Se eu penso que gosto de pensar e
sonhar essas coisas, penso que sim, então. A manhã surge pintando, sem pressa e
sem dúvida, as cores naturais das coisas, os sons normais dos passarinhos e
insetos e bichos pequenos e grandes e humanos e automotores. E tudo misturado,
junto, no começo do sol. E é o que eu digo, justiça seja feita, e justo agora.
Eu sempre sinto essa vontade de relinchar, relinchar...
E eu relincho bem alto, bato as mãos e os pés pelo piquete de chão de areia. Nem
posso me conter. Quero muito ir para o dia a dia. Nem posso acreditar. Quero
correr ou voar para me exibir diante das eventuais éguas e potrancas. Quero e
prefiro muito já sair pelaí e trotear e relinchar e pastar pela campina verde,
subir e descer coxilhas, canhadas, boqueirões, contornar sangas e restingas. Tudo
tem lá seu limite e o meu é a fazenda Gurupema, que já nem é pequena, do
tamanho de uns 34 campos de futebol ou muitas cidades somadas, Tucano, Cabrobó,
Pio IX, Pombal, Vila Nova do Sul... Estou ouvindo nesse instante, com essas
minhas orelhas grandes e pontudas e peludas, escuto atento, licença, são umas certas
pessoas inteligentes falando alto, tudo por via da língua humana lá delas...
- Maria Cristina! Responda logo, menina sapeca! Onde
anda você?!
...e a resposta da moçoila passarinha de arribação...
- Um momento...
O cangaceiro macanudo - descendente de
família antiga profunda nascida junto à Lapa Vermelha onde 11 mil anos atrás
também caminhara uma dona Luzia -, comandante do alazão Zoró, usava vestia habitualmente
um chapéu pantaneiro de couro de suaçuapara enfeitado com pena grande de
caracará e barbicacho preso no lábio inferior; um lenço vermelho de pescoço,
símbolo e relíquia da revolução Federalista de 1893-95; o cinturão de couro de
jaguatirica enfeitado de bordados com todo tipo de armas brancas e de fogo mais
o fivelão pesado em forma de ferradura; as duas pistolas automáticas em coldres
de couro de jacaré-de-papo-amarelo; a peixeira livre bem acomodada junto da
virilha; no lado da coxa direita um facão de mateiro quatro listas em bainha
larga de couro de lontra; trançadas no peito taurino, as patronas atochadas de
bala; à bandoleira o jagunço o tapijara portava um fuzil WT-125 último tipo
última moda última chamada e com mira telescópica; a tiracolo uma espada
samurai de metro e vinte presa na correia de couro de cobra sucuri; uma adaga embainhada
transversal às costas, à moda gaúcha, em couro de porco-do-mato; um canivete
multiuso no bolso da bombacha; uma faca na bota de couro cru de iguana; a
navalha das de barbeiro fundida e forjada nas oficinas de Bonfim levada
escondida na cavinha do colete feito de papos de tucano-de-bico-preto; um
punhal na manga da jaqueta de couro de anta; duas granadas, de uso exclusivo do
exército, bem camufladas penduradas uma em cada axila; anéis de ouro com rubi
incrustado adornando todos os dedos menos os polegares; um relógio digital no
pulso esquerdo com pulseira de prata; pendendo do pescoço grosso de suçuarana,
uma grande corrente com enorme crucifixo fazendo um conjunto em ouro maciço; um
laço dezoito voltas de couro cru de capivara trançado importado de Casa Nova preso
na anca da montaria. Sem esquecer os olhos frios o olhar sempre natural de
jararaca em aspa-torta, dente-seco, pelo-duro, casca-grossa.
Quando férias de verão, férias de fim de ano e
escolares, o capanga o curimbaba levava na garupa do alazão Zoró, junto pras
aventuras e peripécias e bulhas, o filhinho único rebento menor de idade. Muito
parecido com o pai que o próprio dna nem precisava ser consultado e quando olhava
os dois nem tinha mais dúvida. Uma miniatura do genitor em tudo na cara e no
focinho nas vestes nos apetrechos e nas armas umas por enquanto de brinquedo
mais leves e outras já de verdade, etc. O menininho encapetado imitava o pai
até nos gestos e cacoetes e relaxamentos e cuspidas. E só nem era tão grosso
por falta de espaço. Mas se ia crescer e chegar lá?, era esperar pra ver pra confirmar
pra ter certeza.
A aldeia de Santa Luzia evaporava
derretia se consumia ao sol impiedoso comburente causticante ardente. Uma
poeira vermelha no ar encobrindo e colorindo maquiando todas as coisas. Nem
chovia, já se via, há mais de trezentos anos. Casinhas de pau-a-pique cobertas
de santa-fé. Ex-árvores já apodrecidas de muito, ingazeiro, quixabeira,
cansanção, cunanã... aí na pracinha sem as
cores naturais esmaecidas espécies extintas carcomidas pela seca. A terra
rachada e árida e imprestável e sáfara e caíba e tiguera. Saci rindo e
debochando e tiritando no meio da rua no redemoinho, ah ah ah eh!... única rua e
poeirenta e pedregosa.
Os vilões, poucos e difíceis e
alérgicos, tiveram uma surpresa, já naquela manhã 10h e 10min de uma torrada quinta-feira.
Chegava à aldeia aquilo que se via, sem aviso, sem anúncio, sem remédio, sem o
quê, um dos mais temidos assassinos cruéis desalmados gelados impiedosos de
aluguel no país. Era ele mesmo, o malfalado, o malcriado... Zezinho Arcanjo
Bontempo. Ele mesmo, em carne e vestes e armamentos e lenda e mito. Montado no
seu cavalo alazão Zoró. Na garupa o filhote, de nome ainda nem famoso, mas com
certeza que breve igualará o pai ou piorará a raça - aguardem os que puderem ter
por acaso o futuro -, o Camaquã Jatobá Bontempo.
E todos os aldeões e as aldeãs e os
aldeõezinhos e as aldeãzinhas se entreolharam e se falaram para saber e compartilhar
para pensar e refletir:
- Olha, é o Zezinho Arcanjo Bontempo! Resolveu passar
aqui pela nossa vilinha. Quem sabe em busca de quem ou de quê?
- Vem é ele o filhinho o alazão ou um trio parada
dura.
Zezinho Arcanjo Bontempo já estava no
arraial, já estava ali, já chegara, já calcara a bota de esporas grandes
raiadas cantantes, tre-lelengas!... na ruela empoeirada e pronto. Ele mesmo,
seu filhinho, seu cavalo alazão pura raça. Era esse o desatino. Pois o ruim sempre
dá um jeito de piorar ao cubo.
Zezinho Arcanjo Bontempo parou na porta
da ex-confeitaria. Pitando um palheiro dos crioulões mesmo, fumo de corda
grossa fabricado em Tanquinho. O gurizinho perguntou ao pai:
- Papai! Eu já posso começá a matar
gente?
- De repente, uma hora destas, né?!,
guri pressuroso.
E pai e filho e alazão queriam conhecer
a aldeia por dentro, e de ponta a ponta. Passaram no ex-açougue na ex-farmácia
na ex-ferraria na ex-birosca e tudo parado desocupado e na poeira. Foram até
uma ponta e outra da rua Única. Tudo castigado pela ressolana. Na escadinha da
capela em homenagem à santa Luzia, Zoró bateu uma foto do pai ao lado juntinhos
do seu filho. Zezinho Arcanjo Bontempo entrou para ver a santa e trocar uma
ideia. Camaquã Jatobá Bontempo foi no rastro, sempre nos calcanhares, ajeitando
as calças que caíam, imitando o seu modelo em tudo que podia.
Eu sempre recordo o que gosto de
recordar, obrigado. O risco depende de cada um. E cada um tem o seu rio. Eu
caminho dentro do corguinho e pasto o capim-membeca verde verde e úmido da
beira da água limpa. Me dá água na boca antes mesmo de comer mastigar mastigar,
quer saber! Passo horas pastando e brincando na piscina natural. Nem espero
nada. E espero muito para o futuro. O campo habitável dos é muito grande do
tamanho de 34 campos de futebol ou mais ou menos podendo abraçar cidades todas
de uma vez tais como, Jacobina, Bom Conselho, Penedo, Monte Belo, Caldeirão
Grande... E as horas passam? Olho lá o arvoredo cuidando do morro, japecangas,
covas-de-onça, espinilhos, sempre-vivas-da-serra, tapiás, farinhas-secas... Sou
o melhor ente cavalar desse potreiro mundo afora. Nem faz nada vim pra cá nasci
num sítio Lapa do Santo, Matozinhos. Nenhuma pergunta fica no ar. Nem espero
nada e as horas passam, vá lá! Hoje o dia que o sol anda num céu todo azul e
noite patriótica. Pronto, escuto gente falando, ouço com essas minhas orelhas
bicudas longas e fortes, um diálogo assim, nem tão perto de mim e humano...
- Maria Cristina! Você desistiu, hein?!, qual é. Onde
anda você?!
...e a resposta da guria magrinha linhas retas cabelos
ao sol...
- Um momento...
O morro, que há séculos nem mais aparecia
ou ameaçava a vila de Santa Luzia, explodiu inesperadamente no dia 20 de agosto
daquele ano. E jogou no ar muita lama incendiada, muita fumaça preta e
venenosa. E ainda a terra tremeu umas duas horas sem parar, depois parou,
continuou a tremer mais tarde, parou, tremeu, e assim por diante até completar
dois dias seguidos de abalos sísmicos terremotos tremores intermitentes. E,
então, os tremores, a fumacinha escura, muita lama quente que o caso foi
difícil. A coisa ficou horrível e pegou fogo. Todos os aldeões e as aldeãs
correram olhar o ex-morro já todo em pedaços e escombros. E desceu rio abaixo uma
interessante cascata crepitante de ouro em brasa. A lama desceu exorbitante e incendiando
mesmo tudo que via pela frente. Sacis riam, sacis pinoteavam, opinavam e
esfregavam as mãos, brincavam de se empurrar, ah ah ah eh!... Quem que podia
prever uma catástrofe daquelas, assim? Quem podia deter aquilo? De noite era
muito fantástico e luminoso o rio de magma. Rio fervendo borbulhando oferecendo
espetáculo especial espetacular e ridículo.
A explosão do cambiroto também trouxe à
superfície um monstruoso monstro guerreiro de ouro derretido. Um guerreiro dos
infernos e viciado em horrores e vinganças e perseguições. Todo feito de lama
de ouro e gases venenosos. Vinha na forma humana mesmo mais apropriada, mas
todo impressionantemente maior e mais equipado. Um bandoleiro banhado em ouro
incandescente, praticamente um ouro líquido, um troglodita faminto de maldades,
suando os gases mais tóxicos. E ele - seu nome ainda nem fora divulgado -
desceu à aldeia de Santa Luzia para fazer fuzarca e provocar estragos e acertar
umas contas, derrubar os moquiços, acabar com o resto que soçobrava e apodrecia.
Noite e dia um horror impressionista.
O monstro mal acostumado vestido de
lama da mais valiosa e de gases venenosos dos mais radioativos entrou pela única
rua, e sempre surgindo do lado do sol. Muito arrogantemente no seu estilo de
mexer os braços e tamanho e peso de tremer a terra toda. Parecendo uma estrela
cadente. Vinha furioso e queimando por onde passava. Parecia um meteorito
distribuindo fogo aleatoriamente. Vinha suando calor, muito calor, pingando
brasa, largando chispas e fleches. Um ente tocha, labareda, lava, fogueira,
chama, fogaréu, fogoió. Vinha chegando furioso e iluminando a noite toda. Numa
fúria crepitante e gratuita. Chegava descalço e deixando rastos de brasas em dia-noite
de fogueira de São João. Legítimo boitatá, salamandra, pedra de fogo e que nem
parava de queimar e cheirar a fedor de maconha.
Zezinho Arcanjo Bontempo examinou o
boitatá como quem chuleia e calcula um plano de... queima de arquivo. De repente,
os dois se viram um em cada extremo da rua Única. Cada um entrou por uma porta
espaçosa da via pública. A rua deserta empoeirada cascalhada... pequena demais
para os dois... única rua e tal... sob uma lua atrapalhada com o pó vermelho...
noite de estrelas adivinhadas com zodíacos mal e mal desenhados a milhões de
quilômetros luz, e o jogo aberto para apostas...
Os aldeões e as aldeãs testemunhando escondidos atrás
das remendadas cortinas. A coisa ia pegar fogo, e a coisa já pegava fogo na
macega ressequida. Um saci passou correndo, quicando, rindo, ah ah ah eh!... e
nem quis nem saber.
O pequeno Camaquã Jatobá Bontempo piou,
debaixo dos pés do pai:
- Papai! Dexa comigo...
- Nem, fio. É com o degas aqui assa
história. Coisa de cachorro grande. E nem olhe diretamente nos olhos da fera.
No mínimo use uns óculos escuros de soldador.
O gurizinho obediente obedeceu o pai
ele sempre obedecia, procurou no aió de caroá trançado uns óculos totalmente
escuros ao estilo dos fundidores que trabalham com os maçaricos. Ajustou aquilo
e cruzou os braços.
E a coisa estava pela hora h e terminal.
E Zezinho Arcanjo Bontempo correu ao ex-açougue buscar um pacote de gelo. Nem
gelo nem balde de água nem remédios garrafadas drogas unguentos infusões encontrou.
Nem chovia há milênios. Terra calcinada, mundo incinerado.
Vendo essa intenção do Zezinho, o escorpião de ouro nascido
para destruir temeu pela própria incoerência e correu se esconder atrás de uma
casa de pau-a-pique coberta com folhas de iaguás secas. E a casinha incendiou
num pulo, fusss!... E o bicho fumegante foi e correu por trás de mais outra palhoça,
que novamente essa mesma pegou fogo num susto, tusss!... E atrás de outra choça
mais um tiro, vusss!... E foi impressionante porque onde o ente dos infernos se
apoiava com a mão ou adernava com o pé, já pegava fogo e o casinholo detonava, uuuus!...
incendiando em explosão fulminante. Assim, o tocha deixava um rastro de fogo
por onde passava e encostava.
Que fazer em caso de incêndio? Os aldeões e as aldeãs
e os aldeõezinhos e as aldeãzinhas, diante da vila incendiada incendiando, já corriam
para todos os lados e em pânico. Uns se escondiam atrás das pedras, outros e
outras se entocavam em alguma lapa.
Este pega-pega pra capar, entre os dois maiores bandidos
rivais do gênero no hemisfério sul, durou oito dias durou até aquela manhã. E
passou a manhã. Por volta das 13h e 31min o ente de pele de fogo e de gases
nocivos correu para o capoeirão, deixando um atalho de labaredas, um rastro de
fogo, um trilho queimando, um caminho inusitado. E pior, o demonho de ouro nem
se desgastava. Jogava faíscas e parecia cada vez mais macho mais gigolô.
Do alto das secas paineiras, sapotas,
icozeiros, canjeranas... esqueléticas petrificadas falidas desanimadas, toda a
súcia dos sacis juntos unidos em grupo, riam riam os bastantes, ah ah ah eh!...
Nem chovia há muitos e muitos anos. Todos os sacis vieram ver o espetáculo
quente e de derreter até as pedras.
Zezinho Arcanjo Bontempo cavalgou atrás
do monstro de músculos de ouro cru e gás fedorento até até que Zoró aguentou.
Na altura da chapada o alazão travou as mãos e os pés e desistiu. Na velocidade
em que perseguiam o diabo de ouro, atropelaram um espantalho. O trapo sujo
ficou todo esticado no chão entre o resto e a morte. O calunga sobrou todo fatiado
e gemendo com medo de morrer. À noite esse espantalho só podia ressuscitar um
lobisomem muito mal das pernas e braços e etc.
Meia hora depois, Zezinho e Zoró
resolveram desistir da caça ao cabeça-de-cuia. Voltaram, morro abaixo e na banguela.
Zezinho Arcanjo Bontempo apeou e foi olhar o espantalho atropelado estraçalhado.
Tentou recuperá-lo com uns tapas na cara, umas botinadas nas costelas, umas
sacudidelas, uns cortes de facão, uns socos na boca do estômago vazio e
esfarrapado. O boneco mal e mal xingava e bufava. Zezinho Arcanjo Bontempo pensou
que o espantalho já ia morrer e nem tinha mais jeito. Assim, jogou o trapo rasgado
no carrascal seco. Zezinho subiu no lombo do Zoró e, centauro, voltaram voltou
à vilinha.
Eu sou assim mesmo e o que digo, alazão
de nome Zoró, sonhador que imagina e pensa. Olho também o chão de capim-gordo,
de florinhas roxas caídas, potrinhas e potrancas vestidas de pétalas roxas,
debaixo de árvores vestidas de flores as mais variadas... Sim, me deixe sonhar ou
olhar com esses olhos. E lá... o lugar que estamos vendo agora, eu posso comer
capim-de-cheiro, do muito verde, comer línguas-de-vaca no orvalho da manhã,
comer flores do campo pelo campo afora, comer frutas verdes ou maduras, araçás,
azedinhas, pitangas, pitombas, potrecas... e deitar de barriga cheia na sombra
de uma perobeira. É um oásis, ou seja, água boa, pasto verde, flores do campo, árvores
de todo tamanho, éguas jovens de todos os tons de verde, nada para fazer, passarinhos
gorjeando tranquilos, cocorés, marrequinhas, potiris, abades, chororós, maguaris,
corujas-do-mato... chuva de vez em quando, sol pintando tudo e um pouco mais. E
um pouco mais. E, hoje sábado, que escuto e ouço uns bípedes vestidos à moda, e
com essas minhas orelhas de parabólica, tripe-tripe! tripe-tripe!... e que
sempre são ótimas oiças...
- Maria Cristina! Você me ouve me atende ou nem,
garota alada?! Onde anda você?!
...e a resposta da índia cunhantã quipiú...
- Um momento...
Zezinho Arcanjo Bontempo policiava a aldeia
por conta. Mas outras coisas circulavam curiosas nas sombras diante do chão
gretado raiado rachado aguardando chuva desde 10 mil a.c. A vila de Santa Luzia
queimava na soalheira, tremendo ao sol, evaporando, como se fosse na boca de um
forno e isso dia e noite. Nuvens de poeira vermelha misturadas com fumaça
venenosa de dentro da cratera.
Uma martinta-pereira saiu do encantamento
aquela sexta-feira 13 de agosto e lua parecendo cheia por entre o céu noturno nublado
de vermelho. Piou para a sombra da lua mensageira. E se ouviu se escutou os
arrepios os assobios rasgados, biiiriiiuuu!... pela aldeia parcialmente
destruída pelo fogo. Depois, também se ouviu seus voos atropelados no meio do
capoeirão. De vez em quando quebrava um galho seco, pete!... ali pelo oco do
mundo só para fazer susto. E seus voos ao redor das casinhas de sapê das aldeãs
solteiras solitárias ateias carentes. Seus voos rasantes de asas de aço, ble-que!
ble-que!... batendo no ar carregado de terra. E pela milésima vez, lhepe! lhepe!...
muito sim senhora.
Zezinho Arcanjo Bontempo tinha nojo de
assombrações e fantasmas e abantesmas e visagens e aparições. O único ente atrevido
que suportava era ele mesmo ao espelho na hora de aparar a barba hirsuta. E
ficou pensando com cara braba de nenhum amigo. Então, se ergueu da rede decidido
e foi buscá-la. Nem iria dormir com aquele barulho, dre-pe! dre-pe!... O
filhote foi atrás como uma sombra mínima e fiel e canina. Queria ver de cima de
cima para aprender de pronto como o pai lá dele fazia e desfazia as tais e
quais proezas.
No dia imediato, depois dessa façanha, pela
manhã mesmo de uma luz avermelhada em terra seca, Zezinho Arcanjo Bontempo já sentia
a perna. Foi ao correr atrás da martinta-pereira, no escuro, noite alta, precipitado,
heróico, destemido que, inadvertidamente, pisara numa lata velha e enferrujada.
A malvada lâmina cruzara a sola da bota e atingira a casca do pé. Sentia já as dores
horríveis no local e formigamentos se espalhando por todo o corpo. Nem dormira
sinceramente cinco minutos àquela noite.
E tudo ficava pior com as horas passando e passando mal
e passando lentas. O ferimento enojava o fora da lei, o fora da ordem, o fora
do juízo, o sem noção. O cara sentia um líquido ácido sugando perambulando
peripatético por dentro de si e de sul a norte. O destemido herói e assassino
suava frio e apertava teatral os dentes e fechava dramático os olhos tentando
resistir resistir no limite das forças.
Eu sonho um sonho como uma lembrança
como um raio de sol agora, e mais leve que paina ou pluma ou fiapo de nuvem. As
muriçocas piuns carapanãs nem me incomodam nem um pouco, nem me incomodam. As
borboletas nem me atrapalham, e até que me deixam mais relaxado e me ajudam. Os
besouros verdes, pretos, pintados e listados nem estorvam e podem voar à vontade
e zunir o quanto for. O capim-gomoso alto e verde - e eu sei onde procurá-lo,
eu sei onde piso -, é sem pestanejar sem escarcear o melhor do país melhor que
o da região de Pé de Serra. Eu subo a coxilha, olho o horizonte para mais
longe; e eu desço até a sanga, bebo e molho minhas mãos e meus pés... Um
tamanho de potreirinho que daria fácil para fazer 34 estádios de futebol ou
comportar vinte e oito lagoas Rodrigo de Freitas ou várias cidades geminadas as
tais e quais por exemplo, Curaçá, Angicos, Umburanas, Coxixola, Volta Grande...
Dia e noite eu quero isso assim tudo igual; dias e dias eu preciso isso assim
tudo comum normal meu pago. De noite eu durmo e sonho como um bagual; de dia eu
aproveito para andar e ando como agora e nem me canso pescoço erguido. A chuva
cai aqui aos galões e corre aos gorgolejos. Às vezes paro e relaxo bem aqui debaixo
da coirana-do-rio-grande-do-sul, pode ser da aroeira, a grápia, o guabiju, a
inajarana, a carnaúba... E volta e meia sempre escuto com minhas antenas altas orelhas
de onde de perto nem tão perto uma voz sempre humana de pessoas de fala de
conversas de lá deles e alguém chamando...
- Maria Cristina! Responda de uma vez por todas que te
quero ver, em?!, sua begônia-sempre-florida. Onde anda você?
...e uma resposta reticente de menina tongalante voz
açúcar...
- Um momento...
O puri, a ânsia incandescente de se
comparar, Camaquã Jatobá Bontempo, copiava imitava o pai como um mau menino
imita o pai-herói e os heróis e os guerreiros mais malvados da raça. Já curtia
os oito anos a ferro e fogo. Camaquã Jatobá Bontempo dormia com o revólver -
presente de aniversário -, e revólver de seis balas, assim do lado do rosto, a
mão segurando a coronha, sonhos complicados e torturados e ariscos. Rodava a
arma no dedo e atirava em latinhas, pedras e palanques de cerca. Já caçara
matara muito passarinho e bichos maiores mas um dia queria precisava chegar a
derrubar gente que ajoelha e chora e implora. Camaquã Jatobá Bontempo admirava
o pai massagear a dor do fígado lá dele. E testemunhava o pai gemer e se
acrocar no chão uivar de dor ou raiva. O menino grunhiu de si para si:
- A coisa está ruim mesmo e se
multiplicando exponencialmente.
E o filho do guerreiro do facínora seguiu
pela única rua da aldeoca. De manhã a rua tinha sol fechado em tempestade de
terra, mas um calorão de matar. De tarde a rua tinha muito mais sol e calor
entre as nuvens vermelhas. De noite a rua tinha tudo o que tinha de dia e mais
a escuridão de nem se enxergar um palmo. De noite ainda a mula-sem-cabeça, o
lobisomem e outros menos famosos entes transcendentais transnacionais transavam
transversais pelaí à procura. Era o que ele Camaquã achava descontava, via e
ouvia e inventava, desconfiava quase sempre.
Zezinho Arcanjo Bontempo sentia o lado
da barriga, o pé e a perna. Bichinhos furiosos, lá por dentro dele, comiam as
suas carnes, suas entranhas, seus rins, seu fígado, sua alma suja. Uma ferida
horrível crescia fedida e pegajosa do buraco que a lata iniciara. E já subira
pela perna devagar e sempre até o fim do mundo. Até contaminar tudo e
contaminou. Podia preferir uma amputação? Estava mesmo carunchado bichado com
berne. E nem foi nem seria o caso que o tal e qual malvado precisava falar com
o ex-açougueiro?!
O rude rudimentar Zezinho Arcanjo Bontempo foi para junto
dos troncos das ex-árvores da praça e socou e bateu cabeça em ex-paineira, ex-arimaru,
ex-mari... bastantes. E depois sentou nos degraus da capela. Mais tarde se
encrespou com o filhote. Camaquã Jatobá Bontempo estava ficando chato,
impertinente e vaidoso, teimoso e neurastênico para balear alguém:
- Nem chegou a minha hora, papai?
- Respire... fundo e aguarde...
- Quando será? Quando vou acertar
alguém, hein?!, papai.
- Uta!... Olha meus tubos, guri!...
O sol castigava o mundo inteiro com
direito a muita poeira no ar. Casas de sapê decoradas com vermelho da terra
local. Todos os sacis aproveitando o dia de ventania para farejar à vontade. Os
sacis chegavam voando nos seus redemoinhos e riam e gargalhavam e chutavam
pedras e faziam o que queriam um escarcéu. Um saci saltou do nada, saltou no
meio do campinho de terra seca e vermelha, veio no estômago de uma nuvem de
poeira em espiral, ah ah ah eh!... todos olharam para o fenômeno, o saci dançou,
fez as artes, saiu e voltou, o saci sim estava só nervoso, estava nervosíssimo
e ninguém sabia se o diachinho queria roubar quebrar contaminar destroçar ou
apenas troçar.
Na tarde, de supetão, Zezinho Arcanjo
Bontempo olhou as próprias mãos e os próprios pés. Olhou o lado onde pelo diabo
a quatro esperava a presença do seu fígado. Deu um berro de açoitar ouvidos de
aço, mãaa-nhêee!...
Depois, mancando, aleijado, levou o filho Camaquã
Jatobá Bontempo até o campinho de terra ali atrás da capela, do lado da praça
onde sobravam uns paus podres de ex-mangabeiras. Os moleques da aldeia jogavam
futebol com uma lata de molho de tomate em conserva vazia. Pai e filhote
pararam à beira do campinho esburacado pedregoso e só olhando. Pai e filhote
olhavam admirados os moleques na algazarra na farra na miséria na loucura de
chutar chutar aquela porcaria. Zezinho Arcanjo Bontempo resolveu, e quando
resolvia tava mais do que resolvido e certo e sabido e ninguém mais se metia:
- Camaquã Jatobá Bontempo... fio do teu
pai aqui presente!... Escolha quem você achar... que pode dar um bom bico na
areia. Eu espero...
Camaquã Jatobá Bontempo olhou, olhou...
sapateou de curiosidade expectativa excitação pela hora da morte. Para resumir escolheu,
apontou, e disse para o pai e ali de repente mesmo:
- Oh!, papai. Aquele de camisa de
futebol rasgada. Além de jogar muito mal com lata vazia, o talzinho deve ser muito
apto no tchibum, uma vez.
- Autorizado... fio.
O pixote Camaquã Jatobá Bontempo mirou
o moleque, lá no campinho todo distraído em correrias, mirou com olho infinito
e petulância e calma e... teu! Foi somente um tombo circense e com eco
ambulante decrescente. O moleque nem se surpreendeu, apenas caiu e ficou, perna
ainda esticadinha procurando a lata-bola. Um tombo de boneco de pau seco,
pareceu. Levantou uma poeirinha coisa mínima, o vento levou a poeira. O moleque
assim mesmo na horizontal as solas dos pés coscorosas para o ar inóspito do
dia. O que já estava mortinho da silva. Os ex-companheiros correram para trás
das ex-árvores da pracinha das pedras do capoeirão se enfiando pelas locas e
tocas.
A primeira vez de um filho arteiro deixou
marcas fundas na vaidade do pai malvado. Zezinho ficou, pi-pi-pi! pi-pi-pi!...
emocionado, comovido, orgulhoso, muito orgulhoso, transbordando as emoções sentidas.
Socou o próprio peito para nem chorar, para nem embargar a voz. O pai olhou o
filhinho e disse, o peito de pomba, já acima dos dois metros e vinte, impávido
colosso:
- Choca... aqui fio! Nem foi...
difícil, né, fio?
- Quase que eu erro. Na hora h ele que
se balançou pra lá e...
- Vai lá... e veja o estrago. Põe o
dedo no rombo... da bala. Isso dá... sorte.
O talho provocado pela lâmina estragada,
abriu uma cratera putrefata na sola do pé de Zezinho Arcanjo Bontempo. Ele
mancava e perdia a linha de tanta raiva e ódio e preconceito. O pior de tudo
era que um enxame de vermes canibais subia a perna e sem parar. Esses bichinhos
entraram pela ferida e tomaram conta. E a perna inchava. E a coisa já era. Então,
de noite, mão no lado da barriga, ele disse para o filhote, rilhando os dentes
de puro furor:
- Deito aqui na esteira... no chão,
fio. Ocê quando quiser... pode deitar... na rede. Pai tá... fodido. Pai nem...
quer cair da rede.
Zezinho Arcanjo Bontempo nem dormiu àquela
noite. E pra quê, e como? Sabia que algo ou alguém ou muitos esperavam ele
dormir o menino dormir para lhe roubar a carne. Se fingiam de
formigas-carregadeiras ou algo parecido. E Zezinho Arcanjo Bontempo delirou que
estava sendo tomado por milhões de formigas-corredeiras. Esses insetos levavam
embora a sua carne, e comiam sua carne, cresciam, engordavam, raspavam com uma
faca, faziam picadinhos, guisado. Milhões de formigas internadas no seu corpo. Umas
formigas enormes, cabeças vermelhas, tenazes de trator e antenas sacudidas,
compridas, nojentas. Um batalhão de formigas capatazes e enormes e vermelhas e
ferozes. E chegou por último uma formiga gigante que veio para comandar o seu arrasto
até o formigueiro. Esta formidável formiga gigante o pegou pela mão...
Zezinho Arcanjo Bontempo acordou tonto
do pesadelo. Olhou sem demora a perna... e a perna era um toco, estava roída
até o osso. Examinou o lado... deu um grito, mãaanhêee!... desesperou. Pegou o
revólver e foi atirando atirando, atirando pelo ar, pelo chão, pelas paredes de
barro, na direção da rua dos casebres... No delírio do ódio, foi vendo um rio
de formigas vermelhas fugitivas carregando seus pertences pedacinho por
pedacinho milhões de ladrõezinhos.
Camaquã Jatobá Bontempo, vendo o pai naquela apertura lastimável
horrível, nem podia fazer nada senão sapatear fingindo esmagar aquele mar de insetos
invisíveis. Também tinha sonhado um pesadelo com milhares de
formigas-cortadeiras, uma mais forte que a outra. E atirou tacou fogo de
trabuco em tudo mesmo que apontava o nariz.
Surge uma estrela lá no céu, vim!... e
mais outra, vim!... já são muitas, vim! vim! e vim!... e mais todas que se pode
ver. Rola a bola prateada da lua cheia... Uma nuvem, a lua, as estrelas e os
planetas os bichos de estimação do céu lá longe. Sopra o vento... O tempo nem
passa porque nem deixo. Eu digo e imagino o amanhecer na fazendinha, bato as
patas, sacudo a cabeça no ar e relincho, ri-ri-ri!... Eu cuido do sonho sonhando
acordado. É longe o campo afora que habito, circulam por aí pelos pastos uns
oito ou nove rios do tamanho do Vaza-Barris do Itapecuru do Farinha ou
dimensões de 34 arenas de futebol ou territórios de oito cidades lado a lado,
Caeté, Serra Branca, Jeremoabo, Quixeramobim, Poço Verde... Eu vou pela manhã aí,
o dia claro, e que é para seguir até o rio, até a lagoa, beber água boa e
pastar capim-de-colônia pasto orgânico e ótimo e tenro. E se amanhecesse
chovendo também tudo bem e compro e vendo ou financio. Se encontro uma
potranca, melhor impossível e muito bom, fico faceiro, subo nas mãos. Nessa
nave de repouso que eles me acordam, ao pé de uma macaúba, voz dos humanos, e
eu ouço com essas orelhas e esses ouvidos e esses olhos grandes de ver e que já
vêm bons de gerações...
- Maria Cristina! Tu me atende me responde, hein?!,
jurumbeba formosa. Onde anda você?
...e com a resposta da menina com roupas verdes da
manhã...
- Um momento...
Zezinho Arcanjo Bontempo nem queria
dormir com pavor de ser tomado pelo pesadelo das formigas predadoras. Ou que os
bichos viessem lhe rapar a perna. E ele tinha toda a razão. Ele só nem podia aguentar
sem dormir. E a dor do lado nem o deixava dormir sossegado. Mas cochilava sucumbia
assim mesmo, mal e mal, todo assombrado e sobressaltado e assaltado e dolorido
e trêmulo da cabeça aos pés.
O Camaquã Jatobá Bontempo, ressabiado, sacudindo
a cachola desanimado por causa da situação do pai, suspirou e disse para si
mesmo e bem baixinho, sussurrando, confessando para si mesmo em segredo secreto:
- Agora sim a coisa está ficando pra lá
de péssimos.
Eu sempre gostei gosto dos verões da estância
e o lugar do meu chão de provas e aventuras. Tenho corpo de cavalo de
competição e corro pra valer, relincho feito cavalo indomável, ri-ri-ri!...
fico olhando feito jegue, suo pra burro e nunca fico empacado nem emburrado. No
verão, um verão, me apresentaram a uma potranca de nome Asa-Branca. Eu que
digo. Uma égua que gostava de voar e subir no vento nas correntes do ar livre e
quente. E Asa nem me quis, nem me deu bola, se fazendo de potranca dos deuses
astronautas. Voava sem olhar para trás ou para o meu lado ou para baixo no
lugar da minha fazendola. A cola alçada, pedalando os cascos com gosto, batendo
as asas com muita força e precisão, sumindo nas nuvens, deixando saudade ou
malícia. Mas era só timidez. Era só vexame da própria beleza da própria
cavalgada. Depois ela desceu ao campo e apostamos corridas até os jerivás. Nem
me olhava nos olhos por desenxabida, por deixa pra lá. Mas em compensação ria
muito, e tinha um riso bom no ouvido do freguês. Quando eu contava uma piada ou
uma mentira, ela relinchava com todos os dentes de equina fogosa. Um dia, e que
dia!, na subida de uma coxilha, com sombra de mulungus, nós dois juntos unidos
pertinhos se empurrando, ouvimos as falas, assim com as orelhas limpas ligadas,
nossas satisfeitas satisfatórias orelhonas, umas pessoas humanas gentes de
andar de em pé e mãos nos bolsos...
- Maria Cristina! É pra hoje, guria metida de mundos e
fundos! Onde anda você?
...e uma resposta com voz de moça esperta e nova e dengosa...
- Um momento...
Zezinho Arcanjo Bontempo nem queria mais
dormir, pois que as formigas-caiapós o alcançariam, já sabia. E uma formiga
gigante e atiçada queria arrastá-lo para o ninho. Deixavam marcas e pegadas no
chão de poeira. Já perdera a perna, ficara só o osso bem branquinho, como se a
carne tivesse sido arregaçada. Mas, e quando chegar à hora tardia depois das
23h inevitável de descansar e dormir e se fechar em si, hein?!
E, então, certo momento da noite,
Zezinho Arcanjo Bontempo rolou da esteira. Camaquã Jatobá Bontempo acordou e se
precipitou para ajudá-lo. O filho se esforçou para socorrer o pai e carregá-lo de
retorno à palha trançada de carandaí. Ao mesmo tempo cuidou de espantar os intrusos
as formigas-carregadeiras os bichos invisíveis as sombras canibais. Zezinho
Arcanjo Bontempo tremeu horrores e depois desmaiou de dores comichões e temores.
Camaquã Jatobá Bontempo ficou de atalaia atento vigiando ligado atento para
quaisquer inimigos.
Zezinho Arcanjo Bontempo sonhou uma
batalha e tanto contra as formigas-corredeiras vermelhas e cabeçudas. Aliás,
veio uma formiga gigante e o capturou e o arrastou semimorto pela metade rumo do
formigueiro. Arrastou-o pelo braço direito sem muito esforço. Formigona de
altas antenas passos fortes e fortes tenazes e pernas muitas e dentes sangrentos.
Pela manhã outra manhã Zezinho Arcanjo
Bontempo acordou e imediatamente apalpou olhou para seu corpo: estava comido de
formigas mecânicas até o umbigo. Que situação! Perdera mais uma batalha noturna
e agora nem havia mais jeito. Deu aquele grito horrível, mãaanhêee!... Do
umbigo para baixo só ossos limpos, branquinhos, irretocáveis, tranquilos,
dispensáveis.
Camaquã Jatobá Bontempo, que nem conseguira manter os
olhos abertos, ficou se lamentando, se condenando, se cobrando, batendo na
cabeça o tanto que dormira sem poder cuidar do pai. Ele pedia para sofrer no
lugar do coroa. Pois Zezinho Arcanjo Bontempo deu mais um grito de horror, mãaanhêee!...
O menino ouviu de novo aquele grito tentou tapar os
ouvidos depois correu sapatear e incendiar as formigas, os rastros, os cheiros
dos rastros. O mar de formigas invisíveis ou outros bichinhos cabeçudos e
carnívoros deixavam marcas na poeira. Era muito de perigo e de alucinação.
E Zezinho Arcanjo Bontempo nem queria
mais se arrastar por aí. Talvez nem conseguisse mais, pois que já era. Mas na
verdade estava mesmo envergonhado, vexado, cabisbaixo diante do filho. Perdeu e
perdia a olhos vistos. Nem sabia o que dizer e resmungou só para desabafar,
tentar iludir, dar uma satisfação, uma resposta ao moleque:
- Ah, e essas formigas invisíveis e famintas!...
Levaram... meu fígado à traição... e meus rins... etecéteras. Se... você...
puder, fio...
E a seguinte e última investida das
formigas implacáveis deixaram Zezinho Arcanjo Bontempo muito mal na foto no
arquivo: as formigas ladronas o desossaram até as barbas, até a altura do
queixo, do pescoço pra baixo. Aí, Zezinho Arcanjo Bontempo restou somente olhos
se mexendo, nem teve mais ânimo para gritar, agarrar, espernear, ser ele mesmo.
Restava por fim uma máscara do ex-herói e ex-assassino e ex-topetudo e ex-tudoderuim.
Assim, vendo o pai acabado, no palito, como
um pirulito, Camaquã Jatobá Bontempo nem quis mais pensar o horror e foi
espairecer. Nem precisava ir a lugar algum, mas foi. Liberou o Zoró, pegou o restante
da herança do pai e saiu da palhoça. Atravessou a rua Única e foi até o
campinho onde os moleques da vila brincavam de jogar bola com uma lata de compota
de pequi vazia. Camaquã Jatobá Bontempo, porque muito menorzinho e ruim de
bola, entrou de árbitro, assobiando nos dois dedos. E na primeira falta que
apitou veio a primeira reclamação ousada e suicida. Camaquã Jatobá Bontempo nem
gostou da arrogância e da afronta de ser encarado no olho. E foi e bateu no
ombro do pexote teimoso. E já o reclamante caía baleado, por que sim.
O sol queimava impiedoso o mundo do
deserto vermelho. O calor estava demais. Nuvens intermináveis e vermelhas de
terra passeavam pelo alto. Ex-morro fumava. Saci nem queria saber de nada e
nadava no pó vermelho da única rua. O mundo tinha parado de ser acontecer e há
mais de mil anos.
Nessa altura, Camaquã Jatobá Bontempo,
desiludido com a brincadeira de matar moleques no campinho, a maioria fugiu se
esconder atrás das ex-árvores da pracinha ou das pedras do capoeirão ou nos
buracos do grotão, sem pensar quase nada, pendurou o esqueleto do pai na parede
do barraco. Se examinou se olhou carregado de ferramentas perigosas, pulou sete
oito vezes, riu um bocado, me-ririri!... e saiu em busca da aldeia de Santa
Luzia selecionando problemas e acertando contas e tirando dúvidas. Pegou das
armas e apetrechos e subiu e desceu e rodou e entrou e saiu pela aldeia só para
se exibir e ouvir os próprios apetrechos guizalhar, galengalengar!...
Em uma semana aconteceram muitas
aventuras e problemas mal resolvidos pelo tal e qual culepe Camaquã Jatobá
Bontempo. Num fim de semana movimentado, o diabo vestido de lama de ouro puro,
cheirando gás venenoso e mortífero, apareceu outra vez vindo do nada do
barranco arruinado. Veio, caminhou incendiando a torto e a direito, viu o que
queria ver, aconteceu pouco e mais uma vez foi expulso.
Por sua vez, o espantalho atropelado havia renascido dos
retalhos e recortes. E voltou teimoso outras vezes para assombrar a aldeia. Depois
levou tantos dos tiros do intrépido Camaquã Jatobá Bontempo que morreu e foi se
atirar na capoeira caminhando aos tropeços e tropicões até virar uma doença parasita
contagiosa. Assim, muitos sacis riram muito por farra e costume e sempre de
dentro mesmo dos redemoinhos irrespiráveis, ah ah ah eh!...
Por coincidência, quando da perseguição ao tal
lobisomem, Camaquã Jatobá Bontempo pisou na ponta de um prego que furou a sola
da bota e furou a sola do pé casquento. Aí, doeu e ele sentiu mesmo os arrepios
os frios febris. E abriu uma ferida muito perigosa para entrada de terríveis bandidinhos
microscópicos ou invisíveis ou inimagináveis os bichinhos famélicos canibais
tropicais etc.
O menininho Camaquã Jatobá Bontempo, de
oito anos e alguns dias maldizentes, sentou no chão e resmungou, gritou,
mãaanhêee!... xingou reparando a sola do pé furado:
- Enfim, a coisa ficou desastrada
desastre pra mim também, ora!
Dia de sol gostava e eu gosto, horas cheias
de luz, cheiro de luz, as cores distribuídas no pasto todo, os tons de verde, o
meu capim-da-roça favorito e suculento. Eu conheço. Mas se é dia de chover,
tudo bem, que chova o que quiser e agora mesmo. A chuva eu gosto e me é bem
vinda. Eu gosto de chuva e respeito quem gosta e quem nem aprecia de montão de
bátega. Aí, depois de uma chuvarada, uma carreira na chuva, o pasto fica lavado
e mais verde e com arco-íris no fundo. Me faz bem lembrar da chuva e ver a
chuva e correr na chuva em meio às poças de água. Até onde a vista alcança até
onde tem horizonte num total de 34 mil campos de futebol ou algumas cidades
costuradas, Petrolina, Ouricuri, Barroquinha, Monte Santo, Cumbe... ou o que
mais proferir. E eu sempre digo: quando se morre, passa um filme. E o tempo nem
interessa. O tempo que for é presente. E todos os fins de tarde me acostumei eu
escuto, por todos os fins de tarde e algumas manhãs intermináveis, escuto ouço com
orelhas orelhudas assaltadas, umas pessoas ou as mesmas pessoas, e que dizem os
tais e quais diálogos familiares e comuns e honestos...
- Maria Cristina Caraíba! O que há contigo, espertinha
do cabelo branco?! Onde anda você?
...com uma resposta lenta e em calma da garota giz...
- Em um momento...
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