos sair para o sol. Só um pouco e até ali. Os tais e quais raios ultravioletas.
            O solo fazia manchas de sombras, manchas de sol. O sol estava soberano. Nenhuma nuvem naquele céu. Passarinhos, maioria naquela hora, estavam fazendo a sesta e escondidos nas folhagens. As árvores uns frufrus!... leves breves de folhas ao vento. O vento de brisa nos cabelos longos cabelos. Casal de araras-vermelhas-grandes passou alto conversando mais alto iam brincar nos folguedos do guerreiro e às vezes gargalhando se ouviam as gargalhadas.
            Vovó, continuando e narrando e contando e noticiando e legendado, dizendo emboralá!, desbaratando:
            - Ora, isso sim! A lenda do milho avati. Na aldeia dos índios guaicanã. Lá para os lados de Roraima ou RR. Na divisa do nosso país com outros países vizinhos. Um dia como outro qualquer nasceram três indiozinhos: uma indiazinha cunhantaim, dois indiozinhos curumins. Os três tinham olhos parecidos, negros, muito negros como a noite sem luar. Os dois nasceram para serem fortes guerreiros. Ela nasceu para ser muito bonita e atraente.
            - Quem, minha avó?
            - Os dois se chamavam Avati e Macunaíma. Ela se chamava Janaína. Os dois eram irmãos, filhos do mesmo pai e mesma mãe. Ela era filha única de outro pai e outra mãe. Mas eram parentes muito próximos e da mesma aldeia, etc. A cor do cabelo da Janaína era preto bem preto praticamente azul. A cor do cabelo do índio Abati era loiro. A cor do cabelo do índio Macunaína era preto muito escuro. Viviam na mesma oca. Se conheceram comendo mingau na mesma oca. Começaram a brincar na mesma oca, no mesmo pátio da mesma oca. Tomavam banho no mesmo rio Paraibuna que passava em frente da taba.
            A antiga vovó protegia com a mão em pala os olhos da clara claridade dos fortes raios ultravioletas oriundos do grande sol. Uma pomba-rolinha fugiu, fugindo voando afobada ali do chão, vrrrou!... dos pés das duas pessoas.
            - O que houve depois? - perguntou a menina Lilás. Parece uma novela de ficção!
            - Muitos anos se passaram. Muitos anos deram voltas no planeta Terra. Muitas primaveras. Muita coisa aconteceu. Uma coisa se soube e outras foram ditas. A maior parte da lenda se soube ou veio à tona ou ainda contada de boca em ouvido. Muitas coisas ficaram encobertas só apareceram os tais e quais 30 por cento. E sempre sempre acontecem mais coisas e coisinhas, uma vez.
            - Muita coisa o quê, por exemplo? Quem calcula o tempo? É de hoje pra ontem?
            - Os três brincavam todo tempo juntos e pareciam irmãos. Brincavam de nadar. Brincavam de subir em árvore da pinha em árvore cajazeira. Brincavam de fazer bichos de madeira. Brincavam de se empurrar. Brincavam de mergulhar. Brincavam de brigar. Brincavam de se jogar terra. Brincavam de arco e flecha atirando no alvo da planta mais próxima. Brincavam de comer gabiroba, umbu do umbuzeiro, mangaba da mangabeira.
            - Eles andavam descalços e nus pela floresta assim como todo índio e índia?
            - Era tudo assim mesmo ao normal e natural e costume e hábito. E subiam em árvores, pegavam cipós e mergulhavam no espaço para se pinchar na água. A árvore favorita de Janaína, a palmeira buriti. A árvore de estimação de Abati, a guapuruva. A árvore mais bonita para o Macunaíma, a palmeira catulé. E assim por diante.
            - E já faziam expedições pela mata e arredores e se aventuravam? - a menina tinha na cabeça já uma encruzilhada de ideias e perguntas naturalistas ambientalistas curiosíssimas.
            - Pintavam os corpos e imitavam os adultos que brincavam de fazer fogueira e festa, que brincavam de fazer aniversário, que brincavam de chamar chuva quando faltava chuva. Corpos pintados, tranças nos cabelos das cunhãs cunhantãs cunhantains, cordões coloridos nos braços, palitos botoques enfiados nos lábios e nas orelhas. E comiam formigas, e comiam gafanhotos, e escamas-vírgulas, e comiam mel de mirins-preguiças as abelhas silvestres, e comiam frutas silvestres diversas, caju, araçá, açaí, pitanga, araticum... Janaína gostava muito mais de comer borboletas coloridas com asas e tudo. Abati adorava comer principalmente escaravelhos com perninhas mexendo. Macunaíma apreciava até demais as cigarras verdes ruidosas.
            Raios de luz do sol riscavam em feixes de cores o espaço em arco-íris dizem sete cores o prisma. Casal de araraúnas voltando pra casa ou indo para a árvore do almoço. Raios de sol atiravam suas luzes por entre buracos das ramas folhas das árvores. Daí apareceram os papagaios-comuns e gargalharam e cantaram e surtaram outras espécies acompanhando virou carnaval confusão folia fecharam a árvore a rua a avenida, etc., e digamos assim.
A avó e a menina foram já se sentando na sombra de uma jabuticabeira carregada do tronco aos galhos lotada de frutinhas pretas maduras tentadoras.
            - E novamente o tempo foi correndo morro abaixo, morro acima, no limpo, na floresta e sobre as águas claras do ribeirinho. O tempo correu sobre tudo. O tempo correu sobre o tatuapé. Tempo de relógio de cronômetro. O tempo tocou o bando de horas, correu na frente, e chegou junto, os minutos e os segundos.
            - Tatu a pé?
            - Ora, isso sim! A pergunta é mais importante. E o tempo que correu pra cá e pra lá nem esqueceu de ninguém. O tempo até mesmo correu na vida de Janaína, de Macunaíma, de Abati. E eles já eram em idade de casar. Uns quinze, quatorze, quinze ou dezesseis anos de idade. O tempo passa pra todos e quem envelhece já viveu muito já viu boa parte. E quem é novo ou novinha pode envelhecer, mas só se D quiser. E sempre tem que ter sorte. Um dia depois o outro.
            A avó olhou para os galhos da pindaíba. A avó gostava de árvores. A avó olhou para sua palmeira carandaí. A avó olhou para a sapucaí florida. A avó baixou a cabeça, ergueu a cabeça e foi declarando ou declamando:
            - Os três dirigiram uma paixão. Coisa normal e tal. E Abati se apaixonou por Janaína, claro. E Macunaíma se apaixonou por Janaína, óbvio. E Janaína? Janaína gostava de um e nem queria magoar o outro. Janaína ficou pensando uma saída pela tangente. Janaína se aborreceu com a situação. Janaína nem entendeu nada do que sentia e imaginava viajar conhecer o castelo Garcia D’Avila ou o pem do parcel de Manuel Luís... Janaína nem entendia seu próprio jeito de pensar. Janaína talvez amava um e amava o outro mas de formas diferentes, vai saber! Janaína quem sabe amava os dois ao mesmo tempo e de duas formas distintas, quem sabe!
            - Ela nem sabia o que sentia o que entendia?
            - Ela sabia que sonhava. Mas também sabia que se escolhesse um, brigaria com o outro. E se sabe lá o que poderia acontecer ao mundo inteiro, se sabe?! E, então, Janaína nem sabia de nada ou nem quis decidir na hora. Talvez fingiu nem saber.
            - E depois, e após?
            - Cada dia tem sua alegoria. Um dia, por volta das onze horas da manhã, um sol de rachar, Abati e Macunaíma se atracam numa competição e disputa. Todo mundo entendeu aquilo. A aldeia ficou admirada e uns torciam pro Abati outros pro Macunaíma. Tem gente que torce pro mais fraco. E foram duelar saber quem nadava melhor no rio Caí. No começo até pensaram que era brincadeira pra fortalecer os músculos e passar o tempo. Mas a competição valia mais que isso e durou um tempo a mais. De perder o fôlego.
            - E eles disputavam a torcida de Janaína? De repente!
            - Ora, isso sim que é correto! Então, nem qué?! Nadavam pela mesma índia. E a disputa era muito parelha e braçada a braçada. Talvez o duelo na água, lá para eles dois jovens guerreiros, valesse a pena. E eram braçadas mais braçadas e águas levantando pra tudo que era lado. Nadavam lado a lado. Ninguém sabia quem ia ganhar. Depois cansaram e foram desistindo e nem se olharam mais na cara por... por um tempo... por um tempo de dois dias e duas horas alguns minutos. Vamos supor.
            Por aí mesmo, vovó abriu um novo sorriso, sorriu, comeu uma fruta de pitanga, descansou a mão no ombro da Lilás, de repente o ouvido no canto do sabiá-laranja bem pertinho por aí, e mais um tanto continuou:
            - Uma manhã, uma manhã bonita na aldeia dos índios tabajara, os três melhores amigos se divertiam no meio do rio Verde. Abati e Macunaíma competiam para ver quem era mais rápido no nado borboleta, quem mergulhava mais profundo, quem ficava mais tempo debaixo da água, quem primeiro buscava a pedrinha que Janaína atirara dentro do rio. Janaína assistia a tudo, participava e ria e nadava de costas boiava livre etc. Será que ela já tinha preferência e decisão a essa altura do campeonato? Ou ela queria sempre adiar e fazer o mais fácil?
            - Ela tinha decisão nos olhos, vovó?
            - Vai se saber! Os dois jovens guerreiros eram tímidos, a jovem índia bonita nem sabia dizer nem sim nem não nem talvez. Deixava rolar. Ela, acho, esperava que nada acontecesse. Ou, quem sabe, que acontecesse um milagre. Uma intervenção de Tupã.
            O sol da tarde ainda iluminava os rostos das duas pessoas ali no quintal. Este outro tempo. Vovó sorria, sorriu e continuou desenrolando a fita. O dia precisava empilhar ainda um pouco mais:
            - Certa vez, e eles já completavam uns dezessete anos cada qual, aconteceu a principal disputa entre os dois enamorados de Janaína. Se desafiaram mesmo. Cada um pegou seus apetrechos de aventura na mata e saíram para o campo o mato fechado o rio a montanha: vencer ou perder ou vencer. Os dois jovens queriam desempatar o jogo.
            A avó caminhou até uma sombra da árvore pente-de-macaco e parou. Sentou numa pedra. A menina veio sentou na mesma pedra ali do lado. As duas estavam muito perto e sentadas. Se sentiam bem. Era legal. A vovó foi tocando o barco do causo:
            - Então, por enquanto, eles tinham que desempatar. E isto estava claro como água do ribeirão. Abati foi para a aventura no meio do mato. Macunaíma foi para a aventura no rio. Quem ia trazer mais histórias para contar e fazer rir? Só Tupã sabia responder, por enquanto. E Tupã é um ente superior. E  Tupã é um ente abstrato.
            A uma pergunta se desprendeu da ideia e rolou na língua da menina:
            - Que que houve? Aconteceu surpresa?
            - Abati nem voltou mais da expedição. E Macunaíma voltou carregado de prosa e verso os mais grandes famosos deslumbrantes possíveis. E parecia que a história estava já decidida e contada.
            Então, ainda no quintal da avó, outra avezinha, talvez a corruíra, quicou entre as samambaias, alfazemas-bravas, bibis, nhambuís... Num instante voou para onde. Parecia uma corruíra ou um joão-de-barro ou uma pomba-de-espelho ou jacuguaçu...
            - Oito dias depois encontraram Abati no fundo de um grotão. A onça tinha pego ele de jeito? Parecia que sim e que nem. E Abati foi sepultado na horta que a tribo cultivava ali pertinho da aldeia as imediações. Foi enterrado seus ossos e apetrechos particulares dentro de uma urna de cerâmica em forma de panelão. Os índios nomeiam essa urna toda decorada de desenhos e riscos típicos chamam de camotim.
            - E Macunaíma?
            - Macunaíma se comprometeu a trabalhar para sustentar os pais de Abati. Este é o trato, a lei dos índios minuano, para quem perdeu um amigo.
            - E Janaína?
            - Janaína só podia chorar. E chorou muito. Chorou quase uma lagoa. Chorou muitos dias e noites. Chorou tudo o que tinha para chorar. Chorou para lavar o céu, lavar o sol, lavar a lua, lavar as estrelas, lavar tudo muito além muito bem. Chorou na beira do rio São Lourenço para chamar a atenção da mãe-d’água, a dona Iara.
             Depois a vovó ficou pensando e olhando o que nem ver. Era distante? Após a vovó olhou para o tempo o clima os arredores. Em seguida vovó olhou para a história que ia se desfazendo, falou isto, foi contando como desfilando as palavras, rio murmurante:
            - Vamos até o sol, minha filha. Vamos pegar um pouco de sol. O sol é tudo de bom.
            A vovó e a menina saíram das sombras do pé de caraipé e foram pegar o sol. O céu com poucas nuvens, poucas mesmo, quase nenhuma, nuvens brancas e bem altas, nuvens esfarrapadas, nuvens jogadas de qualquer jeito. O chão de luz e sombra, conforme.
            - Um dia todos da aldeia dos índios cariri ficaram espantados. Foram para a roça colher abóboras e amendoins quando... a maioria cunhantains e curumins... quando viram uma estranha plantinha nascendo da sepultura do finado jovem guerreiro Abati. Era inédito.
            - Estranho mesmo. Que plantinha, hein, vó?
            - O nosso conhecido pé de milho. Para os índios era um pé de abati ou avati ou auati. Era uma plantinha bonita e elegante e diferente na região, por enquanto. Ainda muito pequena e tal e estranha no pedaço. Em uma hora foi que toda a aldeia ficou sabendo. Todo mundo achou muito estranho e promissor.
            - Muito original, né, vó?! Eu também queria inventar uma planta.
            - Isto é verdade. Isto será possível. Algo mesmo exclusivo. Mas tem explicação na ideia dos índios caiapó-xicrim. É que depois de morto, a alma de qualquer índio ou índia ou cunhantaim ou curumim, poderá reviver em outro corpo, que pode ser outra criança, uma planta ou erva caeté-de-folha-grande, um bicho de quatro patas o ouriço-preto, um bicho rastejante, uma ave pássaro brió, um peixe, um inseto, uma pedra, ou até mesmo um caapora. As ideias são muitas e variadas.
            - Estranho e bonito e mesmo lógico, vó? Quem sabe?! Quem viu?!
            - Não quer?! Daí por diante o pé de abati foi crescendo muito rapidamente, e sim senhor! Muito bonito e elegante e particular. Em quatro meses já era um pé de abati adulto, um pé de milho com espiga e tudo. O caule muito elegante de até cinco metros de altura. Era feito de folhas longas e largas, espigas com grãos e cabelos longos loiros. Dos grãos ainda nasceriam outros pés iguais. E assim para todo o sempre. O pé de milho nasceu e viveu e ficou bem adulto num tempo de cinco meses. Cresceu rápido buscando o sol. E o mais interessante era que ninguém conhecia aquela estranha plantinha. Não sabiam o que era e nem o que iriam fazer com ela com os frutos. Por isso mesmo o pajé feiticeiro foi chamado e encarregado para se entender com a nova plantinha. Não demorou muito que as mulheres se botaram para testar os grãos do pé de milho. Resultado foram umas iguarias de dar água na boca: a pamonha, a canjica... Não demorou uns dias que o pajé curandeiro descobriu que dos grãos da espiga de milho se podia fazer uma espécie de vinho para se beber nas festas e rituais e comemorações. Mais uma ou duas semanas e outras mulheres descobriram que podiam fazer farinha com os grãos do abati e da farinha fazer comidas típicas tradicionais dos índios paraúna ou índios macurape ou autóctones crejé...
            - E a história termina assim, com um pé de milho acontecido por milagre por obra e por arte sem mais explicações?
            - Foi a descoberta do pé de milho ou pé de abati para os índios guaicuru. Uma descoberta muito séria. Até hoje todo o mundo come alguma coisa vindo do pé de milho. É um alimento e tanto para o mundo. E do vinho do abati, o vinho abativi, os índios se divertem nas festas comemorativas. E falam com o espírito do índio Abati, morto naquela aventura com a onça-pintada há muito tempo atrás tempos idos. Tantos tempos passados e distantes. A explicação.
            As duas parentes passaram e repassaram satisfeitas pelo pátio. Elas estavam satisfeitas e andaram caminhando andando passeando distraídas. O dia caiu na tarde de cobre cor de cobre. Os passarinhos pousaram e decolaram na tarde, pintassilgos, gaturamos, almas-de-gato, encontros, gralhas-azuis, téu-téus... O pipiar das avezinhas entre as folhas da ouricuri ou bergamoteira ou imbaubeira ou niopó... A sombra da maciça enorme árvore mapixi, ornada de alguns zanga-tempos, já era bem comprida e esparramada no chão do quintal. Um par de curicacas ou anambés-azuis, voando alto, voou ao encontro da despedida do sol do pôr do sol.
77
            Depois de algumas voltas do mundo com o planeta... Atitude simples para cá e para lá, ontem e hoje... Os mesmos milagres de todo verão inverno amanhã... a aveia-do-campo crescendo planta vegetal... as marrecas-cricris voando em o banhado do Taim...
O sol saiu sozinho para Avanhandava, Paula Cândido, Nova Lima, Caiapônia, cais do Valongo... Depois vieram nuvens brancas aos poucos. Depois já eram dez para as dez no relógio digital público da rua Seixas Neto. Depois o sol ficou somente com ele mesmo. Depois as nuvens brancas passaram outra vez e de raspão, na tangente, fazendo barulho de atrito de contato, truz!... Após o sol dono do céu azul. Ainda era meio-dia de domingo em Poxoréu, São José de Mipibu, Santa Helena de Goiás, na aldeia dos oro-uim... no bairro Portão em Lauro de Freitas... no centro cultural popular Domingos Vieira Filho...
            Um dois três dias e se percebia tudo como se fosse hoje. E os dias eram diferentes e comuns. De repente, de sorte, daqui pra lá. Aí é que é a história!
            O dia estava bonito, cheio de cantos de passarinhos sabiá-do-campo, grimpeiro, bem-te-vi, curió, tesoureira, tchintchorrintcho... e Lilás quis sair e saiu logo para a rua Rodrigues Alves. Sorrindo um sorriso de lua crescente, praia, mata ciliar. O sol escalava o céu porque o calor aumentava. Desse modo. A planta o pé de guibá suava no verão. A plantinha esponja-de-raiz transpirava amarrada ao galho da guajará ultrafrondosa.
            A menina Lilás foi ver a galera, as amigas, a Rê, a Esmeralda, a Pérola. Chegou assim na casa das irmãs Esmeralda e Pérola, era de casa:
            - Aonde a gente vai? Vamo lá?!
            Foram até a pracinha Nanuque, debaixo da sombra do cajueiro, jogar vôlei na cancha de areia, sentar nos bancos de laje, conversar, balanço, gangorra, trepa-trepa, bíci e automóveis desfilando na rua do Triunfo. O mundo social civil.
            - Pois se nem D sabe!
            - Que é que vocês acham?
            - A cidade inteira às 9 horas e aqui fora.
            - Quero saber a diferença entre leste e oeste, é!
            - Que número você tem preferência e prefere?
            - É, qual teu número favorito ou mais legal?
            - Pronto. Eu gosto de sorvete de abacaxi, falei!
            - Nem esperava terminar meu sonho e...
            Domingo bonito e encomendado, sem correria, sem muito calor, passeio de bicicleta. Dia clássico e mais alguma vantagem. Planta por planta cada qual no seu verde ideal, ingá, indaiá, jurema, juazeiro, jaborandi, pequiá, sucupira... e quem mais quiser. Lilás exclamou:
            - Ora, são coisas! Vamos correr até ali no quiosque na tenda?!
            Aí pelas dez as meninas viram um cãozinho perdido no meio da rua João Neiva. Parecia perdido, meio indeciso, solitário, confuso, tonto. Ele mesmo pegou a avenida Almeida Júnior. Um cãozinho pequeno, talvez de nome Degrau, talvez de nome Serrote, talvez de nome Aparecido, de orelhas altas, cauda parada, olhos aborrecidos. Subindo a ladeira da rua do Giz. A Rê falou sério, séria:
            - O cãozinho Degrau ou Serrote ou Aparecido parece assim tão procurante, pedinte.
            A Pérola completou, notou:
            - O guaipequinha Degrau ou Serrote ou Aparecido está muito desenxabido, tímido.
            A Esmeralda contribuiu com opinião, ilustrou:
            - Acho que o bebezinho do Degrau ou Serrote ou Aparecido se sente diminuído, esquecido.
            A Lilás decidiu por si mesma, destacou:
            - Vou falar lá com o Degrau ou Serrote ou Aparecido. Custa?!
            Então, a menina Lilás se desgarrou das amigas para ir ter com o jaguarinha. Foi no rumo dele junto da praça Arthur Andrade Filho. Já chegava perto para prosear quando o cusquinho virou as costas e se mandou no trote. Lilás nem perdeu tempo e se precipitou atrás, e no rumo da rua Domingos Sérgio dos Anjos. A menina queria, agora mais do que nunca, falar com o Degrau ou Serrote ou Aparecido. E foi atrás do bichinho de orelhas flexíveis altas peludas.
            - Que foi que houve, meu?! Esperali!
            O céu estava bom. As nuvens estavam boas. O caminho parecia aquele mesmo rente à praça D Pedro II. O cãozinho virou mais uma esquina lá na frente e a menina apurou o passo. Canteiros de rua em forma de lua, em forma de quadrado, em forma de triângulo, em forma de espiral, em forma de meia-lua. Armadilha de labirinto. Baile de ventos: redemoinho.
            - Ei, brincadeira!...
            Lilás passou a esquina... olhou para todos os lados... e nada, neca de pitipiriba, nada do Degrau ou Serrote ou Aparecido. A menina perdeu a pista do cachorrinho tão engraçadinho. A menina ainda olhou para os lados... bairro do Catumbi... procurou escutar... olhou o quintal de duas três quatro casas e prédios e condomínios... nem viu mais o fugitivinho. E a menina Lilás olhou para trás...
            - Que engraçado... Tenho a sensação... Opa! Nem olho agora, meu!
            A verdade era que a menina ficava ela própria agora com a sensação de estar sendo seguida. Alguém a espionava se sabe lá de onde alguém escondido e por quê. Seguida de rua em rua, pelas ruas todas da cidade, em todo lugar e em toda parte. Alguém a seguia e a vigiava e a espionava, largo dos Pancararé. Era de suspense. 
            - Não interessa, e vou continuar a procurar esse o Degrau ou Serrote ou Aparecido.
            Daí a menina viu uma sorveteria, sentiu vontade de sorvete, pensou qual o sabor e entrou na loja. Duas bolas de maracujá. Foi andando, tomando sorvete e procurando pelo cãozinho. Mas alguém a cuidava. Alguém a olhava das sombras. Um par de olhos anônimos seguia seu rastro seu cheiro seu jeito seu gosto de sorvete seu andar e desde o matinho ali perto presente quase rasteiro e carregado de aningaparas, mata-peixes, penachos-brancos, alvarados...
            Lilás tinha certeza que alguém a seguia. Parecia que ela tinha alguém nos calcanhares. Até parou para olhar para trás... Se perguntou outra vez, naquela mesma meia hora, naquela língua muda de falar para dentro de si mesma e preocupada:
            - Será que estou sendo enganada por um detetive esperto demais? Eu, em?!
            A menina passou pela sombra de uma maria-mole, sombra bonita e convidativa, sombra gigante, nem parou. Passou pela sombra boa de um talá-verdadeiro, nem parou. Passou ainda pela sombra confortante de um pé de camboatá ou camará, nem parou dessa outra vez. E a sensação de estar sendo acompanhada prosseguia continuava... E também nem tinha certeza. Sorvete delicioso...
            Mas nem era apenas isso. As árvores olhavam de cima. As nuvens também. O céu, nem se fala! Muita coisa olhava a menina. E as árvores a olhavam com seus mil olhos folhas verdes, cará-de-caboclo, pacaris, caraguataí... E os passarinhos pousados nos galhos riam, “ri-ri-ri! si-si-si!...”
            - Que dê o Degrau ou Serrote ou Aparecido? Um cachorrinho vira-lata sempre deixa rastros! Nem desaparece assim, meu!
            Quando viu, quando viu bem, quando viu bem melhor, a menina percebeu que estava na estrada para o país de Roraima. Ela, a estrada e mais nada ou tudo isso. E totalmente a pé e com uma sandália prequeté nos pés. Longe no mínimo. Distante quem sabe.
            Ouviu um tatuaçu raspar o chão de terra vermelha:
            - Rui-rui-rui!...
            Ouviu um muriqui no alto do galho da árvore quinquió:
            - M-mu-mmuuuuu!...
            Ouviu um ser de pelo duro marrom soprar muito alto. Um capincho é um roedor e dos maiores do planeta deste lugar:
- Berraaaaaa!...
            Ouviu um cavalo pingo relinchar no potreiro localidade de Domingos Martins:
            - Trrriniiiirrrr!...
            A menina elogiou condecorou parabenizou:
            - Tem um relinchar e um bufar e um esgravatar ótimos! Parabéns!
            Ouviu também tudo ela ouviu um sorro guaiar:
            - Aaaau!... Aaaau!...
            Céu risonho e limpo como no cartaz de turismo onde nunca tem cerração chuva congestionamento filas de horas vendedores ambulantes. O canto da guaruba. Viu e ouviu arara-amarela, arara-azul, arara-azul-claro, arara-azul-e-amarela. E no caminho a menina ainda passou pelas praias de Quintão, Laranjal, Capão da Canoa, Arroio do Sal, Torres, Tramandaí, Arroio dos Ratos, Cassino a mais longa do mundo mais de 30 quilômetros...
            - Nem recontei, mas obrigada e saúde! Do alto o sol do lado o mar do lado o areão!
            No alto da timbaúva um gavião-de-penacho com penacho soprado pela corrente quente do vento. Doze metros à frente o caminho tomava se dividia em dois sentidos. O caminho se bifurcava em duas opções. Em duas porções. Metade da estrada ia para cá e a outra metade da mesma estrada ia para lá. Uma disputa entre as duas metades para ver quem levava a melhor. Tem preferência? A da direita vai pra Ladário mais Corumbá a da esquerda segue firme pra município arquipélago de Cairu.
E a menina Lilás ficou na dúvida e par ou ímpar:
- Será que o cachorrinho Degrau ou Serrote ou Aparecido foi cá ou de acá?
            Uma ave piou. Talvez o mutum:
            - Iuiiiii!... Iuiiiii!...         
            Outra ave piou, talvez a inhambuapé:
            - Suiiiii!... Suiiiii!...
            A Lilás olhou em volta e se viu longe de casa. No meio da floresta, e que floresta! Olhou em volta... A floresta, o tal mar verde-vegetal, mar florestal, mar sensacional, mar sem igual cheio de espessura. A floresta uma cor só de verde, tons verdes, macaúbas, aroeiras, jaramacarus, capebas, pitombeiras, copaíbas... O diálogo entre elas era também com o vento participando. O vento nordeste. O vento paisagístico.
            A menina decidiu continuar pela floresta e de todos os tamanhos. Daí pra frente queria chegar à aldeia dos índios arara. Aqui ali jogados ao acaso os alecrins-bravos as coiranas-do-rio-de-janeiro os juciris-de-comer...
            Certa altura da trilha na selva, a menina perguntou para a onça-pintada:
- Canguçu! Estou indo para a aldeia juruna? Quer me informar?!
            A onça-pintada urrou muito em voz alta, boca escancarada:
            - Brrraaauuu!...
            A guria nem entendeu nada. Continuou pelo caminho florestal e tal e qual. Uma primeira árvore, a fulana; outra segunda árvore, a sicrana; mais a terceira árvore, a beltrana. Um montão de árvores parentes contraparentes contentes associadas em sindicato. Papagaios charões conversando em voz alta na copa da mata.
            - Hoje o dia 11 de outubro é data muito bem especial, então.
            E Lilás nem olhava para trás, mas para cima, para os lados, e para frente. Cheirando o perto, esticando o olhar para o longe. Pensando nem que sim, nem que nem. Abrindo sempre os olhos, de vez em quando até mesmo abrindo a boca, os cabelos saracoteando ao vento. Aguardando talvezes, talvez.
            - Pois vamos dar uma olhada. Em que pé...
            Lá longe a mesma Lilás encontrou um urutau, ou bacurau, disfarçado em ponta de galho seco. A menina perguntou à coruja ou tipo de pássaro noturno:
            - Seu urutau! Aqui nessa floresta tem boto-de-chapéu?
            O urutau se esforçou para pensar e, depois de dois minutos, respondeu descansado:
            - Truuu!... Truuu!..
            Quinze minutos mais tarde a guria encontrou a cutia:
            - Tia cutia! Aqui por aí tem mapinguari?
            A cutia, que procura coisas de noite e de dia, respondeu do jeito que podia e sabia:
            - Ah-éeeee!... Ah-éeeee!... Ah-éeeee!...
            Perto do meio-dia a menina se assustou ao reconhecer o guaracigá:
            - Oi, guaracigá! Você também aqui encontrado na floresta perdido? Me diga, existe matintaperera piando nessa mata fechada? Como vai? Bom dia!
            O beija-flor respondeu, e respondeu antes de quase pousar em uma flor do ingá-de-flor-amarela:
            - Pisss-te!... Pisss-te!...
            E, depois de subir e chegar ao topo de um morro, a Lilás viu o país bonito de Roraima. Era um dia normal, ensolarado, tranquilo no território de Roraima, aos pés do monte Roraima. E também viu ali espalhada a aldeia dos índios potiguar. Era tudo o que tinha de ser. Tão bom como tão bom. Tão cedo como tão cedo. O ótimo vinha acompanhado de nuvens altas bem estratosféricas, quase no ozônio.
            O céu era bom. A floresta era bom. O rio era bom. Os bichos era bom. A aldeia xavante estava calma. Fosse o que fosse. A hora era bom. O começo era bom. O ótimo era bom e boníssimo.
            Era domingo. Todo dia de domingo era de céu azul. Na aldeia pancararu, todos os dias são domingos de manhã. Ninguém nem reclamou do domingo, nem procurou outro domingo. Nunca reclamou. Abelhas jataís, ou sete-portas, zumbiam em busca de flores florestais. Tamanduá-bandeira procurava os tacurus no meio do mar de cupinzeiros.
            A menina Lilás foi recebida por muitos curumins e cunhantains. Traçaram abraços carinhos e beijos, tepe! tepe!... Lilás perguntou pela sua amiga Janaína:
            - Onde está Janaína? Tá nadando no rio Carinhanha? Foi passear em Nova Olinda?
            - Nem, o mar a levou - respondeu um curumim.
            - Mas ela nem está na floresta colhendo frutas junto com as mulheres velhas cunhãs? - perguntou insistindo a Lilás.
            - Nem, a enchente a raptou faz tempo - disse uma cunhantaim.
            - Talvez ela esteja na oca, deitada na rede, dormindo ou pensando na sorte? - insistiu outra vez a menina Lilás.
            - Nem, a enchente a levou embora para casar - disse outra cunhantaim.
            - Por que será? Quando foi isso? - sempre perguntou a Lilás.
            - Foi mesmo por coincidência na última enchente - respondeu o curumim da esquerda.
            Lilás então decidiu ali mesmo. E foi ver Janaína lá na praia junto do rio. E Janaína estava sentada nas pedras, perto do mar de água doce, secando os cabelos com as mãos, se penteando com uma costela de peixe, cantando baixinho um hino tradicional. Lilás se juntou com Janaína. Lilás viu primeiro:
            - Janaína!
            - Lilás!
            As duas amigas se abraçaram. As duas amigas se olharam. As duas amigas riram muito. Os olhos verdes e azuis de Janaína eram como as águas verdes do lago, que no fundo profundo tem pedras preciosas e rebrilhantes, etc. É sempre bom nadar numa lagoa calma e quente e azulada. E se apresentam cada vez mais estrelas no nosso universo.
Foi aí que Lilás viu que Janaína era metade índia e metade peixe.
            - Como você virou uma boto-cinzento, hein, Janaína?
            - Ora, de tanto viver junto da água, né! Minha sorte é de peixe, praticamente!
            E Janaína parecia estar contente com o fato de ser boto. E penteava os cabelos longos negros e bonitos com um pente de espinha de peixe. E voavam e piavam por ali as ciganas, os tuiuiús, os quero-queros, os flamingos, as saracuras-pretas, as seriemas...
            De repente o vento avisou a água e as ondas vieram em tombos rolantes quase pororoca conhecer a menina Lilás. A maré subiu nas pedras e foi molhar os pés da visita visitante. A menina achou graça e riu e falou:
            - Que águas de pororoca, meu! Parecem ser incansáveis!
            Com muita conversa as horas passaram e a tarde foi se esticando e quase chegou perto da noite já com estrela no horizonte. Estrelas no horizonte próximo. Planetas mais pra lá do conhecido. Universo de diamantes em conserva.
            - Tenho que mergulhar nessa hora, menina Lilás.
            - Tudo bem, Janaína. Eu volto para a aldeia pancararé.
            - As citatás estão chegando para brilhar no chão do céu. Tenho que mergulhar. Vou te dar esse presente.
            Janaína pegou, ali de cima de uma rocha, um cordão com amuleto de pedra verde.
            - É um muiraquitã. Dá sorte e muita alegria. Tem cara de sapo do fundo do rio. Fui eu mesma que desenhei.
            Lilás ainda perguntou:
            - Onde germina o grande rio Amazonas?
            Janaína respondeu assim:
            - No fundo dos olhos do céu, dos olhos meus, dos olhos teus.
            E a menina Lilás voltou com outra questão importante:
            - Onde nascem as cascatas, cataratas, cachoeiras?
            A boto Janaína foi respondendo dessa forma:
            - As quedas-d’água nascem dos degraus de nuvens das prateleiras de mato das janelas de pedra. Depois elas mesmas fazem sorrir e festas e alegrias das águas.
            Ali, junto ao rio e rios, junto do alagado e da boto Janaína, Lilás pegou de presenciar e admirar muitos cardumes de peixes homônimos, homógrafos, homófonos. Era complicado, mas era. Por que o dia por que a noite? Por que um pedaço de chão?
            Perto da noite, nem noite ainda, tardezinha de sol caindo, a menina Lilás veio embora pelo caminho taiaçuapé. O muiraquitã pendido do pescoço. Era bonito era legal. Um enfeite para ajudar na sorte do dia a dia. Era legal era precioso.
            Lá pelas tantas viu a gambá, que puxou conversa:
            - Aonde vai, menina? Tá com pressa? Vai aonde com esta sua pressa?
            - Vou até a aldeia dos índios boca-preta.
            - Eu sabia! Eu saberia!
            Na beira do rio Madeira, a menina pegou uma ãatá feita de casca de árvore guarajuba ou guajuvira e remou como pôde. Foi remando, passou as salsas-de-água, os gravatás, as taboas... aves conversando em pios, o socó, a garça-branca, os colhereiros, a aracuã... peixes olhando no raso, o pacu, o mandubé, o jaú, as pirararas, e o famoso tucuxi... animais da margem e de orelhas em pé ou penas arrepiadas, a preá, o preá, a saracura, o saracuro... uns piopios!... escondidos repetidos... de quem?, de peixe-frito?, de ferreirinho?, de coleirinha?, passarinho cuidando do que acha certo, o seu território, o seu ninho, a sua prole, o seu ecossistema.. curvatura de rio e mata em alas, caavuranas, cipó-d’alho, caaxiós, canela-preta, flores-da-cachoeira...
            Pelo ar, belo ar, ou nenhuma nuvem pendurada já no céu. Dia curioso, coisa com coisa, abafado, carapanãs teimosos impertinentes.
            Chegou a noite com grilos, piuns e...
            - Vuuu-vuuu!... Vuuu-vuuu!...
            Chegou uma noite enluarada com grilos, borrachudos e vu-vus! de corujas e tipos de corujas. O vento espantou o luar, soprou a lua, e deixou as estrelas mais brilhantes. Noite bonita, de grilos, morcegos, mariposas, mosquitos e vu-vus! de corujas, espécies de corujas.
            A noite estava completa. O dia acordou. Os passarinhos já cantavam, o sol saiu, os passarinhos cantaram com o sol, o sol pintou as cores, os passarinhos vieram com o sol.
            - Como foi que se soube?
            Depois da noite, ali pelas nove e vinte, dia seguinte, a menina chegou à aldeia dos índios terena. Estava de volta. E foi novamente recebida por curumins e cunhantains mais com seus bichinhos de estimação. Eles todos a viram chegar chegando e saíram correndo buscá-la, encontrá-la, recebê-la, entrevistá-la. Uma gritaria, uma risada coletiva, um pula-pula de contentamentos. Todos os dias se parecem com os primeiros.
            - Qual é?!
            - Vai ali!
            - Muito comum isso é.
            - Tem nada nem!
            Daí mesmo já foram brincar de subir em árvore e nadar no rio Sabia. Subiam na ibirapitanga, pulavam dos galhos para o rio, nadavam e iam se aquecer no tatá. Os curumins empurravam as cunhantains; as cunhantains corriam dos curumins; os bichinhos de estimação alguns tinham cuidado com a água. Uns bichinhos eram novos outros mais velhos e nativos.
            - Dribla, dribla!
            - Já vai ver!
            - Ainda nem cansei!
            - Vou nadar até ali, em!
            E Macunaíma? Depois de perder o namoro de Janaína, Macunaíma ficou perdido na floresta, no ar, na água, no fogo. Ficou esquecido. Ou quis se derreter. Nem queria mais namorar ninguém e nunca mais. E parece que nem mais namorou ninguém. Preferiu desaparecer como igual fantasma, se isolar quieto, ficar mesmo perdido por aí na floresta, se esquecer se ausentar junto à natureza dos deuses florestais, se mandar para junto da pedra de Ladainha. E nem, nem venha com essa!
            O pajé benzedeiro, homem cheio de segredos e remédios e poções, disse mesmo para a menina Lilás, correspondeu:
            - Cuidado com Macunaíma. Ele está em toda parte. É bom se cuidar. Ele nem aprecia mais ninguém como antigamente. Ele pode gostar de tudo, ou desgostar de todos. Ele pode ter virado um ente mágico e sem paciência. Ele pode ter virado em pássaro ave  sanã-de-samambaia. Ele pode ter virado mata-pasto.
            O cacique, homem de contar muitas lendas e dar muitos conselhos e ensinamentos, advertiu a menina:
            - Não esqueça que Macunaíma deixou as pessoas e adotou a floresta. Então, às vezes ele trata bem as pessoas que encontra por acaso e outras nem tanto. Principalmente, Macunaíma é teimoso e autodidata. Ele pode virar em tatu-bola. Ele pode virar em cumaru-amarelo. Ele de repente pode virar em rato-espinhoso.
            Uma quinta-feira, antes do sol nascer, metade dos índios índias e curumins da aldeia anacé foram nadar, foram para o meio do rio, era muito bom era bem cedo. Depois passaram a noite acampados perto do rio Purus. Era legal. Acordaram muito madrugadores. Todos para a água e ver os peixes possíveis e magníficos. Eram peixes os dourados, as piavas, as grumatãs... as tartarugas-da-amazônia e arraias e muçuns e ariranhas e cobras-verdes...
As crianças nadaram. Outras crianças nadaram. Curumins e cunhantains nadaram. Depois das crianças entraram os adultos. Os adultos nadaram com as mãos com os pés fazendo muita festa e se parabenizando.
            - Posso ver esse exercício?!
            - Hoje é dia possível!
            - Claro! Eu concordo e nado de braçada!
            - São três da tarde, já!
            Voltaram para a aldeia e fizeram uma grande festa de chegada. A lua Jacy olhou de perto, as estrelas Cejys olharam de longe, o sol Cuaracy olhou de olhos dormindo. Tupã olhava mesmo de dentro das árvores mais próximas.
            Foi de noite, em plena festa com muita fogueira e música, pamonha feita de milho, beiju feito de farinha de mandioca, guaraná e suco de açaí, que Macunaíma apareceu disfarçado de tracajá. Caminhava lentamente. As cunhantains e os curumins se assustaram. Lilás se assustou. Os adultos índios riram. As cunhantains e os curumins riram. Lilás se riu. Macunaíma veio rastejando perto do fogo tatá e disse, numa voz parecida com voz de jabuti com voz de jabuti:
            - Vacês nem vão assar as minhas irmãs tartarugas-da-amazônia, vão?
            Todos olharam para Macunaíma disfarçado de tracajá. Todos sabiam que era Macunaíma disfarçado de quelônio, mesmo assim alguns se assustaram, outros riram. Depois riram todos.
O cacique, sempre o índio mais corajoso da tribo dos ticuna, respondeu em nome de todos:
            - Que nada. Nem assamos nenhuma das suas irmãs de carapaça. Estão muito vivinhas na água do rio Tocantins. Pode ir lá e conferir. Estão nadando por conta própria e perto da praia. Livres como os pássaros do céu.
            Então, Macunaíma olhou para o lado que o cacique apontava para longe aceitou parece que aceitou a proposta e deu o fora. Macunaíma nem disse nada. Rastejou por aí pela festa mais um pouco mais uma hora se tanto. Depois Macunaíma foi embora simboralá! por muito devagar, rastejando, muita paciência, passo a passo, etc. Talvez chegasse ao rio ainda em oito ou nove horas, dias quem sabe, contagem regressiva ou progressiva.
            Lilás comentou com o pajé o mágico o plus ultra:
            - Coisa bonita e linda, né, seu pajé?!
            - E muito forte. E muito terráquea.
            Depois de um minuto, a menina Lilás retornou, emendou:
            - É, seu pajé, coisa muito forte.
            - Coisa bonita e linda e bacana - disse o pajé, chefe das garrafadas de remédio curativo preventivo.
            Macunaíma era mais que qualquer ser humano. Ele era mais que qualquer coisa. Macunaíma era como a planta trepadeira mão-de-onça ou o cipó-timbó. Macunaíma ia e voltava. Macunaíma desaparecia e reaparecia. Ele era um deus sossegado. Macunaíma era um diabinho elétrico. Ele era um peixe poraquê. Ele podia ser um pássaro tiê-sangue-preto. Ou até um índio guerreiro aruá.
E os curumins e as cunhantains ficavam perguntando para o cacique:
            - Aonde vai Macunaíma, com essa pressa?
            - Vai falar com os bichos lá na assembleia dos bichos em Jaborandi.
            - Foi fazer o que por que Macunaíma?
            - Foi conversar com o rio da Prata e perto de Saquarema.
            - Quem será Macunaíma, hoje em dia?
            - Pode ser um peixe-boi, pode ser uma árvore mata-olho, pode ser uma erva-de-anta, pode ser uma ave uirapuru, pode ser um gavião-carijó, pode ser uma iguana. Pode ou nem pode? Pode qualquer coisa que ele desejar ser. É um ente magnífico, hem?!
            Na manhã seguinte, metade da aldeia, incluindo índios e índias adultos, curumins e cunhantains, foram ver o eclodir dos ninhos de tartarugas-da-amazônia. Muitas e muitas tartaruguinhas brotavam da areia da praia do rio e saíam andando para o rio. As ondas das águas do rio Trombetas quase que as afogavam. Uma maratona correndo para as águas do rio. Muitos predadores pelo caminho, aves como o mutum, a garça-branca, o joão-grandão, o gavião-pescador, e a ariranha, e a família da ariranha. Lilás e as cunhantains e os curumins ajudavam a salvar o que podiam. Uma boa porção de filhotinhas nem sobrevive a tantos e tantos predadores.
            - Por que a praia de Itaipu foi feita em Niterói?
            Depois dessa hora as crianças corriam buscar o cacique e perguntavam:
            - Aonde vai levar o rio Paranaíba?
            - Macunaíma hoje é filhote de lambari. Por quê? Amanhã é abelha jandaíra no enxame, por quê?
            E todos ficavam espantados e com muita surpresa nos olhos esgazeados e na cara fixa. Nunca podiam imaginar que Macunaíma fosse se transformar em peixe pequeno em abelha. E logo hoje.
            - Está ótimo bom ou regular?
            - Conforme.
            - Pois eu talvez.
            - Vai saber, né, meu?!
            - Uns deuses das águas dos matos próximos nem são os meus os teus os seus.
            - Outros dias em pós...
            No fundo mais bonito do país de Roraima, oi!... ficava a bonita montanha verde chamada Roraima. Era uma montanha gigante, uma imensa pedra verde, uma enorme pedra rocha. E do seu tope se via tudo até para muito distante. Uma montanha verde, acima do verde da floresta, deitada de comprido esticada, bem acima do normal. Para os índios kamaiurá, o lugar da montanha era um lugar sagrado e bonito e surreal. Um lugar oblíquo.
Lilás e companhia foram até lá. A menina Lilás foi até lá. E avisou, declarando:
            - Nunca vi montanha igual. Montanha assim parecida com árvore dormindo ou tombada ou deitada de lado. Merece ser algo muito muito sagrada.
            - É mania mesmo.
            - Para quem viaja de disco voador um discoporto. Com vista superpanorâmica para a maior floresta do mundo.
            Uma vez ou duas por ano, os índios tape iam até a montanha visitar a montanha e levar presentes para a montanha sagrada divina. O monte Roraima era o mais sagrado. Os índios e índias e curumins e cunhantains gostavam muito de fazer essa excursão. Na trilha do mato. A aldeia ficava deserta, abandonada, solitária e iam todos. Na frente o cacique o índio mais sábio e o pajé dono dos espíritos do chão do ar do céu. Por último alguns guerreiros para cuidar de apagar as pegadas deixadas pela tribo. Iam todos de mudança para morar alguns meses na montanha sagrada, ao pé da montanha verde o tope mais alto do mundo, de muda levando mala e cuia.
            19h e 41min, o sol saiu despiu banhou deitou dormiu acordou às 5h e 14min.
            Um dia ou dois ou dez de caminhada e chegavam. Viram a montanha e já ficaram admirados, arrepiados e alegres e cheios de esperança. Era uma montanha bonita e linda e assustadora, ao mesmo tempo. Tanto de longe como de perto. De dia ou de noite. Pareceu um índio gigante deitado dormindo no meio da floresta e pensando. Pareceu uma árvore gigantesca deitada e empedrada e imaginando. Era mesmo um colosso de pedra basáltica.
As crianças insistiram com o cacique, perguntando:
            - Parece Macunaíma, nem parece?
            - Como se fosse Macunaíma, nem é?
            - Eu acho que é Macunaíma, ou nem?!
            - Vou dizer que posso estar enganado mas parece mesmo um Macunaíma, é!
            Quando a tribo chegou ao pé do monte Roraima, ninguém notou a diferença entre montanha de pedra e homem gigante de pedra e árvore gigante empedrada. Era tudo um obstáculo quilométrico e de rocha vulcânica.
            - É bom acender algumas fogueiras, então!
            E naquele dia a montanha estava praticamente quieta. Pareceu, pelo menos, estar muito calma sossegada. Pareceu só uma grande montanha sagrada um paredão. Uma gigantesca pedra verde de elite. Mas era uma grande montanha sagrada sagrada. E todos os índios sapará tremeram de emoção arrepiaram. E a montanha pareceu parecia falar ou fazer sonhar. E todos já entendiam ou ouviam. Portanto, os espíritos gostam de se alojar nos montes altos.
            - Nem é uma maravilha de muralha, em?!
            - Eu nem sei explicar melhor. Eu acho.
            - São 14 horas e tudo vai bem. Vamos dançar em volta do fogo.
            A tribo caiapó-pau-d’arco acampou perto de uma grande árvore guararema. Comeu beiju, comeu pamonha, comeu pequi, comeu piruruca ralada e cozida, bebeu guaraná e tomou açaí. Comeu pitanga, comeu araçá, comeu araticum, comeu tapioca. Depois tocaram o boré, o maracá, a inúbia, o atabaque, fizeram festa e falaram com os deuses. E gritaram muito. Os índios se vestiam com seus melhores adornos e botoques. Os índios e índias se enfeitavam de desenhos e de colares de caroços de coquinho miçangas.
            - Eu aterrissei no Pão de Açúcar. Eu subi no Corcovado. Subida subida correntes quentes. Eu sou sanã-ocelada e voo até Santa Teresa no Espírito Santo.  
            Um instante e a terra tremeu de frio ou calor. A tribo catuquina inteira arregalou os olhos deixou a boca aberta. A tribo inteira também ficou arrepiada. As árvores ali na floresta estremeceram. Os bichos gritaram e saíram correndo para todo lugar para todo lado. E as aves decolaram com os olhos cheios de dúvidas. Por que a terra trepidou? O pajé entendido dos espíritos do mundo todo respondeu, ainda em calafrios:
            - Foi Macunaíma que se sacudiu todo assim. Macunaíma é a montanha. A montanha é Macunaíma. E está acordando ou se revirando no leito. Parece que se agita. E os ocupados somos nós?!
            Pronto. Aí toda a tribo cinta-larga olhou para Macunaíma, ou melhor, para o monte Roraima acordando. E a montanha já se erguia e se espreguiçava e fazia um ronco se espreguiçando, e se levantava soltando cacos e poeiras e ciscos e fragmentos, bocejo:
            - Aaaaoooffffeeee!...
            O suspiro da montanha fez um vento de derrubar algumas árvores e varrer todas as nuvens do céu do céu. Um perigo para os pequenos humanos e etc. Por isso foi como um furacão ou tufão. Caiu muita árvore muita planta fedegosos-dos-jardins, apavorou todos os pássaros, derrubou mais da metade da tribo taurepangue no chão.
            Ninguém foi perguntando nada, mas todo mundo da tribo uru-eu-uau-uau viu o que aconteceu depois. Macunaíma, um gigante de pedra, praticamente a montanha Roraima inteira, andou até o rio mais próximo, e quando andava o mundo tremia e trepidava, andou até o rio mais próximo e bebeu quase toda a água que passava naquele momento. Muita sede se viu. Depois de se saciar, o gigante de pedra Macunaíma ou Roraima ainda lavou o rosto e as mãos e os braços e molhou os cabelos verdes encaracolados feitos de cipós e lianas esverdeadas.
            Macunaíma vestido na pele da montanha verde. Nem adiantava achar que era sonho ou teatro. Nem, era tudo muito real e natural. A montanha andava, isso sim.
            - Parece alguma coisa do outro planeta, olhe!
            - Depois de ir e vir as gentes serão plantas bichos e os bichos serão plantas e as plantas serão aves e pássaros.
Depois de lavar o rosto, Macunaíma olhou em volta procurando o que fazer. Aí ele mesmo percebeu que era muito gigante para aquele mundo. Olhou em volta e viu a tribo dos botocudo ali embaixo, toda apavorada e minúscula. Olhou, passou as mãos no rosto, parecia procurando algo, parecia pensativo e disse, a voz era de trovão rugindo retumbante, vento muito forte:
            - EU ACHO QUE TIVE UM ENORME SONHO MONTANHOSO PEDREGOSO!
            Então, Macunaíma fez uma mágica qualquer e foi diminuindo diminuindo e ficou do tamanho de um índio adulto normal de um metro e oitenta e cinco centímetros. Achou uma altura boa e parou ali. Perguntou quase com susto, quase humano, quase pessoa:
            - Que que vocês todos vieram me acordar, hein?! Se parecem com as formigas os cupins as mutucas! Eu acho vocês muito pequenos!
            O cacique ficou calado, o pajé adivinhador ficou calado, os guerreiros ficaram calados, as índias ficaram caladas, os curumins ficaram calados, as cunhantãs ficaram caladinhas, a menina Lilás nem teve ânimo de falar, os bichinhos de estimação ficaram calados, todos da tribo macuxi ficaram calados, a floresta nem abriu a boca, os insetos nem abriram as asas, os pássaros nem abriram os bicos as asas, o rio passava passando muito calmo, ninguém falou nada, nem cascata caiu nem cachoeira riu. Todo mundo nem queria enfrentar a justiça do Macunaíma entidade da floresta da natureza. Até porque ele pega pesado quando quer.
            Nesse momento aí, Macunaíma sentiu fome e quis comer:
            - Que vocês têm aí que é bom de comer? Posso ver? Deixe cheirar.
            O cacique respondeu em nome da tribo caiapó-metuctire:
            - Tem muito doce de abóbora...
            Macunaíma respondeu, já interessado ou guloso:
            - Nem me diga! Já vou querer tudo tudo! Que tem mais?
            - Temos mel de muitos sabores e procedências e tipos de abelha...
            Macunaíma parecia um pouco ansioso:
            - Nem gosto de comer o mel das abelhas! Onde se viu? Logo eu comer a comida das minhas protegidas, hein?! Pare e pense, né, meu!
            O surpreendente o mágico Macunaíma era um... espetáaaaculo! Ele entendia de tudo. Sabia todas as respostas do nem do sim do talvez. Ele sabia antes de acontecer. Foi aí que Macunaíma disse o que queria. Ele era poderoso e tinha o mundo nas mãos:
            - Eu quero comer... beiju! Tem beiju? Adoro beiju! Eu quero comer... pamonha! Tem pamonha? Adoro pamonha! Vão colher açaí! Quero comer açaí! Adoro açaí! Tigelinha transbordando açaí.
            A tribo respirou aliviada. As índias correram atender Macunaíma, preparar beiju e pamonha e açaí até ele nem querer mais. E a tribo dos coroado ficou amiga do Macunaíma. Pelo menos dessa vez. E a natureza toda respirou em geral e agradecida.
            Macunaíma ficou com a tribo caiapó-aucre, ali de noite e de dia, até cansar de comer beijus, pamonhas, açaí, doce de abóbora. Comeu de manhã, de tarde e de noite. Enjoou. Disse que ia embora, nem foi. Um dia disse que ia embora, nem foi. Um outro dia prometeu ir embora perto da noite, nem foi, vai ver esqueceu. Mais outros dias e todo mundo pensou que ia embora, nunca foi. Ele o dono do dia da hora de tudo. Deitado na rede na esteira. Depois uma semana que todos nem pensavam que podia ir embora, nem foi. Um belo dia sumiu e ninguém viu e foi mesmo.
            Lilás e outras cunhantains e outros curumins perguntaram ao pajé consultor dos astros e estrelas e pedras e sombras e voos:
            - Aonde foi Macunaíma?
            - Foi beber água na itaipava.
            E as crianças ainda insistiram:
            - E por que nem voltou ainda? Quem sabe? Quem pode?
            - Porque, decerto, vai almoçar e jantar por lá. Deve ter muito que fazer. E ocupado.
            Depois desses dias ao pé do monte Roraima, a tribo dos índios e índias capixaba voltaram para a aldeia antiga. E retornaram em fila indiana os mais velhos na frente. A aldeia toda as coisas da aldeia nas costas. Conversando alto para passar rápido o tempo mais e sempre em frente andando andando.
            - Três anos se passaram.
            - Três meses se passaram.
            - Três primaveras se passaram, é.
A menina Lilás achou que já estava na hora de aparecer em casa. E a menina deixou a tribo dos tuxá e voltou. E retornou para casa o bairro Coqueiros em Florianópolis e a ponte Pedro Ivo Campos, seu próprio lar e de outros seres. A planta dos pés a palma das mãos andando.
                                                                       77
            Quando Lilás se levantou o dia já ia indo e estava claro. Quando Lilás se levantou os pássaros já trabalhavam. Principalmente porque já era domingo. Um cão olhava o mundo e o mundo nem precisava parar para pensar. E um sol com poucas nuvens dizia muito. Passarinhos se balançavam nos galhos da gameleira-branca, nos galhos mais altos também. Correntina, Sonora e rua Cel. Veiga em Petrópolis também com sol físico.
            - Quantas horas já são?
            - Que fuso horário?
- Horário de verão?
            Quando, outra hora, ou dali várias horas, a menina chegou na casa da avó, a avó estava em casa, a avó estava na varanda tomando café e comendo bolinhos ou biscoitos ou bolachas ou salgadinhos ou cuca ou torta ou outros doces em geral. Cada dia tinha uma novidade que ela mesma fazia. Podia ser tapioca. Nem demorava muito fazer.
            No quintal da avó cantavam alguns passarinhos, barbaridade! outros voavam daqui prali, de lá pracá, etc, decolavam, pousavam, pássaros que ziniam, coleirinhas, chupins, tico-ticos, inhambus, sanhaços, beija-flores-safira...
            - Quem canta assim, vovó?
            As duas silenciaram para escutar o canto do tal passarinho:
            - Tiotiotiotiotiotio-ovrrrrriiiii!...
            A vovó ouviu algumas vezes mais, pensou, ficou satisfeita, um bocadinho de cuca, de trinta em trinta segundos o passarinho repetia o assobio, o trinado, um golinho de café com leite, depois a senhora respondeu:
            - Ah, é o sabiá-laranja! Todo sabiá canta diferente, sabia?
            - Sabia que o sabiá sabia assobiá!
            A menina Lilás experimentou um biscoito de polvilho com suco de abacaxi. Vovó foi olhando para longe, além da copa das árvores do quintal, paineira, maria-mole, avenca, leiteira, canela, cabreúva... Um instante e já estava com os olhos nem se sabe lá onde. A menina solicitou vovó:
            - Vovó, onde a senhora foi e por quê?
            - Eu estava pensando uma lenda. A lenda da mandiba. Já te contei?
            Duas vespas muito grandes e de listras amarelas e pretas faziam casulo debaixo da aba da casa. Iam e vinham carregando qualquer coisa que podia ser porçãozinha de barro, barro com palha ir e vir ou coisa muito próxima semelhante.
            - Na aldeia tenetehára existiam muitos curumins e cunhantains. Até aí tudo natural e normal e comum e básico e genérico. Aldeia engraçada, movimentada e de muito movimento social, muito bom gosto. Em todas as aldeias existem muitas crianças. Mas também viviam ali dois curumins importantes, irmãos gêmeos: o Macunaíma e o Mandibaru. E uma cunhantã chamada Janaína. Eles três nasceram no mesmo dia, lua, ano e etc. Nasceram até na mesma hora: cinco horas da matina madruga. Nasceram quando os passarinhos começavam a algazarra do nascer de um belo dia justo 25 em setembro de 1989. Janaína era prima dos irmãos gêmeos Macunaíma e Mandibaru. Tinha uma música de choro coral no ar “buuu-aaah!... buuu-aaah!... buuu-aaah!...”
            O dia fazia sol, ali pelo quintal da vovó, esparramado pelo espaço aéreo, etc. No pátio aquelas manchas soltas de luz, manchas de sombras se movendo, sombras, luz, cinquenta por cento de quintal na sombra, outros cinquenta no sol. O mundo todo tremia de calor parado, mormaço, sonolência. As nuvens brancas, e poucas, passeavam à vontade lá por cima, conquistavam lugares, Cônego Marinho, Itarana, Cocos, ilha de Boipeba... pois ainda nem tinha amanhecido em Januária, Paulo Lopes, praia de Fora... Se ouvia pelo ar até barulho de insetos diversos, bizzziuuu!... Se via joaninhas tentando pousar nas folhas do araçazeiro. Borboletas pintadas em manchas pretas e vermelhas pousar no chapéu-de-couro. O quebracho-branco verdejava. Os juncos-bravos eram familiares associados em um ótimo juncal. Então, domingo era um dia de primavera grande e temperatura.
            - O bom disso tudo era que Mandibaru tinha o cabelo branco, muito branco, da cor do papel branco. Macunaíma tinha o cabelo preto. Janaína, filha do cacique, filha da deusa Iara, tinha o cabelo bem preto e longo e liso.
            - Por que Mandibaru tinha cabelo tão branco? Era diferente.
            - Por quê? Então, nem se sabia. Tupã, deus para os índios, inventou.
            - Então, Mandibaru era muito estranho na tribo dos guaraio. Deve ter sido.
            - Pois foi também o que Janaína achou. E todos da tribo guaicuru acharam que ela devia casar com Mandibaru ou Macunaíma.
            - Janaína já sabia com quem casaria? Já estava programado e previsto?
            - Ela mudava de pensamento como se fosse o vento. Um dia gostava de Mandibaru por causa dos seus cabelos brancos. Outro dia gostava de Macunaíma por causa dos seus cabelos pretos. Um dia gostava Macunaíma porque ele sabia achar as melhores frutas do mato e melhor que Mandibaru. Um dia gostava Mandibaru porque este subia em árvore mais rápido e melhor que Macunaíma. Eram umas dúvidas difíceis que ela tinha. Um dia adorava Macunaíma porque ele corria como uma lebre. Um dia adorava Mandibaru porque ele nem tinha medo do escuro. Uma vez admirou muito Mandibaru porque ele nadou muito bem. Uma outra vez admirou muito Macunaíma porque ele sabia pintar o corpo com desenhos parecidos da onça-pintada. A dúvida dela, Janaína, era de cinquenta por cento. Mas também havia tempo tinha tempo.
            De súbito, umas três ou quatro ou seis borboletas, borboletas-azuis, desceram do céu e chegaram por ali no pomar da avó. Voavam quase levadas pelo vento calmo. Pareciam papéis de festa de carnaval, tontas de espaço, tontas de céu azul nas costas, tontas de luz forte, tontas de manchas de sombras. De onde para onde, e procurando. Plantas postadas, flechilhas, flor-da-esperança, nhamburis, couves-cravinhos... sempre em guarda.
            - E eles três, muito amigos, faziam várias brincadeiras juntos. Foram crescendo muito juntos e espertos. Mandibaru chamava mais atenção por causa dos cabelos muito brancos. E eles andavam no tereterê, nadavam na lagoa, pulavam dos galhos das árvores dentro da água, sabiam formigas jejás, sabiam cigarras, sabiam escaravelhos, sabiam tudo que se movia. Eles brincavam de imitar onça-parda, macaco-de-cheiro, macaco-prego, tatu, gambá, peixe-boi, caapora e até mesmo o impressionante caapora.
            Vovó estava manducando um bocadinho uma bolachinha maria. Um golinho de café com leite adoçado com rapadura. A menina agarrou duas três bolachinhas salgadas, sorveu um gole de suco de pequi. Ali pelo meio do pomar nambu voou baixo e outras coisas. Sol bonito, cheio de força, etc e tal. Sol que brilhava em festa das cores. Sol, como moeda de ouro, preso a um balão azul de festa de aniversário. A natureza estava um jogral?
            - Vamos calcular o mundo? Um grande dia, a filha do cacique, a filha da deusa Iara, a Janaína, amanheceu grávida e misteriosamente grávida. Ela já tinha treze ou quatorze anos. E apareceu grávida. Foi um escândalo um incêndio uma sensação. Era muito novinha. Ninguém da tribo xikrín estava preparado para essa novidade. Ninguém mesmo. Foi uma novidade, um sucesso, uma agitação por toda a aldeia, comoção, comoção. Ninguém havia dado permissão para Janaína namorar quem quer que fosse. A notícia se espalhou universalmente. Todos da tribo ficaram esquisitos. Todos se reuniram no centro da ocaruçu. Iam decidir coisa séria.
            Muitas borboletas, e borboletas-brancas, apareceram se exibindo no meio da luz do dia muito claro. Eram dezenas de borboletas-brancas, muito parecidas, invadindo o pátio da vó. Saíam das sombras e ganhavam o espaço aberto de luz para todos os lados. Balançando em pleno voo. Borboletas magníficas e raras. Umas vinham de longo percurso de longe em longe de Potengi, talvez Presidente Nereu ou Atalanta ou Itacarambi. Eram duas três etc.
            Pudim de leite condensado e sagu. Depois, sagu. Após, mais pudim. Sagu com pudim. Era muito. Era pedir demais. Era muito bom. Era perfeito. Ninguém imagina.
            - A Janaína declarou que nem tinha namorado ninguém. Janaína dos olhos abertos e lindos falou que nem sabia como tinha ficado grávida. Janaína disse e disse de coração “só pode ser um feitiço ou uma abusão ou um sonho ou um quebranto”. Janaína nem sabia de nada. Até jurou que podia ser o boto da beira do rio Paraguaçu. Cunhantã que conhece boto numa festa geralmente passa por isso. É o que dizem. É possível e é normal e realmente nem tem nada de mais. Nem nada a ver.
            - E o cacique e a deusa Iara, pais dela, ficaram do lado dela?
            - O pai de Janaína, o cacique da tribo amaribá, até desanimou um pouco. Nem esperava ser avô tão cedo, isso sim. E o cacique sempre foi até mais longe: queria que a filha estudasse muito e mesmo a faculdade da UFSC. Hoje em dia é assim.
            - Então foi tudo antes do tempo, meu?!
            - E não qué?! Mas foi por aí que o pajé, que conhece o movimento das nuvens, foi falar um conselho para o cacique e falou para o cacique: “Nem brigue com sua filha, pois ela é nova e realmente nem sabe de nada. Vai ver, é muita sorte! A sorte nem se explica!”
            Vieram do chão da terra avermelhada uma porção sem conta de borboletas, borboletas-carijós. Agora sim invadiam o terreiro da vovó e etc. E do pé de manacá umas quantas borboletas, as borboletas-do-manacá. Borboletas importantes e tontas e engraçadas e pintadas novas em folha. Borboletas que duram quinze dias uma semana dois meses. Tem borboleta que serve muito para pintar o ar.
            - Nove meses depois nasceu um bebê muito branco, branco mais que o branco, branco como papel branco, branco como a luz branca, branco como uma coisa qualquer superbranca. E a Janaína, mãe solteira, mãe de primeira viagem, gostou do filho e lhe deu o nome de: “Mani”.
            A vovó gostava de bolachinhas com café e leite nas tardes, todas as tardes. Sentar nas tardes, diante das tardes, na sua cadeira de balanço preferida. Era tudo muito calmo e o horizonte. Era tudo que queria. As tardes da vovó eram tardes calmas de segunda a segunda e de terça a terça.
Entre os pés de araçás, por ali, mais ali, um par de emas, pai e mãe, levavam os filhotes para comer araçás no chão. E quase toda a família assobiava ou comia. E toda a família só pensava em comer araçás e comia ou assobiava. Estas emas tinham características das emas da região de Lucas do Rio Verde ou Ituporanga ou Água Doce. Era uma família doce pacífica e que tirava férias escolares em a praia da Guarda do Embaú.
            - Em pouco tempo o menino branquíssimo Mani já estava falando. Parecia muito esperto e precoce. Era muito bonito e diferente. Cabelo branco, pele toda branca, olhos brancos, tudo muito branco. Era uma atração na aldeia apinayé. Vinham índios e índias de outras tribos da vizinhança para ver o bebê branquíssimo. E vieram os índios araxá, os índios carijó, os índios pato, os índios caiapó-gorotire, os charrua, os coroado, os reriú... E viam e achavam fora do comum. Uns achavam que era coisa dos espíritos bons, outros que era coisa dos espíritos estranhos estrangeiros alienígenas. Uns achavam que o menino branquíssimo, o Mani, tinha vindo do espaço da lua de Marte. Outros que tinha vindo de uma gruta ou uma caverna ou uma lapa ou um oco de árvore figueira ou árvore caaxió ou oiticica. Uns outros ainda achavam que ele tinha nascido de uma garça-branca ou garça-branca-grande ou garça-branca-pequena. Era uma democracia de opiniões.
            Caíam folhas verdes, caíram folhas secas, pois na verdade eram borboletas, e borboletas-folhas ou borboletas-folhas-secas. Caíam de qualquer árvore, de quaisquer alturas, pitangueira, chapada, pirapeuaua, goiabeira-do-mato, gaviroveira... e antes de atingir o solo viravam borboletas coisas aladas. Nadando no ar, pedalando no ar, batendo asas no ar. E ganhavam espaço e luz. Era a época e o país das borboletas. Penso que sim.
            - Quando Mani completaria um ano de vida aconteceu uma muito grande reviravolta. No dia do primeiro aniversário de Mani, Mani morreu. Morreu misteriosamente. Todo mundo foi pego de surpresa. Morreu sem que tivesse nenhuma doença, sem ferimento, sem dor, sem gemer, sem dizer aiaiai!, sem febre, sem dor de dente, sem suicídio, sem assassinato, sem contrair nenhum vírus, sem chamar a mãe, sem chamar a avó índia. Morreu misteriosamente. E seu espírito me parece que sumiu antes do corpo, é.
            Lilás apreciava pedaço de torta com suco de caju. Vovó molhou a bolacha no café com leite, levou à boca, cara muito satisfeita. O olhar da vovó, às vezes, ia até o horizonte e parava e se esquecia, se demorava um instantezinho, depois voltava, voltava lentamente. Que coisa feliz embaixatriz era tomar suco de abacaxi com bolachinhas de chocolate, meu!
            - E Mani foi enterrado perto da oca de Janaína. E todo dia ela ia olhar o canteiro do filho. E todo dia ela ia olhar e chorava, chorava muito. Todo dia, então, ela regava com lágrimas o jardim onde estava enterrado o filho, emotiva. E Janaína nem podia fazer outra coisa além de chorar muito olhar muito molhar muito. Acontecem os dramas no mundo, se sabe se precipitam.
            Pareciam números, pareciam borboletas bordadas, eram borboletas com números nas asas, números bordados, borboletas-oitenta. Dia de borboletas. Hora de borboletas. Invasão de borboletas. Pátio da vovó tomado de borboletas. Nação das borboletas. Umas parecendo borboletas de inspiração, feitas de imaginação, ou feitas de visões. Borboletas de cores mágicas, brilho metálico, som nenhum, bater de asas e nenhum ruído. Borboletas para dar o exemplo de milagres. Borboletas como ideias aéreas espaciais. Muito flutuantes.
            - Meses e tanto depois nasce, ali do canteiro do jardim onde o menino branco fora enterrado, uma plantinha verde ou até meio avermelhada mais para verde. Outro susto, outro preconceito. Janaína olhou aquilo, estranhou, pensou, falou consigo: “Achou melhor mostrar para todo o mundo da tribo mongoió”. E todos respiraram fundo. E todos disseram para ela cuidar, regar, esperar, torcer, etc. Depois de uns poucos meses a plantinha já tinha três metros de altura, verdinha, flores amarelinhas e miudinhas. Umas semanas mais e, uma tarde de muito sol, Janaína foi ver e a plantinha parecia pedir água água. Janaína deu mais água doce. E a plantinha pedia mais e mais água doce água doce. “Que que acontece?”, se assustou pensando alto a Janaína.
            Vovó mastigava uma bolachinha água e sal muito crocante, um gole de café com leite, satisfeita, bolacha crocante. Umas abelhas vinham buscar açúcar no bolo de chocolate, ou na torta de amendoim, na torta de chocolate com recheios de amendoim. Umas borboletas de prata, outras de ouro, mais outras ainda de ouro e prata, vinham cheirar o açúcar das bolachinhas de chocolate recheadas com doce de moranga. E a menina Lilás gorjeou:
            - Que que acontecia com a plantinha, vovó? Que tipo!
            - Acho que a plantinha pedia para ser arrancada. A plantinha parecia sufocada. A plantinha se sentia já adulta, no ponto e queria outra vida. A plantinha queria virar outra coisa. Queria saltar fora da terra roxa. Virar opção de alimento, por exemplo. Manjar dos deuses. Manjar dos guerreiros. Manjar dos índios e índias baenã. Manjar do mundo inteiro.
- E como foi isso? Alguém acreditou nisso? Alguém já sabia? Como é?
- Foi que Janaína decidiu, num golpe de sorte, arrancar a plantinha libertar as raízes da plantinha. E olhando com calma descobriu que a planta tinha raízes muito poderosas, raízes ótimas, raízes tuberosas, raízes inchadas, raízes boas de comer e fazer comidas. Foi bom porque havia uma grande carestia de alimentos e vitaminas. Foi bom porque o cardápio também variou e incrementou. Janaína deu o nome de Mani-Oca. Mani, seu filho, enterrado perto da oca.
- Mandioca! Mas isso é um milagre, meu!
- E mandioca virou comida de todas as gentes, de todas as tribos. Mandioca-doce, mandioca-brava, aipim, macaxeira. Mandiocal, aipinzal, macaxeiral. Caxiri ou cauim, as bebidas que vêm da mandioca. A farinha de mandioca para fazer tapioca e beiju e outras comidas.
            - Vovó, como pôde Mani renascer na forma de mandioca?! Isso pode mesmo? Nunca vi. Faça o favor!
            - São acontecimentos muito misteriosos e perfeitos. É preciso muita calma para querer explicar, ou até querer entender. Assim. Os anjos lá pelo céu, entre nuvens, perto do céu, esses anjos ou anjas, recolhem a alma dos que morrem. Depois outros anjos ou anjas vão até o depósito dessas almas e as trazem de volta. Nessa ida e vinda, as almas de gente viram almas de plantas, de arbustos, de ervas, de árvores, de borboletas, de peixes, de aves, de insetos, de lagartixas, de jabutis e até de sacis. Tudo vai e volta. A alma se separa mas logo volta em outro lugar. Nem tem como desaparecer. Tudo vem e vai e vem. Os pajés donos dos sonhos entendem que o corpo é finito mas a alma infinita. Vai saber!
            Vovó bebericava com calma, muita paciência, seu café com leite. Molhava bolachinha no café com leite. Olhava a netinha. Olhava o dia. Olhava o quintal onde despertavam borboletas, borboletas-espelho. Olhava uma palmeira mucuri subindo direta para o azul do céu. E o sanhaço por ali, acompanhado da esposa, acompanhado dos filhotes, família.
            Bem meio-dia. Doze horas e nem mais ou menos. O sol amarelo e superquente. Os passarinhos quase de bico calado. Tinha avião que passava lá por cima e voavam desde Viçosa para Uruguaiana, desde Joaçaba até o bairro Bom Abrigo em Floripa. A igreja de NS da Lampadosa cantava em coro.
                                                                       77
            O clima parecia firme e paciente e verde; nem quente, nem frio, nem lá. Sol pintado de amarelo desde o crescente fértil. Sol todo metido a muito bom e, bam-bam-bam!... O sol subindo sem reparar por nada deste mundo. Dia calmo e proveitoso e passageiro e solidário. A temperatura e o dia e o sol: distraídos de nada ou tudo. E mais ou menos algo assim como o comum. E assim por diante desde sempre. E você sabe e está acostumado.
            Quem sabe onde anda Lilás? Talvez acho que em museu Solar Monjardim ou praça Heliodoro Balbi ou pana do Vale do Rio do Peixe...  
            O tempo nem tem idade, nem tem cor, nem tem endereço, muito menos cérebro. Mas o tempo tem uma idade total, uma cor de areia da praia, um endereço em todo lugar, um cérebro de ideias ligeiras. O tempo é invisível, também. Mas o tempo é visível. O tempo é de pedra, água, sol, sal, café e vento. O tempo nem passa. Mangue-do-pará é tempo. Avenca-da-terra marca o tempo. Xem-xem é um tipo de tempo.
E passou duas horas, dois dias, duas semanas, dois meses da última visita de Lilás a sua avó. A floresta anda sempre de verde. A menina sentiu saudades. O tiziu à toa.
            Lilás estava no quarto lendo um livro contos capítulos parágrafos estrofes estribilhos. Uma história de aventura enredo mirabolante. Ouviu ou leu alguém falar da vovó. Sentiu saudades memoráveis e que nem passavam.
            - Quer saber?! Vou ver minha avó! E fui!!
            Lilás cruzou a porta, passou da porta, desceu alguns degraus da escada da área, saiu de casa e entrou lá para fora na rua, a partir da praça Joaquim Manuel de Macedo do bairro Itaboraí. Era o começo do mundo. Sempre gente que começa o mundo assim: anda na rua Tomás Antônio Gonzaga e conjurado inconfidente.
            Um dia, uma tarde revoltada com o clima e a temperatura e a altitude e a umidade relativa do ar. O redemoinho sem pernas, tonto, redondo, sem saber ele mesmo para onde se atirar ou parar nem parar de acontecer saci-cererê. Que mundo estranho nós moramos!
            Lilás atravessou a rua correndo. E correndo mais que a chuva caía.
            - Perfeitamente, senhor! Bom mesmo! Hiperbom!
            A menina entrou com o vento lá para dentro da casa da avó. Vovó estava na cozinha preparando pudim de leite ca-ra-me-la-do. A casa com gosto de pudim, a cozinha muito mais, dava água na boca. Pela janela envidraçada se via o dia muito agitado com chuva e vento. Árvores tontas cabelos ao vento. Árvores desequilibradas, mamona, sabugueiro, rabo-de-foguete, indaiás, guaçatungas, abricós-de-macaco... Só faltava morar em Curitiba.
            Chovia no lugar. Chovia nessa parte aí do mundo. Chovia chuva que D deslocava. A chuva e o vento casados e unidos. E o casal do tempo zombava, zoava, zumbia, zunia, zonzoneava. Era crise dos elementos? Que nada, que esperança!
            - Olha a gameleira-de-pinga como dança que contradança balança! Olha a leiteira como se sacode perdeu o chapéu a sombrinha! - dizia a menina para a avó, olhando através do vidro transparente da vidraça.
            Vovó virou a forma do pudim no prato raso decorado com imagem de carreteiro antigo. Saiu inteiro e bonito e perfumoso e quentinho. A nuvem de vapor doce. A menina sentiu a boca pedir água. Avó pediu tréguas até uma hora para esfriar, se possível. Depois vovó serviu a menina, e se serviu. Coberto com casquinha cor caramelo muito doce. A colherinha aprofunda o doce, e chegou até a boca:
            - Hum!... Quer ouvir a lenda do guaraná?
            - Hum!... Que bom!
            - Hum!... Todo mundo conhece...
            - Hum!... Conta esse...
            - Hum!... Era uma feita...
            - Hum!... Supermaneiro...
            A senhora avó levava pacientemente a colherinha até a boca e hum!... Avó de braceletes nos dois braços fazendo os barulhinhos, tilim!, tilim!... relógio digital com mostrador exagerado no pulso esquerdo vestido novo cor verde combinando com pequenos traços de amarelo e poucos traços de azul sorriso de sempre entre uma colherada e outra olhos atrás de óculos de grau, etc.
            A menina terminou logo a porção. A menina desejou outra porção. Vovó serviu outra porção à menina, e se serviu também com mais um bocadinho. Era um sacrifício. Eram dos deuses acomodando. E tem gente que gosta muito de doces.
            - Guaraná da Amazônia. Uma planta que nasce lá na floresta Amazônica. E você já ouviu falar, certo?! Convenhamos.
            - Hum!... Ouvi falar e recomendo, vovó.
            - Guaraná é energia, colabora e provoca a longevidade, cura a preguiça. O guaraná faz refrigerantes, bolos, tortas, pudins, bolachas, biscoitos e outras coisas legais. É um prazer dos sentidos. É um alimento popular. É reconhecido pelos autóctones parintintim.
            Chovia ali fora da casa da senhora. Chovia aquela chuva sem nada, tímida, fina e lenta. Mais vento que chuva. Um vento sem pé nem cabeça e descabelado. As flores se trancavam em casa, os passarinhos se trancavam em casa, os insetos se trancavam em casa, os besouros se trancavam em condomínios muito povoados apertados. Uma chuva um vento que iam e que voltavam revolucionando. Eram umas talvez quatorze horas, e pareciam já 20 horas.
            - A aldeia dos índios karapotó. Onde tem aldeia de índio, felizmente, tem um belo rio passando, rio Passo Fundo, rio Retiro, rio Paraná... Ou até um lago estacionado. Em toda aldeia tem um ou mais rios ou lagos ou lagoas ou balneários ou estações hidrominerais. Os índios precisam nadar andar de canoa e tomar banho todos os dias. E nessa aldeia karapotó tinha de tudo um pouco. De tudo que índio gosta e aprecia e mais um pouco. Um lugar assim só podia nem constar no mapa.
            A vovó olhou para a menina, sua neta, a Lilás, e até sorriu apreciativa. A menina gostava mesmo de pudim de leite ca-ra-me-la-do. Coisa mais séria e importante do mundo, no momento. Nem só no momento, mas no sentimento.
            - Uma índia teve um menino diferente, ou seja. O menino tinha uns olhos muito grandes e negros, pretos como carvão. O menino chegou mesmo a assustar quando nasceu abrindo os olhões esbugalhados saltados. O bebê curumim tinha ainda os cabelinhos vermelhos, e por causa dos cabelos vermelhos o chamaram de... Guará. Guará quer dizer vermelho, em tupi. O pai do curuminzinho de cabelo vermelho e olhões pretos arregalados, disse: “Eu nem entendo esse curuminzinho. Ele nem se parece nada comigo, uma vez. Ele nem se parece com nada de curumim nenhum. Ele é do outro planeta. Ele nem vai ser feliz assim tão diferente do comum e da maioria. E tem olhões de quelônio. E tem cabelo de fogo. Um índio! Onde que já se viu?” Foi tudo e mais um pouco que o pai falou do seu recém-nascido filho, curuminzinho Guará, diante da cunhã, e dos parentes da tribo, todo coletivo contraparentes. O pai era o mais aborrecido com a aparência do indiozinho Guarazinho. Era sem dúvida uma figura um tipo bem estranho.
            No meio da tarde já se pensava que era noite alta. Muito escuro ali fora da casa da avó. Noite funda profunda. Noite distante do mundo longe. Noite com vento e chuva e uivos uivar. E a chuva abria e fechava as asas fazendo barulho de vê com vês. Chuva para plantar o alagado a enchente. Chuva sem um osso sequer. Chuva e vento que batiam nas árvores, nas janelas das casas e nas janelas dos prédios altos, vuuu-vuuu!... Sorte de quem nem precisava sair de casa nessa hora nesse dia nesse contratempo.
            - Mas o que importa é a mãe, numa hora dessas. E a mãe cunhã índia abraçou com carinho o curuminzinho tão esquisito. O pai os parentes nem disseram mais nada, a mãe foi que adorou e quis muito. A mãe é que importa numa hora dessas. E a mãe do indiozinho quis o indiozinho igual ao que tinha de ser. E a criancinha ficou satisfeita com a mãe que a reteve. Ambos se abraçaram. A mãe índia cunhã achava o máximo os olhos grandes e enormes e pretos do curuminzinho. A mãe achava ótimo os cabelos de fogo do indiozinho. E a mãe exibia o indiozinho e mostrava seus olhos e cabelos para toda a tribo e tribos amigas. E também para índias e índios de outras tribos vizinhas, como os índios da tribo camacã, índios da tribo gerém, índios da tribo sapuiá-quiriri, índios índias da tribo guaná. E por cima dizia: “Vejam como meu curuminzinho Guarazinho tem olhos grandes e pretos e modernos nem nunca vistos. Vejam como ele olha muito bem olhado e talvez melhor que ninguém. Vejam como ele é diferente e bonito e exótico e esperto. Vejam esses cabelos de fogueira acesa. Vejam e revejam muita coisa nele”. E os parentes compadres comadres achavam aqueles olhos grandes um exagero. E os parentes sicranos e sicranas nem achavam que o curuminzinho era realmente real. E os parentes beltranos beltranas diziam pelas costas da mãe: “O filhinho dela tem olhos maiores do que pode carregar. Tem olhos maiores que a barriga. O indiozinho dela tem cabelos de cobre. O Guarazinho parece que nasceu assustado. O Guarazinho parece que nasceu do fogo ou do sol”. E todos falavam o que queriam. E todos tinham democracia pra falar à vontade.
            Nem dava para fazer nada lá fora e chovia muito, ventava muito, escurecera muito. Será que ia cair um poste e faltar luz? Vovó preparou um chá para duas. Um café com leite? Um chá de camomila? Um café com chocolate? Um chá de erva-doce? Um chá de avenca? Um chá de cascas secas de caju? Um chocolate sabor café? Você conhece? Era num dia de semana.
            - O pequeno curumi tinha realmente os olhos muito grandes e enormes. Os cabelos pegando fogo fogo. O pai índio dizia: “Meu curumi tem olhos de quelônio. Por quê?” Foi por aí que a mãe índia resolveu se aconselhar com a mãe-d’água, a extraordinária índia Iara. Todo mundo sabe que os índios do B todos acreditam em dona Iara. Essa dona vive no fundo dos lagos e rios e tem a forma de peixe e usa no pescoço um talismã chamado muiraquitã com cara de sapo. Essa dona pode até viver na forma de abelha tapiçuá e quando quiser. E pode aparecer na forma de libélula, borboleta e besoura e joaninha. Dona Iara é uma senhora mágica, uma deusa de rios e lagos e lagoas. Dona Iara é filha da lua Jacy com o sol Cuaracy. E essa dona falou com a mãe índia do culumim dos olhos grandes e cabelos vermelhos, e falou e disse aconselhando: “Seu filho tem olhos grandes porque nem vai ficar por aqui muito tempo. Seu filho tem cabelos vermelhos porque nem terá muito tempo e paciência para ficar andando por aí. E essas são as verdades novidades certezas. Então, se prepare para entregá-lo para outra sorte ou outra natureza ou outro mundo ou outro motivo.”
            - E o culumi ia morrer de repente, vovó? Morreu de súbito? Se transformou?
            - A mãe índia do columim chorou e nem acreditou na dona Iara. O amor de mãe pelo filho fez a mãe índia nem acreditar, pela primeira vez, na deusa Iara. Mas o pai do colomim acreditou e ficou pensativo. Os parentes do colomi acreditaram. O pajé da tribo e o cacique da tribo acreditaram. A curuminzada da tribo afirmou e nem entendeu direito. A mãe do curumim nem queria acreditar, nem acreditou numa só palavra e se desmanchou em receios, lágrimas, gemidos e pedidos. E ela nem lembrava de mais nada.
            Ali fora lá fora na chuva as árvores balançavam e se sacudiam dentro da força do vento, vento e chuva. Vento e chuva num só tempo. Será que àquela hora tinha gente andando na chuva na rua na avenida Raul Pompeia? Será que alguém andava na praça Bernardo Guimarães molhada e alagada? Será que as pessoas já estavam encharcadas ensopadas? A cidade se encharcava durante tanta água. O vento zumbia e zunia e zunzunia como mil enxames de abelhas gigantes. Às vezes o pátio do colégio 11 de Agosto ficava alagado depois de tanta água precipitada. Árvore nhandipá dançava com o vento, árvore leitariga se sacudia na chuva, árvore pequiá se torcia na ventania. Será que a rua Epitácio Pessoa tava alagada também? A chuva queria encher tudo que podia ou via pela frente, o vento queria carregar guarda-chuvas e lonas e toldos e telhados e folhas e galhos secos. Será que o bairro Guaratiba estava boiando? A casa da vovó estalava, assobiava, grilava, resmungava.
            - Pois a mãe adorava o indiozinho filhinho de olhos enormes e cabelos de milho. O pai índio via que o filhinho dele parecia muito olhudo. E o curuminzinho tinha de verdade olhos grandes demais. Olhos realistas. Olhos mais espertos e abertos que os dos outros curuminzinhos. Olhos de ver longe e o futuro e as estrelas e os planetas. E cabelos em ondas de fogo, rio de fogo, rio de em chamas. Você lembra?
            - Esse novo curuminzinho Guará tinha desassossego nos olhos grandes? Tinha desassossego nos cabelos pegando fogo? Hein, vovó?
            - Pois os olhos grandes e bem abertos do curuminzinho, seu cabelo inédito de fogo, faziam esquecer que ele era muito inocente nessa história toda. Na sua inocência, Guarazinho continuava engatinhando e tranquilo na era da tribo sateré-maué. Guarazinho só queria conhecer um pouco de tudo mas os outros o olhavam com diferenças preconceituosas. Os olhões prontos para olhar tudo e mais um pouco, os cabelos em chamas jogados sobre as orelhas e os ombros. O curumim era a revolução dos tipos na tribo caiapó-cubem-cram-quem. E digo mais!
            Vovó gostava de saborear balas de café com recheio de chocolate ou amendoim. A menina gostava principalmente de balas de goma, uma de cada cor, todas as cores. A vovó ofereceu para a menina umas balas de goma, uma de cada cor, cores todas as frutas do hemisfério sul. E em seguida, cada qual, escolheu um seu sabor predileto de picolé e cada cor um sabor. Vovó apreciava picolé sabor de abacaxi. A menina apreciava picolé sabor pitanga. A menina olhou o picolé pitanga com olhos encantados, com água na boca, boca aberta. A vovó olhou o picolé abacaxi com olhos adocicados, com água nos olhos, com água na boca.
            No céu escuro, da tarde, talvez da noite, pelo mundo, muitos relâmpagos seguidos de trovões fortes de tremer a casa da vovó. Raios e raios riscando o teto do céu escuro. Barulhos rolando do alto se sabe lá de onde e para onde. Noite cheia de tempestade e elétrica. A tempestade parecendo uma ou muitas felinas onças-vermelhas bufando molhadas na chuva. Chuva e seu irmão vento antecipando a chegada da noite. E esses dois irmãos até conversavam, assobiavam, derrubavam placas de propaganda, entortavam árvores, plantas, arbustos, utensílios, rolavam pedaços desgarrados de qualquer coisa ali na rua Dalton Trevisan. Você ouviu, você se lembra?
            - E o curuminzinho dos olhos do tamanho do mundo só era mesmo muito muito respeitado e amado e beijado e abraçado pela sua mãe índia: total. E o curuminzinho dos cabelos de fogaréu tinha um amiguinho de nome Macunaíma, e uma amiguinha de nome Janaína. Eram três sementinhas de índios passando o dia inteiro e juntos. Macunaíma nem tinha olhos do tamanho do mundo. Janaína nem tinha olhos do tamanho do nosso planeta. Macunaíma tinha cabelos pretos. Janaína tinha cabelos pretos e mais longos compridos. Guará tinha um sagui de estimação chamado Bilontra. Janaína tinha uma sagui de estimação chamada Pilantra. Macunaíma tinha um sagui de estimação chamado Pelintra.
            A chuva que vinha do centro do mundo era sempre boa. Então, viesse que venha! A chuva caía e o rio corria mais giz. Então, que chova água pura! Chovia tudo que podia, e o rio Ipiranga corria ainda mais veloz. Vovó gostava de dormir com chuva chovendo, com chuva caindo, com chuva chiando, com chuva e vento balançando as árvores moderadamente.
E ali por fora as árvores entortando, dançando, e se contorcendo, aplaudindo. Quem sabe até um cavalo zaino galopando na chuva. Um outro cavalo, um cavalo salino, galopando debaixo do aguaceiro. Um terceiro cavalo, um cavalo lubuno, galopando sem querer no meio da tromba d’água. Crinas ao vento e com os ventos, sete ventos, sete guerras do pampa, sete redemoinhos. Na tempestade os cavalos e éguas correm para todos os lados. Muito tudo muito cavalar e trotar e galopar e esquipar. Vamos adivinhar.
            As árvores do quintal da vovó olhavam muito para a chuva. E entortavam, e assobiavam, e aplaudiam, e pensavam muitas coisas. A árvore lechetrez, perdendo as flores verdes, olhava muito para a chuva. As árvores do quintal da avó, ingazeira e imbaubeira e juazeiro, dançavam ao vento molhado enlouquecido. Você entende? Você confere?
            - Pois, minha queridinha Lilás, o indiozinho curumim Guará dos olhos deste tamanho, dos cabelos lindos de colorado, acabou morrendo final e finalmente. Morreu como dona Iara previu. E mãe índia chorou ainda mais, mais ainda, muito muito mais. Chorou toda a chuva de um dia chuvoso como este aqui. Embora verão.
            - Morreu por causa de quê? Por causa dos olhões? Causa dos cabelos vermelhos pegando fogo? Eu nem conheço tudo isso.
            - Dormiu misteriosamente sem que ninguém soubesse sem que ninguém entendesse o porquê. E a mãe chorou por demais dois dias ou mais. E o pai nem disse nada. E os parentes nem disseram nada. E os amiguinhos Macunaíma e Janaína eram muito inocentes e bebezinhos para dizer alguma coisa, e nem disseram nada. E ninguém sabia o que dizer, na realidade. Mas a mãe índia chorava que nem dona Iara sabia consolar.
            - Será que o indiozinho Guará foi parar nas nuvens?
            - Porém o caso foi assim: o Guarazinho nem conseguia reagir sequer aos chás de folhas e cascas que o pajé preparara. Guarazinho foi desanimando. E arrepiou, tossiu, esbugalhou um olhão mais ainda, abriu outro olhão por demais. Fazer o quê? 
            - O curuminzinho desapareceu com alguns meses, é, vovó?
            - Dormiu com poucos meses. Acho que foi com três ou quatro meses. E sumiu mesmo de olhos abertos, olhos olhando para o mundo, olhões pegando todo o ambiente da oca da taba da tribo do lugar, etc. Quando menos se espera.
            Lilás escutava a narrativa. Olhava os olhos da vovó. Passava a mão pelos seus próprios cabelos enlaçados. Lá fora o tempo e o clima falavam qualquer coisa na língua deles. Chuva e vento e vento e chuva. Caminhava a história, a avó continuou. E a avó sempre continuou com a história pelo caminho principal avenida Presidente Vargas embandeirada de árvores sapucaias em fila indiana:
            - Ninguém foi lá e teve coragem para fechar bem cerrados os olhos do ex-curuminzinho. E a mãe índia nem se importou. Nem fecharam os olhos dele? E o indiozinho se desprendeu e foi enterrado com os olhos bem abertos e enormes e negros. Parecendo um quelônio. E o curuminzinho ainda parecia ver e olhar com muita propriedade. E olhava mesmo. Talvez nem enxergasse, mas olhava muito bem. E seus cabelos vermelhos - vermelho tinto -, bem penteados, afofados nos ombros.
            A casa da vovó balançava, como assim também as árvores ali fora ao vento e sob a chuva. Uma chuva que D planejara. Uma chuva fria, que vinha do sul, que chegava do polo sul a Antártica, que aterrissava pelo pátio da avó. Chovia na ilha de Tinharé? Por certo chovia ainda pela cidade toda, nas montanhas e matas, no oceano que ficava quinhentos e cinquenta quilômetros de distância. Uma chuva sem fim e interminável. E até mesmo uma chuva séria e justa. E nem chovia parado, nem. Chovia com o mundo todo andando, talvez. E por que chovia tanto? Onde a chuva ia parar? As couves-da-água festejavam aquáticas.
            - Pois o curuminzinho dos olhos atônitos, o indiozinho dos cabelos de sanguanel, foi semeado num lugar escolhido pela mãe. E essa mãe índia regou o canteiro do bebezinho com todas as lágrimas do mundo interior dela.
            - E o marido dela e os parentes dela e a tribo iaualapiti toda?
            - A mãe índia do Guarazinho reagiu assim. Sentiu tanto porque precisava muito muito se despedir desde dentro. Foi essa emoção. E era o que podia fazer. E era tudo que podia dizer. E assim disse. Foi comoção comoção.
            A menina repetiu outro picolé. Um de sabor caju-pequi. E lá fora o vento com a chuva se divertiam assustando as árvores. Assustando principalmente as árvores. Assustando a árvore açacuí. Também o guabijuzeiro, a árvore bacupariaçu, a macambira, a jipoúba, o grande refolhudo umbu. A maria-mole pensava que ia cair e virar sucata. Quem vê reconhece.
            Vovó riu, netinha riu outro tanto, depois a senhora foi dizendo com paciência treinada de muitos e muitos anos de carnaval de cordões de desfiles em escolas de samba:
            - E a mãe índia se reteve muito sobre o canteiro do seu ex-filhinho dos olhos grandes e cabelos vermelhos. E chorou dias e dias sem parar. Isso era importante. Nem parava de chover e de regar a terra roxa do ex-curuminzinho Guará. Os dias se sucederam. A chuva o sereno era sem parar, dia por dia. E tanto esperou e tanto regou que... no lugar do canteiro do curuminzinho nasceu qualquer coisa com cara de planta. E essa coisinha de plantinha foi crescendo e crescendo se desenvolvendo. Aflorando da terra. A mãe do ex-curuminzinho até parou de chover na esperança que aquela árvore fosse a sombra ou o espírito do seu filhinho sumido. Apareceu brotou crescendo escalando em busca do sol.
            - Era mesmo o Guarazinho de volta do céu? Assumindo a condição de planta?
            - E era mesmo a plantinha do guaraná, ou Guarazinho. E a plantinha bem parecida com o ex-indiozinho: os olhos muito negros e grandes. Os cabelos revoltados e bem vermelhos da cor do guará. O guaraná dos olhos grandes e negros. O guaraná quase todo vermelho. Uma maravilha vegetal. Maravilha!
            A senhora se levantou da cadeira de balanço e com a calma da altura da idade avançada. A chuva ia continuar ali fora. Por mais duas horas. Por mais muito tempo. Por mais dois dias. E vovó foi até o quarto buscar um álbum de fotografias. A menina esperou a avó retornar para a sala. E vovó trouxe um jogo de adivinhar o par. E trouxe também musse de chocolate com bolacha maria e sagu.
A chuva nem ia parar tão cedo, uma vez. Chuva por onde passava essa hora, Guapé, Pirapora, Capitólio, Paial, Vista Alegre do Prata... A curiosidade ensina o que se quer saber. As árvores do pátio da casa da avó, axuás, rabo-de-tatu, rabugens, cipó-de-coração, nhamburis... lutavam e se contorciam e vibravam para se manter em pé. Indo e vindo. Chuva e vento namoravam varrendo o planeta de oeste para leste.
                                                                       77
            Então, o sol apareceu, olhou o mundo, olhou bem e descortinou o dia, e começou a subir uma rampa pela montanha invisível do céu. O meio-dia puxou a sombra para debaixo dos pés, e passou bem aqui, ali. O leste foi para o oeste. E queira ou nem queira. Foi maio ou março que foi à Bahia.
            Que onda anda onde.
            Lilás pensou se divertir e visitar Janaína lá no litoral do oceano Atlântico de Roraima. Pensou se divertir e convidar a Rê, a Esmeralda, a Pérola. Pensou e telefonou:
            - Você quer, Rê?
            - Posso e vou. Até nem poderia porque estou lendo um livro pela metade... Então, nós vamos. Ainda hoje, se for possível. Quando quiser.
            A turma saiu num barco, catamarã, veleiro, paquete navio mercante a vapor, iate, a partir da ilha fluvial do Pavão. Ali na mesma ilha do Pavão, perto da ilha da Pólvora, as meninas apreciaram um delicioso e cremoso doce de abacaxi com pouco açúcar. Um joão-de-barro riu às gargalhadas. Outra que, maria-de-barro, imitou o companheiro, às gargalhadas. Tinham uma casa de barro no alto de um poste de tensão à beira-rio. O casal ria alto, gargalhava e aplaudia com as asas. Era domingo. Um bem-te-vi imperou, marcou hora, marcou dia, também marcou território:
- Bem-te-viiiii!...
Lilás perguntou, enquanto o sol continuava sua própria estrada:
            - Como é que é?!
            Depois a ilha de Santa Catarina, praia Brava, praia de Canasvieiras, praia da Armação e monumento aos surfistas com epigrama. Guarda-sol com gomos de duas cores bonitas e tradicionais vermelho e branco. A lua distante trezentos mil quilômetros. Praias com ventos fortes e temperados. Ninguém queria ser apanhado naquele sol quente. Pipilar das aves trinta-réis-de-bico-vermelho, gaivotas, andorinhas-do-mar, atobás-pardos... As flores, dos morros em torno à praia, perdiam o perfume no correr do dia. E perdiam o perfume para o vento do mar e a luz do sol. Palmeiras airis ou guacuris galhardamente. Lilás se mostrava por fora feliz e alegre e comunicativa, e Lilás se sentia por dentro contente e satisfeita e esfuziante: em triplaço.
            Lilás ouviu um marujo cantando. O marinheiro cantava as viagens intermináveis:
            “Quando o barco flutua,
              Também navega a nuvem,
              Ainda voa a fantasia.”
            A menina Lilás, as amigas, perguntaram ao navegador do Atlântico:
            - Quem é a Fantasia?
            O marujo voltou os olhos para as garotas e desconversou, falando:
            - Be-e-em. Grilos nem faltam. Grilos nem cantam. Grilos nem saltam. Grilos nem voam. E grilos são grilos. Grilos que se parecem com grilos. Amanhã é quinta-feira.
            Mais um pouco, ilha do Mel, água de coco no quiosque. Picolés de dois sabores no quiosque na quitanda. Taocas, aquelas formigas comedeiras de planta, formigas vermelhas, formigas grandes, formigas que dão sorte. Abelhas irapuás, abelhas mandaçaias, abelhas mirins, abelhas jataís ou sete-portas, abelhas tataíras. Tambor napi dos índios xokleng. As formigas, as abelhas estavam aí ali acolá, distraídas, trabalhando, sem tempo para nada, preocupadas, laborando, planejando a rua Fernando Machado de em Floripa, indo e voltando. O encantado azul-azulzinho de um passarinho, ou passarinha, pousado no galho qualquer da paineira ou juazeiro, e ainda irrequieto, elétrico, agitado.
            - Nem conto nem reconto.
            Na altura de São Paulo, a bela ilha Bela, ilha de São Vicente. Ninguém estava preparado para tantas ilhas e ilhas e arquipélago e praia de Itaguaré. As quatro meninas nem estavam entendendo tantas ilhas e ilhas sortidas. Sabiá-laranja estava tão satisfeito na tarde que cantava rindo, rindo muito, ria alto, ria provocando e nem parava de rir de trinta em trinta segundos. Sabiá-laranja gargalhava amarelo, longo, longuíssimo, de provocar cócegas, ria espatifado, cascateando, engraçado, de provocar graça, até nem acabar mais. Ora, essa! Ouça essa!
            Quem onda anda onde.
            Uma tarde no litoral de Búzios, tantas ilhas, pequenas ilhas, tantas ilhotas, tantas ilhazinhas, tantas ilhinhas, ilhéus, ilhetas, tantos buzos ou búzios atirados ali no litoral do Rio de Janeiro. As meninas sentiram vontade de voar. Flores em bando pelos morros e encostas, cravos-do-campo, mosquitinhos ou chuvisquinhos... Uma vaca comendo língua-de-vaca. Um passarinho, o pintassilgo, era uma boa ideia...
            Lilás perguntou para as gurias enquanto o sol procurava tomar água de coco:
            - Se a gente fosse passarinho, se eu fosse passarinho eu seria abre-asas-da-capoeira e ficaria satisfeita. E vocês, o que seriam? Confere.
            - Eu acho que seria tucana, colorida, carnavalesca, caprichosa, garantida, nacional - declarou a Esmeralda.
            - Já eu poderia ser beija-flor. Eu também adoro flores. Gosto de mel do perfume das flores. É isso aí - respondeu a Rê.
            - Pois por mim eu seria mesmo uma canarinho-da-terra. Toda carijó, me importo. E voaria que era uma maravilha. Eu adoro o sol as cores a paisagem o panorama. As flores amarelas chamativas. O dia amarelo ou ouro maciço. E dezembro e janeiro e fevereiro.
            A viagem no barco continuava e subia o litoral do país, cidade de Palhoça, cidade de Paulo Lopes, de Osório, de Ilicínea... Mais na subida do país, a ilha de Vitória. Chegaram na tarde tranquila, o sol no pôr do sol, Vassouras, Mendes... Aos poucos o sol já ia se pondo, se perdendo numa cor tipo ouro-forte, e os morros e mar e cidade também iam bebendo aquela cor de solouro. Aves pipiando, as guaracavuçus, as curutiés, as maria-leques, os mineirinhos... Manadas de antas e capivaras passando um alagado e interessantes, ruminantes, herbívoras, imensas, pessoas quase todas mugindo ou berrando, mais gordas que cabeçudas, lentas, olhando de vez em quando o barulho do rio chegando no mar e etc, cheirando o céu, prevendo chuva.
            Ilha de Itaparica, água de coco, suco de caju, doce de abóbora, mel com amoras lilases, galo cocoricando. Pato-de-crista, quem-quem!... Curucaca, cucuricando!... Jacu, quá-quá-quá!... Coqueiro é palmeira, palmeira quase sempre é coqueiro. Pai bem-te-vi e mãe bem-te-vi ensinando filhotinho bem-te-vi a cantar:
- Bem-te-viiiii!...
            Mais para cima, no nosso mapa, a ilha de Fernando de Noronha. As quatro meninas sentaram nas pedras da praia, conversaram alto e riram alto. Baía dos Golfinhos. Estava um dia tão bonito e o mar inclusive roncando. E o céu infinito se movendo pequeno num voo de gaivota, raios do sol, atobás. Gaivota sozinha no espaço. E o vento passando ou passeando folgado e quente. Na água nem se viam os golfinhos, peixes niquins, tartarugas, barcos, tartarugas marinhas. No céu nem caminhava uma nuvem. Muito sol de fogueira acesa. As pessoas estavam no domingo. Maresia. Mormaço. Mordomia. Marmita. Maré baixa, maré alta. As gentes nadavam no domingo.
            - Aquele barco se parece com uma Baependi.
            - O certo é que de manhã é mais gostoso.
            - Mas vocês vão acreditar, eu juro.
            - Na verdade parecido com uma nuvem de morro do Catrambi.
            Eram uns sorrisos risos largos, quem sabe de horas 2 horas 3 dias pelo menos. Os primeiros dias quinzena do mês no verão. De fato era o movimento das águas embora os rochedos mais famosos.
            A famosa ilha de São Luís, no Maranhão. Bolo de chocolate em partes. Nem confundir jogral com painel. Olhos divertidos, Lilás perguntou, foi e disse:
            - O quinto dia da semana a partir do domingo entre quarta-feira e sexta-feira, então.
            A curiosidade das quatro meninas por pouco, ou quase nada, as derrubava. E parecia que a resposta, as respostas, a pergunta, nem tinham entendido as perguntas. Ninguém sabia, ou nenhuma delas queria responder.
            - Eu tenho uma lista de lugar pra ir.
            Um dia estava como elástico, o dia estava como de desenho escolar, o dia estava como ouvindo o cantar do coleirinha, cidade de Tanguá, lugar dos índios aticum-umã.
            Que onda anda onde.
            A grande ilha mãe de Marajó. Abraçada pelo mar e pelo rio Amazonas e rio Pará. Gavião itapema, maçarico-de-bico-branco, anhuma que encanta e estridula e grita e pia.
            Esmeralda perguntou para Lilás e vamos dizer:
            - Aonde vamos até?
            - Até o rio Araguari.
            As amigas até riram juntas e responderam juntas:
            - A gente já sabia!
            De Marajó até o rio Araguari, ali no Amapá. Ariranhas, ali do barranco do rio, olhavam com olhos cheios de água. Nas pedras, entre o rio que chegava até o mar e o mar que batia na pororoca do rio, ali nas pedras, as quatro amigas encontraram a amiga Janaína. Esta estava sentada numa pedra olhando no espelho, penteando o cabelo muito longo e liso e preto. Parecia nem esperar por nada. Dava entender que nem esperava tão cedo visitas.
            A menina Lilás chegaram as amigas e surpreendendo Janaína se penteando acomodada sobre a pedra:
            - Janaína! Chegamos e estamos aqui! Nem tô cantando, hein?!
            Janaína sorriu com sorriso meio cunhã e meio peixe. Nem podia caminhar, mas nadava muito bem. E Janaína, pela primeira vez Lilás notava isso, Janaína tinha já uns olhos verdes esverdeados. Antes, no início, eram negros. Já tinham sido castanhos. Agora, casada com o mar bastante tempo, já ficaram verdes. Além dos olhos verdes, de se pentear com calma os longos cabelos negros, Janaína também sorria, batia sem querer a cauda nas pedras. Um sorriso dividido por cunhã e peixe. Janaína até fez um pedido:
            - Olha, meninas cunhantãs. Eu gostaria muito um celular compontobr. Por enquanto.
            Perto do anoitecer, o dourar das nuvens, e começou o mar a enviar onda para buscar por Janaína. Se ouviu um ronco do mar mais forte, ondas mais altas, ondas ainda mais altas. Um bramido do mar pedindo por Janaína. E, então, Janaína trocou mais umas palavras e disse que já estava querendo ir embora para sua casa, lá no fundo do mar ou entre o mar e o grande rio. E se preparou para ir embora e mergulhar.
            Janaína se preparou para ir embora e imergir. Deu uma assobiada, assim, tipo quem chama por algo ou alguém ou pede companhia:
            - Fiiiiiiuuuuuu!...
            Imediatamente chegou um cavalo zaino, se sabe lá de onde, e chegou perto da Janaína, pareciam amigos, ela pulou no seu lombo, montou no cavalo em pelo, disse tchau para as gurias todas, e pulou no mar de água doce, pularam ela e cavalo-marinho para dentro do mundo aquático. O mergulho foi assim: bululu!... Fizeram as bolhas borbulhantes na água azul ou verde da foz do Amazonas.
            E Janaína mergulhou dizendo que voltaria logo, ia buscar um talismã para cada menina. E Janaína demorou, demorou horas e horas. E Janaína nem voltou nem deu mais as caras. Talvez Janaína nem buscava os presentes as pedrinhas bonitas no fundo do rio.
            O tempo tem a caravela o comboio de naus.
            As quatro amigas esperaram Janaína até a manhã clarear o dia. Aí pelas dez e dez, então, e já achando que Janaína nem voltaria tão cedo, pegaram e decidiram elas mesmas ir embora e voltar para casa. As quatro amigas ficaram se olhando, assim, meio indecisas, arriscando palpites, ensaiando planos e opiniões e viagens. Turismo de negócios:
            - Vamos simboralá, gente?! - falou Pérola.
            Nesse momento da história ouviram um... um berro bem forte e simples:
            - Grrrrraaaaauuuuu!... - um urro bem forte ali do meio da capoeira.
            Arrepiadas, as gurias se perguntaram surpreendidas:
            - É onça-pintada?
            - É canguçu?
            - É maracajá?
            - É jaguaretê?
            Todas elas quatro já sabiam muito de tevê e filmes que onças gostam de beber água. Certa hora do dia a onça-pintada prefere beber água doce. E nem se deve ficar no caminho de uma onça que quer beber água e está com sede. Onça-pintada anda, corre, escala, nada, salta... e é uma felina completa e elástica. As quatro gurias já sabiam disso muito bem, então... voltaram para casa direitinho. Deixaram a onça beber água em paz. Assim foi que fizeram e bem deve ser feito.
            Quem onda anda onde.
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            O mês de fevereiro indo estava vindo lindo, aquele ano, e Lilás acordou, tomou café sem açúcar, foi correr de bíci na pracinha Tapicuri já em frente de casa, voltou, tomou banho cantando, almoçou três tipos de saladas sem sal, e de sobremesa musse de chocolate com bolacha maria e sagu tudo feito em casa doce caseiro. Tá bom?!
            Lilás adorava sábados e domingos e feriados e aniversários. Como estava de férias escolares adorava qualquer dia, adorou todos os dias, estava adorando.
            - Deixe comigo, em!
            Escolheu um livro para ler: “A Inspetora e a Mula Sem Cabeça”, do Santos de Oliveira. Leu o livro duas horas seguidas, empolgante. Nem podia parar de ler. A mula sem cabeça era um mistério impressionante e de arrepiar. Terminou o livro, recordou as aventuras da turma da Inspetora, se espreguiçou, foi olhar a paisagem da janela. Olhou a paisagem. Queria, então, sair de bicicleta. O dia dava tempo para outras coisas. Emboralá!
            - Espero virar lenda dentro de 100 anos 101 anos, é. Cem é um número exato, é.
            A menina pegou a rua Mestre Valentim a estrada rumo Friburgo e se preparou para atravessar o país até porém até Roraima. Ia visitar os amigos da tribo gavião. Os ventos estavam calmos, ventos do sul, ventos de baixo, às vezes ventos de cima. Passou uma ponte, dois pontilhões, três riozinhos, cidades pequenas e médias e grandes, Vista Gaúcha, Teixeiras, Raposos, continuando... e mais Derrubadas, cascata do Maringá, sempre em frente, avante, avançando... cascata do Pirata em São Joaquim. Tá bom?!
            Passou por muitas estações ecológicas, passou pela Taim, pela Mico-Leão-Preto, pela Serra das Araras, pela Maracá, e passou pelos parques nacionais dos Aparados da Serra, pelo serra do Cipó, pelo serra da Capivara, pelo Araguaia (dos índios javaés), passou pelas reservas biológicas da Sooretama, pela serra Negra, pela lago Piratuba, pela monte Roraima... epa!
            - Treeeeeeeu! Treeeeeeeu!...
            A menina ficou alerta, declarou:
            - Que que é isso, meu!
E Lilás, que viajava o país animadamente, até se interessou muito por esse sonido ruidoso. Todos ao redor do mundo se espantaram com o assovio. Que som foi este? Que guincho foi aqui? Assustou ligou alertou todo o mundo. A menina se virou e procurou em volta ver o que tinha sido aquele alto... treeeeeeu!... Procurou o dono do berro. E o encontrou lá no alto do morrinho gramado positivo. Muito sim senhor e mãos nas costas.
            - Olha! É uma pernalonga-comum!...
            E a menina ia passando, gostando de tudo, gostando das árvores catiguás, candeias, sarandis, tatajubas, unhas-de-gato, canas-do-mato, ananás, cipós-de-beira-mar... e dos risos e gargalhadas dos pássaros tesoureiras, pombas-rolas, tico-ticos, azulões, perdizes, codornas-mineiras... e conhecendo o que nem conhecia, e vendo o que faltava ver. E as árvores e os passarinhos conhecendo a menina também. A menina ainda confessou para si mesma:
            - Ah!, tenho vontade de tudo ver e observar e voar.
            Depois de ter vontade de tudo mesmo, a menina foi parou para comer gabirobas, panãs, jabuticabas, mangabas, araçás, cajus...
            - Meu aniversário é o mês que vem... e eu só quero esperar até lá.
            Do bicho ao carrapicho todos todos eram verdes ou mais ou menos verdes verdinhos camuflados entre os vegetais. O gavião-carijó voava alto. E tudo muito misterioso oculto. E o segredo amanhecia, anoitecia, ficava até tarde e sobrava para o outro dia inclusive. Tá bom?!
            - Qual o de maior valor? Quanto que posso pagar?
            No meio da estrada no meio da mata no meio da estrada e passando já do bairro do Grajaú, a menina ouviu uma lobo-guará chamada batizada Capeba impressionar com seu uivo seus latidos seus murmúrios:
            - Bruuu-au-au!...
            Ainda ouviu outro lobo-guará, chamado nomeado Tapuio, responder, bramindo:
            - Truuu-au-au!...
            A poucos metros outro filhote de lobo-guará, de nome oficial Iguatu, imitar os pais:
            - Uruuu-au-au!...
            Havia morros muito custosos para subir pedalando, então, a menina Lilás descia da bíci, empurrava, demorava mais, bando de araçaris... bufava, bastantes, cansava, batia o pé no chão e suspirava. Uma hora suspirou bem mais:
            - Por que o jabuti, hein?! Penso comigo.
            O jabuti nem estava por perto para responder. O jabuti fazia parte de todos os jabutis e jabotas do país. O jabuti e a jabota eram muito conhecidos do povo de Capela. O jabuti era inteligente, sabido, pesquisador, pensador, andador. O jabuti era calmo e lento e sossegado. E pensava muito o tempo todo. E pensava sem voz. Nem falava nada. Andava devagar. E o jabuti tinha mesmo razão. Geralmente o jabuti a jabota andam no meio da vegetação procurando algo verde para comer algo maduro caído por exemplo do araticum-pitaiá. Depois sabem nadar e nadam no rio Pirapó.
            Deus quis o jabuti assim, desse jeito aí. O jabuti ou a jabota eram desse jeito. O jabuti seguiria assim pelo progresso afora. D tinha muita razão no que inventava. D dizia sempre e diz:
            - Qual que é! Escute! Telefone, viu?! Mais detalhes! Você tem o meu endereço, tá certo?! Tô até estranhando, meu!
            Então, pela estrada qualquer, de terra vermelha ou asfalto, a menina Lilás ia olhando, se agradando, e dando parabéns. Deu os parabéns e conheceu Buritizeiro, Caxambu do Sul, Sumidouro... E o bem-te-vi deu os parabéns. E também o sebinho deu os parabéns. A lontra deu os parabéns. Um bando de chupins pretos e homônimos, e homógrafos, e homófonos, deram parabéns. Enfim, todos interessados em cumprimentar:
            - Conto ou nem conto?
            - Contar o quê?
            - Conte!
            - Era um dia... onde?, um trem apitou... alguém ouviu... onde?, perto ou longe ou talvez... onde?, do parque Centenário em Criciúma... o trem dizia... o quê?, tiuiiii!... tiuiiii!... apitando nas curvas... o quê?, sendo emboralá!... o quê?, qual o seu nome...
            Os passarinhos diversos coloriam o dia de cantos e pios e bordados. Cantavam o dia de sol, o dia bonito, o dia acontecendo. Quem ouvia aqueles passarinhos, igual Lilás passando ali, nem sabia contar exatamente como eram todos aqueles cantares e piares todos ao mesmo tempo. Na beira do rio Ipanema era mais fácil. E os passarinhos uns animavam os outros. Piavam, cantavam, gorjeavam, pipilavam muito e em toda a redondeza. Um milagre. E nem só para um lado do dia. Para todos os lados que se olhasse. Tá bom?!
            - Mais uma coisa e a penúltima coisa...
            A Lilás olhou a gabirova verde, olhos verdes; e olhou o pé de ipê-amarelo, olhos amarelos. A cutia viu a menina e perguntou:
            - De onde vacê vem vindo, menina? Eu acho que vacê é de fora, então! Simples.
            Pela esquerda da menina iam passando árvores paradas. Pela direita da menina Lilás iam árvores estáticas. É que a menina andava já por uma trilha estreita no meio da mata. E, ali, todas as árvores e plantas e arbustos e ervas e cipós desacompanhavam a menina. E a menina Lilás ia em frente, muito bem vigiada de árvores, das sombras, dos cheiros das florzinhas, dos gostos das frutinhas silvestres, laba-labas, peroba-café, craveiro-do-campo...
            - Como é aconchegante o verão aqui, é! Eu adoro mais verões, é.
            De repente todos podiam se lembrar de tudo: aves piando, jacarés tomando sol nas lajes do rio, passarinhos voando em bando, peixes nadando atrás de frutos caídos da copa das árvores, insetos zunindo no espaço aberto.
            - Nem ri assim seu saruê, em!
            Um assobio de passarinho escapou descansado das sombras entre os galhos da andiroba. Era o dia de ontem. Depois, ao vento lerdo, o balançar lento dos galhos da árvore. E ainda o assobio do curió. Era de hoje em dia.   
            Daí a poucos metros a menina ouviu o uivar de um graxaim:
            - Au-au-auuuuuu!...
            No alto da árvore amapá uma cigana piou, batendo as asas fisicamente:
            - Piuí-piuíiiii!...
            Onde logo a menina se encontrou com uma cobra urutu, que sibilou:
            - Onde você vai, menina do cabelo solto?
            - Vou até o rio Negro e que fica oeste. Vou hoje e volto em setembro.
            - Eu já sabia!
            A menina entrou por florestas do Acre, seringueira-amarela, seringueira-vermelha, seringueira-roxa, seringueira-branca, seringueira-preta, seringueira-rosada, seringueira-tambaqui... Depois caminhou mais um pouco para o norte do Estado até Cruzília ou mais.
            A menina perguntou ao lagarto teiú:
            - Essa mata tem curupira? Isso é que é!
            O teiú correu e a menina ficou sem resposta. Sem pergunta e sem resposta. Têm dias que são assim e mais ou menos.
            Mais um pouco a Lilás perguntou ali na beira de um córrego para o peixe carataí:
            - Tem visto a teiniaguá? É difícil, mas...
            O carataí abriu a boca e disse borbulhas muito transparentes e sem compreensão e que a menina nem soube ouvir ou traduzir.
            - Hein?! Bondade sua e o calor é muito forte. Fique com D.
            Mais para o noroeste e região da tribo laiana, perto de umas quatro horas e quinze minutos, a menina perguntou para a lebre:
            - Seu tapiti! Tem aí uma tal de boicininga? Cuidado!
            E isso foi mesmo num dia de semana.
            O cachorro-do-mato cheirou, olhou de lado e respondeu, lá na língua dele, que nem deu pra menina entender:
            - Grau-au-au!...
            A Lilás ainda entrevistou já a árvore tapinhoã, e seus braços todos ao vento:
            - Tem visto, quem sabe ou quem viu, um tal de boitatá? Por aqui por lá?
            A árvore sacudiu com um vento muito tranquilo, as folhas fizeram fru-fru ou flu-flu ou tlu-tlu ou ble-blo. Tá bom?!  
            A menina, naquela altura, já chegava perto do seu destino, que jabá-ana, perto do rio Marauia e rio Cauabori, em Roraima. Belezas naturais e nativas e exclusivas. Palmeiras jarás. Árvores ipecacuanhas. Tá bom?!
            Olhando e cheirando o lugar do país de Roraima, vai chegar o dia que todos todos terão tudo tudo. Era um mar de verde.
            - Queridos queridas ouvintes da rádio Suave aqui quem vos fala é uma menina lilás que atende pelo nome de Lilás...
            A Lilás seguia uma estrada de catetos, um caminho de capivaras, uma trilha de antas. Pelo meio da mata. Já pelas terras da tribo dos índios charrua. Ou mais além. Aí, por essa altura, uma tesoureira começou a segui-la. Era engraçado porque a tesoureira voando seguia a menina sentando sempre uns metros adiante em um galho de árvore, toco de árvore, casa de cupim, voando adiante, voar, voando baixinho, esperando pela menina. E puxando assuntos quando queria:
            - Aonde vacê vai com essa pressa, menina?
            - Eu vou até a tribo dos meus amigos índios carapanã.
            - E isso é possível? Quem pode pode, né?!
            E a tesoureira dava mais um salto voando de um arbusto a outro, de um palanque de cerca a outro, voar, galho seco de guanabira. E novamente interrogando, piando:
            - Por que existem caranchos, gaviões, harpias, teco-tecos e bimotores?
            - Eu também tenho receio de onças-pintadas, gatos-do-mato, botos-cinzentos, jacarés, sucuris e arraias... - respondeu a menina.
            Daí a pouco a menina já ouvia o napi bater na ocara dos índios xerente. Mais perto ainda foi recebida por cunhantains e curumins e bichinhos de estimação, em bando em grupo. Muita risada, alegria, gritos, convites, abraços, correria, risos, empurrões, beijos tepe! tepe!... um de cada lado da bochecha. Correram todos para o rio e mergulharam, chape! chape!... Um tumulto na beira do rio Marauia. Era sexta-feira feriado.
            - E, mais uma duas três... vezes, parabéns e obrigada!
            Aparentemente a Lilás e o panorama. O monte Roraima grande, todo de pedra, uma pedra verde. Dali um pouco distante, ao longe, longe, deitado no horizonte. A distância de Lilás, ali, até o monte Roraima, lá, era a mesma. Entre Lilás e o monte Roraima existia uma floresta enorme e verde e cheia de árvores nos tons de verde. Ela ainda disse hoje cedo:
            - Em Nova Prata, sou de lá.
            Os dias e meses e ventos se passaram e os gambás andaram e o monte Roraima continuou firme no mesmo lugar. Sossegado, rochoso e deitado em berço esplêndido. E a montanha, vista assim de longe, ou de perto, era verde e corajosa e firme e séria. Também muito fechada e quieta dos seus pensamentos. Flechada de raios ultravioletas.
            E a vida boa na aldeia dos índios bororo estava boa e muito legal. Os índios descansavam da roça, as mulheres raspavam mandioca, os curumins brincavam de pega-pega com as cunhantains, as cunhantains corriam aos gritos deixando para trás os curumins, Lilás ia no grupo das cunhantains, os bichinhos de estimação corriam para todos os lados, pulavam de ombro pra ombro. Tá bom?!
            - Tenho uma surpresa pra ocês!...
            Um gavião-pescador aterrissou no meio da ocara. Era uma ave impressionante e enorme e braba. Do tamanho de uma cadeira. Todos os curumins e todas as cunhantains ficaram olhando assustados, quietos, travados. Uma cadeira de plumas? A enorme ave ainda caminhou para cá e para lá, olhando em volta, provocando os bichos de estimação, bicando o chão da taba, arrepiada, piando assim:
            - Creee-iu!... Creee-iu!...
            Ninguém entendia o que a ave queria. O olhar dela era um olhar de dois olhos amarelos e brabos e firmes. E a ave bateu as asas, enormes, e espalhou muita poeira e ciscos. Num gesto de repente... o gavião-pescador se transformou num caitetu ou porco-do-mato. E muito bravo, e muito ranzinza, e muito brabo, e muito roncando, e muito provocando os xerimbabos, assim:
            - Tru-tru-truuuu!... Tru-tru-truuuu!...
            O caitetu andou por aí, pela ocara, fez voltas, idas e vindas, procurando nem se sabia o quê, sem sossego, mandão, farejando. Depois também ele se cansou e de repente... subiu no ar uma poeirinha e... pronto: era um índio adulto: era o Macunaíma. E todos conheciam o famoso índio Macunaíma. E todos os curumins, as cunhantains, a menina Lilás, os animaizinhos de criação, aplaudiram o aparecimento repentino e mágico do fabuloso Macunaíma. E sua entrada espetacular.
            - Eu nem disse que vinha... então, eu cheguei!... Tem tapioca?
            Macunaíma era um índio nem bom nem mau ou talvez muito antes pelo contrário. Ele às vezes fazia coisas boas e outras vezes já fazia coisas más ou ruins ou chatas. Gostava de animais e plantas e rios e isso era seu trabalho. Nem gostava lá muito de gente branca, cara-pálida, gente de cidade, gente que nem tinha língua de índio, gente que usava armas e machado e motosserras e caminhões, povo urbano. Ninguém pegava Macunaíma na corrida. Ninguém laçava Macunaíma. Ninguém prendia o mágico Macunaíma.
            - Hoje tá um dia bom e mais fácil, nem é?! Tem beiju aí?
            Quando queria, Macunaíma era mais veloz que a ave arapapá. Quando queria, Macunaíma era mais alto que a palmeira miriti. Quando queria, Macunaíma nadava melhor que o peixe matupiri. Quando queria, Macunaíma era mais manhoso que o mucura. Quando queria, Macunaíma era mais forte que a pororoca. Quando queria, Macunaíma era mais invisível que os raios do sol ao meio-dia. Quando queria. Tá bom?!
            - Deixe comigo! Vou partir daqui a pouco! Mas quando eu quiser, tá legal?!
            A maior parte do tempo Macunaíma andava na floresta cuidando das matas, entocado lá no monte Roraima, andando como bicho do mato, camuflado nas folhagens como caapora. Outras vezes sentia saudade da tribo dele parintintim, então ia até a aldeia e comia abóbora, pamonha, canjica, açaí, essas coisas deliciosas. Macunaíma era impossível. E todos já mais ou menos sabiam conviver com o feiticeiro Macunaíma, ou sentir saudades com a ausência do fabuloso Macunaíma. Macunaíma era tremendamente útil e atento a tudo que dizia respeito à floresta os bichos as árvores os rios os cafundós os pântanos.
            Macunaíma era onça-vermelha nos labirintos da montanha Roraima. E a montanha já era o próprio Macunaíma, quando ele queria. E a montanha, verde e gigante, ficava sempre ali, olhando de longe, olhando do horizonte, toda empedrada, ou mesmo muda sem nada nada a dizer, toda pedra verde, setenta mil quilômetros de pedra verde. Tá bom?!
            - Meu nome é Macunaíma! E daí? Não qué?! Olha só o meu perfil o meu bíceps!
            Pois Lilás sabia aproveitar a hora na aldeia dos índios e índias Kaingang. Principalmente tomando banho de rio, e isso na manhã ao acordar, durante a manhã toda, e na tarde, de tardezinha, e já de noite com lua cheia, com estrelas piscando, Cruzeiro do Sul, vaga-lumes, grilos, companhia das cunhantains. Treinar muito o nadar. Subir em árvore, se lançar de cipó, deitar na rede e se balançar nos galhos das árvores. Comer frutas, araçá, goiaba-do-mato, araticum, sete-capote, muitas pitangas, guabirobas, pequis, ananás...
            - O que você está dizendo está fazendo é muito útil, é.
            Os índios e índias da tribo mehináku gostavam de comer mel tirado na hora. Uma manhã muito bonita a menina Lilás foi com eles. Macunaíma ninguém sabia onde ele estava e quem ele era. Devia estar no céu como um caracará, ou na água como um pirarucu ou peixe-boi, no meio do mato como uma anta ou como um capincho ou uma preguiça-real, plantado no mato como uma palmeira guacuri ou arbusto caiaté. Ele se metamorfoseava. Podia ser aquela mesma ali iaupê-jaçanã. Vai saber!
            - O B todo é mais pra lá, claro!
            Então os índios e índias jarauára descobriram no meio de um taquaral criciúma um enxame das de abelhamirins. As crianças ficaram de fora olhando e esperando. Os índios e índias entraram no criciumal. Era perigoso. Muito estouro de taquara, fumaças, risos, conversas, tu-tu-tus!... de sapos alarmados, gritos e risos lá por dentro. Alguém gritou que chegara ao ninho das abelhamirins. E foi pra já... Se ouviram os gritos, berros, mais outros gritos e estalar de taquaras, uma avalanche e todo mundo correu para o riozinho mais próximo fugindo do perigo das abelhas. Eram índios e índias correndo das abelhas. Era guerra de abelhamirins ou mandaçaias ou jataís ou lechiguanas ou tataíras? Elas mordiam com apetite, bom apetite! vingativas. Tá bom?!
            - Eu só tenho interesse de ir de manhã, à tarde nem falá!
            - Com dezoito anos a gente corre de abelhas? Pura paixão!
            - Por que tá todo mundo descabelado e rindo à vontade? Nasceu um novo país?!
            - Deixem elas acreditar que é verdade. Elas o enxame merecem!
            Uma hora depois, todos os índios e índias e curumins e cunhantains e a visita menina Lilás e bichinhos de estimação, estavam subindo um morro para espiar espreitar ninho de abelha, abelheiras, colmeias. Todos da tribo munduruku estavam com a ideia de comer mel de abelha na hora e grátis. E todos eles gostavam muito de mel de abelhas selvagens. Era um dia para isso mesmo, coletar, tirar, colher. Subindo o morro, eles viram uns furinhos no barranco. O cacique ia na frente e gritou:
            - Parado aí, familiares! Tão vendo? Tem furinho no barranco, então, tem abelha aí dentro. E onde tem abelha tem mel da melhor qualidade. Vamos em mutirão e pegar esse mel. Pra já, parentes! Um dois três!...
            Com pedaços de pau, os índios e as índias e as crianças índias foram cavando e tentando encontrar o mel escondido no interior dos buraquinhos do barranco vermelho. Aí, com a casinha sendo arrombada, muitas abelhamirins vinham saindo e se assustando e se enfurecendo com aquela desarrumação toda. Por isso o enxame de abelhamirins se organizou e começou a atacar os índios invasores. E a guerra iniciou. E atacaram os índios com muita brabeza e certeza. E os índios e índias tuiúca, e principalmente crianças índias com seus mascotes nos braços, nem aguentaram o contra-ataque das abelhamirins e tiveram que correr, descendo o morro na corrida e se abanando para fugir das ferroadas. Era, morro abaixo, uma avalanche de índios, índias, indiozinhos, indiazinhas, bichinhos de estimação. Mas será que eram abelhamirins ou abelhas irapuás ou tataíras? Dúvida em paz, uma vez. Dívida com as abelhas, uma vez. Tá bom?!
            - Querem um conselho, meus parentes?! Aceitam uma opinião comum, meus filhos?! Escutem só!
            Na volta da tribo abacaxi para a aldeia, eles se depararam com Macunaíma sentado no meio do mato. Sentado numa pedra aí no meio da mata. Macunaíma estava reconhecido como um índio tabajara. Macunaíma fazia um desenho no chão com o dedo da mão direita. Um desenho muito simples que qualquer curumim ou cunhantaim podia fazer. Macunaíma desenhava na areia uma tartaruga ou tracajá. A tartaruga ressuscitou e virou um jabuti. O jabuti olhou para os lados e saiu caminhando muito devagar. Demorou, até. E o jabuti nem mais olhou para trás. E o jabuti ficou com fome e foi comendo folhas verdes e apetitosas. Depois o jabuti ficou com sede e foi até o rio mais próximo.
            - Eu vou indo. Estou viajando, é. O dia é longe e comprido, entendem?!
            Macunaíma ainda ficou sentado naquela pedra. Mais um pouquinho sentado na pedra basalto. Macunaíma roia as unhas. Daí cuspiu fiapinho de unha. O pedacinho de unha caiu no chão e virou uma lebre arrisca e corredeira. Nem satisfeito, Macunaíma jogou um pedacinho de pau no ar, e o tal pedacinho de palito virou um tuiuiú que já ia voando para a beira do igarapé. Mais uma vez Macunaíma suspirou, e do bafo lá dele, saiu um rastro de raposa ou zorrilho ou zorro mascarado. Depois Macunaíma abraçou a árvore guarapiranga, Macunaíma virou cipó alamanda-de-flor-grande todo retorcido e enroscado, Macunaíma subiu até o topo dessa árvore e Macunaíma ficou por lá como um vegetal enrolado.
            Lilás perguntou ao pajé sujeito dos espíritos do chão do ar das sombras etc:
            - Era Macunaíma que estava ali, seu pajé? Me diga!
            - Macunaíma será sempre jovem e guerreiro. Às vezes ele apronta.
            E Lilás voltou:
            - E Macunaíma incomoda? Ele vira planta? Ele vira acidente geográfico?
            - Macunaíma é contra a caça e a pescaria e o corte de lenha e o garimpo.
            E a menina perguntou:
            - De onde vem Macunaíma? Para onde ele quer chegar?
            - Macunaíma fala com os índios e índias, com os bichos, com os insetos, com as árvores, com as águas, com as pedras. Macunaíma é um deus mágico ou extraterrestre. Ele já virou a pariparoba já aconteceu murucututu já foi uma vez pelo menos anfitrião na restinga de Marambaia...
            A guria era mesmo curiosa e interessada:
            - O Macunaíma existe mesmo, seu pajé? É um ser diferente!
            - Macunaíma sorri, ri, gargalha e nunca chora ou chorou. Macunaíma é uma montanha de pedra. Frio como o vento minuano.
            Os índios nhandeva eram grandes comedores coletores de mel silvestre. Aquele dia nem descobriram nada. Talvez fosse culpa da lua Jacy. Talvez fosse culpa do Anhangá-Pitã. Voltaram para as ocas e de mãos abanando. Os deuses do mato protegiam mesmo as abelhas e etc. Os matos se enroscavam e protegiam tudo, espelina-verdadeira, papos-de-peru, embiruçu, favas-de-besouro, macambira-de-serrote...
            E Lilás se despediu dos índios karipuna e voltou para a sua casa. Tá bom?!
            - Ora, para viajar é preciso caminhar! Um passo depois outros!
            Lilás com os olhos dela no ar de Roraima. Olhos ligados como relâmpagos. E a menina disse para si consigo e se abraçando:
            - Roraima é bom! Esta tarde é bom! Ninguém esquece o que é bom! Tá bom?!
            Na volta, pelo meio da floresta, de bíci, pedalando, lugares de Brodowski ou Natividade da Serra ou Guatambu ou Chã Preta, subindo e descendo morros no meio da floresta, babosa-branca, mocitaíba, goiabeira-serrana, fruta-de-coruja... por trilhas e furos da mata, a menina ouviu uns gritos de bugios vermelhos e bugias nem muito vermelhas amarronzadas carregando filhotinhos nas costas:
            - Huuuu-ú!... Huuuu-ú!...
            Mais adiante, já bem longe da aldeia dos índios cariri-xocó, a menina encontrou uns bichos que dançavam em grande harmonia. Muitos bichos, como a ariranha, a garça-branca, o tucunaré, o jacaré-de-papo-amarelo, o furão, o tamanduá-bandeira, a joaninha, a mamangaba, a coruja buraqueira, a jaguatirica... esse pessoal todo povoador da mata profunda. Gente que comia, e o que a mata oferece desde sempre.
            A menina nem quis parar porque estava com vontade de chegar antes em casa e tomar café e comer bolo de chocolate na varanda da casa da avó com a vovó. Nem parou muito tempo olhando o baile no claro da floresta no palácio Laranjeiras. Passou Ubatuba. Se acercou do monumento ao famoso Olegário Mariano. Voltando voltada para casa a casa da vovó e dela mesma. Passou o rio Quaraí e nem parou foi andando até mais tarde até a praça Mauá. Tá bom?!
            Tinha o caminho andado na terra tinha o mar oceano Atlântico e a cúpula do céu.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Camadas Os Erátemas Rochosas




            Ainda bem que existe o herói. E é impressionante xácara parlenda e levado da breca. Quando vai ver ele vai e vem. Já se desconfia que é de vento de líquido o seu corpo fechado. Ninguém pode com o nosso número 10 a 10. O herói sempre nasce sorte como o mesossauro.
            Entrar para a cancha do rio corrente contracorrente e ainda concorrer as pedras recorrentes.
            Um dia de novembro estio verão estival nós estávamos fora da sala de aula num passeio dia de sol pela praça Coelho Neto aula de botânica botânica a professora parou mão aberta espalmada apoiada empurrando o caule o tronco:
            - Que árvore é esta, beus pilhos?
            Alguns como eu tentaram interpretar e responderam com o que veio primeiro à cabeça. Aí todo mundo ou quase todos responderam idades variando entre 16 e 17 pouco lidos cabelos soltos longos ao vento emocionados rindo de tudo contentes por dá pra cá aquela palha:
            - O que quer que é.
            - Que eixo rua do Sol rechinava no sinal da tarde.
            - O almoçar sempre o breve leve e uns rebuçados para as horas vagas.
            - Você pediu pra nascer agora pague pra dar à luz.
            - É assim que me divirto.
            - Mas somos nós da mesma família, sim senhor! de naturais de Lençóis Paulistas.
            - Então, prever pressentir aventar adivinhar.
            - Um dinossauro para chamar de seu, como em Cumbe em Machados, conterrâneo.
            - Quem vai na marola é o barco, quem vem na onda.
            - Uma vez aconteceu sisudez. Ninguém tinha visto tanta sensatez. Apenas o bumba meu boi da família dos nossos parentes contraparentes longura familiares lá de em João Lisboa.
            Demos alguns passos na direção no rumo. O tempo nem passava. Um carro novo excogitar imaginar inventar em folha contornava a rótula do Andira. Cenozoico. Nos juntamos mais e entrelaçamos as mãos os pés os braços as palavras os antebraços corrente pra frente limpa-trilhos as orelhas os cabelos os olhos.
            Na hora dos beijos atirados e das gargalhadas serranas urbanas e contemporaníssimas.
            A professora nos olhou autoridade a todos em grupo em conjunto em série em perspectiva em horizonte:
            - O que vocês vão fazer quando crescer?
            Basicamente nos entreolhamos com certa dignidade e acolhimento e presunção. E o tempo corria em todas as direções. O Inter jogaria com o Cruzeiro naquele dia promocional mais à noite na cidade de Turmalina, Tocantins. Consecutivamente, assinamos o recibo:
            - Velejar pelo rio São Francisco até o Raso da Catarina ou Canindé de São Francisco ou Rio Real ou Amarante do Maranhão.
            - Olhos claros suaves hiperestéticos.
            - Vamos ao que serve.
            - Passa e repassa gente de carro. Uma família que passa de voadeira. Mas esta foi lá mesmo em que vi pela tevê ao bairro Outeiro da Cruz comunidade de São Luís.
            - Entretanto, prolixo presumido perluxo que demora.
            - A região do sul tem mais dinossauros e mais preservados fossilizados.
            - Em Carbonita lá vou ver a nação dos pucobié-gavião.
            - Ainda nem tem amanhecido por volta de Codó, uma vez.
            - O rio Jauaperi vai mais longe e o sol nem vem tão perto.
            - De maxambomba reparou com a manada de bois brancos deparou boiada a via férrea.
            Nova Prata é uma cidade e na imensidade intimidade do B. E também NP é município no litoral costa do B. Mais precisamente no norte da ilha de Fernando de Noronha arquipélago de Abrolhos estações ecológicas do B. Mesozoico. Se limita ao norte com Veredinha e ao sul com Borebi. Do lado que nasce o ouro puro Uchoa do lado que canta o sabiá-laranja Araguainha.
            Foram procurar as aeronaves especiais e voltaram enfeitados de xadrez e carijó e riscos trançados desenho imitando os das cobras sucuris.
            A professora bonachona descolada decotada, apontando verdadeiramente para entre tantas uma açucena-do-campo, os braços abertos o sorriso estampado as sobrancelhas arqueadas o mundo ganho e bem pago:
            - Rara rara, binha gentem?
            A nuvem ia alta o trem das 10 e 10 cinco minutos atrasado mas nem havia navio para desatracar o porto de Santos. No entanto pelejamos como pequenas formigas-de-embaúba interesseiras. Enquanto um partido ia o outro revoltava. E decolamos na história como trabalha o escaravelho. A solução nem à vista estava. Pouco mais pra lá, digamos, declamei primeiro:
            - A manhã continuará amanhã.
            - Foram cerca de já comprovaram 30 espécies de território no nosso dinossauros.
            - Embora, resolver dirimir providenciar desbloquear.
            - Controlar despesas do orçamento e investir na ciência.
            - O tempo móbil.
            - Um pouco o mundo grande e sofisticado.
            - Escultura artística no gramado, Aquidabã, Aquidabã.
            - O almoço o lanche me chamou.
            - Ela sempre quis comprar aquele botão feito do osso da preguiça-gigante. Também queria ir até a loja Catiguá, filial em Cajapió. Nem se demorou pela rua Silva Maia, indo e vindo. Desembarcou do ônibus e deu passadas moderadas até a loja Catiguá, desde mil e oitocentos e cinquenta em Caxias. Saiu da loja dos botões pensando entrar em outra loja Itabi de sapatos ou então voltar pra casa. Entrou na loja Catiguá em São Raimundo do Doca Bezerra e esta cheirando embora coisas novas e modernas e úteis utilitárias. Era noiva e tinha que aprender a parar de rir sem motivo aparente desfilando principal pela avenida Bernardino de Campos. Esperando o ônibus para o centro ponto-parada na casinha e fazia uma quinta-feira longo despois das 14h.
            Aqui ali na alameda Sud Menucci sob as árvores seculares chão da calçada modificadas sombras voláteis e mordidas. Cartazes de teatro. Paleozoico. A oeste a leste os caminhos do dia do rio São José dos Dourados da lua de Itapicuru da estrela de Mineiros do zodíaco de Timon.
            Por trás dos concertos de temporada cidade Maravilha mais alta do país o diadema da caloura violino.
            Reforçada recompensada pela temperatura agradável boa de se passear, a professora continuou e mãos nas costas balançando o corpo febril chapéu de lado lenço de pescoço óculos escuros nariz afilado:
- Por que quando quando uma folha ou outra troca... à toa?
Nos destacamos bípedes das aningas gigantes bem nutridas. E do outro lado corria se ouvia o rio Tapajós. Ele nem só corria como também inclusive respirava os municípios de Pederneiras de Pedro Alexandre de Pereira Barreto. Nos olhamos com olhos de guariba e versejamos cada um no seu com seu quadrado. A pauta era mesmo quem. Deixamos para depois o florescimento do amor-crescido. O assunto de namoros ou casos, simboralá:
- Ainda, vendola botequim bitácula pequena venda.
- Pássaros e outros bichos de voo que migram, adivinhe-quem-vem-hoje, bicudinho, xanxão, pipiras, corrupião, maçarico-pintado, crejuás...
- Aquele instante me foi psicológico e logo e leigo.
- Num total de 23 mil pessoas sentadas, público estimado, ambas as torcidas, pagantes.
- O rio Belém é de gaiolas barcos canoas e jangadas.
- Grande dino de carnívoro e pescoço longo dos mais altos da terra de Alcântara.
- Peguei um táxi amarelo e fui a Co-pa-ca-ba-na em frente o oceano a praia a avenida as lojas os hotéis lado a lado abraçados os quiosques com caipirinha água de coco pastel de queijo garapa pão de queijo e eu falava ria ouvia olhava acuidade agudeza sutileza as gurias calçadão ondulado passar cheias de cor cenoura guarda-sóis de duas tons fatiados.
Todas as famílias o clã almoçavam cedo ou ali no máximo pelas 11 e meia e reunidos o pai a mãe os filhotes o cachorro a televisão o vento que já ventava campo eólico em Bacurituba Tramandaí Osório o gado que desfilou na feira agropecuária de Esteio a estrada na aldeia dos oiampi a lei do governo sancionada concordada aprovada admitida as novas tecnologias no plantio de milho a paciência dos mais velhos em atravessar pela faixa dos pedestres a destreza dos mais novinhos em brincar de pedalinho no artificial lago...
O cachorro vira-lata Tapuio que foi passear de bíci no parque municipal José Condé equilátero após a greve dos professores da rede pública palavras de ordem do Estado do Mato Grosso do Sul.
Quando vimos nos demos conta estávamos aproximadamente um sítio com árvores um quase bosque e a mestra entusiasmada com um verso novo dois versos inéditos um em cada bolso de trás da calça comprida roupa esfolada nos joelhos:
- Isso é nobre, hein, que acompanhando o rio a rua corrente vão as árvores abraçadas mãos dadas lado a lado ciliares espécies cada qual no seu tempo umas aproveitando o sol outras a sombra outras a ternura aconchego da intimidade?!
Sempre o vaivém da rua tal e qual. E da rua Imperatriz Leopoldina. O dia continuava e o sol se aproximava espargir espalhar dispersar das 15h. Uns e outros como eu mesmo olhávamos os relógios rapidamente digital. Megafauna. O grupo mais perto mais à frente respondeu primeiro olhos atentos mãos nos bolsos da calça comprida braços cruzados celular quase caindo ou saltando ou respirando do bolso de trás:
- Assim, avaliar sopesar apreciar examinar com atenção.
- Tanto, suscitar criar originar dar vigência.
- Uma chuva aguaceiro firme precisavam ver berrante fixa cortinas cordas e lençóis.
- Assim é o planeta ambiental plantado de... deixe pra lá!
- Pois quando enquanto brincava de tobogã esquecia de brincar de outro brinquedo.
- E 80 milhões de anos e a 500 quilômetros de São Paulo antes do pleistoceno.
- Ela com certeza tinha seus 60 50 40 anos, com talvezes.
- Nem era a mesma coisa. Nem estava ali. Torcedores torcemos tudo na torcida mista.
- A ariranha o graxaim o tatu a cutia regougou.
À força de entrar o dia e sair a noite, se resolveu se adiantou que a porção de tempo que lhe cabia que nos cabe e que temos direito correto honesto preciso certo.
A sombra anda para leste o sol caminha para oeste os ponteiros de sul a norte intermediários.
            Ela a profe que nos entrevistava sentada de frente para a meia-lua na cadeira de palha. A melhor amiga com a gente como a gente. Inquiriu mais e as pernas longas fortes vestidas de calças compridas apertadas enfiadas bolsos da frente cheios de dinheiros documentos lenços papéis de recado chaves de casa cartões:
            - Vamos até o sítio e beber o nosso puro limpo natural legal e sagrado santo-daime?
            O táxi consumiu a rua Tacariju logrou a avenida Tiradentes saímos da parte central e começamos uma estrada à margem de Viana bairro Sacaitaua. Tinha gado no campo e árvores catingueiras babaçus carnaúbas braúnas-pretas maçarandubas... nos morros entre os rochedos. Depois o sol sem nuvens ou raras aeronaves caravelas. Os diálogos abertos travessão. O taxista puxou controvérsia contando e nós continuamos tagarelando. Estava longe ainda distante para mais da aldeia dos boca-negra. Alguns quero-queros alçavam voos pulos de chão em chão:
            - Daqui até lá levam umas 2 horas.
            - Me alado, me alado... um albatroz-viageiro.
            - Isso, monograma símbolo sinal inicial de nome.
            - O tipo descoberto do período cretáceo em a na microrregião de São José do Rio Preto.
            - Ele viajava por todo país e mais pelas cidades namoradas dos rios. Em cada lugar plantava uma árvore uma planta da sua escolha camapu barriga-d’água taboca-gigante... Ou um rio uma ilha uma casa uma filha uma mercearia um museu uma pinacoteca uns peixes piracatingas camboatás saraguis... Pronto, então, ele atravessou o rio Doce velejar e foi de barco a vela. Depois de a pé nado asas monomotor, em Joselândia, em Tuntum, em Barra do Corda, em São Vicente Ferrer... Cruzou montanhas de floresta de pedra e altas e grandes. Assim mesmo e desse jeito, ele sempre chegava num lugar qualquer e emblemático com o sejam bem-vindos no portal. E plantava um pouco colhia um tanto e replantava e tornava a sair. Ele nunca mais voltou para lá por ali nem olhou pelas costas.
            Porquanto, catálogo rol lista enumeração.  
            Mais cedo ou mais tarde vou plantar uma árvore arubatã.
            Pensei ainda bem que chegamos na reserva dos sanamaicã.
A mesa repleta completa bolo torta bolacha biscoito pão tapioca manteiga geleia marmelada.
            O quintal repleto de muricis goiabas-de-espinho bacuris buritimirins caapiás...
            Mas era a coisa mais fantástica deste mundo. Depois a cidade de Ibirá.
            Uma pedreira na altura de um morro por onde as pessoas já subiam e desciam por corrimão.
            Pegou o muremuré cabelos soltos longos usava de dedos uns chinelos coloridos com desenhos naturais conhecidos típicos de Olindina foi sentar na rede de babados os olhos suaves calma pacificada asas podadas para nem alçar voo dedilhar de qualquer lugar de onde for bermuda verde cheia de bolsos sobressalentes afivelados.
            As conversas nem se demoravam nem se completavam nem se contemplavam, introspecções prospecções.
            De repente a chuva boa inesperada uma enxurrada capaz de lavar tudo no caminho.
            Um tempo parado e quase todos.
            A casa estava portas janelas abertas que vinha da mata para a paz pouco depois do quintal.
            Em lugar algum e nenhum lugar.
            As embarcações uma por uma entraram soltas na estrada de ferro desativada desde os tempos da revolução.
            Ela tinha um jeito de falar toda mel e ainda cantava interpretava dedos longos.
            Quando foi ainda às 19h a lição número 2 do primeiro livro.
            Saí da nuvem e me joguei na rede com ambiente de rio Pindaré e árvores e passarinhos.
            Umas 16h e 16min em o museu de São João do Polêsine buscar subsídios para este trabalho de específico paleomagnetismo.
            Porquanto, assestei direcionei apontei.
            Depois da chuva o passeio serra do Umbuzeiro as catirumbavas os pitiguaris os bicos-de-veludo os azulões-bicudos... o caminho entre as plantas camoatins despertas zumbizantes nós mesmos subimos a ladeira contornando as velhas árvores oitizeiros cedros-brancos indaiás caparrosas... e veio a ideia de ir até a cascata as pedras lisas cachoeira as lajes convidativas humildes úmidas lajotas.
            Chegamos supus meio atrasados.
            E estava sobrando uma exposição amostra de macelas-da-terra dizem fora de época.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Zia Zipergunta Zié Zimais Ziimportante


           


            Meus oito anos nem me deixaram me mexeram me lembro se os fiz nem interessa agora, obrigado. Em casa nunca comemoramos aniversário de nada data de ninguém de cachorro de carro de formatura de qualquer. craveira, alcantil, pastar, vale. Mas os fiz como dois e dois são cinco. Vai e vem, ia e vinha, e vamos e venhamos os convenhamos. Com oportunidade possibilidade de trânsito fluxo em faixa reversível. Emboralá!
            Então tenho ou nem tenho para procurar? Rua, burocrático, inigualável, saborosa, pernilongo, panela, carreadouro, crivo. Cinco anos depois. Oceano de panorama, cristas-de-galo, tico-ticos-rasteiros, lagartas-de-vidro, capim-rabo-de-boi, bruzundanga, mata pendurada... A massagista impermeável espiava da porta a perna direita para trás os braços cruzados a cabeça um pouco torta muxoxos.
            A cadeira era alta de espaldar a mesa era retangular de quatro pés a rua Itália era cascalhada britada poeirenta natural a lua era foice a bola rolava no campinho as bolitas eram de vidro agateado jogávamos o livro de H era novo Inconfidência Mineira Tiradentes Aleijadinho mestre Ataíde o Centro da cidade era insólito as meninas riam de qualquer coisa até mesmo de coisas engraçadas, uma vez. arrefecer, rechinante, hoje, etapas. Sobre o que for... uma cidade Santa Gertrudes e o rio Descoberto.
            Trazia escondidos os raios cósmicos os rios bacia do Tocantins os dias de passeio o tempo todo-poderoso esfuziado os afluentes do Purus e do Trombetas constituído eleito pela maioria os tributários do São Francisco Araguaia Paraná Paraguai tempo afora. Horas regulares e com provas gosto sabor. Vale dizer a princípio ponto pacífico que a serra do Mar nascemos em Cubatão e tanto e tanto.
            A ideia do acaso tem ou nem tem a sua ordem armadura pedido? Eu, se fosse afestoar, nem deixaria de viajar duas vezes duzentas duas mil vezes para chafariz do Kaquende, bairro calçadão de Ipanema, reserva dos hixcariana, pinturas rupestres do Peruaçu... Repicante, antojar, céu, cadeira, abafadíssima, fazenda, sala, amavios. Passei dois dias em uma semana em três anos e meio. Mais pescadores que peixes que rio Jacuí rio das Antas rio Carreiro...
            Aqui onde moro desde séculos ninguém descende de graxains baitacas aritméticas bagres tinguis-da-praia... Nem havia cavalos por aqui quando começamos começaram chegaram aportaram os pioneiros. Aqui onde moramos existem teiús e quero-queros e carros com os tropeiros os primeiros exploradores bandeirantes. São os que mais proliferam depois da invenção da roda do logaritmo do algoritmo. Porém ninguém descende desses bichos e vieram depois os navegantes descobridores naus galeões caravelas, os inhambus, macucos, jacus, tucanos-de-bico-verde, arapongas, urus... Nós começamos desde as origens das montanhas mais a oeste dos rios mais a oeste das matas mais a oeste das geometrias do caminho Peabiru e Guaiaó e Guaíbe e Enguaguaçu. De lá pra cá insistimos persistimos com os próprios pés cuidando das pegadas das onças-pintadas das latitudes longitudes altitudes Rio Claro - SP vento casqueiro e rastreando as pacas antas álgebras cutias serelepes...
            - E se eu disser... trunfa singular tira ou cinta de pano amarrada na cabeça?
            - Mas você me diz o porquê.
            - Pode ser. Pode nem ser. Imagine.
            - Conhece a cidade de Sabará?
            - Hein?! Fica perto de Capivari ou Taubaté ou Roseira?
            - Antes labirinto zigue-zague de Marília e Sorocaba e Cocalzinho de Goiás, é.
            - Além disso o quê? A chave da manhã ensolarada? A porta do poço? A rua das casas geminadas? O cálculo do problema finito?
            - Há aqui alguma outra coisa. Depois eu te explico. Ainda é idolatria, eletricidade, loteria esportiva acumulada.
            Por que a pedra foi colocada nesse lugar paralelepípedo seis lados com que certeza inspiração? Partido, glotologia, zigoma, perícia, rede, carnaval, talude, ginástica. Mesmo com o rio Paranapanema e a ilha dos Frades. O estrépito dos dias da semana horário comercial. Pela vez primeira me acontece e a ilha do Montão de Trigo.
            O sol mesmo em dia claro sem nuvem viajava a descoberto na caminhada dele rumo da tarde ao encontro da lua da corujinha-orelhuda. Era uma sexta-feira oito horas, tuins, araguaris, cuiú-cuiús, humaitás, tirivas... estes já saíam de casa. fula, seja, salmilhados, gretar. O cachorro amarelo e branco simpático médio andava pedia parava cheirava olhava de portão em portão de lixeira em lixeira de paxiúba em guatambu-vermelho. Uma guria de tranças longas olhou o cachorro vira-lata. O carro desceu a rua Júlio Ribeiro e parou na esquina transversal Barão de Loreto. Por assim dizer era o tempo de maio recapeamento e duplicação da RS-324 e cachoeira no cânion do rio São Jorge.
            Vale comer frutas doces no almoço saborosas e a olhos vistos? Escalava árvores, depois da aeronave, quase sempre de bermuda esverdeada cheia de bolsos fivelas, foi alto e longe, comportado asseado como um bem-te-vi-cavaleiro ou um capitão-de-bigode, o mais satisfatoriamente possível. Arás voar voei sibilo zumbido zunir sussurrante. Gastar gostei repeti e tecnologia empreendedora quarta geração.
            Vamos ver! O mundo começou mais ou menos aí por volta de 11 milhões de anos antes da invenção dos sapos-gameleiros e preguiças-gigantes e orquídeas lélias e tamaquarés-miúdos... Então a lua chegava pra nós já polida a rua amarela o casal de supis voando a coirana-de-minas florescendo o mapixi brincando de dono da floresta o gambá procurando parceira e afilhados a jacaçu juntando os parentes em assembleia física civil. Conseguir por acaso. Persistir como as pedras. Cantar igual o curupuruí. Nadar como o tambiú os aruanás. Cruzar destruir eras fantásticas idêntico o truirapeva. Plantar como as criciúmas taquaras vassourinhas-doces guaporangas...
As memórias suavizadas no diário de bordo se confundem naquelas profundezas do caminho que as férias deixaram para trás ou rio Corumbá ou Guaimbê ou Vianópolis ou Barra do Choça... Nem as buscas e pesquisas as trazem mais. E a bem dizer, pra que recomeçar outras Maria Iracema Joana Amanda Júlia Cecília? Já nem movem geradores ou asfaltam as estradas ou plantam comarcas ou fundam departamentos. anda, comunga, carimã, moinha.
Então me pergunto é sempre hora de conferir a chuva? Café, pincel, martelo, programado, fâmulo, bronze, estrídulo, pedestal. Nadei com as minhas próprias braçadas rápidas. Conheci bastantes paisagens reboleiras, ou seja, falsos-paratudos perovas jequitibás cabriúvas caxins ixoras-brasileiras... Um dia me informaram já inaugurada a primavera. Já presenteada a praia da Joaquina. Já afiada a pedra de Itambé. Já tombado o distrito de Paranapiacaba. 
Quando a noite chegou a cidade de Biritiba-Mirim já estava ali perto da igrejinha de São João Batista do Herval. Quando o rio da Prata passou a cidade já ficou pronta do dia pra noite de ouro e prata e araucárias e capoeira. Quando as pessoas foram até a fábrica de cadeiras de madeira o banco a loja o mercado já vendiam artigos de variados importados de os autóctones caripuna elegiam o deputado federal. Depois os cratéu queriam cotas universitárias nem queriam hidroelétrica explicavam as propriedades desta erva-cidreira-do-mato, figueira-branca, moreira, guaiapá, soroca... Cambindas maracatus torciam adufes atabaques engrimanços feitiços samburás manipansos altares...
Ora, onde era exatamente... ora... uma e meia da tarde... acontecia, ora... o sol invadia... ora... dava voltas... ora... avó segurava a sombrinha debaixo do braço o avô o chapéu de feltro escuro... ora rua Presidente Vargas tinha com Borges de Medeiros tinha praça da Bandeira banco de pedra basalto... ora... tinha bandeira tatalando... ora, o globo terrestre faz sempre a parada aqui para almoçar exercitar tomar cafezinho pão de queijo chimarrão garapa com sabor abacaxi... ora.
mania uma capivara quase marrom passeava no lago redondo na tarde quase castanha mania um par de saripocas-culiques aproveitando para gorjear as penúltimas notas mania o tio pedalando na ciclovia mania a guria alongando barriguinha trincada mania o casal de atletas correndo mania a tia passeando com o cachorrinho Avião na coleira mania a tarde vinha aproximando giz grés mania a banca do jornal diário mania o trânsito de faróis acesos mania as tevês agitadas com o jogo de campeonato mania
O mistério para por que sair de viagem e tirar selfies na cachoeira da Mariquinha? Praticamente cheguei a tempo de recolher a colher em reminhol. Tapete, ribeirão, xale, batalha, aquilo, 10 horas, itapeba, exemplo. Praticamente existe sobre amarilho e aroeira-de-brugre e jacaratiá e nhandirova... suporte epífeta sem tirar alimento: bromélias. Tenho visto muito esta semana o ano passado quase todo o tempo impressionantes, bacuparis, procotós, maracujás-brancos, taiuvas, caneleiras-do-mato, guaratãs... Ia por que nem quase anoitecendo no sítio geoglifo Jacó Sá e outros. São Manuel hodometria Bertioga.
            Sobretudo me transporto gosto de lembrar principalmente que tinha as minhas dúvidas se o mundo era quadrado chapado redondo do outro planeta do outro lado. oblonga, houve, traz, pedilúvio. A de noite parecia menor à beira do precipício e as estrelas caíam. Na manhã seguinte os presentes se anunciavam os morros as árvores os pássaros aqui ainda se ouvem mil pássaros cantando os territórios as parceiras desde bem cedo madrugadores pedestres e às 5 e 15. Lá fora ouço pegadas de pneus e automóveis e quadrúpedes e gliptodontes uxicuruás... Ou alguém chegou aéreo de avião de asa fixa trem de pouso? Deixou o barco no cais lhe deu milho de comer para o dia inteiro e foi para o Centro solicitando por telefone um táxi enquanto conferia os últimos apontamentos documentos motivos planos na agenda diário.
            De vez em quando era terça-feira esponjosa. De vez em quando bulcão chovia relampeava trovejava estrupia nem necessariamente nessa. De vez em quando eu saía para buscar mantimentos quentinhas víveres. Somente cá uma vez nessa era e a Ana Paula vinha lá em casa brincar de subir em árvore comer pitanga pipoca esconder pegar correr no cinema na feira de artesanato dos catuquina-pano.
            Qual o principal princípio da floresta do urbano da inflação baixa? O dia caleidoscópio correu vitrais ao encanto encontro a estrela inaugural: ao correu estrela encontro o vitrais encanto caleidoscópio dia a inaugural. barbacã, macaréu, parcel, esteiro. Precisos os ladrilhos da casa a sala os cômodos os corredores a varanda a porta dizendo para o alpendre. Depois a prima veio gotejar até a bica de água beber água e se refrescar molhando o rosto garrida abismo.
            Sobretudo nunca nevou nessa parte zona do país do sul Alumínio, suponho. Minto, nevou uma vez que eu vi registrado em fotos preto e branco mas nem recordo me lembro dos detalhes. Eu estava com oito pra nove anos, e se tanto. Voltávamos da casa do avô quando minha mente. hálito, gesto, feito de lã, bacia. Tudo estava coberto por alta camada de neve chegando quase aos cinco quilômetros até onde a vista e por quase dois centímetros de peso. Era uma vez... A seguir caminhamos pelo quintal e adjacências fazendo trilhas no açúcar da paisagem inédita inesquecível moita de capim-sapé impossível pinheiro-do-paraná inimaginável extraterrestre caracará inimitável cachorro-do-mato-vinagre friável imprevisível.
            Um carro assobiou, um caminhão dezesseis eixos manobrou um trem apitou na imaginação um navio deslizou na contemplação da barra um mede-palmos escalou a folha tenra no pé de gervão um avião nadou entre o azul celeste estratosférico. O carro cruza a ponte Hercílio Luz o truque transporta para Mogi das Cruzes e Goiás o trem maria-fumaça o navio busca o rio Amazonas o avião aterrissa esta hora em Pratânia cidade satélite de Brasília nove horas em ponto plano piloto asa sul a lagarta manduca manduca protocolar.
            Assim, como vai isso agora já e o que quer que é? Que mesmo nem é sem tempo, e passou o auto de móbiles no espelhinho retrovisor interno. Contente, arvorar, passeio, a si próprio, primorosa, realce, extensão, repolho. As árvores do cerrado têm ótima saúde e verdes e aceitação na época das chuvas torrenciais retorcidas no calor. A ponto de ganhar a hora. A ponto de despontar a aurora. O contraponto dos cupinzeiros e tamanduás-bandeiras. A ponto de algumas alguns perdizes inhapupês de repente voarem de impulso.
            Sobretudo os únicos dias de escola colégio. O primeiro lápis e apontador, borracha branca de apagar, caderno com capítulos estrofes, minha vizinha mais minha colega, canetinhas de cor enfileiradas oito nove dez... leitura de história de carreteiro, boiadeiro, tropeiro, garimpeiro... As coisas que nem alcançava e nem tinha resposta para perguntar. Um ditado e errei a palavra: miça azafama bedal. Silabar escandir deletrear soletrar de-câ-me-tro co-e-lho ba-lei-a rép-til lai-a... Em fila indiana para cantar o Hino Nacional tirar foto com gravata comer a merenda ao mesmo tempo correndo de pega-pega. Sempre havia a menina bonita que escrevia o quadro-negro letras juntas arabescos cursiva “bom-dia, professora!” Nem sabia desenhar tosco uma casa com a chaminé a guarema o sol o rio Retiro a Vaquinha o Petiço a pinguela a ilha Mosqueiro.
            Uma rua que tinha coisas casas lugar terreno baldio área para jogar bola. Uma praça que tinha árvores chás-da-terra alfavacas campainhas-brancas gloriosas-dos-jardins... e bancos para sentar e tobogã e gangorra e balanço de pneu. Um riacho manancial com açude para aprender a nadar. chinelos, sequer, melhor, madruga. Um hotel uma escola uma farmácia dois postos de gasolina uma ferraria um moinho branco de farinha de trigo por dentro e por fora. Uma árvore de gabiroba para trepar e colher na estação da coleta.
            Vamos nos preparar ao passatempo até o almoço, por obséquio? O sol esqueceu a chuva o céu também o rio ainda a chuva idem ibidem. O ar fino sem um a jato várias mais de doze andorinhas, carricinhas, sabiacicas, araçaris, macucos... Espetáculo, apressar, arbusto, timbre, cofre, caatinga, desses, culto. Província na época do império Estado na era republicana. Certo correto, sinceramente. Ótimo agradecido, sinceramente. Piegas quejandos, sinceramente.
            Nem tenho mais noção das alturas dos meus oito anos esquecidos confundidos na malha no traçado no poço no algar dos meses e dias. Mas também são oito nove anos como os outros a seguir rio Piracanjuba por vir. assoalhado, tênue, tímidos, escovados. D Paquê era uma moradora senhora vizinha que fazia doce puxa-puxa cuca marmelada cocada preta e branca beiju tapioca e permitia a gente invadir o pomar para pegar bergamotas na época de bergamota de jabuticaba de caju de pequi de seriguela de butiá...
            Anoitecia na rua de amanhecia na cidade de entardecia no cerro e era assim sem noção o mar careta a pátria gaifona o mundo trejeito principalmente da fabricação carnaval da arte do ofício da miragem.