quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Rio Parecido



        É difícil realizar um sonho assim. Por que é um sonho, então?

        Pegaríamos um barco voar as corredeiras e cascatas e remansos e furos e paranás, e iríamos por esse rio caudaloso aos beijos ao vento.

        Navegávamos o rio Acre, país dos kaxinawás.

        Trocaríamos beijos na proa.

        Um barco a vela, como soltos ao vento seus cabelos bonitos. E seus cabelos lindos. E seu bonito nariz de asa-delta. De sua boca de pitanga amarela. Olhos grandes bonitos grátis. Rosto pele fruta caju. Flor de chuva-de-ouro na orelha.

        Velejávamos o rio Apurema, terra dos cariús.

        Sol azul vento calmo nordeste árvores verdes céu gorjeio de catatau assobio de araponga grito de papagaio-diadema flauta de chora-chuva-preto cicio de saí-beija-flor.

        O vento tocando as velas do barco como tocando seus cabelos bonitos como tocando um taca-vento. Só os pássaros sabendo de tudo. Seus cabelos lindos eriçados como um cata-vento ao vento.

        Asas transparentes de jataí, juruaçu trapejando, enseada caprichosa, zumbidos zunidos que estavam uma coisa demais, outras enseadas, toucás floridas, comandatubas floridas, begônias-de-folha-estreita floridas, mais enseadas, nhambuanhanga cantando. E a ordem em que estava o ambiente dizia isso mesmo.

        Visitávamos o rio Miriti, local dos marubos.

        Ariscas aves pescadoras cantando assobiando trinando berrando gritando alertando trincando marrecas-cricris biguás tachãs colhereiros guiratingas tuiuiús atacando o barco e nós dois.

        Trocaríamos beijos na popa.

        Árvores rumorejando coisas impossíveis. Casais de passarinhos brincando de pega-pega. Aroma cheio no ar de chuvas-de-ouro. Tudo completo.

        Singrávamos o rio Cabixi, pátria dos krahôs.

        O mundo - o mundo todo e todo o mundo e todo mundo - nem assim.

        O barco solto tonto passageiro sobre pororoca ao vento.

        Trocaríamos beijos encontrados e abraços e beijos e carícias e risos e resmungos e muxoxos e cócegas, consumidos os dois. Depois sim, mais beijos com carícias olhares quentes e beijos.

        Percorríamos o rio Paratari, território dos kaxararis.

        Pousaríamos numa ilha dos tantos arquipélagos do rio, o sol caindo partindo para trás na cascata dos teus lindos cabelos de ouro, olhos esmeralda certa, e seus cabelos bonitos.

        Dormíamos o sono cansado das investidas, abraçados, agarrados, boca com boca aos beijos, sorrisos ao leve vento, sobre nós as nuvens, sem uma nuvem, e depois as estrelas duplas ou múltiplas.

        Tocávamos o rio Aponiã, área dos machineris.

        O rio nadando o rio. O rio habitando o caminho do rio. O rio juntando o rio. E mais rio com rio. O rio fundando a cidade do rio. Meia dúzia de quatro ou cinco rios. Rio que transborda o rio. Rio que sobe cachoeira.

        Vestiria pouca roupa, seu pescocinho lindo e saudável, caprichosa, diferente, boca desenhada. Um sorriso que igual concordaria. Uns cabelos nos olhos e os cabelos lindos.

        Aportávamos numa coroa do rio Corumbiara, nação dos waiana apalaí.

        O rio andando e voltar, o rio descendo e acreditar. O rio de uma forma ou de outra. Os lambaris nem podiam fechar a boca.

        Bacuris, muricis, bacuparis e o besouro de capa de couro passeando tripetrepe na folha de verde. Sendo por si só o menor cor metálica. E um verde com pintas pretas e antenas agitadas e motorzinho azoinando.

        Me falaria doçura de mel doce nas suas palavras de açúcar cristalino.

        Movimentando trejeitos rápidos o beija-flor-rajado, descansando um instante o uirapuru-de-chapéu-azul, se voltando para todos os lados a juruva-verde, atendendo a todos os ruídos e a todas as sombras o uí-pi, estalando gorjeio o bagageiro, limpando o bico nos ramos a solta-asa-do-sul, ensaiando passos o tijerila, voando trilando o lenheiro.

        Deitávamos numa praia branca do rio Quatro Cachoeiras, Estado dos jaminawás.

        O sol esquentando o café da manhã com a primeira coivara do dia, as árvores arbustos cipós ervas trocando ideias, os pássaros pulando da cama. O dia amanhecendo mais cedo.

        Acordaria noiva quase nua, ou inteiramente nua, a penugem arrepiada, envolta em sonhos sonâmbulos e preguiça e ressaca. Os cabelos nas costas. Esticaria os braços, lindos cabelos soltos, bocejaria e me olharia sem que eu percebesse. Não iria me acordar.

        Daí, pela praia, pés leves e descalços, urucá no tornozelo, esperta e flexível, admiraria os tracajás, os quero-queros, os guarás, os cabeças-secas, as saracuras-lisas, as garças-reais, os pés de juquiris-mansos, aprovaria o sol, cabelos acostumados com o vento doce, aproveitaria as estrelas que ainda, ouviria os gorjeios e zumbidos, miraria o sol, cabelos pintados manhã, alma serena, respiraria árvores verdes amarelas vermelhas azuis, esperaria o calor, manhã transparente e tudo mais, aguardaria o dia.

        O vento tocando como sempre os seus cabelos amarelos, os seus cabelos bonitos, e então olharia para trás, me aguardaria - e sem que eu pressentisse, pois estou dormindo como ninguém -, e seus cabelos pegando fogo do dia amarelo, cabelos orquídea amarela.

        Continuaria andando na praia do rio, o sol no início, estrelas saindo em curva acentuada, desejaria o dia radiar dardejar brilhar e eu me levantar. Pés passeariam pegadas na areia branca e macia e morna e branca. Umas flores amarelas de azedinha-do-campo. Cabelos compridos bonitos camuflariam os seios simples.

        Se tocaria nos seios dourados e quase cairia arrepiada e na manhã de toda matinada. Um casaca-de-couro estalar gargalhar. Um bando de periquitos-testinhas conversar gargalhar. Um pé de caixeta fru-fruar gargalhar. Um curutié quicar gargalhar. Um pé de sucupira-branco tru-truar gargalhar. Uma patativa roncar gargalhar. Um enxame de guiruçus zoar gargalhar. Um calango-verde tilintar gargalhar.

        Se quedaria puxando puxar assim mesmo distraída as pontas dos próprios seus cabelos lindos e bonitos. Pés na água fria e borbulhante do rio rindo. Lajedo liso e as mais pedras polidas roladas.

        Sempre, e se tocaria os cabelos caracolados, a boca, os braços, os seios, a barriga, as coxas, o refolho. Barriga baixa reta, e côncava dos lados. E seus cabelos mais leves bonitos que o perfume cor de uma flor amarela de bromélia. A jaçanã berrar de lá, rir de si para si. O jacamaraçu chiar de lá, rir de si para si. O tururu assobiar de lá, rir de si para si. A catirumbava pipiar de lá, rir de si para si. O piui-preto alardear de lá, rir de si para si. O chibante fiu-fiuar de lá, rir de si para si.

        A noiva me aguardaria deitada na praia branca deserta anônima, se sentaria no lajedo, se acomodaria na esteira tupé, se penduraria no barranco afofado de capim-marmelada, mão seguraria o queixo bonito, cabelos para trás, olhos no nascente, em sombra de um tingui-capeta, seus cabelos espertos lindos, e de frente pro vento que sempre vem subindo o rio.

        Árvores vizinhas de árvores, jaribaras juntando plantas, caputunas-pretas, guaianãs, olhos-de-boi, cutiúbas, muirajubas, jenipapos ainda mais verdes que as mandapuçás, turubis, cumaís, leques de palmeiras buritis. Árvores visitando aves, cateretê escolheu tucanuçu, passuaré estreitou com saí-verde, indaiá-guaçu estimou com macuco, aricuriroba bicou com maitaca-curica, marajá-do-igapó cumprimentou com bem-te-vi-da-copa, jequitibá-rei atacou de riso com tocava-estriada.

        O sol subindo nas sete horas esquentando a cerração, afinando as nuvens altas, matraqueando os maracanãs, guinchando o gavião-peneira, batendo o pica-pau-barrado, assobiando o tipio, brincando a caçula, fingindo o surucuá-de-coleira, rindo a rolinha-caldo-de-feijão, palpitando o cardeal-amarelo, imitando o sabiá-barranco, deixando pintar tudo de azul-azul ou azul-verde ou azul-ouro do alto a baixo e de baixo a cima, pra cá e pra lá, por que eu já estou morto?

        A biju ainda aguardaria por mim, seguraria o joelho com as mãos, acariciaria óleo de babaçu no corpo todo, os cabelos penteados manhã, seios futuro, seus cabelos apetitosos cheirosos, e seus cabelos amarelos bonitos, os modos os gestos os jeitos os beicinhos estudados, seus cabelos em ondas de sol.

        Uma vez por minuto, pegaria seu punhado de cabelos lindos e os jogaria para trás. Olharia ao redor e espreitaria por mim. Cabelos de ouro, cabelos brasa acesa, cabelos de asa de beija-flor-brilho-de-fogo, e seus cabelos lindos pintados de sol, cabelos cor de bronze aceso.

        O vento sempre assim arrepiando a penugem, os seios, a pele do braço, o sumidouro do umbigo, e seus cabelos mexidos, os jundiás pedalando na margem, os sarapós em nado livre, as pirapetingas de queixo caído, os saguirus de boca aberta, as aruanãs aprendendo a engatinhar, os icangas brincando de corre-corre, os pirapeuaua comendo açaí no café da manhã, as mandiaçus contando pedras na beira, as arraias varrendo o chão atolado de folhas secas, o barco no remanso sonhando balançando dormindo à brisa.

        Eu voo solto alto uma alma em espaço contínuo, eu sei, eu fui, eu sinto. Eu sou.

 

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