sábado, 3 de fevereiro de 2024

O rio das frutas, ivaí (3) juvenil

 


 

Era bonito o dia a dia na aldeia dos arauá. O que era um dia bonito e agradável na aldeia? Um dia bom no céu da boca. Azul por dentro da atmosfera. O rio Anil convivia a poucos passos a pouca distância da taba da aldeia. O mundo acontecia assim mesmo como a gente o conhece, e no mundo inteiro. O firmamento demarcado daqui até ali e de acordo com os cânones e demais mapas regulatórios. Melhor que isso confirma.

Vez em quando o céu completamente aberto e azul, azul. Vez em quando o céu afofado de nuvens brancas leves com bordas de ouro. Nuvens de integridade consonância claridade. Vez em quando o céu espremido e abarrotado de nuvens carregadas, pesadas chumbadas, positivas e negativas. Nuvens de obscuridade desintegração dissonância. Vez em quando chuva e chuva, aguaceiro, cortina de água, bomba-d’água, chuva que D manda.

- Guanandi!... Vamos apreciar daqui e olhar a chuva cair... - dizia a Lilás em simples conversa ao pé do ouvido do petiço orelhas grandes Tico-Tico.

De manhã e de tarde e de noite os índios gostavam de gritar, berrar, uivar, e imitar curicacas, papagaios-do-peito-roxo, jacupemas, bugios, macacos-pregos, saguipirangas, jaguatiricas, graxains, vendaval, trovão, seres de outro mundo ou personagens lendários:

- Tiéeeeee!... Oi-oi-oi-oi-êeee!... Ariiiiiiéeeee!... Si-si-si-te-téeee!... Fiau-fiau!...

O petiço Tico-Tico rolava no pasto grande e verde, rolava na terra vermelha e fofa, nadava na sanga morna e cristalina, se esfregava nas árvores frondosas e elegantes, oitchi, vinhático-do-campo, avencão-da-serra, formigueira, bacupari-de-capoeira. Deitava relaxava no capim e comia capim-gordo o dia todo. E tomava posse usufruto fruição do dito terreiro.

As árvores cresciam, os pássaros brincavam, um beija-flor beijava flores. O céu no alto, as nuvens trotando, o rio Juqueriquerê ia passando sem passar de todo. Dia que deve notar comemorar com plantas por todo lugar. Dia ensolarado como no costume. Dia que se ganha os emolumentos valores vantagens lucros. Curta duração evanescente efêmero.

- Canjarana!... Esta curuminzada é como igual aos peixes, ou seja, ninguém tem receio de água e nadar, compreende, amigo Tico?! Diga que sim!

O dia aparecia e a tribo arauá ia se distanciando e se dispersando aos poucos em volta da aldeia. Cada um procurando o seu de-fazer. O rio corria liso, o rio piscoso, o rio Taquari, o rio Ipanema, o rio dos Sinos. Os índios fazendo xeripana na piracema. A mata cheia dos ruídos de bichos, o urro do bugio-ruivo, o palrar do bando de ajurujubas, a bagunça dos tucanos-de-bico-preto nos altos galhos dos guaximbés, o canto das tuiparas, balanceio dos macacos-de-cheiro de galho em galho nas guajuviras, cigarras estridulando, o taquaral o gravatazal cantando na viração. Casquinada, chilreio, chilro, trilo, conversa.

A princesinha menina Lilás, que chamavam de Tapuitinga, e mais os curumins e as cunhantains, chegavam ao rio já brincando na manhã que surgia radiosa. Nadavam mais de duas horas. Pulavam do barranco no rio. Competiam quem nadava mais longe e mais rápido. Quem mergulhava mais fundo. Quem catava pedra no fundo do rio. A menina nem competia, e mas também se divertia muito. E aprendia definitivamente.

- Ubari!... Sim, eu vou até a beira do rio e brincar nas areias fofas - compelia a Lilás, também conhecida localmente na aldeia arauá como menina Beija-Flor-Roxo.

- Vamos correr até o rio e nadar - cunhantaim Beija-Flor-Rubi (nome de infância).

- Já subimos na árvore para derrubar araticuns - cunhantaim Beija-Flor-Dourado.

- Me carrega nas costas - cunhantaim Beija-Flor-de-Papo-Preto (nome de infância).

Petiço andava feliz o resto dos dias ali em a aldeia. Isso foi mais lá no começo, vez ou outra, se impressionara porque muitos curumins e cunhantains queriam carona garupa e isso ao mesmo tempo muitos e em pelo. Às vezes três quatro cinco de uma vez e brincadeiras e anarquias e disparates e trotes e bagunças.

- Hi-ooooi!... Me levem pro pasto, suas pestes! - este o intrépido Tico-Tico.

Pela manhã os guerreiros saíam coletar na mata muito longe e só voltavam à noite. Pela manhã uns índios iam pescar mais acima no rio Taquari e só voltavam na tarde. Pela manhã as cunhãs índias (umas com o bebê na baquité preso às costas) ralavam mandioca, ralavam milho verde, faziam tapioca, pamonha, farinha, isso o dia todo. Pela manhã os curumins iam buscar frutas ali pertinho, e voltavam no meio-dia. Pela manhã as cunhantains iam buscar mel nos troncos das sapopemas ali pertinho, e voltavam pelo meio-dia. Pela manhã os curumins e as cunhantains e os guerreiros e as cunhantãs e os mais velhos iam nadar no rio e se divertir uma hora, duas horas, a tarde toda.

Quando chovia pouco, os guerreiros iam na casa dos homens conversar, fazer cocar, fazer rede de dormir, fazer esteira, fumar cachimbo. Quando chovia mesmo barbaridade, os guerreiros ficavam deitados na oca descansando e planejando canoas, pescarias, coletas, hortas e atitudes e iniciativas e empreendimentos.

- Todo verão vamos colher mel lá naquele morro acolá, ó! E é um lugar de muita sorte de mel o ano todo, é! - ensinava a cunhantaim Beija-Flor-de-Garganta-Azul.

- Meu papagaio de estimação se chama Cutiti e ele até fala - exibia o papagaio o curumim Coqueiro-Buçu (apelido de infância).

Petiço Tico-Tico, o tapiraguaçu ou grande anta, passeava no pátio e era muito requisitado pelos indiozinhos. Ele parava e era solicitado a andar no galope, às vezes. Um filhote de janauí brincava de farejar tudo e pulava quando os indiozinhos pulavam. O tucano-de-peito-amarelo andava empoleirado, e de preferência, no mapuxiqui que fazia sombra no centro da ocara. A taba era um lugar aprazível de convivência comunitária.

A noite chegava com citatás muitas e brilhantes no céu. Precisava ver! Jaci cheia começava a subir. Quaraci vermelho fora embora cansado do dia, os cabelos em chamas. Estrelas cadentes desenhando as devidas parábolas. Aldeia na assombrosa quietude das palhoças redondas retangulares quadradas triangulares, e desde os princípios dos tempos.

- Vou plantar esta manhã um caroço de jabuticaba preta na terra úmida na sombra - lembrava a boa velha cunhã Piranguçu (nome de adulta).

- Prefiro ser um pássaro uma asa-branca e das bem viajantes - cunhantã Piratantã.

- Por que as aves são assim? - questionava a bela e jovem longos cabelos pretos olhos pretos pele bonita a cunhantã Garricha.

- Eu se fosse ave avoante voaria o dia inteiro o mundo inteiro - desabafava sonhadora a cunhã Cutipuruí (nome de adulta, na infância fora cunhantaim Beija-Flor-Rajado).

Ainda pela margem do famoso rio Taquari ou rio das Bicas, algumas capivaras roncavam, tapiretês rolavam no barro, maracajás apontavam cabeça à flor da água, marrecas-ananaís gritavam, saracuras piavam, garças-brancas falavam alto e voavam baixo, guará subia na ilha verde feita apenas de aguapés. Esses sabiam viver ali à beira-rio. Conversavam entre eles. Família de tracajás na praia de rio de açude de sanga de barragem.

Os peixes ainda pulavam, davam voltas e giros no ar, acrobacias arriscadas. E todos os peixes pacus, pintados, dourados, pirarucus, piaus, bagres, jundiás, arraias, cangatis, muçuns, sabiam qual era o seu peixe ou vender o peixe. Esses só sabiam a sorte com o rio corrente rumo do mar. E mergulhados em água doce, às vezes doce e turva, outras vezes clara e ligeira. Peixe era viver o tempo todo dentro da água e se contentar com o mundo líquido. Sempre olhos bem abertos, olhando lá do fundo, boca de borbulhas, os peixes novos e mais velhos, de pele ou escamas, quase nem viam as estrelas do céu, quase nem viam a lua. Viam sim o fundo de areia e pedras lisas e mesmo já sabiam contar as pedras e os grãos de areia do fundo do rio Taquari do rio Jacuí do rio das Antas do rio Retiro do rio Bacanga.

- Eu posso pegar a canoa e remar até ali, posso?! - perquiria o curumim Coqueiro-Iri.

- Por que todas as formigas estão correndo... de ida e volta?! - pergunta pertinente e curiosa e sensacional de curumim Coqueiro-Piaçaba, que sempre vinha com as suas.

- Um dia vou conhecer o rio Taquari de ponta a ponta e mais - prometia o curumim Coqueiro-Açaí, filho de cunhã Pirarara e guerreiro Sapupira-Amarela.

Um rio como o rio Taquari nem tinha nem precisava de limites. Nascia nos montes e montanhas, se estendia pelos peraus e vales e campos, contornando acidentes geográficos, passando por aldeias. Corria para o fim do mundo, serpentino e serpejante e serpenteante. Nem precisava o peixe viajar, o rio mesmo fazia o caminho do leito do rio e o destino do peixe ia nadando junto na calha do rio na onda do rio.

Então, o rio Taquari parava a noite ou a noite parava o rio. A noite parava o rio, assim era melhor. A noite tinha os polos geográficos do norte e do sul. O rio tinha os magnéticos mais ou menos ao norte ao sul. O rio tinha e tem as latitudes e longitudes próprias de um rio com trajetória definida por Tupã.

E já foi dito que o rio Taquari parava na noite para pensar tudo que devia pensar. O rio tinha tudo para pensar. O rio parava na noite escura e ficava pensando alto:

- Balandrau!... Até onde vou por esta minha estrada líquida? Até onde quero me exercitar? Para onde vai o meu futuro nesta descida sem freios? Para onde e até por quê?

O rio Taquari ainda perguntava ao cascudo, o rio falava à traíra, o rio dizia à piranha, o rio indagava ao lambari, o rio interpelava ao piraquê ou acará-bandeira:

- Balandrau!... Querem nadar por esse lado aí, hein, compadres comadres?! Recomendo e passem bem! Recomendo e nadem bem!

E o boto-cinza e família nadavam para lá, e o boto-vermelho e família nadavam para lá, e o boto-tucuxi e família nadavam para lá, e o boto-cor-de-rosa e família nadavam para lá, e outras famílias de tais e tais nadavam para lá. E as famílias de peixes também e piraba e arauari e avari e aravari, foram para lá, olhos bem abertos, nadadeiras nadando, caudas rodando, sem nada falar, agradecidos com o rio, rebatendo as caudas, nadando contentes até sumir. Uns faziam pouso pra descansar na beira do rio outros mais entre as pedras do fundo.

Havia de ser nessa altura das horas da noite, no rio Taquari, devido uma borbulha que veio do fundo, junto das areias e das pedras bem fundas, que aparecia, então, a senhora Iara.

Iara, mãe das águas, começava a se mexer para fora da toca das pedras preciosas do fundo do rio. A mãe das pedras preciosas e dos cascalhos de ouro e outros balangandãs, começava a se mexer e borbulhar nas águas do fundo do rio. Rio comprido que Tupã sabia. A mãe das zebelinhas começava a sacudir as barbatanas transparentes e desde o fundo do rio. Ensopada de água do rio.

Lá na toca funda do fundo do rio Taquari, e é que vivia a Iara. Entre pedras de todo tipo e areias finas e brancas e um pouco de lodo. Lá vivia e sempre viveu e vive a Iara, mãe das águas, mãe das pedras preciosas, mãe do ouro, mãe das zebelinhas. E uma lenda viva.

Iara sai da sua toca em noites de lua cheia e céu limpo. Ela sai para passear ao ar livre. Ela se desentoca para ver a lua. Este é o mistério da mãe-d’água, sair para ver a lua passear ao luar admirar-se no espelho lunar. E a lua sabe disso e a lua vem observar a lua no espelho calmo do rio no remanso do rio. Tudo calmo pacífico transparente misterioso incógnito. Tudo descrito no almanaque da lenda lendária. Descrito na enciclopédia e no gibi.

A ideia de Tupã de usar as estrelas e astros no céu noturno nem era de agora de hoje nem para servir o amanhã. Sim, sinceramente obviamente, foi de a muito tempo passado e pensado tudo isso. E a jurisdição de Tupã nem só abrangia a floresta a mata atlântica mas outros biomas outros países o mundo inteiro e arredores.

Parentes afluentes do rio Taquari também exercitavam aí e o rio Colônia e o rio Salgado e o rio Mucuri. Uma vasta bacio hidrográfica abastecia a região. Nem um mexido de peixe, nem um pio de suindara, nem um mergulho de jacaré-de-papo-amarelo, nem uma acrobacia de boto-cinzento. Noite como a noite de luar, silêncio como o silêncio e quieto como o quieto respeitado respeitoso.

Naquela noite de lua, Iara saiu da toca e nadou até a superfície na praia de areia fina do rio. À medida que saía da água, de peixe que era, virava e virou em uma bonita cunhantã. Dali ela procurou uma pedra da margem, linda no seu porte de índia elegante, olhos verdes verdes, e já foi se sentar na pedra favorita. Saiu toda de cabelos negros e longos e molhados e foi se pentear calmamente sobre a pedra mais alta do pedregulho. Dentro da água era a rainha dos peixes, fora da água uma bonita cunhantã dona do luar. E tinha um poder e fazia um sucesso de seus bem feitos 20 anos. Praticamente na idade de casar, efetivamente.

- Aru anuro!... Toca uma música uma modinha pega o violão dá uma palinha pouco de pala, hein?!, Iara - dizia pedia convidava o sapo-do-surinã.

Se penteava Iara olhando a lua e as estrelas, e se admirava no espelho do rio, se penteava com pente fino de espinha de peixe. Nessa hora da noite enluarada, só queria se pentear e nem queria mais nada nem esperava acontecimento algum. Isolada em si mesma. Dona e proprietária de uma sensacional beleza. Se comportando como diva e ícone e lenda.

- Oxalá e tomara, trovão do rio! Um dia quero conhecer as praias do mar, quero muito ver e mergulhar nas água bonitas de Co-pa-ca-ba-na!... - dizia ela Iara compenetrada consigo mesma falando pra si solilóquio. Quero mesmo e pra sempre!

Nem esperava namorado, nem esperava surpresas, nem nada esperava nuvem no céu, nem esperava peixe pular no rio, nem cantava para a lua nem para ninguém. E nessas horas nem falava, nem cantava, nem nada tossia, nem mugia, nem ria, nada de nadar ou se agitar. E só se mexia mais ou menos para se pentear com muito cuidado len-ti-dão calma paciência.

A noite andou, a lua pulou de galho em galho, a lua se viu no espelho do rio, as estrelas quicaram de buraco para buraco de departamento em departamento de galáxia em galaxia. A noite andou, pulou, picou, rolou, puxou e foi escorregando dependendo à deriva.

Uma vez a lua parou para colher sete-capotes. Uma vez a lua continuou a andar depois de pegar sete-capotes. E mesmo o vento estava noutro lugar soprando quando a lua ainda mastigava frutinhas da arvorezinha sete-capotes. A lua pediu licença pra sete-capotes:

- Oi, parente de sete sortes! Quando você floresce quando você embeleza de vez?

Então, a lua nadou sozinha e silenciosa por dentro do rio Taquari. Foi indo para outro lugar e outro tempo e outro planeta. Ninguém falou nada, ninguém piou nada, ninguém chiou nada, mas a lua nadou nua na noite estrelada. O rio Taquari tinha outros parentes no meio da região e todos já conhecidos da lua e rio Alcobaça ou Itanhém e rio Caravelas e rio Grande.

Por acaso Tico-Tico foi ver aquela sombra feliz se penteando e descobriu por acaso a bela Iara. E era uma índia linda de morrer e uma índia encantada do fundo da lagoa. Uma índia que nem sabia fazer outra coisa a nem ser se pentear lentamente. Travada na sua própria eterna beleza. Penteava os cabelos longos esticando o braço es-ti-can-do...

- Hi-ooooi!... Que feliz coincidência, cunhantã Iara! Toda bela e à uma hora da madruga! Já é cedo já é tarde para os bichos mas é natural para os deuses e deusas!

Iara viu o petiço e nem se assustou. O petiço de olho firme sobre ela a se pentear. A bela se olhando se olhou no espelho do rio. A lua viu e reviu o casal muito perto. O cavalo se viu refletido no cristal dos espelhos dos olhos da deusa aquática e olhos ensopados de verde.

- Oxalá e tomara, trovão do rio! Você é meu fã e eu o conheço de outros trotes?, meu caro quadrúpede de pelo ruço. Você veio do mundo do país dos quatro por quatro?

O rio Taquari deslizava e ninguém podia perceber. Era um caminho feito leito feito dormitório de rio. A noite deslizava e ninguém podia impedir. Era um caminho povoado de estrelas aturdidas fugitivas de outros sítios cósmicos. O vento escorria entre os ramos da macacaúba-da-terra-firme e ninguém podia prever e ninguém tinha nada com isso. Era um caminho de rio de noite de vento e de quem mais se apresentasse. Sorte dos viventes!

A noite estava tão silenciosa que mil e quinhentos cava-terras cricrilavam. Umas cachorrinhas-d’água se fingindo de artistas de teatro se apresentavam. E também mil e quinhentos sapos-ferreiros coaxavam e pulavam e ronronavam, troavam no batuque.

Tico-Tico e Iara se beijaram na boca ali no barranco do rio Taquari. E quase nem resmungaram, uns estalinhos de beiços, uns... hum! hum!, e nem falaram nada nem se ouviu. Nem falaram nada que nada interessava a ninguém e somente a eles mesmos. Se beijaram, se olharam de perto, esfregaram os narizes, uns selinhos, balbuciaram uns, hum! hum!... balbucios, e namorados enamorados em idílio. Um estilo único.

- Oxalá e tomara, trovão do rio! Um você vira peixe e vamos morar em o rio Taquari.

- Hi-ooooi!... Um dia nem muito distante você vira cavalo e vamos galopar nos Campos de Cima da Serra ou Campos de Vacaria, região turística e fisiográfica perto e cerca do cânion Itaimbezinho. Uma sopa no mel para viajantes, minha cara-metade! Diga sim!

A noite estava alta, a lua estava ajeitando o cocar de penas de garça-branca na cabeça, as estrelas iam todas iluminar a festa do céu que já ia começar. A cúpula do céu já estava azulada na cor preferida e tudo ia bem. Quem esperava pra ver.

Tico-Tico e Iara assim juntos assim muito admirando as transformações do espaço noturno. A Iara beijou e fechou os olhos para ver melhor os efeitos dos beijos. Tico-Tico ajeitou melhor os cabelos dela. Iara brincou e lhe devolveu ajeitando suas crinas lá dele.

Coisa que raramente acontecia e nem hoje em dia. Eram parentes de alma. Almas apegadas e que Tupã fez encontrar ali em caminhos traçados no mundo. Um casal perfeito.

- Hi-ooooi!... De noite de noite o céu parece um campo muito vasto e pastoril, é.

- Oxalá e tomara, trovão do rio! O céu noturno parece um universo subaquático - suspirou alto a Iara, que se cuidava bem e sabia se cuidar e se cuidando bem bom.

Nem longe dali a guriazinha Lilás dormia numa esteira na oca, no meio da oca, perto do fogo baixo, enrodilhada arrepiada de frio em a noite fria. E acordou sem querer. Parecia alguém batendo na porta? Oca tem porta? Claro... que nem! A menina pensou ouvir alguma coisa um pouco suspeita e misteriosa enigmática. Que foi, que voltou?

Despertou com alguém piando ou grasnando ou batendo as asas ali na entrada da palhoça. Alguém chamando por ela. E a menininha princesa foi pra fora conferir o que era e deu de cara com um urubu-rei dos grandes. A princesinha esfregou os olhos sonolenta e quis saber logo de uma vez, de uma vez por todas, ainda ontem urgente em cima da hora:

- Saguiguaçu!... Que foi, meu?! E você acordou cedo, de onde você veio e de onde você é - foi tudo que a menina pode dizer ali na hora saída recém do sono do sonho bocejando.

- Tu-ru, tu-ru!... Te apronta de uma vez que eu vim te buscar para a festa no céu. Hoje é noite de festa no céu. Nem quer ir no baile? Então, te mexa e te apronte e vamos de uma vez. Já é noite alta e é madrugada e estamos quase quase atrasados, simboralá! - foi o convite de Urubutinga a ave alvinegra, que sempre voava alto bem alto além das nuvens altas junto do céu praticamente na estratosfera riscando o azul com a ponta das asas. Sobrevoando a terra.

Eles dois pegaram e subiram para o céu. De imediato. Como? Noite estrelada com estrelas de todas as cores e tamanhos e números de pontas. O urubu-rei voava bem, a menininha bem agarrada nas penas das costas, voaram bem. Por quê? As estrelas triunfalistas agradeciam à noite. A noite ainda era ocada, oca ocaso e ocasionalmente, e por dentro.

- Aguaraquinhá!... Vejo que o negócio está ficando alto e aéreo, então! - a menina Lilás e se adaptando aos voos altos à altura à questão da altitude acima do nível do mar.

- Tu-ru, tu-ru!... O céu é logo ali e está perto mais acessível que você imagina! - piou a ave urubu-branco dos altos voos e altas e fortes correntes de ar.

Ao chegarem no céu os dois foram direto ao clube do céu, o clube Bastião do Cosmos. E este o mais famoso e único do céu azul celestial. E o clube estava realmente repleto e lotado e abarrotado e preenchido. Uma algazarra de sons, uma bagunça de personagens e um carnaval de alegria e animação e folia. Uma grande mistura de cobras e lagartos. E gente de todos os rincões sem dúvida, Salesópolis, Natividade da Serra, Icatu, Guimarães, Lagoa Vermelha, estância balneária Caraguatatuba, ilha de Santana, bairro Brás de Pina...

- Tu-ru, tu-ru!... Festa no céu é convite aberto, ou seja, vem todo mundo e vem quem quiser - dizia o voador Urubutinga, já pousando no estacionamento do clube B. C.

- Ubatinga!... Só podemos chegar aqui via aérea. Que coisa espetacular! - declarava a menina, olhos bem abertos esbugalhados brilhando de alegria.

Nem havia ninguém cuidando a porta porque nem tinha porta e nem janela, nem portas de par em par e nem janelas envidraçadas de correr. O clube nem tinha dono regular, nem tinha dona de plantão, nem tinha nome identidade escrito nas nuvens e era, em vez disso, muito frequentado muito profissional muito macróbio muito conspícuo. Era tudo numa nuvem muito alta, na estratosfera, ou mais alto ainda, quem sabe mais alto que tudo mais alto que nunca. Nuvem tão alta quanto fictícia. Nuvem tão grande quanto distante e provecta.

Os frequentadores, já uma multidão muito variada, que eram todos os bichos, todas as plantas, podiam dançar juntos podiam dançar separados podiam dançar agarradinhos podiam dançar coladinhos podiam dançar de rosto podiam dançar ao ritmo baiano caipira de raiz gafieira fandango rancheira maxixe frevo congada balada boi-bumbá...

Lilás começou se empolgando e começou a dançar com o urubu-rei ou urubu-real. Lilás como que voava flutuava sobrevoava o chão de vapor. Era o seu estilo. E a menininha sabia aproveitar a festa da moda e pra se divertir. Festa é pra se divertir. Pra se divertir, é festa.

- Sairaçu!... Nem sei como te agradecer pelo convite, Urubutinga.

- Tu-ru, tu-ru!... Você nem podia faltar a esta festa no céu. Eu também nem.

Pois o futuro era azul-claro e alto como o lugar. A temperatura agradável, amena, recomendável, em média de 25ºC. A gravidade em bom estado. A umidade no normal e possível padrão para uma menina terráquea. E aproveitando os dados da meteorologia e a tonalidade do azulão, que fazia mais ou menos o ar rarefeito, o futuro tinha toda a esperança verde do mundo. E tinha mesmo. E havia muita testemunha que dizia e brincava ali.

- Açanã!... O céu tem várias nuvens flutuando na nossa altura, pois é.

- Tu-ru, tu-ru!... A festa sempre com música e diversão e alegria e risadas, ahahahah!...

O curió dançando com a corruíra, estavam certos? A cutia dançando com o porco-espinho, estava certa? O carataí dançando com a louva-a-deus, estava certo? O louro-puxuri dançando com a saúva, estavam certos? O corimbó-da-mata dançando com a seriema, estava certo? O angelim-araroba dançando com a muiratinga, estavam corretos? A lagarta-compasso rodopiando com o gonçalo-alves e estavam firmes ótimos e seguros? Aproveitamento 100%.

A socó com a bela crista alta e arrepiada. A inhambu de crista vermelha. A paturi de crista espetada. A alma-de-gato com a crista sobrando. A sabiá-laranja de crista esperta. A pirambeba de crista espinhosa. A jurubeba de crista luminosa. O elemi-do-brasil de crista natural normal. O tico-tico-guloso de crista cafona.

- Pocema!... Nem sabia que era viajante desde a terra dos silvícolas pocheti.

- Tu-ru, tu-ru!... Até hoje ninguém sabe o porquê da terra acontecer tão assim... atualizada. Mas são os acontecimentos do acaso, quem sabe.

A jia de mãos nos bolsos do paletó. O lagarto-de-papo-amarelo de lenço verde no bolso superior do paletó cinzento. O quati de colar e pulseira e sem paletó. O sebinho de paletó novo. A tubiba de paletó florido na moda tropical. A manjerioba de paletó desabotoado. O junco-manso de paletó largado no ombro. A esperta-grande de paletó acachapante.

O quero-quero solicitou o prazer de dançar com a saracura. O joão-de-barro pediu favor à sabiá-do-campo para dançar. A coleirinha-da-serra pediu ao macaco-da-meia-noite favor dançar. O calumbi chamou a cupira para dançar no meio da pista de dança. Foram para a dança saracotear o lírio-verde e a abelha vamos-embora. A vaquinha Bombom (era dona de leiteria), conversava com a potranca Simpatia, esta proprietária de restaurante vegetariano.

- Abativi!... Os anos os séculos passam e o céu nem deixa de cumprir com seu ar da graça - suspirava Lilás e olhava a nuvem cheia de brincantes em pleno ar rarefeito celeste.

- Tu-ru, tu-ru!... O céu nem envelhece porque é eterno e perene.

Os pares se divertiam e satisfeitos. Cada um olhava ternamente nos olhos do seu parceiro(a). Era romântico. Os pares andavam trocados e misturados, por enquanto. Nem se estranhavam na altura, no peso, na medida, no tanto de nariz, no tamanho dos pés, no número de pés e unhas, na diferença de galhos e asas, penas radiosas ou folhas verdes, escamas ou couro ou cascos ou garras ou bicos. Era um carnaval como tem de ser.

- Ipecacuanha!... Eu prefiro dançar balada, mas pode ser o som que for que eu gosto.

- Tu-ru, tu-ru!... Agarradinho parece mais bonito e aconchegante.

A banda Recife de Coral tocava todos os ritmos conhecidos e que se sabe bem animados. A joaninha batia os pratos, a lesma tocava cavaquinho, o cascudo soprava oboé, a macacaiandu era ágil na bateria que só vendo, o boto-cinzento se esfalfava no trompete, gafanhoto-da-água dedilhava o violão, o gravatazeiro no segundo violão, o trapiá se encolhia sobre o violoncelo, a jurujuba fazia sombra no teclado do piano, o truirapeva no gogó e voz.

- Tu-ru, tu-ru!... A baía de São José em São Luís é de muito barco e de tantos turistas incidentais, tá ligada?! Tem muita gente que prefere viajar pela manhã. Digo isso porque fiz várias viagens com passageiros dessa cidade desse Estado dessa região.

- Poaçu!... Agora mesmo nem se faz ainda os teletransportadores, é? Eu achava que sim. Imaginava que a tecnologia já estava pronta pra isso. Pensou... viajou, simples assim!

- Tu-ru, tu-ru!... O serviço de petiscos e bebidas está um su-ces-so!! E digo mais!

Uns mosquitos pernilongos zumbizavam, zu-zu-iiim!... com muita animação num ângulo da nuvem, uns zangões beliscavam umas abelhas, umas moscas varejeiras zuzinavam, zu-zi-ziiim!... pelo ar puro do azul, a macambira-de-pedra descansava num ponto bem perto da própria sombra, um cipó-chumbo subia pelo tronco da pequiá-pedra, uma cupiúva conferia as próprias folhas e contava os próprios galhos, contava e recontava.

Uns convidados sabiam falar em guarani, outros sabiam falar em tupi, outros ainda esfregavam, frufru!... as folhas na brisa. Todos falavam a língua da própria espécie, mas se entendiam. Era uma magia traduzida simultânea e entendível para se entender, e se entendiam. Quando queriam se entender se entendiam na língua geral nheengatu.

- Tu-ru, tu-ru!... Prefiro festas no verão. Quando o céu passa pelo verão tropical, é.

- Piroaba!... Agora que você falou reparei, então. Festa som e piscina já combinam.

O gavião-do-mangue tirou o chapéu de palha seca e se abanou. A tesoureira segurava as pontas do longo vestido para ninguém pisar a barra de renda de bilros. A pomba-rola olhava em volta procurando um possível par para o samba que já saía muito mexido. O tatuapara foi até a borboleta-rubi e a convidou com um belo gesto de tatu educado. Coleirinha-do-brejo apagou o suor do rosto com a asa esquerda. Lebre brancacenta concentrava os olhos as orelhas a atenção na contradança. Ninguém no olvido no esquecimento no oblívio.

Para comer serviram no balcão da copa um bom e verde capim-dos-pampas, umas espigas de milho verdes ou maduras, e sementes das mais variadas, terra roxa, húmus de excelente procedência, coquinhos ouricuri, suco de açaí, mel de abelhas e de diversas espécies sabores e procedências. Tudo vegetariano e nada de procedência animal; o que seria um crime inafiançável. Para beber foi servido suco de abacaxi, suco de caju, água da chuva, água de coco, suco de cana (também conhecido como garapa), sorvete de pitanga.

Lilás já dançara até esta altura com Urubutinga. Mais tarde e após aceitou uma dança ou outra com os fulanos e beltranos e sicranos e com sagui-de-coleira, com besouro-amarelo, com tamanduá-mirim. E foi fazendo fila que eram muitos conhecidos e amigos de ouvir falar de ver de conhecer na hora e com pé de angico, com cachorro-vinagre. E vivia tanta saúde e entusiasmo e euforia que era difícil vê-la parada ou recusar uma dança um convite. Já dançou com pé de acapu, com o taguara, com o capim-paraturá. Todos e todas na enpáfia.

- Jundu!... Me deixe te explicar quais são os rios que navegam pelo meu país, entende?! Já tenho rios e o rio Cachoeira e o rio Peruípe e o rio Carreiro e o rio Retiro.

- Te-re-ti-tim!... Os meus amigos todos surgiram no programa ecológico da praça do Pantheon, olá! Ali junto da rua frequentada avenida Antônio Olavo Pereira - explicava o sociável acompanhante de dança, canário-da-terra de apelido Chapim e quaquilionário.

A arara-vermelha-grande gostava de falar muito alto, o tamanduá-bandeira espanava o chão da nuvem por onde dançava, o lobo-guará uivava para a lua cheia, a curica-cuiú tirava pose nos braços sarados do pé de cocão, a capivara com o capincho.

Todo mundo falava sua própria língua e tinham a maravilha do milagre de se entenderem perfeitamente. Pintassilvo, de asas cruzadas no peito, conversava negócios de campo e lavoura com uma bela cambaxirra. Ipecacuanha-preta ouvia o tagarelar sem fim da carnaubeira. O papa-terra, peixe maduro de água doce, recitava poemas para a catingueira.

- Beri, berim!... Sim e por certo! Sou nativa natural autóctone da cidade de Axixá, sim senhora! E cresci no bairro Maria Firmina dos Reis e rua Visconde de São Leopoldo, conhece?! - dizia e reiterava o esplendoroso e ótimo cantor da espécie dos tiziu.

- Tajurá!... Minha origem é distante daqui. Eu mesma, me disseram, nasci sou natural marco zero originária de Niterói, praça Álvaro Carvalho Aranha, rua Avanhandava. Já esteve por lá e já ouviu falar e conheceu no mapa? - explanava a menina Lilás.

O gavião-de-penacho negociava terras e latifúndios com o bem-te-vi-do-gado. Era uma questão de mercado, oferta e procura, preços, cabedais. Caburé-do-sol, óculos redondos, apreciava a turma toda dançando e rindo e conversando e ele mesmo muito quieto por opção. Anta sentou na cadeira e suspirou de cansaço. Gralha-do-campo pegou um copo de suco de pitanga e foi para perto do conjunto musical apreciar o maracatu que cantavam e tocavam. Maçarico-pintado dançava num amor escoltado de paixão com a saíra-militar. Mofumbo se enrolava com amor profundo nos braços da preguiça-preta.

Menina Lilás dançava muito, gostava de dançar, tinha descoberto a dança e o gingado. Estava feliz e rindo muito, se via. E dançou ainda com o taxizeiro, dançou com o macaco-aranha, dançou mais de duas marcas com o urucum-da-mata, dançou ainda com o onça-pintada, dançava com...

Todavia, nesse instante preciso... aconteceu um incêndio na parte central da nuvem e segundo gritaram se disse atropeladamente e todos tudo tal e qual pelo menos que se soube se apurou na hora h e de supetão. E todo mundo já muito meio que saiu apressado demais, todo mundo bem afobado, todos precipitados, uma confusão de pés, patas, raízes, nadadeiras, asas, galhos e etc, bichos tropeçando, árvores e arbustos e cipós se enroscando, bromélias e mandacarus espinhando, orquídeas perdendo as pétalas, quase um mar de berros, guinchos, silvos, zumbidos, um fula-fula de todas as cores e números, assim e deste modo:

- Atençãaaao!... Há um incêndio a bordo! - gritou lascou a arnica-do-campo.

- Fooogooo!... Temos um problema na nuvem-mãe! - gritou desfolhou o falso-oró.

- Passa, arreda!... Começou na cozinha, acho! - gritou desgalhou o juá-amarelo.

- Ora essa, meu!... Estamos em perigo em pânico em petição! - gritou borbulhou o peixe pirá-tatu, mergulhando ou voando assustado.

E assim foi um D nos acuda. Um Tupã por todos. E o negócio da festa no céu pegou fogo na real e todo o mundo se precipitou para o espaço aéreo, entre a nuvem e o chão do nosso planeta Terra. E um som de bichos e plantas voando soltos pelo espaço, zuuuu!... vuuuu!... ruuuu!... boooo!... Muitos km entre o céu e a terra, propriamente dita. Foi alto o caso. Pra baixo todo santo ajuda e empurra. Caindo com o peso da gravidade. E mais tarde uns sons de choque com o chão, tum!... poque!... troque!... dom!... pim!... tchibum!... tóim!... tibungo!... E todos os tombos possíveis de todos que se apincharam das alturas e caíram cá embaixo. Foi um desastre memorável e que criou lenda e modificou o comportamento dos animais. Tão notório lendário sem explicação como a extinção dos dinossauros.

Resultado da queda que o jabuti ficou recortado nas costas e até perdeu em velocidade; a arara-azul-pequena ficou de bico curvo e estatura diminuta; a jiboia perdeu as pernas e os braços e teve que se arrastar de barriga no solo; o inhambu perdeu a força nas asas enormes e saiu pulando sem conseguir voar; a cascavel ficou cega e mostrando a língua e se arrastando pela terra quente; o charrua caiu no chão de tal forma que nem se mexeu mais e ficou gravado no solo, sem poder dar um passo sequer; o sapo-cururu perdeu a conversa e ficou coaxando rouco, rauco!... rauco!... e andando aos pulos e saltos; o morcego perdeu os óculos e nem pôde mais ver nada nem de dia nem de noite; tamanduá-mirim perdeu os dentes e estreitou o focinho; a cambaxirra caiu de tão alto que se acabou toda no chão, ficou pequena e coberta de poeira vermelha já desistindo de voar para altas árvores; as formigas perderam as asas e diminuíram de envergadura passando a se chamar formigas-carregadeiras.

E muito mais. E todos os bichos e plantas que estavam na festa caíram no solo e sofreram sérias avarias e grandes transformações e metamorfoses. Os que foram ao céu à festa na nuvem, voltaram caindo de tão alto se esborrachando na terra nas pedras na água.

- Salve!... Ah, mas eu nem sabia que isso poderia acontecer, gente! - testemunhava o marrecão-do-banhado, cuidando cuidadoso das penas aí mesmo na lagoa artificial de água doce na capital federal o lago Paranoá.

- Cruzes!... Ah, vou me lembrar pra muitos anos e tempos vindouros, gente! - testemunhava a sanã-de-samambaia, secando suas asas ali à beira do estuário Guaíba.

O mais notável foi que uns foliões caíram no meio do rio e tiveram de nadar, virando peixe bagre, arraia, cobra-da-água, muçum, peixe-sapo, poraquê; outros caíram no campo, na descida dos morros, na terra firme e viraram mato, floresta, capoeira, arbusto, capim, cipó, liana; mais uns outros tiveram tanto susto que caíram e viraram em pernas ou viraram em asas, correram pelo mato ou voaram já em pleno ar espaço aéreo, periquitos-dos-cáctus, saixês, verdelinhos, gaviões-relógios, fruteiros, caras-sujas, jacapás, casacas-de-couro.

Lilás se encontrou, se achou, se percebeu foi na entrada da oca ainda meio tonta da queda e tal. Que pesadelo! O braço direito com a mão direita estavam meio sem jeito, meio sem forças, meio como dormentes devido à queda. Que experiência! E tinha ainda nos pés a sensação de ter caminhado a noite toda nas nuvens nas alturas das nuvens no fofo das nuvens no vapor de água da chuva. Precipitada das altas atmosferas como granizo.

- Caiarara!... Então me belisco no braço para sentir a realidade?!

Tico-Tico, quando se viu, já estava na manhã de nova manhã e ele nadando na margem do rio Taquari. Tico-Tico viu o sol apontar e que ele estava bem no meio da corrente e nadando para a praia de areia fina cômoda fofa. Nadando rápido porque com receio de beber toda a água do rio. Era o outro dia. Dia começando com sol a pleno vapor, aleluia e oba!

- Hi-ooooi!... Este rio Taquari deve de ter uns trocentos km, é. Nem tenho dúvidas!

A manhã chamando tanto a atenção que só vendo. O sol apareceu, o vento já aparecera, as árvores se mexendo na folhagem. Tudo recomeçando e já acelerado. Abelhas bebendo perfume das flores do campo, um colibri voou afoito rápido e foi embora. Sagui-de-tufos-brancos saracoteando, pingando, pinoteando, saltitando pelos galhos flexíveis da árvore jatobá-do-campo. A planta língua-de-tiú plantada no meio do mundo entre o leste e o oeste.

E o tempo de Lilás e Tico-Tico na aldeia arauá passou como uma novidade nova em folha. E o tempo passou porque senão tudo aconteceria num dia único ou nem aconteceria em dia nenhum. O sol era o mesmo mas o tempo já era empurrado pelo vento, efetivamente.

- Gomeira!... Saudades é um negócio que ninguém conhece de verdade, então.

Os índios apetrecharam o petiço, ajudaram a menina a subir no lombo do colorado, o ótimo Tico-Tico já farto de comer capimpeba e outros capins e frutas.

A menininha foi empurrada para cima do petiço por causa do seu sobrepeso, ela que já tinha comido muito beiju antes horas antes da viagem. A tribo toda se despediu erguendo a mão e dizendo aos gritos e palmas e uivos e demais ruídos onomatopaicos:

- Ave, oi!... Até, tapuitinga! Ué, oi!... Inté, tapiraguaçu!

- Hi-ooooi!... Eu me agradei da hospitalidade de vocês, gente boa!

- Muirajuçara!... Cada vez que ouvir uma lenda me lembrarei de vocês, povo arauá!

O cacique arauá Pararaca Qualé, com xerimbabo macaco-aranha no ombro, ainda explicou mais ou menos orientou indicando o melhor caminho:

- Encontrem o rio Itapecerica, depois seguem o rio Itapecerica, mais tarde cruzem o rio Itapecerica, outro dia chegam na serra Pedra da Mina. Então querem descansar, descansem. Assim, levarão oito dias e noites pela Pedra da Mina, chegarão finalmente ao rio Iguaçu, logo cruzem o rio Iguaçu, olhem para o lado do nascer do sol e reparem na serra dos Órgãos. Descansem o que for possível. Podem ver e curtir a apa Serrinha do Alambari em Resende. Nunca é demais usufruir. E então, atravessem a serra do Mar, e descem da serra dos Órgãos, cheguem bem perto do grande mar e lagoa Rodrigo de Freitas e rio dos Macacos e chegarão na casa dos fluminenses e chegarão em casa dos cariocas e poderão descansar bastante aconchegados no próprio lar. O mote o dito a senteça é: “Com calma e tempo chegarão lá!”

O dia estava solto no ar, no mato, no campo e os dois viajantes já subiam um morro para longe da aldeia arauá. Naquela época o transporte era bem rústico mesmo. A menininha sentia tudo de um modo muito simples. Vez ou outra a menina subia de carona no lombo do petiço. O petiço olhava o caminho a trilha e alguma coisa mais. A guria olhava tudo com mais interesse, com mesmo mais alegria, com mais sorrisos, com mais risos, com mais divertidos olhos. Foi a vez da juruti piar em algum pé de papariúba e ali por perto:

- Ri-pi-pi-pi!... Quem vem lá, quem são vocês, pra onde estão se bandeando?

- Aroeira!... O caminho até o Rio de Janeiro vai por este caminho? É bom, é!

- Hi-ooooi!... Eu tenho 4 patas e caminho quatro vezes mais, é.

Quando Lilás e Tico-Tico estavam longe da aldeia, e aí pelas 11h e 12min, avistaram um coqueiro-tiú dos grandes e resolveram chegar ali e parar e descansar um bocado. Chegaram, o calor era demais, nem passarinhos se arriscavam sair no sol forte. Dois e três urubus procuraram a sombra antes dos viajantes e estavam ali quietos e atentos. O sol tinha um sistema e precisava passar por cima do mundo ali naquela hora, sem sombra de dúvidas.

- Hi-ooooi!... Como estão as coisas no céu no céu, urubu-de-cabeça-amarela.

- Tu-ru, tu-ru!... Quanto mais alto mais calor, quanto mais alto mais insolação - respondeu o urubupeba, se abanando com as asas o bico aberto os olhos grandes.

- Cacaurana!... Sente que vai chover por esses dias próximos, mister Urubupeba?

- Tu-ru, tu-ru!... Olha, se vai chover... Tenho as penas oleosas e nada me afeta, nem chuva nem muita água nem vento sul... De qualquer modo pode chover sim lá pela terça-feira da semana entrante. E acredito em 2 dias de chuvas, hum!... nem muito intensas, então.

A princesinha deitou na sombra sobre as folhas secas e dormiu. Tico-Tico foi aproveitar comer um capim-rabo-de-raposa que de repente se oferecia aí todo verde e suculento. Depois também ele foi deitar na sombra e relaxar e cair no sono e dormir e cair para dentro de si. Que a hora precisava. Que o momento requeria. Que o instante fazia.

A terra se encheu de vento. Uma vez o vento foi para o leste, outra vez foi para o sul, outra vez foi para o oeste. O sol balançou ao vento. O sol ficou em pleno meio-dia no alto de uma palmeira babaçu. O vento conversava com as árvores, conversou com o umbu, a caeté-do-mato, a ajuruatubira, a itaubarana, a quina-da-terra.

- Chama, chama!... A gente eu mesmo vou embora ainda hoje, nada além de um dia.

- Frufru, frufru!... Ficar plantado é um mistério que embora eu esqueço, é - dizia e desfolhava a árvore sapucaieira, madeira nobre dura resistente flores lilacíneas.

A montanha esperou, aguardou todo o mundo passar. A sombra pesada da montanha ainda vacilava diante do sol e este também caindo. Algumas alturas de certas montanhas, umas escuras outras azuis, ainda atravessavam nuvens sobre tudo e no teto do céu.

Uma pomba-rola saiu voando, meio voando, meio surpreendida, voando e ganhando rapidamente as distâncias apressada como quê. Em breve, e nesta velocidade, já chegaria em Três Forquilhas e passaria antes em Itati e Três Cachoeiras e Praia Grande.

Lilás acordou com o chamado de uma tesoura-cinzenta pousada ali num galho mais alto da sapupira-amarela. A guriazinha se ergueu, esfregou os olhos com as mãos, observou em volta. O mundo tinha de horizontal e vertical e à deriva. Depois olhou na direção do alarido, do chilreio, do canto da tesoura-cinzenta e perguntou:

- Espelina!... Pra que lado fica a serra do Mar, hein!, minha melhor tesoura-cinzenta?

A ave olhou a menininha, olhou assim entortando a cabeça e grasnou, chegou dizendo:

- Rói-rei-rei-rei!... Tem um rio que se chama Paraibuna, um rio muito comprido como nem se pode medir. Esse rio vai de longe até bem mais distante. Além desse rio, passando esse rio, do lado de lá desse rio, vocês chegarão à serra da Bocaina. E passando a serra da Bocaina, da Bocaina pra lá, mais uns vinte dias de voo alto, aparecerá outra serra que pode ser a dos Órgãos. A serra dos Órgãos fica vinte dias de voo da serra da Bocaina, eu suponho. E a partir daí é só descer correndo ou voando a serra do Mar, junto ao mar.

- Mapiá!... Então, a comadre tem certeza? E é assim tão longe, hem!

A ave desceu do poleiro e pousou no ombro da menina. Ali falou com mais calma, olhos nos olhos, reatou, falando de língua dura num idioma apaixonante e encantador:

- Rói-rei-rei-rei!... Eu mesma, menina Lilás, ainda nem migrei praqueles lados. E você está muito longe de casa. Eu acho que seria melhor ir pelo alto, mas...

- Ipuca!... É, voar nem é comigo e nem com meu amigo Tico!

- Rói-rei-rei-rei!... Então, o primeiro jeito é chegar no rio Paraibuna e depois pedir informação. Esse país é um enorme labirinto de serras e vales, desfiladeiros e passos. Este país olhando do alto já é grande, imagine! Eu vejo todo santo dia, é!

Lilás subiu num barranco de terra roxa e pulou no lombo do Tico-Tico. Uma carona de 45 kg. Foram seguindo a viagem. Pelo menos foram na direção do rio Paraibuna. Já era uma referência. Já era uma distância. Já era uma garantia. Já era o que se tinha a fazer. E tudo ao redor acontecendo e árvores pensando na próxima safra e aves pensando no nidificar.

Umas árvores altas procurando bastante sol, sol a reveria, outras árvores procurando um sol mas nem tanto assim, e mais as plantas que meio que se escondiam na aba das maiores, e as samambaias, os tipos de capim, as bromélias que viviam na sombra, as avicênias, as lianas que viviam subindo enroladas e se agarrando de favor, as encharcadas barbas-de-lagoa.

Umas 17h e 40min, o sol azulando para o oeste, pios de gralhas-azuis, a dupla de viajantes seguindo por uma trilha no cerrado, caminho estreito de areia, caminho entre plantas baixas, mais ou menos baixas, meio tortas, uns buritis aqui e ali, mangabas, barbatimões, guaçatongas, cajuís e, ufa!... pararam para comer e beber.

Comendo apetitosamente uns cajuzinhos-do-cerrado, a menina se distraiu. Comendo umas folhas suculentas de língua-de-vaca, o petiço ouviu alguém vindo na direção e caminhando muito sorrateiramente. Tico-Tico se arrepiou, levantou a cabeça, esticou as orelhas, escavou o chão e nitriu para a amiguinha, alertando a menina:

- Hi-ooooi!!... Acho que temos companhia. Acho, nem, tenho certeza.

- Caiçuma!... Uta, quem será?! Se for gente, se for bicho...

A menininha princesa olhou na direção que o cavalo olhava apontava indicava. Viram chegar chegando... uma onça-pintada e toda felina e de língua vermelha de fora, babando de calor, salpicada com manchas amarelas e pretas, cauda alçada, etc. A onça-pintada chegou perto e cumprimentou, atou, atuou, encenou, protagonizou, representou, teatralizou:

- Ru-ooorque!... Oi, princesinha! Oi, petiço!

- Hi-ooooi!... Oi, onça-pintada acanguçu!!

- Taita!... Oi, jaguaruçu onça-pintada!!

A onça-pintada se aproximou mais, olhos amarelos bonitos, pelo de pintas pretas e amarelas chamativas, orelhas estalando, cro-que! cro-que!... cauda alta, passos decididos. E veio se aproximando dos viajantes, caminhava macio, olhos de gema de ovo, cauda mais ou menos alçada, o vento no pelo macio, caminhando fofo, caminhando suave e cautelosa, e falou. E já roncou, já grunhiu, rugiu urrou felinamente mesmo:

- Ru-ooorque!... Vi quando vocês chegavam até aqui dentro das minhas terras, meu território, meus limites, minha propriedade. Cheirei de longe, ins-pi-ra-ção!... sabem? E pararam por parar e para comer meu cajuí gostoso e nutritivo, hein?!. Aí, pensei com minhas pintas de sol e sombra. Pensei com razão. Pensei comigo e rugindo: e que é quê?!

A menininha e o cavalinho esperaram ouvir que a onça-pintada ia fazer um pedido, talvez cobrar uma taxa, um imposto, um pedágio, uma tarifa aduaneira, uma contribuição para as instituições de caridade. Que que a onça e das brabas queria? E a fera falou com calma e voz quase baixa, voz tentando muito dar um tom de voz doce e meiga, um rosnar macio. E grunhiu, uivou, murmurou, miou muito no jeito dela altaneiro:

- Ru-ooorque!... Meu gatinho, de nome Irajá, está de aniversário hoje mesmo e... Bem, viajantes viajados, eu queria fazer uma boa surpresa para ele, sabem! Ele merece. Merece as coisas mais... mais... mais bacanas. Eu vou dar mesmo um bom presente de aniversário, é. Eu tenho essa mania de fazer ótimos aniversários aos meus filhotes, é.

Os andantes viajantes ficaram ouvindo, olhando a onça-pintada falar e rosnar. Os viajantes ficaram meio que preparados para o que desse e viesse. Os felinos as felinas são bichos fortes e temperamentais. A jaguareté seguiu seu carretel e soprando, bufando, falando, pisoteando o chão de poeira vermelha. Grunhiu um pouco mais de vantagens lá dela:

- Ru-ooorque!... Aí, sabem, logo que os vi assim no meu pedaço de terra, pensei que um bom presente seria legal e meu filhote iria adorar e me amar muito mais. Irajazinho vai fazendo, hoje mesmo, seu primeiro ano de vida felina. Ele já sorri ele já rosna ele já sai da toca com convicção convicto. Já sobe em tronco de árvore, já sabe cheirar comida, já sabe nadar, já tem pose de felino perigoso e predador. Vocês nem têm ideia de um presente assim... legal, muito legal, hum?! Meu Irajá é tão fofo tão peludo tão gato tão arteiro!

Era isso mesmo. A canguçu queria e estava a fim, sem dúvida, de um presente bonito para o filhote querido lá dela. Na verdade a onça-pintada ou jaguar estava cobrando um presente em troca da passagem pacífica dos dois viajantes. Pagavam o presente e podiam passar em paz. Era isso. E a dupla entendeu. A menina leu a ideia, arriscou, declarou, repostou como a educação e o bom-senso recomendava:

- Cairé!... Tenho esse chapéu de palha de santa-fé muito bem trançada, serve?, vai servir, quer, pode ser, ficou satisfeita? É uma boa, hein! É uma legal, hem?!

-Ru-ooorque!... Como nem aceitar um presente dado com a via do coração, né?! - roncou a famosa e perigosa jaguaruçu, dentes à mostra e sorrindo satisfeita.

A dona jaguarapinima, rápida lépida veloz sorrateira como são geralmente as felinas, agarrou o chapéu e foi para o esconderijo do cenote e presentear o filhotinho. Os viajantes suspiraram aliviados e se mandaram na hora. Que as coisas aconteciam, sim!

Andaram outro bom pedaço. Muito melhor muito muito. O percurso as distâncias. Depois viram um pica-pau-de-topete-vermelho e muito metido, exibido, gabola, apresentado, muito cuidadoso no bater bico no tronco da braúna, muito feliz muito sistemático muito teimoso. Uma grande braúna e já centenária. Ele o pássaro parou de bater no tronco, olhou os viajantes intrusos estranhos, voltou ao trabalho e “poque! po-poque! po-po-poque!...”

Cada planta no seu lugar, cada bicho no seu começo de existência, cada pedra no seu peso, cada som originário de o seu dono ou dona. Monte de coisas acontecendo ao mesmo tempo e evoluindo. O rio São João iniciava, como hoje, na serra do Mar e procurava, como hoje, o destino do oceano.

- Gameleira!... Ainda bem que estamos longe de chegar, né, Tico?!

- Hi-ooooi!... O mundo é redondo, se a gente seguir pra frente um dia chega lá.

Os dois caminhantes passaram a noite numa caverna de uma montanha na serra da Mar. Tudo normal e mais ou menos cômodo. Umas mariposas cegas. De súbito uns morcegos também, o que já era natural. Uma família de ratos-de-espinho. E a caverna era mesmo o lugar desses bichos e eles que eram os donos há bem mais tempo. Que uma caverna existe como casa escondedouro cova madrigueira cói refúgio cadoz toca encoberta escaninho coio.

- Hi-ooooi!... Vai chover toda a noite e é bom pra dormir.

- Flechilha!... Ah, minhas boas e queridas costas! Ah, meus olhos de ver e escaldados!

E foram as noites e voltaram os dias. Os dias bons eram dias de sol e céu aberto. Os dias nem muito quentes eram de chuva e um pouco de vento frio. As noites mais quentes e as noites menos quentes e as noites frias congeladas congelantes congelativas. Noites de sonhos bons e eloquentes irreverentes engraçados. Noites de pesadelos intraduzíveis nefandos infandos execráveis perversos. Assuntos e temas nem faltavam.

- Mapati!... Qual a relação do tempo com o espaço? Eu queria saber. E exatamente.

- Hi-ooooi!... O tempo passa, o espaço fica. Mas nem tenho certeza. Efetivamente.

- Iraúna!... O tempo passa mas fica é eterno nem morre...

- Hi-ooooi!... O espaço se modifica com o tempo? Acho que pode ou nem pode.

- Abati!... Eu mesma moro no tempo e tenho que ver com o espaço.

- Hi-ooooi!... Temos então um tempo permitido nesse espaço de hoje.

Muito andar e os rios e as passagens boqueirões gargantas desfiladeiros estreitos. Um dia qualquer. Meio sem saber, meio sem querer, a manhã acordou com sol forte, sol estalando de maduro. A paisagem cheia das cores próprias, paisagem pintada nas cores vivas. Os bichinhos voando, piando, rastejando, caminhando, pulando de galho em galho, tocando instrumentos musicais tipo onfuás. O vento mexendo coisas ou contando anedotas de outros lugares. Cheiro de flores amarelas azuis brancas lilases verdes. Papa-formiga-de-gravata voando de passagem num voo rasteiro ou baixo. O sol queimando a chapa.

O sol acusando o dia cheio carregado de luz. Sol com contornos definidos definitivos. Céu tão claro e brilhante, muito brilhante e claro e moderno no seu mundo de luz solar. E já favorecia o conjunto de pássaros madrugadores cantores despertadores interpretes. O sol circular envolvente monótono passando uma hora acima.

Menininha e petiço vinham embora. O caminho na frente, o destino na frente, a história atrás. Estavam no rumo de alcançar o rio... Que rio corria ali adiante? O rio Doce. Um caxinguelê subiu na pedra da beira da estradinha e gritou, fez malabarismos, acrobacias, pulou quantas vezes, gritou, chamou, fez malandragens macaquices, silvou, gesticulou:

- Perê-pererim!... Oi, guriazinha! Oi, colorado! A menina quer casar comigo agora hoje pra já?! Já fiz idade de casar e nem posso deixar pra amanhã. Tudo bem?!

Lilás na verdade se surpreendeu com a euforia do esquilinho, com a alegria do bichinho, com a loucura do mimosinho, com a ousadia do charmosinho, etc., mas daí a casar... ia uma grande distância. Uma distância como daqui até a lua. A menina já foi detonando, desarmando a armadilha, e se autodefendendo, saindo pela tangente:

- Cariola!... Nada, nem posso casar contigo, amigo esquilo de aparência simpática.

- Perê-pererim!... Neneca? Como? Por quê? O que que eu nem fiz, meu? - questionou aborrecido o já elétrico e buliçoso e pulador e saltador e aspone roedor.

- Guajaraí!... É que eu nem tenho esta impressionante habilidade de subir e descer de árvores com tanta presteza rapidez igual a você, hábil caxinguelê. É isso. E depois, nem somos compatíveis do tipo da mesma espécie, tá ligado?! Nossos espíritos nem combinam.

- Perê-pererim!... Pra mim nem faz diferença a cor do pelo a estatura os hábitos e costumes. Pra mim o que importa é o que fala o coração, tá me entendendo?! Eu te amo!!

- Abaçaí!... Enfim, caxinguelê, eu tenho muito que estudar e muito que aprender. Nem posso parar agora nesta hora e casar, tá satisfeito?! É uma questão de nem ficar no pé, viu?!

Pronto, aí estava a resposta, foi dada a resposta ao caxinguelê ousado e os viajantes seguiram viagem. O caminho era difícil, o destino era complicado, o lugar de chegar era longe e nem se sabia bem como chegar lá. Era bom viajar, mas viajar por viajar nem era cem por cento. O muito bom era viajar e ter saudade de retornar. Voltar para casa, por exemplo.

- Guamixinga!... Eu penso muito nos mergulhos nos fins de semana a praia de Co-pa-ca-ba-na!... Este é um sonho realizável, né, preferido amigo Tico?!

- Hi-ooooi!... Você sabe que meu passeio preferido é à beira-mar... As ondas que vêm e vão, a brisa que passa e repassa, as aves marinhas que procuram lugar na areia... Esta de morar na praia e acampar na praia é uma longa conversa, minha preferida princesa!

O vento batia mais forte nos galhos das árvores da mata. O bando de periquitos-de-asa-branca fugia do sul, das ilhas do litoral sul. Os quero-queros estrilavam, se irritavam, gritavam muito, camuflavam o ninho. A chuva sempre vem com o vento sul, nem qué?! Árvores frondosas sacudindo os cabelos as folhas as ramas os ramos.

- Hi-ooooi!... Vamos procurar um abrigo uma lapa uma caverna, hein?!, menina.

- Bicuíba!... Sim, sempre é bom. Nem se sabe a intensidade do estrago que virá. Eu gosto de chuva. Assim mesmo uma chuva de verão, que vem e vai.

- Hi-ooooi!... Chuva é boa quando molha, quando alaga é muita e demais.

- Coati!... De onde vem a chuva, hem?! Pra mim é um mistério importante.

- Hi-ooooi!... Tenho certeza que vem das nuvens e as nuvens vêm do mar e oceano. Muito justo e ajustada e engraçada a chuva: cai em pé e corre deitada.

- Caruruaçu!... Tenho fé que a chuva é realmente um milagre muito milagre.

E já a chuva caía há 12h sem parar e com tudo. E chovia aberto mesmo. Muita chuva sobre tudo, sobre a floresta e os dois viajantes. Eles tinham receio de pegar uma gripe, tinham susto de levar um raio na cabeça e ficar em carvões e vapores e poeiras e fumaças.

- Hi-ooooi!... Quer saber quão longe cai o raio, quer?!

- Capepena!... Então me diga logo que eu tenho soluço de saber exatamente, Tico.

- Hi-ooooi!... Simples como dois e dois são cinco: é só contar a partir do relâmpago... Viu o clarão? Então começa a contar até ouvir o estrondo do trovão. Assim e simplesmente.

- Sambacuim!... De hoje agora em instante pra frente vou reparar me lembrar e contar assim mesmo. E tomara que bem longe de mim e de nós todos.

No meio do aguaceiro que caía com gosto e vontade, na beira do caminho enlameado, viram um belo sapo-ferreiro e foram pedir uma informação:

- Hi-ooooi!... Oi, sapo! Você tem como saber se estamos indo para a serra do Mar? Esta serra de boas montanhas fica perto de onde morramos, São Sebastião do Rio de Janeiro.

O batráquio baixou os olhos do céu, espumou pela boca e tiniu, retiniu, coaxou:

- Le-le-lê, hum... Ah, já sei! Vocês vão nessa direção mesmo que já estão seguindo. Lá adiante, estão vendo?, dobrem para a direita e continuem toda vida. Lá pelas 8h da próxima manhã, se pularem rápidos, chegarão na beira do rio Guapiaçu. Atravessem o rio, fazem o favor! Atravessando o Guapiaçu, sim que existe, para lá de umas 8h de estrada corrida ou saltada, existe uma alta montanha chamada... chamada... Ah, já sei! Depois de 8h de estrada saltada, tem uma montanha chamada Pedra do Sino de Itatiaia. É linda, eu já ouvi falar, um bem-te-vi-do-campo me soprou. É pra lá mesmo, é praqueles lados. Mais pra lá, bem mais além de lá, fica realmente a tal serra do Mar e a serra dos Órgãos que vocês procuram. E boa sorte, tá! E boa viagem saltadora, tá! Vocês merecem, vocês são gente boa!

Os viajantes agradeceram, pataqui e patacolá!... e aquela coisa toda e seguiram o rumo saltado e indicado pelo sapo-ferreiro, na confiança mesmo. Que as horas passavam bem.

Uma preguiça-de-máscara almoçando cedo no alto da embaúba. Agarrada com mãos e pés, unhas e dentes, esticava a mão e levava à boca umas folhas verdes, “manhe! manhe!...” E fazia isso sem pressa mesmo, len-ta-men-te, pa-chor-ren-ta-men-te.

- Xiquexique!... Já viu preguiça colhendo folhas da embaúba, hein?!, Tico-Tico?

- Hi-ooooi!... E dormem mais que acordam. E dormem mais que andam. E dormem mais que velam e vigiam e vigilam. E dormem muito mais que comem, hum!, que sim.

Cinco seis oito chupins seguindo bem embarcados nas costas da família capivara. Um chupim com a mãe capivara, outro com o pai capincho, outros com os filhotes capivarinhas.

- Cambarba!... Já viu chupins comendo carrapato de capivara, capincho e capivarinhas, hein?!, Tico-Tico? Isto é inusual, entendo.

- Hi-ooooi!... É uma associação pouco provável, como você diz, hum!, que sim.

Chegaram na cascata Casca de Anta. Uma bela cascata, um lençol de água que descia por força do alto da pedra imensa. Batendo muito no chão de pedregulho, levantando vapor e ruído de cascata. Um lugar agradável sob o sol da manhã ou da tarde, arco-íris, nem se ouvia outra coisa a nem ser o ensurdecer da cachoeira. Como uma imagem primitiva do começo do mundo do princípio da criação. De qualquer modo era tudo bonito e agradável.

Os dois carinhas foram investigar a cascata cachoeira. Por trás da cortina de água tinha uma caverna profunda. Os dois viajantes se transportaram por ela, vale dizer. Queriam ver onde a mina tinha lugar e parada. Caverna natural, vazia e profunda, cada vez mais escura e profunda e silenciosa. Talvez saíssem do outro lado da montanha. Do outro lado do mundo, do outro lado do tempo, do outro lado do país, do outro lado do planeta, do outro lado da outra dimensão. E dentro de um outro plano de mundo exótico e específico e inédito? Haja!

O par a dupla de viajantes entrou pelo oco da montanha. E que sensação de curioso de difícil de descoberta. Ruído de água pingando, água escorregando, água da pedra. Um escuro de tropeçar em estalagmites e dar cabeçadas em estalactites. Muitas famílias de morcegos numa sonolência anestesiada. Debaixo e no meio no âmago da montanha. Escuro e escuro e estômago empedrado de montanha cavernosa. No centro da pedra propriamente dita.

- Hi-ooooi!... É seria melhor se tivéssemos uma tocha para iluminar, né?!

- Fedegoso!... Pensei que você enxergasse no escuro, Tico!

- Hi-oooo!... Enxergo até de olhos fechados, porém!...

E iam mesmo tateando o estômago da pedra da montanha do interior da rocha. Se desorientaram se perderam pelo dentro da montanha por mais de 4h. Nem viram vestígios de ouro ou prata ou pedras preciosas ou tesouros de jesuítas. Nem se via nada. Se era antiga mina de ouro, nem viram ouro nem prata nem diamantes nem esmeraldas nem rubis. Se era uma caverna natural, descobriram sem querer aranhas cegas, escorpiões cegos, baratas tontas e cegas, formigas cegas. Nos poços de água fria e profunda os peixes cegos, cobras-da-água cegas. E um mundo cego mundo perdido que só existia ali e pouco comum. Uns bichinhos esquisitos escondidos no escuro e metódicos objetivos pacientes concentrados sérios.

Depois de subir e tropeçar e tatear por uma escada natural de pedras, a menininha e o petiço viram luz mais forte no fim do túnel. E saíram do outro lado da montanha, a porta de saída da montanha, a porta dos fundos da montanha, depois de varar perfurar a montanha igual fazem os carunchos. Como se tivessem sido jantados pela montanha rochosa e agora cuspidos pra fora, assim vamos dizer.

- Capimpeba!... Por que as montanhas são assim? Quero dizer, por que as montanhas são montanhas? É estranho olhar um monte de rocha e achar que é normal, entende?!

- Hi-ooooi!... A geologia tem explicação. Eu acho muito bonita uma montanha.

Na frente deles, impedindo a saída definitiva para a luz, um pé de vinhático-de-espinho. A árvore fechava a passagem como cerca viva e muito espinhosa espinhenta. E diante da surpresa dos viajantes, dos dois furadores de montanha, a planta espinhosa foi logo cobrando, ecoando, grimpando, apontando suas agulhas muito das pontiagudas, falando, traduzindo:

- Cés-pe-de!... Oi, menina princesa! Oi, cavalo colorado! Tenho um pedido muito pequeno e bonzinho para vocês. Minha filhinha, uma mudinha de vinhático-de-espinho muito tenra e verdinha e principiante, tá de aniversário. Eu queria dar um presente a ela. Vocês têm ideia de presente de aniversário para minha querida mudinha verdinha verdezinha? Já me fazendo um favor! Já me dando uma mão na roda desse trabalhão que é procurar presente?

A princesa tirou o chapéu feito de folhas de ouricuri trançadas e o ofereceu como presente, articulou, completou, relacionou o bom com o útil, dialogou, distribuiu:

- Abieiro!... Olha só esse chapéu trançado com ricas folhas de ouricuri e que é ótimo para se proteger do sol forte deste verão e outros verões que virão. Nem há melhor comparável, tô certa?! Existem muitos tipos de chapéus, mas este é de bom material.

A árvore vinhático-de-espinho pegou o chapéu no galho, olhou com suas folhas desenhadas, cutucou com seus espinhos tipo agulha, experimentou num dos galhos qual que era e concordou. Aprovou admirou gabou e ela mesma se sentiu premiada. Assim, a vinhático-de-espinho abriu caminho e os viajantes puderam finalmente vazar a montanha e olhar o vale verde lá embaixo, o ambiente bem iluminado e por todo o vale.

Um rio pequeno e inicial, um fio de água, descia junto com a montanha pelo vale sossegado abaixo. O fio de água descia saltando entre o pedregulho e descia cantando de alegria e pulando de pedra em pedra e ecoando de perau em perau e entre os seixos e seixos rolados rolando. O fio de água ia encorpando e incorporando conforme descia. Mais lá adiante era um riacho, depois já fazia uma cascata, mais além da curva já um rio típico rio de frutas ou ivaí. O rio e o parque do Desengano (significado de Desengano significa exatamente isso: desengano). E sim se pode crer com crer.

- Itupava!... Por que os rios são assim interessantes? Os rios são nobres. Que rio é este, predileto amigo Tico?, se me pode dizer, se é que sabe.

- Hi-ooooi!... É conhecido como rio Piraí, do tupi que vem o nome rio do peixe.

- Mendubi!... Porque todo rio é rio do peixe, nem é?!

- Hi-ooooi!... E com vários exemplares muito conhecidos do grande público e traíras, pirarucus, lambaris, cascudos, bagres-de-água-doce, jundiás, mandis-bicudos, peixes-pretos.

Já duas horas de passeio, encontraram um jacaré-de-óculos. Perto de um banhado com bastante borboletas-do-manacá e já andando perambulando. O réptil era meio esverdeado e todo largado no barro, por conta própria. Os viajantes nem desperdiçaram oportunidade de se atualizarem, informarem, trocar um lero, uma meia-conversa, um papo firme:

- Tamearama!... Oi, jacaré-de-óculos!! As novidades do charco, então!

- Repentemente!... Oi, menina! Oi, cavalinho! Aqui é um poço bom de se atolar, é. Tenho visto pouca coisa do lugar onde estou, é. Um dia desses viajo pra uma lagoa e lá tiro férias e meus dias paradisíacos, é. A ver!

- Hi-ooooi!... Para que lado fica a serra do Mar e Duas Barras e Santa Maria Madalena e Bom Jardim e Nova Friburgo com o pico da Pedra Maior, hein?!, amigo jacaretinga. Estamos viajando há séculos e estamos sem rumo, praticamente. Quando muito no meio do caminho. Temos imensa saudade de ver o nosso doce lar, entende?! É isso aí!

O jacaré-de-óculos ajeitou os óculos na frente dos olhos verdes, coçou o comprido queixo oblongo, mostrou o tanto de dentes de serrote, olhou os transeuntes com mais interesse, achou estranho, queixou, respondeu perguntando, indagando, diversificando:

- Repentemente!... Vocês vêm de longe, hein?! Que vocês pensam, hein?! E por que estão perdidos aqui pelo meio das montanhas da serra da Canastra, hein?! Eu pergunto porque é estranho forasteiros por estas bandas, hein?!

- Hi-ooooi!... É uma longa história e com muita caminhada no meio da história toda.

- Capeba!... É uma longa história, jacaré-de-óculos. Tem um suco de caju, aí? Tem um suco de abacaxi, aí? Eu prefiro suco de pequi ou caju!

A menina bípede epiderme lilá e o petiço quadrúpede se revezaram em contar a longa história ambulante. Ficaram dois dias e duas noites ali contando a longa história pra mais de metro. Aumentaram um pouco aqui e ali no meio da história empolgante. Aumentaram sem querer e quando viram já aumentavam a história em oito capítulos. Esqueceram umas partes que realmente aconteceram e foram verídicas. E outras coisas que ficaram de fora, e outras coisas que esqueceram, e outras coisas que enfeitaram, e outras coisas que aumentaram, e outras coisas que acrescentaram à história. Longa ficção em série. Enquanto isso os pés os cascos as costas o lombo iam descansando iam deixando de doer iam relaxando.

Quando olharam para o bicho ele estava muito bem dormindo e, quem sabe, já sonhando. E só no dia do terceiro dia ouviram o distinto explicar o caminho que deveriam percorrer. Era mesmo difícil. E tomar a jornada pela estrada ou trilha no meio do mato.

O dia acordou e o jacaré-de-óculos perdeu os óculos no meio dos gravatás. E aí? Aí, que os viajantes tiveram que ajudar a procurar. E procuraram. E procuraram com muito cuidado. Era mesmo dificílimo. O réptil se queixou, dentou, roncou, tremeu todo ao falar:

- Repentemente!... Eu sempre extravio meus óculos, eh! Nem sei o que se passa comigo e me desculpem. Eu durmo muito bem durante o dia, mas à noite eu sinto muita fome e sede, procuro por comida e, quase todas as noites, perco meus óculos e nem consigo mais encontrá-los. Já eu sei que é mesmo difícil e confuso o que digo e repito, eh!

Por pouca sorte, Tico-Tico quase pateou em cima dos óculos. E por muita sorte isso fez com que os achasse, finalmente e pronto. Cangalha no lugar e assim. Os óculos do réptil na frente dos olhos do réptil, e agora as dicas conselhos informações sairiam ou nem? O bichão, então, ali lagarteando na areia do banhado, na pouca sombra do pé de sucará, casco duro em forma de mosaico, foi depondo, queixudo, papudo, alongando a boca já comprida e larga:

- Repentemente!... Assim, aqui e agora, vocês estão no meio da serra da Canastra e eu nem digo mais nada, eh! E o que vem depois... a serra do Mar. Ah, já vai! Para aquele lado de lá... estão vendo eu apontar com minha pata de altas garras?, fica um rio chamado Guandu e eu nem digo mais nada. Caminhem até o rio Guandu e vão indo costeando o rio pela direita do rio, costeiem o rio por dois ou três dias até ouvirem uma cachoeira de nome Moxafongo e eu nem digo mais nada. Cuidado que a cachoeira cai nas pedras e é bom ficar de olho aberto de guarda-chuva aberto, eh! Meu primo quase se esborrachou caindo da cachoeira uma vez e bem exatamente ali na altura da cascata, lugar molhado por demais, e eu nem digo mais nada. Assim, vocês façam meia-volta e caminhem na direção do sol poente. Se quiserem passar por Araçagi, Cuitegi, Pirpirituba, aldeia dos iurimagua vocês já estejam à vontade. Assim, mais oito ou dez dias, e bem rápido, no décimo sexto dia estarão vendo de longe a montanha Dedo de Deus e eu nem digo mais nada. É lá que mora a família de montanhas de nome serra dos Órgãos e é meio difícil, uma vez, e eu nem digo mais nada. Pois, eis aí! Pronto, papeei, eh!

O caimão nem disse mais nada, ajeitou os óculos, baixou o queixo na areia fofa e dormiu cansado de tanto falar. Era hora de sol muito forte. Réptil de sangue frio gosta de se esquentar. Mesmo assim, os passageiros das estradas perdidas aproveitaram o embalo e se mandaram, sem se despedir e sem agradecer e sem acordar o bicho. Mas agradeciam de pensamentos e contentes de coração faceiro. Agradeciam sentindo saudades da acolhida.

- Capixingui!... Por que os jacarés são assim? Eu tenho muito medo de jacarés e suas séries de dentes na boca grande com vontade de engolir. Parece bicho pré-histórico.

- Hi-ooooi!... Nem só é do tempo do onça como andou peleando com o homem e a mulher das cavernas, segundo parecer da academia paleontológica. E maior que hoje em dia. Sujeito mais enorme que o triplo de hoje em dia, mas com ética ético.

Um chora-chuva-de-cara-branca começou a segui-los de longe. Assobiava e gritava como nunca. Queria chamar a atenção. Soltava uns pios estridentes, estridentes, “gri-fe!... gri-fe!...” Depois silenciava por dois ou três minutos. De repente voltava a grasnar, piar, assobiar, “gri-fe!... gri-fe!...” Estava aí consultando investigando sondando. Sempre aquele piar, aquele grito, aquele ruflar de asas. E que era gostoso de se ouvir, falando a verdade, musicado e harmonioso. Queria comunicar algo e de perto? Era uma comunicação urgente e urgentíssima? Muita originalidade dinamismo e beleza.

Já cinco horas depois o chora-chuva-de-cara-branca ainda vinha seguia atrás os viajantes. Chiando e grasnando quase sem dar descanso, “gri-fe!... gri-fe!...” Palrando e palrando quase sem deixar o próximo sossegar. Será que nem doía a garganta? E voava cada vez mais perto dos viajantes. A menina trocou com o petiço, calculou, interrogou:

- Araruta!... Que será que ele quer, hein?! Aposto que vem chuva aí, tá certo?!

O Tico-Tico era cavalo e um cavalo petiço muito esperto e filósofo. Era cavalinho de leituras e outras histórias. Era quadrúpede de bons ouvidos, nem só orelhas grandes. Logo decifrou a charada, nitrindo, blaterando, conceituando:

- Hi-ooooi!... Ele quer te namorar, quase garantido. E canta bem e canta melodioso.

E dito e feito. Mais uma hora e o chora-chuva-de-cara-branca chegou voando definitivamente na área e foi logo perguntando, se dirigindo para a princesa, piando alto:

- Gri-fe, gri-fe!... Oi, menina do cabelo enfeitado! Posso me aproximar de ocê?!

- Sabiapiri!... Oi, c-c-c-b! Que se passa contigo, meu? Está com pena de alguém, está com soluço, está com inspiração poética? Que que te passa, pássaro?!

- Gri-fe, gri-fe!... Queria casar contigo hoje mesmo senão eu morro de dor no coração! Meus olhos nem podem mais ver outro amor, é! Meu coração nunca viu mocinha mais linda e cândida! Meus olhos nunca admiraram princesinha mais terna e querida!

A Lilás já estava procurando no cérebro uma boa desculpa, faz favor! E Tico-Tico sorriu, achou excessivo, mas nem gargalhou, ficou na dele. A Lilás ficou pensativa mais um instante e começou a bolar uma saída para o caso. Pensou. Repensou... mais e muito. Depois desembuchou, entoou, diagnosticou, cantarolou, tentou convencer e rapidamente:

- Promombó!... Nem sou toda esta propaganda que tu me dedicas, meu! A resposta já está na proposta de casamento, ou seja, nem estou na idade. E nem posso casar contigo, meu amigo alado e plumoso. Tenho medo de alturas nem sei voar nem tenho os comandos da espécie emplumada e etc. Tenho também certeza que nem iria dar certo, certo?!

- Gri-fe, gri-fe!... Nada? Mas como? E por quê? O que foi que eu fiz de errado para desagradá-la tanto tanto? Eu te ensino a voar, vai! A vida aérea é legal e livre e panorâmica! Vamos sair pelo espaço a fazer ângulos e voos perfeito, vamos!

A menina já estava em outra esportiva, já queria ir pra casa, já estava pensando em se transformar em fumaça. O petiço sorriu, achou demasiado, mas nem quis gargalhar na hora, prendeu a respiração para nem rir da situação toda. A menininha tinha uma ideia diferente, e destampou, escreveu, descreveu, descarrilou, acompanhou:

- Pindaúba!... Eu nem posso me casar longe longe tão longe dos meus pais. Eu moro pra lá da serra do Mar e mais de oito dias de viagem. Eu moro além da serra que azula no horizonte. É longe e meus pais nem me perdoariam se eu casasse longe deles e sem avisá-los e sem convidá-los. E acima de tudo, meu amigo ocasional, somos incompatíveis. Tchau!

O c-c-c-b arregalou os olhos azuis e se aborreceu de frustração, penou um pouco. E era melhor o chora-chuva-de-cara-branca entediar e se entristecer e se frustrar que a menininha casar nessa pouca idade, idade de passear, idade de viajar, idade de nada contra nada, idade de nem saber voar, idade de curtir o que vem pela frente, idade ociosa.

Perto da noite petiço parou o passo junto a um pé de quaruba, desabafou, soprou:

- Hi-ooooi!... Uta! Que canseira. O calor está de pegar mesmo, né?! D que me salve!

Aproveitaram e foram buscar alguma coisa de comer antes do sol se pôr. A menininha comeu pequis. Com cuidado para nem espinhar a boca. O cavalo comeu um bom capim-marmelada. Os dois comeram araticuns amarelos do araticum-do-mato, e o suficiente. Assim as horas iam passando com o devido respeito que o tempo merece.

Uma família de pombas-pedreses também já dormia no pé de quaruba. E elas acordaram diversas vezes na noite somente para piar um pio noturno de pomba-pedrês, “piii-ooou!, piii-ooou!...” E o petiço acordava com o pio noturno das pombas-pedreses. E a menininha nem acordou, que dormiu como uma pedra, mesmo com o pio noturno das pombas-pedreses, “piii-ooou!...” A noite estava para contar estrelas; mas quem contava?

Antes do sol surgir, as pombas-pedreses saíram estrilando gargalhadas, “piii-ooou!...” para o campo aberto atrás de sementes e frutinhas. Quando o sol bateu na cara da menina, o petiço já estava bebendo água ali no corguinho. O riacho se desmanchava entre as pedras. As pedras, verdes de musgos e limo e liquens, trocavam conversas com o fio de água, “xá! xé! xu!...” A água dava alma verde às plantas e dizia faceira entre seixos rolados, “xá! xé!, xu!...”

Ouviram um pessoal vindo falando desde longe. Umas conversas humanas. A dupla ficou escutando e depois de hora viram uma tribo de autóctones chegando perto. Quando se encontraram debaixo do jatobá-vermelho a tribo dos jabâ-ana parou. Todos estacionaram aí. Os índios e índias vestidos de saiotes de palha seca. Cacique Aram, senhor orgulhoso peito pra fora, tratou, declarou, ergueu o braço direito e longo de parecer autoritário e disse:

- Rio Marauiá!... Oi, tapuitinga! Oi, tapiraguaçu! Os dias vão e vêm de bem com vocês?

- Hi-ooooi!... Oi, tribo de gente dos jabâ-ana!! Os dias vão e vêm de bem com vocês?

- Tapinhoã!... Oi, tribo de gente dos jabâ-ana!! Os dias vão e vêm de bem com vocês?

O cacique Aram olhou o chapéu de folhas de palmeira-catolé trançadas em a cabeça da menina e pediu, na caradura, na moral de índio valente daquelas quebradas e caatingas:

- Rio Cauabori!... Bonito chapéu de folha de palmeira-catolé, princesinha. Dá chapéu pra cacique, menina? Chapéu pra tapar o sol forte. O cacique Aram dor de cabeça mais intensa nesse sol muito quente, guria netinha cunhantaim.

Os índios e índias seguiram o caminho deles, farfalhando palha seca, eram uns quarenta para perto de cinquenta, foram para os lados do rio Paraopeba no rumo de Guarabira e Pilõezinhos e praia de Massaguaçu... Um tanto de índios, um tanto de índias, um tanto de guerreiros e cunhantãs, um tanto de curumins e cunhantains, um tanto de mascotes naturais da floresta e jacuruxi, curicaca-comum, maria-faceira, saci-do-brejo... E para o lado oposto, continuaram os dois perdidos, perdidos e meio. Andar o caminho como se faz a trilha.

O sol acorda onde nasce a nuvem, geralmente. As nuvens seguem e perseguem o sol numa boa. O sol dorme onde faz chover no oeste do país. Um vento de boa onda balança a rede pendurada na sombra. Este tempo fala fala e nem se entende um pio. O vento empurra as nuvens e azucrina as copas das árvores anfitriãs e jeribás, molianas, sucupiras-do-cerrado, ingás-ferrugens, cipós-de-gota, coqueiros-açaí, sapupiras-da-mata... e parecem sim uns hotéis de charme com tudo incluído. Tomara que outras árvores assim melhor organizadas nasçam cresçam floresçam frutifiquem.

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O rio das frutas, ivaí (4) juvenil

 


Na altura das 11h e 45min, avistaram alguém que lhes poderia informar melhor sobre o rumo a tomar, o melhor caminho a guiar, a trilha certa a seguir, a rota para casa, etc., e agora mesmo. Uma estrada estadual provincial estafada e na legalidade.

O tipo estava parado na beira do caminho no acostamento da estradinha. Parecia um cachorro-vinagre, parecia um lobo-guará, parecia... era mesmo um graxaim e dos grandes. Os visitantes se chegaram e a menina foi logo perguntando, se acercando, dizendo, admoestando, parabenizando:

- Beija-flor-roxo!... Oi, graxaim! Esperando alguém passar? Do sul ou do norte?

- Hi-ooooi!... Oi, graxa Curiboca! Que foi feito da família? Está só e procurando e esperando?

- Miscelânea!... Oi, menina! Oi, cavalo! Estou na dúvida. Depois eu falo, valeu?!

O graxaim se levantou da poeira vermelha, bateu os pelos com as patas, mexeu com as orelhas altas, farejou comprido, bocejou se esticando como corda, abriu bem a boca com a língua vermelha e ficou olhando as visitas, olhando os viajantes, tremeu todo ligeiro de corpo inteiro para bater a poeira. Esperou a menina desencalhar a pergunta e ela destravou, observou, demonstrou, direcionou:

- Bico-de-milho!... Pra que rumo fica a bonita serra do Mar e conhecida? E fazendo este favor!

O graxaim - o nome dele era Curiboca ou caboclo ou cariboca, mestiço de índia com branco -, língua de fora, pelos brilhando ao sol, olhos castanhos, focinho farejando profundo, olhou a menina e o petiço e foi falando o que sabia e o que nem sabia, roncou, rosnou, eternizou, latiu, cainhou:

- Miríade!... Tão vendo aquela árvore lá? É uma sucuuba das grandes. Apesar de sucuuba nem ser uma árvore gigante. Bem, assim mesmo, estão reparando a árvore? Eu digo!

- Pica-pau-manchado!... Estamos vendo a árvore sucuuba, tá certo! Que mais ou menos, graxaim?!

- Hi-ooooi!... Nem só a vemos como acho que está em boa forma viçosa verdinha bem enraizada.

- Sínodo!... Justamente o que lhes afirmo. Se estão vendo é porque estão com os olhos em dia e enxergando bem. Sendo assim... Aí, bem para lá da sucuuba, fica um rio de apelido Paracatu. É um rio de bonito nome reconhecido, de água límpida e boa de beber, de nadar, até mesmo de mergulhar. Eu mesmo já bebi muita água do rio Paracatu. Uma corrente de água que vem de longe e vai pra longe. Vocês devem fazer o mesmo senão morrem de sede antes de chegar em casa. Bem. Assim, depois do rio tem a aldeia dos silvícolas canela. Eles nem gostam de visitas, porém. Nem de meninas nem de cavalos e outros forasteiros. Eles detestam visitas de última hora e que nem mandam avisar antecipadamente. Então, o que fazer? Evitar ir para aqueles lados. Bem. Assim, por isso mesmo, só lhes resta voltar e uns dois dias de caminhada e pegar o rumo do rio Sapucaí. É do outro lado, porém. O rio Sapucaí também tem um nome legal e reconhecido, e é ótimo para nadar e beber e veranear nas suas margens. Eu mesmo já nadei lá e já saciei mil vezes a minha sede. Tenho, aliás, uma sede de cachorro e que vai e volta. Vocês devem fazer o mesmo. Bem. Depois do rio Sapucaí, uns dois dias de marcha corrida rumo noroeste, vão chegar no quilombo do Acari. Ali os pretos nem gostam de branco, talvez de brancas, e gostam de cavalos. O que é nem de perto recomendável andar aí. A menina talvez pode se dar mal com eles. O cavalo também porque vão fazer o cavalo carregar muita gente pra lá e pra cá e pela vida toda. Sendo assim, nem devem ir praquele lado e que sem dúvida faz mal pra saúde de quem se bobeia ali. Xô com eles! Bem. Só resta então, pelo que vejo, pelo que entendo, ocês dormirem aqui essa noite e amanhã de manhã seguir no rumo do sol nascente. O sol nasce pro lado de lá, o leste, bem pra lá da passagem do rio Imbé e o rio das Antas. Bem. Outro amanhecer e nem atrapalhando a sorte regrada das antas, vocês podem seguir em paz e tudo bem. Eu digo e assino e recomendo. Se eu tivesse mapa emprestaria.

Os chegantes passaram a noite ali mesmo. O graxaim acendeu um fogo e tomaram um mate-amargo. Comeram butiás, pitangas, araçás-do-campo, mel de abelha-mosquito... e outras ofertas silvestres da época da estação. O petiço um capim-trapoeraba dos mais tenros macios nutritivos. Sabiá-ferreiro cantava alegrias alvíssaras ali por perto. Um osguinha se escondia atrás da pedra. Sapo-folha coaxava típico ali bem rente. Família de guirás andava atarefada, uma vez.

O graxaim Curiboca contou uma história de aventura dele mesmo pelo mundo afora, acoou, recontou, distribuiu, imortalizou, ironizou, proseou, destampou e com descaramento:

- Proselitismo!... Eu nasci na mata, no meio de uma noite funda e mês de maio. Me disseram. Tudo estava previsto. Nem sabia se queria ser graxaim-do-mato ou graxaim-do-campo. Com seis meses minha mãe me chamou de Curiboca e me abandonou e meu pai até antes disso. Eu mesmo sei disso. Virei um graxaim-do-campo órfão e sem eira nem beira nem tribeira. Comecei a caminhar noite e dia, principalmente à noite, comecei a andar quilômetros e mais quilômetros, sempre com olhos noturnos acesos luzentes brilhantes. Focinhei de focinho esperto na realidade. Sei farejar. E meu coração se chocou e como se chocou com tudo isso ao meu redor. Tinha de ser. E a meu modo.

Curiboca levantou o focinho ao céu. Aliás, todos os três em roda da fogueira e olhando o céu da noite. Assim puderam ver muito brilho de estrelas e pó de estrelas e pólen de planetas se esparramando já esparramado pelo universo, uma paranoia. O graxaim apertava os olhos de saudade, espremia o coração de saudade, antenava as orelhas de saudade e abria a torrente das aventuras narrativas. E aí, o graxaim-do-campo contou com voz rouca, mugindo, balindo, nitrindo e amuado e aporrinhado:

- Abjurar!... Assim digo eu. Eu me apaixonei por uma quati muito linda e tão galante. Uma quati que nem é bicho da minha espécie, está claro. E isso é muito mal, muito mau, foi pior ainda. Muito péssimo multiplicado e pior que ainda. São erros que nem se pode evitar e por falta de conhecimento. Quando se é jovem se faz tudo e se pensa em nada. Os vodus deveriam me blindar.

- Hi-ooooi!... Por quê? Muito preconceito racismo? Muita urgência em casar e de supetão?

- Onomástico!... E nem qué?! Claro que foi puro preconceito, em minha humilde opinião. Nem me deixaram trocar um lero com a guria, quer saber. Nem deixaram a moça me seguir nas redes sociais, quer saber tudo. E eu caí como um tolo nessa realidade. E meu coração, movido por seus impulsos marcados, se chocou e como se chocou como nunca como já disse. A realidade é muito forte.

- Socó-pintado!... Eu também sofro de preconceito por causa da minha condição de princesa herdeira do trono brasileiro, é. É uma verdade indiscutível e que nem se pode abandonar.

- Hi-ooooi!... Eu também sofro de preconceito por causa da minha linhagem ou falta de. Nem sou um cavalo de raça nobre, um puro-sangue, um cavalo de corrida. Sou um petiço sou um matungo sou um burrego burrichó. Bem que eu gostaria de correr na hípica aos domingos e ganhar vários prêmios e sair nos jornais etc., e depois dar autógrafos, etc. A realidade é difícil e identificada com o fisiologismo.

Um urutau rasgou roupa para os lados do mundo. Mais estrelas no céu. O vento cantando uma canção lenta lenta com as folhas do arvoredo e ouricurizeiro, cúbio, crista-de-mutum, chirca... Volta e meia umas nuvens atrapalhavam a luz da lua. O graxaim foi enveredando, trinando, trilhando, treinando:

- Anabatista!... Bem que eu sou um graxaim-do-campo e tenho história, minhas histórias de aventuras, aventuras quilométricas e andando pelaí e Espigão do Oeste, Aripuanã, Marechal Thaumaturgo, reserva pãi-taviterã junto ao rio 14 de Abril. Sempre seguindo. Daí eu me repensei, querem saber. Deixei de lado o meu envolvimento com a jovem quati. E ela era linda como uma flor de orquídea. Como uma colibri num dia de sol. Como uma quati saltitante. E deixei tudo para trás e fui pelo mundo com muita coragem e honestidade e atitude. Batendo cabeça e achando muitas aventuras. Cheirando como nunca a realidade. E conhecendo lugares. Cheguei bem longe, e mesmo a morar e desfrutar em São Salvador na baía de Todos-os-Santos. Fui longe fui esperto fui contente. Morei lá por uns oito nove meses e trabalhei num grande canavial. Realidade muito acachapante e agrícola. Depois o canavial faleceu num baita incêndio e tudo pegou fogo e eu fui para o Ceará. Para o litoral mais quente ainda. Fui trabalhar numa fábrica de sal. Todos os dias de segunda a sexta debaixo de sol solão solama amontoando sal sol sul com uma pequena pá de madeira. Muito rústico. Vestindo vestes talares. Era uma salina enorme e brilhante ao sol de todos os dias. Colhendo sal. Um turbante enrolado na cabeça e muita água para beber. O dia era todo sempre ensolarado e fiquei bronzeado como um bronze especial.

- Maria-leque!... As salinas ficam no rumo de quê, de quem? É longe? É sal de montão, imagino!

- Expurgado!... É lá pro norte do nordeste mesmo. E lá tem muita carne de sol estendida na cerca. Mas eu me acostumei com o litoral e havia ótimas praias e muito quiosque e tendinha vendendo coco verde. Houve um fragor estrondo de guerra e eu vim embora. Nem me dizia respeito, e eu vim embora. Nem sou mercenário de trabalhar em guerra alheia dos outros.

- Ho-ooooi!... Guerra ou guerrilha, revolta ou revolução, peleia ou briga, entrevero ou escaramuça?

- Prolífico!... Uns corsários ou piratas das grandes Antilhas mar das Caraíbas queriam recolonizar a região e brigavam com os portugueses que já colonizavam a área. Eu mesmo quase fui preso trancafiado na presiganga. Os portugueses levaram a melhor, àquela altura, no fim das contas, ao fim e ao cabo. Mas, aí, eu vim embora e entrei para o garimpo. Em Diamantina, nas Minas Gerais, a coisa fervia mesmo. Muito banditismo pelo mundo da serra da Cantareira e que só vendo. Era perigoso pra cachorro, pra gente também, pra todo tipo de bicho. Sempre estripulia estropelia confusão. Ali muito rato e camundongo se acoelha se intimida se acovarda. Alcei as orelhas na realidade da vida real e de El-Rei. Quem mandava no mundo daqui e dalém mar era Dona Maria I, junto com seu filho Dom João VI.

Riscou um cometa na altura do infinito e foi cair no meio da floresta atlântica. Ninguém piou. Ninguém urrou. Ninguém guinchou. Até o vento deixou por uns instantes de contar folhas de andiroba. E o graxaim Curiboca continuou a poranduba, lembrando, ganindo, calculando de um a dez, decolando:

- Consistório!... Mas eu estava decidido a enfrentar a parada no osso do peito, sabem. Fui ao garimpo e fiquei e teimei e me inteirei do que havia. O trabalho no garimpo era pra cachorro, pra canídeos brabos. Até comprei um pedacinho de um tijuco para cavar também. Eu nem tinha receio de nada. Eu era mesmo um pertencido um herói anônimo um furioso. E também qualquer pé de galinha já dava sopa. Comigo era ali nos dentes e nas garras. Eu era mesmo terrível e perigoso e violento. Eu era mesmo afoito ansioso e para ontem. Eu tinha amigos e inimigos, mais adversários. Eu desconfiava de quase todos. Eu agarrei mesmo a realidade das sobras nos dentes. Eu era eu, e D sobre todos.

Um sapo-martelo martelou, um sapo-ferreiro bateu na bigorna, outros sapos coaxaram, o banhado ali próximo todo participou, parecia uma orquestra de roncos roucos. A lua viajava com camisola pijama de dormir. E a lua tinha direito de passar em branco. O graxaim foi tocando o barco a vela, bate-papo:

- Ornitologia!... E lá pelos meses e meses sem conseguir uma boa pedra no garimpo... meu coração começou de novo, iniciou novamente, foi e se reinventou. Meu coração se chocou se chocava e ia se chocando cada vez mais com as coisas ridículas. Nem acontecia nada que eu queria que eu precisava que eu desejava. A realidade era dura como diamante verdadeiro. Nem acontecia nada que eu sonhava. Me sentia sozinho, faminto, sedento, sem amigas, sem ninguém, perdido, perdido e meio. Eu precisava de uma pedra bonita para tirar as patas da lama e ganhar a fama, e mais acima, e mais além, e mais quem.

- Chorró-cocá!... E como vão aí os diamantes, como ia o ouro em pó? - perguntou a ótima menina curiosa e nascida para viajar, sempre alerta solerte esperta hábil sagaz.

- Entomologia!... Oh!, um diamante responde por um tipo de cristal único na terra. Mas muito duro e brilhante e bonito e valioso. Raro de encontrar. E por isso vale os olhos dos olhos da cara. E é uma realidade quase impossível e muito cobiçada. De verdade de verdade parece o paraíso, mas é o inferno.

- Hi-ooooi!... Daí que todo mundo o procura, então? E quanto mais diamantes melhor.

- Lepidóptero!... Esse era o sonho de todos todas lá no garimpo. E todo mundo sonhava dia e noite com uma pedra das boas e limpa e grande. Uma pedra de diamante puro. Uma pedra faiscante, de cores puras, várias cores brilhantes ao mesmo tempo, um pouco pesadinha, aparecida, iluminada por si mesma. Um sonho durável eterno perene. Uma ilusão para acoplar unir juntar o útil ao agradável.

- Hi-ooooi!... E você achou uma dessas pedras de diamante puro e cor faiscante? Diga!

- Decatlo!... A sorte no garimpo era sopa de pedras. Todo dia uma realidade de brigas com foice no escuro. E mortes. E arrastões. Brigas de cachorro louco. Eu mesmo briguei com um cachorro-vinagre e foi briga de cachorro grande. Nunca pensei e me imaginei brigando e no meio de uma briga tão feia como aquela. Muita rixa e muito grandes. Uma realidade que gania e latia e mordia e arrastava e afrontava. Rebeliões e anarquia e distúrbios e encrencas pondo o garimpo em xeque. E quando me vi ali, bem no meio daquela situação real... encrenqueiros estupores escórias ralés... sabem, eu me detestei e me mandei de lá. Situação caótica vandalismo massa furibunda calúnias. Colapso de bons e ótimos valores. Nada, nem queria mais uma aventura como aquela. E disse para mim mesmo, declarando ao mundo: deu pra ti, garimpo! E me mandei correndo antes que me arrependesse, uta!

- Saíra-guaçu!... Nem achou tropeçou em pedra nenhuma, nadinha? Um raro diamante?!

- Arquiduquesa!... Bingo!, digo de bate-pronto. Eu encontrei uma pedra linda e mais ou menos pesadinha. Cor amarelada, cor de canarinho-da-terra. Sabe o que eu fiz. Eu levei ela comigo até Vila Rica de Ouro Preto. Ali vendi por 5 contos de réis. Um ótimo preço e fiquei rico. Um preço que me deu uma boa vantagem uma boa bolada e folga na realidade real daqueles dias irreais surreais.

- Hi-ooooi!... Sim, um ótimo preço por uma pedra melhor ainda, acho.

- Contingente!... Pois na hora de vender eu precisava tanto de dinheiro que também achei. Achei que o preço era bom e vendi. Sem pestanejar, como diziam os mais antigos. Achei que nem ia mais me importar com a realidade e até pulei de alegria. Pensei alugar arrendar mas nem era possível. Porém...

- Anambé-preto!... Mas o quê? Porém mais alguma coisa? Você se arrependeu de vendê-lo?

- Sesmarias!... Contudo o mundo dá voltas e as voltas dão outras reviravoltas e a história é um círculo circunferência cheia de manias. Na verdade o mundo é uma realidade feito um labirinto. Bem. Assim foi que o comprador da minha pedra, um português radicado em Belo Horizonte, e que me pagou 5 contos, vendeu a mesma pedra para um negociante turco, vendeu por 50 contos de réis.

- Hi-ooooi!... Por essa eu nem esperava. Que coisa estranha, meu! Uh!, muito prejuízo mesmo.

- Estância!... Mas nem é só isso e nem parou aí. O turco foi para o Rio de Janeiro, a cidade de vocês, né! amigos, e lá no Rio vendeu ela para um turista judeu por 500 contos de réis.

- Hi-ooooi!... Nem vem com essa, seu graxaim Curiboca. Nem acredito! Sem mentira?

- Periquitinho-de-vassoura!... Nem eu. É muito distante da realidade, hein?! Que chatice!

- Constituição!... Mas ainda é cedo para vocês se espantarem ou comemorarem. Assim, sabe o quê? Então, o judeu navegou dois meses até a Europa e lá em Madrid vendeu a pedra para um alemão morador na Holanda por 5 000 contos de réis. Algo do dia pra noite. Notícia em todos os magazines, oi!

- Hi-ooooi!... Um tesouro! Uma fábula! Uma fortuna! Um negócio muito rápido e rasteiro!

O graxaim-do-campo respirou fundo, tomou fôlego, balançou a cauda meio assim à toa, sorveu mais uns goles de mate-amargo, olhou para a noite estrelada, e prosseguiu, latindo, uivando, soprando:

- Bastidor!... Mas tem espinho, minha gente! Então, o alemão que morava em Holanda, que era natural de Berlim, foi para o Irã, em Teerã. Lá o cara negociou a pedra por... adivinhem!, atirem! Negociou a pedra por 50 000 contos de réis. Acreditam?! Pois acreditem!! Pois creiam-me!!!

- Hi-ooooi!... Eu nem posso admitir tamanha soma de dinheiro por uma pedra! E do tamanho de quê? Do tamanho de um ovo de galinha, um ovo de cambaxirra, um ovo de colibri?

- Beija-flor-de-garganta-azul!... Eu desconfio muito! Eu já acho um exagero redobrado! Está indo longe demais e virando anedota. Eu acho que vamos parar em Patos de Minas ou Vila Propício ou Goianésia ou São Francisco de Goiás - desafiou desabafou a menina, imaginativa e boa de conversa.

- Constatado!... Mas ainda nem acabei de começar. O persa namorou a belíssima pedra brasileira de cor de canarinho-da-terra por uns oito ou nove anos. Então, um dia, o persa viajou até a Inglaterra para comprar uns navios importados. Como tinha a pedra valiosa, trocou a pedra por quinhentos navios dos grandes e modernos. Esses navios tanques petroleiros estavam custando no mercado o valor exorbitante de 500 000 contos de réis. Até hoje a pedra ainda é do banco real dos ingleses, eta!

- Pica-pau-soldado!... E por que parou num banco aí de Londres na Grã-Bretanha? Mais nada?!

- Naturalista!... Por quê? Porque é lá que mora a rainha-mãe dos corsários piratas que infestavam as grandes Antilhas e pequenas Antilhas do mar caribenho. É lá que para todo o ouro que reluz.

Quem diria, ali naquela noite estrelada, que as estrelas eram distantes como os diamantes?! Os três ainda olharam as estrelas com carinho carícia e envolvimento. As estrelas nem falam, se falassem falariam de muito longe, falando para o infinito, falando sem que se escutasse aqui da Terra. E falariam sem que se esperasse que falassem. E falando luz na velocidade da luz, falando a língua dos diamantes, aquecidas, desconhecidas, sobressaltadas, muito caras e brilhantes. A menina perguntou, toda pergunta perguntou, comprou, pagou, recompensou, enriqueceu e toda profilática preventiva se precavendo:

- Pavãozinho-do-pará!... Que pedra era essa, hein, meu?! Me descreve a pedra tão preciosa.

- Hi-ooooi!... Uma pedra muito enorme, acho! Uma pinha de pinhões! Um coco!

- Feitoria!... Olhem, agora eu digo, amiguinha e amigo! Era uma pedra do tamanho de um ovo de marreca-cricri. De tez amarelinha cor canarinho-da-terra. Nada mais nada menos. Uma pedra do tamanho de um ovo de marreca-cricri ou quiri-quiri. E linda e pura como uma piscina marinha natural revestida de arrecifes de coral. Sem um pingo de sujeira mancha nódoa conspurcação. Aplausos!

- Saí-sapucaia!... E que maravilha! E por quê? Digo, e daí? Que lindo e linda!

- Hi-ooooi!... A pedrinha sempre estivera ali, né? Praticamente esperando esquecida indiferente.

- Respectivamente!... Por que vale tanto assim uma pedra bonita e rara e enfeitiçada e chispa e frita e amarelíssima? Vai saber! Existem outras realidades, né?! Eu mesmo gastei meus 5 contos da venda da pedra e vim para o campo. Gastei com besteiras, gastei sem sentir, sem ver nada, gastei num dia e no outro já estava pelado ou em pelo. E voltei para minha querência rincão. Que aqui é minha realidade, meu lugar e pronto. E ponto. Nem tenho mais por que andar andar tanto tanto. Realidade real.

O graxaim-do-campo olhou o céu que por si só já se ia desmanchando, ou se transformando, na manhã nascendo e disse mais uma coisa ou duas, latiu, transportou, limitou, distribuiu, destacou:

- Obstinação!... Tenho 19 anos, quer saber. Acho que meu nome de batismo é Curiboca. Estou ficando velho. Um canídeo morre de velho aos 25 anos. Estou velhote. Nós, graxains-do-campo, vivemos no máximo 25 anos. É a lei da gravidade. Nesta ou noutra latitude e longitude e altitude.

O dia amanhecia, parecia. O vento mais frio, parecia. O graxaim-do-campo olhou o céu, olhou a floresta, olhou o campo, olhou as montanhas, olhou a serra, olhou o rio Roncador, ouviu os passarinhos cantando e cutipuruís, bicudinhos, chorões, tchintchorrintchos. E as orelhas acompanhavam os olhos. Olhou a paisagem toda. Farejou o ar puro. Bocejou esticando a língua para o ar. Bocejou se esticando todo como um arco. Bocejou cumprimentando o panorama. Bocejou a seu modo, “aeiouuuu!...”

O sol nasceu definitivamente e depois foi subindo na paisagem do dia. O sol foi indo e sugerindo cores e cantos de passarinhos. Papa-capim piava, se balançava na haste de capim. O sol sempre faz isso, sempre fez isso, mesmo quando nem reaparece. Mesmo quando vem afofado entre nuvens passageiras. Mesmo quando vem nublado camuflado entre almofadas fofas. O dia com suas árvores verdes, amarelas. Tons e verdes. Balançando taquaris, samambaias, mirindibas-bagres, cipós-sucurijus, sapupiras-da-várzea. Pintassilgos cantando, encantando, encantados. Marrecos-do-banhado originais fazendo farra.

Um cantor dos tizius veio acordar a menina, soprou a guriazinha, “fuuuu!...” O sol já ia alto e quadrado. O graxaim-do-campo tomava chimarrão sossegado sentado numa pedra e olhando o campo o descampado o potreiro. O vento fazendo ondas no capim, na macega, na capoeira, nas ervas daninhas, açoitando as gritadeiras-de-são-paulo. Petiço Tico-Tico, assim perto e ouvindo tudo, pastando o capimpeba lá dele que achara ali. Bando de borboletas-estaladeiras e verdadeiras catando sal no chão de barro preto, por certo! Enfim um sem-número de cidadãos e cidadãs úteis à sociedade.

Mais tarde, para perto do meio-dia, os dois viajantes se despediram do cachorro-do-mato e continuaram a viagem. Entre um ponto e outro ponto vários pontos pontes murmurinhos burburinhos de cidades acontecimentos lugares, território dos ofaié e São Lourenço, Carmo de Minas, São Sebastião do Rio Verde, Dom Pedro de Alcântara, lagoa do Morro do Forno, campo de Santana que já foi campo da Aclamação e hoje em dia é praça da República. E se aproximando. E o rumo para a serra do Mar só podia ser aquele mesmo. E seguiram. E esticaram. E prosseguiram. E deram destino aos passos.

Havia dias e dias de caminhadas sobre caminhos encontrados e descuidados. Por onde fosse.

- Pega-do-norte!... Que você está pensando? Qual a tua última ideia? - perguntou a menininha ao amigo petiço. Valem muito suas ideias? Suas ideias são importantes.

E assim, os dias iam passando. Aqui ali e em toda parte. Aqui se faz e aqui mesmo se tem.

Vá lá, uma tarde (no centro do mundo dos dias das horas), dentro do mato fechado como num túnel, numa trilha estreita encoberta pela ramaria do mato, bem como um túnel, a princesa e o cavalo se depararam com um perigo serpentino e enrodilhado em si mesmo. Pendurada de um galho, ali no meio da trilha, pendurada e enrolada em um galho de andiroba-do-igapó - de longe parecia uma espécie de cipó-cururu, ou uma trepadeira andirapuampé - nada mais nada menos que uma enorme e bocanhuda bocanhenta e coisa e tal e qual uma serpente réptil ofídio sucurijuba.

Que perigo, e das grandes. Que que era e nem era? Que que ela ia querer? A cobra mesma falou, silvando, desatando, esticando a bocarra, participando, estufando o corpo que já era longo:

- Nau, nau!... Oi, guria! Oi, petiço! Quanto tempo? Quanto espaço, né?!

- Sucupiraçu!... Oi, sucuriú!! - responderam juntos, numa voz, os viajantes de longa distância.

A dupla ficou ali parada, praticamente hipnotizada e alérgica e magnetizada. Que será que a cobra grande precisava? Era muita coincidência ou muito acaso. Perto, umas duas ou três cigarrinhas-vermelhas se descadeirando de tanto estrilar. Borboleta de cor azul e branca pulsava no ar e procurando o que fazer. Uma amoreira-do-brasil pendia frutos doces e aceitáveis. Mas a sucuri-amarela foi direta direito ao ponto importante, desatolou, atuou, interpretou, confidenciou, irmanou, tramou, intrigou:

- Nau, nau!... Minha filhotinha está de aniversário hoje mesmo, sabem?! Eu, sinceramente, gostaria de lhe dar o melhor presente do mundo. A mais caçula. Então, viajantes, eu aceito sugestões e recomendações e agrados. Eu aceito um presente de livre e espontânea doação. Quem diria!

Lilás olhou meio de lado para o Tico-Tico, Tico-Tico olhou meio de banda para a menina e olhos esgazeados. Isso significava, na língua dos olhares entre eles, que os dois amigos já estavam entendendo que a sucuriju queria ganhar uma gorjeta, um donativo, um regalo, uma oferta e, em outras palavras, estaria cobrando pedágio, taxa de passagem, imposto, tarifa, alfândega. E em efetivo?

Então, como se faz? Se paga o pedágio e se continua a viagem, nem é isso? Assim, foi como se fez. A menininha pensou e murmurou, articulou, remediou, reuniu, alinhavou, costurou:

- Periquitão-maracanã!... Tenho esse chapéu, feito da palha trançada do amarelinho-do-cerrado, dourado, bonito. Agrada? No mercado do Saara (sociedade de amigos e adjacências da rua da Alfândega) tá custando um bom e alto preço. É um bom presente. É um presente típico e tradicional.

- Hi-ooooi!... É importado dos rincões de Capivari do Sul. Então custa caro e os olhos da cara.

A sucurijuba pegou o presente, sorriu, experimentou, agradou, mostrou a língua de duas pontas e rastejou embora pelos galhos folhudos do pé de andiroba-do-igapó. E sumiu bem camuflada no interior da folhagem. E a cobra serpente já nem era mais problema e nem interessava mais nada.

E os viajantes continuaram pela trilha recoberta de mato. Cruzando o mato, saíram num campestre com banhado alagado e tudo. Aves aquáticas piando e grasnando e cantando e voando em torno do banhado, adejando. Muitas espécies e pios e silvos, quero-queros, tuiuiús, colhereiros, saracuras, sabiás-do-banhado, marias-faceiras, garças-brancas... E veado-campeiro chegando para beber. Uma família de emas saindo da capoeira para beber. O jacaré-de-papo-amarelo se atirou na lama entre os aguapés e se camuflar, corriqueiro. Veado-campeiro ergueu a cabeça, olhou em volta, farejou o ar puro, voltou a beber a água limpa necessária. Capivaras fazendo a refeição sem horário determinado.

Os dois companheiros de viagem passaram perto de um bacurizeiro, e se empapuçaram de bacuris. Foram beber água e por acaso espantaram um mundo de aves, o casal de seriemas, as jaçanãs, e uns bichos pequenos, a cutia, a família de preás, os ratões-do-banhado.

Lilás ia de carona e embarcada em Tico-Tico. Uma hora, Lilás caminhava ao lado do Tico-Tico. De repente, o cavalo ficava um pouco para trás distraído com um capim-marmelada. Outra vez, a menina ficava para trás sobrando distraída com o canto do canário-assoviador. Por acaso encontraram um bando de macacos-pregos-do-peito-amarelo. A menina perguntou sobre o caminho a seguir. A trilha melhor e mais rápida para chegar em casa. Umas 10h e 9min.

- Taperuçu-de-coleira-branca!... A gente mora no Rio de Janeiro, seu macaco-prego-do-peito-amarelo, e queremos o melhor caminho mais rápido para chegar lá. Faz um favor grande pra nós!

- Raramente!... Ah, então, esperaí que eu explico com detalhes - disse o esperto chefe dos m-p-p-a.

Pois era. E o macaco chefe, de nome Uirari, coçou a barriga (que ele gostava muito de coçar a barriga), coçou o queixo, coçou os cotovelos, coçou novamente a barriga (que ele gostava muito de coçar o abdômen), ficou pensando, pensando, se lembrando das coisas e tal, coçando o ventre com coceira de tanto andar na copa das árvores entre a folhagem. Depois de coçar a barriga (que adorava coçar essa parte da anatomia animal anatômica), resolveu dizer, resolveu guinchar e disse, berrou, declarou, borbulhou, rechinou e operou e homologou decretou confirmou juridicamente:

- Raramente!... Dois dias a partir de hoje, quem sabe mais ou menos, vocês dois vão achar um rio de nome Bituva. É pros lados de Sergipe, Aracaju e Alagoas, Maceió, aqueles lados, né?!

- Marreca-dos-pés-encarnados!... Nem pode, meu! Minha casa fica pros lados do Rio de Janeiro. É o oposto, digamos assim. Nem me engane, nem vacile, nem me iluda! E nada de urdimaça e disse me disse, seu mofatrão embusteiro fraudador caloteiro.

E o m-p-p-a ficou coçando a barriga famosa e redonda. Pensando. Ia pensando e coçando de hábito e mania. Era assim que gostava de viver e existir. Era assim que gostava de pensar e imaginar. Às vezes ria porque coçar a barriga fazia muitas cócegas e era bom. E coçou a barriga até lembrar e se lembrou. Macaqueou mais um pouco e atirou, juntou, espichou, esticou, encompridou, desparafusou:

- Raramente!... Ah, sim! Eu me desiludi só um pouco. Mas então é mais fácil. Vocês pegam a serra do Cipó e caem num rio... rio Tramandaí. Lá pelo meio do rio tem uma cachoeira chamada... do Bracuí, nas terras dos miriti-tapuia. É uma queda d’água branca como véu de noiva. Depois da cachoeira mais 6 dias a trote morro acima e morro abaixo e já estarão no litoral do Espírito Santo. Em Novo Hamburgo atravessem o parque Floresta Imperial. Em adentrando São Leopoldo podem parar um pouco e descansar na praça dos Imigrantes. Petrolina de Goiás merece visita e uma parada.

- Hi-ooooi!... Mas nem é Espírito Santo, é Rio de Janeiro. É mais além, entende?!

- Raramente!... Ah, sim! Mas o Rio de Janeiro é logo ali. É item passar o rio Paraíba do Sul. Chegando no rio Paraíba do Sul - que léguas acima recebe tributo do rio Capivari (em tupi, “capivara”) - vocês descem com o rio e ele os levará até o mar e já chegam no litoral de São Paulo.

- Tesoura-cinzenta!... Nem e que esperança, estamos falando da província dos fluminenses!

Assim o chefe mandachuva dos m-p-p-a ficou coçando a pança estufada. Ele gostava de coçar a barriga e era até um vício que ele nem podia largar. Coçava e pensava e ideava, assim. Pensava melhor coçando a barriga. E coçando o abdômen pensou melhor, achou e destravou, destrambelhou, soprou:

- Raramente!... Ah, sim! Deixe-me ver... Procurem a serra Gaúcha e, ali por perto, ali pelo meio, vão encontrar o rio Iguaçu, já passando uma lagoa de nome Maraponga. É pertinho, quem sabe, do Rio de Janeiro. E tem muito peixe nessa lagoa, piau, pacu, traíra, bagre, pirarara, charutinho, cascudo, camboatá, piratantã... e povoando habitando e correndo nadando atrás do dia a dia. Uma fábula!

Talvez o chefe macaco-prego-do-peito-amarelo estivesse com problemas, já cansado de falar, uma dor de barriga, chateado com os estranhos e nem conseguisse pensar direito. O fato era que o m-p-p-a estava confuso e todo perdido, mais perdido que os viajantes, coçando sem parar, coçando sem entrar corretamente nas ideias. A menina foi dando a partida, despachando, organizando, reorganizando:

- Saíra-dourada!... Bem, tá bom, mas... Quem sabe fica pruma próxima, hein?!

O famoso m-p-p-a ainda arriscou mais umas dicas, coçando a barriga rapidamente, exercitando seu cacoete, e emprestou, de última hora, em cima do laço, murmurou, sussurrou, transmitiu, deslocou:

- Raramente!... Nem sei que rio corre ali na serra do Espinhaço, falou?! Pode nem ser rio ou pode ser o rio Pariquera-Açu ou rio Goiana, terra de muitas águas. E o local é de muitos lagos, hum!...

A lua subiu bem acima das copas das catingueiras e das tatajubas-do-brejo e das mucunãs e dos angelins-ararobas. Trepou até ali no espaço e ficou deslizando em silêncio acomodada pacífica. Nem fez mais nada. Apenas foi enluarando tudo e andando para lá. Lua e seu satélite natural. Lua de mel.

Quando os viajantes chegaram no rio Itabapoana, ali encontraram também a aldeia dos caeté. Estes eles viviam ali há um tempo. Eles pescavam, nadavam, plantavam ali na beira do rio. Eles conviviam, dançavam, contavam histórias, descansavam ali à beira do rio volumoso piscoso. Os tais cortavam o couro da caça com dente de cotia, furavam o couro da caça com dente de jacaré. Para melhor aproveitar o tempo de pesca, faziam uma espécie de represa com pedaços de pau e batiam na água com cipó-timbó. Este cipó soltava um sumo que estonteava os peixes. Os peixes tontos eram pescados à mão.

Os viajantes surgiram do mato e pediram arrego. Os caeté ficaram olhando se perguntando quem seriam de onde vinham os tipos perdidos. O cacique Maçaranduba, pessoa cordial, com maitaca-roxa no ombro como bicho de estimação, entrevistou a menina e o cavalo, declarou, debateu, comprou, falou:

- Arroio Lexiguana!... Oi, princesa! Oi, Tico-Tico!

- Hi-ooooi!... Oi, cacique Maçaranduba!! Oi, todos e todas os caeté!!

- Peixe-frito!... Oi, morubixaba Maçaranduba!! Oi, todas e todos os caeté!!

O cacique sentou no chão, convidou os viajantes a sentar no chão, e o índio foi descontando, comunicando, proclamando, elegendo algumas palavras, separando ideias lá dentro da cachola:

- Rio Jaguarão!... Já sei! Vocês vêm lá dos grandes rios da Amazônia, né?! Já ouvi falar bem do rio Negro, do rio Solimões, do rio Purus, do rio Cacequi que em tupi é rio do cacique.

- Salta-caminho!... Que nada! Tá frio, chefe Maçaranduba! Um dia desses eu te conto.

- Hi-ooooi!... É, nem de longe, seu potentado Maçaranduba! Tente adivinhar. Admite.

Maçaranduba era chefe fazia tempo. Era o mais forte e esperto da tribo caeté, por isso todos o respeitavam. Era o mais rápido e hábil guerreiro, por isso foi escolhido chefe. Era filho do velho cacique Ibimirim, já aposentado, por isso foi escolhido novo cacique. Maçaranduba, cacique atual, falou, então, descontou, argumentou, foi endereçando os abecedês abecedários:

- Arroio Gontan!... Já sei! Vocês vêm lá do meio do oceano, ou mais pra lá ainda, né? Nada, nem, peraí... Vocês vêm das terras dos carijó, lá das bandas do rio Paraná, rio Paraguai, rio Madeira, rio Mambucaba, rio Paru, rio Apiaí-Mirim... né?! E passando por Chupinguaia, Cocalzinho de Goiás, Palmares do Sul, Corumbá de Goiás, Pimenteiras do Oeste, Feijó e rio Palmeiras, tô certo?!

Perto da noite acenderam muitas fogueiras ali na aldeia na taba na ocara. Comeram com gosto e comodidade, comeram frutas do mato, comeram produtos da horta, milho verde, abóbora, amendoim, e produto da mandioca, a tapioca, o beiju. Comendo e conversando. Contando histórias moralizantes.

Noite já bem fechada, aí pelas nove horas, uns sentados olhando o fogo, outros dormindo no chão, outros no interior das ocas e dormindo em esteiras ou em redes. Fazia um frio. Parecia que a lua já chegava mais perto, bem pertinho do arvoredo, raspando as folhas da seringueira-chicote, raspando os ramos da embira-branca, esbarrando nas palmas da pindobeira, curtindo os galhos da simaruba. E tudo isso tinha também e muito a ver com Tupã. E tudo tinha a ver com o tempo permitido a cada um e uma.

No outro dia, de manhã, tudo levava a crer que ia chover. Cacique Maçaranduba, falou, dominou:

- Rio Bengalas!... Hoje mesmo, já-já, vai chover o dia todo, né?! Eu sinto isso como uma previsão e presságio. Olho o céu olho o movimento das aves no espaço e sinto que vai chover. Digo que sim!

Mesmo porque a floresta silenciara e se pressentia esses acontecimentos. E as numerosas nuvens carregadas de tinta preta taparam todo o alto. Nuvens que se juntaram numa enormidade de barra escura. E os últimos bichos correram se esconder. Saltou no ar uma faísca de relâmpago e “trooovooouuu!...”

Então, o vento foi rápido e rasteiro e fortíssimo. E ainda soprou uma ventania, um vendaval que derrubou todas as árvores do mundo. Nada mais ficou em pé. Voaram as palhoças para bem alto e para longe. Qualquer árvore que se conheça ficou tombada no chão pela metade, e por causa da força da ventania, vendaval, furacão... O vento assobiou como doido e levou tudo que estava pelo caminho, tudo que estava em pé, paineira, caimbé, pitombeira, cipó-de-sapo, aroeira-do-campo, grápia, guatambu, três-marias, mangabeira, muiraúba-da-várzea, sapupira-do-igapó... O país das árvores estava sendo atacado.

Pois o vento, também ele, já ia voando longe, voando baixo, voando alto, voando pelo mundo todo. Pois o vento, que soprou com tudo, já se ia longe e rápido, rapidíssimo. E tudo estava pronto para aquela chuva muito forte e torrencial. Somente faltava a chuva e ela chegou com comes e bebes. Chuva torrencial um aguaceiro furioso e enxurrada e enchente.

E a chuva veio e veio bonita e veio com tudo, e a chuva foi tanta, uma barbaridade de chuva com granizo, boa tromba-d’água, cascata. O cacique caeté Maçaranduba, trincou, debateu, adicionou:

- Arroio Candiota!... Vamos ter um mundo de chuva e água. E a chuva vai lavar tudo mesmo. Depois a enchente. Depois da enchente vem mais outra coisa, nem adianto nem antecipo.

O céu escureceu em um minuto, e rigorosamente. O temporal já caiu e desabou. Choveu em cordas, cataratas, toalhas, lençóis de água grossa. E já a terra enlameou encharcou. E já os rios por toda parte. Nem cabia mais água no mundo e arredores. Alagando tudo e tudo virou banhado.

O pajé Igarité falou alto, prevendo como bom feiticeiro, tirando conclusões do tempo, interpretando, profetizando, narrando sua convicção, declarando seu parecer empírico:

- Arroio Jaguarão Chico!... O mundo nem demora muito e vai se acabar hoje mesmo! E terminal!

O mundo todo, em cinco minutos, virou um banhado um pântano um mangue. E água e lama e floresta derrubada e tudo mudado e abandonado e estendido no chão. O mundo foi tomado e inundado e derrubado amassado. Como foi feito justamente no fim do mundo. Para nada mais existir.

- Hi-ooooi!... Contra a natureza ninguém pode, é! A mãe-natureza se impõe!

- Tiom-tiom!... É quando Tupã aparece e diz trovoada relâmpago raio trovão e ribomba, tá sabendo?! Um acontecimento para mudar o mundo. Um fenômeno para cambiar os tempos.

Só vendo o tamanho dos relâmpagos, a luz dos chicotes de fogo, os zigue-zagues dos rios de fogo, os trovões estralando, estrugindo, detonando, estrondando, etc., e vários outros tipos de barulhos. A terra tremia no que ainda tinha para tremer. A terra tremia rachava e o céu parecia desabar.

Os índios caeté e os dois viajantes no meio da tormenta sem saber como e onde se esconder, sem oca pra se proteger. Assim, os índios se lembraram de uma gruta que havia na redondeza. Caminharam horas na chuva até encontrar a montanha e a caverna e o abrigo e o escondido e a lapa.

E o tempo continuou baixo, chovendo muito por um mês e meio, no mínimo. As horas passavam lentas as conversas foram esmorecendo as novidades passaram ao passado.

- Hi-ooooi!... Sem falar no incômodo de tudo isso, e já falando!

A chuva nem parava de cair. A água nem parava de brotar do céu. As enxurradas nem paravam de correr de arrastar de levar tudo de roldão. Os banhados nem paravam de crescer e encorpar. Os atoleiros e marnéis nem paravam de afundar afundar. A lama crescia o barro tomava conta dos terreiros.

- Papagaio-da-serra!... Estamos na capital mundial das chuvas e águas, então!

Os índios fizeram fogo perto da porta da caverna, todos se aproximaram para se esquentar se aquecer, comeram tentaram comer pinhões secos raízes secas folhas molhadas cascas molhadas de quaisquer tipos de plantas... e era principalmente o que havia para o momento. Toda uma expectativa para o término do temporal.

- Arroio Quebracho!... Vamos aguardar mais umas horas, mais um dia - estipulava o pajé Igarité.

De tanta chuva no mundo, (tanta chuva pra quê?!), de tanta umidade no mundo, de tanto ficarem detidos dentro da caverna, que seus habitantes já estavam perdendo a cor típica e natural. Os índios deixaram de serem os vermelhos para ficarem os amarelos. A menina princesa deixara de ser lilás para ficar amarelada. O cavalo deixara de ser colorado para ficar ruço-pombo.

- Hi-ooooi!... Que que está acontecendo, seu Tupã?! É por tudo isto que estou aqui?!

Um dia - quase todos fracos e anêmicos de tanto comer mosquitos cegos e muriçocas cegas e aranhas cegas e escolopendras ou lacraias ou bichos-de-conta cegos, viver tanto e tanto na sombra e na umidade da gruta da loca -, viram surgir o sol, reconheceram o sol iluminando a porta. Quase nem o reconheceram. Por pouco nem fugiram dele. Acharam mesmo que era um deus visitante e cobrador.

- Arroio Piraí!... É outro planeta? - disse a índia antiga dona Muiracutaca.

- Arroio Torrinhas ou Velhaco!... É o Tupã que baixou mais um pouco? - acreditava Igarité.

- Pato-de-crista!... Uma estrela que amanheceu? - perguntava a todos a menina Lilás.

- Hi-ooooi!... O céu enxugou? O céu se rendeu? O céu deu uma trégua? - falava o petiço Tico.

E quando viram que era o sol mesmo, um divino gigantesco, vibraram e pularam em festa. Pularam e vibraram com economia, pois estavam mesmo muito fraquinhos sem comida. E se apressaram porta da gruta afora. E mundo ainda molhado e pingando gota a gota destilando. Mundo escorregadio.

Mas o mundo prosseguia embora já todo desmantelado. O resultado depois de dois meses de vendaval e chuvarada era de destruição e escombros e amontoados e monturos e desperdícios e resíduos. Tudo destruído, destroçado, tombado, arrancado, derrotado, encharcado, sujo encardido enferrujado, aniquilado, apodrecido. Era um recomeço de mundo? E isso no mundo todo? Uma falcatrua.

Saíram da caverna e espiaram da abertura. E nem tiveram ânimo para fazer nada. Nem sabiam por onde começar. E o que fazer. E a terra toda ia dar muito trabalho para ser endireitada e reerguida. Sendo que no princípio era muita fome. Muito desânimo e muita procura por alimento.

- Arroio Quebrachinho!... Vamos começar pelo começo, né, indiada?! - índia Muiracutaca.

- Hi-ooooi!... Acho que além do mais falta alguém para mandar ordenar governar, quem sabe!

Assim, sentaram todos na descida do morro e ficaram sem saber nada. Ficaram olhando o mundo todo esmagado passado no rodo. Ficaram pensando. E deixaram tudo para o dia seguinte. E a fome e a vontade de comer comida boa preparada na hora.

O cacique Maçaranduba estava com o desânimo na cara amarrada e desconsertada, e tossiu, e prosseguiu, e temperou, insinuou, ensinou, formalizou, informalizou, destituiu, instituiu:

- Rio Hercílio!... Que que se faz com o fim do mundo? Será que o fim do mundo tem cura? E vai dar muito trabalho e consertos e reparos. E obras de engenharia civil e ou militar.

E no outro dia... Mais ou menos pelas 6h e 10min, madrugada mal e mal clareando o começo do dia, a aldeia caeté pura destruição, e o bem pouco que sobrara depois dos ventos e das chuvas, ainda assim esse pouco da aldeia foi atacada pelas formigas-quenquéns. Uma revolução delas as formigas-cortadeiras. Estas mesmas vieram chegaram no meio da semana uma quarta-feira. Primitivas.

E foi o inferno, e foi o fenômeno pra ganhar um 10 dez. As formigas-quenquéns vieram do fim dos tempos. A velha índia Suiriri já avisou logo, destronou, pontificou, acalorou, destravou:

- Rio Palha!... Estou ouvindo barulho de formigas. Vai ser um arraso. Nem vai ficar pedra sobre pedra. Quando elas tomarem conta... adeus! E juro que sim!

Primeiro se ouviu o silêncio verdadeiro. Depois um mundo de aves voando assustadas, fugindo e para o rumo de lá... Depois o tropel dos bichos rasteiros, apavorados, fugindo, atropelando tudo... Depois o silêncio mais silencioso do mundo... Depois o silêncio ainda maior, silêncio do século... Depois a gritaria estridente das formigas-caiapós em número nunca visto até hoje, bilhões, trilhões delas, um tsuname de formigas destruidoras depredadoras carnívoras vegetarianas arrebatadoras absolutas... famintas por demais destemidas sanguinárias carnívoras. Praga e peste imemorial imemoriável.

As formigas vieram como avalanche devoradora e sem controle. Era uma ninhada sem tamanho. Era um bilhão, muito mais que um trilhão... Era uma onda de formigas-quenquéns... um turbilhão... abalando tudo e fazendo o chão trepidar. Um tapete sem medida sem começo sem fim de insetos.

E o susto o pavor contagiou os índios e os dois viajantes visitantes. Muito frio, muita fome, todos ali sobreviventes da ventania na aldeia, todos sobreviventes da enxurrada, e todos pularam na água mais próxima. Correram para o rio mais próximo e “tchibum!...”

As valentes e atiçadas formigas-de-monte tomaram conta do espaço terrestre e comeram tudo que era de comer que era mastigável. Comeram tudo que o vento derrubara e a água encharcara. Os índios nem tiveram tempo de salvar grandes coisas. As formigas comeram tudo mais que havia no cenário. As quenquéns-de-monte comeram o cenário e deixaram os ossos os cabinhos os gravetos bem branquinhos.

No meio do rio Itabapoana, tremendo de frio e olhando, nada mais que olhando o estrago das formigas-carreeiras, os índios e os viajantes hóspedes batiam os queixos de frio. E esperavam.

- Hi-ooooi!... Nem faltava mais nada, né, gente?! Só faltava essa, no mundo!

As formidáveis formigas-carregadeiras comeram e almoçaram e jantaram e se refestelaram à vontade. Ninguém teve coragem de ir interrompê-las ou lhes perguntar por algo. E elas só demoraram um dia inteiro para papar toda a paisagem ali por perto. Mas era um trilhão de formigas-de-nós. Um trilhão vezes um trilhão, oito trilhões. O chão já fora todo tomado. Foi mesmo uma onda de formigas. E nem eram poucas. Uma explosão movente mastigadora feroz e principalmente temperamental ansiosa assassina depredadora. A terra tinha sido devorada e pronto. E ponto.

- Rio Irani!... Chegaram as formigas-cortadeiras... para cuidar do fim finalmente final.

E tudo ficou no osso. Ossos limpos limpinhos limpíssimos branquinhos. Tudo ficou no caroço. Tudo ficou descarnado. Sobrou mesmo as pedras que as formigas nem podiam carregar nem puderam carrear. Um deserto bonito e sem vida. Um deserto bem desmatado feito apenas de terra e pedras e tocos e ossos e cisco. Muito impressionante como as crateras da lua. Muito interessante como os desertos de areia e pedra. Uma praia de areia fofa e gigantesco. Uma terra arrasada.

Muito impressionantemente, as árvores tombadas pelo vento foram comidas em segundos, as aves que nem conseguiram subir a tempo foram depenadas e almoçadas em segundos, os bichos do chão que nem conseguiram correr ou que correram para o lado errado foram agarrados e atacados por milhares de formigas carnívoras sanguinárias rapinadoras. Tudo no osso. Tudo no cavaco. Tudo destruído.

O mundo acabou e as histórias também. Um deserto e um silêncio e um vazio. O vento impessoal esbofeteando tudo que já virara pó e soprando areia pra lá e pra cá.

Enquanto isso, os viajantes e os índios caeté, todos batendo o queixo de frio, e apavorados, os únicos a saírem vivos do local porque se refugiaram no meio do rio Itabapoana. E aguardavam esperavam ali no meio da água, se demoraram ali meio submersos e aquáticos.

E ficaram lá esperando o quê? E batendo as mandíbulas de frio e varados de fome por todo o dia e mais o dia seguinte por uma semana. Até tomarem uma decisão óbvia.

O vento tocando e ou escoltando nuvens. Estas sim elevadas excelsas sublimes eminentes.

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