Se você quiser viajar tem que
economizar. Há lugares parecidos lugares exclusivos lugares desaparecidos
lugares mágicos. Tem que economizar se quiser viajar.
Para alguém para outros para muitos
para a grande maioria para todos para o próximo para o estranho para mim o sol
é brilhante o ano inteiro. Nem se vê outro. E continua. Tipo assim: “Seja um
pálio de luz desdobrado, sob a larga amplidão destes céus...” Ou seja, uma vez
que é simples porém nem é ficção.
- O sol sábio sabe o que faz!
E a guriazinha Lilás foi lá tirando
férias. Nova Araçá é conhecida como a cidade das guabirobas, e a festa é sempre
de 7 a 15 de março aproveitando as frutas maduras. A comemoração do padroeiro
São Cristóvão é em julho e também se homenageia comemora o caminhoneiro, os caminhoneiros
viajantes peregrinos. Faz limites com Pedrinhas Paulista e Cássia ao sul,
Poconé e Alpinópolis no leste, norte Barra de Guabiraba, e Bonfim e Fortaleza
de Minas a oeste. Banhada pelos rios nem muito caudalosos rio da Prata e rio
Branco além de outros córregos e riachos menores. Ruas paralelas e
perpendiculares com casas prédios absolutamente bem cromáticos. Praça Cruviana
e praça das Águas e praça do Mirandinha, esta mais no centrão. Assim o parque
Paulo Cesar Vinha e bem cuidado com flora e fauna típicas da região.
Vamos combinar. E a guria a Lilás 10
janeiros já gostava. E a menina gostava na manhã de tapioca com queijo ralado e
iogurte mais café com leite. Lilás suspirou e sonhou com essa hipótese, o que
lhe compensava, o que nem lhe custava:
- Será que é fácil voar como voam os
passarinhos ariscos? Eles são muito rápidos e barulhentos. Deve de ser muito
legal. Supremacia vocal. Prática de voo livre. Tudo bem?!
A cidade na serra Gaúcha é servida
por seu próprio aeroporto internacional Araçá-Guaçu, com voos diretos e
regulares dos destinos regionais, Benedito Novo, Governador Jorge Teixeira,
Rodeio, Seringueiras, Passos... continentais e intercontinentais e
interplanetários, praticamente. O transporte público urbano chega às vezes a
ser congestionado engarrafar, mas nada que nem possa ser frequentado com
paciência e calma e boa vontade. Existe um ônibus para cada cinco mil
passageiros para cada rua do bairro e todos os distritos são servidos. Confere
um metrô de superfície e ele cobre basicamente a parte nobre da cidade que vai
do bairro Omágua ao bairro Cambeba, passando obviamente pelo centro histórico
patrimônio nacional tombado e imexível. Os táxis e ou os carros de aplicativos
são rápidos embora poucos e muito caros durante o dia e bem mais caros durante
a noite. Seria até possível chegar de barquinho pelo rio da Prata ou rio
Carreiro ou rio Sabia, mas nem existe uma linha fluvial sequer para tentar essa
possibilidade.
A paisagem é típica dessa região dos 600
metros acima do nível do mar e em plena serra também conhecida como serra
Geral. É ótimo ambiente e tem um pôr de sol e outro nascer de sol que são
encantadores, quando nem motivo de cenas de cinema ou novela de tevê. Chove
razoavelmente bem no inverno frio e úmido como no verão muito quente e abafado
chuvoso. Os mirantes favoritos da cidade são dois, o morro Azul e o morro
Arapongas. Pronto, falei!
- Esta lenda existiu, e ainda é.
Na praça Olavo Bilac, sempre perto
da noite que nem chove nem faz muito frio, surge um homem de meia-idade para
tocar e por conta própria a gaita ou sanfona ou acordeão. Vai e para de tocar e
escuta o tempo e... interpreta os astros o zodíaco os horóscopos tem visões e
dita a sorte de todo mundo que quiser que se aproximar nem aceita gorjetas
propinas esmolas presentes regalos.
Ele se chama Piaga Poti, e toca gaita
aerofane interpreta canta e faz os prognósticos para cada um e pessoalmente,
assim mesmo:
- Estamos em abril mês do 22 do
descobrimento. Criei o mundo inteiro com minhas próprias mãos e na imagem e semelhança.
Agora mesmo eu digo que: todos os planos serão satisfeitos. Hoje já criei a
ilha do Brocoió o índigo-do-brasil o tufinho-verde a praia do Cardeiro a cidade
de Guajará-Mirim o sagui-branco a embaúba-mansa a cereja-do-mato. Agora, vê se
me dá dão licença, eu nem sei o que você mais quer.
Foi nas férias que Lilás visitou
passando Nova Prata Nova Bassano Nova Araçá, as novas. Estava em companhia
muito bem acompanhada do seu avô de nome apelido Cardeal-Amarelo. E de um
celular muito interessante chamado Tié. Se hospedaram num hotel mais em conta,
o famoso hotel Pincha-Cisco, na rua André da Rocha, à beira do já mencionado
rio da Prata e na distância 2 cá eme da cascata da Usina.
- Foi aqui em acá que chegou
chegaram chegando os pioneiros imigrantes, vô?
- Mas bá, tchê! Te aprochegas no
mas... Foi sim, guria netinha a curiosa!
Acomodada acomodados, a menina
(ainda nos estudos fundamentais da escola estadual de ensino fundamental, EEEF
professor João Carlos Schmitt), pegou do Tié e telefonou para casa e de
uatezápi e já ouvindo a pergunta:
- Alou?!... Oi?!...
- Sim, sou eu, a Lilás! Digo e falo
e hablo! Pode me ver.
- E daí, filha legítima caríssima
necessária?! Responde o que preciso perguntar, pergunta o que preciso
responder.
- Chegamos e já estamos em Nova
Araçá, a terra da gabirova gabiroba!
- Que que há de novo e de novidade?!
Conta pra mim!
- Chegamos faz cinco minutos e estou
moída!
- Que mais!
- Estou um pouco tonta e mareada da
viagem, ufa! Olha só meu cabelo!
- Mas isso é só o começo, o primeiro
dia, depois vai embora!
- E amanhã eu completo, tchau! Mando
vídeo e fotos, fui!
Meia hora mais tarde, meio da tarde,
Lilás e o avô Cardeal-Amarelo estavam rodando uma voltinha na praça Santos
Dumont, pracinha carregada de ibiranhirás, angicos, micos-leões-dourados,
beija-flores-brilho-de-fogo, etc., japiras e tinhorões e agriões-do-pará e
papagaios-urubus... E iam olhando a cidade por dentro, caminhando pelas
calçadas de pedra basalto, olhando as vitrines das lojinhas, rua Doze de Abril,
experimentando sorver sorvete de açaí de cupuaçu de tucumã de pequi.
Pipilos e trilos e sibilos de
passarinhos, joões-de-barro, cantos de cigarras, estrídulos de
gavião-peneira... Descendências de capins-da-cidade famílias de
guabirobas-de-são-paulo e guabijueiros e pitangueiras e pequiás-amarelos
carregadinhos de frutos só esticar o braço e, “nhame! nhame!...”
O vovô era responsável por tudo. Mas
também bem sem aviso começou uma chuvinha peneirada. O avô foi logo contando
das novidades dele e muito mais:
- Sabe, Lilás, o que perguntou, num
dia de chuva como este, o tatu-canastra para a sua vizinha tamanduá-bandeira?
Perguntou assim: “Vizinha e comadre tamanduá-bandeira, será que chove ainda
hoje, gente?” E a tamanduá-açu o que respostou? A tamanduá-cavalo já respondeu
assim para o vizinho tatuaçu: “Se o vento pará, né!...” E os dois amigos e
vizinhos camaradas e compadre e comadre riram juntos, “ih ih ih!...”
Lilás ficou olhando a historinha do
vovô Cardeal-Amarelo e esperou a ficha cair. Esperou a ficha cair, e vírgula.
Nem caía a ficha e ela perguntou ao avô o sujeito:
- E depois, seu senhor Caramanchão?
- Depois eles deram risada um
tantinho e um e outra tentando rir mais alto que o outro. E isso sim! Assim
mesmo, uma flauta!
Na volta para o hotel Pincha-Cisco, a
menina agarrou o Tié e telefonou para casa e encontrou o pai atendendo e
solícito e precavido, foram se reparando:
- Foi aonde fia?! Já conhece a nação
nativa dos kaiowá? Hum!...
- No museu Osman Lins!
- Que que tinha no museu Imperial de
Petrópolis?! Sentiu o drama de tantos e tantas obras e peças e utensílios e
artefatos do tempo do império? Hem?!
- Uma carroça!
- De bois ou de mulas ou de jegues?
- Nem sei!
- Que mais que tinha?! Navio a
vapor, barco a vela, disco voador?
- Pelegos!
- Cascas de ovelha, é?! Isto é
contra nossos princípios de nem mexer com os animais, os pobres! Tá ligada?!
- O quê?!
- Que outra coisa você viu, fia do
bem-querer e bem-querida?!
- Fotos!
- Fotografias de quê, praticamente?!
A chegada dos pioneiros? A vinda dos imigrantes italianos poloneses alemães e
demais? Diga!
- Da cidade!
- De quando?! De antes de hoje de
amanhã e do porvir? Me corrige se estou errado, hem!, fia do coração apaixonado
da minha alma de pai.
- De longe!
- Gostou ou nem gostou?! Gosto se
discute, ok?!
- Gostei de ver neve!
- Nem acredito! Du-vi-de-o-dó! Você
viu bola de neve ou cascata véu de noiva?
- Neve em preto e branco e uma data
muito mais muito mais antiga! Dizem que foi a primeira e última vez que caiu
neve por acá, sim senhor! Fenômeno!
- Que mais você gostou ou nem
gostou?! O cânion da Boa Vista?, quem sabe. A aldeia dos cinta-larga? As
cavernas obscuras as tocas dos coroado?
- Conheci um carijo, sabe o que é?!
Era já uma construção arruinada falida!
- Mais ou menos, né, fia! Pra cima
de mim?! Onde se processava fumo em corda! No tempo que se fazia fumo de fumar
tabaco cigarro de palha pito!
- Depois eu ligo outra hora, tchau!
Mando pra vê umas fotos e tais e quais!
Aí a Lilás desligou o telefone e apagou
a tevê apagou a luz olhou tudo meio na penumbra. Ela foi ao banheiro, voltou,
foi para a cama de solteiro, puxou o cobertorzinho, ouviu muitas vezes o
“zuuuiiim!...” do vento voando mais ou menos apressado lá fora na noite mais ou
menos fria, soprando entre as árvores grumixameiras, puxou bem o cobertorzinho
até o queixo e esperou dormir logo e dormiu de repente e adormeceu de supetão,
“zu-zeeeee!...”
A cidade de Nova Araçá estava toda
descabelada na manhã seguinte. Foi uma ventania que atacou pela noite e a madrugada
toda. O vento derrubou árvores e as coberturas dos postos de gasolina. Parecia
uma mágica. Pedaços de árvores espalhados pelas ruas e avenidas, folhas
atiradas nas calçadas, árvores inteiras arrancadas, postes de luz derrubados.
Um guabirobal todo desfigurado um pinheiral todo desgrimpado um guabijubal todo
desnorteado e assim por diante.
- Que coisa alucinante, meu!
Todos os moradores da cidade
passeando ali e de cá pra lá se queixando que o único problema da cidade era
aquele vento forte justamente nos meses com r. Uma senhora meio desconsertada
falou se justificando (que todo mundo já deve sair prevenido e alertado em
segurança, e eu aviso de antemão no conforme, que ela esta senhora casada que
vai falar nem descasará ou enviuvará até o fim deste capítulo):
- Oi, gente! Este lugar é bom de se
levar a existência que D dá. Porém este vento é muito chato e feroz, às vezes.
Especialmente nesta época. E o governo nem faz nada nem interfere nem avisa nem
recomenda nem desacelera nem paga bônus nem indeniza. Olha, gente! É difícil! E
agora mesmo com esse covid-19 todo mundo tá achando que nada nada vale a pena.
Eu fico na expectativa, hem?! E mantenho um pé atrás e a pulga atrás da orelha,
né?!
E nessa mesma manhã despedaçada
desfolhada, Lilás acordou cedo para aproveitar bastante de a cidade. Enquanto
avô Cardeal-Amarelo corria atrás dos negócios, ela e o celular Tié se uniram a
um grupo de turistas do hotel para visitar pontos turísticos e monumentos
históricos casas antigas e quase em ruínas trilhas de cicloturismo sítios
arqueológicos vilas temáticas sendeiro senderismo roteiros...
- Vejo que os passarinhos são
cantores e suiriri, neinei, coró-coró, fim-fim...
O ônibus parou na frente do
monumento onde estão enterrados os ossos de Dom Pedro I e dona Leopoldina. O
guia foi explicando os assuntos comentários fatos históricos e de quando os
restos mortais vieram via aérea desde Portugal:
- Este é um mausoléu muito famoso e
conhecido dos brasileiros, etc. Bem onde foi o grito do Ipiranga.
- Dom Pedro era muito poderoso em a
época? - perguntou uma turista de Vila Flores, cabelos negros longos macios
escorridos caindo pelas costas.
- Oh, sim! O nosso imperador era
rico e famoso. Nadava praticava natação gostava de ir à praia de Botafogo.
Adorava festas e cavalos andar a cavalo cavalgar corridas de cavalo. Quando
muito de pedras preciosas diamantes esmeraldas e presentear as iaras manauaras.
- Havia, em aquele tempo, muita
riqueza no Estado e no país e na cidade? - indagou outro turista de Bom
Princípio, vestido com camiseta de clube da capital.
- Mas claro! Dinheiro dava em
árvores. Nem vi mas me contaram. O povo mesmo nem se queixava como se queixa
hoje. O povo mesmo gostava de gastar dinheiro e tinha muito ouro para pagar e
comprar e se divertir, é. Minas de ouros em Minas Gerais, minas de diamantes em
Diamantina, minas de ametistas em Ametista do Sul, minas de pratas em Prata-mg e Prata-pb.
- E o que se fazia para ter uma
árvore florindo dinheiro e desfrutando dinheiro em ouro e prata e cobre? - quis
saber uma turista de Guaporé-rs, óculos escuros caros.
- Eles plantavam guabirobas,
maiobas, raízes-de-cobra... Eles compravam mulas, é. Compravam mulas e burros e
organizavam tropas para viajar e vender e negociar nos mais distantes rincões
desse Estado de outros Estados. Assim, ficaram ricos comerciantes, ricos
negociantes, ricos mercadores e regatões. Ricos especuladores.
- E nem havia guerras e revoluções e
atentados? - indagou o turista de Casca, homem casado do lado da esposa e da
filha esta de oito anos completados recentemente.
- Muitas guerras espalhadas pelo
país, isso sim! Muitas revoluções espalhadas pelo país, tá certo! Muitas tribos
de índios querendo vingança, concretamente! E o próprio imperador Dom Pedro I
tinha muitos filhos para sustentar, quer saber!
- Então, era um imperador
ocupadíssimo? - especulou a turista de Encantado e nativa da cidade de
Timbó-sc.
- Dom Pedro I mandava em muita muita
gente. Mandava em todo mundo. Tinha tanto empregado que até tinha que pedir
licença para chegar em tempo na mesa do almoço ou do jantar. E empregados que
nem recebiam salário ou seguro desemprego.
- Quando é que ele zerou? -
interrogou uma turista de Ibiraiaras, mãos ágeis.
- Morreu no mês de agosto e já faz
um século. Mas o povo ainda acredita que o fantasma dele anda aí no ar no chão
quando muito andando de noite. Tem gente que acha que ele virou santo e reza
pra ele todo santo dia. Ninguém mais usa hoje em dia aquelas suíças ou
costeletas ou patilhas que ele deixava na cara no rosto na face.
À noite no hotel, a menina Lilás
pegou da Tié e telefonou para casa pra casa:
- Ah, mamã, foi bárbaro! Embora as
coisas acontecessem acontecem!
- O quê?!
- Tudo!
- Explique melhor, fia! Me mostre,
se for possível e se for o caso.
- O túmulo mausoléu cripta
monumento!
- Como era e de quem é esse túmulo
histórico?!
- Um imperador antigo e aventureiro!
Era filho de rei neto de rainha e pai de imperador e rainha! Foi e fez a
independência em São Paulo, capital!
- Que mais! Mais o quê?!
- Uma feira livre!
- Você gostou de quê?!
- Das frutas em todas as cores
possíveis! Sabores e cores no ar!
- Que mais!
- Tinha um teatro de bonecos
títeres!
- Eram engraçados desengonçados
caipiras?!
- Tinha um sapo que queria ser rei
ou imperador ou senhor de engenho!
- E no fim?!
- No fim o sapo ficou ainda sapo e
papudo e musculoso saltador de obstáculos!
- Que mais?!
- Até amanhã, tchaaaau!...
A-pa-gan-do!...
O gaiteiro Piaga Poti aparece aí na
altura de a praça da Paçoca e quando o tempo colabora o clima ajuda a
temperatura é agradável mais ou menos. Gosta se prepara para fazer as
previsões, o povo se aproxima automaticamente por conta própria. Ele toca uma
música do Teixeirinha uma outra de improviso e assim leva a assistência. As
pessoas acham bom, muito bom que apareça. Que hora, quantos anos por que parou?
Até que mais de uma coisa pra dizer:
- Olha, gente boa, que estamos em
fevereiro da semana do carnaval mais engraçado do mundo. Agora mesmo eu digo
uma coisa muito importante: o caminho é sempre uma estrada flexível. Hoje mesmo
pela manhã dia ensolarado e aproveito os dias abertos e já inventei e coloquei
no mundo tudo isto, observem: distrito de Paricatuba em Iranduba, Real Forte do
Príncipe da Beira ali em Costa Marques, praia da Lagoa Azul, jambu, juriti-grande,
soldanela-d’água, rio Cabixi, parque Terra Ronca em São Domingos, Cuitegi,
lélia a orquídea mais maneira do planeta terráqueo. Agora mesmo e nesta hora
indago: por que o cachorrinho Pampa nem dorme no jardim, hein?! Quem foi a
Antologia e aonde ela foi que nem voltou, supera?! E de fato, o mundo é
redondo?
Pela madrugada, num ponto qualquer
da cidade de Nova Araçá, começou um pequeno fogaréu. Depois o fogo, tocado pelo
vento, foi aumentando e tomando proporções alarmantes se alastrando. Nem demorou
muito e o fogo praticamente incendiou a cidade toda, e de ponta a ponta desde a
avenida Imperatriz Dona Leopoldina até o outro lado a alameda Imperatriz Dona
Amélia com sérias consequências na praça ten cel Joaquim Caetano Corrêa. Foram
chamados bombeiros de toda a redondeza toda a zona toda a região até acho que
sim de Vila Maria e Veranópolis e Vista Alegre do Prata e Aveiro e
Delfinópolis.
De manhã deu pra ver os estragos do
fogo das chamas das devastadoras labaredas. Casas incendiadas tisnadas destruídas
comidas pelas línguas vermelhas. Prédios interditados e chamuscados e
parcialmente queimados, fumegantes, fumantes. O mato completamente um campo de
cinzas e pedras soltas. Por pouco o museu pintor Pedro Américo também nem
desaparece com seu velho casarão tombado e todas as suas relíquias ali
guardadas com tanto carinho e respeito. As pessoas se lamentando e de olhos bem
abertos escaldados ressabiados. A br-324 ficou congestionada engarrafada cheia
de carros curiosos estacionados na contramão.
Um senhor que nem conseguiu salvar
nada da própria casa e do carro novo na garagem, se lamentava muito e
compridamente e emotivamente emocionado:
- É, sim, pois é. Este é o único
problema do lugar em que escolhemos pra morar. Tão paradisíaco para os turistas
e veranistas. Nós todos nos queixamos que os incêndios provocados ou
incidentais são uma calamidade local. E o governo nem faz nada nem ajuda nem
atrapalha. E nem sei por quê. O governo deveria indenizar... ou abrir um
financiamento no banco federal. Quero ver quem vai me dar outra casa outro
carro outros tudo que eu com minha família perdemos. Têm dias que parecem
noites e noite que parece que tudo vai pro beleléu e o fim dos tempos, tá
ligado tá ligada?!
Embora tudo isso, assim e assado,
Lilás nem ouvira nada dormiu toda noite nem foi acordada nem sonhou nem foi
atingida ou incomodada e acordou despertou automaticamente calma e senhora de
si. Acordou bem sensata.
- Deve de ser um ente mágico esse
tal de incendiário este foguista.
Mais um dia de turismo de
experiência e nesse mesmo dia seguinte a Lilás e o Tié e o avô Cardeal-Amarelo
foram para um parque zoológico um pouco retirado da cidade onde o incêndio nem
se propagara e sequer fora notado noticiado. Tudo verdinho e conforme o
catálogo certinho do guia turístico. De lá mesmo a menina acionou o Tié para
falar com os pais, enquanto:
- É, estamos num zoológico na
periferia de Sapucaia do Sul! Veja!
- Que que tem aí, filhinha?!
- Amarelas!
- Que amarelas são essas e aquelas?!
- Flores do campo!
- Que mais?!
- A tribo dos piratapuia, dizem!,
era dona disso aqui e tanto tempo passado.
- Eles são felizes em outro parque?!
O parque nem é mais deles? O parque fica ainda dentro da reserva dos
piratapuia? É grande o lugar? Tem rio ou tem hidroelétrica estrada asfaltada
br-470 indústria moveleira?
- Quando chove os índios voltam pra
casa!
- Nem moram na aldeia do parque?
- Moram na cidade!
- Que mais tem no parque?! Parque
sem cascata nem é parque!
- Prebixim ou tietinga, teréu-teréu
ou quero-quero, anajé ou gavião-carijó, gurundi ou pipira-preta,
bem-te-vizinho-de-penacho-vermelho, caburé-acanelado...
- Tem lago ou açude ou represa ou
barragem ou remanso ou poço?!
- Um rio que ri e passa sorrindo!
Quer saber o nome dele?
- Tem parque aquático, turismo
contemplativo, área de acampamento?!
- Por enquanto nem!
- Outra novidade nova novíssima em
folha?
- Vi um pintassilgo se balançando
numa cordinha ou barbante, colorido!
- Como assim?!
- O pintassilgo voava até a cordinha
do varal e se balançava! De cores!
- Estranho ou sensacional!
- Da cordinha ele pulava para a
haste de capim-membeca, irisado!
- Bonito e lindo de se vê, né?!
Fotografou?
- E da haste de capim ele pulava
para a cordinha esticada, preguiçoso!
- Pintassilgo também gosta de diversão
e lazer e entretenimento, hein?!
- Até, tchau! Inté amanhã! Fiquem
com D e a paz da NS!
Na noite uma chuva que foi um toró
catadupa. Um aguaceiro interminável e muito forte e de provocar enxurrada e
avalanche e desalojamento desmoronamento. Algumas casas foram invadidas pelas
águas, e sério! Nas encostas houve deslizamentos de terra pedregulho. Prédios
foram interditados e abandonados às pressas. Uma confusão na noite escura sem
energia. Garagens alagadas viraram piscinas algibes.
Tudo começou mais cedo umas horas
antes, então veja. Ondas de nuvens escuras pesadas já transtornando o ar a
atmosfera e tornando acendendo levantando fulgindo rasgando em tempestade
intempérie. E continuou com as nuvens os ventos os raios os trovões, já
rompendo multiplicando bramindo estirando rodopiando subindo estalando
trepidando estremecendo retorcendo em furacões tropicais.
Na manhã o lodo e o barro e a lama
estavam por toda parte e transbordando. Casas invadidas pelas águas tudo cheio
de sujeira tudo perdido tudo uma catástrofe. As pessoas remando botes de
borracha, andando com água na cintura, cachorro preso no telhado da casa,
automóveis nadando e ruas que viraram córregos correntes pântano.
Uma senhora de galochas brancas de
cano longo marca Ânfora (fabricada em Bom Jesus da Penha), se queixava da
calamidade pública coletiva civil dividida partilhada compartida entre aquela
gente mais atingida ilhada isolada:
- Sim, claro que nem! Praticamente é
o único problema da cidade, mas o prefeito nem tá nem aí e nunca nem resolve.
Só aparecem de quatro em quatro. Todos iguais esses tais e quais políticos
comuns. Ele deveria decretar emergência calamidade e pedir dinheiro ao governo
estadual e este ao federal, hein?! Dizem que em Cortês o rio Sirinhaém subiu 8
metros além e transbordou. Aqui todo mundo tá vendo que foi bem pior. Eu
acredito em D mas D nem manda neste prefeito vice-prefeito primeira e segunda
damas e vereadores insensíveis invisíveis. Ainda bem que sei nadar e bem!
Na mesma manhã, manhã de
sexta-feira, a menina, o avô, e mais, pegaram uma excursão e desceram para os
subterrâneos da cidade. O guia turístico comandava na frente explicando volta e
meia parando e dando detalhes. O duto nem tinha sido afetado invadido inundado
pelas águas volumosas da chuva lá fora mas gotejava do teto e escorria água da
parede. O túnel fora construído com grande engenharia, sem dúvidas.
- Seguinte, galera e galerinha!
Agora vamos descer às profundezas profundas e subterrâneas da cidade de Nova
Araçá. Ali eram esconderijos de padres na época que os bandeirantes vinham aqui
roubar os jesuítas e escravizar os indígenas da Redução. Ali eram esconderijos
para os índios fugir dos bandeirantes que vinham lá de São Paulo caçar
tupi-guarani. Ali, mais tarde e chegando quase aos nossos dias, virou
esconderijo de bandidos que queriam fugir da lei e esconder os produtos dos
roubos e assaltos e contrabandos. Muito presidiário fugido vinha e vem se
abrigar ali e aqui mesmo, ora!
- E tem esqueleto de padre, de
índio, de bandido, de bandeirante? - perguntou uma turista de Alegrete e que
trabalhava ultimamente em Correntina.
- Agora é só um túnel para turista
ver. Uma empresa de cinema da capital pensou em fazer um filme aqui, é. Vieram
olharam pediram ajuda de custos e foram embora. De repente era pra ser um filme
de um tesouro perdido dos jesuítas, enfim.
- E os índios tape ficavam aqui em
baixo da terra por muito tempo? - indagou uma turista de Bagé, no sul do Rio
Grande do Sul.
- O tempo necessário até os
bandeirantes caçadores apreadores de índios se cansarem de procurar e esperar
e, então, irem em boa hora.
- Ninguém se perdia nesse escurão,
nem nunca nada? - quis saber um turista de Antônio Prado, terra do pinhão e das
águas termais.
- É realmente um labirinto e agora
temos celulares e outros tipos de lanternas à pilha. Sim, e os mais novos se
perdiam realmente. Muitos acreditam ainda hoje que os jesuítas e os índios
coroado escondiam esconderam moedas de ouro e prata aqui por estes túneis
buracos e furnas e locas. Eles vendiam muita erva-mate e casca de vaca e nem
tinham tempo de gastar o dinheiro, de modos que enterravam ou escondiam a maior
parte, né?! Acontece muito de vir também pra cá uns metidos com ferramentas de
detectar metais, tão entendendo?! Ficam varrendo tudo aí aqui, acá e acolá!
- Eu já ouvi falar que é verdade -
disse uma turista de Vacaria, onde faz muito frio na época do inverno úmido que
vai de junho e julho a agosto.
-
Sempre tem quem acredita e vem procurar, e vem fuçar, e vem aventurar. Dizem
também que viveu aqui trancada uma índia encantada, uma teiniaguá. O nome dela
era Jarandeua e pertencia à tribo ou etnia dos charrua. Histórias se inventam,
verdades se confirmam. Sei que de minha parte nem venho aqui sozinho solitário,
jamé!
- Uma lenda? - inquiriu a turista de
Guabiju, onde tem muito guabiju e se faz a paçoquinha de amendoim mais saborosa
da região sul do B.
- A índia bonita foi presa aqui
dentro por um índio ciumento o Caxicaém. Aí, a índia começou a chorar um monte
e alagou tudo. Aí, os túneis todos ficaram impossíveis. Aí, vieram os
bandeirantes e os índios nem tiveram mais esconderijos para fugir e foram
presos e escravizados e levados para a vila de São Paulo de Piratininga, hoje
conhecida como São Paulo - a locomotiva do país. Aí, a aldeia charrua acabou.
Foi uma longa história. Era um tempo aquele de muita luta muita cobiça muita
febre do ouro e prata e diamantes, é. Os índios eram coletores e catadores e
caçadores.
- E a índia bonita também se afogou
ou foi escravizada? - quem queria saber era a turista de Nova Bassano,
ex-distrito de Nova Prata.
- A índia ficou encantada e virou
uma pedra de cristal raríssima e cara. Dizem que esta pedra rara e preciosa foi
encontrada roubada e levada para a Europa. No velho continente passou de mão em
mão e está agora num museu londrino de Londres, tesouro da coroa inglesa e
patrimônio da realeza britânica.
- E onde está a PF que nem faz nada?
- curiosidade da turista do Paraí, capital nacional da pedra basalto e do
paralelepípedo.
- Boa pergunta. Vamos lá. De lá pra
cá, houve muitas negociações e pedidos de devolução do governo brasileiro. Os
ingleses dizem que é deles porque nem roubaram, compraram. Os da PF nacionais
discutem e contradizem dizendo argumentando que como foi roubo contrabando
mercado negro tem que devolver de qualquer jeito. E ficam nessa polêmica. Estão
nesta polêmica até hoje. As embaixadas de ambos os países têm muito trabalho. E
aí vai a coisa. E de nossa parte aqui vamos deixar assim, né?! Se sabe lá se um
dia, um belo dia qualquer, nem se resolve?! Amém!
Do teto desse túnel caíam, outrossim
e também do mesmo modo, punhados de poeira caíam pedaços de pedra cascalho e
terra e areia. Principalmente pingavam pinga-gotas infiltrações da chuva entre
as gretas da rocha, etc. Parecia de repente que tudo ia desmoronar desabar e
soterrar os incautos curiosos bisbilhoteiros. Uns entraram em pânico e queriam
correr. Correr pra onde. Correr pela caverna mal iluminada. Andar correr
passear pelo bucho do monstro pela barriga da montanha. O túnel do tempo.
E a menina pegou do Tié e foi falando com o
pai, distante quantos km?, logo da saída do esconderijo da gigante sucuri ou
jiboia ou boiuna:
- Um labirinto sem pé nem cabeça,
né?!
- Nem estava periclitante e
ameaçador perigoso?! Pergunta!
- Podia acontecer a qualquer momento
uma catástrofe, e legendária!
- Que você viu de bom lá embaixo ou
de péssimo ou de nada?! Fotografou?
- Parecia um duto de esgoto! Um
canal pré-histórico! Uma morada de tatupeba!
- Nem tinha nada pra ver, então?!
Era tudo lenda? Uma mina abandonada?
- Era pra ver uma índia encantada
chamada Jarandeua!
- E daí?! Registrou fotografou
filmou?
- Mas ela nem deu as caras ou nem
existe mais! Parece que casou com um índio natural lá do parque do Xingu! E os
dois foram morar nas cavernas de Peruaçu! E ainda tiveram têm muitos filhos e
filhas. Alguns já moços e moças estudando em Cuiabá.
- O que mais! Me diga e compartilhe.
- Os padres jesuítas fugiam dos
bandeirantes paulistas! E isso é fato de verdade!
- Por quê?! Onde se viu, meu!
- Porque os bandeirantes queriam
tesouros de ouro e prata ou índios de comércio! Quando muito os próprios
bandeirantes aumentaram o tamanho do país, é!
- Então, os túneis eram esconderijos
ou rotas de fuga?!
- E podem desmoronar a qualquer
momento, segundo nos informaram!
- Quem é que cavou aquilo tudo?! Os
próprios índios charrua, suponho!
- Foi um tatu gigante chamado
gliptodonte e pré-histórico! Contemporâneo e conterrâneo da preguiça-terrícola!
O B antigo antiquíssimo já era habitado por dinossauros do tamanho de uma casa,
é!
- É, pode ser pode ser!
- Tchau e fui!...
No intervalo do dia 23 do mesmo mês,
a menina viu um balneário no rio Carreiro, ali em Serafina Corrêa, e descreveu
narrou assim com seu celular filmando tudo tudinho andando acompanhando e
falando reportando pra casa. A narrativa fiel:
- Oi aí, gente de casa! Vocês
mesmos! Estão bãos?! Estamos aqui juntos eu e o Tié, já filmando... como podem
ver e até escutar o barulho ambiente sonoro falante música ambiente... junto do
balneário Piaga no rio Carreiro e dentro do enorme parque estadual Lagamar de
Cananeia... e em plena represa... onde todos estão assim se deliciando na água
se divertindo tomando seu banho gostoso... opa!, quase... tropecei soluço quase
quase que caí e fui ao chão, gente!... alguns tipos veranistas estão na água
outros mais no gramado verdejante churrasqueando sentados embaixo na sombra das
árvores paineiras... sentados contando causos papeando gargalhando... e no
bate-papo normal aproveitando... jogam altinha e vôlei e na boa... uns
marmanjos jogam pelada ali no campinho de goleiras mas sem as redes... tem um
sujeito aí com um drone ou arp... filmando em três eixos desde cima e etc., e
com muito sucesso com a galera... como gostaria de ter um drone zangão 3d...
gostaria até de dizer alguma coisa pro homem, mas deixa pra lá, né?!... e mais
pra diante tem uma pinguela ou pontezinha pênsil muito bacana e balançante
maneira... como vou mostrar pra vocês mesmos agora mesmo... e, senhora e
senhor!... é feita de madeira tabuinhas de madeira amarradas presas com cordas
muito resistentes e fortes... tudo suspenso nuns cabos de aço muito grossos
poderosos... vou mostrar mostrando, hum!... podem ver!... é bem forte, é bem
resistente, nem tem perigo de nada... que que é isso, meu! e aguenta muito
peso, e as gentes, muita gente aproveita para tirar selfies e passar, por que
nem, de um lado pro outro do rio... que aqui na frente faz uma curva em
cotovelo... e é mais estreitinho remanso... tem lugar para acampar e estacionar
os carros... e vêm turmas de outros lugares Estados cidades vizinhas irmãs,
Florínea, Barão de Melgaço, Belmiro Braga, já vi placa de São Miguel do
Gostoso, São Desidério, Ilha Comprida, Iaciara, Solânea, Jacuí... e do outro lado do rio cruzando a pontezinha,
temos... tem uma casa que é do proprietário aqui do sítio Piaga e se nem me
engano e... ele tem um comércio de restaurante e boteco e serve comida almoços
lanches internet gratuita... lugar agradável e convidativo e esportivo... vejam
só!... para o pessoal que vem aqui e estaciona o carro... aqui para ir ao açude
e passar o dia, etc... e vou ficando... já mostrei um montão... é isso mesmo,
minha gente!... e então é isso, pessoal de casa... estou bem como podem ver,
oi!... e que já estou encerrando os trabalhos e mostrei um pouco do balneário
Piaga aqui no famoso rio Carreiro... espero acho que deu pra ver legal... que o
lugar é lindo e muito aconchegante bonito já foi praça de índios coroado muitas
centenas de anos atrás... o dia de sol escandaloso como podem comprovar, inté,
tchau!... e os tais beijos, tepe! tepe!...
Perto das cinco da tarde começou a
cair uma chuva interessante peneirada. Já caía uma chuva preguiçosa preciosa
prestimosa e molhada e demorada. Tem gente que gosta. Mais tarde, aí pelas seis
da tarde e já em a cidade de Nova Araçá, terra dos araçaenses, chegava uma
chuva firme e forte e convencida pluviosa pluviométrica.
Choveu a noite toda choveu com
vontade e foi muita chuva de barulho gostoso de dormir. A cidade alagou e foi
uma debandada de gente fugindo de ser tragada pelas águas excessivas. Muita
gente nem sabia nadar e era aí que morava o perigo. Alagar tudo o mundo de dia
é uma coisa, completamente diferente durante a escuridão noturno.
De manhã cedo, antes das cinco e
meia, já tinha gente nadando na rua e nos igarapés e igapós. A cidade toda
submersa, praticamente. Se queixava uma moradora da rua Muirajuba, e bem
chorona, choramingas, chorosa e de galochas pretas de cano longo marca Âncora
(fabricada em São João Batista do Glória). E quase estoica resignada foi e
desabafou convicta, dedo indicativo apontando nem sei quê:
- Uma overdose!... Estas chuvas
torrenciais são os únicos problemas desta louvável cidade pitoresca da serra
Gaúcha. Mesmo assim os governos nem acabam com elas nem as inibem nem as
canalizam nem as contém de alguma forma. Podiam bombardear as nuvens, se
quisessem. E D manda muita água que a gente nem precisa tanta e dá conta. Tem
muito lugar no mundo que falta água e aqui cai em demasia e até de sobra, uma
vez. Eu mesma nem sei por que nem regulam isso. Eu adoro o barulho de chuva,
chuá! chuá!... mas apenas e somente para dormir dormir. Eu já tenho a minha
cacimba no quintal de casa para regar as plantas e nem preciso de mais tanta
água. Eu concordo e concordaria que D fornecesse um pouco da nossa chuva para
um deserto ou agreste outro sítio qualquer, é. Por fim e ao cabo, a gente fica
preocupada eu me preocupo em lavar a roupa tomar banho fazer pipi, entende?!,
se nem vai com tudo isso de desperdício de água aumentar colaborar com a
enchente a enxurrada. Quem precisa de tanta água da chuva?, pergunto. Vamos
acabar virando todos sapos rãs e jias, é?!
Depois do café da manhã, a chuva
parando de vez, Lilás e avô Cardeal-Amarelo e Tié foram visitar um agricultor
amigo e freguês do vovô mais para o interior do município de Nova Araçá já no
distrito de Cuxiú. Na paisagem alguns descontos e produtos básicos de olhar e
gostar. A estrada tinha dois lados de mato ou roça ou capoeira ou potreiro ou
milharal ou mandiocal. Se observava um pica-pau-branco, se ouvia um
uirapuru-azul, se admirava uma açanã-preta outra frondosa caçoca mais umas
tesourinhas ainda uns enormes cupuaçuzeiros já carregadinhos algumas
quinas-do-rio-negro florescendo barbaramente... Uns potreiros amorreados e
grande maioria quase tudo todas as flores amarelas e de plantinhas daninhas em
o parque unidade de conservação Mata de Goiamunduba. A menina 10 casinhas se
admirava e trocava ideias opiniões palpites muxoxos adjetivos advérbios
interjeições:
- Urra!... Olhando, vovo?! Quantas
árvores lilases e bem verticais pessoais!
- Jacarandá-cabiúna!
- Árvores soltas no potreiro!
- Timbés!
- Árvore pastando o azul do céu!
- Uricanga!
- Mais lá pra cima!
- Nhamuí!
- Aquela despencando painas!
- Espinho-de-vintém!
- Uma ali de ao acaso contingência
acidental eventualmente!
- Cordão-de-são-francisco!
O avô parou o carro na beira da
estrada, mais para curtir a paisagem e comer umas pitangas e guabijus e tarumãs
e jabuticabas e abios e tucumãs e araticuns-do-mato... Um riacho corria e ria
entre o gramado e os seixos rolados. Nascia no morro e descia sem modos entre
pedras pedregulho para parar sabe lá em que gleba. Muito engraçado. Nem parava
nunca de correr. Já podia ter peixes, se quisesse.
Uma região de roça e gado doméstico
pastando nos potreiros invernadas cercados de arame farpado ou mesmo taipa.
Vacas malhadas, bezerros desmamados, um cavalo picaço, um cavalo fouveiro, umas
potrancas azulegas, umas galinhas caipiras ciscando, uns roncos de porco no
chiqueiro. Entrada na mão direita a gruta do Catão a lagoa Azul e tudo lá em
Catolândia. O galo cantando cacarejando para avisar o dia, “cocoricóooo!...” e
já arremedado imitado pela vizinhança continuadamente continuamente.
Passarinhos de muitas espécies e cantos e gorjeios e plumagens muito difíceis
de imitar e chocas-da-mata, sacis, jacurutus, primaveras. Tudo muito perto e ao
mesmo tempo distante rural. Tudo muito encantado. Soberbos pinheiros-do-paraná
araucárias presidindo a paisagem. Vegetações de córdias competindo com
fruteiras abacaxizeiros bergamoteiras. Uma curiosidade negligente desleixada
displicente:
- Viu aves silvestres endêmicas
anônimas, viu?!
- Vi e ouvi!
- Que passarinho ou aladinha que
foi?!
- Procure e adivinhe e ache!
- Araponga-do-horto!
- Hi!...
- Curica-cuiú!
- Uh!...
- Gaturamo!
- Bah!...
- Tiriba-fogo!
- Tóim!... Achô!...
Chegaram, mais tarde, aí pelas 11h,
na granja do seu Monguba Parracho, compadre do avô Cardeal-Amarelo. Os cães uns
cinco ou seis ladraram com raiva e vontade e as demais energias furibundas. Era
um senhor e uma senhora, a esposa que se chamava Juuna Filó e nativa
diretamente de Arraial d’Ajuda distrito de Porto Seguro. Ambos os dois o casal
o par sócios fundadores do grêmio de dança de roda o jongo Mariana Crioula e
Manuel Congo preservando as tradições que vinham dos tempos escravocratas
escravistas escravizados. Tinham filhos de idades diferentes, mas eles jovens
estudantes estudavam na cidade grande de Erechim em o norte do Estado.
- E como vai a roça, compadre Monguba,
comadre Juuna? - perguntou o curioso seu Cardeal-Amarelo. É temporada de
plantar o quê?, tomate, repolho, aipim, alface...
- É, gente boa - respondeu o seu
Monguba. A gente planta e colhe o que mais dá na conta, né! O que favorece
muito o retorno e os tais e quais dinheiros são os aerogeradores e ou antenas
de telefone, corretamente!
- Temos também galinhas de marca e
as poedeiras com suas proles - falou a dona Juuna. Mas o que convence mais o
nosso bolso sempre vazio e oco são os passeios de quadriciclo pelo areal aqui
da praia do Zumbi, que é uma atração espetacular à parte e em si. Temos um
morro aqui pra riba que o pessoal corajoso usa para parapentear, uma
barbaridade! Eles doidos pulam de lá em parapentes e a gente aqui fica olhando
observando e na expectativa expectante.
- Cansa muito trabalhar de sol a sol
e sonhar de lua a lua - se convenceu Lilás.
- A gente tem abelha jati que dá um
mel muito ótimo - respondeu dona Juuna. Depois levamos nossas mercadorias na
feira livre da rua Tamanquim todas as quintas-feiras e lá negociamos vendemos
compramos e fazemos parcerias e novas amizades, tá! Mas o que convence os
aventureiros a vir pra cá são as escaladas na rocha as escaladas verticais
radicais, está claro! Eu mesma em pessoa fico contrita arrependida pesarosa
compungida em deixá-los assim nessa mania de arriscar a sorte, né?! Meu esposo
é mais benevolente comovido benévolo indulgente e nem liga a mínima. São os
novos tempos!
- E um açude piscoso de peixes
muitos tucunarés-mereçás - respondeu seu Monguba. Entramos definitivamente na
onda e na moda do pesque e pague, pois é!
Automaticamente mais tarde, de
tardezinha, depois das conversas e causos e histórias do vô com seu compadre e
comadre, vieram embora de volta para a cidade das dos neoaraçaenses. Pássaros
surpreendidos em meio às touceiras e pombas-carijós. A lua apressada no
escurinho da tarde azul mais intenso. Aí, pelo centro movimentado no horário de
pico foram chegando no hotel Pincha-Cisco. Já tomados banho e etc, a menina
telefonou a partir do Tié aparelho (última geração no custo de 3 ponto 400
reais à vista), quer saber e diz:
- Era um senhor Monguba e uma
senhora Juuna, mãe! Eles tinham a sorte de uma guaratiba enseada perto do rio
Tacutu. Tem gente que mora nesses lugares que todos sonham morar. Ofereceram
croquetes de carne e sanduichinhos pão e salame. Serviram os tipos de pães
caseiros planos e também os fofos encorpados estofados.
- Que mais que tinha de novidade?!
Conheceram os parceis de Rio do Fogo? O museu da Casa da Hera da dona Eufrásia
Teixeira Leite? E Rio das Flores?
- Praticamente o tempo era curto e
limitado, porém quase tudo!
- Como o quê?! A praia de Tourinhos,
por ex? A igreja antiga onde trabalhou o padre Ibiapina?
- Uma coleção de emas e seus
filhotinhos comportadinhos! Os pais emas nem deixavam ver os filhotinhos de
perto, é! Aonde o pai ema ia levando os filhotinhos também seguiam os mesmos em
fila indiana, uma formosura fofura! Muitos e engraçados e falantes e piantes,
tio-tio-tio- tiiii! tio-tio-tio-tiiii!...
- Que mais! Os tuiuiús e os
jacarés-de-papo-amarelo lagarteando, hem?!
- Irerês!
- Que mais! Os cabeças-secas e os
colhereiros, quem sabe!
- Jaós!
Se ouvia então a gaita tocada a
música o canto cantado pelo tal de Piaga Poti ali mesmo na praça da Congada, e
mais a igreja imponente fazendo fundo construída em pedra basáltica à vista. E
uma galera das redondezas de plateia, e às vezes de coro coral. O gaiteiro
ensaiava algumas composições suas e parcerias. E mais umas já conhecidas de
outros cantores intérpretes mais populares. Uns batiam palmas outros faziam
ruídos com os pés. Efetiva e oficialmente o gaiteiro trabalhava numa
floricultura Ananaí e das 7:30 às 17:00 (hora e meia para o almoço), uma
estufa, produtos para jardins ornamentos plantas grama flores mudas sementes. O
homem gaiteiro parou e discursou:
- Hum!... Vamos ver. Prevejo muita
água da chuva este mês de maio, é. Embora controlo eu mesmo um pouco a
torneira. O rio da Prata aqui de pertinho com muita pressão na calha. Sim
porque tudo me pertence extraoficialmente oficialmente originalmente. E hoje
mesmo já criei e inventei e instalei no mundo estas coisinhas práticas, ouçam:
longe daqui no mar perto da já localizada praia do Cassino uns peixinhos que já
estavam em falta tais como nadando por lá garoupa-gato araximbora cangatã ou
guarijuba. E voltando mais para dentro do continente de São Pedro, jareuá,
feijoa, Vila Bela da Santíssima Trindade, Monte Alegre de Goiás, praia da Areia
Grossa, pinheirinho-de-sala, Santa Bárbara do Monte Verde, Itaituba, nação
uitoto, e nem necessariamente nesta ordem. Agora mesmo aumento os cálculos e
digo mais: enviei via aérea uma carta a minha tia-avó. Valeu?! Fiquem com D e
os anjos anjas!
Fácil de lembrar, difícil de
esquecer. Uma noite de muito vento e ventania e vendaval de derrubar postes de
luz e entortar árvores gigantes, exemplo, quebrar galhos de
pinheiros-de-são-paulo e jogá-los aí ao léu. Até mesmo a falta de energia foi
um problema um fator que se somou. E de fato aconteceu. As provas estão nas
fotografias e depoimentos e relatos. Quem diria?! Quem poderia duvidar?! Quem
prova o contrário?!
A noite tinha e tem um mistério o
seu próprio mistério secreto. O dia tem também tinha um plano em mente e seu
aparato solto diário ao ar livre. Nada ninguém podia saber o que uma pensava do
outro. A noite está associada à coruja-orelhuda e o dia ao
bem-te-vi-de-três-riscas. Manias hábitos arraigados arreigados enraizados.
E por isso mesmo os cães latiam nos
quintais com aquela voz rouca, atrás dos muros paredes diante das portas das
garagens. E se alguém pulasse a cerca ou o muro de tijolos à vista a cantaria,
eles tinham autorização para ladrar mais ferozmente e atacar.
No levante no leste o sol se cria e
cresceu, rompeu a escuridão do mundo todo quase todos dormindo, em poucos
minutos descobriu que tinha um dia uma jornada pela frente e nem era pouca
coisa. A história da humanidade em poucas palavras ou numa simples frase: “Ela
é longa!”
De manhãzinha um senhor cidadão
local olhava tudo em volta meio que desanimado atordoado o cenário destelhado e
arrancado e jogado longe e se lamentava se lamentou resmungando e gesticulando
como fazem os descendentes italianos daqui:
- Que quê!... O único problema deste
lugar são esses tais e quais ventos fortes que volta e meia nos acontecem e sem
dia e hora marcados. Que supetão, meu! Todos os meses com r são assim, já viu!
Os ventos nem podem ser controlados, é certo. No entanto o governo devia cuidar
do seu povo eleitor. Na cidade de Sobral isto nem acontece, na localidade de
Dona Inês isto jamais, em Bananeiras isto nunca que se sucederá. Tá entendendo
o que quero dizer, faixa? Um governo bom nem deixa sua população ao deus dará.
Tem que haver um seguro contra ventos fortes e terríveis e uivantes uivadores.
Quer mais? Na praia São Francisco as barracas e toldos foram todos destroçados
e estão lá destrambelhados, a rua Jacareacanga está intransitável e obstruída,
a praça Uirina destelhou o quiosque de informações turísticas, a creche
municipal Dona Laiana quebrou todos os vidros e brinquedos. Um governo presente
faz um povo contente. Um dia desses eu justifico nem voto mais pra prefeito e
seus correligionários ou quem quer que seja. Amém, JC!
E mais um dia que a menina e o avô
acordaram com o cantar do galo na vizinhança, “cocoricóooo!...” dizia ele, e
repetido replicado respondido pelos outros de outros quintais e hortas e sítios
amiúde cacarejar e cacarejos hortifrutigranjeiros. Todo lugar tem um ou dois
galos para acordar o dia e nessas horas. Nova Araçá, terra do araticum-do-campo
e do butiá, entre outros produtos interessantes, tinha um galo bem do ladinho
do hotel Pincha-Cisco. Dia oficialmente se inaugurando, promovido a hoje.
A Lilás acordou com o canto do galo
Mais-Que-Cedo e abriu a janela e viu o galo no poleiro do pé de cambará-roxo. E
a menina olhou o galo MQC e o galináceo (pinto importado de Santa Rosa de Lima,
junto com outros irmãozinhos-as) fez aquele estardalhaço bateu as asas no peito
para acordar todo o mundo. E conseguiu. E quem apitava piava alto ali era ele o
próprio, sujeito emplumado e de briga e de façanhas.
Então, foi um dia que nasceu pronto,
o cantar do galo, o céu azul e todos os passarinhos em algazarra matinada
alvorada, galos-da-serra, tauatós, curicas-urubus, supis, juruvas, uiramiris,
curiós... Parecia perfeitamente um dia único no calendário.
Quando foram tomar café, já tomando
café no salão do hotel, a menina já foi perguntando ao vovô:
- Aonde vamos hoje e para onde
estamos indo, vô?
- Olha guria! Vamos visitar uma
tribo os remanescentes de índios coroado. Esses índios uma vez mandavam por
estes lados pagos rincões e arredores. Agora são em menor número e meio que
adaptados e urbanos urbanizados. Comiam pinhão no inverno, comiam coletavam mel
de abelhas tujubas, comiam frutas do mato, gabirobas, goiabas-do-mato,
jabuticabas, tarumãs, sete-capotes, raízes, tubérculos... e caçavam e pescavam
conforme a oportunidade a ocasião e o local ambiente.
Por enquanto mesmo, Lilás tomou café
com bolo de chocolate cobertura de chocolate, um suco de abacaxi e mais uma
fatia talha de melancia sem sementes. Vá lá entendi, ela um pouco despenteada e
animada desde o fundo do coração. Colibris espetaculares irisados vinham beijar
flores coloridas cachos alcaçuzes-da-terra borboletas-rubi perto do salão no
térreo da pensão/hotel.
Na altura da aldeia Jandaia-Amarela
dos índios coroado, os visitantes passaram uma porteira e pediram licença e
entraram. Um moço de nome Bacabaí veio se fazer de guia. Ele ia falando e
explicando os costumes da aldeia e a menina e o vô iam pescando interessantes
temas e assuntos praticamente originais autóctones:
- Sinceramente!... Nossa etnia veio
dos caingangue que são os índios de pelo duro, é. Nem tinham nem têm dia bom ou
dia ruim. Povoamos vasta região dos Estados do sul e temos aldeias espalhadas
em distintas distantes áreas de cidades como, Rio Rufino, Praia Grande, Pilões,
Pilõezinhos, Itaú de Minas... Quando é pra ir para a guerra contra o homem
branco, somos os mesmos e enfrentamos no peito e na raça. E mesmo os dias de
muitas lutas e de correrias e de se esconder no mato. Dia de sol dia de chuvas
frio ou calor nossa força nem descansa nem esmorece nem amolece nem desiste.
- Essa, então!... Os coroado têm
muito frio no inverno e geada branquinha abaixo de zero grau? - quis saber a
menina. Como se abrigavam do frio minuano?
- Nem falá, meu! Assim porque os da
raça caingangue desde muito se escondem escondiam nos buracos e grutas e
cavernas e casinhas feitas de pele de onça-parda e lá se protegiam da chuva do
vento carpinteiro. Estamos e fomos criados nas florestas ombrófilas nas
barrancas do rio Tainhas do rio Descoberto do lago São Bernardo nos campos de
cima da serra, Urubici, Jaquirana, São Joaquim, Lages... Cavamos cavavam
buracos no barranco e era bem quentinho fofinho aconchegante. Só saíam saímos
quando o sol tava alto tá bom. Se chovia ficavam no buraco até parar de chover.
Às vezes era difícil, mas eles suportavam suportamos com calma.
- Comiam pinhão e o que mais? Eram
ótimos caçadores coletores catadores...
- Ao deus Tupã!... Caçavam muita
anta e muita capivara e muito tatu-galinha, sim senhora! Era difícil fazer fogo
e então riscavam riscam uma pedra dura na outra pedra dura ou um pedaço de
graveto em outro graveto com palhinha seca e tinham o fogo. Faziam grandes
caçadas de porcos-do-mato ou catetos. Faziam fazem pesca da traíra do jundiá do
cascudo do lambari do muçum... e muitas outras tantas proteínas. E coletavam
mel e ovos de ema e patas e marrecas e andorinhas-do-campo e outras aves.
Na volta para a cidade, de retorno
da aldeia Jandaia-Amarela dos coroado, a menina usou seu amigo Tié e pôs a
conversa em dia com a amiga Rê, uma da turma das melhores amigas, contando
discorrendo um assunto e outro tema se exibindo:
- Ei, Rê, como andam as vezes?!
- Me fale, guria! Pra onde andou e
anda e por quê?! Esteve na cascata do Avencal? Na cachoeira Passo do S? No
pitoresco município de São Jorge? Me mostre!
- É uma aldeia de coroado e perto do
rio Ituxi! Fabricam entre outras coisas os tais e quais ventiladores artesanais
ou leques feitos da palha de douradinha-do-campo.
- Me fale, guria! Eles vivem ao ar
livre em oca e taba e ocara e tudo mais?!
- Tinha um cãozinho canhato e que eu
achei uma glória! Ele pedia comida com um gesto tão original, meu! Sabe, batendo
com a patinha na gente! Ele a pessoa já na sua primitiva condição de
cachorrinho animal! Eu adoro cachorro engraçado!
- Me mostre me fale, guria! Eles
vendem histórias relatos depoimentos teses de mestrado?! Eles se vestem típico
pra tirar selfies?
- Vi um indiozinho com
sagui-de-cara-suja mascote pra lá e pra cá com o bichinho no ombro! Era muito
mágico, sabe?! Eu te digo! Acho que uma vez pelo menos uma vez já fui índia
tupi-guarani ou macro-jê! Eu adoraria e amaria! Veja!
- Me fale, guria exportação! As
cunhantãs fazem tatuagens com tinta de urucum e jenipapo?! Elas passeiam pela
taba quase que seminuas? Assistem novela bíblica?
- Com quê!... O índio Bacabaí disse
que eles uma vez comiam peixe cru, pássaro cru, mel de abelha mirim-rendeira,
pinhão cru, etc!. Só mais muito mais tarde que descobriram uma maneira hábil de
acender um fogo fazer uma fogueira, entende?! Jogavam ali num monte umas
grimpas secas de pinheiro-brasileiro ou araucária mais uma lenha e tacavam
fogo. Sapecavam o pinhão no inverno todo e dava para todos.
- Me fale, guria! Eles têm celular e
ou rádio pra ouvir jogo do colorado?!
- Fomos convidados para o almoço! A
comida era um carreteiro muito bom!
- Me mostre, guria expedita! O rio
Punaú passa ali por perto ou é encomenda?!
- Oi e olá!... Comprei um colar e
uma pulseira de miçangas e feitos por eles mesmos trabalho muito minucioso. As
miçangas de plástico ou de madeira estas continhas importadas de Protásio
Alves, uma fábrica que tem por lá. Nem vendem mais cocar e essas coisas de
penas porque coitados dos bichos depenados, né?! A reserva tem muita árvore e
uma rocinha de pés de milho mandioca amendoim abóbora melão...
- Isso mesmo, guria! Você deve de tá
muito maneira ali, hem?!...
- Então, tchaaaau!... Me alegrei em
te ver em te ouvir! Aí estão as fotos e veja!
Um incêndio estalou a escuridão
clareou a noite da cidade. Uma fábrica de tintas pegou fogo e o fogaréu se
alastrou contaminando casas e prédios e carros e matos. Muita gente só escapou
com a roupa do corpo, e olhe lá! Um morador de olhos acesos avermelhados
escaldados tossiu tossiu, “tufe! tufe!...” e desabafou, descartou:
- Quem me dera!... O problema deste
lugar são esses incêndios inesperados e inexplicáveis e sem aviso prévio de vez
em quando uma vez ou outra. Tem gente que faz fogueira para se esquentar na
noite fria ou assar pinhão no quintal e vai embora e esquece e deixa o fogo se
alastrar e incendiar tudo. O governo nem dá bola pra isso. Veja que falta do
que fazer. Como se o governo tivesse muito que pensar e decidir e governar e
deliberar. Por que nem resolve nada? Eu acredito que um dia as coisas vão
melhorar. Agora mesmo eu pergunto: mas quando e quando será? Talvez com certeza
pode ser quem sabe no dia de São Nunca! Eu prometo nem votar mais nestes caras!
No outro dia, cheiro de fumaça ainda
subindo no ar, pelo sim e pelo nem do fim das férias, céu azul espalhafatoso, a
menina andando pelo centro histórico celular Tié acoplado na orelha, parou na
calçada da rua Marquês do Herval e esticou o braço e agarrou um punhado de
cerejas da cerejeira-do-rio-grande e madurinhas e suculentas e caindo de
maduras tentadoras e pretas de maduras ao alcance da mão da mão:
- Então, tô indo! E chego talvez
amanhã pela tarde, mãe!
- Nem faz um frio aí?! Veja um
agasalho, né! Deixe ver tua cara, fia!
- Vou levar uns presentes de
miçangas de vidro dos índios coroado e umas lembranças locais tipo “lembrança
de Nova Araçá” e “seja bem-vinda” e “volte sempre!” e “nem se esqueça de mim: a
Nova Araçá!”
- Nem vai chover hoje e amanhã?!
Suponho! Esfriará ainda mais!
- Vovô está levando uns potes de mel
de jati e que achou de bom preço e bom gosto e bom perfume e boa cor! Dizem que
é puro direto do produtor rural colonial!
- Nem vai ventar aquele vento
minuano?! Aquele de renguear cusco?!
- Também temos umas mudinhas de
ibaibai e folha-santa e arnica-do-campo e galinha-choca e
cacho-de-mosquitos!...
- Nem tem fogo de chão e
mate-chimarrão?!
- Tchaaaau!... Imagens para as
minhas paixões aí, beijos, tepe! tepe!...
Daí para frente a menina se acomodou
no acento do carro e foi olhando o panorama até em casa. O carro passava por
paisagens iguais e distraídas e laterais da pista os pontos de vista. Uma casa
de pedra a coisa mais engraçada entre os cajueiros. Sítios com portões de entrada
liberada somente para convidados. Gado leiteiro pastando tranquilo em pequena
companhia. Uma pessoa um animal uma planta. Ligou o vídeo apontou e foi
contando tudo que via pela frente mostrava e desenrolando o carretel:
- Oi, gente amada de D!... Uma casa
de pedra à vista? Nem sei se podem ver... direitinho, uma construção parece que
chamam de típica dos tempos dos colonos pioneiros... e umas árvores mais altas
acompanhando a faixa, em fila indiana as pupunharanas... uma curva para a
direita em cotovelo... já faz um tempo que estamos rodando e tudo parece muito
aconchegante... surpreendem muitas curvas aqui na serra Gaúcha e rio das
Antas... estamos passando por uma cidade que chama Baianópolis e de acordo com
o IBGE a população é de 16 ponto 997 habitantes... “acho que também é a mesma
cidade... que o tal Amácio Mazzaropi inventou ou renovou e ampliou o tal e qual
baião ritmo musical, tá entendendo?!”, este foi o avô... valeu vô!... nem sabia
dessa... nem tô ligada nesse baita baião de dois... e quem foi o seu Luiz
Gonzaga, hem!, vô? “um cantor de renome e dos bons... do meu tempo...” pois é,
este é vovô... e sendo que mais ou menos metade da cidade são homens e a outra
metade são mulheres... e as casas e prédios estão nos números de em torno de 8
ponto 444 domicílios particulares... e veremos ainda outras cidades nesta mesma
rota de duas pistas... nas subidas três... e neste mesmo dia... passando como
podem ver e eu espero que esteja tudo bem claro e nítido, oi!... a ponte sobre
o rio Miranda, que é magnífica... que é magnífico... olhem só que espetáculo da
natureza, hum!... e parece que está tudo como D colocou ali... e uma praia de
areia branca com garças-brancas e biguás... muitos deles exemplares... talvez
pescando talvez se secando ao sol... sendo que agora nesta mesma hora... estou
com sono e bocejo assim, chou! chou!... vou relaxar e tirar uma soneca... sendo
que desligo com um tchauuuu!... infinito, e até daqui a pouco... a última
imagem que guardo na memória é esta... é a casinha do campo... do campo ou da
serra?, nem sei, deixem aí os seus comentários os recados as opiniões... mais
ou menos entre as árvores folhas-redondas... miau! miau!...
Depois o carro dobrou uma curva e
entrou numa antiga ponte de pedra, o rio todo resplandecente rebrilhante
espelhado refletido passando lá em baixo, um rio que corria muito rápido no
meio das pedras, parecia um rio suave e bom de nadar ali. Uma canoa encostada
abicada na margem direita de quem descia ou da esquerda subindo.
- Que rio, vô?! Será o rio Camaquã,
o rio dos Sinos, o rio Turvo?!
- É o rio Iquê, afluente do rio
Abunã! Este país tem muito rio, é. Eu mesmo gosto muito de rios, entende?! É
muita água doce para doar e abastecer e lavar!
A estrada acompanhava o caminho. Os carros
desciam ou subiam na contramão de quem ia. Os caminhões-baús surgiam do nada e
por quê? Todos passavam ruidosos no motor a mais de cem por hora, 100km/h.
Parecidos com seres extraterrestres que existem ou existiam em relances imagens
de sonho. A jornada era um dia e muitas horas. E sendo feliz e se o freguês
freguesa é felicidade, o tempo passa voando.
Mais para lá umas plantações de soja
e de trigo e de arroz e batatas e pessoas de chapéu de palha e lenço no pescoço
e trator puxando uns arados umas grades gradeando arando lavrando plantadeiras
colheitadeiras máquinas agrícolas pintadas de verde.
- Vão plantar o quê?! Talvez seja
quem sabe a vez de pasto para o gado, né?!
- Leite!
- Leite?
- Primeiro os granjeiros plantam
pasto, depois cortam o pasto e dão para as vacas, as vacas gostam de pasto como
nunca como sempre e comem muito pasto, daí dão leite e os granjeiros fazem
queijo e vendem o leite e derivados e compram pra eles mesmos eletrodomésticos
carros caminhonetes utensílios em geral e sal e açúcar e café, café para adoçar
com leite e tomar comer com pão e manteiga feita em casa no campo.
- Eles granjeiros plantam e colhem
comida pra comê, então! O tempo todo?!
- Tá quente e na temperatura ideal.
É a lei da física e da matemática e da gravidade, segundo os cálculos mais
modernos recentes e técnicos. Todo princípio o início ou começo tem o seu
término afinal no fim. Uma roda que gira no sentido horário, compreende?, meu
chapa!
Umas 10h e tudo era uma maravilha no
mundo conhecido dos bípedes terráqueos. Do espaço longe o planeta é azul de
dentro superfície o dia é ensolarado como no forno abafado bafão dos verões.
Já a cidade de Nova Prata e aninhada
no seu lugar, entre morros ou colinas. Os moradores e seus cães, ambos lentos
aposentados em a maioria. A natureza maior parte de árvores temperando os seus
cabelos longas crinas ao vento brisa doce do entardecer.
A menina normal inteligência beleza
peregrina, cabelo vermelho escovado com detalhe de piranha segurando no alto,
crescia sem parar e na ideia no humor no sorriso da guria nem via a hora de
chegar e pronto. Nem fazia frio nem ventava nem chovia nem falava nem sonhava.
E era comum simplificado, efetivamente.