sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Lilás coas próprias férias

 

           

 

            Se você quiser viajar tem que economizar. Há lugares parecidos lugares exclusivos lugares desaparecidos lugares mágicos. Tem que economizar se quiser viajar.

            Para alguém para outros para muitos para a grande maioria para todos para o próximo para o estranho para mim o sol é brilhante o ano inteiro. Nem se vê outro. E continua. Tipo assim: “Seja um pálio de luz desdobrado, sob a larga amplidão destes céus...” Ou seja, uma vez que é simples porém nem é ficção.

            - O sol sábio sabe o que faz!

            E a guriazinha Lilás foi lá tirando férias. Nova Araçá é conhecida como a cidade das guabirobas, e a festa é sempre de 7 a 15 de março aproveitando as frutas maduras. A comemoração do padroeiro São Cristóvão é em julho e também se homenageia comemora o caminhoneiro, os caminhoneiros viajantes peregrinos. Faz limites com Pedrinhas Paulista e Cássia ao sul, Poconé e Alpinópolis no leste, norte Barra de Guabiraba, e Bonfim e Fortaleza de Minas a oeste. Banhada pelos rios nem muito caudalosos rio da Prata e rio Branco além de outros córregos e riachos menores. Ruas paralelas e perpendiculares com casas prédios absolutamente bem cromáticos. Praça Cruviana e praça das Águas e praça do Mirandinha, esta mais no centrão. Assim o parque Paulo Cesar Vinha e bem cuidado com flora e fauna típicas da região.

Vamos combinar. E a guria a Lilás 10 janeiros já gostava. E a menina gostava na manhã de tapioca com queijo ralado e iogurte mais café com leite. Lilás suspirou e sonhou com essa hipótese, o que lhe compensava, o que nem lhe custava:

            - Será que é fácil voar como voam os passarinhos ariscos? Eles são muito rápidos e barulhentos. Deve de ser muito legal. Supremacia vocal. Prática de voo livre. Tudo bem?!

            A cidade na serra Gaúcha é servida por seu próprio aeroporto internacional Araçá-Guaçu, com voos diretos e regulares dos destinos regionais, Benedito Novo, Governador Jorge Teixeira, Rodeio, Seringueiras, Passos... continentais e intercontinentais e interplanetários, praticamente. O transporte público urbano chega às vezes a ser congestionado engarrafar, mas nada que nem possa ser frequentado com paciência e calma e boa vontade. Existe um ônibus para cada cinco mil passageiros para cada rua do bairro e todos os distritos são servidos. Confere um metrô de superfície e ele cobre basicamente a parte nobre da cidade que vai do bairro Omágua ao bairro Cambeba, passando obviamente pelo centro histórico patrimônio nacional tombado e imexível. Os táxis e ou os carros de aplicativos são rápidos embora poucos e muito caros durante o dia e bem mais caros durante a noite. Seria até possível chegar de barquinho pelo rio da Prata ou rio Carreiro ou rio Sabia, mas nem existe uma linha fluvial sequer para tentar essa possibilidade.

A paisagem é típica dessa região dos 600 metros acima do nível do mar e em plena serra também conhecida como serra Geral. É ótimo ambiente e tem um pôr de sol e outro nascer de sol que são encantadores, quando nem motivo de cenas de cinema ou novela de tevê. Chove razoavelmente bem no inverno frio e úmido como no verão muito quente e abafado chuvoso. Os mirantes favoritos da cidade são dois, o morro Azul e o morro Arapongas. Pronto, falei!

            - Esta lenda existiu, e ainda é.

            Na praça Olavo Bilac, sempre perto da noite que nem chove nem faz muito frio, surge um homem de meia-idade para tocar e por conta própria a gaita ou sanfona ou acordeão. Vai e para de tocar e escuta o tempo e... interpreta os astros o zodíaco os horóscopos tem visões e dita a sorte de todo mundo que quiser que se aproximar nem aceita gorjetas propinas esmolas presentes regalos.

Ele se chama Piaga Poti, e toca gaita aerofane interpreta canta e faz os prognósticos para cada um e pessoalmente, assim mesmo:

            - Estamos em abril mês do 22 do descobrimento. Criei o mundo inteiro com minhas próprias mãos e na imagem e semelhança. Agora mesmo eu digo que: todos os planos serão satisfeitos. Hoje já criei a ilha do Brocoió o índigo-do-brasil o tufinho-verde a praia do Cardeiro a cidade de Guajará-Mirim o sagui-branco a embaúba-mansa a cereja-do-mato. Agora, vê se me dá dão licença, eu nem sei o que você mais quer.

            Foi nas férias que Lilás visitou passando Nova Prata Nova Bassano Nova Araçá, as novas. Estava em companhia muito bem acompanhada do seu avô de nome apelido Cardeal-Amarelo. E de um celular muito interessante chamado Tié. Se hospedaram num hotel mais em conta, o famoso hotel Pincha-Cisco, na rua André da Rocha, à beira do já mencionado rio da Prata e na distância 2 cá eme da cascata da Usina.

            - Foi aqui em acá que chegou chegaram chegando os pioneiros imigrantes, vô?

            - Mas bá, tchê! Te aprochegas no mas... Foi sim, guria netinha a curiosa!

            Acomodada acomodados, a menina (ainda nos estudos fundamentais da escola estadual de ensino fundamental, EEEF professor João Carlos Schmitt), pegou do Tié e telefonou para casa e de uatezápi e já ouvindo a pergunta:

            - Alou?!... Oi?!...

            - Sim, sou eu, a Lilás! Digo e falo e hablo! Pode me ver.

            - E daí, filha legítima caríssima necessária?! Responde o que preciso perguntar, pergunta o que preciso responder.

            - Chegamos e já estamos em Nova Araçá, a terra da gabirova gabiroba!

            - Que que há de novo e de novidade?! Conta pra mim!

            - Chegamos faz cinco minutos e estou moída!

            - Que mais!

            - Estou um pouco tonta e mareada da viagem, ufa! Olha só meu cabelo!

            - Mas isso é só o começo, o primeiro dia, depois vai embora!

            - E amanhã eu completo, tchau! Mando vídeo e fotos, fui!

            Meia hora mais tarde, meio da tarde, Lilás e o avô Cardeal-Amarelo estavam rodando uma voltinha na praça Santos Dumont, pracinha carregada de ibiranhirás, angicos, micos-leões-dourados, beija-flores-brilho-de-fogo, etc., japiras e tinhorões e agriões-do-pará e papagaios-urubus... E iam olhando a cidade por dentro, caminhando pelas calçadas de pedra basalto, olhando as vitrines das lojinhas, rua Doze de Abril, experimentando sorver sorvete de açaí de cupuaçu de tucumã de pequi.

            Pipilos e trilos e sibilos de passarinhos, joões-de-barro, cantos de cigarras, estrídulos de gavião-peneira... Descendências de capins-da-cidade famílias de guabirobas-de-são-paulo e guabijueiros e pitangueiras e pequiás-amarelos carregadinhos de frutos só esticar o braço e, “nhame! nhame!...”

            O vovô era responsável por tudo. Mas também bem sem aviso começou uma chuvinha peneirada. O avô foi logo contando das novidades dele e muito mais:

            - Sabe, Lilás, o que perguntou, num dia de chuva como este, o tatu-canastra para a sua vizinha tamanduá-bandeira? Perguntou assim: “Vizinha e comadre tamanduá-bandeira, será que chove ainda hoje, gente?” E a tamanduá-açu o que respostou? A tamanduá-cavalo já respondeu assim para o vizinho tatuaçu: “Se o vento pará, né!...” E os dois amigos e vizinhos camaradas e compadre e comadre riram juntos, “ih ih ih!...”

            Lilás ficou olhando a historinha do vovô Cardeal-Amarelo e esperou a ficha cair. Esperou a ficha cair, e vírgula. Nem caía a ficha e ela perguntou ao avô o sujeito:

            - E depois, seu senhor Caramanchão?

            - Depois eles deram risada um tantinho e um e outra tentando rir mais alto que o outro. E isso sim! Assim mesmo, uma flauta!

Na volta para o hotel Pincha-Cisco, a menina agarrou o Tié e telefonou para casa e encontrou o pai atendendo e solícito e precavido, foram se reparando:

            - Foi aonde fia?! Já conhece a nação nativa dos kaiowá? Hum!...

            - No museu Osman Lins!

            - Que que tinha no museu Imperial de Petrópolis?! Sentiu o drama de tantos e tantas obras e peças e utensílios e artefatos do tempo do império? Hem?!

            - Uma carroça!

            - De bois ou de mulas ou de jegues?

            - Nem sei!

            - Que mais que tinha?! Navio a vapor, barco a vela, disco voador?

            - Pelegos!

            - Cascas de ovelha, é?! Isto é contra nossos princípios de nem mexer com os animais, os pobres! Tá ligada?!

            - O quê?!

            - Que outra coisa você viu, fia do bem-querer e bem-querida?!

            - Fotos!

            - Fotografias de quê, praticamente?! A chegada dos pioneiros? A vinda dos imigrantes italianos poloneses alemães e demais? Diga!

            - Da cidade!

            - De quando?! De antes de hoje de amanhã e do porvir? Me corrige se estou errado, hem!, fia do coração apaixonado da minha alma de pai.

            - De longe!

            - Gostou ou nem gostou?! Gosto se discute, ok?!

            - Gostei de ver neve!

            - Nem acredito! Du-vi-de-o-dó! Você viu bola de neve ou cascata véu de noiva?

            - Neve em preto e branco e uma data muito mais muito mais antiga! Dizem que foi a primeira e última vez que caiu neve por acá, sim senhor! Fenômeno!

            - Que mais você gostou ou nem gostou?! O cânion da Boa Vista?, quem sabe. A aldeia dos cinta-larga? As cavernas obscuras as tocas dos coroado?

            - Conheci um carijo, sabe o que é?! Era já uma construção arruinada falida!

            - Mais ou menos, né, fia! Pra cima de mim?! Onde se processava fumo em corda! No tempo que se fazia fumo de fumar tabaco cigarro de palha pito!

            - Depois eu ligo outra hora, tchau! Mando pra vê umas fotos e tais e quais!

Aí a Lilás desligou o telefone e apagou a tevê apagou a luz olhou tudo meio na penumbra. Ela foi ao banheiro, voltou, foi para a cama de solteiro, puxou o cobertorzinho, ouviu muitas vezes o “zuuuiiim!...” do vento voando mais ou menos apressado lá fora na noite mais ou menos fria, soprando entre as árvores grumixameiras, puxou bem o cobertorzinho até o queixo e esperou dormir logo e dormiu de repente e adormeceu de supetão, “zu-zeeeee!...”

            A cidade de Nova Araçá estava toda descabelada na manhã seguinte. Foi uma ventania que atacou pela noite e a madrugada toda. O vento derrubou árvores e as coberturas dos postos de gasolina. Parecia uma mágica. Pedaços de árvores espalhados pelas ruas e avenidas, folhas atiradas nas calçadas, árvores inteiras arrancadas, postes de luz derrubados. Um guabirobal todo desfigurado um pinheiral todo desgrimpado um guabijubal todo desnorteado e assim por diante.

            - Que coisa alucinante, meu!

            Todos os moradores da cidade passeando ali e de cá pra lá se queixando que o único problema da cidade era aquele vento forte justamente nos meses com r. Uma senhora meio desconsertada falou se justificando (que todo mundo já deve sair prevenido e alertado em segurança, e eu aviso de antemão no conforme, que ela esta senhora casada que vai falar nem descasará ou enviuvará até o fim deste capítulo):

            - Oi, gente! Este lugar é bom de se levar a existência que D dá. Porém este vento é muito chato e feroz, às vezes. Especialmente nesta época. E o governo nem faz nada nem interfere nem avisa nem recomenda nem desacelera nem paga bônus nem indeniza. Olha, gente! É difícil! E agora mesmo com esse covid-19 todo mundo tá achando que nada nada vale a pena. Eu fico na expectativa, hem?! E mantenho um pé atrás e a pulga atrás da orelha, né?!

            E nessa mesma manhã despedaçada desfolhada, Lilás acordou cedo para aproveitar bastante de a cidade. Enquanto avô Cardeal-Amarelo corria atrás dos negócios, ela e o celular Tié se uniram a um grupo de turistas do hotel para visitar pontos turísticos e monumentos históricos casas antigas e quase em ruínas trilhas de cicloturismo sítios arqueológicos vilas temáticas sendeiro senderismo roteiros...

            - Vejo que os passarinhos são cantores e suiriri, neinei, coró-coró, fim-fim...

            O ônibus parou na frente do monumento onde estão enterrados os ossos de Dom Pedro I e dona Leopoldina. O guia foi explicando os assuntos comentários fatos históricos e de quando os restos mortais vieram via aérea desde Portugal:

            - Este é um mausoléu muito famoso e conhecido dos brasileiros, etc. Bem onde foi o grito do Ipiranga.

            - Dom Pedro era muito poderoso em a época? - perguntou uma turista de Vila Flores, cabelos negros longos macios escorridos caindo pelas costas.

            - Oh, sim! O nosso imperador era rico e famoso. Nadava praticava natação gostava de ir à praia de Botafogo. Adorava festas e cavalos andar a cavalo cavalgar corridas de cavalo. Quando muito de pedras preciosas diamantes esmeraldas e presentear as iaras manauaras.

            - Havia, em aquele tempo, muita riqueza no Estado e no país e na cidade? - indagou outro turista de Bom Princípio, vestido com camiseta de clube da capital.

            - Mas claro! Dinheiro dava em árvores. Nem vi mas me contaram. O povo mesmo nem se queixava como se queixa hoje. O povo mesmo gostava de gastar dinheiro e tinha muito ouro para pagar e comprar e se divertir, é. Minas de ouros em Minas Gerais, minas de diamantes em Diamantina, minas de ametistas em Ametista do Sul, minas  de pratas em Prata-mg e Prata-pb.

            - E o que se fazia para ter uma árvore florindo dinheiro e desfrutando dinheiro em ouro e prata e cobre? - quis saber uma turista de Guaporé-rs, óculos escuros caros.

            - Eles plantavam guabirobas, maiobas, raízes-de-cobra... Eles compravam mulas, é. Compravam mulas e burros e organizavam tropas para viajar e vender e negociar nos mais distantes rincões desse Estado de outros Estados. Assim, ficaram ricos comerciantes, ricos negociantes, ricos mercadores e regatões. Ricos especuladores.

            - E nem havia guerras e revoluções e atentados? - indagou o turista de Casca, homem casado do lado da esposa e da filha esta de oito anos completados recentemente.

            - Muitas guerras espalhadas pelo país, isso sim! Muitas revoluções espalhadas pelo país, tá certo! Muitas tribos de índios querendo vingança, concretamente! E o próprio imperador Dom Pedro I tinha muitos filhos para sustentar, quer saber!

            - Então, era um imperador ocupadíssimo? - especulou a turista de Encantado e nativa da cidade de Timbó-sc.

            - Dom Pedro I mandava em muita muita gente. Mandava em todo mundo. Tinha tanto empregado que até tinha que pedir licença para chegar em tempo na mesa do almoço ou do jantar. E empregados que nem recebiam salário ou seguro desemprego.

            - Quando é que ele zerou? - interrogou uma turista de Ibiraiaras, mãos ágeis.

            - Morreu no mês de agosto e já faz um século. Mas o povo ainda acredita que o fantasma dele anda aí no ar no chão quando muito andando de noite. Tem gente que acha que ele virou santo e reza pra ele todo santo dia. Ninguém mais usa hoje em dia aquelas suíças ou costeletas ou patilhas que ele deixava na cara no rosto na face.

            À noite no hotel, a menina Lilás pegou da Tié e telefonou para casa pra casa:

            - Ah, mamã, foi bárbaro! Embora as coisas acontecessem acontecem!

            - O quê?!

            - Tudo!

            - Explique melhor, fia! Me mostre, se for possível e se for o caso.

            - O túmulo mausoléu cripta monumento!

            - Como era e de quem é esse túmulo histórico?!

            - Um imperador antigo e aventureiro! Era filho de rei neto de rainha e pai de imperador e rainha! Foi e fez a independência em São Paulo, capital!

            - Que mais! Mais o quê?!

            - Uma feira livre!

            - Você gostou de quê?!

            - Das frutas em todas as cores possíveis! Sabores e cores no ar!

            - Que mais!

            - Tinha um teatro de bonecos títeres!

            - Eram engraçados desengonçados caipiras?!

            - Tinha um sapo que queria ser rei ou imperador ou senhor de engenho!

            - E no fim?!

            - No fim o sapo ficou ainda sapo e papudo e musculoso saltador de obstáculos!

            - Que mais?!

            - Até amanhã, tchaaaau!... A-pa-gan-do!...

            O gaiteiro Piaga Poti aparece aí na altura de a praça da Paçoca e quando o tempo colabora o clima ajuda a temperatura é agradável mais ou menos. Gosta se prepara para fazer as previsões, o povo se aproxima automaticamente por conta própria. Ele toca uma música do Teixeirinha uma outra de improviso e assim leva a assistência. As pessoas acham bom, muito bom que apareça. Que hora, quantos anos por que parou? Até que mais de uma coisa pra dizer:

            - Olha, gente boa, que estamos em fevereiro da semana do carnaval mais engraçado do mundo. Agora mesmo eu digo uma coisa muito importante: o caminho é sempre uma estrada flexível. Hoje mesmo pela manhã dia ensolarado e aproveito os dias abertos e já inventei e coloquei no mundo tudo isto, observem: distrito de Paricatuba em Iranduba, Real Forte do Príncipe da Beira ali em Costa Marques, praia da Lagoa Azul, jambu, juriti-grande, soldanela-d’água, rio Cabixi, parque Terra Ronca em São Domingos, Cuitegi, lélia a orquídea mais maneira do planeta terráqueo. Agora mesmo e nesta hora indago: por que o cachorrinho Pampa nem dorme no jardim, hein?! Quem foi a Antologia e aonde ela foi que nem voltou, supera?! E de fato, o mundo é redondo?

            Pela madrugada, num ponto qualquer da cidade de Nova Araçá, começou um pequeno fogaréu. Depois o fogo, tocado pelo vento, foi aumentando e tomando proporções alarmantes se alastrando. Nem demorou muito e o fogo praticamente incendiou a cidade toda, e de ponta a ponta desde a avenida Imperatriz Dona Leopoldina até o outro lado a alameda Imperatriz Dona Amélia com sérias consequências na praça ten cel Joaquim Caetano Corrêa. Foram chamados bombeiros de toda a redondeza toda a zona toda a região até acho que sim de Vila Maria e Veranópolis e Vista Alegre do Prata e Aveiro e Delfinópolis.

            De manhã deu pra ver os estragos do fogo das chamas das devastadoras labaredas. Casas incendiadas tisnadas destruídas comidas pelas línguas vermelhas. Prédios interditados e chamuscados e parcialmente queimados, fumegantes, fumantes. O mato completamente um campo de cinzas e pedras soltas. Por pouco o museu pintor Pedro Américo também nem desaparece com seu velho casarão tombado e todas as suas relíquias ali guardadas com tanto carinho e respeito. As pessoas se lamentando e de olhos bem abertos escaldados ressabiados. A br-324 ficou congestionada engarrafada cheia de carros curiosos estacionados na contramão.

            Um senhor que nem conseguiu salvar nada da própria casa e do carro novo na garagem, se lamentava muito e compridamente e emotivamente emocionado:

            - É, sim, pois é. Este é o único problema do lugar em que escolhemos pra morar. Tão paradisíaco para os turistas e veranistas. Nós todos nos queixamos que os incêndios provocados ou incidentais são uma calamidade local. E o governo nem faz nada nem ajuda nem atrapalha. E nem sei por quê. O governo deveria indenizar... ou abrir um financiamento no banco federal. Quero ver quem vai me dar outra casa outro carro outros tudo que eu com minha família perdemos. Têm dias que parecem noites e noite que parece que tudo vai pro beleléu e o fim dos tempos, tá ligado tá ligada?!

            Embora tudo isso, assim e assado, Lilás nem ouvira nada dormiu toda noite nem foi acordada nem sonhou nem foi atingida ou incomodada e acordou despertou automaticamente calma e senhora de si. Acordou bem sensata.

            - Deve de ser um ente mágico esse tal de incendiário este foguista.

            Mais um dia de turismo de experiência e nesse mesmo dia seguinte a Lilás e o Tié e o avô Cardeal-Amarelo foram para um parque zoológico um pouco retirado da cidade onde o incêndio nem se propagara e sequer fora notado noticiado. Tudo verdinho e conforme o catálogo certinho do guia turístico. De lá mesmo a menina acionou o Tié para falar com os pais, enquanto:

            - É, estamos num zoológico na periferia de Sapucaia do Sul! Veja!

            - Que que tem aí, filhinha?!

            - Amarelas!

            - Que amarelas são essas e aquelas?!

            - Flores do campo!

            - Que mais?!

            - A tribo dos piratapuia, dizem!, era dona disso aqui e tanto tempo passado.

            - Eles são felizes em outro parque?! O parque nem é mais deles? O parque fica ainda dentro da reserva dos piratapuia? É grande o lugar? Tem rio ou tem hidroelétrica estrada asfaltada br-470 indústria moveleira?

            - Quando chove os índios voltam pra casa!

            - Nem moram na aldeia do parque?

            - Moram na cidade!

            - Que mais tem no parque?! Parque sem cascata nem é parque!

            - Prebixim ou tietinga, teréu-teréu ou quero-quero, anajé ou gavião-carijó, gurundi ou pipira-preta, bem-te-vizinho-de-penacho-vermelho, caburé-acanelado...

            - Tem lago ou açude ou represa ou barragem ou remanso ou poço?!

            - Um rio que ri e passa sorrindo! Quer saber o nome dele?

            - Tem parque aquático, turismo contemplativo, área de acampamento?!

            - Por enquanto nem!

            - Outra novidade nova novíssima em folha?

            - Vi um pintassilgo se balançando numa cordinha ou barbante, colorido!

            - Como assim?!

            - O pintassilgo voava até a cordinha do varal e se balançava! De cores!

            - Estranho ou sensacional!

            - Da cordinha ele pulava para a haste de capim-membeca, irisado!

            - Bonito e lindo de se vê, né?! Fotografou?

            - E da haste de capim ele pulava para a cordinha esticada, preguiçoso!

            - Pintassilgo também gosta de diversão e lazer e entretenimento, hein?!

            - Até, tchau! Inté amanhã! Fiquem com D e a paz da NS!

            Na noite uma chuva que foi um toró catadupa. Um aguaceiro interminável e muito forte e de provocar enxurrada e avalanche e desalojamento desmoronamento. Algumas casas foram invadidas pelas águas, e sério! Nas encostas houve deslizamentos de terra pedregulho. Prédios foram interditados e abandonados às pressas. Uma confusão na noite escura sem energia. Garagens alagadas viraram piscinas algibes.

            Tudo começou mais cedo umas horas antes, então veja. Ondas de nuvens escuras pesadas já transtornando o ar a atmosfera e tornando acendendo levantando fulgindo rasgando em tempestade intempérie. E continuou com as nuvens os ventos os raios os trovões, já rompendo multiplicando bramindo estirando rodopiando subindo estalando trepidando estremecendo retorcendo em furacões tropicais.

            Na manhã o lodo e o barro e a lama estavam por toda parte e transbordando. Casas invadidas pelas águas tudo cheio de sujeira tudo perdido tudo uma catástrofe. As pessoas remando botes de borracha, andando com água na cintura, cachorro preso no telhado da casa, automóveis nadando e ruas que viraram córregos correntes pântano.

            Uma senhora de galochas brancas de cano longo marca Ânfora (fabricada em Bom Jesus da Penha), se queixava da calamidade pública coletiva civil dividida partilhada compartida entre aquela gente mais atingida ilhada isolada:

            - Sim, claro que nem! Praticamente é o único problema da cidade, mas o prefeito nem tá nem aí e nunca nem resolve. Só aparecem de quatro em quatro. Todos iguais esses tais e quais políticos comuns. Ele deveria decretar emergência calamidade e pedir dinheiro ao governo estadual e este ao federal, hein?! Dizem que em Cortês o rio Sirinhaém subiu 8 metros além e transbordou. Aqui todo mundo tá vendo que foi bem pior. Eu acredito em D mas D nem manda neste prefeito vice-prefeito primeira e segunda damas e vereadores insensíveis invisíveis. Ainda bem que sei nadar e bem!

            Na mesma manhã, manhã de sexta-feira, a menina, o avô, e mais, pegaram uma excursão e desceram para os subterrâneos da cidade. O guia turístico comandava na frente explicando volta e meia parando e dando detalhes. O duto nem tinha sido afetado invadido inundado pelas águas volumosas da chuva lá fora mas gotejava do teto e escorria água da parede. O túnel fora construído com grande engenharia, sem dúvidas.

            - Seguinte, galera e galerinha! Agora vamos descer às profundezas profundas e subterrâneas da cidade de Nova Araçá. Ali eram esconderijos de padres na época que os bandeirantes vinham aqui roubar os jesuítas e escravizar os indígenas da Redução. Ali eram esconderijos para os índios fugir dos bandeirantes que vinham lá de São Paulo caçar tupi-guarani. Ali, mais tarde e chegando quase aos nossos dias, virou esconderijo de bandidos que queriam fugir da lei e esconder os produtos dos roubos e assaltos e contrabandos. Muito presidiário fugido vinha e vem se abrigar ali e aqui mesmo, ora!

            - E tem esqueleto de padre, de índio, de bandido, de bandeirante? - perguntou uma turista de Alegrete e que trabalhava ultimamente em Correntina.

            - Agora é só um túnel para turista ver. Uma empresa de cinema da capital pensou em fazer um filme aqui, é. Vieram olharam pediram ajuda de custos e foram embora. De repente era pra ser um filme de um tesouro perdido dos jesuítas, enfim.

            - E os índios tape ficavam aqui em baixo da terra por muito tempo? - indagou uma turista de Bagé, no sul do Rio Grande do Sul.

            - O tempo necessário até os bandeirantes caçadores apreadores de índios se cansarem de procurar e esperar e, então, irem em boa hora.

            - Ninguém se perdia nesse escurão, nem nunca nada? - quis saber um turista de Antônio Prado, terra do pinhão e das águas termais.

            - É realmente um labirinto e agora temos celulares e outros tipos de lanternas à pilha. Sim, e os mais novos se perdiam realmente. Muitos acreditam ainda hoje que os jesuítas e os índios coroado escondiam esconderam moedas de ouro e prata aqui por estes túneis buracos e furnas e locas. Eles vendiam muita erva-mate e casca de vaca e nem tinham tempo de gastar o dinheiro, de modos que enterravam ou escondiam a maior parte, né?! Acontece muito de vir também pra cá uns metidos com ferramentas de detectar metais, tão entendendo?! Ficam varrendo tudo aí aqui, acá e acolá!

            - Eu já ouvi falar que é verdade - disse uma turista de Vacaria, onde faz muito frio na época do inverno úmido que vai de junho e julho a agosto.

            - Sempre tem quem acredita e vem procurar, e vem fuçar, e vem aventurar. Dizem também que viveu aqui trancada uma índia encantada, uma teiniaguá. O nome dela era Jarandeua e pertencia à tribo ou etnia dos charrua. Histórias se inventam, verdades se confirmam. Sei que de minha parte nem venho aqui sozinho solitário, jamé!

            - Uma lenda? - inquiriu a turista de Guabiju, onde tem muito guabiju e se faz a paçoquinha de amendoim mais saborosa da região sul do B.

            - A índia bonita foi presa aqui dentro por um índio ciumento o Caxicaém. Aí, a índia começou a chorar um monte e alagou tudo. Aí, os túneis todos ficaram impossíveis. Aí, vieram os bandeirantes e os índios nem tiveram mais esconderijos para fugir e foram presos e escravizados e levados para a vila de São Paulo de Piratininga, hoje conhecida como São Paulo - a locomotiva do país. Aí, a aldeia charrua acabou. Foi uma longa história. Era um tempo aquele de muita luta muita cobiça muita febre do ouro e prata e diamantes, é. Os índios eram coletores e catadores e caçadores.

            - E a índia bonita também se afogou ou foi escravizada? - quem queria saber era a turista de Nova Bassano, ex-distrito de Nova Prata.

            - A índia ficou encantada e virou uma pedra de cristal raríssima e cara. Dizem que esta pedra rara e preciosa foi encontrada roubada e levada para a Europa. No velho continente passou de mão em mão e está agora num museu londrino de Londres, tesouro da coroa inglesa e patrimônio da realeza britânica.

            - E onde está a PF que nem faz nada? - curiosidade da turista do Paraí, capital nacional da pedra basalto e do paralelepípedo.

            - Boa pergunta. Vamos lá. De lá pra cá, houve muitas negociações e pedidos de devolução do governo brasileiro. Os ingleses dizem que é deles porque nem roubaram, compraram. Os da PF nacionais discutem e contradizem dizendo argumentando que como foi roubo contrabando mercado negro tem que devolver de qualquer jeito. E ficam nessa polêmica. Estão nesta polêmica até hoje. As embaixadas de ambos os países têm muito trabalho. E aí vai a coisa. E de nossa parte aqui vamos deixar assim, né?! Se sabe lá se um dia, um belo dia qualquer, nem se resolve?! Amém!

            Do teto desse túnel caíam, outrossim e também do mesmo modo, punhados de poeira caíam pedaços de pedra cascalho e terra e areia. Principalmente pingavam pinga-gotas infiltrações da chuva entre as gretas da rocha, etc. Parecia de repente que tudo ia desmoronar desabar e soterrar os incautos curiosos bisbilhoteiros. Uns entraram em pânico e queriam correr. Correr pra onde. Correr pela caverna mal iluminada. Andar correr passear pelo bucho do monstro pela barriga da montanha. O túnel do tempo.

             E a menina pegou do Tié e foi falando com o pai, distante quantos km?, logo da saída do esconderijo da gigante sucuri ou jiboia ou boiuna:

            - Um labirinto sem pé nem cabeça, né?!

            - Nem estava periclitante e ameaçador perigoso?! Pergunta!

            - Podia acontecer a qualquer momento uma catástrofe, e legendária!

            - Que você viu de bom lá embaixo ou de péssimo ou de nada?! Fotografou?

            - Parecia um duto de esgoto! Um canal pré-histórico! Uma morada de tatupeba!

            - Nem tinha nada pra ver, então?! Era tudo lenda? Uma mina abandonada?

            - Era pra ver uma índia encantada chamada Jarandeua!

            - E daí?! Registrou fotografou filmou?

            - Mas ela nem deu as caras ou nem existe mais! Parece que casou com um índio natural lá do parque do Xingu! E os dois foram morar nas cavernas de Peruaçu! E ainda tiveram têm muitos filhos e filhas. Alguns já moços e moças estudando em Cuiabá.

            - O que mais! Me diga e compartilhe.

            - Os padres jesuítas fugiam dos bandeirantes paulistas! E isso é fato de verdade!

            - Por quê?! Onde se viu, meu!

            - Porque os bandeirantes queriam tesouros de ouro e prata ou índios de comércio! Quando muito os próprios bandeirantes aumentaram o tamanho do país, é!

            - Então, os túneis eram esconderijos ou rotas de fuga?!

            - E podem desmoronar a qualquer momento, segundo nos informaram!

            - Quem é que cavou aquilo tudo?! Os próprios índios charrua, suponho!

            - Foi um tatu gigante chamado gliptodonte e pré-histórico! Contemporâneo e conterrâneo da preguiça-terrícola! O B antigo antiquíssimo já era habitado por dinossauros do tamanho de uma casa, é!

            - É, pode ser pode ser!

            - Tchau e fui!...

            No intervalo do dia 23 do mesmo mês, a menina viu um balneário no rio Carreiro, ali em Serafina Corrêa, e descreveu narrou assim com seu celular filmando tudo tudinho andando acompanhando e falando reportando pra casa. A narrativa fiel:

            - Oi aí, gente de casa! Vocês mesmos! Estão bãos?! Estamos aqui juntos eu e o Tié, já filmando... como podem ver e até escutar o barulho ambiente sonoro falante música ambiente... junto do balneário Piaga no rio Carreiro e dentro do enorme parque estadual Lagamar de Cananeia... e em plena represa... onde todos estão assim se deliciando na água se divertindo tomando seu banho gostoso... opa!, quase... tropecei soluço quase quase que caí e fui ao chão, gente!... alguns tipos veranistas estão na água outros mais no gramado verdejante churrasqueando sentados embaixo na sombra das árvores paineiras... sentados contando causos papeando gargalhando... e no bate-papo normal aproveitando... jogam altinha e vôlei e na boa... uns marmanjos jogam pelada ali no campinho de goleiras mas sem as redes... tem um sujeito aí com um drone ou arp... filmando em três eixos desde cima e etc., e com muito sucesso com a galera... como gostaria de ter um drone zangão 3d... gostaria até de dizer alguma coisa pro homem, mas deixa pra lá, né?!... e mais pra diante tem uma pinguela ou pontezinha pênsil muito bacana e balançante maneira... como vou mostrar pra vocês mesmos agora mesmo... e, senhora e senhor!... é feita de madeira tabuinhas de madeira amarradas presas com cordas muito resistentes e fortes... tudo suspenso nuns cabos de aço muito grossos poderosos... vou mostrar mostrando, hum!... podem ver!... é bem forte, é bem resistente, nem tem perigo de nada... que que é isso, meu! e aguenta muito peso, e as gentes, muita gente aproveita para tirar selfies e passar, por que nem, de um lado pro outro do rio... que aqui na frente faz uma curva em cotovelo... e é mais estreitinho remanso... tem lugar para acampar e estacionar os carros... e vêm turmas de outros lugares Estados cidades vizinhas irmãs, Florínea, Barão de Melgaço, Belmiro Braga, já vi placa de São Miguel do Gostoso, São Desidério, Ilha Comprida, Iaciara, Solânea, Jacuí...  e do outro lado do rio cruzando a pontezinha, temos... tem uma casa que é do proprietário aqui do sítio Piaga e se nem me engano e... ele tem um comércio de restaurante e boteco e serve comida almoços lanches internet gratuita... lugar agradável e convidativo e esportivo... vejam só!... para o pessoal que vem aqui e estaciona o carro... aqui para ir ao açude e passar o dia, etc... e vou ficando... já mostrei um montão... é isso mesmo, minha gente!... e então é isso, pessoal de casa... estou bem como podem ver, oi!... e que já estou encerrando os trabalhos e mostrei um pouco do balneário Piaga aqui no famoso rio Carreiro... espero acho que deu pra ver legal... que o lugar é lindo e muito aconchegante bonito já foi praça de índios coroado muitas centenas de anos atrás... o dia de sol escandaloso como podem comprovar, inté, tchau!... e os tais beijos, tepe! tepe!...

            Perto das cinco da tarde começou a cair uma chuva interessante peneirada. Já caía uma chuva preguiçosa preciosa prestimosa e molhada e demorada. Tem gente que gosta. Mais tarde, aí pelas seis da tarde e já em a cidade de Nova Araçá, terra dos araçaenses, chegava uma chuva firme e forte e convencida pluviosa pluviométrica.

            Choveu a noite toda choveu com vontade e foi muita chuva de barulho gostoso de dormir. A cidade alagou e foi uma debandada de gente fugindo de ser tragada pelas águas excessivas. Muita gente nem sabia nadar e era aí que morava o perigo. Alagar tudo o mundo de dia é uma coisa, completamente diferente durante a escuridão noturno.

            De manhã cedo, antes das cinco e meia, já tinha gente nadando na rua e nos igarapés e igapós. A cidade toda submersa, praticamente. Se queixava uma moradora da rua Muirajuba, e bem chorona, choramingas, chorosa e de galochas pretas de cano longo marca Âncora (fabricada em São João Batista do Glória). E quase estoica resignada foi e desabafou convicta, dedo indicativo apontando nem sei quê:

            - Uma overdose!... Estas chuvas torrenciais são os únicos problemas desta louvável cidade pitoresca da serra Gaúcha. Mesmo assim os governos nem acabam com elas nem as inibem nem as canalizam nem as contém de alguma forma. Podiam bombardear as nuvens, se quisessem. E D manda muita água que a gente nem precisa tanta e dá conta. Tem muito lugar no mundo que falta água e aqui cai em demasia e até de sobra, uma vez. Eu mesma nem sei por que nem regulam isso. Eu adoro o barulho de chuva, chuá! chuá!... mas apenas e somente para dormir dormir. Eu já tenho a minha cacimba no quintal de casa para regar as plantas e nem preciso de mais tanta água. Eu concordo e concordaria que D fornecesse um pouco da nossa chuva para um deserto ou agreste outro sítio qualquer, é. Por fim e ao cabo, a gente fica preocupada eu me preocupo em lavar a roupa tomar banho fazer pipi, entende?!, se nem vai com tudo isso de desperdício de água aumentar colaborar com a enchente a enxurrada. Quem precisa de tanta água da chuva?, pergunto. Vamos acabar virando todos sapos rãs e jias, é?!

            Depois do café da manhã, a chuva parando de vez, Lilás e avô Cardeal-Amarelo e Tié foram visitar um agricultor amigo e freguês do vovô mais para o interior do município de Nova Araçá já no distrito de Cuxiú. Na paisagem alguns descontos e produtos básicos de olhar e gostar. A estrada tinha dois lados de mato ou roça ou capoeira ou potreiro ou milharal ou mandiocal. Se observava um pica-pau-branco, se ouvia um uirapuru-azul, se admirava uma açanã-preta outra frondosa caçoca mais umas tesourinhas ainda uns enormes cupuaçuzeiros já carregadinhos algumas quinas-do-rio-negro florescendo barbaramente... Uns potreiros amorreados e grande maioria quase tudo todas as flores amarelas e de plantinhas daninhas em o parque unidade de conservação Mata de Goiamunduba. A menina 10 casinhas se admirava e trocava ideias opiniões palpites muxoxos adjetivos advérbios interjeições:

            - Urra!... Olhando, vovo?! Quantas árvores lilases e bem verticais pessoais!

            - Jacarandá-cabiúna!

            - Árvores soltas no potreiro!

            - Timbés!

            - Árvore pastando o azul do céu!

            - Uricanga!

            - Mais lá pra cima!

            - Nhamuí!

            - Aquela despencando painas!

            - Espinho-de-vintém!

            - Uma ali de ao acaso contingência acidental eventualmente!

            - Cordão-de-são-francisco!

            O avô parou o carro na beira da estrada, mais para curtir a paisagem e comer umas pitangas e guabijus e tarumãs e jabuticabas e abios e tucumãs e araticuns-do-mato... Um riacho corria e ria entre o gramado e os seixos rolados. Nascia no morro e descia sem modos entre pedras pedregulho para parar sabe lá em que gleba. Muito engraçado. Nem parava nunca de correr. Já podia ter peixes, se quisesse.

            Uma região de roça e gado doméstico pastando nos potreiros invernadas cercados de arame farpado ou mesmo taipa. Vacas malhadas, bezerros desmamados, um cavalo picaço, um cavalo fouveiro, umas potrancas azulegas, umas galinhas caipiras ciscando, uns roncos de porco no chiqueiro. Entrada na mão direita a gruta do Catão a lagoa Azul e tudo lá em Catolândia. O galo cantando cacarejando para avisar o dia, “cocoricóooo!...” e já arremedado imitado pela vizinhança continuadamente continuamente. Passarinhos de muitas espécies e cantos e gorjeios e plumagens muito difíceis de imitar e chocas-da-mata, sacis, jacurutus, primaveras. Tudo muito perto e ao mesmo tempo distante rural. Tudo muito encantado. Soberbos pinheiros-do-paraná araucárias presidindo a paisagem. Vegetações de córdias competindo com fruteiras abacaxizeiros bergamoteiras. Uma curiosidade negligente desleixada displicente:

            - Viu aves silvestres endêmicas anônimas, viu?!

            - Vi e ouvi!

            - Que passarinho ou aladinha que foi?!

            - Procure e adivinhe e ache!

            - Araponga-do-horto!

            - Hi!...

            - Curica-cuiú!

            - Uh!...

            - Gaturamo!

            - Bah!...

            - Tiriba-fogo!

            - Tóim!... Achô!...

            Chegaram, mais tarde, aí pelas 11h, na granja do seu Monguba Parracho, compadre do avô Cardeal-Amarelo. Os cães uns cinco ou seis ladraram com raiva e vontade e as demais energias furibundas. Era um senhor e uma senhora, a esposa que se chamava Juuna Filó e nativa diretamente de Arraial d’Ajuda distrito de Porto Seguro. Ambos os dois o casal o par sócios fundadores do grêmio de dança de roda o jongo Mariana Crioula e Manuel Congo preservando as tradições que vinham dos tempos escravocratas escravistas escravizados. Tinham filhos de idades diferentes, mas eles jovens estudantes estudavam na cidade grande de Erechim em o norte do Estado.

            - E como vai a roça, compadre Monguba, comadre Juuna? - perguntou o curioso seu Cardeal-Amarelo. É temporada de plantar o quê?, tomate, repolho, aipim, alface...

            - É, gente boa - respondeu o seu Monguba. A gente planta e colhe o que mais dá na conta, né! O que favorece muito o retorno e os tais e quais dinheiros são os aerogeradores e ou antenas de telefone, corretamente!

            - Temos também galinhas de marca e as poedeiras com suas proles - falou a dona Juuna. Mas o que convence mais o nosso bolso sempre vazio e oco são os passeios de quadriciclo pelo areal aqui da praia do Zumbi, que é uma atração espetacular à parte e em si. Temos um morro aqui pra riba que o pessoal corajoso usa para parapentear, uma barbaridade! Eles doidos pulam de lá em parapentes e a gente aqui fica olhando observando e na expectativa expectante.

            - Cansa muito trabalhar de sol a sol e sonhar de lua a lua - se convenceu Lilás.

            - A gente tem abelha jati que dá um mel muito ótimo - respondeu dona Juuna. Depois levamos nossas mercadorias na feira livre da rua Tamanquim todas as quintas-feiras e lá negociamos vendemos compramos e fazemos parcerias e novas amizades, tá! Mas o que convence os aventureiros a vir pra cá são as escaladas na rocha as escaladas verticais radicais, está claro! Eu mesma em pessoa fico contrita arrependida pesarosa compungida em deixá-los assim nessa mania de arriscar a sorte, né?! Meu esposo é mais benevolente comovido benévolo indulgente e nem liga a mínima. São os novos tempos!

            - E um açude piscoso de peixes muitos tucunarés-mereçás - respondeu seu Monguba. Entramos definitivamente na onda e na moda do pesque e pague, pois é!

            Automaticamente mais tarde, de tardezinha, depois das conversas e causos e histórias do vô com seu compadre e comadre, vieram embora de volta para a cidade das dos neoaraçaenses. Pássaros surpreendidos em meio às touceiras e pombas-carijós. A lua apressada no escurinho da tarde azul mais intenso. Aí, pelo centro movimentado no horário de pico foram chegando no hotel Pincha-Cisco. Já tomados banho e etc, a menina telefonou a partir do Tié aparelho (última geração no custo de 3 ponto 400 reais à vista), quer saber e diz:

            - Era um senhor Monguba e uma senhora Juuna, mãe! Eles tinham a sorte de uma guaratiba enseada perto do rio Tacutu. Tem gente que mora nesses lugares que todos sonham morar. Ofereceram croquetes de carne e sanduichinhos pão e salame. Serviram os tipos de pães caseiros planos e também os fofos encorpados estofados.

            - Que mais que tinha de novidade?! Conheceram os parceis de Rio do Fogo? O museu da Casa da Hera da dona Eufrásia Teixeira Leite? E Rio das Flores?

            - Praticamente o tempo era curto e limitado, porém quase tudo!

            - Como o quê?! A praia de Tourinhos, por ex? A igreja antiga onde trabalhou o padre Ibiapina?

            - Uma coleção de emas e seus filhotinhos comportadinhos! Os pais emas nem deixavam ver os filhotinhos de perto, é! Aonde o pai ema ia levando os filhotinhos também seguiam os mesmos em fila indiana, uma formosura fofura! Muitos e engraçados e falantes e piantes, tio-tio-tio- tiiii! tio-tio-tio-tiiii!...

            - Que mais! Os tuiuiús e os jacarés-de-papo-amarelo lagarteando, hem?!

            - Irerês!

            - Que mais! Os cabeças-secas e os colhereiros, quem sabe!

            - Jaós!

            Se ouvia então a gaita tocada a música o canto cantado pelo tal de Piaga Poti ali mesmo na praça da Congada, e mais a igreja imponente fazendo fundo construída em pedra basáltica à vista. E uma galera das redondezas de plateia, e às vezes de coro coral. O gaiteiro ensaiava algumas composições suas e parcerias. E mais umas já conhecidas de outros cantores intérpretes mais populares. Uns batiam palmas outros faziam ruídos com os pés. Efetiva e oficialmente o gaiteiro trabalhava numa floricultura Ananaí e das 7:30 às 17:00 (hora e meia para o almoço), uma estufa, produtos para jardins ornamentos plantas grama flores mudas sementes. O homem gaiteiro parou e discursou:

            - Hum!... Vamos ver. Prevejo muita água da chuva este mês de maio, é. Embora controlo eu mesmo um pouco a torneira. O rio da Prata aqui de pertinho com muita pressão na calha. Sim porque tudo me pertence extraoficialmente oficialmente originalmente. E hoje mesmo já criei e inventei e instalei no mundo estas coisinhas práticas, ouçam: longe daqui no mar perto da já localizada praia do Cassino uns peixinhos que já estavam em falta tais como nadando por lá garoupa-gato araximbora cangatã ou guarijuba. E voltando mais para dentro do continente de São Pedro, jareuá, feijoa, Vila Bela da Santíssima Trindade, Monte Alegre de Goiás, praia da Areia Grossa, pinheirinho-de-sala, Santa Bárbara do Monte Verde, Itaituba, nação uitoto, e nem necessariamente nesta ordem. Agora mesmo aumento os cálculos e digo mais: enviei via aérea uma carta a minha tia-avó. Valeu?! Fiquem com D e os anjos anjas!

            Fácil de lembrar, difícil de esquecer. Uma noite de muito vento e ventania e vendaval de derrubar postes de luz e entortar árvores gigantes, exemplo, quebrar galhos de pinheiros-de-são-paulo e jogá-los aí ao léu. Até mesmo a falta de energia foi um problema um fator que se somou. E de fato aconteceu. As provas estão nas fotografias e depoimentos e relatos. Quem diria?! Quem poderia duvidar?! Quem prova o contrário?!

            A noite tinha e tem um mistério o seu próprio mistério secreto. O dia tem também tinha um plano em mente e seu aparato solto diário ao ar livre. Nada ninguém podia saber o que uma pensava do outro. A noite está associada à coruja-orelhuda e o dia ao bem-te-vi-de-três-riscas. Manias hábitos arraigados arreigados enraizados.

E por isso mesmo os cães latiam nos quintais com aquela voz rouca, atrás dos muros paredes diante das portas das garagens. E se alguém pulasse a cerca ou o muro de tijolos à vista a cantaria, eles tinham autorização para ladrar mais ferozmente e atacar.

No levante no leste o sol se cria e cresceu, rompeu a escuridão do mundo todo quase todos dormindo, em poucos minutos descobriu que tinha um dia uma jornada pela frente e nem era pouca coisa. A história da humanidade em poucas palavras ou numa simples frase: “Ela é longa!”

            De manhãzinha um senhor cidadão local olhava tudo em volta meio que desanimado atordoado o cenário destelhado e arrancado e jogado longe e se lamentava se lamentou resmungando e gesticulando como fazem os descendentes italianos daqui:

            - Que quê!... O único problema deste lugar são esses tais e quais ventos fortes que volta e meia nos acontecem e sem dia e hora marcados. Que supetão, meu! Todos os meses com r são assim, já viu! Os ventos nem podem ser controlados, é certo. No entanto o governo devia cuidar do seu povo eleitor. Na cidade de Sobral isto nem acontece, na localidade de Dona Inês isto jamais, em Bananeiras isto nunca que se sucederá. Tá entendendo o que quero dizer, faixa? Um governo bom nem deixa sua população ao deus dará. Tem que haver um seguro contra ventos fortes e terríveis e uivantes uivadores. Quer mais? Na praia São Francisco as barracas e toldos foram todos destroçados e estão lá destrambelhados, a rua Jacareacanga está intransitável e obstruída, a praça Uirina destelhou o quiosque de informações turísticas, a creche municipal Dona Laiana quebrou todos os vidros e brinquedos. Um governo presente faz um povo contente. Um dia desses eu justifico nem voto mais pra prefeito e seus correligionários ou quem quer que seja. Amém, JC!

            E mais um dia que a menina e o avô acordaram com o cantar do galo na vizinhança, “cocoricóooo!...” dizia ele, e repetido replicado respondido pelos outros de outros quintais e hortas e sítios amiúde cacarejar e cacarejos hortifrutigranjeiros. Todo lugar tem um ou dois galos para acordar o dia e nessas horas. Nova Araçá, terra do araticum-do-campo e do butiá, entre outros produtos interessantes, tinha um galo bem do ladinho do hotel Pincha-Cisco. Dia oficialmente se inaugurando, promovido a hoje.

A Lilás acordou com o canto do galo Mais-Que-Cedo e abriu a janela e viu o galo no poleiro do pé de cambará-roxo. E a menina olhou o galo MQC e o galináceo (pinto importado de Santa Rosa de Lima, junto com outros irmãozinhos-as) fez aquele estardalhaço bateu as asas no peito para acordar todo o mundo. E conseguiu. E quem apitava piava alto ali era ele o próprio, sujeito emplumado e de briga e de façanhas.

            Então, foi um dia que nasceu pronto, o cantar do galo, o céu azul e todos os passarinhos em algazarra matinada alvorada, galos-da-serra, tauatós, curicas-urubus, supis, juruvas, uiramiris, curiós... Parecia perfeitamente um dia único no calendário.

            Quando foram tomar café, já tomando café no salão do hotel, a menina já foi perguntando ao vovô:

            - Aonde vamos hoje e para onde estamos indo, vô?

            - Olha guria! Vamos visitar uma tribo os remanescentes de índios coroado. Esses índios uma vez mandavam por estes lados pagos rincões e arredores. Agora são em menor número e meio que adaptados e urbanos urbanizados. Comiam pinhão no inverno, comiam coletavam mel de abelhas tujubas, comiam frutas do mato, gabirobas, goiabas-do-mato, jabuticabas, tarumãs, sete-capotes, raízes, tubérculos... e caçavam e pescavam conforme a oportunidade a ocasião e o local ambiente.

            Por enquanto mesmo, Lilás tomou café com bolo de chocolate cobertura de chocolate, um suco de abacaxi e mais uma fatia talha de melancia sem sementes. Vá lá entendi, ela um pouco despenteada e animada desde o fundo do coração. Colibris espetaculares irisados vinham beijar flores coloridas cachos alcaçuzes-da-terra borboletas-rubi perto do salão no térreo da pensão/hotel.

            Na altura da aldeia Jandaia-Amarela dos índios coroado, os visitantes passaram uma porteira e pediram licença e entraram. Um moço de nome Bacabaí veio se fazer de guia. Ele ia falando e explicando os costumes da aldeia e a menina e o vô iam pescando interessantes temas e assuntos praticamente originais autóctones:

            - Sinceramente!... Nossa etnia veio dos caingangue que são os índios de pelo duro, é. Nem tinham nem têm dia bom ou dia ruim. Povoamos vasta região dos Estados do sul e temos aldeias espalhadas em distintas distantes áreas de cidades como, Rio Rufino, Praia Grande, Pilões, Pilõezinhos, Itaú de Minas... Quando é pra ir para a guerra contra o homem branco, somos os mesmos e enfrentamos no peito e na raça. E mesmo os dias de muitas lutas e de correrias e de se esconder no mato. Dia de sol dia de chuvas frio ou calor nossa força nem descansa nem esmorece nem amolece nem desiste.

            - Essa, então!... Os coroado têm muito frio no inverno e geada branquinha abaixo de zero grau? - quis saber a menina. Como se abrigavam do frio minuano?

            - Nem falá, meu! Assim porque os da raça caingangue desde muito se escondem escondiam nos buracos e grutas e cavernas e casinhas feitas de pele de onça-parda e lá se protegiam da chuva do vento carpinteiro. Estamos e fomos criados nas florestas ombrófilas nas barrancas do rio Tainhas do rio Descoberto do lago São Bernardo nos campos de cima da serra, Urubici, Jaquirana, São Joaquim, Lages... Cavamos cavavam buracos no barranco e era bem quentinho fofinho aconchegante. Só saíam saímos quando o sol tava alto tá bom. Se chovia ficavam no buraco até parar de chover. Às vezes era difícil, mas eles suportavam suportamos com calma.

            - Comiam pinhão e o que mais? Eram ótimos caçadores coletores catadores...

            - Ao deus Tupã!... Caçavam muita anta e muita capivara e muito tatu-galinha, sim senhora! Era difícil fazer fogo e então riscavam riscam uma pedra dura na outra pedra dura ou um pedaço de graveto em outro graveto com palhinha seca e tinham o fogo. Faziam grandes caçadas de porcos-do-mato ou catetos. Faziam fazem pesca da traíra do jundiá do cascudo do lambari do muçum... e muitas outras tantas proteínas. E coletavam mel e ovos de ema e patas e marrecas e andorinhas-do-campo e outras aves.

            Na volta para a cidade, de retorno da aldeia Jandaia-Amarela dos coroado, a menina usou seu amigo Tié e pôs a conversa em dia com a amiga Rê, uma da turma das melhores amigas, contando discorrendo um assunto e outro tema se exibindo:

            - Ei, Rê, como andam as vezes?!

            - Me fale, guria! Pra onde andou e anda e por quê?! Esteve na cascata do Avencal? Na cachoeira Passo do S? No pitoresco município de São Jorge? Me mostre!

            - É uma aldeia de coroado e perto do rio Ituxi! Fabricam entre outras coisas os tais e quais ventiladores artesanais ou leques feitos da palha de douradinha-do-campo.

            - Me fale, guria! Eles vivem ao ar livre em oca e taba e ocara e tudo mais?!

            - Tinha um cãozinho canhato e que eu achei uma glória! Ele pedia comida com um gesto tão original, meu! Sabe, batendo com a patinha na gente! Ele a pessoa já na sua primitiva condição de cachorrinho animal! Eu adoro cachorro engraçado!

            - Me mostre me fale, guria! Eles vendem histórias relatos depoimentos teses de mestrado?! Eles se vestem típico pra tirar selfies?

            - Vi um indiozinho com sagui-de-cara-suja mascote pra lá e pra cá com o bichinho no ombro! Era muito mágico, sabe?! Eu te digo! Acho que uma vez pelo menos uma vez já fui índia tupi-guarani ou macro-jê! Eu adoraria e amaria! Veja!

            - Me fale, guria exportação! As cunhantãs fazem tatuagens com tinta de urucum e jenipapo?! Elas passeiam pela taba quase que seminuas? Assistem novela bíblica?

            - Com quê!... O índio Bacabaí disse que eles uma vez comiam peixe cru, pássaro cru, mel de abelha mirim-rendeira, pinhão cru, etc!. Só mais muito mais tarde que descobriram uma maneira hábil de acender um fogo fazer uma fogueira, entende?! Jogavam ali num monte umas grimpas secas de pinheiro-brasileiro ou araucária mais uma lenha e tacavam fogo. Sapecavam o pinhão no inverno todo e dava para todos.

            - Me fale, guria! Eles têm celular e ou rádio pra ouvir jogo do colorado?! 

            - Fomos convidados para o almoço! A comida era um carreteiro muito bom!

            - Me mostre, guria expedita! O rio Punaú passa ali por perto ou é encomenda?!

            - Oi e olá!... Comprei um colar e uma pulseira de miçangas e feitos por eles mesmos trabalho muito minucioso. As miçangas de plástico ou de madeira estas continhas importadas de Protásio Alves, uma fábrica que tem por lá. Nem vendem mais cocar e essas coisas de penas porque coitados dos bichos depenados, né?! A reserva tem muita árvore e uma rocinha de pés de milho mandioca amendoim abóbora melão...

            - Isso mesmo, guria! Você deve de tá muito maneira ali, hem?!...

            - Então, tchaaaau!... Me alegrei em te ver em te ouvir! Aí estão as fotos e veja!

            Um incêndio estalou a escuridão clareou a noite da cidade. Uma fábrica de tintas pegou fogo e o fogaréu se alastrou contaminando casas e prédios e carros e matos. Muita gente só escapou com a roupa do corpo, e olhe lá! Um morador de olhos acesos avermelhados escaldados tossiu tossiu, “tufe! tufe!...” e desabafou, descartou:

            - Quem me dera!... O problema deste lugar são esses incêndios inesperados e inexplicáveis e sem aviso prévio de vez em quando uma vez ou outra. Tem gente que faz fogueira para se esquentar na noite fria ou assar pinhão no quintal e vai embora e esquece e deixa o fogo se alastrar e incendiar tudo. O governo nem dá bola pra isso. Veja que falta do que fazer. Como se o governo tivesse muito que pensar e decidir e governar e deliberar. Por que nem resolve nada? Eu acredito que um dia as coisas vão melhorar. Agora mesmo eu pergunto: mas quando e quando será? Talvez com certeza pode ser quem sabe no dia de São Nunca! Eu prometo nem votar mais nestes caras!

            No outro dia, cheiro de fumaça ainda subindo no ar, pelo sim e pelo nem do fim das férias, céu azul espalhafatoso, a menina andando pelo centro histórico celular Tié acoplado na orelha, parou na calçada da rua Marquês do Herval e esticou o braço e agarrou um punhado de cerejas da cerejeira-do-rio-grande e madurinhas e suculentas e caindo de maduras tentadoras e pretas de maduras ao alcance da mão da mão:

            - Então, tô indo! E chego talvez amanhã pela tarde, mãe!

            - Nem faz um frio aí?! Veja um agasalho, né! Deixe ver tua cara, fia!

            - Vou levar uns presentes de miçangas de vidro dos índios coroado e umas lembranças locais tipo “lembrança de Nova Araçá” e “seja bem-vinda” e “volte sempre!” e “nem se esqueça de mim: a Nova Araçá!”

            - Nem vai chover hoje e amanhã?! Suponho! Esfriará ainda mais!

            - Vovô está levando uns potes de mel de jati e que achou de bom preço e bom gosto e bom perfume e boa cor! Dizem que é puro direto do produtor rural colonial!

            - Nem vai ventar aquele vento minuano?! Aquele de renguear cusco?!

            - Também temos umas mudinhas de ibaibai e folha-santa e arnica-do-campo e galinha-choca e cacho-de-mosquitos!...

            - Nem tem fogo de chão e mate-chimarrão?!

            - Tchaaaau!... Imagens para as minhas paixões aí, beijos, tepe! tepe!...

            Daí para frente a menina se acomodou no acento do carro e foi olhando o panorama até em casa. O carro passava por paisagens iguais e distraídas e laterais da pista os pontos de vista. Uma casa de pedra a coisa mais engraçada entre os cajueiros. Sítios com portões de entrada liberada somente para convidados. Gado leiteiro pastando tranquilo em pequena companhia. Uma pessoa um animal uma planta. Ligou o vídeo apontou e foi contando tudo que via pela frente mostrava e desenrolando o carretel:

            - Oi, gente amada de D!... Uma casa de pedra à vista? Nem sei se podem ver... direitinho, uma construção parece que chamam de típica dos tempos dos colonos pioneiros... e umas árvores mais altas acompanhando a faixa, em fila indiana as pupunharanas... uma curva para a direita em cotovelo... já faz um tempo que estamos rodando e tudo parece muito aconchegante... surpreendem muitas curvas aqui na serra Gaúcha e rio das Antas... estamos passando por uma cidade que chama Baianópolis e de acordo com o IBGE a população é de 16 ponto 997 habitantes... “acho que também é a mesma cidade... que o tal Amácio Mazzaropi inventou ou renovou e ampliou o tal e qual baião ritmo musical, tá entendendo?!”, este foi o avô... valeu vô!... nem sabia dessa... nem tô ligada nesse baita baião de dois... e quem foi o seu Luiz Gonzaga, hem!, vô? “um cantor de renome e dos bons... do meu tempo...” pois é, este é vovô... e sendo que mais ou menos metade da cidade são homens e a outra metade são mulheres... e as casas e prédios estão nos números de em torno de 8 ponto 444 domicílios particulares... e veremos ainda outras cidades nesta mesma rota de duas pistas... nas subidas três... e neste mesmo dia... passando como podem ver e eu espero que esteja tudo bem claro e nítido, oi!... a ponte sobre o rio Miranda, que é magnífica... que é magnífico... olhem só que espetáculo da natureza, hum!... e parece que está tudo como D colocou ali... e uma praia de areia branca com garças-brancas e biguás... muitos deles exemplares... talvez pescando talvez se secando ao sol... sendo que agora nesta mesma hora... estou com sono e bocejo assim, chou! chou!... vou relaxar e tirar uma soneca... sendo que desligo com um tchauuuu!... infinito, e até daqui a pouco... a última imagem que guardo na memória é esta... é a casinha do campo... do campo ou da serra?, nem sei, deixem aí os seus comentários os recados as opiniões... mais ou menos entre as árvores folhas-redondas... miau! miau!...

            Depois o carro dobrou uma curva e entrou numa antiga ponte de pedra, o rio todo resplandecente rebrilhante espelhado refletido passando lá em baixo, um rio que corria muito rápido no meio das pedras, parecia um rio suave e bom de nadar ali. Uma canoa encostada abicada na margem direita de quem descia ou da esquerda subindo.

            - Que rio, vô?! Será o rio Camaquã, o rio dos Sinos, o rio Turvo?!

            - É o rio Iquê, afluente do rio Abunã! Este país tem muito rio, é. Eu mesmo gosto muito de rios, entende?! É muita água doce para doar e abastecer e lavar!

            A estrada acompanhava o caminho. Os carros desciam ou subiam na contramão de quem ia. Os caminhões-baús surgiam do nada e por quê? Todos passavam ruidosos no motor a mais de cem por hora, 100km/h. Parecidos com seres extraterrestres que existem ou existiam em relances imagens de sonho. A jornada era um dia e muitas horas. E sendo feliz e se o freguês freguesa é felicidade, o tempo passa voando.

            Mais para lá umas plantações de soja e de trigo e de arroz e batatas e pessoas de chapéu de palha e lenço no pescoço e trator puxando uns arados umas grades gradeando arando lavrando plantadeiras colheitadeiras máquinas agrícolas pintadas de verde.

            - Vão plantar o quê?! Talvez seja quem sabe a vez de pasto para o gado, né?!

            - Leite!

            - Leite?

            - Primeiro os granjeiros plantam pasto, depois cortam o pasto e dão para as vacas, as vacas gostam de pasto como nunca como sempre e comem muito pasto, daí dão leite e os granjeiros fazem queijo e vendem o leite e derivados e compram pra eles mesmos eletrodomésticos carros caminhonetes utensílios em geral e sal e açúcar e café, café para adoçar com leite e tomar comer com pão e manteiga feita em casa no campo.

            - Eles granjeiros plantam e colhem comida pra comê, então! O tempo todo?!

            - Tá quente e na temperatura ideal. É a lei da física e da matemática e da gravidade, segundo os cálculos mais modernos recentes e técnicos. Todo princípio o início ou começo tem o seu término afinal no fim. Uma roda que gira no sentido horário, compreende?, meu chapa!

            Umas 10h e tudo era uma maravilha no mundo conhecido dos bípedes terráqueos. Do espaço longe o planeta é azul de dentro superfície o dia é ensolarado como no forno abafado bafão dos verões.

            Já a cidade de Nova Prata e aninhada no seu lugar, entre morros ou colinas. Os moradores e seus cães, ambos lentos aposentados em a maioria. A natureza maior parte de árvores temperando os seus cabelos longas crinas ao vento brisa doce do entardecer.

A menina normal inteligência beleza peregrina, cabelo vermelho escovado com detalhe de piranha segurando no alto, crescia sem parar e na ideia no humor no sorriso da guria nem via a hora de chegar e pronto. Nem fazia frio nem ventava nem chovia nem falava nem sonhava. E era comum simplificado, efetivamente.