segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Agora é Verdade (juvenil)

 


 

            No primeiro tempo dos tempos superantigos (e anacrônicos), nem comportavam montanhas superexaltadas e nem canalizavam rios caudalosos e nem coexistiam deuses(as) aguerridos bravos e fortes. Havia visto que havia (e nos tempos idos de antanho antano), muitos deuses lendários voando ao léu montanhas sem chapéu pontes ligando lado algum a lugar nenhum. Depois em pós (e com a criação o invento do aeronauta Alberto Santos Dumont), muitos deuses elevados aportaram e viraram montanhas e montanhas em rios e rios em deuses paraquedistas. Quase hoje em dia esta hora mesmo (e época anda-corre-voa, terramarear), já persistem teimam competem porfiam deuses todo-poderosos morando em algumas cordilheiras tingidas de verde amarelo azul-anil. E serras cadeias de morros colinas (e nesta hora da manhã recomeçando), são ótimos penhascos alcantilados e ou caprichadas famílias de maciços como catedrais como pináculos auges picos torres promontórios autarquias.

            Seriam 8(20) horas da noite, seriam 5 horas da manhã. Bem antes de clarear o dia, bem antes de anoitecer. Quando o sol autoriza, quando o sol se esconde na nuvem; quando a lua governa, quando a lua se reparte em quatro.

            De repente - quantos tantos mil quilômetros daqui dali -, o sol solar amarelo pratica na prática um salto surge e descobre descortina evoca convoca o amanhecer. A natureza esta está como sempre exatamente exagerada superlativa, inhumapocas e azulonas e juruvas e vanaquiás e carapós e vaga-lumes e antas-sapateiras e apês e cordões-de-frade-pequeno e magnólias-do-brejo e... exageradamente diariamente como tipos espécies cientificamente descobertas comprovadas admiradas catalogadas classificadas copiadas...

            Uma ideia veio do rio Betim com o rio Maracujá mais o ribeirão Sabará ainda o córrego Cercadinho e a menina principalmente Lilás da localidade de Ponto Chique. Havia motivo? Sexta-feira nas 12 horas espetacular no zênite o sol amarelo e distante queimava forte verão firme. E simples bonita querida natural sorridente amigável assim sempre bem composta a garotinha. Calças novas empetecadas compradas na loja Dobadeira com quatro bolsos 2 bolsos embutidos 2 bolsos pendentes perpendicularmente. Saindo para uma semana de férias e mochila (bocó alforje maleta). Com todas as qualidades dobradas e bem arrumadas puras limpas esmeradas organizadas legais.

            - Eu nem vou dormir antes das vinte e duas horas, frequentemente. Eu começo e termino o café da manhã das 7 horas às 7 e 30 minutos, geralmente.

            Sempre que podia, Lilás olhava o céu e curtia. E saiu a caminhar, depois andar e andar... Estas horas ontem mesmo já estava em Aripuanã e o que estava fazendo, em que estava pensando, o que havia para decidir?

            - Um dia gostaria de ir à cidade de Axixá do Tocantins ou Candói ou Garruchos. Meu pai já morou em Acopiara. Minha mãe já estudou faculdade em Juína. Hoje eles moram muito bem em Quixelô município que por seu regalo é banhado pelo rio caudaloso transparente fluente Itacaiúnas.

            Numa sexta-feira dia 18 de junho de 2010 Lilás subiu a serra da Mantiqueira - a serra que chora. A menina ficou sabendo que no alto da montanha das Agulhas Negras, ali mesmo parque nacional do Itatiaia - pedra pontuda -, lá mesmo endereço, pousam e até pousaram, assim mesmo, discos voadores e mais aeronaves extraterrestres vindos se sabe lá de onde no universo cosmos infinito espaço sideral.

- Será que é por acá que entram os alienígenas etês no nosso planeta? - pensou alto e se perguntou a menina garota guriazinha, enquanto subia o monte palmilhava palmeava caminhava a pé escalaminhava.

Sentiu tanta curiosidade tanta leveza transe asas nas plantas dos pés tanta comichão nas palmas das mãos tanta fantasia na cabeça ideias revolucionárias irresolvidas, que decidiu ir até lá subir por aí para ver qual que era e em pessoa.

            - Hã-ram!... Vamos apreciar estas flores de copaibeira... Vamos admirar esses voos agradáveis bonitos leves de rabo-de-espinho...

            Saiu pé por pé de casa logo pela manhã e contente. O que fez o sol? Determinada cantando um hino uma canção somente pelo estribilho ou o refrão ou o verso mais decorado decorativo. Parecia que o tempo (o majestoso) queria chover e trovejava relampeava mandado-de-deus lá para os lados do sul preso à localidade zona região dos corajosos guerreiros combativos solícitos txicão. Pegou o ônibus de Camocim em a rua Aluísio Azevedo a praça piloto Euclydes Pinto Martins até certa altura do campeonato e foi indo mais e depois desembarcou mochila nas costas farnel merenda matula fardel. O casario que desfilava as construções ela olhava as paredes das casas as janelas paredes quase vazias sozinhas de uma cor onde as janelas tinham conseguiam um desenho ou figura ou aquarela fisicamente emparedadas na geometria de um quadro caixilho quadrado baguete esquadria. A manhã já ia muito subida, um coleirinha veio de onde e dizer, te-tchim! te-tchim!... As nuvens brancas policiando o céu azul as nuvens brancas amontoando tufos de algodão aqui e ali. Tudo levava a crer que era todo ano como sempre colheita de tecidos algodão e linho e seda e lã.

            - Eu escolhi andar de viagem viajante viajar e praia de Taíba, por exemplo.

A Lilás cruzou oceanos, planaltos, planícies, continentes, distrito de Americana do Norte em Tabaporã-MT, rios e rio Ribeirão Grande e rio Tetequera e rio Pedrinhas, seus olhos sorriram hipnotizados, mares, dunas, praias e montanhas, aldeia purupuru nação galibi-do-uaçá território canoê... Uma elevação razoável, uma árvore razoável, a tarde expandindo expansiva multicolorida de olhar significativo. Os dias corriam muito, os domingos eram mais céleres.

- Isso sempre melhora meu dia.

Sendo assim continuando assim, atravessou uma pequena grande floresta de verde escuro, pitombeiras, japiins cantando, cupuaçus, muricis, gogoias, taperebás, piris, pupunhas, maguaris em alerta alertando, bálsamos-de-tolu, olhos-do-diabo... observou calculou estranhou e nem compreendeu. Parecia que nem ia mais chover para tais e quais lados regiões. Faltava muito e uns diziam, rindo à socapa “é logo ali, cruzando a ponte sobre o rio Teles Pires ou São Manoel, ah ah ah!...” E seguia embora longas estradas de Paranatinga e Simplício Mendes e Iguatu e Planalto da Serra e Colniza... De bolsa sacola embornal óculos escuros sem maquiagem sem celular chegou lá na montanha ou pedra da Tartaruga à tardinha no inverno chegou atrasada. Lugar meio ambiente duro de frio mesquinho avaro ambicioso sovino muito congelado.

- Isso sempre melhora tal dia.

Ela se deparou encontro com a tranquila camponesa vetusta de nome Apeíba. Esta senhora piraquara tinha cabelos longos esbranquiçados e chapéu grande de palha e vestia se cobria com um cobertor sobretudo de campanha verde-azul xadrez. Estava sentada sobre uma pedra chata em posição de quem pratica ioga e medita. A dama esbelta magra enxuta certinha nem tinha companhia cachorro gata mascote cavalo ruão guardando dependendo esperando por ela. Lilás se aproximou mais ainda e fraseou, perguntou:

- Sei que a pergunta é óbvia e fácil e comum, porém... que seja: Você fala patoá paulistês baianês sul-mato-grossês manganês, etc.?

A garotinha aguardou um pouco e, sem resposta, continuou curiosa e em tom amigável elegante sincera plena justificável:

            - Ei, dona sábia e pajé! É por aqui que se chega ao lugar dos discos voadores, os tais óvnis? Eu gosto de cuidar estrelas. Embora nem saia à noite, frequentemente.

            Apeíba, friorenta e batendo o queixo e pingando pelo nariz, nada lhe respondeu. Se ouvia apenas vindo do fundo da boca da tal senhora um ruído de, tim! tim!... A mulher caipira continuou sentada, repensando, olhar distante, jeito apatetado e olhando qualquer coisa ou lugar lá longe no horizonte na linha traçada com lápis de grafite. Parecia estátua; durinha firme parada parada. A menina insistiu e reclamou, ousou:

            - Dona mulher senhora do campo celestial alto astral, você tá bem? Poderia me dizer se estou no caminho certo, hein?! É possível?

Pausa porque a menina esperou ser ouvida e respondida, por favor! Esperou mais um pouco no relógio digital de pulso... Depois de mais um tanto, e nada. Nada da tal mulher responder qualquer coisa. Só aquele ruído que aparecia lá do interior da garganta laringe faringe, tim! tim!...  Lilás foi outra vez insistir e reclamar, declarar:

- Ei!, aqui é da Terra. Será que chove? É por quê? Venho andando de longe em longe, Santo Antônio do Leste, Primavera do Leste, Cotriguaçu, Inácio Martins... rio Jaguaribe, e caminho muito sinuoso desobediente terra vermelha que gosta de despistar...

Nem adiantou nem atrasou ou antes pelo contrário. A aposentada profeta profetisa sacerdotisa nem se mexeu nem piscou nem sorriu nem tugiu e nem mugiu. Ficou com a boca respondendo no, tim! tim!... E continuou firme na mesma posição como se nada fosse com ela. Faces várias cores policromia rósea. E sempre olhando para aquele horizonte perdido riscado com caneta azul-clara. Será que a camponesa, cabeleira grande compacta, nem tinha o que dizer? Nem tinha o que dizer. Nem tinha o que fazer? Nem tinha o que fazer. Era o pé da cobra? Era o pé da cobra.

- Você está muito tímida. E você nem come o suficiente, praticamente.

Por que dava uma sensação de espaço aberto e silêncio no ambiente devagarzinho meio ambiente? Isso compensa? Bem, então, examinar e reexaminar: árvores satisfeitas, pedras satisfeitas; plantas indolentes, pedras compenetradas.

- Tá um pouco frio friozinho aqui no alto. E também estou cansada fatigada.

Foi nesse instante que surgiu, ou já estava por aí, a mula sem cabeça. Uma boa e esquisita mula sem cabeça. Mula sem cabeça largando labaredas pelo corte no pescoço. A estranha façanha do bicho, ali no potreirinho, atrás sempre de pasto e do de-comer, trocando passos, contando passos, mudando passos, firme nas quatro patas de cascos fazendo o tradicional barulho, pa-ta-co-pá! pa-ta-co-pá!... E que novidade, gente!

- Isto se chama assombração e fantasma e espírito esquisito. Inda mais que é quase noite praticamente noturno escurecendo.

            O mito da mula sem cabeça se encontrava a poucos metros, e pastava... o quê?! Sim, pastava a grama rala e seca do alto da montanha. E mastigava ruminava, nhame! nhame!... os vários sabores apetites de nozes-moscadas-do-brasil e caiuiaçus e tingongos-do-campo e canudos-de-purga e navalhas-de-macaco... vianda comida alimento. Levantava o toco do pescoço já pegando fogo e alçando erguendo lá para o alto do céu frio que vinha escurecendo. Ao mesmo tempo a criatura dava uma choradinha... o quê?! Sim, gania uivava e voltava a pastar. Pastava e batia os dentes mais ainda com o pescoço pegando fogo. A menina chegou próxima e falou para a estranha criatura exótica de gestos esotéricos, naquele instante mesmo:

            - Oi!, figurinha do outro mundo. Vi você pastar, ouvi você rechiar, você já pega fogo pelo corte no pescoço... Será que estou delirando? O que me explica a sua graça? Você já foi mascote de gente? Você viaja sozinha no mais?

            A lenda da mula sem cabeça - e aparentemente presente -, se virou para ela Lilás como se pudesse, embora mesmo ceifada da cabeça, ver a menina falar com a menina perguntar pra guria responder pra garota trocar uma ideia relinchar ulular ornejar... E apenas fez mais isso: engoliu a palha a erva e continuou a lamentar se lamentando pro céu que esse sim já quase anoitecia e esfriava mais. O vento também rondava os quatro cantos do terreno do sítio vindo de um ponto longe profundo do globo terráqueo.

            - Isso sempre melhora um dia.

            Lilás estava entre dois mundos pouco comuns e diferentes. Passeando visitando em cima do muro dos muros de um forte de uma fortaleza uma muralha, como quê. Sorte dela. Muita sorte de quem tem. Nem todos escolhem aventura e aventuras e vão aventurar aventurando. Nem é assim, pensa o quê! Narram a saga conglomerado de façanhas.

            - Isso sempre melhora o dia.

            A guria retornou para a sombra da profeta da empresária da cientista e que continuava na dela, absorta, absorvida, embevecida, enlevada, indiferente, tranquila embora presente. A menina encarou a freguesa a comadre bem nos olhos, bem dentro dos olhos, nas meninas dos olhos - e que eram azuis, tudo azul, talvez devido ao fato de ficar observando o azul do céu, o azul do horizonte, o azul do ar da montanha, o azul das asas das gralhas-azuis -, e lhe perguntou indagando investigando conferindo:

            - Puxa, dona ermitã dona sicrana! E vivendo aqui no alto da montanha gelada, passando frio e distanciamento da cidade das pessoas da gente da sociedade, sem o seu cômodo baldaquino... Me desculpe a urgência da pergunta. É que apareceu uma mula sem cabeça que pasta e muge e larga fogo pelo buraco do pescoço. Me preocupa. Que mastiga come engole o pasto e sempre se lamenta, tá entendendo?! Afinal, que lugar é esse, meu? Que criaturas estranhas, em?! É uma associação, um clube de futsal, um partido político? Tem a ver com curral redil aprisco? Por falar nisso, adoro cordilheiras lapas socairos abrigos grutas aos pés da montanha...

            A menina chegou mesmo a tocar a velhinha no ombro esquerdo. Nem e nada que definitivamente a camponesa estava em outra. A boca dela sonorizava um, tim! tim!... que parecia de gozação de chiste de piada. Vai ver que a dona nem tinha nada a dizer. Paciência. E silêncio é uma virtude nata. E paciência é uma sabedoria nativa.

            - Você está sempre por aqui? Você viaja vez em vez a outras paragens tipo Coronel Domingos Soares, quem sabe Socorro do Piauí? Conhece a mais alta montanha do mundo de Goiás? Já se interessou pelas olimpíadas ou jogos abertos ou torneios da juventude da cidade de São Miguel do Fidalgo, ou Pedro Laurentino, ou Reserva do Iguaçu?

E por falar em paciência, resolveu a menina se sentar também sobre uma pedra nem quente nem fria e meditar, relaxar, olhar para dentro de si, fingir olhar lá longe no horizonte do fio de barbante. Procurou a postura de iogue da flor de lótus haurir sorver o ar puro...

- Deixe comigo!

...aprumou o corpinho, solícita, cruzou as pernas e sentou em cima, descansou as mãos livres sobre os joelhos e olhou... olhou direto, reto, longe no horizonte. Uma grande paisagem já escurecendo obscurecendo. Um panorama bonito e bem acomodado digno da natureza. Um cartão-postal com montanhas serra picos alcantilados penhascos despenhadeiros vales canhadas boqueirões bando de papagaios-da-serra retornando pra casa pro aconchego do morro... De um ponto de vista, prestar atenção e assuntar e reparar bem, a montanha era soberba e rochas afiadas e cascatinhas buliçosas e vegetais baixos rasteiros e pássaros algazarra e bromélias e tarde ofertada oferecida em disputa com o oriente... Agora estrelas animadas sorridentes faceiras olhos cintilantes estimuladas espevitadas...

- Quantas janelas para abrir, meu!

A menina escolheu - ao acaso modicamente economicamente -, quase sem ver quase sem querer, um ratinho que ia passeando lá ao pé de umas rochas, num morro descoberto entre umas pedras com liquens e musgos... Fixou os olhos no bichinho e o seguiu, para cá e para lá, subindo e descendo, se enfiando ou correndo, enfim, todas as suas manobras e estripulias e artes. E o mocó acinzentado ou cor-de-burro-quando-foge parecia desorientado, procurava a refeição, trabalho esse que nem era fácil. Piscava uns olhinhos pretinhos de quem se emocionava e nem tinha lenço para assoar o nariz. E à tardinha o frio o vento gelado lufadas rajadas de vento lhe arrepiavam o pelo a cauda as orelhas todo o pelo do corpo. Era um roedor arrepiado, descascado, estressado, exilado, desgastado... Suas patinhas pisavam descalças o terreno seco e as pedras frias pontiagudas. Uma das patinhas já dolorida, talvez ferida por um espinho. Tinha uma cor de poeira e avermelhada, amarelada, acinzentada, sépia, fugitiva. Os bigodes de poucos e duros fios. Sua fala, crite! crite!... ou sua oração, chipe! chipe!... ou sua reza prece, mio! mio!... eram sempre cheias de recordações. Parecia mesmo perdido no seu mundinho de ratinho camundongo-do-mato. A cor dos olhinhos, olhinhos cheios de vontades descansadas, levavam um azul pobre, talvez um azul negativo, talvez um azul enferrujado, talvez um azul esquecido. O destino era cheio de roedor rato ratazana ou ratinho.

- Quem sabe teríamos um hotel aqui por perto? Eu tinha que prever isso.

            Quando escureceu de vez já passados uns 40 minutos e o céu azul ficou pontilhado de janelas estreladas fogueiras olhinhos de meninos pelancos maus piscando e quase nem se percebia os passeios do rato - via-se somente sua sombra, seu vulto pequeno, seu risco rasgado no solo - veio o gavião-de-anta, enorme e predador, e o levou embora raptou. E a águia harpia transportou o roedor para lá. O falcão-de-peito-vermelho enorme grampeou com as garras fortes o pequeno bichinho e o levou, voou, voaram.

            - Minha tia Bilha mais meu tio Bolero Tarimba, ambos com b e olha só que coincidência!, moram ultimamente em a na Foz do Jordão.

Lilás acompanhou o voo da ave carcará subindo até o alto no topo da montanha, rocha com gorro ou chapéu de pedra lisa, e numa fresta greta o pouso o ninho o esconderijo. Ali o magarefe gavião-real depositou a caça que a fêmea repartiu em duas partes, uma com o filhote que piava, creu! creu!... e outra para ela mesma, crou! crou!...

- Do tupi temos as palavras tatu Ibiúna araponga Iguaí sarapó Tapiraí... Do árabe temos os nomes oxalá alfaiate algodão... Do africano temos os termos vatapá acarajé maxixe marimbondo berimbau...

Somente a partir daí e desse episódio, então, que a menina se desconcentrou desparafusou relaxou. A noite avançava na escuridão e a hora ficou ao deus dará à deriva à matroca. Era noite adiantada nas horas, tique-taque!... Céu noturno grande largo vasto como um shopping uma loja um centro de compras com possíveis objetos de todo tipo corte e costura agulhas dedais fios carretéis tesouras... de luz própria iluminados naturalmente... A menina, assim, acordou do transe e se viu novamente no ambiente das cavernas na montanha e suspeitou e possibilitou:

- Então outras palavras cidades localidades municipalidades referências com p de paciência, Pancas, Pirapozinho, Pedrão, Pinhão, Piaçabuçu...

            Se erguendo de onde estava, onde estava?, a menina Lilás procurou saber da pensadora secretária madame ermitã. Ela andava aí e aqui e ali procurando grimpas secas ou ramos de pinheiro araucária, palhas, gravetos, sacaís ou sacangas, cavacos e paus para a fogueira o fogo de chão. A guriazinha colocou argumentou, um pouco passada frustrada, embora conformada:

            - Sabe! É chato ficar aqui tentando conversar com a filósofa com a beltrana com a profe e ela nem dar a mínima. É, tô passada contigo, professora. Tudo bem se tivesse feito uma desordem qualquer, mas isso nem aconteceu. Tá ouvindo, dona tapuia? Talvez nem goste de bate-papo, ou de visitas, ou visitas de estranhos. É isso?

            A cabocla índia nem deu ouvidos. A boca apenas respirava, tim! tim!... A senhora de idade nem tinha o que dizer? Fazia um montinho com a palha, os gravetos, grimpas, fios secos de barba-de-bode e folhas secas de orelha-de-burro e lasquinhas de bicuíbas-brancas... Depois riscou uma pedra com outra até saltar uma faísca. A fumaça e a luz subiram para o alto, para o espaço, para sempre, para longe, para nada. Do brilho da fogueira nasceram e se fizeram nuvens, e estrelas estalantes cintilantes azuladas distantes. Aproveitando o fogo, a dona Apeíba assou dois três punhados de pinhões como refeição manjar do jantar da ceia.

            - Eu mesma morei em Fazenda Rio Grande e lá fiquei um ano. Todos os dias nadava de braçada no rio do Cedro, sendo verão.

            Enquanto aguardavam assar os pinhões, sementes do pinheiro-do-paraná, a senhora pajé xamã comendadora olhava as estrelas claras cadentes - estrelas maternas de fiar franzir cortar costurar alinhavar - as nuvens a lua caminhante por entre as nuvens e mastigava mascava, tim! tim!... para as montanhas para o horizonte. O sítio ficou empolgado de aves noturnas, rasga-mortalha, urutau, coruja-orelhuda... o sítio com rochas e vales e montanhas desaparecendo no escuro. Quando o fogo baixou senhora Apeíba tirou os pinhões assados de dentro do brasedo brasil, brasília, brasilidade, brasilicéreo... Colocou uma porção à disposição da menina. Lilás foi comer, estava quente, ui! ui!... foi descascando devagar, devagarzinho, pegando aos bocadinhos, mastigando com receio, ufe! ufe!... engolindo a custo, soprando, abafando o calor das sementes nutritivas...

            - Sei que é uma pergunta fácil para ser respondida, porém... e que seja: Você fala mineirês, nordestês, rondonês, sergipês? Embora outra: Quantas pessoas são na sua família? Você calcula quando as primícias do pequizeiro?

            Num instante, feita a refeição do repasto noturno, Lilás sentiu o peso fatigado cansado do sono invadindo seu cérebro e o resto do seu corpo corpinho. Veio numa onda impossível de conter. Anestesiou tudo. E sonolenta sono-lenta... parecendo tudo desconectar... e desligar... e desinteressar... Do nada e de dentro da matéria noturna, uma ave anônima piou voou bateu asas batucou no mistério no escuro no anonimato...

            - A cabra bale as aves pipilam a jaguatirica bufa as folhas das árvores frufrutam os adultos ralham os jovens e as adolescentes moços e moças gritam respondem as crianças riem batem palmas e batem o pé ainda os quero-queros estridulam téu-téu! téu-téu!...

Olhando o teto obscuro escuro antigo de Deus com D maiúsculo provê atende fornece prevê antevê. Parece uma cidade no alto e tudo brilha. Brilhante joia diamante como o cais flutuante as paisagens as árvores as flores o casarão os jardins as feras aladas as janelas... cada estrela uma alegoria vibrante. O movimento no salão de festas é enorme e outras estrelas famosas comentadas lembradas, mitos anedotas lendas causos histórias adivinhas... Sem contar e já contando com os parentes amigos vizinhos convidados... E era um cachorro de feições comuns... E era o porto de Pecém em São Gonçalo do Amarante... E eram sobrepostas e girovagantes e cadentes e guias, bonitas atraentes admiráveis... Os santos e as santas - todo caso quem eram e por que faziam? - que fizeram o bem algum dia, foram mal interpretados e foram castigados e foram recompensados reanimados com um belo lugar no céu no celeste firmamento... e brilham e rebrilham e voltam a brilhar... E assim e isso se vê de longe e acontece e podem fazer tudo que quiserem sem que as pessoas saibam ou queiram ou imaginam...

- Minha segunda nossa segunda-feira é como nadar numa piscina semiolímpica, é.

A noite estava e ia adiantada emperiquitada. Do nada do nada apareceu a mula sem cabeça e pegando fogo no pescoço, e que se aproximou do fogo esfregando os cascos; veio também o boto vestindo chapéu meio de banda na cabeça, e aí escondendo o buraco no cocuruto, a viola nos braços já cantando uma canção que lamentava de frio de cansaço de desassossego; pois surgindo de dentro das labaredas num pulo mágico espetacular com rodopio no ar, o filho do vento o saci-pererê e espetacular... E mais outras coisinhas de nada, etc., mais ou menos, assim por diante. É possível, é possível!

- Há 1 pequeno D em o mais alto dos mundos de a colina, em?!

Se viam se ouviam se interpretavam sempre as mesmas árvores as mesmas pedras. Um vento frio bem veemente e natural da veemência. Se aproximava a hora da meia-noite. Escuridão se concretizava se solidificava e descia a ladeira da madrugada. Pouco mais o sol subiria o aclive da manhã com as saracuras-pretas grulhando os patos-corredores crocitando os bicudos-maquinés trilando a família harmoniosa da antacuré regougando e tartamudeando e blaterando... A menina Lilás ficou pensativa e perguntou logo em seguida e de si para si consigo, frequentemente:

            - Ou seja: é isso aí! E muito importante se fazer notar. Uma Augustinópolis já é grande no norte do Estado. Que novidade Paes Landim já é famosa no centro do Estado. E outra Mandirituba já é mais águas termais no sul do Estado.

            Noite toda foi assim de festa noturna camuflada. O fogo da fogueira estalando de nervoso de brilho de calor. A noite fria cada vez mais madrugada fria friagem orvalho sereno. A lua platinada alçada sobre a copa das árvores já subia e ainda se penteava e continuava passeando, embora sem olhar pros lados, e se penteando displicentemente. As estrelas contando até noventa e nove vírgula noventa e nove. Estrelas astros zanzando em boas condições, brincalhonas vitoriosos semáforos semáforas alegres solícitas, havia estrelas planetas de todo tipo formas alados satisfeitas satisfeitos.

            - E que tal Juquitiba por seis meses de férias escolares? Meus tios paternos são policiais da brigada militar na localidade. E recomendam ainda visitar a lagoa do Cauípe e desfrutar a praia de Cumbuco já para conhecer a Caucaia, extremamente.

            Sempre a menina acordou e pesada demorada já com perguntas respostas e explicações. Para as estrelas foi noite alta planejada especial de epifania. E de repente já surgiu no leste o sol, manhã azul profundo, ar parado, montanhas encasacadas de geada, quase albinas, duras de frio, serra feminina da Mantiqueira.

            - Eu sempre gosto de olhar as estrelas da noite. Há muitas entidades por aquelas alturas. E luzes raios brilhos que viajam de espaçonaves naves espaciais embarcações carros elétricos bicicletas...

E assim a senhora Apeíba estava fazia tempo já de pé, madrugara, madrugadora, fazia exercícios matinais, puxava umas pedras, erguia tocos lenhas e pedras, empurrava troncos de árvores e árvores inteiras, pulava pra cá pra lá, já corria em volta e em zigue-zague, ia e voltava, plantava bananeiras, se pendurava como um pêndulo, saltava acrobaticamente fazia micagens batia asas...

            - Brincadeira! Que devoção soleníssima é essa, meu?! Acordar de manhã é sempre bom tempo! - monologava a Lilás, encantada surpresa.

A senhora a dona e seus exercícios leves exercícios matinais pareciam golpes de dança, pulos de capoeira, mas era mesmo dança suave, lenta, leve, simples. Sincronismo sincronizada com a natureza das aves, arirambas, inhapupês, marias-lecre, periquitos-ricos, mandingueiros... dos outros bichos, dos ventos, das pedras, da montanha. Eram movimentos de braços e mãos, de pernas e pés, de sombras e figuras... Imitava ou queria imitar muito agilmente um bicho qualquer ou vários deles ao mesmo tempo... Desenhava no ar com os dedos com as mãos com os braços com as pernas uns riscos traços em linhas retas curvas diagonais aleatórias... A mente concentrada ultraelevada, a mente feliz descartável, os olhos vivos brilhantes, os pensamentos ganhando ideias novas tenras... Um passo para cá, outro para o lado e as mãos em concha, ou fechadas, ou ainda abertas, livres, desenhando estranhos desenhos no ar arabescos rasuras caricaturas enfeites... Uma madame esportista vereadora ativista ecologista empoderada e em vias de extinção primorosíssima excelentíssima generosíssima. Ao mesmo tempo que em volta tudo ia acontecendo como tinha de acontecer...

- Ei, comadre da Mantiqueira! - a Lilás tentava tentou e chama-que-te-chama, e nada. Você chegou aqui de ônibus de trem de paraquedas de carro de mágica?

            Lilás foi se juntar à velhinha da terceira idade. Como já entendia que a monja nem falava, somente ficava no, tim! tim!... (talvez nem tivesse nada a dizer?) a menina nem a cumprimentou nem a saudou nem se desculpou nem pediu licença. Cada qual na sua e por si só na conta e risco, amém! Preparando o corpo e o espírito pro dia pra jornada pra aventura diária. Repontando pensamentos para diante e as horas em frente. Foi um ensinamento, um aprendizado sem parecer que fosse. Apenas pelo exemplo. As duas fazendo aquele tipo de exercício matinal e estômagos vazios. A menina olhando a camponesa e fazendo igual pensando alto para as pedras basálticas vulcânicas:

            - Quem nunca fala nem tem razão nem a última palavra! Você vai pra casa hoje ou amanhã? Já tirou fotos do lugar da região do sítio do sertão? Aposto que já conhece ou ouviu falar de Araguatins e Itaguatins, hein?!

            Depois dos exercícios e habilidades, Apeíba seguiu uma trilha até encontrar um fio de água. Beberam a água azul que descia da montanha gelada Agulhas Negras. A cascata bordada com fios coloridos e os arco-íris ou olhos-de-boi era uma matraca que jamais parava cachoeira de falar fanfarrona gosto e capricho de cada uma de cada qual. As visitantes colecionaram colheram e comeram frutos silvestres, araticuns-do-morro, pitangas, sete-capotes, guabijus, araçás-felpudos, gavirovas, goiabas-do-mato, azedinhas... Colheram e comeram alguns talinhos tenros de ervas boas cheirosas medicinais, laranjeiras-bravas, brilhantinas-dos-telhados, zabumbas-brancas, manjeronas-do-campo... Colheram e comeram algumas folhinhas macias e preventivas profiláticas, bracuís, canjeranas, arumãs, chapéus-de-couro, unhas-de-gato... A menina se declarou, chamou, declamou para a montanha para a cordilheira e todos os peraus:

            - Linda montanha Agulhas Negras e pico Bico do Papagaio e serra da Mantiqueira, teto do mundo, maravilhosa, es-pe-táaaa-cu-lo!... A sua verdade é o silêncio, as pedras, as plantas adaptadas na altura, o topo do alto com o ar puro oxigênio rarefeito... Tão perto do céu azul e o celeste!... Meus olhos nem lhe alcançam em a sua apoteose... E meus parabéns, quer saber!

            A acadêmica profissional conselheira Apeíba rumou para oeste. Oeste é onde o sol cai e dorme. A separação foi inevitável e definitiva normal. A menina foi para leste. Leste é onde o sol nasce e aparece. Lilás nunca mais na história reencontraria a senhora a monja a professora e seu ensinamento elevado. E sem nunca, psiu!... ouvir palavra de sua boca, apenas somente, tim! tim!... Quem sabe a sábia filósofa diretora doutora educadora nem tivesse mesmo o que dizer o que ensinar o que recomendar o que declarar.

            - E eu vou pra lá... Se eu morro numa pequena rua de comércio de nome Lagar num bairro da zona noroeste Chiquena com a bem localizada e imexível cidade de Pentecoste banhada pelo rio Gameleira.

E se dividiram se alternaram com a vontade dos deuses dos capítulos das histórias.

            O sol crescia a olhos vistos. Um sábado bonito no comecinho. Poderia até chover no decorrer do período. A montanha que inicia a fonte o rio o caminho.

 

 

 

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