Foram eram 12 valentes índios charrua
sendo oito deles já adultos e com seus nomes próprios definidos autorizados
identificados tratados. Todos solteiros solteiríssimos precisando de matrimônio
parceira amigável progenitora saudável. Andavam como que ridicularizados pelos
irmãos irmãs todos casados encaminhados em a tribo. Por isso pensaram bem e
resolveram coletivamente cooperativamente tomar essa atitude decisão arriscada
radical perigosa intrépida corajosa extrema e praticamente heroica: invadir a
taba dos reconhecidos adversários tememinó e roubar algumas cunhantãs mulheres
fêmeas virgens.
Pegaram 4 canoas pirogas de remos,
se dividiram em grupos distintos esforçados, e desceram o rio Urupá. Nem
falavam muito no princípio. Que iam quase calados e pensando baixinho
pensativos introspectivos. Olhavam o mato ciliar as margens as muçunungas igarapés
com respeito e uma certa dúvida. O rio a água descia ora azul ora cristalina
ora verde esverdeada fazendo festa piscosa piraputangas pirapetingas piabanhas
pirapitingas tarapitingas trapitingas... A luz da manhã 5:30h era rara suave cauíra
macia invisível veloz agradável universal. A mata com suas árvores e arbustos e
plantas e ervas e gramíneas... Mata fechada densa compacta quiçaça tramada e
perdida nas sombras enigmáticas. Uma enorme e máxima classificação com variedade
de espécies, turubis, capitães-do-campo, jueranas, gameleiras, timbós-urucus,
juciris, ariris... Com o cumprimento, oxalá!, das flores coloridas e seus
perfumes atrações insetos abelhas tataíras mariposas-espelhos, agriões-do-pará,
azulzinhas, maracujás-roxos, espinheiras-santas, candombás, marurus... Várias
variadas aves em diferentes atividades procurando alimento nidificando fazendo
casinha buscando parceira companheira alertando as visitas ou intrusos catando
gravetos juntando barro para a casinha de pau a pique ou adobe caso dos
joões-de-barro borralharas-pintadas cricriós sabiás-do-campo neineis
pombas-trocais suiriris chopins-do-brejo... Cada 4 horas paravam para comer o
que encontravam na mata umas frutas que viam no barranco, bacabas, buritis,
cerejas-do-rio-grande, mangabas, pupunhas, araçás-bois, jabuticabatubas...
- Eu nem tenho com nada nenhuma não
- disse Cabatatu, índio com os tembetás de osso adornando os lábios as orelhas
o nariz.
- Um marupiara como eu tem sorte na
pesca na caça. Quase nada todo-nada tudo-nada.
- Mais abaixo temos que contornar a
cachoeira da Mariquinha - lembrou Tarumaí, já comendo uns cajuzinhos-do-cerrado
suculentos maduros amarelos apetitosos (muito procurados e consumidos devido ao
sabor peculiar e esquisito).
- Eu mesmo nem conheço ninguém da
aldeia dos temidos tememinó. Valentes pacas!
- Isto que vamos fazer nem é errado
ou imoral.
- Nossos pais e avós já praticaram
já fizeram mais vezes outras oportunidades. Pois eles já fizeram - completou o
índio guerreiro Tembetaru, descansando debaixo do pé de pequiá-amarelo.
- Nem é segredo para ninguém. Nem é
secreto para nós nem pra eles os tememinó.
- Em verdade verdadeira é uma gincana
uma festa festiva tradicional.
- É e chega a ser uma lei uma ordem
imposta pela natureza.
- Uma disputa e um jogo jogado. O
jogo se ganha ou se perde.
- Mas por que tem de ser tudo na
calada da noite no escuro? - indagação do valoroso índio Guarantã, sujeito
disposto e dos mais fortões.
- Por causa que sim.
- As mais bonitas mais interessantes
mais jovens estão no centro da oca, vão se lembrando! Qualquer decepção depois
após nem tem mais volta, tá certo?! É um alerta!
- Você deve pegar o que você puder
carregar, nem mais nem menos. Ou seja, nem mais que uma. Uma já está bom para
começar.
- Sim. E já está na hora de nos
mexermos. Tá na hora de irmos na vazante a jusante.
- Agora ou nunca! - gritou empolgado
o índio Guaracava, identificado.
- Então vamos que já é tarde. E o
tempo trabalha 24/7.
- Eles os tais e quais tememinó,
quando podem e quando menos esperamos, chegam e roubam e capturam e sequestram
nossas irmãs e primas. Isso nem pode ficar assim sem revanche.
- Que eu capture uma cunhantã
tememinó das bem queridas e graciosas e simpáticas.
- Nem se aborreça por isso nem tema
por isso, primo Tatucaba.
- É que nem sei se vou ter sorte
grande na escolha. Pare e pense... É mesmo uma loteria, nem é mesmo? - disse o
irmão índio Jerivá.
- Hoje vai completar o dia mais
feliz da minha boa aventura. Meus filhos futuros dependem desse dia feliz. Uma
escolha às escuras.
- Eu preciso ir lá hoje mesmo sem
tardar agora. Sou índio e preciso de índia pra sobreviver.
- O que vocês acham? É uma boa sorte?
- inquiriu Pitangaçu.
- Sim, vai dar tudo certo como dois
e dois igual a três e quatro e cinco...
- É sim uma boa ideia e aquele
negócio todo, etc., e assim por diante.
- Pois que existem e convivem muitos
índios sem índias e muitas índias sem índios. O que nem é normal nem apreciável
nem agradável nem gratificante.
Até atacar atingir essa região a
chuva vem num vento mais ou menos forte desde o oceano Atlântico. Ritmo forte e
muito seguido constante. E da terra úmida molhada nasce uma floresta tropical
cheia de luxo luxuriante comunicativa esfuziante. Aparece surge uma enorme
grande diversidade de vegetação particular endêmica catalogada, jaracatiá,
canafístula, guatambu, capim-arroz, filodendro, camarinha, caúna-amargosa... E
rios permanentes e cachoeiras e corredeiras e piscinas naturais. Lugar que se
vê também montanhas rochosas de mais de 1 bilhão de anos. Ambiente que já
esteve o mar. Foi mar foi deserto voltou a ser mar e agora hoje é serra da
Ouricana (para os íntimos). Árvores de tamanho médio para cima as que mais se
destacam na paisagem. Acompanhando o rio Engenho Velho a mata ciliar é bem
variada e diversa e nacional, taiuiás-do-mato, mandacarus, chocalhos-de-cascavel,
mirindibas-doces, umburanas, marias-rosas, cumandás, palmeirinhas-azuis...
Depois de um tanto remando rio Parimé abaixo, pararam na margem esquerda
desembarcaram diante da cascatinha 7 de Setembro. Muito peso muito trabalho
para contornar a cachoeira suportando as canoinhas e remos nos ombros nas
costas. Ao norte a nação dos cumanaxó, algo mais ao sul a pátria dos acarapi,
donos do rio Parimé os silvícolas cauixana, junto da serra do Galho os bororo,
bem lá pelo nordeste distantes mais de 200 km o território dos mariaté, sudeste
os bravos canoeiros malali...
Os viajantes quase nem levavam apetrechos de guerra,
poucas flechas e arcos e sarabatanas e machadinhas de pedra, para nem
atrapalhar o passo a correria a empreitada o serviço. O rio Gonçalves Dias puro
simples nítido limpo diário oxigenado despencava apurado da serra do Mar. Se
via um horizonte recortado de morros e pedras de outras eras distantes campos
rupestres. Do alto escorrem nascem córregos nascentes fios d’águas que acabam
por encher os rios. Ninguém sabe dizer por que tudo isso acontece. Ninguém sabe
imaginar por que tudo isso se mexe. É todo um mundo suspeito e de fôlego.
Habitada a terra por surpresas aventuras aves, chocões-carijós, caburés,
gravatazeiros, tem-tens-de-estrela, canários-da-terra, tuins,
cabeças-encarnadas, pipiras-pretas, gralhas-do-campo, caneleiros-pretos... Um
lugar um sítio necessário e ou que presta serviço aos viventes e ou semoventes.
Portanto pararam e ali mesmo um vale encaixado no meio das plantas e
samambaiaçus e bromélias um poço para tomar banho e um rápido lanchinho de
frutinhas e frutos ao alcance da mão, pajurás, abius, inajás, camu-camus, araticuns-mirins,
umbus, bacuriparis, mamas-de-cachorra, cumbarus, guabirobas,
jabuticabas-amarelas...
- Passear é bonito!... Passear é
sensacional!...
- Eu sei tudo sobre caçadas e
animais de couro e ou pelo, eu sei das épocas da boa pesca, eu entendo de
colher o mel das abelhas-jataís ou similares... Porém nem sei nada sobre as
belas cunhantãs. As cunhantãs são de outro horizonte, outro planeta, outra
galáxia, outra religião.
- Eu já visitei o museu Solar do
Barão em Jundiaí, eu desfrutei da praia de Meireles e praia de Aramanai e praia
do Maracanã...
- Eu derrubei os mais altos dos jequitibás e das
acapuranas e dos alecrins...
- Quando converso os guerê-guerês eu mesmo confesso
que voei nas asas dos taperuçus-velhos e gralhas-picaças e pombas-galegas e
sanhaços-de-fogo...
- Que nem eu até duvideodó! Eu fui de visita na cidade
de São José da Tapera e Pão de Açúcar e Monteirópolis e Senador Rui Palmeira e
Pedro Velho...
- Mas o mais importante e que conta e que faz toda a
diferença neste momento é gostar das cunhantãs novinhas em folha - declarou
abertamente o índio Turueí.
- Todos nós gostamos de cunhantãs. E
quanto mais melhor.
- De noite e de dia igual à cutia ao
guigó ao biguá ao saí-azul...
- Gosto e aprecio cunhantã por fora.
E como é por dentro? Alguém aqui adivinha? - altas dúvidas do índio Xiquexique.
- É um mistério como a noite escura
noturna.
- É um labirinto como a floresta -
sentenciou o índio Casaca-de-Couro.
- É lisa escorregadia como pedra
musgosa do fundo da gruta.
- Com tudo isso e como tudo isso é
uma fascinação! - concluiu o Corrupião.
- Quem perder de capturar sua
cunhantã ou nem alcançar êxito, vai se esconder no alto da montanha mais
inóspita. Bem longe distante de nós e o mais possível.
- A natureza pede cunhantãs novas
jovens novatas macias pele doce.
- Porém somos amigos e estamos
juntos nessa pra combater o mesmo delicioso combate - sempre a afirmação de
Cabatatu.
- Somos amigos e estamos aqui pra
conquistar o mundo e as pedras preciosas.
- Eu vou, todos vão. Se eu sou,
todos somos. Eu vou tu vais vamos todos.
- Qual a surpresa, Guaracava? -
falou o índio Turueí.
- Se um está cansado, todos
descansam. Se todos param, um ou o outro para também.
- Estou pensando num nome bonito e
maneiro pra minha futura linda cunhantã esposa, é.
- Que nome chamar? - perguntou
Jerivá.
- E se ela tiver nome e teimar com
ele mesmo até o fim...
- Vou chamar a minha cunhantã de
Tiriba. Um belo e nobre nome próprio.
- Eu mesmo acho bonito e elegante um
nome tipo, Astromélia ou Malva-Rosa...
- Já eu mesmo nem faço ideia... Se é
que vou procurar.
- Esta mesma nem é uma decisão fácil
e rápida e urgente. Temos que ficar pensando um bocado - declarou
Casaca-de-Couro.
- Tenho três opções e escolhas ou
dúvidas: Begônia, Maracujá-Ametista, Verbena. Todos nomes ótimos e selvagens e
palatáveis - recolocou o Pitangaçu.
O rio corre em sentido pendente
oeste para leste. Em meio à floresta diferente e tudo muito encantado e
espetacular. Cadeia de montanhas, cordilheira do Espinhaço. Mosaico de
vegetação, dia de sol, repleto de morros erodidos e vãos e buracos que surgiram
do encontro das placas tectônicas há milhões de anos. Inscrições rupestres
indecifráveis. Se ouve escuta frufrutar a floresta como um todo e respirando, perobas-rosas,
brejeiras, marias-pretas, ariris, xaxins-bravos, campânulas, açucenas,
vassourinhas, paus-de-chanca... A vocalização pipilar do acauã, por ex. Todos
desempenhando seu papel e ninguém melhor que o outro. Um mundo selvagem
inexplorado longe da civilização urbana digital. Nesse rio Campo Belo chegam uma
rede outros rios e riachos e córregos. Nos barrancos trilhas e trilhos pegadas dos
bichos da mata, capivaras, porcos-do-mato, antas, iraras, jaguatiricas, quatis,
onças d’água, graxains, lobos-guarás... O rio apresenta aqui ali umas pedras
pedregulho no fundo do leito corredeiras e fica arriscado pensar em navegar de
canoa. São ligeiros de tirar o fôlego. Mais as águas cristalinas espumantes
turbulentas.
E os índios charrua cansaram mais outra vez. Após três
horas de remos e perigos e esforços, aportaram num gramadinho confortável
agradável convidativo campestre paradisíaco. Sempre se servindo dos alimentos
selvagens que a própria floresta vai fornecendo oferece com as estações do ano
bem definidas se empapuçando embugando empanturrando, cupuaçus, umaris,
mama-cadelas, barus, uvaias, pitangatubas, pinhões, cambucis, sete-capotes...
Cada hora que passava tinha um povo plumoso que voava ruflava aí e cantava retinia
as harmonias os ritmos os estilos e em diferentes alturas de distintas árvores,
arirambas-da-mata-virgem, guaxes, andorinhas-do-barranco, tietingas,
saíras-de-chapéu-preto, besourinhos-de-bico-vermelho, sanhaços-cinzas,
soldados, martins-pescadores-pequenos, joão-de-pau...
- Por via das dúvidas...
- É simples porém nem é fácil -
índio Guarantã que desabafou.
- E se fosse pagar o dote o enxoval?
Nem seria mais em conta? Mais tranquilo e sossegado? - perguntou o índio
Tatucaba.
- Vai ser caro demais. E ainda é.
- Incrível mas é verdade.
- Nem há dinheiro que pague uma
linda e bela cunhantã - sinalizou o índio Xiquexique.
- Pois é da lei da floresta que o
certo é capturá-las no braço. Recomenda-se. Como se diz: “O jogo é jogado e o
surubim é pescado”.
- E elas merecem todo o respeito
toda a atenção toda a competição, com certeza.
- Nem é bom fumar que pega bafo,
entende?! É um conselho que ouvi dos sábios experientes mais velhos - ensinou o
jovem guerreiro Corrupião.
- Nem beber que bebum pinguço deixa bafo
e faz fiasco - emendou o índio Tarumaí.
- É um exame de provas e temos de
passar com muito bom ótimo: Aprovado! Com louvor!
- Está dito, né! Ninguém vai rodar
no exame ou ficar para segunda época. A continuidade da prole é que recomenda.
O serviço tem de ser feito.
- Hum!... Será que elas estão
esperando por nós por quem? - pensou alto o índio Tembetaru.
- Acho que sim. Tenho a impressão
que sim.
- Acho que sim e que nem - disse o
esperto Guarantã.
- Acho que nem - este o Turueí.
- De repente imaginam, nem sei.
Nessa idade elas criam um bocado. Acho que inventam alguém chegando numa canoa
ou voando igual uma ave um pássaro martim-pescador-pintado, ex.
- Provável que pensem de alguma
maneira ou em alguma coisa. O mundo fictício. O mundo alado. O mundo além
distante do comum.
- Chorarão sem poder se despedir dos
seus pais e parentes e irmãos? - seguiu duvidando o índio Tembetaru. Acho que
nem vai dar tempo.
- Vão ter que perder a memória, e
rapidamente.
- Algumas sempre choram na despedida.
E outras vão se alegrar. E outras vão se achar bem escolhidas. E mais outras
bem afortunadas.
- Soa difícil, porém as índias cunhantãs jovens são
mesmo muito sentimentais e românticas e sensitivas. Assim mesmo - juntou o
índio Tarumaí.
Chegaram na boca da noite e com
estrelas já apontando estalando na barra do céu. Do mato escondidos observavam
a aldeia dos tememinó. Que sucesso! Aguardavam pelo melhor momento. Todos ali
tensos armados com rede de pesca muçurana embira e pintados para a guerra. A
história sendo feita e pra contar recontar mais tarde.
Saíram da cena principal as estrelas consteladas e em
seguida perambulando veio a lua vestida de véu de noiva. De lá de dentro das
palhoças sobrava, volta e meia, um e outro grito de criança ulular uivar de
vira-lata arrulho de pomba-rola chirriar de coruja-buraqueira grulhar de
pato-do-mato chalrar de papagaio-campeiro tinir de apito ruflar de asas piar de
gaturamos guinchar de macacos-de-bando farfalhar do capim-rabo-de-raposa
sufixos em ‘ismo’ coaxar de rãs chocalhar de chocalhos... Os tememinó nem
queriam nem precisavam desconfiar de nada nadinha, nem procuravam nem
encontravam confiar em algo ou alguém, nem imaginavam surpresas nem esperavam
por novidades modernices...
- Que será que elas procuram? Que
elas querem isso e aquilo é certo.
- Que será que elas esperam? Que
elas sempre esperam mais é certo como matemático.
- Acreditam no acaso - renovou o
Corrupião. E com muita superstição.
- Elas as cunhantãs estimadas gostam
extremamente de presentes dádivas ofertas.
- Presentes... Que tipo de presente?
Pode ser bijuteria?
- Joias e braceletes e pingentes e chocalhos
para os tornozelos, óculos escuros, chocolates, roupas e vestidos e cangas para
saída de praia... - interpretou o índio Jerivá.
- É isso. Algum objeto pra usar no
dia a dia. Doce ou salgado bom de comer.
- Um mascote novo filhotinho - na
voz de Guaracava.
- Filhote de tucano-de-bico-verde,
trinca-ferro, beija-flor-rubi, tiê-de-topete...
- Um exemplar de
tartaruga-da-amazônia, cubiú, mocó... - narrou o índio Tatucaba.
- E melhor que tudo isso: que você
seja amigo íntimo dela. E pra sempre. E fiel.
- Que sua mãe a sogra dela, seja
leve.
- Então, tá! Vai ser uma aventura e
tanto - se empolgou Xiquexique.
- A mais difícil e recomendável.
- A mais falada e cantada em prosa e
verso.
- A mais importante e que vai cair
na história - declarou o índio Casaca-de-Couro.
- E tudo num dia apenas somente -
determinou Cabatatu.
- Logo logo vou abraçar minha
cunhantã, é. Sou um sujeito de sorte - bateu no peito pulsante de aço robusto o
índio charrua Pitangaçu.
Insuspeitas horas quando tudo já
estava quieto, os 12 índios charrua (um para cada mês do ano) moveram-se em
direção a uma abertura no cercado caiçara paliçada que rodeava a taba visitada dos
tememinó. Hora que muitos bichos noturnos estranhos saem de suas tocas e
buracos e esconderijos e cavernas igual os bacuraus os gambás os tatus-galinhas
os morcegos os tamanduás-mirins os sapos-folhas os caititus as onças-pardas...
Com uma ordem de um deles que foi na frente seguido
pelos outros... Uma fogueira iluminava guiava o centro do terreiro. Um punhado
de cães nervosos já vieram ladrar latir ganir rosnar cainhar acoar... Sem
demora, em milésimos de um segundo, os 12 pertencidos se atracaram por dentro
da tenda das mulheres solteiras e cada um pegou a que primeiro viu pela frente
ou chegou tateou em suas mãos. Com o alarido os guerreiros tememinó acordaram
já sabendo que algo sério e grave estava acontecendo. Os invasores agiram
rapidamente, em um segundo, arrastando as meninas para o meio do mato. Quatro
dos invasores, os mais capazes e bravos e destemidos, ficaram lutando
distraindo os tememinó por mais uns 5 minutinhos. O restante do grupo, e com as
mulheres índias meio que arrastadas e bem seguras nos braços, foi correndo na
frente e com vantagem. Em breve o entrevero se desembaraçava perdia o foco e
todos em bando compacto fugiam subindo o rio Inhaí remando sem parar
fortemente, e se deram bem. E o mundo conspirou a favor da natureza. E a
natureza acontecia das suas.
A volta subida montante contrapelo ao
revés, manhã ainda leve e iniciante familiar já em meio ao rio Floriano, foi
trabalhosa apurada e na base da afobação. Remando apressado contra a corrente e
como Tupã deixava. Aves ensaiando voos e manobras performáticas, cauintãs,
papagaios-chauás, japacanins, balança-rabos-canela, bentevizinhos-do-brejo,
periquitos-reis, gavião-carrapateiro, surucuás-de-cauda-preta... Ali aqui o rio
se espalha criativo rápido ou calmo e em alguns lugares específicos faz uns
alagados banhados pântanos com muita propriedade e criação de peixes e pássaros
e mamíferos e répteis e aracnídeos e insetos...
E manhã pequena cedo eles voltando elas se despedindo
da sua terra natal aldeia natal. As muitas águas que alimentam este rio
poderoso e cheio de nutrientes descem sim do entorno junto das montanhas e suas
pedras porosas inventando lapílis e tufas calcárias mais outros tipos de
formações rochosas desde a serra do Cipó. E espécies de vegetais que somam em
centenas no ambiente casto da mata fechada bosque variado com gravatás cactos
árvores retorcidas, cumatis, umbuzeiros, licuris, palmitos-juçaras, angicos,
embaúbas-prateadas, carnes-de-vaca, cedros, casadinhos, quinas-da-serra...
Pegaram a empreitada mais puxada e lá depois de 4
horas descansaram num remanso de piscina natural na volta do rio. Borboletas
várias catando sal no barro preto e ou na serapilheira. O rio piscoso
(curimbatás, traíras, cascudos, bagres, charutinhos, lambaris, muçuns...)
surgia de tantas nascentes incontáveis cortando pedras calmamente durante anos
a fio. E com os tempos abriu vales e cânions enseadas quedas d’água. O lugar
tipo assim a um anfiteatro de aparência antiga cavernosa cheia de histórias
geológicas. Área da mata ainda bem conservada e reserva da biodiversidade,
avencas, selaginelas, poejos-do-campo, acuris, tucaiás, morangos-silvestres,
mimosas, lírios-azuis, cravos-do-campo, grafistilis, cauaboris-roxos...
As índias namoradas cunhantãs tememinó ainda separadas
dos maridos índios charrua. Uns na sombra do grande tucuribá e umas na sombra
da grande figueira-mata-pau. Se olhavam conforme deixavam as horas passar
tiquetaquear. Se alimentavam ambos do que havia pela mata pelas plantas ao
alcance da mão bebendo água da fonte, cúbios, muricis, maracujás-açus,
cagaitas, pequis, ameixas-da-terra, cambucás, grumixamas, pitangas,
amoras-do-mato...
- Acho que nem bem nos ouvem daqui...
- Eu ganhei de presente este espelho,
em?! E olhem que me prometeu que terei já pronto umas tatuagens da tribo dele -
falava a cunhantã tememinó já também charrua Tibuquina. Me prometeu e chegando
lá na minha casa nova terá de cumprir.
- Também vou exigir e acho legal.
- Ainda estamos todas meio que
encabuladas envergonhadas vexadas recém-casadas...
- Eu gosto de ir a novos lugares. É bom
pra autoestima.
- Se for o caso e valer a pena...
- Eles têm que nos querer como
somos.
- Já eu preferia ficar em casa e na
minha, sozinha particular. Quer dizer, na nossa aldeia. É difícil enfrentar o
desconhecido. Nossa aldeia nossa oca nossos pais e mães e avós e irmãos...
- Será que nossos irmãos virão nos
resgatar? - dúvida da índia Juruva.
- Talvez esta noite ou mais tardar
amanhã.
- Vai saber, né!
- Passado de hoje a noite já é
tarde, entendeu?!
- Meu mascote sauá Jurobão vai
sentir saudades de mim, entendo.
- Vocês já trocaram ideias com seu
maridos? Eu ainda estou amarrada na minha tonteira.
- O que dizer? O que perguntar? Até
onde chegar?
- O que responder? - indagou a
Saíra-Amarela.
- Comece perguntando seu nome... O
que prefere comer e beber... Se gosta de dormir na rede ou na esteira ou no
jirau... Quando que hora do dia prefere o peixe bem moqueado...
- Eu só nem quero trabalhar muito
igual escrava sem direitos faça chuva ou faça sol.
- Eu nem quero ter muitos filhos.
Vou ficar devendo neste ponto - relatou a Valeriana.
- Eu nem quero trabalhar na roça
arrancando raízes manivas tubérculos batatas-de-caboclo manjeronas-do-campo...
- explicou a índia Estévia.
- Minha mãe já tinha me avisado que
este rapto ocorreria dia ou outro. E foi hoje está sendo agora nesta hora -
desabafa Budileia.
- Estou satisfeita assim. Melhor que
podia me acontecer. Eu juro!
- Me sinto emocionada derretida
pronta para outra etapa do meu acontecer.
- Está tudo programado pelo tempo.
Eu acho - concluiu a tememinó Saíra-Sete-Cores.
- Sim e eu também. Já pensou se eu
fosse esquecida deixada para trás posta de lado? Eu já estaria em depressão e
falando sozinha e andando perambulando solitária.
- Isto tudo é sorte e é destino e é
rio...
- Eu passo muito tempo olhando o rio
o número imenso das estrelas a revoada das aves o canto dos passarinhos,
araçari-banana, catirumbava, beija-flor-preto, sabiá-barranco...
- Eu também olho e aprecio tudo que
aparece e que vai e vêm, pica-pau-anão-barrado, ferro-velho,
maria-preta-de-garganta-vermelha, andorinha-do-rio...
- A gente serve serviçal pra tudo e
qualquer coisa e todos os negócios e todas as horas.
- Então, tá!
- Nem é só um casamento, é um
caminho sem retorno.
- Vou ajudar meu marido no que
puder. Vou fazer a melhor farinha torrada da aldeia charrua. Minha sogra nem
terá do que se queixar - falou e disse a índia Maitaca-Verde.
- Eu também. Vou fazer comidas
diferentes todos os dias.
- O que que teu namorado te disse? Ele
já gosta de cafuné e ou catar piolhos?
- Nem quero ser criticada e apontada
como uma inútil. Nem tenho tendência sedentária.
- Nem vou mais ficar sozinha e
perdida e sem filhos e sem fazer nada. Vou cantar como um entufado e voar como
um tufinho-verde.
- Prefiro fazer minha própria
refeição: minha quiçamã meu pescado de pirajubas...
- Eles os charrua devem plantar
abóbora milho mandioca amendoim...
- Nossa! E quanta novidade num dia
como hoje, hein?!
- Hoje é o melhor dos dias!
- É verdade.
- Acho que isso tudo nem é tão
razoável assim.
- Você acha que nem é correto?
- Nem nunca saí de casa antes -
testemunhou a cunhantã Drosera.
- A paisagem está mudando e vai
mudando e mudará ainda mais. Agora mesmo passou um bando de maracanãs-pequenas
rumo da serra da Mantiqueira.
- Temos coisas muitas para fazer
hoje e amanhã e depois de amanhã...
- Toda cunhantã é futura cunhã -
emendou a índia cunhantã Sempre-Viva.
- Quando eu era cunhantaim eu queria
ser cunhantã. Agora quero ser cunhã.
- Este é o ponto! Assim é o
processo! Nossos parabéns!
- Sempre me pergunto: Por que eles
sempre eles sim e nós nunca e nós nem? Custa ser o contrário? - questão da
tememinó Pé de Ouro. Um curumim já nasce com algo mais e as bênçãos dos deuses
e mãe-natureza.
- Vai que é mais cômodo assim! Vai
que é melhor assim! Vai que é assim que tem de ser!
- Vai que custa muito mudar as
coisas! Vai que é pegar ou largar!
- O dialeto charrua é um pouco
complicado, vamos dizer assim.
- Já vão plantar em nós o futuro promissor
da tribo deles...
- De agora em diante vai ser nossa
língua e idioma dos nossos curumins e cunhantains.
- Este mesmo sol que nasce no leste
e deita no oeste - afirma a índia Arnica.
- É para lá que vamos e seremos. E justamente.
Dias depois na taba charrua e ao pé
do fogo de chão, os heróis da façanha riam orgulhosos ao lado das suas sestrosas
cunhãs roubadas. E justamente e sempre recontando o feito a aventura a fábula
os sucessos épicos. As esposas prestativas preparavam peixe dourado na brasa e cauim
cauí caoí e muito desde sempre risonhas engraçadas faceiras. Uma ou duas
palavras e rindo todos juntos ao mesmo tempo carnavalescos. Assim a aldeia dos
charrua crescia mais depressa e majestosa. Talvez no futuro vão ter que se ver
novamente com os tememinó. Enquanto isso o risco calculado já valia a pena.