quarta-feira, 20 de junho de 2018

E Assim Eu Digo


            

            Cheguei esperei na janela parado olhando o tempo o clima a visão das coisas e titubeando, etc. Olhei três vezes o relógio 7:06 de pulso e 7:16 digital e 7:27 do dia 9 do mês 6 do ano da graça de 2018. E prometia que nada ia acontecer ou desaconselhar. A chuva caía e rolava com gosto e parecia coisa pensada madura séria, e coisa artística é a chuva. Chuva e sol patrimônios noite e dia da humanidade. O sol é foguista até o dia da criação. E nem nada a ver da minha parte, está claro.
            Esqueci rapidamente o carro serelepe no guarda-chuva inefável.
            O manuscrito compreender analisar interpretar, ainda achado... “Meu caro querido ex e sempre amigo... e nem dá mais para segurar esse porém rojão da filial contornar até a sucursal fingir de matriz, etc... se vou embora... é assim ou assado como outra coisa qualquer e inócua... então, t-chau!
            E até a próxima se D quiser e reencarnação ajustar, etc.
Assinada,
...a árvore que planta cresce.”
            Fiquei vendo vendendo as feéricas estrelas, pensando bem.
            Mas um dia desses acordei e fui merendar com meus fantasmas, figuras imortais do meu passado, e tal e qual passado pretérito perfeito, etc. Às vezes me dão saudades, outras quiçá e na maior parte são só figuras mesmo de aquário, de álbum, de painel. Para falar toda a verdade sinto mais saudades de mim dos lugares Jussari rio Fundão montanha 2002m do Itambé das tardes de domingo no balneário Retiro que desses aí. Eu preferiria almoçar fora refeição num lugar arejado barulhento, fazer o quê, mas eles preferiram a ceia noturna o jantar mais chegado, música ao vivo. Uma prima outras primas a prima de miçangas no braço no tornozelo quantas primas melhor e eu puder. São desenhos na parede amarelecidos formas esquisitas manchas da memória de mapas cadernos antigos rascunhos esboços ensaios esquissos linhas apagadas livros embasbacados roupas que nem se usam mais poeira poeirada polvadeira danças zé-pereiras que todavia nem se dançam conforme.
            Fiquei olhando a rua Capixingui como quem olha um terreno lavrado plantado crescer caju e abio e amendoim e araticum-do-pará e outros.
            Entrei pela cozinha sem anunciar sem bater, antigo casarão dos meus avós muito antigos, anoitecia na lenta. Um lampião a querosene preso pendurado à parede. Nem rádio. Uma coisa que também é sonho é viagem é aventura são duas ou três. O cheiro de bife e polenta na chapa do fogão a lenha pão caseiro marmelada de uva doce de abóbora queijo derretido bem tostadinho crocante sopa de arroz e café e fumaça. A boca do fogão iluminava a sua parte a lenha crepitava cada um no seu canto quase na sombra se mexendo o menos possível e sossegado.
            Comprei duas malas enchi e fui correndo para o aeroporto mais ao sul.
            Encontrei avó óculos de armação opala e fala mansa sonolenta meias bordadas e sandálias franciscanas de pescador nos pés. Comia no canto do fogão a lenha um café com bolachinhas maria. Quebrava a bolacha na xícara e com a colherinha papava aspirando. Ela costumava tomar café preto adorava de colherinha, demorava, chupava o líquido toda hora com ruído, compenetrada. Avô tomava chimarrão e olhava através da janela envidraçada o oiticoró carregado de gaturamos. Ou o verão. A área a cadeira de balanço o cheiro de flores do mato o vento o horizonte dos morros lá longe uma bombada e o olhar na distância rua Francisco Venâncio Filho bairro Sarabanda afora e ou adentro. A estrada a faixa a RS a BR que vai passar um dia quem sabe mas quando o governo quiser lá do alto do seu pedestal. O cão Avião, distinto e ilustre e preclaro e insigne e nobre e respeitável e eminente, dormia fingido entre os pés língua de fora nas chinelas pretas de couro cru fechadas na frente. Avó trazia a chaleira de água ferventemente quente apitando fumegando sentava na cadeira fixa tampa se debatendo sua preferida rente. Avô comia as refeições de carne de gado e bife mal passado de palmo sem osso sem acompanhamentos acompanhantes.
            Eu olhei o sol que depois da tarde em dezembro há milhões de anos luzes e os maracanãs-nobres gritaria pulando da ilha Grande no Atlântico para o continente serra do Mar mato da mata atlântica.
            Depois veio a prima Aráquis, que eu adorava, que eu vira nua uma vez na sua casa tomando banho, que eu erguia as aleluias para o céu, pela porta aberta sem querer e casual e visual. Não tinha pelos e uns dois botões tenros que tentou esconder. No mesmo dia nos tornamos muito amigos e ela acabou narrando tudo pra mãe dela minha tia-madrinha que me deu de presente de aniversário um dicionário Aurélio. Queria sempre me ensinar brincadeiras que aprendia na escola bandeiras dos países e que eu nem sabia, uma vez. Prima irresistível prisma a tanto mais de 100 quilômetros por hora. Queria sempre desenhar e pintar margaridas, nuvens com cara de caravela, casas de chaminé fumegante, ema e filhotes, jangadas na baía de Todos-os-Santos, capororocas do banhado, losangos quadriláteros, saguis-caratingas, sóis que riam ou espetavam o cabelo amarelo. Queria sempre me chamar a atenção por qualquer coisa e ralhava. Coisas conspícuas. E a boca mais bonita e bípede e bicolor e bimotor e trilegal.
            A minha vizinha da esquerda não fala com gato cão mãe-de-anhã capitão-de-saíra embaúba-de-vinho e da janela cultiva lá fora mesma hora antes de sair todos os dias para a fábrica uma família de jacuruxis, por quê.
            Sempre e quem sabe tinha que ter ou até a estrada que fosse de terra batida e mais muito mais de ida que de volta, aliás, nem tinha retorno só partidas turismos turístico, etc. A paisagem sem ser a mesma as árvores se revezando se alternando revezar. Panorama repertório da janela do trem e que se desdobra em lugares simultâneos instantâneos passageiros e tem rio Reis Magos e quando se passa Muribeca e Escada e Igaraçu do Tietê e outra ponte. A visão de estrada fugindo entrando saindo e trilhas e travessias. Quem pular na fogueira da festa tropical como o macaquinho saá. A estrada tem nome as ruas o rio Moxotó as cidades as serras a montanha. E por onde se passa rua Coelho Neto. E ora eu corro de trem ou metrô ou avião, ora são o carro o trem o ônibus que disparam. O bom o simples e o aberto ao sol se renovam a cada pouco a cada curva a cada lombada e macio como uma aterrissagem de disco voador. E se tem sol ou chuva e tudo é bom e noite ou minas melhor ainda. A bonita, bonita, sapato agulha, sorriso largo, pernas aeróbicas, aromática e praticamente um alento e tanto. Quando prefiro por princípio entrar pelas ruas das cidades Pomerode andar ir e voltar dentro da teia da rede da trama íntima da municipalidade da Ilha de Itamaracá. Exageradamente e como galinhas os automóveis seguem o leito a vala comum rumo de casa. Já na estrada tem outras coisas e objetos e feiras livres, por exemplo. Cada coisa estranha que se chama de aventura. Nos mudamos para a rua Henrique Martins bairro Puava, simboralá! e como a minha alma a minha palma de todos de nós. E cada passagem com seu passageiro sua paisagem e está bem assim.
            Meu cão Guita bicho de estimação engordou 6 quilos e não quer passear de coleira e diz que nem prefere e justo cabeça torta me olhando um olhar humano late acoa ladra porém entende o português brasileiro.
            A prima tinha carnes olhos boca sorriso risos cabelos principalmente também sabia tudo. Eu já sabia que ela sabia assobiá como o sabiá-laranja. Eu sei que ela já sabia tudo de vestir e pentear e assistir novela e passear no shopping. Eu gostava da prima como continuo gostando também gosto das águas das árvores das ruas das praças igualmente do parque Goiapaba-Açu das tartaruguinhas pitiús-aiaçás nascidas e criadas e protegidas junto às praias e águas doces do rio Negro. Nós gostávamos preferencialmente de uma árvore cedrorana e até subíamos nela de manhã de tarde e procurávamos alcançar os tarumãs, azedinhas, jabuticabas, pitangas... Tinha praça com acampamento aueicoma tinham canteiros do jardim tinha estátua tinha árvore casca-preciosa ornada com enfeites de fim de ano. Prima em atitude diferente, habitante deste lugar, acha tudo e não esconde nada, obedece a tudo o sol a lua a chuva e mora na praia nas manhãs nos fins de ano areia branca e tudo e o mar vento garapa roupas leves flor de maracujá-branco no cabelo. A estátua tinha posição de soldado embora nem fosse marinheiro nem general e ficava ouvindo os frequentadores escutando sempre em silêncio estadual seja no dia do carnaval ou qualquer outro festival charangas farândolas zabumbas comícios. Existia um alagado uma lagoinhazinha procurando ninho de quero-quero procurando traíra sapo rã ovo de saracuraçu pisando no molhado no barro procurando flor de gravatá cravo-do-mato procurando ainda. Quando a prima tinha 8, 9 anos eu tinha 8, 9 anos de idade. Parecia que ela tinha 12, 13 anos de idade e eu uns 6, 7 se tanto. Era de cabelos longos e fofos e ondulados e eu tinha prima para o resto da vinda. Porém nem todas as primas são iguais e transparentes. Ela era sem dúvida desigual e airosa. Feira de frutas sumo de polpas coloridas e água na boca e sem escolher o ano mas aí por novembro dezembro. Fomos na praia de Candeias e Jaboatão dos Guararapes e ela sabia fazer casas ruas quintais e sumir água do poço no mar. Depois lembrar olhamos o mar com espanto demoradamente o mar o navio o céu o vento mareiro a nuvem gaivotas pandorgas o sol o navio as cores se pareciam e em si misturadas.
            O verão traz do mato umas frutinhas que quase ninguém conhece mangaba pitomba cajá araçá guabiroba e assobios e pios de inhambu jacutinga mutum seriema.
            Vieram. Um tio contemplativo que queria ser monge budista vegano mas ficou muito mulherengo língua comprida saci-pererê e babando. E outra prima que não gostava de brincar mas escutar núbil as tias falando de tudo um pouco de maridos modas filhos compras namorados vestidos baladas e lia minha palma no original um caminhar andar rebolar cabrocha atualizado para os dias contemporâneos e uma alma intransferível. Um primo que saíamos juntos para as matinês do cinema das festas dos carnavais no clube Ibura para as conquistas das gurias das paróquias e capelas e povoados e sítios e balneários e cabarés. Meu tio que matava boi com uma arma branca especial facada sorrateira até o cabo. Minha tia muito forte, acomodada, sempre sentada respiração ofegante riso comprido solto alto atriz. Ninguém até hoje consegue imitar a água imitando a chuva a água o rio Itacanoeira a cor verde a prima a atmosfera da primavera o raciocínio preciso dos cavapitãs vespas. Dois quadros na parede que já não se pareciam com avó e avô e cada um no seu quadrado moldurar dourado. Um time de futebol com tios uniforme completinho, se diga de passagem!, e primos e parentes e aderentes próximos. Uma festa de casamento na capela dos Três Mártires um sábado estrada da linha General Osório uma manhã uma festa do sol dos jerivás das espelinas dos anambés-brancos-de-bochecha-parda um casal de tios tirando fotos antigas com risos e deboches dubla de violeiros duelando. Os olhos elétricos de chope colarinho batatas fritas conversa jogada fora e fuzarca folia farra bagunça bruaá. O dia a manhã a tarde da festa jogo de bocha e soneca na sombra do jatobá. Minha primeira foto conhecida salva do naufrágio do incêndio dos achados e perdidos das mudanças numa festa de padroeiro São João Batista com corrida de cancha reta gineteadas e mais torneio de futebol na manhã e tarde de céu e puro e cristalino e neopratense.
            Aparece uma árvore curuiri uma nuvem paralelogramo uma casa de singular colecionador uma ideia geralmente e seus representantes no congresso reclamar pedir dissertar sugerir objetar censurar.
            Um dia na hora tal local igual cheguei e pensei: será Aráquis que uma vez um dia um futuro fará uma obra-prima e de arte para o mundo uma invenção com o nome numa praça numa rua numa escola? A prima caminha até o espelho e para na imagem refletida. Imaginou o sol na estrada com paisagem à vista, etc. Fazer turismo em Amazônia Legal, tá certo assim!? Ela mesma natural em desenho animado. E muito olhava para o horizonte dos olhos azuis. Onde desembarca lugar o trem o barco e até o avião? O seu mundo de expansão. Falar bastante dos rios da direita do rio Tocantins, então! E o sol perguntou se desejava mais alguma coisa, enquanto isso.
            Olha onde o trilhozinho acostumado uma formiga caminha, outras formidáveis formigueiro vão atrás determinar, lugar que dá perninhas apressadas de formigas, onde uma formiga antenas ligadas volta e meia tenaz aparece.
            Ao se despedir ensolarado alotador proverbial no murmurante carro de bois, gavião-puva flor-de-carnaval sapota jurema-da-pedra maria-mole, o sol se lembrou lembrar de algumas coisas, falsa-erva-mate aipo-chimarrão bucha-dos-paulistas capitiú, e deixar deixou estrelas prometeu no dia seguinte variar invariável os seus golpes mas nem tanto. A lua mora na noite que quiser. O sol longe as estrelas fixas arrebóis. A lua salta da copa do araribá-branco. O rio Pajeú hidráulico. E quando eu conheci o mar tinha onda duna praia mina vendedor de chapéus e vento nordeste. Depois a minha prima na rua avenida Caxangá e de bicicleta. Saiu aquele dia concedível e entrou aquela noite inexplicável inalcançável.
            Depois do diálogo pronto sem compromissos ele ficou arbusto ingá-de-fogo foi na entrada e saída de uma loja de sapatos bolsas e camisas e ela aconteceu erva maria-gomes.
           


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