sexta-feira, 14 de junho de 2024

Menina e Bicicleta

 

                                                          

 

            Se nos dirigirmos à história da guriazinha Lilás irmã igual irmanada com a bicicleta Magrela, outro sim pronto propriamente dito e feito, podemos iremos começar do início e desde o princípio já no começo comecinho da era cristã. Quando tudo era reino animal quando tudo era mato quando tudo era barro quando tudo era barranco quando tudo era pedra sobre pedra quando tudo era plaga sem país quando tudo era quício gonzo dobradiça sem internet. Já e quê!

Uma história que abraça entram nações autóctones coroado carijó charrua assurini-do-xingu e felinos onça-pintada canguçu jaguaretê e rios rio Capim rio Iriri rio Acará rio Moju. Sem declinar evitar desviar, muito em antes pelo contrário jamais, dos pontos turísticos e Pedra Maria Antônia e rua Barão de Ladário e parque da Gare e cascata da Usina e parque do Caracol.

A chuva cai em a montanha, a montanha se prepara para descer o rio, o rio corre até a cidade mais próxima e Joanópolis e Pedra Bela e Cubatão e Toledo, a cidade se enfeita pro mar oceano, o mar escolhe todas as praias de areias brancas e finas e praia Itaquitanduva e praia do Gonzaguinha e praia de Itararé e praia Parnapuã, as areias brincam com Iemanjá no princípio do ano novo. Falando assim.

Muito sol muito calçamento muita construção muito a pé e pedestres. Lojas ao longo das artérias da cidade desde a rua Mostardeiro com a rua Mariante na Vila Mato Sampaio do bairro Bom Jesus, zona leste. E lojas de derivados de cimento, moinho, máquinas e equipamentos agrícolas, madeireira (com venda de lambrequins ou rendilhados de madeira para decorar beirais), comércio de couro e calçados, malharia confecção tecelagem (especializada especialista em moda de vestidos de noiva e festas), vidraçaria, magazine (tecidos vestuário de roupas de lã capas de inverno sobretudos leves e pesados blusas e blusões ternos femininos e masculinos jaquetas de couro), óptica, livraria papelaria gráfica, marmoraria. A rua Andrade Neves com vitrines soberbas e atraentes, os pacotes de presentes feitos com estilo e elegância luxuosos bem desenhados prateados enlaçados enastrados enfeitados com tiras com fitas douradas em ótimo acabamento.

A brisa soprando vem e passa arrastando a própria família de ventanias. E tudo mais que vem segue com vendavais juntos unidos e as nuvens o clima a temperatura o tempo o fenômeno da chuva, ou seja, a família familiar inteira de ventos carpinteiros.

No apartamento da família em casa, rua Tronca com a rua Alfredo Chaves, ela Lilás só sabia só podia ver tevê vídeo jogos telefonar uatsape fotografar. Escovar os dentes 4 vezes por dia durante 5 minutos, quatro x cinco total vinte minutos (todo mundo achando exagero mas era assim mesmo). Andar pela casa toda com as prediletas meias bicolores branca e verde calçando as chinelinhas de tiras. Parar e se espiar se olhar se admirar no espelho bisotado biselado cuja borda é cortada chanfrada em bisel (exoticamente tomado de adesivos alusivos aos melhores carnavais infantis/juvenis no clube da família o Clube Recreativo Despenseiro/Uchão, frequentadora apaixonada). Já a guriazinha enfurnada no seu quarto de repouso atirada na cama ortopédica. Comer maçã semiverde mastigando cadenciado demorado len-ta-mente, crooooche! crooooche!... Vestuário vestir calça jeans escuro sofisticado destruído amassado com acessório de cinto de tecido trançado de duas cores azul e verde. E talvez só isso somente essas tentativas experiências e mais nada de significativo, como destacar em específicos detalhes minúcias. Amena!

- Algo está sim que se passa. As coisas estão aqui mesmo no mundo.

O sol pegando no pé do dia do mundo da esfera global globalizada. O sol no verão nacional de norte a sul e de leste a oeste, crucificado ou polichinelo. Rua Jeju e praça Otávio Rocha em pleno meio-dia ensolaradas rebrilhantes. Labaredas chamas espadanas línguas de fogo. Sabor saibo de primavera. Isso faz parte dos conceitos!

- Eu curto o sol em apoteose em ápice. O que é apoteose? O que ápice?

Menina xendengue e distraída. Menina conformada com os deuses masculinos e femininos, panteão. (Pai de profissão ou ofício baleiro ou batedor aplicador de tinta e tanoeiro competente dos bons artesão de vasilhames em geral tonéis balsas barris barricas corotes pipas tinas gamelas ofurôs baldes mastelas bigunchos, estabelecimento e loja junto à praça Dante Marcucci ou praça da Bandeira.)

Uma menina tão galante destacada franzina. Um cabelo escorrido selvagem. Um jeito amiga meiga de ser. (Mãe lojista com loja joalheria ourivesaria oficina de joias que fabricam pulseiras melindrosas, correntinhas folhadas a ouro ou prata, anéis de grau com rubis para formandos em advocacia medicina engenharia e bem situada na avenida Visconde Ribeiro de Magalhães em frente da praça Coronel Virgílio Rodrigues da Cunha.)

Garotinha taquariça 10 idas aos jardins floridos (flor na idade das flores). Sorriso com dois dentes mais grandes na frente. Menina fina desinteressada ainda desinformada dos planos da ciência quântica física mecânica teoria das partículas subatômicas.

- Eu vejo o rio Macauã e o navego em sonhos. Sonhos que me vão le-ve-mente.

A chuva no mundo inteiro. Já chove lá fora. Deve abrir a janela para a chuva entrar. Chove desde ontem. A mesma chuva da cidade. Molha e umedece, umectar. A idêntica chuva identificada sobre o parque dos Macaquinhos ou Getúlio Vargas. Engrossa o rio Tega o arroio Pinhal a cascata dos Molin a cachoeira da Mulata. Chuva organizada. Estridor do raio, que nem cai duas vezes no mesmo lugar.

- Eu me navego aérea em as asas da águia harpia. Que soa harpa toca harpista.

Assim que a impúbere esbelta menina Lilás já era a dona do ouro. Dona da prata da mesa posta do chocolate do sorvete de açaí. E dona da imaginação. Encontrava tesouros de insetos de folhas das árvores das frutas silvestres dos ninhos de passarinhos.

- Eu abraço as árvores pelos troncos. Simpatizo com ipê-de-flor-verde.

Posto pasto pasta basta bastante. Entrar numa casa antiga e ver a escada corrimão balaustrada sótão porão claraboia fachada balaústre colunas sala de estar. Sobre a mesinha de canto um porta-retratos antigo com fotografia de avós preparada impressa em emulsão gelatinosa tonalidade sépia. A avó assando pinhão no fogão a lenha, a cozinha quente protegida do minuano, a janela envidraçada olhando o quintal.

- Eu revejo o passado nem tão passado e comendo pinhão na chapa.

O sol podia estar em qualquer parte e a lua também. O sol metido pretensioso autoritário, gravata bege e calças jeans esfoladas nos joelhos. A lua charmosa altiva delicada, vestido verde-azul com riscas azul-claras plissado. Que a lua podia associar encaixar deduzir. Que o sol podia ameaçar suspender atacar. O sol podia vir com mentiras fraudes farsas falsidades. A lua podia vir com milagreiros mães de santo filhas de santo iadagãs dagãs vudus médiuns taxidermistas. Um sol, procedente do distrito de Santa Lúcia do Piaí em Caxias do Sul, profissão securitário. Uma lua, originária da cascata dos Bugres em Alto Feliz, profissão confeiteira de mão cheia. Lua que pratica natação com esnórquel. Sol que se exercita pratica corrida junto da praça Carmem Cinira. Sai caro sair de sol ou lua no disputado concorrido carnaval da cidade, luxento luxuoso luxuriante faustoso luxuário suntuário.

- Eu sou esta fantasia encantada cantando, “Alá lá ô ô ô... mas que calôooo... estou atravessando o deserto do Saara, Alá lá ô ô ô!...”

Se o rio Carreiro cruza lado a lado ponta a ponta a cidade e a cidade cruza de banda a banda margem a margem o rio Carreiro. Acampar no bosque ao lado do rio Carreiro e natureza vegetal animal mineral vegetoanimal vegetomineral. Um domingo de sol em pleno verão de férias fazer churrasco com os amigos as famílias amigas parentes na beira do rio Carreiro. Rio Carreiro rio das Antas rio Taquari, nesta ordem.

- Uma vez eu já usava lenço para prender o cabelo, usava uma tiara para segurar o cabelo. Uso palito de madeira com ponta redonda para realizar o cabelo, sucesso.

O sono que dorme pode dizer o onírico que sonha a paisagem. E o sol salva a cidade na manhã de estro inspirado inspiração. A cidade vocaliza o trânsito de autos metálicos. As máquinas asseguram que as pessoas cheguem ao trabalho. As pessoas turba apoiadas nos telefones fones de ouvido. O sol conseguido, muito conseguido.

- A canícula a ardentia do sol. O que é ardentia? O que é canícula?

Gosta de aviões. Enaltece os inventos voadores. Aeronaves de verdade e aviões de brinquedo. Caças de combate e aviões comerciais. Base aérea de Canoas, rua Augusto Severo, estação Fátima do trem de superfície. Teco-teco com motor de combustão interna. Aviãozinho de papel reciclável. Aviões a jato com motores a jato, mais velozes e mais altos. Aviões com motores a hélice tanto velozes e mais baixos.

Tão perto da menina Lilás as figuras e artesanatos da tradição. Clube social e educativo Herma do Herói, alameda Doutor Carlos de Carvalho com a rua Francisco Rocha no bairro Bigorrilho. Hoje ela aprenderá a fazer a cozinhar arroz soltinho com carne seca charque carreteiro tropeiro. Fogo de chão. E sem pressa nenhuma.

- Superalimentada e amargo amaríssimo, doce dulcíssimo, boa ótima apetite.

Os temas relatam maravilhas da serra do Sincorá, os assuntos mostram belezas de Ibiam, Balneário Gaivota, Abdon Batista, Calmon, Flor do Sertão. A paineira-branca barriguda vistosa flores vermelhas ou rosas, assomou apareceu surgiu se mostrou.

Esta cidade de Nova Prata e rica em história festas cultura. O que faz a cidade ser tão fascinante é sua famosa arquitetura o patrimônio missioneiro e que se reflete em seu casario antigo de importância secular. Lojas de diferentes atendimentos e prestadoras de serviços. Bares e restaurantes (com saborosa polenta brustolada), padaria (com pastel feito na hora), armazém de secos e molhados, hospital, farmácia, escolas e instituições de ensino, associação e sindicato, sorveteria (com o melhor picolé de açaí), loja da tradição (tudo dos apetrechos para um bom mate, bomba de chimarrão em prata com pedras semipreciosas incrustadas na pitanga), bancos, hotéis e pousadas, revendedora de automóveis (novos seminovos usados), bombeiros, delegacia de polícia, comando militar do sul, duas universidades faculdades graduação mestrado doutorado.

O dia tinha sim um azul-celeste tonalidade clara azulada e ar puro e aura celestial. Uma impressão de vidro vasilhame vazio limpo polido transparente contente. Exatamente como as pessoas gostam adoram. Infinito onde por onde os pássaros deslizam já familiarizados, aventurando aventuravam.

- Estou ouvindo todas as coisas, hoje. Escuto ouço também o que nem se vê.

A menina Lilás viu isso na internet e juntando, plantação de milho milharal e praias remotas perdidas povoadas de multidões de siris-candeias siris-da-areia siris-chitas siris-chingas siriaçus e arquipélago e ou ilha da Galheta e ilha do Boi e estrada rodovia br-116 com túnel de um 1 km e 0,5 meio.

- Eu me vejo festejando o carnaval fantasiada surpreendentemente de soberana.

Avião é uma ave turbinada em metal e elétrico e supersônico. Capivara um mamífero roedor na beira do lago artificial da usina Serra da Mesa e praça Barão de Iguape. Cadeira objeto feito manufaturado para sentar comodamente no ócio ocioso.

- Chegou minha vez e a parte um 1 primeiro episódio da série.

O rio das Antas parece uma estrada líquida todo em zigue-zagues anafado nédio entre montanhas peraus escarpados ribanceiras. O rio parece uma serpente jiboia calada separando a cidade uma metade da outra e cidadãos cidadãs, muita ideia milenar. O rio corre corrente e parece taciturno quando feliz coas 8 cidades da sua jurisdição e Itanhandu, Itamonte, Jundiaí, Pouso Alto, Cataguases, Virgínia. O rio parece esta uma embiricica e bambo tolo sarango fátuo espapaçado mole frouxo num trajeto trajetória inevitável que o leva obrigatoriamente ao estuário Guaíba. O rio aparece e gera energia por onde passa paragem por onde avança por onde anda onde para barrado barragem.

- Por isso é tão fundo, por isso é tão distante esticado elástico até o limite.

Lilás a menina lilás domina o seu amor e distribui, curtindo. Ama as árvores, idolatra os pássaros, curte as ruas e o nome das ruas e praças, adora a música das abelhas de zumbir zunir zinir, zu-iiiim!..., apaixona os típicos fimatídeos as orquídeas e as tantas cores das flores do jardim.

- Agora eu já escrevo ‘essa’ com dois esses e azeite baliza bazar prezar vazão.

O sol quer ser o céu antes de bater o pacau no ponto-final. O mar quer ser onipotente. O mundo a orbe quer rolar no universo. O sapo a rã querem pular na lua ou estrela da Alva. O domingo quer ser o Todo-Poderoso onipresente onisciente onissapiente oniromante. O médico a doutora querem a consulta o estetoscópio a ausculta cardíaca e respiratória o diagnóstico o bisturi escalpelo lanceta. A igreja no adro pátio exterior o templo no átrio pátio interior o campanário alto esguio guia farol e fanal do bem, querem a procissão cortejo préstito dos filhos filhas fiéis fidedignos assíduos peregrinos romeiros.

- Algo que tocar harpa harpejar harpejo harpear harpar.

As férias de verão e fim de ano podiam ser no litoral orla a praia do Laranjal, em Pelotas, e a praia do José Menino, em Santos. As férias boas e bem-vindas, aventuras. Pensava em praia areia duna, nem pensava em cabelos trajes tênis compras cinemas. Agora sim cabe e vinha bem um suco de abacaxi. Nunca tinha com quem falar e mais que um monossílabo. Nem com quem brincar. Veja um riso alegre e sonoro da menina em plena alegria de rir com ela mesma, ah-jáaaa! ah-jáaaa! ah-jáaaa!...

Um haras coudelaria aprimora e apresenta cavalos. O passeio uma visita à fazenda haras Galope, em Anta Gorda. Imagens velozes cinéticas, cavalos e éguas deixam todos os outros bichos para trás. O hotel/fazenda o paiol a estrebaria o curral o potreiro. Um cavalo de raça vale seu peso em ouro. Aposta corrida e ganham. Apostam entre eles mesmos com amigos com adversários. Um cavalo veloz ele foge ou vem?

 O custo/benefício de R$1.500,00 (cifra montante soma números totais) por mês e nem incluindo baia alimentação piquete vermifugação vacinação ferrageamento e veterinário cobrado à parte. A raça mangalarga e ou quarto de milha. Pelagem baio baia tordilho tordilha rosilho rosilha azulado azulada.

Como chama se nomeia um cavalo ou fêmea de cavalo? Este cavalo puro-sangue batizado: Cerra-Baile. Esta égua pampa apelidada: Tacipitanga. Correm mais que quaisquer coisas. Correm galopam transpõem obstáculos. Voam na lenda legenda na história no causo que era um alazão dos mais formidáveis. Come pasto e pasta capim.

Cavalos são automóveis carros autos veículos quatro por quatro. Talvez nem buzinam ou apitam. A voz de piafar relinchar rinchar nitrir. Faz acordo acórdão aresto concorda em servir uma missão ao trabalho. Corre com veloz no campo descampado no prado na campina mundão afora no potreiro na cancha reta.

Bravo bravio corcel corredor. Crinas ao sol do meio-dia e garboso vistoso destemido valoroso vitorioso. As botas os sapatos os cascos fazendo pegadas escarvando na terra e tirando faíscas das pedras centelhas.

Rompante e resfolega sopra bufa e empina as mãos nas patas traseiras. Nem teme nem receia a noite a tempestade a assombração as matas densas sarças os bichos rasteiros os animais grandes e pequenos. Corajoso e valente alazão alazã intrépido.

Aprochega se abeira sofrena junto ao tanque à beira diante da sanga para beber água e nem se deslumbra com a própria sombra a imagem refletida reflexa. Corre e se solta e vai e relincha porque quer. Atravessa o rio corrente e nada como ninguém como nunca. Anda sobre as águas com satisfação e elegância e milagre.

- Se quando tenho cobertura eu telefono pras melhores amigas? Foto autorretrato com fundo cenário paisagem tocante e impressionante e paradisíaca.

Pois aqui chegam 10h e meia. Nunca é tarde para melhorar o que pode ser excelente. E quantas manhãs tem a pedra a montanha rochosa pedra da Marcela. Quantas tardes tem a cachoeira a catarata de Iguaçu. Quantas noites tem a estrela Aldebarã a constelação Taurus. Quantas manhãs tem a palmeira-piaçaba palmeiral palmar. Quantas manhãs tem o saguiru peixe do rio Madeira o cardume aglomeração.

- O sol esplende cintila luze. Que é esplende, faz o favor?

Os dias da janela do quarto e contando cenas e episódios e carros veículos na rua Afonso Lana esquina da rua João Garcia. De noite contando estrelas. Na chuva contando relâmpagos raios trovões. Contando tipos e somando coisas e situações.

Passava avião no ar espaço e andorinhas-do-barranco voavam asavam surfavam atrás de insetos. Nem ideia. E que triunfo. Que sen-sa-ção!

- Que seja ramalhete e buquê de flores, ramalho ramalheteiro.

Sobe o rio até beirar a cascata a cachoeira. Sobe a queda d’água até alcançar o pé da montanha as árvores frondosas. Sobe a montanha até o disco alucinantemente dourado do sol. E o sol buscando o gol o lugar mais alto a apoteose o zênite golaço.

Menina Lilás tranquila altiva corajosa. Aluna mocinha filha. Estudante jovem neta. Está contemplativa contemplando a idade de ouro, contemplada.

- Quase todo mundo respira. Vejo que as árvores respiram. As aves idem. Os peixes imagino que sim e até dentro da água. As pedras nem respiram.

A tarde tão leve. Tudo tão gigantesco. O dia foi o dia vai indo repousar. Repousa com a cabeça no travesseiro do morro da montanha. A lua leve como tampinha de refrigerante chutada na calçada. Hoje platina tão quebrada e está crescendo. Sobe de vagar justamente do chão para o céu estrelado expandido. Esplendores gigantescos que vêm de tempos arcaicos sem fim.

Você vê, você tem, você viu, você eu, você pergunta, você resposta, você estimada, você afago, você frenética, você balsâmica, você tranquila, você broto.

O prédio parecia um gigantesco paquiderme dinossauro do tempo das eras antigas pré-históricas antes da escrita conhecida existente. O prédio casa-grande da prefeitura, bem localizado diante da praça Rildo Michel Martho no bairro Vila Rio Branco, parecia uma preguiça-terrícola com caixa-d’água na cabeça e do tempo que o sertão estava mar e o mar estava sertão a era glacial. O edifício construção se assemelhava a um elefante verde sem tromba sem orelhas com olhos gigantescos tipo típico das janelas quadradas envidraçadas sem persianas ou cortinas.

- Sim, tenho cobertura. Devo nem nego, vou tirar uma foto maiúscula.

Pássaros piavam brincavam de voos e pega-pegas entre as árvores e os telhados das residências. Que pássaros?, tangarazinhos e corujas-baratas e sabiapiris e formigueiros-de-cabeça-negra e marias-leques-do-sudeste e viuvinhas e capitães-de-saíra e bico-chato-grande; que árvores?, araticuns-cortiça e anjubas e cajuaçus e pacos-serocas ou cardomomos-da-terra e cinco-folhas-do-campo e carurus-miúdos e buritis-do-brejo e alecrins-do-mato.

- Acho que vou tocar um telefonema. Vou telefonar às amigas de sempre!

Um sol caminha na luz limpa do céu azul. O mundo conhece o dia tudo o mundo. O horizonte cresce de cidades. As cidades de maravilhas. As cidades carregadas de tesouros. As cidades cheias de pão com goiabada de Minas.

- Já vou contar como vai ter. Já conto como vai ser. Tudo que se passa se passará. Seja tanto quanto em o ar na terra no mar, terramarear.

O perfume das plantas ornamentais. O ouro famoso do sol famoso. O firmamento de asas livres. O oceano descrito nas histórias antigas e modernas.

Mestre e campestre, escultura e cintura, poeira e ligeira, renda e legenda, perdida e repetida, pedia e repetia, perdiam e repetiam, fronte e fronde, pilão e limão.

Dois meses mais tarde.

A menina esguia biciclista Lilás e a bíci enxuta meio de transporte e lazer Magrela, esta sem bagageiro/garupa, foram procurar o ovacionado cantor em o portão de sua mansão condomínio de alta gama. Bem ali exatamente na rua Manoel Quirino dos Santos com a rua Benedito Mariano, Campinas. E foram até lá pedalando atravessando a cidade e logo simplesmente pela tarde de fevereiro fevreiro (estas duas palavras diferem na epêntese vogal da letra ‘e’), que mais e mais esquentava abafada mormacenta. Já no pórtico estilizado da morada do artista simpático carismático e diante do porteiro uniformizado em uniforme azul-claro com detalhes em preto e boné também azul-escuro de pala dura. As duas fãs incondicionais do famoso interprete popular, decidiram:

- Deixe comigo e pra mim que eu falo, Magrela.

“Estou de acordo e estou contigo e toda pendente de ti.”

A menina Lilás preparou a garganta, rã-hãaaa!... e atou reatou atuou:

- Ei, moço da farda! Nós queríamos falar com o cantor. Ele está em casa?

- E por quê? E por que deveriam? E por que ele a vocês 2 duas dupla?

- Pretendemos vê-lo a gosto. Precisamos vê-lo em vivo e ao natural. Seria bom imediatamente e agora mesmo urgente. E hoje ainda ou daqui a pouquinho sem falta. É nosso precioso ídolo A1.

- Será que a voz sabe de vocês? Nem duvido, nem acredito, nem faço pouco.

- Vamos entregar um rolo de cartas preciosas que muito o elogiam e o admiram. Seria uma oferenda ao nosso deus, uma digna oblata. Na verdade uma carta longa em demasiado de muitas fãs. Uma carta tão recordista. Uma carta coletiva uma juvenília de poemas enrolada em si mesma e compriiiida espichaaaada loooongaaaa!...

- E isso é bom para o cantor? O que é bom pra vocês 2 é bom pro intérprete?

- São enormes e muitos depoimentos de eternos fãs. Muitos elogios vitoriosos.

- É contagioso? É necessário? É predominante? É corriqueiro? É gênio?

- São frases fáceis e bonitas e desenhos de corações e beijos beijados com batons ou bocas amorosas de amor de carinho de respeito a ele ao cantor intérprete vozeirão.

- Isto faz mesmo sentido?, quer dizer...

- Tudo faz sentido sim e nem tem mentira nenhuma, juramos de mãos postas.

- E se o cantor nem entrar nessa onda de fãs e apreciadoras do seu talento? Nem seria um exagero da parte de vocês esmagriçadas? Se a voz nem quer saber de nada.

- O cantor vai ler porque os depoimentos das fãs são sinceros e amorosos.

- E se o gogó de ouro nem tiver tempo de ler estas declarações de amor eterno?

- Mas o senhor, seu guarda fardado e quepe na cabeça, sabe o que nós as fanáticas somos e queremos ser hoje em dia? Somos o resultado da fama do cantor, é.

- Nem consigo perceber, digo sério. Vocês são... fanáticas?!

- Essa troca da gente de nós fãs para com o cantor é muito séria e urgente!

- Ué!... Cada uma que parece duas, seu! Vocês duas... são duvidosas.

- O senhor, seu guarda de farda clarinha em azulzinho, sabe ou pensa que somos tolas ou exageradas? Diga o que for e sincero que seja justo e verdadeiro, hem!...

- Sei pouco sobre isso e aquilo de fãs e cantor, garganta de ouro e fãs. É difícil pra mim decidir o que é melhor pro cantor e pra vocês fanzocas. Já e quê!

São coisas de ouvir e coisas de falar. Por isso o guarda, bem fardado na portaria do prédio do condomínio do cantor, subiu ao oitavo andar falar com o cantor intérprete da mpbu e pessoalmente e sem intermediário de interfone ou telefone ou uatsape. E sim conversa privada face a face frente a frente tête-à-tête.

E o guarda subiu pelo elevador de serviço. Ia pensando o que dizer ao excelentíssimo imodesto famigerado cantor das multidões nacionais internacionais. Bateu na porta de madeira trabalhada talhada cara (feita de lenho robusto bem nutrido végeto) e com os fortes nós dos dedos, toque! toque! toque! to-toque!... E já arrumando a garganta, hã-rãaaaa!...

Que depois de cinco tempos intermináveis a porta compacta pesada rica se abriu e o poeta/músico em pessoa deu o ar da sua graça. O guarda tirou o quepe e o pôs debaixo do braço. E o guarda/porteiro encanecido atou desatou reatou declamou:

- Senhor cantor uirapuru! Olha e me compreenda. Estão aí uma menina esgalga e uma bíci seca se dizendo incondicionais fãs de vossa senhoria vozeirão e as mesmas aguardam lá em baixo do prédio querendo lhe falar. Desculpa me desculpe incomodá-lo, voz das vozes e cantando e vencendo!

- Estou ciente. São tantas quanto, em números? Percentuais? Duas representantes de uma multidão multitude multitudinárias?

- Umas dez ou doze uma dúzia e meia, talvez mais talvez quem sabe... E o que eu faço? Deixo lá deixo subir, faço o quê? É difícil pra mim, me entende?!

- Acho que elas podem esperar mais um pouco. São jovens e estudam. Aliás, estudam em colégio público ou privado? É importante este detalhe significante.

- Hum!... Até quando vão esperar, menestrel e trovador? Calculo...

- Que tal uma hora ou duas horas e meia... O tempo voa... O tempo soa...

- É meu trabalho ficar esperando aguardando e posso sim, farei mesmo...

- Ficam lá esperando até eu ficar feliz aqui descansando, tá oquei?!

- Eu entendo e acho justo estou de acordo e por que nem, né?!

- Sabe que hoje, especificamente hoje e este dia em específico, nem estou a fim de declarar a minha simpatia e de ser simpático e acolhedor e receptivo.

Lilás a menina de 10 idades já na faixa aritmética dos dez ganhou a bíci no dia do aniversário e riu muito, ah-ah-ah!... Posou fazendo dois vês ou coraçãozinho, uma parte em cada mão repartido ou um pedaço em cada mão para juntar, ao lado da elegante metálica de selim ergonômico em boa cor verde-água. Admirando como se fosse milagre ou mesmo ama própria feiticeira feitiçaria. Uma bicicleta ressequida magra que ao acaso veio verdinha verdecida. E com pneu balão e freio a pedal e farol e lanterna. O pezinho de sustentação apoio já esticado apoiado apoiando no chão para deixá-la apresentável em pé no piso da área de serviço. A bíci em posição de sentido em rodas e sem muitos acessórios ou apetrechos tipo desnuda dos para-lamas a cestinha o porta-bagagem ou grade do carona, etc.

- Já gostei de você, bicicleta conjunto de tubos metálicos.

“Prazer em conhecê-la, menina dos longos cabelos ajeitados em rabo de cavalo.”

Lilás elegante displicente tomou autorretratos junto da nova amiga esfanicada e inoxidável. Lado a lado com ela as duas a menina mirrada a bíci descarnada. Tomou tocou foi pegando lenta len-ta-men-te... cada parte do presente, amiga colega sócia. As rodas de borracha o guidão o acento os pedais as sinaleiras a sineta as luvas do guidão os raios das rodas. A menina entrezilhada e a bíci desmedrada e os sentimentos paixão carinho amizade se formando. Irmãs e identificadas, conversando interagindo:

- Vamos dizer que você tem um nome e se chama... Magrela!

“Então, tá! Você me batizou e me chama de Magrela, amizade Lilás!”

A menina abraçou a bíci ainda estacionada e esperou. Puxando assuntos. Pensando. Tentando os primeiros movimentos. O fôlego. O caminho conjunto e compartilhado. O calor humano, o cheiro de novo em folha. A tradução para o português brasileiro, com ou sem gírias sotaques:

- É você mesmo, bíci?!... Como se a nossa amizade fosse de muito tempo.

“Uma se acostumando com a outra e isso vai ser fácil, prevejo.”

- Ah!... Você minha amiga... Magrela. É um bom nome, magra sarada físico leve ágil sem glúten...

“Sim, gostei do nome e ou apelido. Pode continuar...”

A gloriosa glória vê a magia e escuta as estrelas e sente o universo e acredita em D. A luz o feitiço procuram as cores das flores vivas e as flores perfumadas transferem o néctar o pólen o mel para as abelhas os besouros as borboletas os guanumbis.

Foram ao zoológico ver os tatus e outras atrações. Antes passando no quiosque Supremo Sumo, rua Adelmar Tavares Cavalcanti, comprou um pastel de queijo e bebeu um copo de garapa. Olhando do chão para o alto e da Terra ao deus-sol avermelhado. Aspecto que este astro solar parecia uma bola de fogo labareda chama incandescente furioso muito luminoso e difícil de vê-lo a olho nu. Sim, comovente.

- Se eu tivesse um livro agora na minha mão, eu procurava procuraria ia procurar folhear o significado de... feérico fe-é-ri-co.

“Se eu já fosse uma mestra em sabedoria absoluta eu te diria, sem perda tempo.”

No caminho pela ciclovia, ao lado da pista asfaltada de cor laranja, as árvores replantadas e caraíbas tamburis frutas-de-cascavel urundeúvas dedaleiras-pretas. Se fixaram na fumaça cruzando o céu um rasto branco de vapor feito pelo avião, rumo norte ao sul e de Uberlândia a Uruguaiana. Uma flecha no céu e uma pergunta no chão terráqueo entre elas duas as excursionistas:

- Quer também um pastel com suco de pequi ou caqui?

“É melhor descobrir rincões e terras e lugares desconhecidos, é.”

- Por que os aviões passam? Quase deuses ou milagres.

“Vai ver que são sujeitos e sujeitas com altas sortes e os escolhidos(as).”

O bem-te-vi-de-coroa-vermelha um pensamento cantando arrulando ruflando trissando. Estrela um pensamento esplendor. A estátua de Dom Pedro I e seu cavalo anônimo em a praça José Félix Pacheco pensamento parado congelado bronzeado. A pergunta um pensamento franco-atirador. A cor pensamento de flor. A resposta pensamento de auto carro automóvel autônomo.

No parque zoológico Vascolejar, dentro do jardim do paraíso animal, viu viram tatus específicos e tatus-de-mão-amarela ou tatupebas. Uma família de macacos símios e os macacos-da-meia-noite ou juparás. Fez fizeram refizeram um pedido pedidos e esperou ali na tenda ambulante apreciando tomando suco de caju, sanduíche sanduba pão fatiado com queijo fatiado e batata frita douradinha e cubinhos de goiaba vermelhinha dentro. Diferentes árvores para diferentes andares de mata e frutos que os pássaros buscam buscavam e os tizius os canarinhos-da-terra os tchintchorrintchos as jaçanãs os uirás-angus os cricriós. Nuvens gordas com bochechas largas barrigas cheias. Onça-pintada de óculos escuros sorvendo um sorvete de açaí num copo plástico decorado com motivos festivos de carnaval micareta maracatu. Tantas bícis irmãs parentes similares à extrovertida Magrela e movidas à força de pedais outras elétricas as casas rua Alberto Faria e mesmo paralela à ciclovia posto de gasolina hotel Milênio motocicletas prédios de cinco andares com garagens subterrâneas com portas de ferro automáticas levantando descendo basculantes. Hoje.

- Reconhece algum animal bicho destes aí? Alguns vieram da Amazônia.

“Já ouvi falar já vi em algum lugar, mas...”

Agora mesmo as nuvens voam voavam bem altas na altura. Havia uma cidade com prédios baixos no máximo 5 andares. O ambiente respirava uma música com melodia ritmo harmonia de samba pagode. O som ecoava até o céu e mais além. O som fazia latejar o sangue nas veias. Uma colina que chamam chamavam morro Da Campana e sua encosta várzea.

- Quanto pio canto cantar solto de passarinho territorial, hem?!

“Quanta nuvem que vai que passa gira com o vento o clima.”

Cada qual com seu saraquá, cada galho de macacaúba com sua macaca ou seu macaco-prego-do-peito-amarelo, cada batente e ombreira com seu bedelho, cada pescador(a) com seu carapó ou sarapó-tuvira. Cada perdiz e perdigão com seus sete ou oito perdigotos filhotes por temporada.

E foi menina e bíci pedalando na boa de-boa até a casa das primas e primos os parentes mais próximos. Quando chegaram à rua Antônio Constâncio Alves. Estavam todos em casa, e ali sob as árvores na sombra e ora sol e ora vento e ora sonoras resenhas do dia. As diferentes e indiferentes ideias procuravam as amigas/parentes. Sensacionais anedotas e comédia drama farsa tragédia. Sempre se divertir em brincadeiras de brincar pular assobiar correr voar dizer contradizer tirar sarro:

- Vamos brincar de neutralidade? Eu fico encima do muro - era a prima Tina.

- Eu já vou subir na pitangueira e colher pitangas - dizia a prima Mara.

- Já eu sei nadar e nado cachorrinho, é - falou a Ana Paula.

- Brincamos de caçador com a bola de borracha, então - atava o primo JT.

- Com bola mas jogando futebol. Eu nem vou de goleiro - pedia o primo Kako.

- Acho que pega-pega é mais divertido - convocava a prima Lilás.

“De duas rodas e pedais pedalando quem chega mais rápido e rápidas ao fim e em torno à praça.” - comunicava a prima Magrela.

As crianças iam até a praça do Bacharel e ou Largo das Forras brincar com vários brinquedos interessantes. As crianças são assim: de noite sonham com bicicleta e de dia brincam com vários variados tipos de brinquedos. Os brinquedos podem ser modernos ou já conhecidos. Os brinquedos podem ser eletrônicos ou artesanais feitos à mão. Os brinquedos podem vir voando desde São Paulo ou navegando desde a China.

O sol, pra resumir, estava em dia. O sol, fanático de fogo, estava nas alturas. Aparecia entre nuvens esgarçadas e parecia um disco voador. Parecia uma bola de fogo. Parecia um vulcão ativo expulsando gases turvos. Parecia uma pirâmide incandescente. Parecia uma pira olímpica nas olimpíadas. Parecia um meteorito meteoro em trânsito no cosmos. Parecia um fogo de chão assando o churrasco o tempo o clima a temperatura.

E brincou brincaram as meninas com vários artefatos de várias coisas variados modos e artes. Fazer festas com os cães da família. Subir em árvores, especialmente as frutíferas e caquizeiro jabuticabeira pessegueiro pequizeiro cajueiro. Nadar no açude e lagartear secar na laje de basalto. Se embalar no balanço que ia e vinha do horizonte sobre o topo do barranco do morro, sensação de vertigem e pular no espaço e voar. Escalar a montanha até encontrar o cruzeiro religioso. Descer até o leito do rio Pipiripau no vale abarga vargem veiga várzea banhado pântano. E com o dia todo para fofocar:

- Lilás, você prefere almoçar aqui em casa mesmo? Me diga! - Mara perguntava.

- Eu nunca como tomate no almoço, nem sei por quê - retrucava Lilás.

- Lilás, nós almoçamos sempre em ponto assim pelas 12h e 30min. Seguro - esclarecia a Ana Paula.

- Eu pensei em almoçar aqui inda mais com um cheiroso carreteiro ou tropeiro.

- Lilás, ocê almoça aqui e vamos ter pudim caramelado na sobremesa, hum!... - provocava o primo Kako.

“Então eu fico de braços cruzados” - pensava a bíci Magrela.

- Eu quero almoçar aqui, porém esqueci de trazer a escova de dentes. Nem me importo ou importa, vai ser bom.

- Lilás, você almoça com a gente e depois logo em seguida podemos ir todos ao morro do Crânio e ver investigar brincar de invadir a caverna da Caveira, isso tudo já no meio da mata - instigava o medo o receio a prima Tina.

- Dizem que ali foi enterrado um tesouro jesuíta - ajudava o primo JT.

- Dizem que uma menina entrou ali e nem saiu mais - lembrava a Mara.

- Dizem e recomendam que nem é bom entrar ali para nem se perder pra sempre - ficava com esta a Ana Paula.

- Eu nem sabia que depois da refeição se podia e se pode ir lá no meio da mata entrar no oco do morro se esconder no poço conhecer reconhecer a casa furna do tatu. Tatu gigante megafauna tipo gliptodonte.

- Lilás, você almoça conosco e será a convidada de honra ao mérito. Com direito a repetir, se gostar - decidia a prima Mara.

- Eu nunca esperei ou esperava almoçar com tanta gente boa e outra família.

- Lilás, tu gostarias de almoçar algo especial que tu aprecias muito? Um arroz com tempero diferente, um feijão com arroz por cima, uma feijoada com abóbora - razão porque o primo JT falava alto e em bom tom.

- Eu gosto de comer cachorro-quente com queijos ralados prensado. É o que é.

“Eu mesma vou e mereço óleo base natural purificado de baraúna ou braúna nas juntas e eixos e molas e correia” - já relatava relacionava a Magrela (braúna ou baraúna são ex de palavras suarabácti ou anaptixe, neste caso foi acréscimo de vogal a).

E pedalar pra casa junto do acostamento ou na calçada da rua e olhando os carros na contra mão. Sem pressa nenhuma que o sol ainda estava aí. Jovialidade de uma pandorga atada ao vento no ar no espaço mais perto do céu. Uma nuvem se fazendo de macaco, uma nuvem se fazendo de casa com chaminé, uma nuvem se fazendo de roda-gigante com 20 cabines, uma nuvem se fazendo de flor margarida com sépalas brancas dispostas ao longo em torno do capítulo parecendo bem-me-quer ou malmequer, umas nuvens parecendo tropa de boiada gado ou cavalgada de equinos, uma nuvem de violão seis ou oito cordas bem esticadas. Quem viu, viu.

Onde uma menina tem a cabeça, pergunta? Nas nuvens, seria a resposta mais correta e adequada. E uma bicicleta, onde teria a cabeça? No guidão. E por que as meninas gostam de andar de bicicleta? E por que as bicicletas foram feitas para pedalar?

- Eu brinquei tanto que cansei de rir.

“Todo mundo quer andar de bicicleta, esta é a verdade.”

- Temos teremos cobertura? Vou telefonar pra alguém, garanto.

“Estou de acordo. Telefone que sempre é bom telefonar de onde se está.”

Mesmo uma ave saíra-pintor e mesmo o sol megalomaníaco nem ficavam no ar para sempre. O sol, dentro de uma redoma de vidro fino e claro, tentava tratava de se encontrar com a lua. Montes de nuvens pequenas, parecendo montes de feno ou montes de capim ou touceiras moitas buquês de flores ou capelas grinaldas, passeavam no céu azul. Vivificantes horas benéficas horas e dia almo. O mar fazendo renda nas ondas, movimento do abismo do oceano chamado pélago pego.

Temos hora e horário diário em o tempo. Que por isso mesmo nem nos esquecemos. Que aí mesmo vamos cumprindo de vagar vagarzinho.

- Por que pélago? Quem teve ideia de nomear pego e pélago?

“Têm ideias boas e ideias que desaparecem no meio da poeira.”

- Você, Magrela, nunca se queixa nem se aborrece nem se distrai. Tô te conhecendo. Nem investiga nem questiona, só responde quando perguntada.

“Nem nada me atrapalha. Nem nada me interessa tanto.”

- Sou eu que vou no teu rastro.

“Eu sou sua companhia agradável e simples, simplesmente.”

Desconfiada e surpresa, divertida e curiosa, tímida e preocupada. Às vezes gostava de ir outras de ficar. Uma hora pensa e outra faz. De dia ação de noite sono.

- Eu sou tu, tu és eu?

“Sou ou nem sou?”

- Que tu pensas de mim, na verdade?

“É ou nem é.”

Agora uma casa com cachorro brabo cheirando alguma coisa perdida ou que deixou rasto ali no pátio de areia e plantas de ornamentação. Diante da porta principal com caramanchão de trepadeira florida flores vermelhas bem vivas chamativas cheirosas balançando com o leve toque do vento. Soprava uma brisa amena. Quem soprava a brisa suave? Quem empurrava a brisa leve? Quem pesava a brisa doce?

- Por que D fez ver isso e aquilo? D fala sério? Já penso.

“Sim, porque D é rio é montanha é floresta é toda a paisagem e panorama.”

A sorte enche a alma. Todos têm alma boa e limpa. Os ares enchem os pulmões. As pessoas têm dois pulmões para encher. Respire o ar puro uma e outra vez. A paixão enche o coração de todo o coração. Quem decora decora alguma coisa.

- Já vou seguir e escutar e fazer e descrever e deslizar.

“Já vejo e já acompanho cintilo rodo corro tenho retenho.”

Existem coisas que se podem ver e rever e comprovar. Assim de noite na noite e a lua as estrelas e seus pedaços cadentes. Coisas objetos do céu. E vem o vento veio o vento. O vento vem de madrugada na calada da noite. Demorou mas veio sem muita refrega, um pé de vento. Sopro fôlego que sempre sempre varre o céu a Terra de sul a norte. Sim que se percebia agitando a coma a copa das árvores mais altas e carvão-vermelho e cipó-guira e paco-paco e umbuzeiro. Assanhando sobranceiro elevado os jardins hortos vergéis plantados de plantas esquisitas plantas ornamentais e analisando perfumes eflúvios aromas.

E quando tudo se acostumou com o vento, vu-vu-ruuuu!... nasceu ascendeu acendeu definitivamente o sol. A Terra banhada de dourados raios fazendo as cores. E sorriram todas as melhores praias e praia do Sapê e praia das Toninhas e praia da Enseada e praia do Itaguá (fonte: lá na internet). As aves acordaram contaram até dez e surucuás-variados e miudinhos e juruvas-verdes e cuiú-cuiús e tico-ticos, tchueeee! tchueeee!... já voando despegando dos ninhos e saíram sair saindo a colher recoletores recolher com o bico as garras. O vento mesmo ainda em desjejum, soprou e disse bufando: “Vu-vu-ruuuu!... me deixem varrer bem limpo... deixem o tempo passar... que logo e logo veremos... varremos...”

Um dia no passeio passear normal corriqueiro rotineiro, e daqui até ali, foi que a guriazinha derrapou com a bíci e caiu caíram... Foi que a bíci com a menina aterrissou aterrissaram debaixo de um caminhão-truque. O bicho máquina bruto brutão tredo traidor parado bem ali estava no posto de gasolina abastecedora A Tormenta, tá!

E daí, o ocorrido da realidade de fato.

A menina Lilás de levantou... verificou, se verificou, se conferiu se certificou... que estava bem... ou mais ou menos. Talvez assustada e empoeirada. Meio atordoada. Reparou na amiga Magrela, o esqueleto de metal, a pintura, as sinaleiras... Bateu a poeira, limpou o pó, acariciou os braços, verificou a correia, reparou em tudo mesmo.

- Eu, hein!... Como foi isso? Como viemos parar assim no chão? Isso pesa.

“Acho que estou descadeirada... quebrada ou destroncada... Já nem me dói, mas me sinto outra bíci... As minhas peças estão... desarticuladas... descompensadas.”

- Eu planejo me comportar melhor de hoje em diante.

“Que se aprende dando cabeçadas. Que se aprende tropeçando.”

Por sorte e pura sorte, a menina e a bicicleta estavam bem. A magérrima precisou de um ajuste no guidão, só isso.

- Pronto. Tudo bem, amiga. Já nem passa mais nada. E tranquilas.

“Eu derrapei na brita e no cascalho, é.”

- Foi até perigoso, se viu.

“Sim, sorte que o caminhão animalão bitrem estava parado.”

- Pro futuro teremos mais este cuidado e este alerta, né?!

“Acho que já estou melhor. Logo passa esta sensação de acidente, é.”

- Isto foi uma aventura que fizemos juntas e no mesmo barco, hem?!

“Como se o destino precisasse disto, gente!”

- Acho que vou telefonar pras amiguinhas de colégio. E tirar aquela foto.

“Sim, faça isso. E sem delongas ou demoras ou de-mo-ra-da-mente.”

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“Deem o laique, que aliás nem custa nada e é de-grátis!”

Os olhos estão por fora e ao redor, uns 360º. Os ouvidos, idem e também. O pensamento que é aquele que está por dentro, no interior da cabeça e das coisas. São assim os sonhos. O espírito anda longe e roda o mundo, já o coração bate perto.

Coisas do outro mundo e além conhecimentos sérios. As luas tantas de Saturno, pra quem?! Planetas e luas jogadas no cosmo no espaço sideral e pra quê?!

E três meses assim se passaram. Assim se contaram.

A menina e a bicicleta são um luxo. Contornaram a praça Vespasiano Corrêa, seguiram a rua Salgado Filho e consequentemente a rua Manoel Francisco Guerreiro e já dentro do suposto por suposto o bairro Vigário Geral. E ser alguém, ser assim, ser conforme e justo justa, ser bom de garfo, ser serena sereno, ser porque é, ser por quem, ser estado, ser de Nova Prata ou neopratense, ser em si, ser individual.

A Lilás foi de bíci ela e a Magrela até o clube de lazer Clube Regatas Aurinegro Solicitude. E nadar na piscina, uma tarde de segunda-feira, e muita gurizada piazada e sol alto na temperatura da altura dos 35ºC. Aprender a nadar nem carecia, ela já sabia. Mas os outros amiguinhos aprendiam na hora. Nadar seria como andar de bicicleta. Melhor que a Magrela podia e tinha autorização da sociedade dos associados também para se banhar. Sublime sublimidade e nadar no raso mergulhar no mais fundo.

- Queria te pedir uma coisa, Magrela!

“Pode pedir e já vejo se posso te atender.”

- Me sinto com desejo de aproveitar o calor e saborear um sorvete, oquei?!

“Claro que eu entendo. O calor e eu nem estamos em contradição. Pode pedir.”

A menina lilás a Lilás chegou na borda da piscina (de dimensões olímpicas e meia-lua na geometria). Olhou um espaço despovoado. E flexionou a pernas abriu os braços em asas e pulou de cabeça no caldo no molho no líquido morno e transparente. Mergulhou por dentro da sopa de crianças por dentro do mar sem cor sem gosto sem sabor insosso, e submersa. Batendo a cauda com as pernas e pés nadando as barbatanas com os braços e mãos nadando de biquíni verde de duas peças e 4 triângulos. Exatamente igual fazem seus parentes os peixes os frutos do rio os frutos do mar os golfinhos-rotadores bagres-moles bagres-de-lagoa bagres-ariaçus guarijubas bagres-caiacocos bagres-de-areia bagrinhos-roncadores burevas.

A bíci Magrela chegou e desceu foi descendo a escadinha concreta azulejada da piscina. Cada degrau lhe dava mais água nos pneus. O primeiro pneu borrachudo. O segundo pneu balão. Até ficar meia mais ou menos submersa. Depois se jogou com tudo e foi pedalando na água limpa azulada preparada para conter muitos frequentadores ao mesmo tempo. Exatamente igual e equilibrada como fazem os peixes as algas marinhas os cavalos-marinhos piraputangas as arraias-de-fogo arraias-araras arraias-pintadas raias-gerereras raias-chitas acarapixunas cascudos-pretos.

- A água faz bem pra pele e acaricia os músculos. A água tratada com cloro faz bem pro metal inoxidável.

“E olha, amiguinha, nem dá sono, bu-blu-vuuuu!...”

E a guriazinha apontou do outro lado da piscina e já se agarrando à borda, cansada. Pulou fora de um golpe e se sentou para descansar relaxar. Toda molhada e brilhando ao sol. Se secando lagarteando ao sol. E se ouviam também e ainda por cima os gritos aleatórios e palavras pronunciadas no calor da euforia e tudo em voz alta e urgente já também denunciando alegria explosão teimosa teimosia e berros risos. E mais e mais raios de sol ricocheteando nos azulejos azuis e brancos molhados. Ouvindo tudo.

A própria bíci pedalou nadando sem tocar no chão propriamente dito. Parecia uma bicicleta marinha adaptada. Fazendo barulho estranho fora do comum, frou-frou-frou!... espirrando água pros lados pra tudo que era lado. Isso enquanto todo mundo via viu ouvia e fazia o maior auê. Muita criançada em volta e somente ela a Magrela bicicleta pedalando sozinha. Como uma alienígena bastante magra e esforçada. Como uma ferramenta na água e guidão de fora respirando. Como um bicho mecânico robô de outro planeta e sem olhos sem nariz sem cabelos sem cauda sem carnes. Da espécie veículo de duas rodas.

- Nade pra lá até lá que eu quero ver com meus próprios olhos, bíci!

“Vou aprender rapidinho rapidinho a nadar borboleta.”

E a Magrela, bíci que gosta de fazer amizades e amiga de sempre, atendeu o pedido dos amiguinhos(as) e companheira amigona de Lilás. E nadava, nadou.

- Parabéns! Nadou como os peixes de aquário e sem deixar rastos - gritavam os frequentadores amiguinhos meninos e meninas crianças.

“Mais cedo ou mais tarde e mais tarde que cedo, aprenderei a nadar de costas.”

Estes os incentivos os elogios dos amiguinhos pra bicicleta Magrela. Coisa de artes de artista que eles e elas nunca tinham visto. Que nadou pedalava como peixe vivo água-viva, reluzindo ao sol. E todos falando alto aos berros e gestos largos no ambiente festivo. Que estava uma alegria efervescente. Que estava uma fraternidade contagiante.

- Agora eu mesma vou nadar de costas e tentar boiar bem ali no meio, repare - era a Lilás tentando ampliar seu repertório de natação.

- Bata mais os pés e nem pare de dar braçadas... sem parar... sem parar! - apoiavam aos berros a plateia de apoiadores amiguinhos(as).

Tantos berravam a plenos pulmões e no meio da algazarra da piscina coletiva a guriazinha Lilás. E queria ser ouvida pela amiguinha Magrela. E estava em boa hora e num momento de euforia e extremo deleite. Muita felicidade encontrada nadando. Nadando de braçada, boiando, plantando bananeira.

- Acho que vou pegar um pouco de sol e me bronzear. Você vem?

Convite de Lilás pra Magrela. E ambas saíram da água, escorrendo.

- Já estamos de molho mais de meia hora, nem acha?!

“Nem só acho como adquiro uma cor intermediária pra lá ou pra cá do verde.”

Sentadas nas toalhas sobre a laje. Elas já podiam e gostavam de nadar mais ou menos. Eram já maiores que outros e outras, em altura e velocidade. Por razões desconhecidas ou reconhecidas, elas eram melhores que outros e outras na água. Elas eram tão boas na água nadando como fora dela andando e pedalando, andando a pé ou rodando nos pneus. Faziam uma amizade um par tão unido que já eram irmãs de carne e osso, ou melhor ou seja, de carne com cartilagem e metal com borracha.

- Gosto de nadar como nem sei. Já fui peixe um dia? Peixe de rio ou mar?

“Eu mesma que sou feita de metal aço inoxidável inferrujável, se esta palavra existe.”

Disse e falou a Magrela, olhando a piscina cheia de água e alegria de muito miúdo piazada pré-adolescentes brincando com boias objetos infláveis inflados. Todos querendo aparecer e aos berros e urros e uivos. Como na tribo. Tipo bicho.

- A sensação de mergulhar é de virar peixe. Como voar para os pássaros.

“Nadar na superfície ou mergulhando afundada no líquido.”

- Por que nadar? Porque é bom.

“Que nadar é pertencer a outro elemento, a outro fenômeno da natureza.”

E a tarde preencheu as horas e terminou no anoitecer. Como sempre e como exatamente todos sabem e sabemos. O sol se despedindo desde a cabeceira da montanha mais próxima. Um sol vermelho colorado internacional. Igual que sempre.

Coisas naturais. A pedra idêntica da pedra. O vento na pedra vira pó. A água na pedra vira areia. O homem na pedra e pedra cortada vira era da pedra lascada.

Um minuto é tão pouco. Tem gente que nasce aqui. Uma família mora ali. Alguém de repente faz 10 anos de idade 10 voltas ao mundo 10 primaveras floridas.

A aragem é irmã da folhagem. Mata com cascata tem de ver com meio-dia. Lugares palmares enseada tem de a ver com recreios consagrados.

E menina tão galante Lilás pedalou sua bíci a Magrela feita de ferro e alumínio em direção sentido rumo da casa do avô Francisco. E sempre com ele e avó Augusta. As duas amigas de aventuras sempre perto uma da outra. Chegando na hora da tarde 16h que era do café da tarde com bolo e outros quitutes, e por acaso. A guriazinha e a bíci sentadas acomodadas expectativas e crentes curiosas. Os avós nas cabeceiras da mesa e as duas visitas nas laterais. E muito todos todas acomodadas, sim senhor e senhoras!

- Conte as histórias de casarões casas-grandes antigos e ou abandonados, pesca noturna, homem-macaco, noite de ventania, poço dos uivos, árvores-ambulantes, cachorro louco, o mendigo da velha ponte de madeira, quando a porca torceu o rabo...

- Vou contar a história de um engenho antigo movido à água de açude. Este engenho trabalhava com gente de dia. Causo que de noite trabalhava se movia sozinho e misteriosamente. História que se passou num engenho arruinado caindo aos pedaços e que produzia moía farinha de trigo e farinha de milho e farinha de mandioca. De dia o prédio parecia um galpão e de noite, com o clarão da lua, parecia uma mansão.

Acompanhem através desses destinos e roteiros esquecidos até ver vislumbrar as paisagens personagens assombrosos exóticos(as) turísticos e mergulhar submergir nos mistérios e magias e mesmo descobrir os segredos de cada espaço ou lugar ou região. Venham que a aventura vale a pena e a missão nem é pequena.

Antes de nos metermos a fundo profundo, nem se esqueçam de assinar se subscrever ao canal ao sítio ativar as notas notificações para se manter em dia com as atualizações renovações últimos lançamentos. E agora, sem mais delongas, vamos aos nossos temas e histórias e sinas e dados e lendas e legendas. (fonte da internet - porque todo mundo diz isso e fala assim e escreve dessa forma já padronizada clichê.)

- Narre vó conte vô, sobre o caso do roubo ao trem pagador. Um trem que levava muito dinheiro e barras de ouro para a capital e foi interceptado pelos ladrões cambada.

- Vou contar o caso do roubo cinematográfico à joalheria Juquirirana - Ceilândia, região administrativa do distrito federal -, seguida de perseguição da polícia atrás dos 5 bandidos mascarados e que resultou em fracasso total totalíssimo. Os quatro 4 larápios desapareceram sumiram sem deixar vestígios e rastos e levando toda a mercadoria todos os objetos de valor roubados. Até hoje nem se sabe quem foram e onde estão os fugitivos e o produto milionário do roubo.

As meninas os olhos ouvidos perguntas dúvidas, enfim, tudo com elas duas.

- Faz o favor de contar uma história de buscar lenha no mato com lenhos e galhos e árvores como madeiras-novas, limões-do-mato, moquínias, caranás-brancas.

- Vou contar sim a história de um entalhador um escultor em madeira madeireira madeiramento e que fazia as xilogravuras, ou seja, paisagem na tábua de madeira.

Sentados na área na varanda e cada qual na sua cadeira predileta olhando mirando bombeando o horizonte os morros distantes que sempre estavam ali.

- Conte uma história histórica de pedra e pedreira e pedraria e pedras preciosas.

- Contarei sim a história do tesouro da herança da aliança entre índios charruas e os jesuítas da campanha do pampa gaúcho. Cujo tesouro foi deixado numa caverna funda e perdida e anônima. Guarda esta caverna, ainda hoje em dia, uma família de lagartos encantados que vigiam o lugar sagrado. Haja vista os livros de H.

Assim pelo menos esse óculos de osso da avó já lhe caía bem e também funcionava tanto perto como longe pra leitura e pra descanso. Com muita luz esfumaçava com bom luar ou sombra aclarava.

- Conte a história com final resolvido e que se passou numa noite de chuva chuvarada muito forte tempestade tropical furacão tornado tufão e apagão.

- Sim, e esta é uma história com desejos ansiedades e dúvidas pra lá de arrepiantes com detalhes horripilantes horrorríveis. Quando de noite chegou alguém e bateu na porta da frente da casa que dá pra rua esta nossa mesma rua Itália, toque! toque! toque! to-toque!... 4 vezes. E eu fiquei na dúvida duvidando duvidava se deveria atender. Contei até dez...

A menina sentada na cadeira de palha, os avós cada qual na sua cadeira de balanço balançando balançantes. A bíci encostada na parede da área. Todos olhando em frente como se olha uma paisagem longa larga e pacífica.

- Conte um episódio com bolo de chocolate e aniversário e muitos convidados vindos de longe que terminou em pizza e gargalhadas, kjá-kjá-kjá!...

- Contarei esta história que começa quando termina um casamento festivo e vai aí afora sem nunca se saber ao certo o porquê nem que nunca se concretizou. Os noivos se conheceram e de repente rapidamente se separaram para nunca jamais. O casal o par se separou se divorciou antes de casar na igreja no civil e fazer a festa.

O cão da família, atendendo pelo apelido de Avião, sempre ali por perto e raramente longe dos pés dos donos. Cheirando os pés da visita os pneus da visita.

- Conte a história dos óvnis e dos extraterrestres que eram pequenos igual do tamanho como de ratos camundongos. E nem tinham mascotes ou brinquedos de brincar. E nem tinham amizades entre eles e nem eram casados ou família. Todos robôs com os movimentos tremidos periclitantes espaçados cadenciados em câ-me-ra len-ta...

- Contarei a história de alienígenas feitos de fogo que vieram para o nosso planeta Terra em busca de sobremesa de sagu com pudim de leite condensado cascão. Comeram saborearam degustaram lamberam os beiços pediram a receita e se mandaram lá para o lugar profundo do universo e de onde vieram e foram num fleche.

Os pássaros ali de árvore em árvore frutíferas. E havia jabuticabas de jabuticabeira e araçás de araçazeiro e pequis de pequizeiro e butiás de butiazeiro e guabirobas de guabirobeira. E tinha povo dos sanhaços-frades sanhaços-amarelos sanhaçus-verdes sanhaçotingas ou tietingas sanhaços-pardos.

- Conte a história do escaravelho gigante que adorava adorador da lua nova.

- Conterei a luta histórica a escaramuça do escorpião-amarelo contra o gavião-do-mangue (moradores da Pedra da Gávea, a montanha monolítica) pelo domínio pela hegemonia do território fluminense ou carioca. Foi num momento crucial da nossa H, época de Dom Pedro II e princesas Isabel e Leopoldina.

O casarão dos avós era do tamanho mais tradicional das famílias das gentes pobres porém numerosas comuns de antigamente no passado distante pena depois da era Vargas. Tudo da casa e do lar e que eles sempre eternamente sonhavam almejavam curtiam em família familiar e que podiam deviam ter ao alcance e com cama mesa e banho. Exatamente tudo sendo muito luxuoso perfumado funcional. E um quarto cada cômodo com duas camas de solteiro para cada dois solteiros(as) da família.

- Conte a atualizada história de suspense policial do cão buldogue que se perdeu do dono numa caçada e foi parar no meio de um jogo de futebol tendo que apitar arbitrar um clássico Gre-Nal.

- Contarei a história de uma cadela vira-lata que se escondeu no nosso porão e deu à luz uma ninhada de oito cãezinhos guaipecas com machas malhados de marrom e amarelo. Foram 3 machos e 5 fêmeas, todos acima do peso ainda cegos e sem pelos.

Os donos da casa a dona o dono a vovó o vovô sabiam e queriam contar histórias dos demônios dos animais irracionais dos tropeiros dos pioneiros. As crianças a menina a bíci estavam aí nem só para comer bolo de chocolate de fubá de coco de amendoim mas para ouvir causos estranhos estapafúrdios verticais horizontais prediletos originais.

- Conte a história do mundo que chegou ao seu fim inesperado devido um terremoto seguido de tsunami. Com o tsunami veio mais maremotos e mais tsunamis.

- Contarei a catástrofe do prédio de apartamentos Jiporoque e 28 andares que caiu tombou sem aviso prévio uma noite tropical de carnaval e suspendeu interrompeu o desfile do bloco Oito ou Oitenta em a rua Caparro-Caparu. Nas contas dos bombeiros e da polícia e do exército, pereceram sumiram sem deixar vestígios uns mais ou menos 2.045 pessoas e 1.054 mascotes xerimbabos (na maioria cães e gatos e peixinhos de aquário). Uma tragédia sem precedentes. Uma catástrofe que jamais se esquecerá. Um caso verídico verificado e real. Virou documentário livro de mestrado peça de teatro filme de ficção baseado em fatos reais.

Hotel grande, hotel vazio, hotel férias, hotel milagre, hotel compacto, hotel estrela, hotel avenida, hotel século, hotel figueira, hotel rafeiro, hotel ilha, hotel novo.

Existe o mundo da Terra o planeta. Existe o mundo do futebol e Maracanã e Beira-Rio e Morumbi e Mané Garrincha. Existe o mundo unido no mesmo fruto da parte boa do saborear o abacaxi e a parte do descascar. Existe o mundo grudado de dois irmãos gêmeos que nem separa o sofisma do silogismo. Existe o mundo conhecido do positivo e do negativo. Existe o mundo parecido da menina e da bíci.

Um pai sábio, um pai santo, um pai rio, um pai mãe, um pai alma, um pai deus, um pai filho, um pai ele, um pai tio, um pai irmão, um pai pai, um pai artista.

Tomar banho a bíci. A Magrela toma banho pelo menos uma vez por dia, faça sol ou faça chuva. Levar a bíci pra lavar, lavá-la, molhar como em toda tudo, passar sabão e xampu, enxaguá-la, passar pano flanelinha, secá-la ao sol ao sol de verão, engraxá-la, perfumá-la, passar perfume óleos aromáticos. Conversar. A menina de carnes conversando com ela a bíci inoxidável e titânio (elemento químico de número atômico 22, símbolo Ti - usado em aços e ligas leves), elas amigas em diálogos:

- Você vê o que te digo e te mostro o que estou vendo e vejo? Olha!

“Minhas lanternas olhos olham e veem perfeitamente e alertam e avisam, é.”

Plantas replantadas na praça da Bandeira, alcaçuz-do-brasil e figueira-de-lombrigueira e marmelada-de-cavalo e ingás-de-flor-vermelha e azedinhas-da-baía.

- O infinito é feito de espaço reservado e luz, hem?!

“O infinito é desfeito de finitos.”

- Eu te guio com os pés pedalando ou com as mãos pegando no guidão e vamos andando rodando, eu pé ante pé e você roda após roda. Olha com as lanternas acesas, olha! Repare bem por onde andamos por onde você roda.

“Me dirige pela calçada ou via de ciclistas ciclovia que é bem bom chão liso.”

O parque Itapeba e as aves aterrissando pousando voando saltando de galho em galho de árvore em árvore em todas as direções com as penas e feitios e cantos palração palraria tagarelada, tesoureiras e cambaxirras e birros e pintassilgos e sabiás-laranjeiras.

- Quem diria que vamos comer pinhão na casa da tia irmã de minha mãe Leia, sentar na caixa da lenha atrás do fogão a lenha. O pinhão na chapa quente pegando fogo fogo, bater o pinhão para melhor soltar a casca. Olhe pra fora da janela olhe o mundo todo e o que você pensa o que você nota o que você sente o que você vê, olhe!

“E eu olho por mim. Olho e vejo que o mundo está feito para ver e ouvir.”

As formigas indo e vindo no parapeito da janela envidraçada, um quintal com árvores frutíferas e paiol para o pasto do gado doméstico e a grande caixa-d’água cisterna e os telhados vizinhos e a rua Cecília Meireles. O que se vê e se nota olhando pela janela. O inverno valente lá fora intempestivo frio, muitos meses de recolhimento e talvez chuva fina geada matutina. O sol no frio queima mas nem esquenta.

Dia que chove. A chuva é boa mas para tudo e tudo para com a chuva. Olhar a chuva desde a janela no quarto e ver o mundo mergulhado ali. O mundo na chuva.

A menina (doçura anja) e a bicicleta (flor uva) esperando a chuva passar. E se nem passasse? E por que nem na chuva? Vai ver que sim.

Quanta dúvida na chuva. Mas a chuva e chuva eram são boas. Como caía cai do céu uma chuva em gotas aceleradas enchendo de água e corrente até o rio Retiro. Que saúde de rios o rio São Mateus (rio Cricaré) ou seu defluente o rio Mariricu (Marerike).

Já a guria e a bíci apreciavam a chuva e gostariam de se molhar. A chuva sim das altitudes do céu celeste. O mundo da chuva. A chuva no mundo. O mundo de chuva.

Agora mesmo as duas garotinha e bicicleta foram de mãos dadas irmãs na chuva. Fazer o quê! Estava a chuva na chuva. Por dentro (dentro, de-intro: nomeada elisão ou sinalefa) do fenômeno da chuvarada. A água empoçada o que estava molhado e alagado a chuva caindo na cara. A menina de língua de fora bebendo a chuva e a bicicleta lavando o esqueleto de ferro, lavadas ensopadas encharcadas.

- Temos cobertura e sim. Um autorretrato, hein?!

“Pode telefonar às melhores amigas, quem sabe!”

Os índios autóctones silvícolas aborígenes de todas as tribos de muitas nações apreciam cercam comemoram santificam a lagoa do Bacuri. São etnias originárias povos naturais e tupinambá e barauana e anapuru e juma e bororo.

Depois as duas juntas pedalando uma em duas e duas em uma se divertindo na chuva debaixo da chuva. Como imaginaram. Como haviam combinado. Passando correndo poças de água e valetas de água corrente.

- Hoje chove no sul no norte e em todas as partes do mundo redondo.

“Que vamos conhecendo e conheceremos um dia desses, hem?!”

- E rios arroios ribeirões córregos.

“Sobre pontes ou passarelas suspensas ou pontes pênseis.”

Numa altura da sorte passaram de passagem por dentro atravessaram um fio de água corrente ali na sarjeta. Que alegria das duas! Com certeza a menina pensou em rios maiores e rio Sepotuba rio Piquiri rio Paraíso rio Poxoréu (este do tupi, “rio de águas escuras”) em cascatas cachoeiras mar ondas marinhas vagalhões escarcéus e pororocas.

Um menor regato corria ali corre. Acompanhado de árvores plantas êrvedo medronho ervas saivá vegetação ciliar e orabutãs, carvalhos-brancos, clavijas, jutas-paulistas, ipecas-cinzentas. E desviando pedronas com a forma de cavalo casa aeronave trator barco. Uma vez ao ano, uma 1 semana em março, ele o riacho enche e sobe e encorpa até a rua Conde de Bonfim. É justamente quando se lembra do nome que é rio Canoinhas e diz dizendo: “O fulano Canoinhas está cheio enchido e enchendo”.

Uma mãe maracá, uma mãe proba, uma mãe mãe, uma mãe tia, uma mãe procaz, uma mãe alcácer, uma mãe elegia, uma mãe topos, uma mãe anáfora, uma mãe flébil.

Tem a rua das flores, rua Visconde de Mauá (feira floriculturas flores em vasos e recipientes de barro cozido ou plástico ou madeira). Tem a rua da copa do mundo, rua Capoeiras (toda copa de futebol os moradores a enfeitam de verde-amarelo e na criatividade extrovertida). Tem a rua da eletrônica, Onze 11 de Agosto (todo tipo de aparelhos relacionados computadores roteadores cabos tomadas fiação parabólicas).

Na manhã seguinte elas pessoa física e veículo pedestre acordaram cedo. Muito cedinho. Fazia outro dia agradável de verão, fazia. O horizonte grande medido em largo e profundo como se as cortinas tivessem sido retiradas. Que belo horizonte!

- Que dia sem nuvens, hein?!, Magrela.

“Um dia pra pensar em sair da toca, nem?!”

- Um belo dia sem perigo sem sustos sem ameaças sem deus nos acuda.

“Num céu sem contrastes.”

Da avenida Placidina de Araújo, vinha o som intermitente treme-treme dos carros passando ou até buzinando. Das casas de comércio, vinha o fru-fru ou ruge-ruge das mercadorias de todos os tipos e utilidades. Do universo/vácuo, vinha a ideia de D.

- O que é proscênio? É uma atitude nova? É o nome de uma série de tevê?

“Deve ser uma... algo como uma gôndola. Gôndola de aço ou de madeira.”

As duas iam aonde? O que importava é que estavam juntas e andando. Juntas e pedalando. O passeio era melhor que tinham pensado. Pensando bem. Pensado assim.

- Eu queria todas as praias ao nosso alcance ao nosso redor, praia de Jurerê.

“Eu já sei andar na areia fofa. Eu deixo marcas pegadas rastos, para trás.”

Reparavam nas pessoas nos bichos de estimação que viviam passeando com as pessoas e com os animais domésticos. Reparavam nas casas de diferentes tamanhos com cômodos de tabiques e anexo a garagem. Reparavam nas ruas a rua Ianam e a rua Malali e uma encontrando a outra na esquina. Reparavam nas árvores. Que árvores?, camboatãs-mosquiteiros, espelinas, itapicurus, marajás, jipoúbas. Reparavam nos pássaros. Que aves?, corruíras-de-casa, parurus, papagaios-moleiros, maracanãs-nobres, tachãs, cavalarias, saíras-verdes, saíras-vermelhas.

- Temos que inventar alguma coisa para hoje, é. Andar por andar é pouco.

“Já eu me contento em andar no asfalto e sem pressa.”

O sol queimava sem nenhum problema. O sol queimava sem nenhum inconveniente. O sol queimava sem nenhum dilema. O sol requeimava sem nenhum discurso. O sol queimava sem nenhum inconveniente. O sol queimava sem nenhum til.

As duas garotinhas, uma de carne e ossos e a outra de metal polido, iam felizes risonhas soltas livres. Uma na companhia da outra. Eram amigas, amizade fraterna. Guriazinha de bermuda rafada, bíci sem nênia. Garotinha de cabelos rabo de cavalo, bíci com luvas verdes anatômicas. Menina sem tatuagem sem brincos, bíci sem para-lamas.

- Me acompanha no passeio, Magrela. Vamos pela rua da Caçoula, tá liga?!

“É o que eu mais gosto neste mundo, Lilás: acompanhar as pessoas de bem.”

- Sim, é legal a gente ouvir e ver as árvores os passarinhos. É muito bom.

“Como também ir contra o vento e sentir a brisa em contra.”

- Vamos procurar vamos procurando uma aventura, das difíceis e nervosas.

“Eu vou eu iria até o fim do mundo e dos tempos, imagine.”

- Acho que telefono. Será que telefono pra alguém? E assim no mais?!

“De repente você pode telefonar ou a qualquer momento.”

- Será que paro que paramos e reparamos numa foto autorretrato?

“Bem ali na rua José Higino e praça Gabriel Soares, repartindo coraçõezinhos.”

E a estrada se estendia e rude quieta pavimentada desenrolada. Pássaros volitando esvoaçando e flamingos, oracas, tuques, menininhos-do-banhado, pombas-do-meio, sacis, tizius. Cães vira-latas com semblantes contritos abatidos pesarosos e analisando o próprio futuro assim: “Se se tratasse eu você de um espírito positivo de uma alma genial, dir-lhe-ia que esperasse esperasse”. Ou seja, o mundo tratando de.

O sol se fazendo de frente carudo no lado leste do mundo. E sério severo famoso brilhante. E empenhado atento de boa vontade. E espantoso estranho inacreditável. E amparado arrimado arrumado apoiado no diário. E de repente no cume cimo topo cacume. O sol se fazendo de deus e senhor e soberano e pegureiro pastor de gado.

- Vamos andando e pensando bem. Você me ajuda a pensar sem raciocinar.

“Quando eu penso eu vejo coisas e vejo o céu. Pra valer, é!”

Este nosso sol nem vem da terra ou do mar, este mar nem vem do céu ou da terra, esta terra nem vem do mar ou do céu, este céu nem vem da terra ou do sol. Todos vêm de algum lugar para onde, e vêm e vão.

Demorou ainda um pouco mais. Demorou o tempo necessário.

E já as duas elegantes conversando foram pensando. E pensando foram dialogando. De súbito do nada viram uma ilha apareceu uma ilhota. Seria uma ilha fluvial. No meio do rio Ribeirão do Itororó. E por simples saber, que nome? A ilha podia se chamar, nomes próprios: Convênio ou Conselho ou Epicédio ou Epiceno. Um riachinho quase um pouco relativo fluviátil. E a ilha era habitada, por acaso? Sim, havia árvores bastantes para encher uma mata intocada. E voavam aterrissavam alados(as). Para as duas pedestres chegar lá tinham que pegar um barco barcaça canoa. Pedir ajuda a um barco a motor ou a remo ou a vapor ou a vela ou a magia.

- Vamos subir à ilha e explorá-la. Eu adoro isso. Eu sempre quis isso.

“Eu temo raptos temo bichos grandes e pequenos temo a noite escura temo o frio temo o deserto de areias escaldantes movediças. Eu receio enferrujar.”

- Que nome tem a ilha? Aceito sugestões.

“Eu chamaria ilha... da Eternidade, que ficará aqui pra sempre. Ou ilha 10 de Março, que hoje é esta data. Ou ilha do Mel, que temos muitas abelhas aqui e zangões.”

- Tenho e prefiro telefonar e mandar uma foto, que solução.

“Telefone pras amigas as mais preferidas, pelo menos.”

- Será que teremos piratas ou corsários e tiroteios e raptos e sequestros?

“Será que vamos ver bichos diferentes e ou pré-históricos ainda preservados?”

Pegaram a embarcação remaram as duas remando uma pela esquerda outra pela direita. Fizeram um esforço danado e necessário e prático. Chegaram à ilha do Arvoredo ilha Galés ilha Deserta e calhau de São Pedro, e foram andando. E aceitando percorrendo cumprimentando os moradores. Conhecer o pedaço de terra rodeado de água do rio ou do mar. A menina a pé e a bíci rodando. Pé ante pé, roda girando. Uma de mão com a outra. Por uma trilha no meio do mato e com sombra desde o início. Observavam a paisagem toda integrada e árvores e plantas e flores e pássaros e cipó-una, vaquinhas-das-flores, erva-preá, ipequis, ingá-doce, neguças, jatobá-de-casca-fina.

- O que a gente veio fazer aqui, amizade? Veio curtir o panorama ideal.

“A ideia é procurar uma aventura. Uma aventura com sorte no final.”

- Será que tem alguém morando, digo pessoa? Só se vê árvores e aves voando. Som de aves e do vento. Ruídos de grilos e pios de pássaros.

“Se encontrarmos uma gruta... vamos entrar, entraremos? Ou devemos evitá-la?”

As duas amigas foram andando e olhando pra todos os lados. Era novidade e estavam, aparentemente, sozinhas no pedaço. Sozinhas no universo. Iam andando sem mais preocupações. Nem se davam conta. Nem viram que o tempo passava. O tempo cronometrado. Assim meio longe do porto distante da embarcação. De repente no meio de um labirinto. E perdidas por perdidas e meia. Um labirinto em xadrez ou em espiral.

- Ei!... E agora, Magrela?! Vamos correr ou vamos de vagar?!

“Vamos chamar por socooorro! Vamos ter que encontrar a saída, e antes do meio-dia. Bem antes antecipadamente das 12h.”

O receio chegou cedo ou tarde. Antes tarde do que nunca. E o medo tinha nome feio sobrenome, desordem confusão inferneira. E quando se está perdido perdida se pensa em bobagens, cruel atroz malvada infanda. As horas nem passam e deveriam passar. Deveriam passar assim tão rápidas, as horas tique-taque?

- Sim, já passam das 11h. Já me dá uma certa fome com vontade de dormir.

“Você tá com fome, amiguinha?”

- Acho mesmo que vou telefonar. Telefonar para as amigas de ótima hora.

“Deve sim telefonar e pedir orientação. Telefonar é óbvio.”

O sol queimava sem nenhum problema. O sol queimava sem nenhum mistério. O sol queimava sem nenhuma dúvida. O sol queimava sem nenhuma consideração.

- Vamos pedir informação às árvores. Pode ser qualquer árvore. Toda árvore tem sentimentos. As árvores deste lugar também têm compaixão e devem ter paixão por duas gurias perdidinhas.

“É isso mesmo. Vamos falar com uma árvore ou duas.”

Se sentiram confiadas no começo da caminhada. Daí umas duas horas já se perdiam no meio do mato. Internadas num enleado labirinto de plantas e vegetais anônimos. Um lugar de poucos recursos. Quem sabe um lugar de poucos amigos(as).

Quando ouviam um pio ou dois, era bom ou mau? Logo logo ouviam um ou dois rugidos, estava bem ou mal? Cantos interpretações assobios graves agudos esdrúxulos.

- Era ótimo precisava necessário ter um vulcão nesta ilha acolhedora, hem?!

“Um vulcão fumacento fumoso e incendiado.”

- Seria forte que aparecesse aqui um tufão. Que se criasse por conta própria.

“Desses que uivam sem cessar e fustigam vapulam flagelam vergastam.”

- Mesmo um terremoto por demais malfeitor sicário facínora.

“Provocasse em toda parte as trevas bulcões escuridões.”

Logo encontraram uma árvore grande e pediram licença e perguntaram:

- Aponte-nos um caminho até nosso bote, dona árvore..., como se chama?

A árvore olhou com olhos múltiplos. Olhou com unanimidade das folhas. E mexeu os galhos musculosos orgulhosos. Se ouvia uma música que era o vento esbarrando nos cabelos soltos da árvore. E ela se dignou responder, respondendo:

- Que passa, gente boa?! Podem me chamar de simplesmente de Ode Grei, da espécie iaguarataí. Estão perdidas de horas, é? Vieram e nem sabem como voltar, né?! Entendi. Suspendo preocupada tudo que eu estava fazendo para atendê-las.

- Isso mesmo e faz meia hora. Como chegaremos ao porto do rio da Barra?

Ode Grei, a árvore, se agitou agitada com tudo. Planta bem enraizada na terra profunda. Um ser feliz por estar preso à terra boa e também por ter raízes que vão ao subsolo buscar água e nutrientes para crescer firme forte e verde. Plena na fotossíntese. E o enorme vegetal de oito metros e sombra disse com voz distribuída por todo esse seu tronco robusto de músculos rijos e peitoral e busto magníficos halterofilista:

- Suba nos meus braços que vou te alçar e mostrar o horizonte. Assim você pode ver mais longe e quem sabe se orientar. Vivo aqui mesmo faz um tempão. Aproveite.

A menina subiu realmente escalou a árvore. A bíci ficou olhando do chão. Tudo foi muito rápido. A menina tinha o dom de saber subir em árvores. Era ótima nisso.

- Eu sei subir em árvores. Eu adoro subir em árvores. Aprendi de faz muito.

“Suba com os pés bem plantados e se agarre com as mãos bem agarradas.”

 Enquanto a menina subia até o mais alto que podia, alguém dos arbustos ali por perto ali por baixo e sorrateiramente, pegou e arrebatou a bíci Magrela. Foi tudo muito rápido rapidamente. E o arbusto rasteiro nem identificado saiu com a Magrela nos braços nos ramos e pedalando. A Magrela chamou pela amiga, mas já era tarde:

“Amiga Liláaaas!! Estão me levaaaandoooo!... Por favoooorrrr!...”

A menina ouvindo e vendo aquilo tudo ficou assustada e intrigada e intranquila. Procurou voltar e descer imediatamente da árvore. Queria atender ao chamado urgente da companheira de brinquedos. Mas porém, assim que tentou voltar, foi impedida e abraçada totalmente envolvida. A árvore Ode G procurou tentando atrapalhar a menina.

- Ei!... Qual é, meu?! Me deixe descer, por caridade! Por obséquio e imediatamente! É um caso de polícia, gente!

Assim a guriazinha ficou presa e embaraçada enredada enleada nos galhos e ramos da árvore Ode Grei. Nem tinha como convencer a árvore a soltá-la. Caiu na armadilha. Caíram como patinhas na arapuca, as mesmas duas intrépidas aventureiras.

E aí veio mil coisas horríveis absurdas e assustadoras na cabeça da menina Lilás. Parecia o fim dos tempos. Parecia uma calamidade. Parecia um despropósito. Parecia uma falta de respeito sem medida sem medida. O mundo cheio de ódio grima raiva. Um contra a outra, todos contra todos, ninguém por ninguém e D só observando.

- Ei!... Me deixe, me libere! Qual é o babado, dona árvore?! Que gastura!

A prisioneira já estava nervosa perdendo a cabeça e nem sabia o que pensar nem entendia onde estava. E o pânico começou a aumentar imensamente... E o enjoo começou a tontear e a tontura a fazer mal pra guriazinha. Os cabelos despenteados...

- Qual o quê!... Me devolva ao chão da teeeerrrrraaaa!...

- Fique calma e tenha paciência, menina. Já eu te solto. Deixe meu filho arbusto dar uma volta na tua bíci, né! O meu dileto filho nunca nunca brincou de bíci. Sabe o que é isso? E eu te peço por favor, por obséquio obsequiosa!

- Isto é um rapto, isto é um atentado, isto é um roubo de bicicleta!

A árvore O Grei da espécie iaguarataí tentou procurou convencer a menininha, tentou retê-la no meio dos seus galhos enleados tramados de enlear tramar mas nem foi possível. A menina discutiu até onde podia com a árvore:

- Pensa o quê?! Me liberte, hem?! D me livre!

- Calma, garotinha rebelde! Eu tenho cifra eu tenho somas eu tenho números eu tenho montante eu tenho, pra finalizar, eu tenho dinheiro dinheiros. Sou árvore da grana da moeda do cobre da bolsa do ouro. E sou a árvore rica que tem dinheiro pendente das folhas. E posso pagar o que você pedir o que você quiser o que você somar e multiplicar. Tá pensando que quero de graça?! Dinheiro nem é problema, minha cara!

Quando o grande vegetal foi ver já era demasiado tarde e a menina escapuliu. Por entre os galhos por entre os dedos dos ramos. Se agitou se torceu distorceu e finalmente, ufa!... se soltou e pulou fora no chão. A guria gritou a guria bradou em tom de desabafo e despedida e até nunca mais:

- Adeus e já vou embora! Já vou mesmo e já vou tarde! Onde é que se viu, meu!

Assim, então, a guriazinha Lilás correu ao encontro encontrar com a amiga a Magrela. Que esta já estava em mãos ou brotos tenros do arbusto que a tinha raptado. Este vegetal rapineiro de raízes aéreas e folhinhas miúdas e galhinhos finos e flexíveis tinha muita vontade de brincar de bicicleta. Mas peraí, né, meu irmão!

- Magreeeelaaaa!... - chegou chegando correndo gritando a Lilás. Estou de volta e agora vamos embora daqui! Solte a bíci, arbusto arbustivo! Sooool-teeee!...

Quando se aproximou da Magrela, a menina Lilás já estava muito decidida e convicta. Disposta a qualquer briga, se fosse o caso. Aí o arbusto olhou pra trás e viu a revolta nos modos nos gestos nos jeitos nos olhos de Lilás. Assim o arbusto pequeno e filhotinho, nem bobo nem nada, saiu correndo e se atirou se apinchou se escondeu no meio da capoeira e ali por perto. De lá só ficou rezando e olhando para que nem o vissem e mesmo o deixassem em paz, amém!

No exato momento que o arbusto largava a bíci Magrela, já a Lilás chegava perto e nem a deixava cair no chão. E assim foi. As duas se encontraram novamente e tudo bem. Muita trapaça mutreta engano que poderia ter acontecido nem aconteceu. Agora estava tudo bem tudo em casa tudo acertado tudo bem mesmo. Ufa!... que bom.

- Tudo bem e tudo em ótimas condições, Magrela?!

“Quando vi já estava sendo raptada. É tudo sempre muito difícil de prever, é.”

- Uta!... Olha como estou tremendo de nervosa, tirititiiii!... gente.

“Inda melhor que você me salvou das garras do arbusto atrevido, arre, amiga! Inda bem que você chegou em tempo de nem me deixar cair no chão e me amassar, né, guria?! Inda ótimo que tudo nem passou de um pequeno susto, hem, Lila!”

As meninas iam atentas e já entendiam sabiam decorar as árvores e outros vegetais aí por cerca cercanias cerqueiro rente e sapucaia-pequena, oeirana, maúba, ipê-amarelo-do-brejo, oitizeiro. Sabiam das aves pelo canto ou pela roupagem penugem plumagem e saracura-do-brejo, pica-pau-branco, chorão, bem-te-vi-rajado, golinho.

- Temos cobertura? Justamente vamos telefonar pra alguém importante.

“Sim, eu acho bom e legal que mais alguém fique sabendo disso tudo.”

Pegando daí, as duas inseparáveis e cada vez mais parceiras e amigas, foram andando procurando uma maneira de sair do intrincado labirinto. Que a ilha era pequena mas o mato era enorme e onde já era fácil de se perder. Perdidas por perdidas e meia, foram se afastando da árvore e do arbusto sequestradores mancomunados e que lhes haviam atentado contra a liberdade de ir e vir. Esquecer dar as costas deixar para trás.

- Acho que é melhor irmos por acá, tá certo?!

“Qualquer lado é melhor que ficar perto daqueles vegetais monstrengos, hem?!”

- Tenho ideia de telefonar pra alguém. Acho sim que devo telefonar, é.

“Sim, guria, telefona pra ver se chega algum resgate bem encima da hora.”

A grande maioria das árvores eram gente boa e de bem com a paisagem. Então nem precisavam se preocupar todo o instante com coisas alheias. A mata o mato o capãozinho ali de todos os tipos arbustivos e grandes e médias e pequenas plantas. Era uma comunidade uma sociedade de bem com a existência enraizada e verde clorofila na fotossíntese. Aparentemente nem gostavam de mudar de posição ou de lugar no mundo. Uma árvore nasce e desaparece sem sair do sítio sem largar o rincão natal.

E as meninas andavam procurando a pista para voltar ao barco no portinho. Estavam longe? Só D saberia dizer naquele instante. E as horas passavam. Chão seco mistura de pedrinhas com terra solo esturrado estorricado torrado.

- Vamos ter que nos informar melhor e com segurança, né?!

“Viemos atrás de acontecimentos aventurosos e estamos indo bem, hem?!”

- Uma coisa é certa: D sabe o que faz e desfaz, né?!

“A sorte grande dos metais e das pessoas de metal é procurar. E vai ser sempre se preservar com óleos e tintas e lubrificantes para nem se engripar, entende?!”

- Os humanos nós humanos vivemos e sobrevivemos dos alimentos que comemos, de modo quê.

“Os metálicos nós os metálicos(as) somos de ferro e aço e alumínio e borracha e outros produtos químicos duráveis como o plástico.”

Seguiram sensacionalmente, e sem se darem conta, por uma picada estreita embrenhada no meio da vegetação espessa. Terreno íngreme e uma trilha coberta meio encoberta pelas árvores. Embora lá no alto astral, o sol iluminava muito e dourava demasiado. E aquecia boa parte do mundo atual. Sol sempre perfeito.

- Você sabe que eu acho o sol uma presença estranha?! Sim, eu acho surreal.

“Agora que você falou... Sim, o sol a lua a Terra... são surreais.”

Iam andando rodando e sem incomodar ninguém. As plantas presas na existência delas. As aves trinando o repertório de cantos e canções que já sabem de muito tempo atrás desde o nascimento aprendendo dos pais. Pássaros endêmicos e ou migrantes.

O dia cheio de espíritos de confiança, as horas enfeitadas de tintas cores verdes-esmeraldas, todas os seres correndo atrás da matéria-prima, o instinto sem parar como algo ou alguém sublime; todas as coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Cedo ou tarde, daquele jeito e naquela mesma manhã ensolarada e limpa e sonora, deram de cara a cara com um túnel. Era bem em frente do caminho. Nem havia como fugir. Daí voltar?, impossível. Daí pra frente?, era o que tinha. Total: entraram pé ante pé e roda ante roda no escuro túnel e já apertando os dentes. Pouca luz meio escuro apertando os olhos a atenção fixada no caminho. Um caminho indigesto.

- Como é diferente aqui dentro, gente! Até difícil de respirar.

“Assim tão escuro e úmido, hem!”

- Na verdade um túnel ou uma caverna sem saída? Temos que ver, né!

“A trilha deve indicar um túnel com entrada e saída, estou certa.”

- É uma prova de mistério e par ou ímpar.

“Quem fez todo esse túnel vazio e esquecido? Foi um trem de ferro carregado de minérios? Foi uma mina de ouro? Foi um verme de montanha comedor de pedra?”

Parecia um interior de um monstro gigante. Nos intestinos na barriga de um estupendo e fantástico e imenso animal carnívoro. Como se estivessem sendo engolidas diretamente e inteirinhas. Uma montanha com seu corpo enorme engolindo goela abaixo. Enfim, como se a montanha precisasse disso.

- Acho que é uma prova muito difícil, esta. Arrepiei os pelos dos braços, olhe!

“Se a gente cruzar e escapar desse monstro estupendo, eu prometo que vou ser mais boazinha. Eu prometo rodar sem cansar sem me queixar sem pedir água.”

Era extraordinário o interior da montanha. As gurias ligaram as lanternas. O túnel despertava ecos dos passos das falas dos resmungos murmúrios feitos pelas aventureiras. E também assim acordavam os bichos médios e pequenos aí existentes e já camuflados ou escondidos nas gretas escuras. O acaso a contingência de cobras serpes aleivosas caluniadoras cascavéis da família dos viperídeos com guizos ou chocalhos na ponta da cauda, ti-li-liiiiim!... Sim, horrível e horripilante e alucinante.

- Quando me coloco no escuro eu penso em... de repente... uns fantasmas.

“Eu ligo automático automaticamente minhas lanternas de sinalização.”

- Acho ainda que vou telefonar. Vou telefonar pra alguém, é.

“Isso mesmo. Telefone pra alguém saber onde estamos e por quê.”

As aventureiras andavam devagar e sempre. E mal e mal a bíci Magrela tinha os faróis acesos, o que nem melhorava muito. A Lilás com a luz do celular. Iam tateando e acreditando na sorte no acaso. Tanto era difícil e periclitante que de repente...

- Ei!... Que foi isso!... Ouviu?

“Acho que tem alguém nos seguindo...”

- Devemos olhar pra trás? Devemos esperar? Devemos sair correndo?

“Deve ter sido uma pedra que caiu e rolou sem querer.”

- E se tem alguém nos caçando? E se tem mais de um alguém?

“Só se a gente apagar as luzes... Mas aí ficaremos nas trevas e sem rumo...”

- Será que chegaremos no fim do túnel, na luz aberta do fim do túnel?

“Chegaremos na pré-história da Terra ou no futuro do mundo o porvir?”

Pararam tudo que estavam fazendo, pararam de caminhar e rodar... e tentaram escutar ouvir... Tinha alguém ou algo ali? Estava alguém parado na frente delas? Vinha por trás tentando agarrá-las? Estava ali do lado e à espreita? As aventureiras tentavam iluminar pra cá pra lá, etc. O túnel era quase baixinho e dava para uma pessoa andar mais ou menos sem precisar se agachar. Dava pra correr muito bem. Dava pra correr muito rápido. A altura a largura do buraco da toca dava pra correr de montão.

- Eu juro que tenho receio de encostar em vermes e pulgas e percevejos...

“Eu tenho precaução cuidado com goteiras e coisas pegajosas, juro!”

Meu, quantas dúvidas bem na hora do escuro bem na hora do susto. O mundo é tão cheio de perigos, hein?! Tanta coisa dentro do mundo e sem explicação. Lugares escuros sempre povoados de aranhas e teias, morcegos e cacas, escorpiões e veneno, cobras e peçonhas, baratas-do-mato araués cascudas, lacraias e centopeias, ubiraçocas ou gusanos da madeira podre.

- Nestas horas que é bom estar em casa e no quentinho do lar doce lar, hem?!

“E eu digo que nem precisava ter saído de casa, né, meu?!”

- Nem consigo controlar minha mente. O que penso se transforma em horror.

“Acho que precisamos de uma chance pra correr, né?!”

Tinha uma presença ali por perto no escuro que elas nem viam, mas que pressentiam. Um ser horrível e estranho e melequento. Um algo diferente animalesco feroz. Uma entidade monstruosa horripilante assassina. E já se ouvia se identificava um ruído de... peeee-te!... peeee-te!... Seriam passos de animal arisco? Seria uma goteira? Algo com um suspiro... seeee-te!... seeee-te!... Seria o respirar o fôlego do demônio? Seria o eterno resfolegar da montanha? Seria o estômago faminto da montanha? Seria um trem de ferro vindo na direção? Seria o medo fazendo suas brincadeiras de malcriado de mau gosto? Seria a força da imaginação criando monstros disformes verdes azuis gelatinosos sarnentos babosos empedrados?

- E se agente tentar falar com a coisa estranha, hein?! É uma! Podemos fazer amizade com a criatura, né?!

“Se nossa presença for ideia de comida... nem sei se teremos chance.”

- Pode ser uma criatura de pisar em cima, hem?!

“Deve ser uma criatura oxidante, será?!”

- A minha ideia é mostrar nossa simpatia. Vamos ser simpáticas com ele ou ela?

“Talvez nem seja ela ou ele, mas a coisa o ente o diabo anhangá pé de gancho...”

- Então peraí que vamos gritar as duas e ao mesmo tempo, concorda?

“A minha ideia é sair correndo seja como for...”

Pararam, então. Elas visualizavam mais ou menos o caminho. Assim mesmo na penumbra no escuro na pouca iluminação que vinha das lanternas na frente da bíci e do celular. Pelo menos uns oito ou nove metros adiante. Era arrancar e correr.

- Eu conto ou você conta? Contagem regressiva?

“Você me leva ou eu te carrego? Você me guia ou eu te acompanho?”

Se entreolharam com razões bem definidas. Melhor correr que ficar pensando no mesmo lugar. Precisavam se livrar logo e logo daquele buraco amedrontador. Era tudo medo e receio e o pensamento estressante só aumentando. A covardia às vezes vem do nada. A incerteza às vezes vem do nada. A dúvida sempre vem do nada. Quede ideia!

- Vamos sair correndo como se nem houvesse amanhã, tá legal?!

“Sem demora, menina!”

- Contagem super-regressiva... um 1 dois 2 três 3 e já!...

“Já fui já vamos agora e simboraláaaa!...”

As duas se mandaram pra frente e no rumo que apontavam os narizes. Correram como nunca. Ambas a pé e rodando. Que era assim mesmo que se deixava o medo pra trás. Uma levando a outra pela mão. A outra guiando uma pela lanterna de pilhas novas. O túnel era sim a garganta da montanha. Pisando rodando sobre pedras soltas brita chão de terra seca solo de argila resvalando no barro derrapando nos seixos rolados. Se cuidando seriamente para nem pisar em palavras difíceis de significar e retrusão, plectro, moponga, fuste, dossel, etc. Correr mais rápido que um bicho ou dois que correm muito melhor e mais depressa. Pernas e rodas buscando a luz bendita do dia.

- Falta pouco, eu acho.

“Eu acho que falta pouco, sim.”

- Deste momento, de agora, dagora.

“Sinhá maracujá ubá gravatá manacá arapuá hiapuá mairá.”

Sem parar para descanso adivinhando o rumo que só existia pra frente. Aguardando a qualquer momento o fim do túnel. Esperando na curva já a luz no fim do túnel. Querendo que a luz do sol aparecesse e as salvasse do sufoco. Tudo por uma luz.

- Nessa hora que D deve ajudar a gente, né?!

“Eu tenho fôlego mas me preocupo por você, menina Lilás.”

- Nem acho que falta muito. Sim, devíamos estar já fora do inferno.

“Sinto um ar fresco e renovado e uma brisa vindo na nossa direção. E parece que vem pela frente. Parece...”

- Eu aposto que estamos quase porém salvas.

“A montanha parece nos rejeitar nos cuspir nos enxotar, então.”

- Uma montanha é sempre uma montanha.

“Uma montanha é uma onda uma corcunda da natureza natural.”

Num segundo já aparecia uma luz e a luz aumentando exponencialmente gradativamente maiormente espetacularmente sensacionalmente sentimentalmente. E tudo se aclarou como se amanhecesse como se a janela do quarto se abrisse pela manhã de sol diante da luz solar e deixasse entrar a luz do grande astro com tudo com força com deslumbre iluminando clareando tudo e até ofuscando a visão. E muita luz e tanta luz, de tanta luz. Uma ideia de luz amarela plena completa. Claridade natural comum.

- Luz forte que nunca vi mais clara e abençoada.

“Minhas tintas e cores ficam voltam chamativas, veja!”

Viram a estrela do sol admiraram todo o esplendor a luz total e pensaram, qualquer um pensaria, que chegavam de sorte pelo paraíso e estava ali a felicidade. Tanta e qualificada saudade do dia (sau-da-de ou sa-u-da-de, tipo de separação hiato por diérese). E por assim dizer a salvação. E era mesmo, que a escuridão ninguém merece.

- Pretendo nunca mais fazer uma passagem assim. Os túneis são bichos perigosos. Os túneis são estômagos quase famintos que nos engolem, é.

“Nunca que devemos arriscar nosso metal ou nossa pele, né?!”

- Sim, estamos perdidas. Continuamos perdidas e bem desorientadas. Por quê? Simples. Nem nunca que me lembro já um dia passamos por este sítio. Assim é. Nem conheço. Você conhece reconhece este lugar, hein, Magrela?

“É, devemos encontrar o porto o portinho. Devemos reencontrar nosso barco e sair da ilha. Custe o que custar.”

- A aventura vale a pena quando termina bem.

“Tão bem como foi bem e perfeito no começo.”

- Ei!... Temos cobertura? Mas posso tirar uma foto.

“Porque a beleza nunca... so-bra!”

Em seguida se desenhou pela frente uma rota entre o arvoredo viçoso passiflora. A menina nem tinha muito problema para andar. A Magrela também nem era problemática. As duas iam pelas mãos da menina e muito concentradas no caminho novo. Nunca que conheciam aquelas paragens e entranhas e sítios e endereços e lugares e glebas.

- Acho que devo telefonar pra alguém, você concorda?

“Sim, sempre concordo com tudo que você faz. Deve telefonar pra alguém do teu agrado e conhecimento.”

- Alguém que diga: “Amei amar amo ouvir você!...”

“Justamente preferencialmente esquisitamente melhormente.”

Árvores plantas flores sem perfume com perfume ligeiro perfume acomodado perfume discreto perfume evidente perfume forte. Vegetação vegetais ervas com abelhas borboletas besouros colibris, beija-flor-tesoura-verde, beija-flor-de-banda-branca, beija-flor-azul-de-rabo-branco, beija-flor-preto-e-branco. Que tudo e todos(as) são atraídos pelas cores e aromas e fragrâncias e olores. Nem há silêncio na natureza bela. Trechos fragmentos excertos extratos vale val de mato capão e mancenilheiras, árvores-do-papel, juremas-de-pedra, bugres-brancos, guacos-falsos, batatas-de-caboclo (que estas têm raízes comestíveis tuberosas tubérculos túberas tuberoides).

Numa altura do caminho encontraram um riacho e o mesmo descia acompanhava a direção ou o sentido que as garotinhas queriam. Iam para o mesmo destino, ou seja, o riacho corria para o mar. E quem sabe desaguava no cais tão querido tão procurado tão esperado tão ameno tão legal tão requerido?!

- Ora!... Vamos acompanhar o rio que ele nos levará até nosso porto e nosso barco. Assim nos salvaremos e devemos nos salvar. Assim diz o destino.

“Assim devemos fazer para nos salvar ainda hoje. Assim diria o ditado.”

- Talvez com tempo de ver a praia de Zimbros, em Bombinhas.

“As praias de Biguá e Canto Grande Fora, estas já são aconchegantes.”

O riachinho era tímido e já dava pé vau a todo momento. Corria limpo faceiro pequeno entre as pedras pedregulho seixos rolados serpenteava torcicolava coleava. Era muito cristalino e ondulante serpeante. E sorria sinuoso para as árvores para a luz do sol para as paisagens para as aves. Ainda nem era um rio navegável por falta de mais corpo encorpar afluentes mais carne mais águas mais robustez mais líquido e liquidez. Parente de rios espalhados pelo mundo e fazendo história e rio Passa-Cinco e rio Cabeça...

- Devemos seguir o destino das águas. O rio nos levará ao oceano, que também é nosso país. Ver se o mundo é pequeno ou pra lá de grande.

“Talvez nem demorará muito. Talvez meia hora, mais ou menos.”

- As águas estão boas, as pedras estão rolando seixos rolantes.

“A imaginação coloca barcos embarcações navegações.”

Umas árvores convidaram as garotinhas para um desfrutar de frutas. A menina estava com uma fome e comeu jabuticabas. Depois achou pitangas. No mesmo lado da trilha encontrou amoras-do-mato. Uma cerejeira-do-rio-grande, enorme e carregada de frutos, convidou as aventureiras:

- Olá!, gentes boas. Sobem para cá e sobem para meus galhos e colham mais colham meus frutos minhas cerejas maduras apetitosas suculentas nutritivas, hein?! Querem mais? Venham, subam, escalem meu tronco cerne de madeira de lei.

O convite prometia muitas frutas maduras e bonitas e atraentes, mas as viajantes já tinham experiência de nem se enredar em árvores e depois ficar presas. Assim, ficaram com água na boca e recusaram o convite. Agradeceram, mas declinaram:

- Olha, dona árvore cerejeira, agradecemos mas temos pressa e já vamos...

- Nem umas de amostra? Nem um punhado de frutinhas? De-grátis!

- Deixamos pra próxima, né!, tia cerejeira.

“Sim, o custo benefício nem vale a pena. Vai quê!”

O mato era estreito estreitado ali naquela altura do caminho e de vez em quando fazia assim como que uma pérgula ou caramanchão recobrindo o passeio. Eram plantas trepadeiras que iam de um lado ao outro da trilha deixando que as pessoas ou os animais passassem embaixo e por entre seus ramos e raízes. Fazia uma espécie de galeria encoberta de raminhos folhas lianas. Algumas dessas plantas até despejavam flores igual tais e quais umas maracujás-suspiros, batatas-do-campo, canas-de-passarinho, nhambuís, guajuviras-da-baía, paracuubas, coiranas-do-rio-de-janeiro.

- Se temos cobertura ou nem? Devemos tirar uma foto autorretrato, Magrela!

“Seria uma foto fotogênica e peculiar. Uma estampa estupenda.”

O riacho descia contínuo para oeste, as aventureiras também desciam confiantes para oeste e acompanhavam a vontade da gravidade. Tudo levava a crer que chegariam ao porto ao barco e ainda hoje. O mais tardar daqui a pouquinho. Logo ali. O riachinho parecido e fisionomicamente comparável aos primos irmãos rio Jacu rio Corumbataí...

- Eu precisava descansar porém deixo pra amanhã, sabe?!

“Eu nem preciso descansar, mas te compreendo.”

- O mundo começa onde termina e dá início.

“O mundo nem acaba em barranco, eu sei. Vejo daqui.”

Uma hora e foram andando quando em uma hora, à beira-riachinho ribeirinho, encontraram uma família de capivaras. Este roedor semiaquático único da família dos hidroquerídeos, cauda vestigial, maior roedor do mundo (fonte: d.h.). Estavam ali em família mesmo e pastando pasto verdinho relva tapiz tapete de gramíneas em as ermas plagas: capim-grama, capim-de-cheiro, taquarilho, capim-da-colônia, capim-amonjeaba.

- Olha só! Animais selvagens parecidos com capivaras!

“Roedores comedores de pasto. E vestindo um casaco de couro de pelo duro.”

A menina Lilás e a Magrela viram a família capivara. Que a família toda ergueu a cabeça ao ver passar as duas aventureiras. A menina chegou e indagou:

- Oi!... Bom dia! Pra que lado pra onde eu chego nós chegaremos encontraremos o porto, hem? Faz tempo que estamos perdidas e sem cobertura de telefone, eu e a bíci.

A capivara mãe se adiantou à tropa e respondeu no balido grunhido nitrido:

- Hu-lalá!... Se vocês continuarem seguindo para oeste já logo logo encontrarão a saída pro mar. Fica a menos de 8km e umas 15h no passo de animal quadrúpede.

- Parece que é longe e difícil, né?

- Então, antes do meio-dia vocês dificilmente chegarão. Podem apressar o passo, se quiserem. Podem descansar na sombra de uma árvore, se assim acharem melhor.

- Acho que já vamos andando para nem perder tempo, é.

- Nós capivaras nem vamos naquela direção porque nem nos interessa chegar ao mar. Gostamos mais da água doce, entende?

- Então, tá! E obrigada! Que o deus das capivaras lhes favoreça e lhes ajude no que for preciso. Agradecidas pela dica e pela atenção. Tchaaaaau!...

“As capivaras são gente boa, né?!, menina.”

O dia estava ali e pedindo para entrar em recesso, juridicamente e naturalmente. O caminho estava correto e era ainda por percorrê-lo. Quase hora do almoço e a menina estava ficando com fome de comida boa. Onde um restaurante? Assim bem longe de casa? E isso e aquilo iam demorar. A fome nem espera e as horas passavam de lado.

- Vamos que vamos, né, Magrela?!

“Que afinal estamos no caminho certo e mais cerca do que afastadas.”

O céu estava bonito, limpo. O sol queimava deveras, estuante fervente fervilhante. As aves eram canoras e apaixonadas pelo meio ambiente e saurás, ajurujurás, passarinhos-de-verão, taperuçus. As árvores fincadas na margem da trilha cuidavam da própria vida delas vegetais e canafístulas, moacãs, braços-de-preguiça, mangues-de-água-doce, guaiacãs, gameleiras-de-pinga, rabos-de-rato.

Havia som, havia cores, havia mato, havia pássaros, havia riacho, havia sauís. As plantas, roupas verdes camufladas na vegetação, ainda lutavam lutando com o vento. Os arbustos remoçados moços inteligentes famosos prestigiados e já na idade de pleitear requerer discutir debater. Capoeira de personalidade revel rebelde insurgente. Sem-número de espécies de ervas daninhas à feição com ânimo e humor favorável para derrotar profligar derrubar arruinar verberar.

Já o preço da manhã custava a passar. O preço e uma hora já era tarde. O preço de uma palmeira paxiubamirim estava alto. O preço de uma árvore catiguá estava frondoso. O preço de um casal de pintassilgos estava valendo muito. Quem somar?

O próximo passo as próximas horas era andar pra frente. E caminhando rodando que a trilha nem deixava pedalar. Assim ia o tempo a cronologia dos fatos. Hélio o sol heliografia antélio anti-hélio, tudo em ordem e atendendo aos requisitos da hora.

- Se temos cobertura pra telefonar. Posso tirar uma foto e autorretrato.

“E a beleza nunca... des-faz.”

- O mundo empacotado do jeito que está em doutrinas problemas emoções.

“Carretel anel marnel laurel pastel parcel esparcel batel farnel coronel.”

Num dado instante num lugar qualquer, apareceu um gavião e já pousado acomodado num galho bem alto do jacarandá. Sim, bem à beira do caminho das duas passeadoras. O gavião-telha estava aboletado e pacífico, sim senhor!, no galho mais alto maior especial do jacarandá-cabiúna. E cuidando quem passava na estrada no caminho. E a ave de rapina se adiantou, saiu na frente e piando alto:

- Oi-nhéeeee!... Como aparecem, gente?! Aceitam uma ajuda? Posso servi-las?

- O quê?! Boa tarde, gavião-caburé!

- Oie!... Nem sou caburé. E aonde vão com tanta pressa, gentes boas?!

- Nos dirigimos pro mar, gavião-carijó. É longe, me diz!

- Oi!... Olhe, nem sou carijó. Vocês estão perdidinhas, é?

- Só uma informaçãozinha, bom gavião-caboclo. Para que lado fica o portinho?

- Olêeeee!... Que o porto fica pra lá, justamente pro oeste. Querem uma carona? Eu mesmo estou indo naquela direção. Posso levá-las sem preço algum, de-grátis! Aceitem e aceitem. Se nem aceitarem, azeite e oi-nhéeeee!...

A menina ainda pensava na oferta da ave de rapina. Mas aí como ela iria transportar duas pessoas, ela e a bíci? Parecia que era mentira. Nem ia dar certo. As duas nem seriam muito pesadas para a ave? Mesmo sendo uma ave grande e predadora? Mesmo sendo e parecendo uma ave enorme e teimosa e rábida raivosa? Mesmo sendo uma ave das mandachuvas e hipócrita mendaz mentirosa? Ave de ótima envergadura.

- Acho que nem dá certo, seu gavião-azul. Nem será pesado demais pra ocê?

- Oi-nhéeeee!... Que nada. Eu tenho força nas asas nas garras, quer ver?

- Talvez fica pra próxima vez, gavião-indaié. Fica pra próxima oportunidade.

- Oi!... Que nada. Pode ser hoje mesmo. Nem cobro nada e ainda faço com gosto. Meu jeito de servir pode lhes ser útil, hem?! Deixem de nove horas!

A oferta estava tentadora. E mas parecia promessa muito fácil. Parecia algo que nem podia ser realizado. Como uma ave carregaria duas pessoas, uma pessoa e uma bíci? Sim, era demais e em demasia. Tinha cheiro de arapuca. E assim pensando rapidamente, a menina rapidamente disse que nem precisava de ajuda:

- Nem nada, seu gavião-de-penacho. Nós duas vamos a pé e rodando mesmo assim. Nada de mais. Obrigada e até logo e até outro dia.

- Oie!... Mas nem me custa nada, meninas! É um voo sobrevoo. Daqui até ali. Um voo bem rápido e tranquilo. Um pulo e mais o quê. Tipo como igual voo de drone.

Aí a ave saltou no ar e veio voando planando bem perto por cima das duas aventureiras. Enquanto as duas andavam a ave acompanhava voando, lentamente sobrevoando. E suas longas asas faziam um vento considerável no entorno. E seu corpo grande fazia sombra no chão e até assombrava quem via de perto ou estava ali por perto. De asas abertas tinha uma envergadura de mais de dois metros e meio. Tinha força suficiente para fazer e dar e vender. Podia percorrer 60km em um ou dois segundos.

- Oi!... Sabe o quê, meninas! Vocês estão perdendo uma boa oportunidade de irem mais rápido e cômodas, hem?! Iremos em linha reta e por cima de tudo.

- Nem tem de quê, gavião-puva. Fica pra próxima e quem sabe, né?! Fui!...

A ave florestal ainda teimou acompanhar sobrevoando as duas passeadoras e por mais uns 200 metros. Aí revolteou tipo psicopata revoltou no ar e foi pousar retornar ao galho alto da árvore timboúva. Pareceu ter cansado de tentar convencer as garotinhas. E desistiu. Desistiu ou deixou para mais tarde, vai saber!

- Então. E lá se foi escafedeu-se a ave de bico torto aquilino aguilenho.

“É ave das altas copas de árvores. É ave dos penhascos fragas calhaus penedias.”

- Talvez uma ave de gosto duvidoso e que adora muito muito carne humana, é.

“Uma colecionadora de bicicletas, quem sabe!”

Muda o vento, muda tudo. É assim que funciona a natureza isso mesmo os fenômenos naturais o clima o tempo a meteorologia. Veio chegaram voando também as nuvens carregadas acendradas cinzentas e de supetão. E o céu escureceu fechou e meio claudicante. Entornou o caldo. Umas nuvens pesadas agitadas e já anunciadoras apregoadoras proclamadoras pregoeiras de... tem-pes-ta-de.

As meninas ficaram preocupadas, evidentemente. E caso fossem obrigadas a correr e se molhar sob a chuva, obviamente. Preocupação de resfriado e tosse e voz rouca, consequentemente precisamente repentinamente:

- Eita!... Vai chover de montão e ainda agora.

“Acho que vai ser bom e refresca, prima Lilá!”

- Eu gosto de chuva de verão. Eu adoro tomar banho de chuva.

“Pegar chuva e se molhar na chuva e pular poças d’água.”

Foram obrigadas a se abrigar debaixo de uma árvore camacamará que faria podia fazer as vezes de guarda-chuva ou cobertura para cobrir colmar tapar toldar. E pronto, o firmamento o céu enfureceu encardiu. Se ouviram os trovões trovoadas ribombos tonitroares estampidos, tru-tru-tuuuu!... Sempre vindo do lado noroeste. De imediato os raios riscaram espocaram os relâmpagos chicotearam faiscaram iluminaram, estlaiáaaaa!... e isso bem instantaneamente imediatamente intempestivamente. Tudo acompanhado de tremores de terra e terremotos de baixíssima magnitude porém assustadores e difíceis de compreender naquele momento e naquele lugar.

- Será que a árvore nem vai atrair raios, hein?!

“Periga que meus metais atraiam mesmo, tá!”

- Tem muita gente que detesta raios e relâmpagos e trovões e trovoadas.

“Tem muito raio que joga com gente de metal, é.”

- A gente bem podia agorinha estar passeando em Rio Claro ou Itirapina, que lá nem cai tanta chuva nem eletriza tanto raio nem soa tanto trovão, né?!

“Existem lugares calmos e tranquilos tipo Santa Gertrudes e Leme e Iracemápolis e Ipeúna que o céu brilha transparente e pra sempre todos os dias e noites.”

A menina escanifrada modelada e a bíci magrizela delgada ficaram olharam pro céu tormentoso. Chuva caindo era bom de se ver. Chuva que chove é bom de se olhar. E os raios iluminavam de supetão e de repente. Os trovões abalavam a terra e tudo em volta. Raios, zipe-zipendeeee!... com trovões, tra-bla-bruuuu!... faziam a terra tão mais comum que se parece que podia parecer. Como se fosse de noite, o dia escureceu por todo e completamente.

- Promete chover a cântaros. Muitas águas vão rolar e rolam e rolarão.

“E pode durar meia hora como hora e meia ou mesmo meio-dia e resto da tarde.”

- Se chover em demasia ficaremos ilhadas, é.

“Sim, ilhadas na ilha, kjá-kjá-kjá!... Tão bom!”

- Se chover a chuva pega e se pegar a chuva molha.

“Eu fui feita de material moderno e de alta tecnologia anteferrugem, chapa!”

A chuva que D mandava. Ficaram as duas olhando a chuva. Mirando para o mesmo lado o mesmo fenômeno. A chuva caindo a mando de D. E a chuva descansava os nervos a chuva caia de pé e corria deitada a chuva encharcava o solo a chuva molhava o mundo inteiro. Que era assim mesmo que D queria chover. Tudo muito natural e charmoso e chique (paragógico paragoge ou epítese).

- Se chover bem feito vai alagar tudo e provocar enchente acima do nível.

“Primeiro chove depois chove muito e aí sim a enchente alaga e invade casas.”

- Como seria morar perto de um rio que alaga todo ano e no fim do verão, hem?

“Seria bom morar perto de um rio como o rio Solimões rio Caí rio Uruguai.”

- Atravessar a ponte com o rio cheio enchendo rumoroso furioso encorpado.

“Seria o rio Canoinhas o rio Tamanduá o rio Negro o rio Paciência...”

Após o mistério da chuva, e das árvores e plantas e aves adorarem as águas caindo caídas, a chuva parou parou. Como começara, já parava. Durou o quê, uma meia hora? Um pouco mais e parou de chover. As nuvens saíram e deixaram o reinado do sol. As águas pequenas da sarjeta ainda correndo apressadas e se movimentando para outros lugares, aproveitando a queda terrestre da gravidade.

- Vamos embora que já a chuva parou. Vamos embora que o sol pintou outra vez. Vamos embora que é já passado de meio-dia e 12h.

“Vamos embora, embora o chão todo molhado e embarrado e enlameado.”

- Eu adoro pisar no barro na terra encharcada, te contei?!

“Sempre eu deixo rastro na poeira ou na lama. E pegadas sem interrupção.”

A chuva deixou tudo mais verde e mais feliz. As árvores agradeceram agradeciam festejavam. As aves, nem se fala nem se pia, cantavam mais e melhor. Na valeta corria um fio d’água bem mais confiante valente valorizado. O próprio céu mais lavado do que nunca. O próprio mundo mais azul e uma transparência lavada.

- Eu respiro tu respiras...

“Nós respiramos pelos poros pela pele pela tinta plástica.”

Fazia horas que estavam andando e rodando com certo cansaço. A menina tinha as costas doloridas. A bíci tinha os pneus balão cheios de grãos de terra uma terra arenosa gandra gândara. Para a frente que atrás nem vinha gente!

- Um dia chegaremos lá, hein?!

“Quando menos se espera, quando menos esperamos esperarmos.”

- O que é hipótese? Deve ser mais de uma escolha, é.

“Qual a diferença entre código e senha, hem?”

Contornaram umas pedras grandes em forma de bichos pré-históricos. Deixaram de lado e para outro dia o agreste o selvagem o silvestre. Subiram um morro e no alto da colina no topo avistaram o mar, lá embaixo e azul ou verde. O porto com o barco a canoa embarcação estacionado no pequeno cais feito de pedras. Um barquinho sozinho e esperando pelas aventureiras. As duas imediatamente comemoraram como um gol um ponto uma joia uma taça uma medalha um troféu um prêmio:

- Olha, olha!... Olha só, Magrela! Chegamos ao nosso barquinho e sãs e salvas!

“Sim, estou vendo com minhas lanternas e sinaleiras automáticas! Obrigada!”

- Vamos que já vai pela tardezinha e ainda temos que remar.

“Estou com saudades de rodar no trecho da ciclovia pavimentada, é.”

- Tchau, árvores e pitumbas e sempre-vivas-da-serra e canelas-brancas-do-brejo. Tchau, aves e juruvas e sanhaços-cinzentos e pombas-de-santa-cruz e príncipes e tesoureiras. Tchau animais e cutias e antas e ouriços-pretos e cangambás e maracajás e preguiças preguiçosas preguicentas preguiças-reais.

“Adeus ao túnel e sua quietação e falta de interesse e indiferença e placidez. Adeus ao rio e afluentes e seus peixes e boto-cinza e peixe piratantã e tracajá. Adeus ao sendal e senda e atalho e rota e sendeiro e caminho.”

- Adeus e até daqui a pouco.

“Até logo e nos veremos em outra oportunidade.”

Sol comum simples natural normal conhecido e de vida complexa. Algumas gaivotas e atobás-pardos ou pilotos-pardos e trinta-réis-de-bico-vermelho. Era tudo festa de chegada. Tudo festa de aniversário. Tudo festa de ano novo.

E assim, como sempre, as meninas aventureiras passeadoras chegaram ao barquinho. Embarcaram no bote e remaram com gosto e satisfação. Uma com o remo da direita outra com o remo da esquerda, pla-fe! pla-fe!... No rumo do continente, no rumo de casa. Que já era hora. E logo ali. Perto daqui.

domingo, 24 de março de 2024

É, Pode Ser

 

                       

 

            E conheci tal porta, coisa e qual. Já entrei por uma porta, sabe como é! E eu fui a essa uma palestra no auditório do teatro Logaritmo, e sentei na plateia. No meio mais para o lado intermediário junto a determinada escadinha entre e ou de acesso aos acentos. Estava bom e cômodo acomodado. Livre arbítrio. E vi a porta na paisagem no cenário. Na ponta do palco bem para o lado e discreta e uma boa porta, aparentemente visualmente disciplinarmente. Daquelas de par em par, como se diz. Porta de madeira e bem pintada de cor cinza, justamente um cinza metálico um cinza sem pompa sem graça reles ou mesmo quiçá porém chauvinista. Uma bela porta objeto local.

            A mediadora apoiadora fiandeira paraninfa, Mandi Plangente Manda-Tudo (escritório fixo frente a praça Jerônimo Monteiro, Cachoeiro de Itapemirim) apresentou sem muita preleção delongas os dois palestrantes, o cabo de guerra: um homem de madura idade, Calunga Asbesto do Vissungo (residência no bairro da Liberdade, rua Vergueiro com a rua Pirapitingui); e uma mulher de média idade, Poita Estrovenga Jacundá-Verde (atelier na avenida Augusto Meyer com Plínio Brasil Milano, bairro Auxiliadora). E a mediatriz intermediária começou adiantou com as perguntas, a fazer perguntas inquirir provocar atacar flechar pungir incitar impacientar:

            - Como estão as coisas aqui e ali? Pode ser agora e já? Será que teremos mais chuva hoje a partir da tardezinha, hein? Querem comer alguma coisa enquanto pensam, enquanto escutam? De que arquivo vocês falam e argumentam? Vocês dois gostam de mascotes mais que de pessoas mais do que viajar mais do que livros? Podemos nos fixar nas dificuldades da safra de verão? Falam quantas línguas? A lei é a lei e o resto é o resto? Teria que ser obrigatoriamente uma loja de eletrodomésticos linha branca (demanda reprimida)? Alguns frutos do mato que vocês tomam a sério, literalmente? E procuram especulam encontrar exatamente o quê?

            Então o primeiro palestrante começou a falar, logicamente a mulher, nessa ordem de praxe. Mulher esgalgada escanzelada e cabelo curto estilizado. Olhar iluminado, sobrancelhas travadas grossas. Despejou a capa de chuva no encosto da cadeira de ferro. Um talismã amuleto em forma de sapo verde (poder mágico das índias guerreiras da Amazônia, lenda) preso a uma correntinha suspensa do pescoço. Vinte anos já prestados à UFSC. Por um sagrado momento atenuou o seu semblante carregado, crispado, tenso. Prefere alimentos de baixo teor calórico e sem glúten sem lactose. Nem é de beber álcool mais que uma taça de espumante nas viradas de ano:

            “Eu quero e eu posso, meu lema! Os escroques obtém as coisas às custas dos outros e abiscoitam ganham com intrujices e manhas. Temos os imperfeitos atrapalhados misturados alérgicos. Comida improvisada nem é comida, comigo. Verdade clara, insofismável intransferível indiscutível. Os impostos mordem abocanham ignominiosamente qualquer pessoa. Isso passa e repassa. Nas margens do rio Jabuti com árvores mata ciliar e mutambos, olhos-de-boi, cravos-do-campo, vassouras-das-feiticeiras, poaias. Mais importante que tudo é o legado de cada uma.”

            Aquele segundo palestrante, senhor de cabelo rebelde, puxou a fala e disparou. Fala num timbre com energia ranço polidez. Sujeito dispéptico. Em mangas de camisa e colarinho folgado, um olhar de leve faceiro, nariz ossudo comprido, vinco na testa, as sobrancelhas enormes tufadas. Passou o lenço de papel pela testa banhada em suor. Ouvido afiado. Fora anos atrás da hierarquia do exército, tenente-coronel. Concertou a garganta, coçou a orelha direita, mexeu com o pé esquerdo no piso de ladrilhos:

            [Por mim, tudo bem! Meus parentes querem escrever um livro contando a saga da família e desde a Europa. Nem somos de todo infensos ao exercício físico diário. Acho que sim. O lagostim o crustáceo na água, a ave no ar gavião-puva, o tinhorão a paracuuba-cheirosa-da-várzea o cunabim o sururucujá na terra. De tudo mesmo ficou aquela viagem turística a Serra, o bairro Jacaraípe, as lagoas Juara e Jacuném. Meus dois filhos, um casal, nem seguem a profissão do pai. Ora, além de um lustro quinquênio que nem mais abro e leio as revistas e os jornais impressos!]

            Eu estava me comportando na palestra e inserido na plateia a claque. Enquanto rolava a conversa conversação o debate ou sei lá o quê, eu olhava a porta existente na plataforma no tablado na parede oposta. Uma tábua em pé atrás dos palestrantes, estes sentados em poltronas fofas e vermelhas de desenho moderno. Tinha um aviso na cara da porta, um adesivo colado carimbado adesivado, e que eu nem conseguia ler direito assim distante. Eu ouvia a conversa e olhava a porta, esse o meu jeito de esperar. Porta fechada contrastando com a língua solta dos dois debatedores mais a mediadora inquiridora atiçadora predadora incentivadora. Eu aguardava que a porta se abrisse a qualquer momento, é. Contava com isso. Contagem regressiva. A porta devia ter um sabor próprio ou característico. Porta corta-fogo ou anti-incêncido. Porta doméstica caseira plebeia objetiva.

            - Que história retroativa é essa, senhor e senhora? A subvenção é uma forma de crocodilagem ou sabotagem? Que tal ajudar auxiliar os filhos dos sumidos na enchente do último ano? Há manual pra isso? O que vocês sabem ou duvidam sobre a descoberta desse novo planeta? Pode que fora mesmo uma tramoia trapaça chicana dos imigrantes?

            Sobrancelhas contraídas. Cabeça baixa. De repente mordiscava a tampa azul-escura da caneta azul de tubinho branco transparente. O olhar passeava das luminárias à plateia às paredes em torno lisas sem adornos. Lenta, procurando se acalmar. Face contente com leve rubor. Duas covinhas quando ria. Uma compressão na garganta. Fala doce suave, melindrada. Nas tardes de chuva, ia à biblioteca Júlio Afrânio Peixoto a ver se se interessava por velhas revistas de informação geral e economia em particular.

            “Gosto de visitar aeroportos. Chegou a hora de descobrir e parar com achar pensar imaginar. Parem com o carnaval fora de época, micareta! Socorram os aviltados desonrados rebaixados envilecidos deslustrados. Sei como é. Acordo cedo no verão com pios de aves e sanhaço, sabiá-laranja, papa-capim, saíra, pomba-rola, anu-de-enchente, tchintchorrintcho, guaruba. De visita nas férias do meio de ano em Guaçuí e Varre-Sai e Nanuque. Meu sobrinho vai casar e eu nem sei o que dar de presente. Eu que o diga!”

            Contraindo os maxilares, sobrancelhas travadas, olhos caliginosos. Disfarçou um bocejo com jeito de cansado. Pensava, enquanto nem ouvia a debatedora oponente, em tirar férias navegar pelo rio Benevente. Seus lábios estavam ficando mais frios. Compenetrado. Raramente ficava zangado com as opiniões contrárias. Xilofonista nas horas vagas de descanso de relaxamento de desconexão.

            [Sentia alumbramento de um êxtase renovado. É, pode ser! Ter vontade é ter sorte. Facultar a saída facilitar dar permissão. Minuto: unidade de medida de tempo equivalente a 60 segundos ou 1/60 da hora (fonte, d.h.). São muitos os roteiros e eu me interesso e Turiaçu, Guariba, Conceição da Barra, Piúma, Linhares e a lagoa de Juparanã. Escolhos abrolhos arrecifes. Fosse onde fosse. Me dou os parabéns.]

            Eu olhava a porta e a mesma fechada. Porta portão portinhola portal. Era o jeito da porta dela. Entrada de palco de casa de prédio de cidade. Imaginei a porta se abrindo e aparecendo umas aves gurinhatás sabiás-do-piri uns micos saguis-leãozinhos uns peixes lambaris bagres charutinhos. Aparecerá uma pessoa e me dirá: “A porta que se abre e eu apareço estou aqui e só você percebe esta minha presença neste palco. Você me vê primeiro. Por esta epifania você ganha um milhão.” E por acreditar e esperar esse milhão, eu olho a porta e nem tiro os olhos da mesma. Ouvindo a palestra os palestrantes e olhando espreitando espiando a porta. Quase esqueço de pensar na fala abalizada dos conversadores conservadores. A qualquer momento a palestra abre a porta e eu escuto alguém entrar. A porta parada em pé. A mesma devia ter um gosto por algo. A mesma devia ter um sabor por algo. Porta comprometida e compenetrada de si. Alguns rabiscos na pele da porta rasuras riscos escarificação, sempre os há, marcas a canivete ponta de chave unhas cascos garras dentes.

            - Que é passear descalço na areia da praia de Regência? Que querem? Vamos perder a caminhada? Vão subir e se elevar aos céus? Há jabuticabas na praça Coronel Horácio, em Curuçá? Quantos rios servem e alimentam o lago do Guariba? Bolacha ou biscoito nevados ou nem de açúcar? Feijão por cima ou por baixo do arroz? Salada com cebola ou pimentão?

            Descalçou os sapatos salto agulha e os pés vestidos com meias pretas ambos apoiados nos respectivos pés da cadeira. Olhos contentes brilhando. De momento repentinamente se empolgou riu nervosamente e bateu a mão direita no joelho correspondente. Alteou o busto. Cabelo trançado em forma de rolete coque no alto da cabeça. Vergada sobre a mesa, o cotovelo direito apoiado, a mão esquerda segurando a cabeça. Pronto, era o que precisava aí, esboçou um sorriso. Bisavô arrieiro tropeiro. Respirando rápido coração acelerado. Bem acomodada satisfeita na cadeira de encosto alto e de couro tauxiado.

“Sigo o viso do meu pai. Agora, é aguentar o rojão. É, pode ser. Já cruzei cidade como esta daqui. Com minhas palavras é isto. Nem almejo vida nova. Sim, paciência disciplina estudo. Vou plantar uma sibipiruna no quintal e ver como se vai. Paro pra pensar nestas coisas aleatórias e então me conformo com a sorte. A palavra conjuntura é um termo adequado. Faço vitaminas do mandapuçá ou munduru ou jabuticaba-do-cerrado (frutinhas de bagas globosas), pindaíba, jaracatiá, pixirica, ameixa-da-terra, cambuci. Se D existir estarei salva, é.”

Movimento ágil dos polegares curtos grossos nas mãos entrelaçadas inchadas. Olhou a oponente pelo canto dos olhos. Rosto sombreado, bochechas frouxas. Sobrancelhas alteadas e tentando espichar o corpo, principalmente os membros tanto inferiores como superiores. Rosto afogueado. Um rilhar dos dentes briquismo ameaçador. O suor a lhe escorrer das têmporas. Atirava momentaneamente o corpo para trás no encosto da poltrona, isso quando tinha obrigação de ficar atento ouvindo sua contendora. Cruzava os braços numa atitude instintiva psicológica de defesa. Quando escondia a boca com a mão estava precisando falar alguma coisa urgentemente.

            [Iguais parecidas idênticas e com a mesma causa comum e consequência. Muita gente na festa. Tive o gosto e hoje pago. Iba ou haste de planta como de assa-peixe e ingá-bravo e jenipapo-rosa e paricá-de-esponjas e manjerona-do-campo. Prefiro as árvores frutíferas. Sagu mais musse de chocolate mesclado com bolachas maria, meu doce sobremesa de infância predileto. Entre frio e calor prefiro este último. Nem deixo por menos que isto. Já consultei o médico fiz todos os exames obtive os resultados, por este ano basta.]

            Um momento e a porta olhou nos meus olhos e disse, juro que ouvi: “Miau!...” Minutos hora olhando a porta. Tanto que minha memória a reconheceria futuramente em outros lugares e ambientes e eventos. Parada imóvel como uma porta fechada. A porta e suas circunstâncias. Se eu fosse falar com ela... Vou tentar lhe falar de todo modo. Tenho coisas curiosas para conversar com ela. Tem sim uma cadeira ali bem perto dela e de um vigia de um guarda de um servidor de um assistente de palco. O silêncio fechado da mesma porta e sempre muito mais longo monótono. Para inibir a passagem de alguém. Para indicar que os ambientes são distintos.

            - Será que vai ficar mesmo legal? Querem um café? Onde e como vocês moram, com quem? Os salários estão bons? Que idades? Vocês, o que acham? Que altura e idade pode ter esse jequitibá-vermelho aqui em frente no meio da praça Carlos Gomes? Comem angu no desjejum? Acham que o rio Turi vai subir quanto neste mês de março? Será que estaremos retornaremos para casa antes das 23h?

            Tatuada nos antebraços, tatuagens que lembram ideogramas chineses e frases em árabe. Rascunhava minutava num pequeno bloco alguns tópicos da fala do adversário e que depois na vez iria discorrer. O rosto enrugado, as sobrancelhas grisalhas contraídas. Escondia vez a vez o rosto com as mãos, então se defendendo como podia de um bocejo mais ameaçador afrontoso. Respirava, inspirava expirava.

            “As abelhas aramás fazem sim suas surtidas ataques assaltos investidas no nosso parreiral. Vamos falar falamos dos ignóbeis hediondos desprezíveis. De tudo mesmo ficou aquela viagem a Santa Leopoldina, o rio Mangaraí. Tenho sim que ler mais poesia contemporânea. E viajar de transatlântico está na moda.”

            Uma cara enorme e vincada. Consentia anuía muito frequentemente sacudindo sim com a cabeça. Corpo achatado amplo, pomo de adão saltado, pescoço curto e largo. Voz baixa e seca. Braço cabeludo descansando sobre o braço da poltrona, olhos fixos sobre a mesa e num ponto qualquer aleatório pensativo distraído. Sério calado obscuro. Seu bisavô fora componedor do jornal Maratimba, gazeta local da cidade natal. Aflito chateado dispersivo audacioso. O olhar passeava pelo abajur de bronze que lhe lembrava lembrando um candelabro ou um lustre.

            [Me sinto positivo. Os peixes da água capturados na puçá ou pari paritá e piaus, cascudos, carás, aracutingas. Assim eu ajudo meu sonho a acontecer. Em Iconha (água ardente ou montanhas personificadas, em tupi) desce o sol junto com as 18h e 45min; ali acontece a disputa da praia de Areia Preta e a praia de Meaípe entre respectivamente a terceira idade e a galera jovem; ali mesmo a noite é muito mais próxima de nós; ali sim os vaga-lumes acendem vibram nos tufos de grama da praça José Geraldo Vieira; ali ainda o jantar fica para depois da passagem do trem das 20h. É mais ou menos isto. Nossa avó materna já nos deixou faz tempo e agora é lembrada com nome de rua nesta cidade.]

            A porta tinha a ver com a salão. Uma porta dormindo fechada trancada em pé. Se a porta se abrir a qualquer momento é porque alguém pode entrar entrará nesta história. Porta de madeira de lei feita da ibabiraba. Porta iluminada pelas luminárias lâmpadas e a claraboia, cúpula envidraçada e praticada no teto. Um exemplo paradigma modelo que serve como padrão. Grave, fechada em si e sem cumprimentar ninguém. A porta devia ter cheiro, talvez um óleo de peroba, que de onde eu espiava e olhava nem ouvia nada. A porta merece todos os aplausos que ouve e escuta.

            Que encontro estamos promovendo? Vocês conhecem a praia Barra de São João, a ilha Barra do Serinhaém? Dirigem carro? Tocam música? Explicam a física quântica? Seria uma abordagem tipo de professores acadêmicos de engenharia civil? Querem conhecer a foz do rio Jacuí? Estão cansados, senhora e senhor? Terminamos logo com isto? Quanto vale 15 dias nas montanhas ou serra do Cipó?

            Bebia o cafezinho numa pequena xícara branca de porcelana decora com flores e servido por um garção fardado empertigado e surgido do nada de repente. Seus irmãos, maiores que ela mais velhos, têm uma retífica retificadora de automóveis em Guarapari. Mecha de cabelo preso no laço de fita azul. Acaba de reler, e pela terceira vez na década, o romance “A Maçã no Escuro” de Clarice Lispector.

            “Já tenho estrada suficiente para entender nem me surpreender com nada e um pouco de tudo. As pessoas são assim e mais. A manjuba, peixe marinho Atlântico; um lagarto, a lagartixa-das-dunas; mamífero xenartro e ventas narinas estranhas, tamanduá-colete; marreca ave, apaí ou irerê ou paturé ou piadeira. Antes nós nem víamos a ponte Canoa Boieira sobre o rio Jacuné, antes nem tínhamos a fábrica de brinquedos Almofariz, antes nem tínhamos esta ralé escória choldraboldra parasita apegada ao governo do Estado. Meu cão Xodó está bem amestrado e dança sobre as patas traseiras sobe em árvores carrega chinelos e sapatos deita e rola na grama do jardim atende com brandura ao carteiro.”

            Desconfiado lento oblíquo modesto cauto. Tossiu, concertou a garganta, as pálpebras semisserradas. Entroncado, um pouco deslocado na cadeira de palha trançada. Muito sisudo com cacoete sempre toda vida repuxando os cantos da boca. Ruga forte no meio da testa. Gestos com o braço a mão direita, solene solenemente. Bigode ralo e hirsuto, cerdoso. Vai ao barbeiro cortar o cabelo duas vezes por mês ou de 15 em 15 dias, e sempre aos sábados pela manhã com hora marcada às 10h.

            [Por agora na praça da Bandeira temos e muito bem povoada as plantas ipecacuanhas-pretas araribás cúbios marmelos-do-campo pojós e pássaros os curiós cambaxirras coleirinhas pucaçus pintassilgos bentererês macucos. Hoje está o dia que madruguei. Antes que me esqueça, parabéns e regozijo pela efeméride que se avizinha. Tenho minhas batidas e sucos de croada ou coroa-de-frade, cabeludinha-do-cerrado, puruí ou goiaba-preta, mangaba, cagaita, murici, gabiroba. Nem nunca imaginaria que uma coisa desse porte pudesse estar relacionada com outra tão mínima insignificante miúda. Podemos ir todos ao baile de formatura, óbvio. Assim é que eu gosto. Já falei pra minha senhora, vou trocar de marca de erva-mate.]

            A porta estava a minha espera, eu adivinho. A porta me encarava e sem olho mágico. Uma espécie de epifania presença entidade e presa à parede à moldura pelas dobradiças. Típica mocoronga tabaroa rústica. Com trinco maçaneta chave de ouro. Porta passagem para um corredor e que daria acesso aos banheiros aos vestiários e para outras dependências e portas e portões. Longe o dia que a porta fora gente na floresta.

            Se se ofereceram, por que nem continuam articulando? Já vão quantos dias sem chuva? Que lhes devo prometer ou pagar para que fiquem mais 30 minutos? Nem haverá consequências? Como vai a humanidade? A que horas sai o voo para Caxias do Sul? Como nem percebemos há mais tempo? Que temos de novidades? Ordens superiores de quem superior? O que encontraram? Quem mencionou formulou esta frase com suas nuances subliminares? Isto é possível hoje em dia?

            Enquanto espera ouve aguarda sua vez de falar, rabisca algo aleatoriamente no caderninho ou um desenho uma palavra que outra uma firma assinatura jamegão. Legista especialista em leis de trânsito. Rosto iluminado e as pupilas radiantes, tanto pelas luminárias pendentes do teto de telhas de acrílico como por uma luz interior. Peitos arrojados altos. Gesticula e fala pelos cotovelos, vai fazer 50 anos em julho. Olhos austeros, fazendo beicinho biquinho para sorver o café da xicrinha. Se aposentará em breve pela UFSC e cairá na compulsória. Tem sempre razão no que diz. Está acima da verdade verdadeira. Sempre posicionada ao lado da ordem e do progresso. Em teoria considera tudo e na prática o possível.

            “Como nunca vi ou nunca se viu, eu garanto. Sempre fui assim. Sim, compromisso é compromisso. Me lembro de tudo e como se fosse ontem. Seria bom uma chuvinha para refrescar. Benza-o D, caro amigo debatedor! Na festa congada ticumbi alardo, no rio Santa Maria da Vitória o cardume de anujás ou cumbacas, em terra os teiús, nas árvores os monos ou muriquis, no ar nas asas os cumatangas e jacus e corrupiões e xeréus. As horas e os minutos voam. É uma boa história. A notícia mais rica milionária é que vão construir edificar no bairro Cambucá desta cidade um resorte superpovoado de coqueiros-aracuris e juçaras e babaçus e buritis.”

            Pálpebras risonhas. Pescoço encordoado avermelhado. Rugas vincadas nos cantos da boca. Espinha dorsal curvada reverente. Provedor de instituição beneficente hospital São José. Rodava os olhos pelo palco pela plateia verificava o teto as paredes a porta que dava para os sanitários. Calva luzidia, mãos impacientes, pernas elásticas dobráveis, pés apertados dentro de sapatos de couro marrom. Alteava alternava olhares pra cá pra lá. Coçava o queixo, refletia, olhava a assistência e falava na sua vez.

            [Nem se pode deixar que outros, pessoas estranhas, façam por nós. Se nem chover firme e forte por uma hora ou duas, dentro do prazo de 15 dias, faltará água na cidade. Tudo como antes e o tempo passando. Monopolizar açambarcar o mercado de laticínios. Na juventude na época universitária, fomos muito de carraspanas porres bebedeiras tiorgas e essas coisas tontas. Foi um sonho que tive esses dias. Conjugo que a cidade de Muqui (tupi, “entre morros”) tem parte de casas tem parte de água o rio Mucuri tem parte de terra isolada a ilha de Itaputera tem parte de mato com rochas enrocado o parque Pedra do Fritz. Me falta visitar viajar para Roraima, antes de ontem.]

            Difícil arrombar a porta, robusta. Por trás as fauces goela garganta de bicho selvagem. Que nem se move facilmente, perra emperrada. Aponta pra o corredor que vai dar em outra porta envidraçada automática de correr ou giratória de sensor e saída saindo na rua Bambina com a Vicente de Sousa, bairro do Botafogo. Uma passadeira de linóleo conduz a partir da porta até a mesa e as cadeiras do palco onde a apresentadora e os dois palestrantes debatem. Passam da porta os com reserva pessoas convidados. Sólida respeitável e duradoura. Uma porta idêntica a esta é algo inesperado. Totalmente concreta ignorante calhorda zorra indolente. A porta ali é diferente do mar da praia do dia da lua do cardume de uararas da plantação de pitas da geleia de pitangatubas. Detém o vento a chuva mas nem o ruído da rua as buzinas dos automóveis o atrito do trânsito.

            - O que é que vocês nem sabem? E agora? O que é que vão dizer lá em casa? Vocês estão fugindo da verdade? Que é que está sucedendo com o mundo? Como vão as coisas em a praia da Cruz, Marataízes? Vejam, o instituto Chão Limpo nem pode colaborar conosco? Vocês sabem e reconhecem que são os outros filósofos atuais? Sabem como é? Que árvores da flora nacional devemos plantar no jardim botânico local: goiabeira-serrana, cereja-do-mato ou purga-de-gentio, pitomba, jatobá?

            Sincera impressionada e sempre pronta esperta atenta a dar seu veredito sobre tudo sobre qualquer coisa. Movimentos graciosos e elementares. Quase muita maquiagem. A mão ossuda escorregando pelo rosto e já atirando as pontas dos cabelos aos ombros. Às vezes ensaia aquele gesto pudico. Leve preocupar frisar da testa.

            “Sim, óbvio, as pessoas em geral hão de ficar intrigadas. E agora mesmo é que são elas. Aqueles dias foram perdidos, eu sei. Pois o parque da Redenção lotado de árvores perobas-de-gomo e pitangas-traíras e cajás-mangas e urucuns-da-mata e muriris e guaximas e bocaiuvas, por exemplo. Nunca é tarde. Um alqueire de terra boa já para plantar cultivar, gleba roça já cabrocada junto ao debrum da mata, está valendo cerca de R$800.000 no interior às margens do rio São Domingos em a cidade de Pedro Canário. Sim, ao som da orquestra, dancei em o casamento de a minha prima Ana Paula.”

            A fala cheia, as mãos enérgicas, os olhos claros atrás das lentes fortes. Enfarpelado em a roupa nova. Respiração ansiada, nariz grosso, colarinho duro, camisa de mangas curtas e engomadas, sujeito alto quase do tamanho da porta. Repuxa os lábios, crispa os dedos, um sorriso pleno que vem e vai, enche o copo descartável com a água mineral da garrafinha de plástico, o celular sobre o tampo da mesa e ao alcance da mão direita. Fisionomia contraída. A larga caixa torácica sobe e desce com o esforço da respiração.

            [É, se passaram uns quantos tantos dias de lá pra cá. Nem tenho motivos para o suspense. Nessa época eu trabalhava de noite e estudava de dia. Sei tudo como é. Na faculdade todo mundo sabia disso. Será o que D quiser! Nem posso e nem vou responder dizendo mentiras ou chistes ou frases feitas. Eu era muito conhecido, foi uma fase boa da vida e existência, e um mundo conservado reservado passeando pela avenida Antônio Bardella pontezinha sobre o córrego Popuca e logo a rua Maria Garcia Utrila, Guarulhos. Até hoje nem sei. Gosto especialmente do mês de janeiro, o verão meteorológico.]

            Porta tranquila boa simples amena silenciosa. Apenas uma porta necessária, de fechar e abrir quando se quer. Porta, quem diria porta, esse apelido intransponível ultrapassável insuportável intransigente. Talvez se o lugar da porta fosse outro, oxalá!, quem sabe. Eu acho que saberia se a porta fosse minha, se a porta falasse. Porta persuasiva agressiva esquisita com cara estupefata. Porta passagem amiga natural da pugna peleja combate prélio. Acho também que a porta percebeu que eu a estava mirando admirando. Com conselho de uma oniromante, a porta foi comprada na loja Catambá da rua Américo de Queirós Facó e trazida embrulhada embalada com plástico-bolha até aqui a este local de trabalho. Porta, substantivo feminino empoderada.

            - Como vieram parar aqui? Se pode isso, meu D? Será um sonho, estamos sonhando? Tem alguém batendo à porta? Pra que que serve o telefone? Donde vêm estas dúvidas cabulosas? Já lhes soa bem este argumento? Vai um licor de uvaia?

            Engraçada, cabelos ruivos e sempre assim. Tinha um sorriso riso risada gargalhada que levava às vezes a lhe faltar o fôlego. Lenço de cabelo cendal tecido de seda ou lã fina em volta do pescoço. Sempre de dieta a partir das segundas-feiras.

            “Olha, sinto resuscito a música do vento farfalha nas plantas e mais o pássaros cantando interpretes e joão-teneném, jacucaca ou jacupemba, bicudo, mutum, graúna, jauá. Postes de tensão e árvores paus-de-pilão acompanhando o traçado do meio-fio da rua Caboclo Bernardo, bairro Ariovaldo Favalessa. O negócio lucrativo que me diz: “Nem tenho pressa de chegar”. Minha bela horta no fundo da propriedade com amigo milho feijão inhame araçá amiga grumixama taioba mandioca alface. Sim, posso me conformar.”

            Sério e cordial e voz um pouco grossa e alta. Olhar vago. Mergulhado pasmado para dentro de si. Camisa de mangas curtas com o primeiro botão aberto. Rosto fechado de rugas cavadas. Era o palestrante de hoje, sem tirar nem pôr. Quase falando num tom musical estilo de comício. Sentia as fontes pulsantes a latejarem.

            [Havia tempos que eu vinha pensando lendo repensando nisso e mais ou menos de acordo com a contemporaneidade. Uma ideia mais pra lá de nova para mim. Venho do oeste, missioneiro. Tenho muito a fazer. Com perdão do clichê, caí como um pato um marrequém-do-igapó ou tiriba. Sim, longe enormemente geograficamente as soluções evasivas. Pois as estimativas variam muito. Vou plantar uma floresta no meu terreno do lado do rio Itaúnas, e ubás embaúbas sapucaias copaíbas perobas jacarandás abio-do-mato ou acá ou curiola. Hoje só acompanho esportes olímpicos, deixei de lado o futebol. Quero descobrir um tesouro que nem precisa ser de ouro prata pedras preciosas relíquias religiosas.]

            Se eu fechar os olhos a porta fica. A porta de força fortaleza perigo sacrifício energia e fabricada pelo homem nos arredores arrabaldes de São Mateus e Conceição da Barra. Compenetrada da sua função, nem participa de brigas arruaças assuadas motins. Com cara de circunstância e à paisana. Solidária sóbria digna radioativa. Descerebralizada. A porta que esconde e protege, convém e interfere intervém. Disposta realizada ancha vaidosa. Por hoje chega, então, e a porta nem tem mais nada que dizer.

 

domingo, 3 de março de 2024

Atávico e Atavismo

 

                                                          

 

            Minha vovó morava perto de nossa casa. Minha avó morava perto do meu colégio. Então, quando eu queria vê-la ficava restava fácil. Saía de casa atravessava a rua da Vaca Bordada e pronto. Quando voltava do colégio, diante do meio-dia, eu atravessava a rua do Vernáculo e pronto. Muito à mão e pegar pela mão. Estava tudo em casa e próximo. Ela nona estava sempre perto de nós e diariamente.

            - Tem sorvete sabor caju e limão e pequi! Qual te agrada mais, meu coração?!

            Do almoço, aí pelas 12h e 45min e até 16h, minha avó nem estava para ninguém. Era a sua hora da sesta. Depois acordava levantava abluções e tomava seu café com muitos doces a escolher. Maioria das vezes com visitas esperadas. E sempre o convidado(a) bem recebido e festejado. Eu vinha sozinho (ou com mamãe) e me espalhava pela casa. O alçapão do porão sempre fechado com a taramela. Nem queria entrar aí. A entrada era proibida e eu nem me atrevia. Via aquilo como uma armadilha armação para capturar caça. E nem ousava.

            Vova também assistia ao desenho animado somente para me manter tranquilo comendo os quitutes e guloseimas que ela mesmo fabricava em casa, pão caseiro barrado com marmelada de uva ou de figo ou de abóbora e bolo de chocolate coco e sagu com bolachas maria e pudim caramelado e geleia de laranja e rapadura e pé de moleque e cocadas e manampanças ou beijus. Alguns tipos de sonhos com muito açúcar por cima. Outras bolachas com geometrias variadas pasigráficas e que eu achava muito engraçado. Quando muito vó assistia um seu programa favorito no canal escolhido exclusivo sobre Amazônia (como antípoda nosso do sul). Por exemplo, tinha muita predileção e muito material sobre arquipélagos: a ilha de Marajó, a ilha de Tupinambarana ou Parintins.

            - Eu amo vocês!

            - Nós também!

            - Eu amo mais!

            Fomos colher uvas no parreiral pertinho um passo da residência. Eu segurava uma bacia esmaltada de ágata, esmalte azulado. Fazia um sol forte em pleno dia das 17h. Ela cortava o talinho que prendia o cacho e o colocava aí. Ficava esperançoso com vontade de fazer o mesmo, mas nem alcançava. Quando se enchia a bacia, íamos entravamos pra casa. E compartilhando carregando juntos o peso todo e que parecia mercadoria muito valiosa rica cara valorizadíssima.

            - Vamos pôr essas uvas na água fresca um instante. Assim já nem provocarão dor de barriga. É só esperar uns quinze ou vinte minutos. E ficarão muito saborosas.

            Alguns anos pra cá, vovó Amélia já tinha e fizera uma família numerosa e em escadinha. E teve um casamento e 6 filhos, 3 de cada gênero (esta gente marcada assim de tumulto alvoroço algazarra celeuma, e até vitupérios insolentes). Sempre tinha o tio Jotabê, morando em BH e já se vão outros onze anos, que cuidava perseguia ia atrás desse negócio de estirpe árvore genealogia tronco da família.

Vó tinha uma coleção de sombrinhas. Eu chamava assim porque eram muitas. Na verdade sombrinhas e guarda-chuvas (estes com ponta de aço), que usava de acordo com diferentes momentos oportunidades ocasiões estações. As sombrinhas eram de cores (sem aguilhão) e uma e outra com desenho artístico muito atraente chamativo. Uma tinha mesmo uma paisagem do bairro da Lagoa da Conceição, Florianópolis.

            - Nem nunca fui aí, mas me presentearam. Foram seu tio Urucá e sua tia Cinética. Eles vão muito à ilha de Florianópolis. Sempre me trazem um regalo mimo.

            Voz calma agradável suave palavras bem si-la-ba-das. E nunca seria enganado. Quase nem falávamos sobre nada, nem predicava. Conversávamos pouco quase nada seja sobre isso ou aquilo. Ela (vestia tipo de saia bolonê) preferia que eu comesse. Queria que eu comesse. Ficava sentada na minha frente me vendo comer ou fingindo comer para me incentivar a comer. Às vezes quando eram sementes ou frutas, bergamotas melancia pipocas melão pitangas pinhões batata-doce amendoins torrados, preparávamos e comíamos juntos. Eu com mais fome, óbvio. Eu mais apressado guloso glutão, assim mesmo.

            - Vou comprar umas compotas de pêssego. Aprecia abacaxi em calda? Temos opções, compotas caseiras ou industrializadas. De qualquer maneira é de dar água na boca. Nem se pode resistir. Nem se deve resistir, mas comer com moderação.

            Vovó Augusta tinha construiu uma família numerosíssima (em diversos estratos sociais, inclusive). E teve um casamento e 12 filhos, 4 foram feitas meninas (essa gente marcada assim de sutileza humor escárnio ânimo hilaridade, às vezes sem demora aflorava uma já tendência obsessivo-compulsiva por dinheiro plata manei e bens pecúlio). Supracitada praticava ioga e meditação e os pilates e as caminhadas e já cuidando muito da sua coluna dor lombar lumbago e consultava mês a mês o seu doutor preferido (este quiroprático entendido em dores da coluna nervo ciático). Recitação de mantras e orações de calma e conforto e sossego: “Eu adoro o sol a chuva o rio a árvore assim os passarinhos que cantam pela manhã e entardecer!”

            - Somente nem achamos o que é infinito!

Ela tinha uma coleção de lenços de cabeça. A maioria com cores suaves finas sutis neutras. Tinha um violeta magenta de babados e com motivo religioso, uma imagem de NS Aparecida (a padroeira da cidade, junto com São João Batista). Este acessório de pano era muito vistoso e causava sensação nos domingos de sol e missa. E havia ganhado num aniversário justamente da tia Joquempô.

            - Sua tia me comprou quando foi a São Paulo. Disse que achou bonita a peça e entrou na loja Teorema Peculiar em a rua Zavuvus com avenida Santo Afonso (Vila Missionária ou cidade Ademar). De averiguar, viu e pensou em mim e comprou. A própria ela mesma que me confirmou.

            Eu sim já estava acostumado com ela vovó. Tanto assim que nem pensava, por quê? Por que era minha avó? Por que ela estava ali? Por que o tempo nem passava? Por que confiava nela como em minha mãe? Por que eu era o seu melhor neto?

            Avó gostava ou nem gostava de mascotes? Ela tinha na casa um cachorro cara de pidão e que deram o nome de Vicário (que ficou Vique). Nem nada de mais. Até porque nem era dela exatamente efetivamente. O cachorro era carinhoso com todos, mas vó nem fazia tanto caso com ele. Nem tinha nada com isso. E dizia do alto da sua serenidade existencial, chinelos de pano fechados na frente, óculos de grau desproporcionais e sem sombras de dúvidas ou impedimentos:

            - O caminho satisfatório satisfeito é o caminho do meio. Façam suas apostas!

            Esta minha avó era 2 em 1. Ponto convergente. Sabia esperar seus netos(as) e os pegava pelo estômago. Era na hora do lanche. No meio da manhã ou da tarde. Todos os dias da semana como vinte e quatro por sete. Os domingos eram mais concorridos na parte da tarde, mas nem por isso se perdia na azáfama aglomeração. Já o natal e ano novo eram festas de superação superar-se e de remoinho vórtice voragem turbilhão de hóspedes. Clientela barulhenta. Vó centro alvo das atenções e todo mundo apressado ansioso por fotos e vídeos. Para-raios porto-seguro e as mais diversas justificativas reivindicações demandas e ou embates hostis. Cabelo solto curto e preso pelo lenço de cabeça. Cabelo à vontade e mechado no contraste do preto e branco. Uma ou outra vez com tiara e ou grampos pequenos de aço.

            - Seus tios Lisérgico e Síncope me telefonaram de Navegantes. Estão passando as férias de verão aí. Acham muito agradável fenomenal e até me mandaram estas imagens... E outras histórias distóricas. Já conhecem Balneário Piçarras e Jacinto Machado e a serra do Imeri. Diárias de hotel indexadas atreladas ao dólar. Pretendem ir adiante e ainda conhecer Ilhota e Penha e Luis Alves e Ermo. Mais ou menos nesta ordem. Juram que virão me visitar quando puderem e um dia desses, é.

            Vova tinha um fraco por passear em o centro da cidade, o município todo. E por que de manhã? Programava as coisas para que tivesse de sair toda semana e pelo menos 3 vezes. Aí podia escolher um cardápio, sacar o dinheiro no banco eletrônico olhar os dentes arrumar o cabelo comprar algo para uso pessoal parar numa loja de sapatos escolher um presente para o aniversariante da semana visitar o médico ou algum parente hospitalizado. Vestida elegantemente, pimpona. Chuva ou sol. Um passeio pelas ruas, a rua Maria Marcolina com esquina na Conselheiro Belisário em o bairro Brás; a pé ou de carro. Setores repartições escritórios de atividades contábeis administrativas financeiras produtivas.

De carro alguém conduzindo porque nunca aprendera a dirigir. E lhe fascinava o automatismo obstinado dos motores das máquinas, mas nem podia com as alienígenas. Uma das suas grandes frustrações. O que implicava ir contra a normalidade social e as prerrogativas atuais atualizadas de sucesso e ou empoderamento feminino. Pescoçando em plena rua Rodolfo Miranda com a rua Prates, distrito do Bom Retiro. Procurando encanador jardineiro dedetizador despachante cabeleireiro. Setores da cidade assim confusos anacrônicos engraçados. Armarinhos bem municiados e sutiãs, pijamas, rolo de cetim, camiseta regata, edredom, cachecol, tules, flanelas, veludos, aviamentos de costura, botões, forros, linhas, barbantes, agulhas, zíperes, rendas de bilros, tapetes.

Se convenceu lhe convenceram a fazer um curso gratuito de apicultura, duas vezes por semana, em a sociedade do agricultor artesanal. Talvez mais por causa das suas flores, polinização. Plantas que atraem mais as abelhas ou mais aos beija-flores e quipás ou guibás, feijões-do-mato, tripa-de-galinha, carrapichos-da-calçada.

Passava o tempo e se divertia. Lojas de alimentação, higiene pessoal, farmácia ou drogaria, jardinagem, carpintaria. O distrito de Mandaqui, rua Coronel Joaquim Ferreira de Souza e ainda a avenida do Guacá. Tratar as unhas asseio ungueal unguiculado. Buscava um profissional hidráulico eletricista mecânico. Tratamento do pé, podologia ortopedia. Pagava em dinheiro pix boleto carnê. De repente a confeitaria Brigadista (alcunha qualificativo epíteto comercial) e um café expresso com bolo de fubá. Comes e bebes doces salgados amargos ácidos ou azedos, saborosos palatáveis suaves combinados. Estar aí era muito divertido. Buscava encontrava umas colegas e palestra conferência debate colóquio narrativa prolixa (manifestações de cunho argumentativo-reflexivo com circunlóquios labirínticos). As atendentes sabiam que daí vinha gorjeta lambuja troco.

            Segundo pesquisas recentes atuais em este ano mesmo e feitas pela secretaria de assuntos municipais, a população está em 18 mil habitantes moradores. Dentre os quais e tais, 56 por cento mulheres; 38% acreditam piamente que D existe, uns 20% estão em dúvidas suspirosas, o restante só na hora do... “vamo vê!”; 10% vão ao dentista semanalmente, 15% uma vez a cada 6 meses, o restante em cima do laço ou na hora que necessitar urgente; 53% são gremista, 1% nem gosta de futebol e sim de outros esportes olímpicos; 44 por cento prefere música caipira, destes 60% a nativista gaúcha, 23% a música caipira paulista de raiz e 17% o sertanejo estilo goiano; 90% das crianças até 11 anos preferem bala de goma (jujuba); 6 por cento joga um carteado (biriba) às sextas-feiras pela noite; 20% preferem o frango ou o peru laqueado no almoço de natal; 45% das famílias possuem carros próprios, destas somente 11% possuem mais de um veículo na garagem; 42% possuem mascotes, destes mascotes 88% são cães (míseros 5% cuidam ou se preocupam com os pormenores intestinais dos seus animais preferidos quando passeiam nas vias públicas); 60% habita em casa ou apartamento próprio; 19% são católicos praticantes, 11% protestantes em geral, 0,7% são de religiões afro, o restante fazem o sinal da cruz porém somente por superstição e na hora diante da morte, amém!

            Vó tinha especialização prática especialidade empírica em culinária recreativa. Eu seu acólito assistente ajudante auxiliar e provador oficial. Preferencialmente as massas-folhadas. Bolachas de coco. Eram muito boas as broas de milho. Uma fama enorme na família o pão de ló. Pasteizinhos de queijo. Aprendera com a própria mãe (bisavó) e já em tenra idade. Muito talentosa. Uma vez por mês e durava uma semana. Até que presenteava toda a família que morava cerca. Que vinham visitá-la.

            - Gostou? Sim! Então come mais!

            Ela tinha um jardim e cultivava plantas folhagens flores hermafroditas vegetais folhosos colhia folhas nomofilas e ramos raízes rizomáticas rizomas domesticadas para os chás infusões que curam tudo para tudo e qualquer coisa. Ervas muito úteis e eficazes e recomendadas (associadas a outros ingredientes) para banho de descarrego e contra assuntos encrenqueiros venenosos maledicentes futriqueiros. Alguém tinha um problema ela ia buscar a solução no jardim na horta no pomar. Os temperos os legumes as verduras para a sopa total completa poderosa. No centro em meio aos canteiros bem cuidados e preparados, tinha uma dessas plantas chamativas destacadas um arbusto que dava flores de 2 ou 3 cores diversas... acho que de nome nomeiam manacá-da-serra.

            - Fomos buscá-la ali no horto municipal. A mudinha tinha um palmo de altura e precisou de muita atenção no princípio. E agora é isso, esbanjando confiança e floração.

            Semeadas ou plantadas e espalhadas pela propriedade estavam ali alguns ipês-amarelos. E depois exemplares avulsos de umbuzeiro, marianeira, camaradinha, urucurana-vermelha, caparrosa-silvestre, sapucaia-mirim. Preferia os pés de butiá para fazer doces ou geleias, bergamoteiras laranjeiras abacateiros ameixeiras. Chamavam atenção os diversos pés de araticuns-do-mato ou araticuns-da-mata ou araticuns-do-morro ou araticuns-grandes, árvore de até 8 metros da família das anonáceas.

            Sempre conheci vovó. Quando conheci vovó? É, desde sempre que me lembro dela. Nem mudou muito com o tempo. Até hoje. Vontade lá dela de convencer, converter, agradar, agraciar, presentear, encantar, cativar, cuidar, alimentar. Nem perdia por nos esperar.

            Minha relação com vó, principalmente que me dei conta que me ocorre, foi a partir e no início e no primeiro dia de aula. Dia da bravata. Pela manhã estreei nos intestinos da EMEFM Caleidoscópio Ditirâmbico, junto da praça Dom José Gaspar e na rua Dr Bráulio Gomes (logo após passar o arroio Dilúvio, na altura da ponte de pedras). Foi meu dia minha vez de pular rastejar rolar voar. Dia pacífico amigável unânime. Dia de sorte exemplar. Dia e hora no lugar certo.

E logo de tarde fui lhe mostrar o caderno de anotações. Ela olhou o pouco que eu tinha copiado do quadro-branco. Depois as fotos do celular feitas na entrada no recreio na saída. Nem permitiram tirar fotos em sala (sem calefação ou ar condicionado), assim para que tudo fosse mais tranquilo. Se me lembro que esquadrilhas de aves migratórias voavam revoavam entre árvores e casas e postes de tensão. Era uma revelação e uma revolução transformação. Eu teimei com uma palavra que vó me explicou melhor: Missa, mis-sa! Por que tinha duas letras dobradas? Porque sim.

            Acompanhei vó ao porão. Por acaso. Uma escada de madeira desde o interior da despensa. Uma luz fraca pendente de umas poucas lâmpadas antigas cobertas de pó e teias de aranha. Tema enigmático grífico difícil obscuro soturno. O acaso vir ao caso. E ali estavam armazenadas algumas pipas de vinho. Nem todas repletas de vinho tinto caseiro. Trazíamos uma grande jarra de latão para abastecer encher e pôr na geladeira.

            Quando quê, eu ficava examinando as coisas ali. Velhos artefatos coleção de coisas antigas inúteis quebradas fora de uso ou data de validade, essas bugigangas quinquilharias. Surpreendido e amuado e silencioso e angustiado e confuso. Tem gente acumulador que detesta jogar fora o que já se utilizou e nem presta mais, mesmo coisas ultrapassadas ou estragadas. Monte de cacarecos da família da casa ou que se achou aí fora em outro lugar na rua. Eletrodomésticos pifados e pedaços deles, revistas e jornais e gibis aos montes, engradados caixas de garrafas vazias, fogão a lenha obsoleto, máquina de costura, cadeiras, sofás e outros móveis destroçados. Ambiente ostensivamente desarrumado. Espaço lugar para a garagem do velho carro enferrujado o primeiro da família e que precisavam restaurar (jamais entregariam ao ferro-velho).

            - Nem há final dos tempos. Assim que nem existe vida fora da Terra. E se vive uma vez. E convivemos assim e com isso tudo. Sem previsões. E oremos!

            Eu sempre tive atração por esses lugares noturnos soturnos obscuros. E de sustos assustadores enfadonhos também. Alguns bichos horripilantes sub-reptícios e morcegos vingativos sacanas (devia haver um pequeno escape um buraco qualquer em algum lugar perdido escondido retirado recôndito para que esses bichos pudessem ir e vir), aranhas magoadas rudes furiosas pacientes, lagartixas coniventes cúmplices taxativas, lesmas tranquilas macabras, sapos-de-chifre condescendentes tolerantes, lacraias espiãs traidoras enfáticas, lagartas-do-cartucho silenciosas desonestas sonâmbulas, escorpiões  excêntricos estoicos resignados dissidentes, formigas-de-ferrão permanentemente ultrajadas e que por isso mesmo cuspiam berravam xingavam gingavam gritavam. Nem morto que descia ali sozinho. Caracóis catassois introspectivos introvertidos monótonos, malemolências, malacologia. E outros bichos visíveis invisíveis presentes ausentes que possivelmente povoavam o lugar. Fantasmas já camuflados que davam propina gorjeta gratificações além do estipulado somente para pegar os visitantes desavisados os inocentes os marotos os que nem gostam de estudar matemática ou física. E me arrepiava cada vez toda hora com os pelos dos braços em pé. Me sentia estressado. Entrava depois e saía na frente, acompanhado.

            - Nem se preocupe. Fique perto de mim. Sempre teremos uma ao outro.

            O porão nem era tão grande assim. Parecia uma caverna e cheirando como tal. Um subterrâneo um buraco uma lapa uma gruta. O vinho jorrava direto na jarra de uma asa, chuáaa!... e tinha um cheiro odor forte (metabolismo ou propriedade que têm certos corpos de emanar partículas voláteis capazes de afetar os órgãos olfativos e cuja percepção se manifesta em sensações diversas - fonte: dh). Quando o recipiente enchia já nem tínhamos nada que esperar ali. Voltávamos e vó carregava o peso com tudo. Era um mundo que precisava ser investigado mas nem agora. Mesmo em detrimento da valentia. Mesmo com a prerrogativa privilégio vantagem da escolta escoltado.

            Minha avó era sempre a mesma e de muito lisonjar lisonjear envaidecer enaltecer. A maioria das vezes de saia ou vestido. Quando frequentava a missa de domingo de manhã, usava vestido sóbrio manta no ombro ou o lenço de cabeça. Tinha um livrinho de orações e imagens de santos santinhos. Cada dia ela curtia lembrar os aniversários dos santos e santas. Os horários das orações dedicadas às festas religiosas mais importantes, laudes noas matinas. Sempre igual no sorriso na atenção no carinho. Em tudo sempre sendo ela mesma com elogios lisonjas bajulações.

            - Depois de 15 minutos ajoelhada diante da capelinha, me ergui, olhei o relógio de parede e já se haviam passado 2 horas.

            Vovó idolatrava alguém? Um parente morto ou vivo, santa ou santo? Tinha seus quadros como do coração de J e uma pequena estátua de NSA na capelinha. A paciência de rezar antes de dormir. Tinha um terço de puxar orações repetidas. Nem faltava um domingo na igreja matriz (ocasião que aproveitava também e muito para fazer novas amizades). Na primavera e no verão andorinhas-pequenas entravam e saíam. Corruíras um ou dois casais sempre tomando conta em quaisquer estações. Sabiás-cavalos cantando louvando laudatórios como sempre como nunca, tchirrichóooo!... tchirrichóooo!... A nave dava boa resonância bom som boa acústica e eco expandido dilatado alegre catedrático.

            Avó nunca viajou de avião ou barco ou trem. Aqui é cidade do interior e pequena. Nem temos rios grandes ou lagoas nomeadas ou montanhas de escalada. Vó sempre morou nasceu cresceu viveu aqui nesta pacata e tacanha cidade. Silhueta de edifícios ao horizonte (skylines), são os cinco andares permitidos pelo poder público municipal. Neve mesmo só caiu uma vez e foi memorável (inverno de 1963). É, pode ser!

            - Vem, vem tomar um suco! Você prefere batida de mamão ou abacate? Pode ser vitamina com seus índices de ferro, ácido fólico, potássio, cálcio, fósforo, iodo, betacaroteno. Um negócio muito saudável rentável aprazível.

            O tempo nem muda ou eu que nem vejo nem percebo. O tempo diz tudo? E isso vem ou nem vem ao caso?

            Vovó sempre me agarrava com força e paixão. Cada vez que nos visitávamos nos víamos, cada vez que ela chegava ou eu chegava na sua casa, me abraçava como se fosse a primeira ou a derradeira. Me abraçava e me beijava, me abraçava para me beijar. Me beijava para me abraçar. Ajoelhava para me abraçar melhor. Muito e extremamente aconchegante.

            Ela nem fazia palavras cruzadas ou calemburgo trocadilho ou mesmo lia o horóscopo. Era de peixes ou gêmeos? Nem nunca apostou em loteria e nem precisava desse tipo de sorte. Sua mania coqueluche eram os netos(as). Os olhos cansados de óculos grossos e grandes. Preferia assistir novela, ora a bíblica ora a urbana, as duas ao mesmo tempo à noite porém os horários nem competiam. Sem escândalo algum desespero lancinante nada nenhum nunca vi ou ouvi. As portas janelas com dobradiças azeitadas atarraxadas, nem rangiam. Intervir, comentar, causar, protestar, opinar... nem tinha nada disso. Com otimismo para todas as horas em todos os momentos.

            Minha avó nem enganava ludibriava mentia. Afastada disso. Nem maluca nem tonta nem louca. Contrário disso. Nem cizânia desavença rixa discórdia. Longe disso. Minha vó via o mar a partir da janela da cozinha. Conquistadora de paladares e incentivadora de apetites. De noite ela via a distribuição de estrelas a partir da varanda. De supetão e conforme a noite em a volta e meia chegava a lua redonda cheia e suas marcas de crateras. Com presença de espírito.

            - Temos astronautas e cosmonautas. Mas temos óvnis, que é o que interessa. Dias de chuva os extraterrestres preferem o bom tempo e a noite estrelada.

            E isso nem é o fim ou o início.