Um, due, three, cuatro, quinto...
começamos!
Lilás tinha dez anos menina quando
começou esta história em Pacajá. Ela ia ao mercado público sozinha ia ao parque
Mangal das Garças ia ao açougue sozinha ia à escola sozinha, tanto de a pé como
de bicicleta ou ônibus escolar. Era muita independência nas mãos da garotinha
guriazinha.
- Pois digo e me apego que a
fortaleza dos Reis Magos é uma das 7 maravilhas brasileiras!
E naquela mesma tarde (que parecia
domingo, mas era de terça-feira) que os sabiás-laranjas nem paravam de cantar e
assobiar e arremedar, foi que Lilás encantou. Ela mesma se perguntando
perguntou indagar:
- Será que vai chover, uma vez?
Quando choveu pela última oportunidade? Foi sábado, acredito.
Por que a menina se perguntou isto?
É que ela olhou para o ambiente ali na rua Pinaré e descobriu que o mundo
estava todo parado amortecido mais ou menos empedrado congelado e esquisito.
- Qual o 3º planeta planetário do sistema
solar? A Terra.
E tudo estava parado mesmíssimo e
paradão sem explicação concentrado. Como explicar? Tava tudo parado como só é
parado o que está realmente paralisado concretado. Parado tudo pacífico. O
mundo parado e firme e engessado e fixo, estátua.
- Nossa Senhora de Belém do Grão Pará e Feliz Lusitânia e Mairi!
Tudo estacionado e travado e pronto
tudo caído meio de lado as árvores paradas o ambiente frisado como se fosse
realmente o fim do mundo, e era mesmo o fim dos tempos. Parado como um relógio
parado, como um carro parado no meio da via, todo o mundo parado assustador.
Gestos parados movimentos no ar e jeitos.
- O que aconteceu, meu? Faltou luz?
Hino Nacional?
Toda a gente todo bicho juipongas
pitiguaris uiramiris abelhas-da-terra... toda coisa todo algo. Tudo estátua.
Muito legal. Quer dizer, muito estranho.
O mundo era um museu paralisado e
firme no mesmo lugar e sem pagar imposto. E mais nada funcionava. Esperando o
quê? Cidade cosmopolita sendo um dos municípios mais chuvosos do B e mesmo
assim quiçá do mundo.
E quem viu isso? E alguém duvida? E
como pode, hein?! E quem olha?
- Quais os principais continentes
que rodeiam o oceano Atlântico? A América a Europa a África a Antártica ou
Antártida a região Ártica.
Para falar a verdade e somente a
verdade correta reta direta, somente um ventinho circulava vindo do fim do
mundo. Um ventinho quase nem era nada. Mas apenas o vento andava aí. Que lugar
nasceu para ser o fim do mundo e começo do vento dos quatro cinco ventos?
Uma calamidade. Gentes todas
estátuas, bichos tipo empalhados, as coisas pregadas ou coladas ou emperradas.
O que era calamidade pública? Uma realidade.
- O pelo das ovelhas o casaco como
se chama como chamam? Lã.
Lilás saiu pedalando sua magrela
pela rua Placidina de Araújo, bairro Basalto e procurando e olhando a apatia da
cidade. Eram os finalmentes do verão. Acontecimento tudo calado em posição de
sentido respeitoso até demais. Baía de Guajará pedindo vela remo motor
voadeiras catraias escaleres catamarãs...
Nem havia mais a cidade se mexendo
presumida. O que a menina via da sua magrela panorama era uma cidade parada no
tempo e com os pés de galinha bem firmes no chão no solo do pago no torrão
natal. Pronto, isso mesmo, desenhada pintada esculpida como estátua monumento
casario tombado portas e janelas cerradas.
- Qual a causa e o porquê, hein?,
meu! Então me é difícil compreender!
Lilás foi de bicicleta, já que nem
havia ônibus, metrô, trem, avião ou mesmo charrete com cavalo de aluguel. E
quando pôs os olhos na cidade, assim paralisada, sentiu o que se sente e viu o
que viu: nem tinha cidade se mexendo, era o fim terminal. Tudo quieto e apenas
aquele ventinho arteiro carpinteiro minuano. Nenhuma formiga-correição nem
abelha mandaçaia-grande nem tuco-tuco...
Por assim dizer. A menina andava
pelas ruas desertas, abandonadas, desoladas, vendo carros parados no meio da
rua Cacique Guaimiaba, vitrines maravilhosas em lojas de porta aberta. Sentiu
pena da cidade. Viu o tempo sendo desperdiçado à toa.
- Oh, que calma demais! Será o
equinócio passando aí ou o solstício mais pra lá?
Seguiu embora a menina, olhando tudo
que surgia, quando viu a anta e o tuiuiú pastando a grama da praça da Bandeira.
Parou no meio de tudo parado e falou:
- Olá, anta! Olá, tuiuiú!
- Tudo bem, Lilás a menina? -
perguntou a anta.
- Tudo legal, Lilás a cunhantaim? -
perguntou o tuiuiú.
- Lugar estranho, nem é sô?! Nada se
mexe, tudo parado, tudo estacionado, tudo dormindo em pé, tudo estáutua -
declarou a menina. E então encontro vocês e... que estranho encontrar vocês...
assim... sim senhor e sim senhora! Lugar particularmente parado e firme como
poste no banhado, em?! Tem ou nem tem uma explicação?
- O quê? A cidade? - perguntou o pinante
tuiuiú.
- Pois é, gente - dizia Lilás. Eu
nunca tinha conhecido um lugar assim, e abandonado, cidade pela hora h,
paralisada, tudo em estado de espera aguardo. Dá pra sentir o intervalo a pausa
o silêncio da cidade. Parece mesmo outro mundo.
- Que nada, a gente se acostuma -
disse a anta. Ruim que nada. Tá é ótimo. Vou atravessar a rua sem olhar pro
lado fora da faixa de validade. Conhece os índios coripó?
- É, é isso aí - completou o tuiuiú.
Somos donos do pedaço. Nem tem ninguém para nos perseguir e nos pedir e nos
servir. Somos uns poucos privilegiados. Tupã escolhe seus eleitos nobres
privilegiados.
- Já pensou? Morou? - indagou a
anta.
- Deixe assim que assim está bótimo!
Depois de dizer isso, o tuiuiú deu
umas ciscadas, ciscou e ciscou, até encontrar umas raízes brancas desterradas ou
sementinhas perdidas confundidas com terra humosa preta de boa procedência.
- Sabe, menina... Agora que nós os
animais sobreviventes estamos sós e largados, eu gostaria de te dizer que vou
fundar uma escola de samba - declarou o tuiuiú. E muito batuque! Quer ser a
moça da bateria?
- É uma boa ideia, dou a maior força,
e pretendo prestigiar - apoiou Lilás.
- Essa escola de samba poderia se
chamar: Sobreviventes da Praça Mindubi. Que acha? Aceita? Comparecerá? -
retornou o tuiuiú.
- Sensacional, original. Vá em
frente - incentivou a menina da cor lilás. Estaremos lá quando for a hora,
“tomara que chova... três dias sem parar... tomara que chova... quatro dias sem
parar!...”
- Só falta o chefe o cabeça o líder
o cacique. Estou pensando num comandante carismático alegre positivo pra frente
- discursava a ave gigante pernalta.
- É, um líder é preciso. Quem seria?
- quis saber Lilás. Pode ser o Tira: Tiradentes. Pode ser o Pedrinho. Pode ser
a líder. Pode ser a carismática Ceci: Cecília.
- Eu mesmo, de repente, e sem essa
de modestiamente - respondeu o tuiuiú. Sou a ave símbolo e original do Pantanal
Mato-Grossense, nem é?
Mas aí, epa!... Mas pra quê!...
Quando o tuiuiú se autoelegeu líder da futura, e ainda nem inaugurada, escola
de samba Sobreviventes da Praça Mindubi, a anta berrou, zurrou, ror-ror-rooor!...
e mugiu, mu-mu-muuu!... discordando, é claro.
- Nem concordo - disse ela. Nem
mesmo concordo. Sabe, amigo tuiuiú autóctone do Pantanal Sul-Mato-Grossense, nem
dê uma de vantagem que ainda nem chegou o seu tempo. Na minha opinião, o líder,
ou a líder, tem de ser um cara de peso, útil toda vida, mais herbívoro, que se
faça respeitar e que nem coma pescado peixes da lagoa.
- E por acaso você quer dizer com
isto que se candidata, minha querida anta? - perguntou, muito sério, o tuiuiú.
Você está se colocando na oposição?
- Sim, senhor! E eu mesma - replicou
a anta.
- Era só o que me faltava - se
contrariou se contraiu todo o tuiuiú. Deixe de bobagem. Onde se viu e em que
gibi! Anta nem tem talento, cintura, molejo, requebro. Anta é anta, e ponto -
discursou o tuiuiú, vermelho de nervoso, pegando fogo fogo.
Lilás os deixou discutindo discursando
pregando e foi. A menina nem queria dar mais palpite pitada pitaco. Logo mais
esqueceriam esse assunto e inventariam outro pra poder conversar. Nada de
importante, nada de mais. Nada de nadar de braçada. A importância está no que
se acredita.
- Ouro Preto capital do Estado e uma
das 7 maravilhas brasileiras, sim!
Na continuação da jornada do
caminho, a menina viu uma loja de roupas e calçados e afins. E tudo parado
justamente pegando pó. A dona da loja, a atendente, todos parados, manequins
imobilizados, uns sentados outros em pé. Parados e fixos olhando uma coisa ali
na frente diante deles e nada. Era até engraçado. Era até meio assustador. Era
até mesmo horrível e extraordinário. O mito cainamé? Incompreensível e
transformador. Uma paisagem lunar.
Ao virar a esquina deu de cara com
um cara esquisito ou aloprado inverso:
- Opa, o descuido!
- Opa, sem querer!
- Conheço o senhor de alguma banda,
pois nem? - perguntou Lilás.
- Claro...
- Claro que sim?
- Claro que nem. Ninguém me conhece
na realidade na verdade bem da verdade. Me apresento agora e honestamente: sou
o profeta, me chamo Profeta com P gigante.
- Ah, já nem ouvi falar! Sou a Lilás!
Venho da ilha Combu e gosto de chocolate. Porém sem açúcar artesanal e natural,
é.
- Também nunca ouvi falar de nenhuma
Lilás. Nunca a vi mais gorda ou magra ou talvez. Mas nem se decepcione e antes
de casar, sara. Já embarcou navegou velejou rio Ia abaixo rio Caburaí acima, uma
vez? Sim, é possível! Eu navego muito e conheço pouco e conheço muito e navego
pouco. Já ouvi dizer de Portel e Novo Repartimento?
- Esperança que é a última que nos
abandona - lembrou a menina.
- Quem espera sempre alcança e como
balança a balança vaivém!
- Sei. E o mundo parado. Você viu?
Onde nós estamos, meu?!
- Bobinha. Saco vazio nem para em
pé! Quer almoçar comigo? Deixe pra lá a riqueza o apogeu o requinte o luxo. O
teatro da Paz foi feito para ser construído em Olinda em 1 ano e meio, sabia?
- Convidou, pagou! Simboralá!...
- Certo e vambora!... O difícil se
faz hoje; o impossível, amanhã!
- Já ouvi dizer. Quem escreveu esta
daqui: “altas precipitações pluviométricas são grandes e muitas chuvaradas
chuvas”, hein?!
- Corpo são em mente sã! O que quer
comer? Tapioca com bolo de fubá? Tapioca com doce de abóbora? Tapioca com açaí?
Tucumã com tapioca?
- Sorvete de açaí de pitanga de
abacaxi, pipoca caramelada salgada doce, salada de frutas da Amazônia, água de
coco, pupunha...
O profeta era um legítimo profeta
pensador estudioso cientista sábio pesquisador. Ficava e gostava de o tempo
todo dizer verdades, ditos e profecias. Muito consciente do mundo ao seu redor
realista. Trajava pobre, como um mendigo esfarrapado pedinte, e via longe lá no
horizonte distante longínquo. Era de cabelo desgrenhado emaranhado amarrado
estopa em rabo de cavalo, roupa amarrotada, tênis soltando a sola e sem cadarço.
Mania de levar sempre junto de si um cajado ou bengala para se apoiar na subida
na descida, conforme. Nem gostava de frio ou de uma chuvinha de vez em quando nem
nada de nadar era do seu agrado sagrado do seu estilo.
- Onde vamos comer alguma coisa,
profeta? Oiapoque cidade AP sendo o 1380º município mais populoso do B e a
1645ª maior economia, juro!
- No melhor hotel da cidade o
Caleidoscópio. Lá ainda tem coisas na geladeira. O mundo paralisou mas a fome
continua. Nem nunca te falei mas porém o rio Amazonas é meio de locomoção e
transporte e tem regime quase inédito sendo pluvial e também nival.
- Bom, muito bom. Assim nem se
precisa pensar duas vezes, né?!
- Outra coisa deixa dizer e antes
que me esqueça: sou vegetariano ou até vegano, se D quiser!
- E Ele há de querer como sempre desde
o além até o aquém daqui pra lá de lá pra cá e em todos os tempos quer e quis e
quererá.
Foram para o restaurante do hotel Caleidoscópio,
prédio na esquina desmobilizada avenida logradouro Boulevard Castilhos França
com a arborizada via Visconde de Maracaju, e se instalaram na ampla cozinha
higienizada asséptica bem arrumada. Descobriram, prepararam e comeram. Uma fome
profunda, nhame! nhame!... batatas-do-rio assadas e ameixas-do-brasil doces e
araticuns-de-espinho maduros e amendoins-rasteiros em cartuchos... comeram
muitos vegetais, taças de saladas de frutas, doces agridoces coloridos
diferentes, palmitos da inajá, castanhas-do-brasil...
Depois descansaram, fizeram a sesta,
cochilaram na beira da piscina azul infinita paisagem panorama monte Karupina
no horizonte da serra do Imeri. Caíram de corpo esticado numa sesta longa e
lenta e bacana. Por vezes poética.
E logo logo veio a noite temperada
de estrelas, umas até cadentes, os astros corteses gentis cordiais educados
polidos atenciosos e até mesmo iluminados. Constelações em formas infantis de
brincadeira desenhos artísticos.
Nem optaram por sair do hotel
Caleidoscópio, ficaram, e assistiram um vídeo, um filme, uma história
alucinante de aventura, e pipoca perfumada, é claro. E retornaram os tais e
quais os bocejos, ofe! ofe!... e o mergulho nas almofadas fofinhas.
- Vamos nos recolher ao berço,
menina. Eu costumo me hospedar no 1616 ano da inauguração fundação de Belém. O
seu você mesma escolhe e por conta própria. Nem fica assistindo tevê até mais
tarde, tá certo?!, recomendação.
- Pode ser no quarto ao lado. Eu
fico no quarto ao lado pegado.
- Falou. Boa noite. Tenha os sonhos
que preferir e a sua escolha.
- Idem e ibidem.
- Ilha Brigue ilha Curuá ficam no
arquipélago do Bailique em AP, confirma?
- De que em que se troca o bandeirão
sempre hasteado lá em Brasília? De uma vez por mês de tempo, te digo!
- Bem mais alto que você.
- Bem mais forte que você.
Tarde da noite, madrugadão, Lilás
acordou ouvindo passos pelo corredor do hotel, toque! toque!... se ouvia e nem
se via nada. Os ruídos, toque! toque!... dos passos vinham do corredor ou da
imaginação? Procurou entender aquilo, pensou que fosse o profeta, e levantou
para ver ao vivo. Espiou abrindo a porta e viu um fantasma miraculoso. Era uma
alma um véu branco sobrando soprando ao vento à brisa e que aparentava brilhante
de uma velha e baixinha senhora antiga. A menina, então, assombrada trancou a
porta os pelos do corpo todo em pé eriçados ouriçados. Mesmo assim o barulho da
tal coisa incomum prosseguiu, cada vez mais perto e grosso e fatal. Uma alma
barulhenta? Quem já viu? Um espírito insone? Quem já presenciou?
- Que vou fazer? Que posso fazer? -
se perguntou baixinho a menina. Uma vez eu já vi isto em algum outro lugar mas
nem me lembro? Duvido.
Segundos depois a maior surpresa. Grande
surpresa. Surpresa de fato. A aparição, se sabe lá o que era aquilo, a alma de
alguém fidalga ou algo, atravessou a parede, atravessou a parede de concreto do
quarto do hotel o Caleidoscópio:
- Que que é isso, meu! - exclamou
Lilás, arregalando os olhos até nem poder mais. Quê... o quê... quem... de quem?!...
in-com-pre-en-cí-vel!...
- Quem sou? É isso que a menina quer
saber e me pergunta? - falou a alma do outro mundo paralelo extraordinário.
- Pois é... Quem.... quem é você? O
que quer? E por quê?
- Sou a fantasma do hotel
Caleidoscópio. Fui hospede desse hotel durante muito tempo. Morri, estou morta
e mal enterrada. Agora passo as noites por aqui, a andar, me distraindo, a
pensar a meditar... Mas nem tenha receio, nem tenha sustos, pode piscar os olhos,
eu nem mordo eu nem arranho...
Lilás fechou a boca, engoliu seco,
piscou os olhos. Depois perguntou:
- A senhora é... uma senhora?
- Ah! ah! ah!... Ih! ih! ih!... -
riu a alma, riu com gosto de alma penada. Eu existo? Se eu sou eu e estou aqui?
Essa me pegou desprevenida. Essa é boa, eh eh eh!... Oh oh oh!... Acho que nem,
né?!
O riso da alma penada ou despenada
foi um riso sem corpo, portanto sem boca, sem dentes, sem matéria-prima, sem
resonância, sem graça... Se ouvia as gargalhadas da senhora, mas nem se via
coisa com coisa concreta andando ou acontecendo. Só uma fumacinha patética tipo
cerração ou nem isso. O corpo da velhinha (fora realmente uma senhora idosa?)
era só fumaça, na forma de gente, uma fumaça também sem cheiro, uma fumaça azul
em forma de gente, quem te viu e quem te vê.
Essa velhinha, essa nebulosa, quase
quase o quê, esse fantasma na verdade levitava como sopro de fumaça de
cachimbo, uma cachimbada das boas e num lugar proibido de fumar. E sem aquele
lençol branco e outras coisas tradicionais como correntes arrastando, outros
barulhos horripilantes arrepiantes, etc., tipo escrava acorrentada e condenada.
- Quede as correntes, o lençol, as
madeiras estalando, senhora?
- Que nada, neném. Isso é tudo
folclore. Nada disso passa pelo real e fiel e hoje em dia. Um fantasma de
verdade é como um sopro, uma ondinha de fumaça azul e só apenas somente. Uma
fumacinha e olhe lá. Se tiver vento, nem fumaça e sem fantasma.
- Mas assim, bem explicado, nem
assusta ninguém e é difícil de acreditar. Somente uns, toque! toque!... é muito pouco, é pouco demais.
- Os acordes de, toque! toque!... vêm
dos tamancos que carrego para me prender ao solo. São como âncoras.
- Você... quer me dizer se os
fantasmas molham na chuva?
- No meu caso eu prefiro os tamancos
de madeira. Por causa do piso frio, é.
- Legal e g de genial.
Aí, a menina perdeu um pouco o fio
da conversa, o tal fio da meada, a velhinha fantasma pensou um pouco, pensou
com seu pensamento feito de fumaça caprichada, resolveu depois:
- Pois é. Mas... me responda e me
diga. Você quer dar uma volta comigo, passear pelo hotel, espairecer? Sinto
tanta falta de um papo gostoso, de um sopro novo e amigo. Gostaria de olhar a
lua e conversar com alguém, topas? Tem um parque Cabo Orange aqui por perto um
rio o rio Caciporé território nação dos índios pimenteira, vamos nessa?! Uma
rua avenida Brandão formosa casario bonito funcional social arquiteturas,
aceita? A terra firme o vento calmo pacato... e um que demais.
- Adoraria! Vamo nessa que é bom à
beça!
- Então... simboralá, comadre minha!
- Descemos pelas escadas ou de
elevador?
- Subiremos até o terraço. Nem sei até
onde esticará o horizonte. Vamos olhar o céu noturno e voar... oxalá!
Lilás seguiu o brilho rasto da
fantasma pelo corredor, depois o elevador, andar por andar subindo, até o
terraço. Quis pegar na mão dela, mas nem havia mão alguma. Era uma magia
absurda, isso sim. Uma sensação de espírito folgado. Embora tudo bem.
Já no terraço, sentadas ao redor da
piscina, noite calma, tranquilas, sem frio, olhando horizontes meio distantes e
tal, admiravam as estrelas, os prédios, o trânsito lá embaixo todo parado, etc.
Nem corujas nem bacuraus nem morcegos, somente o globo platinado da lua em
suspensão num fio suspensa.
- Que coisa, nem?! - comentou a
fantasma senhora. Eu, em?!
- O quê? A noite? A lua? A rua? -
perguntou a menina, sem saber o que a velhinha queria dizer exatamente.
- A sorte o rio a estrada o caminho.
Tudo é uma coisa só e muito estranha e vagal. Antes eu tinha corpo, agora sou ainda
somente uma fumaça. E isso é estranho ou muito estranho. Logo logo aqui um dia
ensolarado sem as nuvens habituais.
- Como se chama a capital do Estado
de São Paulo? São Paulo.
Assim, Lilás aprendeu que também
fantasmas pensam. E sopram e andam e espairecem e interpretam. Tal e qual como as
pessoas de carne e osso e cabelos e relógio no pulso. Nem muda muito de mudar,
pra falar a verdade.
- Uma pergunta - falou Lilás.
- Chute.
- E a senhora já pode voar sobre a
cidade? Digo, sobrevoar? Do ponto de vista de... uma coruja corujão-orelhudo,
por ex?
- Claro, que dúvida! Quer me ver
pelas costas, é? Quer me ver de drone ou de pandorga ou de balão de gás?
- Outra coisa, dona senhora... Todos
se tornam fantasmas depois?
- Nem, nem todos. A maioria volta
logo pra terra outra vez. E viram em plantas em animais em outros seres, etc. O
mundo é pequeno porém nem simples como parece à primeira olhada, tá entendendo?
Um morcego parente dos
ratos-de-pentes desceu da noite e veio ali se aboletar a um metro e comendo
sementes de abóbora ou amendoins com casca e tudo. Depois, vendo um pequeno
público, tirou da bolsa a tira colo um violão afinado um cavaquinho e ensaiou
uma música de baile alegre dançante ligeira ovante vitoriosa. Tocou muito bem,
obrigado! A velhinha fantasma se lembrou recordou coisas com os olhos parados
no tempo no espaço no horizonte na linha do céu com a terra... E convidou a
Lilás para ser seu par numa contradança. As duas rodopiaram, rodaram e flanaram
à beira da piscina. O som do violão era afinado e limpo e simples...
tre-tri-tru!... pre-pri-pru!... e dedilhado a dedos longos, vre-vri-vru!...
- Isso já me lembra dos meus bons e
passados tempos. Eu arrumava namorados a três por quatro. E que gentilezas...
Pará é 1 das 27 unidades federativas do B e paraense ou parauara. E o que é
saudade?
- Conte uma história com este tema,
por que nem?!
Foi uma ou foram duas horas e Lilás
achou de descansar um pouco. E se recostaram numas cadeiras espreguiçadeiras.
As nuvens passavam por cima e eram poucas e sofisticadas.
- Quantas piscinas olímpicas o rio
Amazonas despeja e deságua no delta marajoara em cada segundo de competência?
Inúmeras.
Amanhecia e o vento levantava poeira
e mais nada. O vento tem a ver com as chuvas. Os prédios se descobriam ao sol,
as árvores, os carros parados por tudo que era canto, as pessoas de pernas
estendidas e braços estendidos no ar, tudo paralisado e quieto e parado e
bairro Curió-Utinga e bem firme na terra de Pindorama. Sim, era verdade!
- Da cidade região metropolitana
(RM) é oitava mais populosa da Amazônia e a Trigésima oitava do B e a
trecentésima octogésima terceira do planeta.
- Qual a vitamina proveniente do sol
e dos raios solares? D.
Pois tudo isso tinha um preço de
mercado e haver o peso. Na horta e lavoura temporárias eram recolhidos
principalmente arroz (100 mil toneladas), abóbora, mandioca, milho... Agora na
horta cultivo permanente se destacava a produção de bergamotas (3 mil e
quatrocentas toneladas), banana, maracujá, coco, abacaxi... Dentro da
aquicultura de água doce foram selecionados aos mostruários aquários públicos 2.600.480
exemplares tipos espécies de peixes, tambaquis, matrinxãs, bagres-pintados,
pirararas, peixes-agulhas-d’água-doce...
Lilás acordou ainda na cadeira, olhou pro lado, olhou
pro outro e nada da claridade do espírito fantasma. A procurada velhinha senhora
tinha sumido e desaparecido. Ela e seus tamancos, toque! toque!... Desaparecera
sem dizer: “água!...” ou “terra à vista!...” ou “gooool!!...”
- Eu já estava me tornando uma fã real da boa senhora,
é. Mas tudo bem e um passo de cada vez.
A menina então desceu com o elevador
e foi à calça da rua central Borges de Medeiros. Subiu a rua, rua de carros
parados, pessoas paradas, estátuas. Descobriu mais uma loja toda de vitrine
espetacular e abandonada. Cidade do equilíbrio paisagístico ecológico:
construções e preservações e restaurações.
Na altura da Borges de Medeiros com
a avenida Presidente Vargas, mesmo com o celular ouvindo música sem parar, a
menina percebeu que alguém a chamava, gritava, chamava por ela. Desligou o
aparelho, tirou os fones e procurou identificar de onde vinham aqueles apelos,
gritos e berros e aleluias. E vinham sim. Vinham de uma mansão, a poucos passos
do passeio público, entre palmeiras comportadas de batauás e árvores frondosas
de pitiás e arbustos remoçados de caiatés-açus e ervas renovadas
brilhantinas-dos-telhados... Motivada mobilizada, foi até lá.
Chegou perto do jardim arborizado e balançante
agitado ao vento e olhou lá pra cima, lá pro alto da ponta do prédio de sete
oito andares. Do alto vinham uns miados e chamados e murmúrios e resmungos. Deu
pra ver mais ou menos, deu pra ouvir assim assim, tal e qual se ouviu alguém
berrar e alardear:
- Ei, olhe aqui, ó! Ei, menina,
venha cá! Tá me ouvindo?! Terráquea!
No alto do prédio empoleirada e
espiando pela janela aberta uma guriazinha espetacular, braços e mãos
desenhando coreografias rápidas inovadoras, fazia de tudo para ser notada e
percebida e mesmo gritava:
- Ei, você embaixatriz, ali embaixo
no chão no térreo!
- Sim, o que foi?! O que deseja?! -
respondeu a Lilás da rua e gritando.
- Pode vir até aqui?! Sobe até aqui!
Preciso falar contigo! É urgente! - gesticulava e falava a guria com as mãos em
concha na boca.
Lilás entrou no prédio, subiu oito
ou nove andares até entrar no quarto da menina implorativa solicitante. Pegou o
elevador admirando os números se alternando no painel luminoso. Entrou. Achou.
Viu. Conferiu.
Daí, as duas menininhas se
encontraram... se olharam... cumprimentaram com garbo e entusiasmo trocaram de
nome:
- Eu sou Lilás.
- Eu sou Tocandira. Sabe soletrar?
Fiquei sabendo que sou natural de Pará de Minas, já ouvi falar?
- Já visitou a ilha Caratateua ou
Outeiro? Provavelmente que fica perto.
- É, mas eu conheço o rio Aurá.
Conhece?
Foram olhar a vista que tinha da
janela e a serra do Acari. Um lugar muito alto que dava pra olhar muito longe
na cidadezinha e lonjuras. Era tudo muito parado, já se sabe. O mundo parado.
Elas ali e conversando na paisagem pintada parada porém bem pintada bem paradinha:
- Que livro você tá lendo? Tem tempo
pra ler? Você gosta de ler ou folhear revistas? Prefere ler ou assistir?
- Eu leio um pouco e outro pouco eu
olho as figuras e observo as legendas. Depois eu escuto música e olho a
internet. Eu nem sei o que fazer com esse mundo parado intervalos comerciais.
Você está passeando? Você está indo pra donde? Você já conhece já pesquisou
caiapó-quicretum e Marituba e rio Cauaburi ou mais além? Tem festa na praça
Batista Campos?
- Estou passeando e olhando o que resta
pra olhar. Tá mesmo tudo parado e desorganizado. Queria voar de parapente,
conhece? Tem gente que tem sorte e voa.
- Por isso te chamei. Preciso tanto
trocar ideias com alguém! Bem, aí os dias foram passando, passaram as semanas,
um mês, dois meses... O tempo é isso é isto?
- Precisaria de um detetive para
investigar esse mundo estacionado, né?! Quando eu penso muito eu já imagino
milhares de kms e rios navegáveis e ilhas e atóis...
- Eu gostaria de ser detetiva. Pelo
menos parente de detetives.
- É uma. Eu mesma queria entender de
geografia, em?!
- A gente poderia fazer uma dupla.
Uma mais inteligente e outra menos inteligente, uma mais esperta e outra um
pouco burra. Daria certo. Uma faz perguntas a todo momento e outra responde com
eficiência e ciência de acerto, tá ligada?!
- Eu gosto das detetivas que
investigam os mínimos detalhes, é. Às vezes acham coisas muito boas ou muito
legais ou muito engraçadas. Uma maravilha.
- É, seria bom. Ninguém sabe de
coisa alguma. O pior vem no primeiro capítulo, depois vai que vai. Acho que
investigação é melhor que pesquisa, você entende?
Mais um pouco e Lilás e Tocandira
sentaram no chão. Ficaram folheando alguns livros com capa dura e histórias e
figuras e asteriscos. Umas mais de trezentas páginas.
- Vamos ouvir música? Que músicas?
Que sons? Que ritmos?
- Acho que é bom... uns maracatus.
Cara!... É muito bom ouvir frevo. E principalmente dançar frevo axé maracatu
toada baião...
Lilás já pensava em se despedir da
amiga. Perguntou lá pelas tantas e quantas e depois de vasto repertório:
- Se a gente fosse pedalar pela
cidade paralisada, hein?! É uma. Faz uma cara que nem vou mais ao zoológico!
- Eu tou com preguiça. Acho
melhor...
- Eu acho legal e super g.
Mais meia hora e mais nada, Lilás se
despediu de Tocandira e desceu para a rua. Tocandira quis ficar sozinha com a
rede virtual e seu quarto cômodo qualquer e ficou. Lilás desceu com o elevador,
saiu na rua Caeté.
Faltavam 793 dias para o dia 22 de
abril do ano 2000, 500 anos do descobrimento. Quem diria?! E quem descobria?
- E as abelhas transformam as flores
e seus ingredientes em mel, tranquilamente.
Duas horas em seguida, numa esquina
qualquer da cidade congelada rua Augusto dos Anjos com avenida Abaetetuba,
Lilás se deparou com a Tinguá e Picuá, mãe e filha. Elas estavam em frente de
casa no quintal no pátio. A mãe cuidava de um caldeirão, e a filha pegava no
colo o um mascote vira-lata folgado de cauda balançante e de nome Pingue. Lilás
se aproximou para perguntar:
- Esquentando um sopão, dona Tinguá?
É este o seu nome, suponho.
- Nada como um personagem de ficção
com visão de futuro. Você acertou em tudo, no nome e no produto - respondeu a
boa senhora.
Sem cerimônia, com ou sem
cerimônias, Lilás pegou e se enturmou com a guriazinha mais o cãozinho serelepe.
Brincaram de lançar a bolinha de tênis e ver o guaipeca pegar, correr atiçado e
pegar de volta. Sim senhor! Depois corriam dele, ele latia, botava a língua, se
escondiam, o cãozinho achava, etc., o cusquinho se escondia elas o achavam, e
assim por diante. A Tinguá recomendava os cuidados de mãe pedia isso e aquilo
dava as gargalhadas, ria, ahahah!... ah ah ah!... e sempre envolvida no vapor
do sopão. Alguns passarinhos vieram conferir e ver de perto ali pousaram nos
galhos secos do pé de tauari e ficaram espertos observando saltitando famintos
curiosos. Nem demorou muito a mãe chamou a filha e convidada:
- Filhinha! Venham cá. Chegam mais
as duas.
- Que que é, mãe?!
- Preciso de uns temperos pra
condimentos e molhos e etc. Quero que vão a um supermercado buscar pra mim. É
coisa importante, é urgente, tem de ser rápido.
- Diga lá, diga logo!
A mãe mandou escrever no celular:
- Vou precisar de... anotem:
feriado, festa, missas novenas ladainhas, procissões, marabaixo, cantos e
batuques, passeatas, mais algumas encenações teatrais ao ar livre, bailes
populares caipiras típicos quadrilhas, carimbó, danças rituais... Acho que é
só. Ah!... mais uns ingredientes que nem podem faltar, bandeira, brasão ou
escudo e hino, tá legal?!
- A gente pode tomar sorvete ou
picolé?
- E vão num pé e voltem noutro.
As duas meninas tão galantes embarcaram
nas magrelas, botaram os capacetes, e chisparam, pela rua, na avenida, no
paralelepípedo, na sombra do palácio Azul, quase tão rápidas quanto o vento que
levantava folhas secas e poeira e cisco.
Quando viram o prédio do super a
Picuá deu ordem:
- Estacionar naquele estacionamento!
As duas entraram no supermercado
Jacutinga, capacetes atados à cintura, e foram logo escolhendo as compras tradicionais:
metal, couro, cortiça, madeira, plástico, vidro, borracha, cerâmica...
Como se pode compreender, nem havia
vendedor, nem havia dono, nem proprietária, e mais ninguém na loja. Tinham,
portanto, tudo à mão e à feição. De frente pro negócio, lógico, sem ter a quem
pagar, as duas se baldaram, se esbaldaram, se maxibaldaram.
- Olhe, Lilás! Prove desse chocolate
sem açúcar. Sucesso!...
Tinha de tudo ali e dentro do prazo
de validade. Somente nem se encontrava o que nem havia sido inventado e ou
produzido.
- É caju com suco de limão, meu!...
- E este é o sorvete de marimari!...
Nem mesmo pensavam em outra coisa,
queriam ver tudo, provar o máximo do consumo, olhavam com as mãos, reviraram
todas as prateleiras, artesanatos e biojoias de conchinhas de palha de sementes
de madeira... encheram o carrinho.
- Vou carregar o que tiver.
E foram, iam de corredor em
corredor, por aqui e por ali, procurando ver os ingredientes que faltavam,
olhando tudo, tocando tudo, conversando sem parar, elogiando as ofertas as
opções os preços a qualidade a procedência, seção de cama mesa e banho, seção
dos brinquedos e jogos...
- Este é originalmente de onde?
Mojuí dos Campos.
- E mais de todas as suas
cidades-irmãs.
Depois se encontraram, e se
acomodaram, na seção de produtos de beleza como para cabelo pele sombras
brilhos cores... Foi outro pânico nos olhos. Aí sim as duas piraram de vez,
amoleceram os braços as pernas e se sentaram no chão para curtir.
- Olhe esse batom, uau!... Gente!...
Tem gosto e sabor de... cacau na chuva! - alucinava a Picuá.
- Hum!... Ah, e esse perfume...
estou levitando... é de beldroegas é de lilases... ui! - ria feliz a Lilás.
- Perfume de lilases? Combina com a
sua cara, querida amiga.
- É, nem sei o porquê da questão.
- Aaaaah!... Olhe esse quite de maquilagem!
Vou levar. Nem é todo dia que encontro algo assim e em oferta.
- Nem nada jamé! Afaste isso tudo de
mim! É muita tentação!
- Para o cabelo, para a pele mais
macia, sombras, etecétera.
- Me acorde e me belisque, por
favor!
Anoitecia quando voltavam, pedalando
lentamente... rua Barão de Marajó e bairro Itapeba em Maricá. No horizonte já
caindo o sol a serra do Mendanha e o maciço do Gericinó, pontos turísticos
ecológicos sítios de trilhas e escalaminhadas. Em casa entregaram à mãe todo o
pedido, item por item, de a até z, de fio a pavio:
- Hum!... Vamos ver... isso...
aquilo... o outro... é, tá tudo aqui. Obrigada, minhas meninas.
Com os produtos nas mãos, a Tinguá
foi ao caldeirão dar continuidade à sopa sopão substancioso. Colocava uma coisa
lá dentro e mexia, rindo, engraçada, ah! ah! ah!... Acrescentava um sabor de pimenta-do-mato,
um dente de alho, um pozinho de guaraná ralado e mais outra coisa... e sorria
como sempre já antevendo prevendo o sucesso, eta! eta!... A fumaça subia para o
céu noturno, até a lua, as diferentes divisões da atmosfera, alimentando
estrelas, empanturrando cometas de vassoura, capitanias gerais províncias
Estados... O cãozinho Pingue descendente em linha incidental dos
cachorros-do-mato-vinagre, uivou pra dona lua, cauuum! cauuuuum!...
As meninas foram dormir, e
precisavam. Volta e meia Lilás ouvia, e achava estranho, os ruídos soltos que
vinham da rua da avenida do bairro das plantas. Estranhas imagens invadiam sua
cabeça, figuras carnavalescas povoavam seus sonhos e fantasias, desfiles de
festa e missa e procissão e arraial e quadrilhas em pleno baile bailão com
casamento na roça o moço convidando a moça. Nem podia ser mas parecia antes bem
antes no tempo dos cacicados complexos entre os índios baníua a ilha de
Cotijuba os caboclos os mamelucos antes ou pouco depois do descobrimento, etc.
No dia seguinte as duas meninas
acordaram com planos e aventuras e sagas e histórias e expedições. Viram a
Tinguá estirada na rede, na varanda ou sacada, a resonar, rom! rom!... muito
cansada ou ainda cansada. A seus pés o cãozinho também relaxava e curtia uns
raios de sol nascentes. Voavam outros pássaros trabalhavam andavam labutavam
outros bichinhos pelo pátio, sapo-martelo, sauins-de-coleira, rato-espinhoso,
caiararas-brancos, ouriços-pretos, sanãs, beija-flor-preto-e-branco... mas sem dar
notícias do mundo dos homens e mulheres e acompanhantes.
- Vamos passear de bíci? Tá um dia
como outro qualquer - sugeriu Picuá.
- É, é uma. Uma muito que ótima,
bótima.
- Faz um tempão que nem faço isso de
andar por tudo e passatempo!
- Vamos nessa, então. Chegou a hora.
Tô adorando!
As meninas pegaram das pedaletes
quase voadoras e chisparam. E
pedalavam, pedalaram... nossa!, como pedalavam... parecia que iam cair e
derrapar e resvalar na brita da próxima esquina. Que nada! As duas eram muito
velozes e profissionais. Volta e volta e meia, mercado de São Brás, lado a lado
e apostando carreira...
- Apesar do B ser muito de clima
tropical, o Pará (Estado) é de equatorial.
Entravam numa rua ali por trás do
cemitério, era a estrada Buarque de Macedo, depois a rua 7 de setembro, uma rua
coberta de flores de jacarandá-cabiúna rua Bannach, descendo o morro da famosa praça
Castro Alves, freando na descida que o morro era alto e a velocidade era descontrolada,
faróis ligados o tempo todo...
- Olhe o Horto, Lilás! Lá o perigo
anda à solta e é grande. Pode ser ou nem ser, mas acredito que muitos animais
grandes e ferozes foram se esconder ali. Vivem como se nem houvesse amanhã como
se estivessem na floresta como se fosse no pantanal mato-grossense, em estado
primitivo, selvagem, predando, caçando e sendo caçados. Comem, capturam, se
escondem, se protegem, correm, etc., procuram fazer o dever de casa. Os grandes
comem os pequenos, e os carnívoros papam os mansos, igual de antes, como sempre
foi, como se vê no documentário da tevê, uns com fome outros famintos. Impera
aquela velha e batida lei do mais forte. Grama alta, mato fechado, água
cristalina, cavernas e esconderijos. Uma selva com floresta com mangue com
igapós. E vivem onças-pretas, jaguatiricas, gatos-do-mato, lobos-guarás,
sucuris, jacarés-de-papo-amarelo, muriquis, macacos-prego e mais macacos,
muitos micos, tamanduás-bandeiras, tatus-canastras, mais cobras e lagartos e lagartixas
e lacraias, peixes de muitos estilos de nado e tipos de couro de escamas e aves
aquáticas arborícolas... e realmente muitíssimos insetos aos milhões zumbidores...
As duas meninas entraram pela estradinha
do Horto e foram lá pro fundo do mato do capão grotão cafundó. Era tudo mato e
mato bem fechado. O vento sacudia as copas das árvores muito lentamente,
corticeiras-da-serra, frutas-de-burro, milocas, jardineiras, piripiriocas... Nem
se ouvia pio de passarinho, nem se via voos de borboletas ou besouros ou
joaninhas, nem se entendia o zumbido das ferozes vespas, nem se captava nada
assim de extraordinário ou que se pudesse levar em conta.
As gurias travaram as bícis ali no
meio do mato, no meio da trilha. Olharam em volta e se arrepiaram, exultaram,
quase quase aplaudiram:
- Que que é isso, meu! - se admirou
a Picuá. Veja esta sumaumeira e que grande!
- Nem tem ninguém para nos receber e
nos guiar e nos informar, será?
- Acho brabo. Nem lembra que o mundo
parou, guria?! Parou, tá parado!
- Então, vamos voltar, né?! As
histórias nem nunca falam da volta, né?!
Ficaram aí se coçando, olhando uma
árvore e outra árvore, uma árvore mais alta que a outra, o vento mexendo com as
copas, o sossego, o clima, o espaço, uma erva botão-de-ouro, cipó-d’alho,
caruru-de-espiga, inhame-de-folha-roxa-pintada... e quase quase somente o
silêncio. Estavam no meio do Horto e mais nada. Estavam no mato sem cachorro
vira-lata. A Lilás achou de pensar alto:
- E agora? Nem é perigoso andar por
aqui? A natureza é que manda, nem é?!
- Se é! Nem me fala - arrepiou a
Picuá. Vamos alimentar de quê?
- É melhor a gente ir embora. Procuraremos
sem pressa uma sorveteria pacífica e aberta já nesta hora, é.
- Estamos longe de casa, também.
Onde passa e vai o rio Maguari?
- Bastantinho. E temos que cair fora
antes que alguma dessas feras nos tire pra dançar. Já ouviu falar em jurupari?
Já sabe da lenda do saci?
E as duas saíram pedalando na calma.
Voltando pelo caminho que entraram. Saindo pelo portão da entrada. Passando
pela bela ponte do rio Guamá. Olhando para mais além a ilha de Tatuoca.
- Nem me imagino sendo caçada no dia
a dia por um bicho do mato e predador. Isso nem combina com a minha ideia de progresso.
Seria até sem graça e até ridículo e sem sentido - arrepiou a Lilás.
- E sem contar os mosquitos...
No meio da floresta a lei era da selva selvagem.
Precisavam fugir antes que uma fera pressentisse a presença delas. Antes que
uma onça em perigo de extinção as ameaçasse e com justiça.
- Agora eu imagino quanto pena e
despena um passarinho quando um malvado tenta prendê-lo na gaiola - disse a
Picuá.
- Estas coisas ainda acontecem, meu?
De repente se viram alcançadas.
Foram cheiradas por quatro onças uma de cada cor, quatro irmãs, uma
onça-pintada, uma onça-parda, uma onça-vermelha, uma onça-preta, geminação de
felinas. As feras femininas já vinham de água na boca e babando, gruuu!,
gruuuuu!...
- Ah, nem falá! - exclamou Lilás.
- Minha nossa, meu! - exclamou
Picuá.
- Onde estão a polícia o corpo de
bombeiros, gentem!
- E a lei orgânica da cidade e sua
constituição, é pedir muito?!
Eram quatro onças potentes, de
dentes de grandes e ótimos, olhos amarelos, olhos amarelos, olhos brabos e
fixos, um corpo felino e forte formoso. Sempre de boca aberta e rosnando, grrraaa!...
a cauda batendo no ar sem parar, a língua de fora já sentindo o gosto da presa
da carne tenra, orelhas estalando, troque! troque!... Muito apetite lá com as
quatro irmãs de quatro patas e bocarra.
- Vamos subir na árvore mais próxima
mais alta!
- Estou me sentindo um prato andando
e bípede!
As meninas suavam frio, batiam os
queixos, batiam os joelhos, arrepiavam o pelo, olhavam em volta pedindo: “por
favor!...” Talvez seria melhor dialogar com as feras, quem sabe! Será que
negociariam? Aceitariam um suborno uma propina uma gorjeta? Será que levariam
em conta a paciência?
- Vamos falar com as feras... Talvez
falando com calma e no idioma delas...
- Você... você fala a língua delas?
Ficaram ali as duas tremendo trêmulas
meninas abraçadas estáticas sem coragem de dar um passinho pra trás pro lado
pra onde fosse e olhando as quatro onças que arreganhavam os seus dentes
potentes branquinhos feitos de marfim. Quatro onças, uma do pantanal outra da
amazônia outra do pampa outra da caatinga... (faltavam do cerrado e da mata
atlântica). Que neste exato momento davam os primeiros e lentos e definitivos
passos pateavam, lete! lete!... em direção às pequenas duas medrosas.
- Elas querem talvez falar, falar
mais perto... - observou Lilás.
- Tô ligada.
- Cheias de dentes, pelos bonitos
manchados de cores...
- Vou correr como nunca, talvez.
- Sim, temos que fazer alguma coisa
urgente.
- O quê? O quê, por exemplo? O quê,
por favor!
- Pois é, pedir o... por obséquio!
E as felinas iam se aproximando com
o jeito de gatas perigosas, olhos amarelos fixos nas gurias, felinas, perigosas,
bonitas e lindas. Corpinhos de gatas ágeis. Figuras de álbum ou selfies.
- Ah, cara, elas nem gostam de
lero-lero bate-papo conversa fiada e coisas desse tipo. Olhe só como balançam a
cauda em atitude de ataque. E vão dar o bote...
- Muita calma nesse minuto... pe-ri-cli-tan-te!...
- Eu sempre quis morar numa ilha tipo
Urubuoca e comer açaí no pé, sabe?!
Aparentemente nada podia deter as
quatro bem poderosas feras e seus dentes pontiagudos mandíbulas e suas garras
retráteis. As quatro felinas soltas insociáveis eram e estavam donas do pedaço.
Donas do mundo. Donas de tudo e da
situação. Davam as cartas e conferiam o jogo. Apostavam jogavam acertavam
conferiam e recolhiam as fichas, é.
- Sou tão mocinha... manhêêêê!... -
foi a Picuá.
- Vou virar goma de mascar de...
de... eu quero minha mãaaae!... - era a Lilás.
O despreparo tomou conta das duas, e
para sempre. Nem entendiam nada que estava acontecendo e muito. Olhavam o
caminhar das felinas de grande porte, os dentes afiados, as garras potentes
quadradas e... iguais as mesmas e mais e mais perto. As onças bufavam, frou!
frou!... muito próximas e roncando, ronque! ronque!... às vezes rugindo, grrraaa!
grrraaa!... e nem paravam de avançar, avançar a passos lentos, torturantes,
pedantes pesados... chegando, devagar e devagarzinho, e sempre. Tão sempre
quanto ferozmente. Deixando pegadas marcas firmes onde pisavam tatuagens no
chão de terra fofa.
- Nem consigo desviar os olhos dos
olhos das feras ferozes felinas.
- Somos a caça, o almoço, o lanche
da tarde, o tira-gosto, o manjar...
- Vou rezar na igreja na catedral na
basílica na capela no capitel e no santuário...
- Vou fazer vou me apresentar em
romaria fluvial romaria rodoviária moto-romaria procissão transladação
recírio...
Nem adiantava mais esperança alguma.
E até ali D nem atendera ou nem quisera ouvir as preces das garotinhas. As
feras já muito perto das gurias e daí?
- Mas ah!...
- A qual!...
As onças chegavam perigosamente,
muito próximas, e já há algum tempo. Tão perto que as meninas cheiravam as
feras contavam suas pintas sentiam o
forte peso do bafo o ronco, ronque! ronque!... dos seus estômagos vazios as
línguas vermelhas lambendo os beiços beiçudos bigodudos. E uma do lado da outra
a canguçu a jaguar a suçuarana a jaguaretê e as quatro avançando personagens
protagonistas.
Mas aí... surgiu do céu, do chão, atrás
de uma jaracatiá, e como um raio de relâmpago, mais rápida que um corisco,
surgiu muito rápido mesmo uma mãe com vassoura na mão, a dona Tinguá com uma
arma perigosa na mão, uma vassoura de folhas de piaçaba e caiu em cima das
onças felpudas. Foi um espanto, ora!... A Tinguá espantou logo as felinas e
salvou da carnificina as duas meninas de tenra idade.
- Simboralá, meninas! Pegam das bícis
e vamos embora definitivamente! - foi dizendo a Tinguá. Sem demorará!
E as meninas se salvaram das garras
daquelas poderosas e famintas onças de várias cores e temperamentos e
temperaturas. Aliás, as tais onças, que fugiram para o interior mais interior
do Horto florestal, foram correndo e comentando uma com outra:
- Nem acredito... - começou a dizer
a onça-parda, original da serra da Seringa.
- ...que uma simples mamãe... -
continuou a onça-preta, autóctone mandatária da ilha de Maracá.
- ...tenha nos enxotado com uma
vassoura... - dizia, indignada, a onça-vermelha habitante ocasional passeadora
no porto de Itaqui.
- ...pra nos levar a rica refeição
suculenta - completou a onça-pintada, natural da beira do rio Curuá-Una.
- Nem acredito, nem acreditamos!! -
urraram em coro as quatro felinas irmãs gêmeas e preciosas e manhosas e
pertencidas e caprichosas.
É as onças teriam que procurar outro
repasto outro lanche da tarde. Uma pena para as felinas, uma salvação para as
meninas elegantes. Total: a sorte continua, assim e conforme como o rio
Itacaiúnas desliza vai para o mar.
Enquanto isso, pedalando pela cidade
parada no tempo e no espaço, as meninas iam sorrindo, um riso no rosto
denunciando aventura futuro... E o celeste azul com passagens de nuvens brancas
aqui e ali mais altas nas 5 camadas que constituem o céu troposfera
estratosfera mesosfera termosfera exosfera, e a orla de Icoaraci.
- Uau!... Foi por um giz aquelas
tais e quais feras - comemorou Lilás.
- Uau!... Foi por um triz por nós e
por elas as feras - festejou a Picuá.
- Catedral da Sé, uma das célebres
maravilhas brasileiras.
- Qual o resultado de uma
multiplicação? O produto.
- O que comem e bebem comidas em
Santa Izabel do Pará? Caruru, chibé, maniçoba, moqueca, tacacá...
- Com que como dançam e festejam em
Canaã dos Carajás? Marujada e siriá e lundu marajoara e tecno brega, calypso...
É, as meninas tiveram sorte de sair ilesas
das garras das onças brabas bravas. Pois era assim mesmo, havia aventuras e
havia perigos e havia o que contar.
- Uma coisa, dona Tinguá - pergunta
de Lilás - Como foi que a senhora nos encontrou e nos descobriu e nos salvou?
- Simples. Pingue foi seguindo os
rastos das bícis e eu fui seguindo o Pingue. Só fiquei preocupada em chegar a
tempo e em tempo na hora.
- Toda família deveria ter um Pingue
nos dias de aventuras - concluiu Lilás.
Chegando em casa de Tinguá e Picuá e
Pingue uma surpresa uma novidade uma nova peça teatral. O que foi? Por toda
parte bacuris, muitos bacuris frutos. Ora, ora quanto bacuri! E bacuris verdes
ou maduros, bacuris pequenos e grandes, bacuris de roça ou de jardim ou do
campo. Uma plantação de bacurizeiros, milhares deles, uma festa de bacurizeiros,
país do bacuri, rechonchudos e fortes bacuris. E pra que tanto bacuri? E todos
os bacuris de bem com a sorte lá deles de bacuris, rindo à toa, conversando
coisas entre si. Bacuris de todo lado, bacurizeiros vindos da ilha dos
Papagaios e da biblioteca Arthur Vianna e mais da praça Siqueira Campos do
território dos tucuju ainda principalmente de Maripá e Floraí e São Carlos do
Ivaí... Eram bacuris nos seus devidos bacurizeiros e se comportando como gente
honesta justa importante.
- Que é isso, dona Tinguá? Que bacuris
são esses? - perguntou, pra lá de espantada, a Lilás.
- São meus bacurizinhos combatentes,
ora essa!
- Como assim? Por quê? Nem entendi.
- Lembra dos ingredientes que vocês
me trouxeram?
- Era pra isso? Era tudo isso?
- Sim, era pra isso, pra fazer essa
mágica, essa criação, essa plantação de bacuris fruto amazônico. De vários e
variados ingredientes produtos especiarias fiz essa tropa de elite, os bacuris revolucionários.
- Bacuris soldados? Nem entendi, nem
caiu a ficha. E que é isso, meu?
- Bom, explico. São bacuris
voluntários e pra combater o avanço terrível, assustador, avassalador dos incêndios
florestais. Nem sei se você reparou, mas depois que a cidade parou, os focos de
incêndio aumentaram e tomaram conta, e se multiplicaram além do tolerável,
bilhões deles. Os incêndios também merecem consideração, mas nem em tão alto
número, entende?! Esse é o papel do batalhão de bacuris: conter a invasão dos incêndios
florestais matagais e capoeiruçus.
- E se os frutos bacuris tomarem
conta do mundo? Nem será outra mania?
- Eles têm prazo de validade, nem
poderão se reproduzir e só comerão incêndios descontrolados. Tá satisfeita,
menina Lilás? Pensei em tudo, nem?!
- Nem há como comparar. Parabéns e
muito obrigada!
Daquele dia em diante, pelos dias e
noites da cidade fantasma, os frutos bacuris iriam pelear contra os focos de
incêndio em guerras quentes, em lutas noturnas e diurnas aéreas e subterrâneas.
Bacurizeiros plantados aqui e ali acolá em muitos lugares estratégicos. Uma peleia
longa, talvez de anos, mas que tinha tudo para ser vencida pelos rechonchudos frutos
carnudos. E bacuris versus fogaréus.
- Que idioma se fala e um
norte-rio-grandense em RN? O potiguar.
- Qual a capital mundial do
bagre-catinga? O rio Paru.
- Eu mesma olho o sol a lua o açude
o camapu a cutiaia a Ourilândia do Norte...
- Eu já admiro as estrelas os
planetas as nebulosas os jutaís-do-alagado os caxinguelês a Água Azul do
Norte...
O tempo passava, parecia passar, nem
passavam. Nem passava o tempo porque o mundo estava estagnado e preso ao chão
como uma estaca. Mas o tempo sempre passa, mesmo quando nem passa e nunca passa.
Então, o tempo passava. O tempo se multiplicava ou se dividia em partes.
- Alguma coisa como ver um
labirinto, o quê?!
Dois dias depois desses episódios
valorosos, Lilás foi embora, saiu da aba da Tinguá e da Picuá, caiu fora da sorte
daquelas duas boas criaturas. E andou pela cidade parada, foi pedalar sua
magrela por outras áreas da cidade e Casa das 11 Janelas e palácio palacete
mansão casarão sobrado. Pedalava à toa.
- Já plantaram árvores frutíferas
nesta cidade das frutas, cupuaçu, pupunha, acaiá, muruci, bacaba, uxi,
indaiá...
E num viaduto, o tal viaduto Chuí,
altíssimo e com jardim e com chafariz, a menina encontrou três folgadas
graxains. Elas três praticavam aquele jogo, aquele brinquedo que parece
esporte, o tal de pular da corda elástica. E a menina quis se meter também,
quis experimentar a sensação vertiginosa vertical.
- Ei, amigas! Posso? Me permitem?
- Nem. Saia, sai fora! - disse a
graxaim nº 1.
- Vamos ver. Talvez - disse a
graxaim nº 2.
- Claro que pode. Nem só pode como
deve - disse a graxaim nº 3.
Lilás nem entendeu a discórdia lá
entre elas aquelas três graxains. Cada uma dizia uma coisa diferente, cada qual
decidia uma coisa oposta e contraditória. E isso era bom ou ruim? Vai saber!
Uma confusão. Uma política.
- Que baralhada é essa, sô? -
reclamou a menina. Posso, nem posso, talvez... hein, qual é?
- Já lhe disse que pode! - respondeu
a graxaim número 3.
- Já lhe falei que nem! E nem, é nem!
- respondeu a graxaim número 1.
- Já nem sei mais nada! Decidam
vocês duas! - respondeu a graxaim número 2.
Tudo na mesma. Nada decidiam. Eram
três opiniões diferentes, discordantes, modificadas, desiguais, bem repartidas.
Seriam três irmãs alopradas? Cada graxaim dizia uma coisa. Cada graxaim no seu
galho no seu quadrado na sua casinha.
- Vocês parecem políticos em época
de eleição: falam um monte, dizem tudo e nem confirmam nada! Ficam nesse
empurra-empurra, deixa que eu deixo!...
- É, pois é! - disse a graxaim nº 3.
- É nem, nem é! - disse a graxaim nº
1.
- Talvez é e quem sabe e vai saber,
né?! - disse a graxaim nº 2.
A menina perdeu a vontade de rir?
Mais ou menos. A guria Lilás perdeu a esportiva de brincar? Também, em! Deixa
pra lá!
E Lilás tomou uma decisão aventurosa
sensacional radical e esta:
- Vou experimentar esta corda
elástica e seja o que for, custe o que custar. E pra baixo todo santo ajuda. Eu
sou corajosa como cunhantã galibi.
Disse e se apresentou na brincadeira
para brincar. Se deixou prender na corda elástica, se afivelou, bem
amarradinha, respirou fundo, ia se jogar, começou a rir muito, estava um pouco
nervosa, um tanto ansiosa, queria muito voar em cruz...
- Ufo! ufo!... lá vou eu... ufo! ufo!...
- eram os suspiros da Lilás.
E se jogou do alto do viaduto Chuí,
se jogou com fé, coragem, receio, gritos, iaeiouuuuh!... cabelos arrepiados...
braços abertos como uma papagaio-de-fronte-azul, pulou no ar como um pássaro
feliz igual como um bem-te-vi, como uma gralha-azul, como um gavião-de-bico-de-gancho
ou caracoleiro, como um tiriba...
- Uai!... Nossa!... Ufa!... Que frio
na barriiiiga... que... valeu meeeesmo... - desabafava ela em pleno ar, em meio
ao pulo, no espaço, terminando o vai e vem do elástico e de cabeça pra baixo.
E
ficou lá, balançando, balançando, solta no vácuo, atada e presa ao elástico,
dependurada como abóbora de feira, como se estivesse plantando bananeira no ar,
nem caía nem subia, ninguém puxava de volta. Lilás ficou assim... como um i
invertido...
- Quem vai resumir esta história pra
mim?, por favor!
O caso continuou o seguinte. Na
verdade um problemão. Seguinte. É que as graxains saíram fora, sacanearam a
Lilás e a deixaram ela lá pendurada como ioiô como fruta madura como pingente e
por um fio.
- Minhas mãos estão abaixo da minha
cabeça, cara!
Pergunta. Quem tiraria a menina dali, daquela posição
incômoda? Outra coisa. Outra coisa grave e urgente. Debaixo do viaduto, já foi
dito, havia um lago também estagnado. Pois é. E nesse lago de chuvas passadas,
dentro desse olho-d’água... jacarés-açus, muitos jacarés-de-papo-amarelo, etc.
Talvez uns seis ou sete. E famintos, com esse bocão cheio de dentes. Então,
novamente o perigo na sorte da menina. E como Lilás se salvará desse mais um aperto?
Ela poderá sair dessa enrascada? Alguém chegará a tempo de socorrê-la?
Convoquem os bombeiros voluntários de Tamboara e de Palotina e Nova Aliança do
Ivaí! Chamem os índios passé! Ou contem até 10! Ou rezem se quiserem rezar se
souberem rezar!
- Oh, meu D! O que vai ser de mim?
Se fosse um filme a história nem acabaria até eu me salvar. (pausa) Já estou
ficando com enjoo e chateada. As ideias já estão escorrendo todas pra fora da cabeça
dos casco do coco. Eu estou com sede... muita sede... toda a sede do mundo...
Eu estou por um fio... Eu nem estou...
Lilás reclamava e com razão pois
afinal a situação, a posição dela, ali de cabeça pra baixo, naquele perigo, nem
estava pra qualquer um, nem era fácil. Ossos do ofício.
E, como já se disse e se diz se sabe,
“pouca sorte é bobagem”, eis que aparece ali no lago artificial pantanal a
turma dos jacarés-de-óculos. Grandes e cheios de dentes, bocões abertos, e babando.
E chegaram os jacarés-curuá com tudo. Falou o maior deles mandachuva mais forte
mais réptil mais papudo:
- Nem tenha preocupação e
desassossego. Nem precisa arregalar os olhos e se contorcer torcer distorcer.
Pode se soltar, eu lhe pego aqui em baixo, desça, desça... solte, se solte...
A menina olhava os jacarés-coroa
famintos lá embaixo, olhava de cabeça pra baixo, olhava de maneira invertida. E
era difícil. Se caísse chegaria direto na goela dos bichos boquiabertos e
famintos. Se nem saísse dali, pendurada como uma fruta no galho da árvore, iria
apodrecer e arruinar. Então, como vai ser? Como foi?
- Pode se soltar, menina. Nós aqui
embaixo estamos com muita fome. Faz dias e dias que estamos famintos passando
fome. Desça. Se deixe cair. Deixe de morcegar ao sol e se deixe cair, menina
apetitosa... Vamos almoçar agora mesmo!
É, os jacaretingas tiravam um sarro
da garotinha e esperavam, esperavam com esperança e boca aberta e paciência.
Esses tipos de rastejantes duram mais de 20 anos na natureza selvagem,
embaixadores do rio Ivaí.
- Vamos, menina teimosa. Desça que
estou faminto...
- Vê se me esquecem. Alguém virá pra
me salvar - falava a menina, com muita fé. Isso nem vai acabar assim...
- Duvideodó! A cidade está deserta,
esqueceu? - retrucava o jacareúna.
- Vou esperar até o último momento.
- Você tá no papo. É apenas questão
de tempo minutos segundos... Contagem regressiva, dez, 9, oitavo, siete, six...
Lilás continuava assim e
interessante, presa à corda elástica, balançando no espaço como uma fruta no
galho da árvore predileta. E de tanto desconforto, cansaço, falta do que fazer,
chegava a envelhecer e a inchar e a criar bolsa sob os olhos. Era mais que uma
novela de tevê ou seriado de livro.
Tinha outra. Somente para assustá-la
ainda e mais, os répteis, vez em quando, davam uns saltinhos, uns pulinhos
tentando abocanhá-la, altos exercícios. É, eles sempre fazem isso quando querem
alcançar alguma coisa importante. Nem conseguiam alcançá-la mas amedrontavam de
montão a coitada.
- El-Rei! El-Rei!... Socoooorro!...
- pedia ajuda a menina.
Correr aventuras é difícil, umas
vezes até insuportável. E Lilás nem podia fazer nada, ali presa de cabeça para
baixo, a uns dois metros da boca dos aruás, completamente sem ânimo ou quase
sem destino. O jogo parecia no intervalo.
E nem resolvia nada a menina fazer
escândalo polêmica. Nem tinha ninguém mais perto que lhe pudesse valer. Somente
o eco, lá longe, lhe respondia. Um eco vazio e liso e limpo...
- Pode gritar, pode berrar, pode
perder a voz que ninguém virá para salvá-la.
- Essa história só acaba quando
termina, ou seja, quando eu sair daqui, e numa boa, e sã e salva como uma
grande alma. Esta história apenas acaba quando eu quiser, entenderam, pescaram?!
- Nem. E dessa vez nem vai ser bem
assim.
- Vai, claro que vai.
- Tem certeza, neném?
- Tenho. Nasci tendo muita certeza,
por que perderia agora?
- Absoluta, absoluta certeza que
será salva?
- Tenho! Tenho! Tenho!...
Será que o ururau tinha razão? Seria
mesmo o caso do fim de Lilás a menina? Por que Lilás nem podia se salvar, ou nem
tinha nenhum salvador, ou nem tinha condições de se safar sozinha? Os arurás
almoçariam a garotinha, mais cedo ou mais tarde? Como se fosse um manjar? Como
se fosse numa festança de fim de ano? Como se fosse carimã um mingau bem
preparado?
Nem esqueçam de deixar os
comentários no final do episódio.
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