É
difícil realizar um sonho assim. Por que é um sonho, então?
Pegaríamos
um barco voar as corredeiras e cascatas e remansos e furos e paranás, e iríamos
por esse rio caudaloso aos beijos ao vento.
Navegávamos
o rio Acre, país dos kaxinawás.
Trocaríamos
beijos na proa.
Um
barco a vela, como soltos ao vento seus cabelos bonitos. E seus cabelos lindos.
E seu bonito nariz de asa-delta. De sua boca de pitanga amarela. Olhos grandes
bonitos grátis. Rosto pele fruta caju. Flor de chuva-de-ouro na orelha.
Velejávamos
o rio Apurema, terra dos cariús.
Sol
azul vento calmo nordeste árvores verdes céu gorjeio de catatau assobio de
araponga grito de papagaio-diadema flauta de chora-chuva-preto cicio de
saí-beija-flor.
O
vento tocando as velas do barco como tocando seus cabelos bonitos como tocando
um taca-vento. Só os pássaros sabendo de tudo. Seus cabelos lindos eriçados como
um cata-vento ao vento.
Asas
transparentes de jataí, juruaçu trapejando, enseada caprichosa, zumbidos
zunidos que estavam uma coisa demais, outras enseadas, toucás floridas,
comandatubas floridas, begônias-de-folha-estreita floridas, mais enseadas,
nhambuanhanga cantando. E a ordem em que estava o ambiente dizia isso mesmo.
Visitávamos
o rio Miriti, local dos marubos.
Ariscas
aves pescadoras cantando assobiando trinando berrando gritando alertando
trincando marrecas-cricris biguás tachãs colhereiros guiratingas tuiuiús
atacando o barco e nós dois.
Trocaríamos
beijos na popa.
Árvores
rumorejando coisas impossíveis. Casais de passarinhos brincando de pega-pega. Aroma
cheio no ar de chuvas-de-ouro. Tudo completo.
Singrávamos
o rio Cabixi, pátria dos krahôs.
O
mundo - o mundo todo e todo o mundo e todo mundo - nem assim.
O
barco solto tonto passageiro sobre pororoca ao vento.
Trocaríamos
beijos encontrados e abraços e beijos e carícias e risos e resmungos e muxoxos
e cócegas, consumidos os dois. Depois sim, mais beijos com carícias olhares
quentes e beijos.
Percorríamos
o rio Paratari, território dos kaxararis.
Pousaríamos
numa ilha dos tantos arquipélagos do rio, o sol caindo partindo para trás na
cascata dos teus lindos cabelos de ouro, olhos esmeralda certa, e seus cabelos
bonitos.
Dormíamos
o sono cansado das investidas, abraçados, agarrados, boca com boca aos beijos,
sorrisos ao leve vento, sobre nós as nuvens, sem uma nuvem, e depois as
estrelas duplas ou múltiplas.
Tocávamos
o rio Aponiã, área dos machineris.
O
rio nadando o rio. O rio habitando o caminho do rio. O rio juntando o rio. E mais
rio com rio. O rio fundando a cidade do rio. Meia dúzia de quatro ou cinco
rios. Rio que transborda o rio. Rio que sobe cachoeira.
Vestiria
pouca roupa, seu pescocinho lindo e saudável, caprichosa, diferente, boca
desenhada. Um sorriso que igual concordaria. Uns cabelos nos olhos e os cabelos
lindos.
Aportávamos
numa coroa do rio Corumbiara, nação dos waiana apalaí.
O
rio andando e voltar, o rio descendo e acreditar. O rio de uma forma ou de
outra. Os lambaris nem podiam fechar a boca.
Bacuris,
muricis, bacuparis e o besouro de capa de couro passeando tripetrepe na folha
de verde. Sendo por si só o menor cor metálica. E um verde com pintas pretas e
antenas agitadas e motorzinho azoinando.
Me
falaria doçura de mel doce nas suas palavras de açúcar cristalino.
Movimentando
trejeitos rápidos o beija-flor-rajado, descansando um instante o
uirapuru-de-chapéu-azul, se voltando para todos os lados a juruva-verde,
atendendo a todos os ruídos e a todas as sombras o uí-pi, estalando gorjeio o
bagageiro, limpando o bico nos ramos a solta-asa-do-sul, ensaiando passos o
tijerila, voando trilando o lenheiro.
Deitávamos
numa praia branca do rio Quatro Cachoeiras, Estado dos jaminawás.
O
sol esquentando o café da manhã com a primeira coivara do dia, as árvores
arbustos cipós ervas trocando ideias, os pássaros pulando da cama. O dia
amanhecendo mais cedo.
Acordaria
noiva quase nua, ou inteiramente nua, a penugem arrepiada, envolta em sonhos
sonâmbulos e preguiça e ressaca. Os cabelos nas costas. Esticaria os braços,
lindos cabelos soltos, bocejaria e me olharia sem que eu percebesse. Não iria
me acordar.
Daí,
pela praia, pés leves e descalços, urucá no tornozelo, esperta e flexível,
admiraria os tracajás, os quero-queros, os guarás, os cabeças-secas, as
saracuras-lisas, as garças-reais, os pés de juquiris-mansos, aprovaria o sol,
cabelos acostumados com o vento doce, aproveitaria as estrelas que ainda,
ouviria os gorjeios e zumbidos, miraria o sol, cabelos pintados manhã, alma
serena, respiraria árvores verdes amarelas vermelhas azuis, esperaria o calor,
manhã transparente e tudo mais, aguardaria o dia.
O
vento tocando como sempre os seus cabelos amarelos, os seus cabelos bonitos, e
então olharia para trás, me aguardaria - e sem que eu pressentisse, pois estou
dormindo como ninguém -, e seus cabelos pegando fogo do dia amarelo, cabelos
orquídea amarela.
Continuaria
andando na praia do rio, o sol no início, estrelas saindo em curva acentuada,
desejaria o dia radiar dardejar brilhar e eu me levantar. Pés passeariam
pegadas na areia branca e macia e morna e branca. Umas flores amarelas de
azedinha-do-campo. Cabelos compridos bonitos camuflariam os seios simples.
Se
tocaria nos seios dourados e quase cairia arrepiada e na manhã de toda
matinada. Um casaca-de-couro estalar gargalhar. Um bando de
periquitos-testinhas conversar gargalhar. Um pé de caixeta fru-fruar gargalhar.
Um curutié quicar gargalhar. Um pé de sucupira-branco tru-truar gargalhar. Uma
patativa roncar gargalhar. Um enxame de guiruçus zoar gargalhar. Um
calango-verde tilintar gargalhar.
Se
quedaria puxando puxar assim mesmo distraída as pontas dos próprios seus
cabelos lindos e bonitos. Pés na água fria e borbulhante do rio rindo. Lajedo
liso e as mais pedras polidas roladas.
Sempre,
e se tocaria os cabelos caracolados, a boca, os braços, os seios, a barriga, as
coxas, o refolho. Barriga baixa reta, e côncava dos lados. E seus cabelos mais
leves bonitos que o perfume cor de uma flor amarela de bromélia. A jaçanã
berrar de lá, rir de si para si. O jacamaraçu chiar de lá, rir de si para si. O
tururu assobiar de lá, rir de si para si. A catirumbava pipiar de lá, rir de si
para si. O piui-preto alardear de lá, rir de si para si. O chibante fiu-fiuar
de lá, rir de si para si.
A
noiva me aguardaria deitada na praia branca deserta anônima, se sentaria no
lajedo, se acomodaria na esteira tupé, se penduraria no barranco afofado de
capim-marmelada, mão seguraria o queixo bonito, cabelos para trás, olhos no
nascente, em sombra de um tingui-capeta, seus cabelos espertos lindos, e de
frente pro vento que sempre vem subindo o rio.
Árvores
vizinhas de árvores, jaribaras juntando plantas, caputunas-pretas, guaianãs,
olhos-de-boi, cutiúbas, muirajubas, jenipapos ainda mais verdes que as
mandapuçás, turubis, cumaís, leques de palmeiras buritis. Árvores visitando
aves, cateretê escolheu tucanuçu, passuaré estreitou com saí-verde,
indaiá-guaçu estimou com macuco, aricuriroba bicou com maitaca-curica,
marajá-do-igapó cumprimentou com bem-te-vi-da-copa, jequitibá-rei atacou de
riso com tocava-estriada.
O
sol subindo nas sete horas esquentando a cerração, afinando as nuvens altas,
matraqueando os maracanãs, guinchando o gavião-peneira, batendo o
pica-pau-barrado, assobiando o tipio, brincando a caçula, fingindo o
surucuá-de-coleira, rindo a rolinha-caldo-de-feijão, palpitando o
cardeal-amarelo, imitando o sabiá-barranco, deixando pintar tudo de azul-azul
ou azul-verde ou azul-ouro do alto a baixo e de baixo a cima, pra cá e pra lá,
por que eu já estou morto?
A
biju ainda aguardaria por mim, seguraria o joelho com as mãos, acariciaria óleo
de babaçu no corpo todo, os cabelos penteados manhã, seios futuro, seus cabelos
apetitosos cheirosos, e seus cabelos amarelos bonitos, os modos os gestos os
jeitos os beicinhos estudados, seus cabelos em ondas de sol.
Uma
vez por minuto, pegaria seu punhado de cabelos lindos e os jogaria para trás.
Olharia ao redor e espreitaria por mim. Cabelos de ouro, cabelos brasa acesa,
cabelos de asa de beija-flor-brilho-de-fogo, e seus cabelos lindos pintados de
sol, cabelos cor de bronze aceso.
O
vento sempre assim arrepiando a penugem, os seios, a pele do braço, o sumidouro
do umbigo, e seus cabelos mexidos, os jundiás pedalando na margem, os sarapós
em nado livre, as pirapetingas de queixo caído, os saguirus de boca aberta, as
aruanãs aprendendo a engatinhar, os icangas brincando de corre-corre, os
pirapeuaua comendo açaí no café da manhã, as mandiaçus contando pedras na
beira, as arraias varrendo o chão atolado de folhas secas, o barco no remanso
sonhando balançando dormindo à brisa.
Eu
voo solto alto uma alma em espaço contínuo, eu sei, eu fui, eu sinto. Eu sou.
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