D está olhando interessado
constantemente e com razões e com certezas e com emoções bem de perto bem
equilibrado bem paternal bem maternal, uma vez. Por quê? Porque pode.
Eu estava olhando admirando e
admirado, me pegou de surpresa. A menina tão galante - sem o que fazer àquela
hora - foi até a linha pista do trem junto aos trilhos, mas ali em cima do
barranco, e comodamente se sentou se prontificou. Escorou os cotovelos nos
joelhos e as mãos segurando o queixo como uma repousada flor de marmelada-bola
e ou mangaba e ou jacarezinho, dia da ioga. Olhava os trilhos de ferro que
cruzavam o seu mundo conhecido diário diurnal diurno diuturno. Falavam em nomes
d cidades para lá e para cá cardinais sem que conhecesse apenas de ouvir falar
bem como ideias ventiladas contos fábulas lendas, Pinhal, Craíbas, Amaral
Ferrador, Ibitiúra de Minas, Santa Maria da Vitória, Ataleia... Todo dia era
dia de comboio, um cara especial e paquiderme, sentido poente/nascente e
vice-versa. No meio da noite ele volta cruzando o clássico escuro escuridão
meia-noite fantasma. O mundo era para cá e para lá. O mundo era no meio do
mundo. O mundo estendia os braços como quem abraçava o mundo inteiro. Centopeia
locomotiva lacraia de 300 metros puxando estranho silogismo mais que um mais de
dois mais que 60 vagões e cabines e caçambas e carroças.
De fato quando eu vendia pipocas na
rua Bendengó em frente na praça 15 de Novembro diante do colégio Raquel de
Queiroz, tudo ali perto arredores. A garota gazeteou aula, sozinha, cabisbaixa,
chutando pedras do caminho, foi rumo dos trilhos do trem. Passando por mim já
parecia que desejava ir embora para lá ou para cá e ou mais além, Quatis,
Araricá, Delmiro Gouveia, Japonvar, Itabela... Ela esperou aguardou ali sozinha
a hora certa do trem maquinário pesado colosso de ferro. O que ela aprendia
todo dia e aprendera desde sempre era que o trem nem parava nunca no distrito
de Nhandeva, e só somente apenas num caso sério emergencial grave
excepcionalmente. Agora já se sabe!
A garota via o trem passar como na
hora precisa marcada. E respirava tranquila. Era sempre e desde sempre como
costumava ser e sempre fora. O monstro passava ia e vinha carregado e voltava
sempre para buscar mais e mais. Altos fôlegos! Todo dia diziam que era minério
de ferro manganês bauxita terra preta bem negra da melhor qualidade
ferruginosa. Vinha de derrubar uma montanha quilômetros a oeste e ia para uma
tal e qual siderúrgica ao sul no leste a oriente ou no sudeste. Um trem tão
acostumado que já sabia o que fazer e em que porto aportar. Deixava no ar um
cheiro persistente de óleo queimado um fedor de suor uma grossa nuvem de poeira
um rastro de som pesado violento duradouro maduro excruciante. Um gigante
adulto forte um animal exótico neutro falante falando grosso atroante. Este
mesmo móvel movente rasteiro ao qual me refiro.
O conjunto ferrugento criou cria na
sua rua de rodagem os espaços públicos sempre inovando entrepostos e
justificando, São Desidério, Colniza, Marco, São João da Ponte... De onde você
é? Entre Rios, Nossa Senhora do Livramento, Coreaú, Ilicínea... Qual a sua
nacionalidade? Camacã, Brasnorte, Acopiara, Poço Fundo... Qual o seu endereço
atual? Quijingue, São José dos Quatro Marcos, Brejo Santo, Carmópolis de
Minas... Carregando mercadorias carregado de incentivos fiscais
procuradores-gerais bichos-da-seda paraquedistas mestres-d’armas pós-datas...
Uma noite eu estava em casa ali no
pátio de casa, quando ouvi passos pela rua Ribeiro Couto. Era a tal moça do
cabelo alçado e encachado. Se encaminhava mais uma vez, lentamente
moderadamente pensativamente nacionalmente, para o lado proximidade dos trilhos
férreos. Parecia prestes a cair uma grossa bomba-d’água em o nosso pequeno
mundo um interior qualquer do país. Daí a meia hora dito e feito, com direito
aos relâmpagos chicotes de fogo riscados na tela do céu... Porém o trem passou
como por dentro de um forte trovão fortes trovoadas sopros de vento látegos azorragues
de chuva e vento temporal. Talvez mais demônio e feroz e bonito e magnífico que
nunca. A moça moderna contemporânea conterrânea, todos os que acaso andavam nas
ruas sob a chuva forte de verão, ouviram o trem passar e presenciaram o céu se
manifestar. Depois de uma hora e meia a moça, sem guarda-chuva sem guarda-sol
sem impermeável sem chapéu sem bata, voltou andando devagar e olhando o chão
pisando com delicadeza os paralelepípedos. Ainda parou no pátio para reparar as
cascatas dos telhados sob a luz artificial dos postes. Quem sabe sentiu um
arrepio imaginando o belo trem enfrentando heroico toda a tempestade toda a
água que D mandava que D destinava que D destilava que D liquefazia...
Beijei Patrícia na boca como merece
linda amadora fofa e dengosa. Que delícia! Então, ela me pediu sorrindo que
fôssemos prestigiar a passagem do trem noturno. A noite estava prometendo e carregada
de estrelas pirilampos vaga-lumes e mais uma brisa suave retocada de mel e
pólen vindo das árvores em geral, poconés, angélicas,
marinheiros-de-folha-larga, jaranas, cipós-de-imbé, frutas-de-guariba, batãs...
Tudo parecia bem como D deixara fazer e acontecer. Ouvimos o barulho da máquina
ainda escondida longe no escuro o brabo motor a óleo e apressamos. Páti parou
no alto do barranco e feliz e giz e imperatriz. O trem a matilha nos viu e
passou assoviando falando alto cantando vantagens contando vagões, sei lá!,
mais de 50 cubículos tipo casinhas de cachorro... Aplaudimos de pé,
cumprimentamos, abanamos dando tchau! tchau! até logo! até a vista!... O demônio
endeusado comboio de aço locomotiva puxando vagões de carga contêineres de rocha
minério era nosso parente mais próximo o nosso convidado mais esperado.
São 8h e eu tenho de ir agora, oi!
Recentemente parceiramente brasileiramente, se planejou arquitetou motivou
empreendeu plantar replantar árvores, angicos-jacarés, lixeirinhas, abobreiros,
tapaciribas-amarelas, lençóis-de-santa-bárbara... e passagens ecológicas túneis
verdes, 1 e 2 e 3 e 4... lado a lado dos trilhos, 15 e 16 e 17 e 18... sons
caprichados das aves diferentes, cavalo-melado, bico-de-latão, dragão,
gaúcho-chocolate, canção-de-anta, araponga-da-amazônia, japacanim, japu-preto,
caldo-de-feijão... para que o trem nem seja visto como vilão nesta história
comprida, 26 e 27 e 28 e 29... nem seja criticado pela poluição pelo barulho a
lengalenga cantilena, 32 e 33 e 34 e 35...
Acho que Páti mima demais o nosso
cachorro. Percebi que o cão é muito adorado e faz o que bem lhe dá na telha na
veneta na ideia e etc. Ele o canídeo nem era bom de matemática e com os números
arábicos inteiros. Preferia música relaxante e qualquer instrumento musical de
cordas. Várias vezes na Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Camargo
Guarnieri nem foi bem de química e física e quântica e matemática comercial e
mercado financeiro e regra de três. Sempre sambava na hora dos testes dos
exames e demais vestibulares. Passava o tempo de conversas com os amigos amigas
na praça José Molina e pra cima pra baixo da alameda Bela Cintra com a rua
Matias Aires e deste modo fazendo moda blusa gola rulê tirando troças motejos
larachas chalaças. Disparado disparado o mais visto o mais vira-lata do pedaço.
Nada levava a crer que teria uma situação fácil um dono ou dona atenciosa um
convite para ser mascote doméstico.
O trem que passa sozinho e quieto nem
é único isolado. E todos que passam ali são muito concentrados cônscios dos seus
deveres. O bicho parece um raio catastrófico. Um animal de fauna material
manufaturada. Um dia 1 manhã durante meia hora, a máquina colossal estacionou
ali e ficou parada parada. Estacionada dormindo esperando acomodada pensativa.
Passado o tempo o momento pegou e foi embora, seguiu o seu rumo já traçado, pisando
seu trilho normal cotidiano. Acho também que o motor se sentiu estranho
estrangeiro migrante ali. Algo ou alguém muito simples, na verdade. Algo mecânico
e viciado e domado e policiado. Tem um compromisso com a sociedade. Vi quando
anotou algo alguma coisa no seu bloquinho ou agenda. Por onde passa e para onde
for diga o destino a que vai, Araioses, Triunfo Potiguar, Três de Maio,
Assis... Nem parece ou aparenta ser o mesmo trem multiuso oficial carreirista
procurador-geral viravolta pau para toda obra arquimilionário de todas as
semanas. Um trem de ferro para a existência...
Será um trem obrigado? Um bicho
obrigado escravo censurado torturado? Nunca parou ali para dizer isso aquilo e
nada. Reclamar de nada. Declarar afirmar de nada. Somente foi num dia que deu
uma bruta freada causa de uma vaca malhada solta que acabou atropelada que
acabou atropelando. Foi sem querer foi obrigado a atropelá-la, coitada!,
coitado! Depois desse episódio difícil começou preocupado a apitar mais forte
andar mais devagar quando passava pela sede do arraial: fosse de dia ou de
noite, carregadíssimo ou vazio, molhado ou seco, apressado ou cômodo. Nem se
sabe bem por que o trem resolvera ir por esse caminho, cruzar ali no meio do
nosso distrito do nosso bairro da nossa comunidade Nhandeva. Nos obrigamos de
certa maneira a conviver com sua passagem diária demoníaca assustando a
primavera as árvores os pássaros, juriti-gemedeira, bico-de-brasa, nhapim,
xexéu, beija-flor-de-papo-branco, ferro-velho, surucuá-de-cauda-preta, fim-fim...
O trabalho do trem e seus horários decididos além-mar autarquia multinacional.
Passando rugindo e depois quase tudo em silêncio silencia. Eu mesmo vejo os
pássaros os viventes, nhampupês, abelhas-borás, rapazinhos-carijós, queixadas,
gatos-mouriscos, galinhas-de-índio, iraras, sapos-bois, chocas-do-planalto,
jacus-de-barriga-castanha... os bois no pasto as pessoas nos seus afazeres o
trem passa e após tudo volta ao normal. Às vezes eu sentia que a fera se
parecia como tal e qual a natureza o ambiente o normal integrada na natureza.
Ele detestava passar aos domingos e feriados sacros e nacionais. Sempre sério
experiente e de poucas ou nenhumas perguntas e respostas monobloco autodidata
anti-inflacionário cosmopolita bicampeão. Pouca opinião e nada de risotas ou
galanices. Uns jargões inevitáveis e fábulas nada lacônico nem breve menos
sucinto mínimo de concisão ainda sem paciência. E de muito fôlego, diga-se de
passagem! Que a melhor atividade a maior aventura é viajar. E um funcionamento
invejável de todo esse supracitado fenômeno organismo estrutura arcabouço
finca-pé.
É claro que nem sempre foi assim,
minha gente! O trem liga regiões cidades nações capacidades ambientes
querências, Chopinzinho, Carmo do Cajuru, Tanque d’Arca, Caldas Brandão... E
independente de nós, o trem passa passava. Nem havia ou há qualquer ligação
entre o trem e a comunidade. Quando 99,99% do minério da ex-montanha passava
passaria diariamente aí sob nossos olhos acostumados. E para o dia a dia do
trem, aquilo nem era problema mas sim trabalho e meta e comprometimento e
hipertensão e geo-história e autobiografia.
Minha namorada tem ganhou um dia um
cão vira-lata encontrado um dia na rua Ciro dos Anjos ou que a encontrou. Ele é
o oposto de um cachorro feroz e temperamental e agitado. O nome que o avô da
minha namorada colocou no bicho se chama Corricho. Como eu frequento a casa ou
comecei a frequentar, ele já me conhece me reconhece e vem me receber no
portão. Às vezes tenho um tempinho e brinco com Corricho ali na área na varanda
no pátio no jardim na sala de espera ambos sentados no sofá da sala de estar. O
cachorro se sente alegre com nossas divertidas partidas de futebol e reitera as
risadas gargalhadas late ri muito mostrando seus dentes preparados caninos
pontiagudos, kkkkkkkk!... É um amigo que fiz na casa mais além do resto da
família de humanos. Já teve uma semana que ele desapareceu saiu de casa e ficou
duas semanas sumido. Voltou como se nada e mais magro e mais humilde mais
dependente. Também mais assustado e atencioso e enigmático. Dizem discutem que
fora visto pra uns lugares tantas províncias deste mundo grande, Biritiba
Mirim, Leme, Salesópolis, Guararema, pico da Pedra em Camboriú, parque de
Taiamã, parque das Esculturas em Brusque... Eu nem acredito, já que a distância
é enorme e desvantajosa para quem nem tem carro próprio. Tenho a certeza que
foi procurar outra coisa que fazer e acho que nem encontrou o que pensava encontrar.
Mas o quê? Será que visitou sua cidade natal? Andou muito de trem? Pediu
carona? Foi pedir arrego em alguma parte desconectada da internete? Acho mesmo
que no verão que vem pensa ir às praias e ilhas de Paraty ou Trancoso em Porto
Seguro.
Faz tempo alguns anos que ainda
ouvimos o trem passar e repassar. O que você está fazendo aí? E nós levantamos
todas as manhãs preparados esperando ouvir passar o trem. Que nos explica como circula
como capitaliza como estuda a humanidade como lubrifica os ossos. É como se o
mundo fosse confirmar. Disposto conselheiro consultor orientador. Por que
mudaríamos daqui? Como cruza e descruza pela ponte do rio Sararé. Por que
trocaríamos isto? Estamos no meio do mundo. Estamos até mais agradáveis que
nunca, pois hoje em dia já temos tevê a cabo e satélites artificiais e 5g e
parabólicas. Bem no meio do mundo dividindo tudo o mar do continente a floresta
do árido o nacional do exterior o meio ambiente do agronegócio. É mesmo assim.
E por que morar em tal lugar, Colônia Leopoldina, Alcantil, Medina, Laranjeiras
do Sul... Sim, sim, se pode! Um pé no acelerador de partículas e outro na
economia poupança parcimônia comedimento temperança moderação sobriedade
controle de gastos.
É um muito demais de locomotiva de
trem passagem sonora puxando os seus associados vagões coletivos alcateia
bagagem tertúlia elenco hoste fauna tropilha cáfila repertório xiloteca
chorrilho milênio... Agora e antes sempre funcional mobilizado e que sabe o
roteiro o teatro. É preciso ver passar ouvir passar de bandeja de travessa de
tabuleiro. Isso o completa como trem como locomotiva como réptil. Algo acontece
por lá por aqui ainda ali. A carga sob controle atrelada aos seus apetrechos em
comboio confraria bando caravana plêiade maquinaria pente grei boiada legião...
A vila Nhandeva trabalha o dia todo, dorme à noite. Negocia o quê, investe o
quê, compra e vende o quê? O que você está fazendo aqui? É uma história comprida
carregada de novelas sem o fim e do jeito dele deles. Quem está estava estará
por trás dos seus atos dos seus feitos dos seus patrimônios líquidos materiais rebocando
acorrentando réstia batalhão cartuchame cordame renque leva miríade cordoalha...
Este animalão de aço toma café da
manhã em o Paço do Lumiar, Arês, Vera Cruz, Ferraz Vasconcelos... Um trem um
mamífero peçonhento e feliz que andava anda deslizando ligeirinho rasteiro e na
superfície sem altos e baixos. Assim mesmo o motorzão se comportando durante o
dia a noite a semana o ano. Há sempre um cenário e um ensaio a cada dia. Bicho
de ferro que existe em todos os rincões e países e hemisférios. Quer dizer,
mais ou menos! Durante meses e meses trabalhando muito de sol a sol. Na subida
na descida espantando o voo dos pássaros, catinga-de-cachorro,
marreca-pé-na-bunda, coró-coró, maria-faceira, inhambu-preto, tovaca-campainha,
araponga-do-horto... E absolutamente rápido e mais rápido bem apressado
resfolegante hedonista.
O próprio cão e sozinho encontrou o
caminho de volta de casa longe após 14 quinze dias mais além de se extraviar se
perder. Pois na verdade o cão Corricho fora à praia pegar um sol e veranear com
seus amigos amigas canzoada cainçalha do bairro da zona da rua Herberto Sales.
Era começo promissor de verão final de ano época de fartura de festas e
carnaval batucada na lata. Ali por perto de serra dos Caiapós em a confluência
das localidades de Alto Taquari e Costa Rica e Santa Rita do Araguaia e
Mineiros, rio Sucuriú, cachoeira Salto Majestoso... Até para se sustentarem em a
praia e por tantos dias, eles amigos(as) pegaram serviço num restaurante à
beira-mar cujas especialidades da casa eram as variedades de peixes e camarões
cozinhados cozidos fritos assados e de todo jeito sempre com acompanhamentos
esquisitos.
Eu já sou proprietário de uma
pequena lancheria ali apegada aos trilhos do trem. Por quê? Porque eu posso.
Combinamos nos encontrar depois do expediente e ela Páti prometeu vir me ver:
com emoção com fé com ternura com disponibilidade com heterorrelação... No
programa do dia do nosso momento juntinhos: ‘ver o trem passar’. É a atração da
vila Nhandeva. Mais que isso apenas todos os pássaros incidentais cantores
exemplares, gaturamos-de-bico-grosso, cavalarias, biguatingas, saudades,
rabos-brancos-de-barriga-fulva, bicudos, beija-flores-tesouras-verdes, baguaris...
Portanto esperei e esperei, dei razão ao relógio, me preocupei, nem dei razão a
nada, perguntei ao celular, perambulei andei e o trem passou sem ela vir me resgatar.
Se atrasou perdeu o horário esqueceu de mim? Nesse mesmo meio tempo começou a
cair uma chuva insistente intermitente. O trem ultrapassou carregado produtivo rentável
lucrativo proveitoso vantajoso útil profícuo frutífero satisfatório
progressista... Ao menos para mim e do meu ponto de vista, passou sem graça
sobre os trilhos molhados e se foi. Sacudindo as plantas no seu vaivém de
viajante, utuapocas, uvas-do-rio-apa, rabos-de-lagarto, diambaranas,
imburanas-de-cheiro... No outro dia perguntei a causa e o que tinha acontecido.
Perguntávamos um a outra se
sairíamos dali de trem ou de carro de ônibus... Se iríamos viajar de trem de
avião de barco de carona... Era melhor e ríamos como dois aventureiros
mochileiros. O trem sempre no seu passo frenético maneiras de bater ferros um
biriba saído do interior do B. E muito macro e animal sem palavras engrolando
grunhindo. Ao mesmo tempo que o centro de interesse da nossa vila. Falando alto
e seus protocolos sua catarse idiossincrasias. Trem de ferro e de coração.
Ainda conhecido no mundo inteiro, Areia de Baraúnas, Passo de Camaragibe,
Arcos, Palotina... Completo de realizações concretizações feitos proezas
sucessos consecuções façanhas consumações. Por quê? Porque ele pode e nem deve
nada a ninguém. Porque é proprietário de ferrovia de 6 mil km e um porto em
Ilhéus para nutrir.
Ali mesmo no restaurante onde o cão
trabalhava já de cara conheceu uma cadela fofa (quiçá descendente de uma e um
cachorro-do-mato-vinagre) de nome Obra-Prima que vinha almoçar todo santo dia.
E cruzaram os mesmos olhares insinuantes significativos. E começaram a sair de
noite pela noite malandramente jovialmente. Lado a lado como convém a um casal
e par. E passear pela praia De Cima (Pinheira). Durante a madrugada olhando o
mar as estrelas os signos do zodíaco. Parando aqui e ali para uma cheirada uma
esfregada uma e duas lambidas. Alguns uivos latidos ganidos e curtidas roladas
dançadas na areia branca. E muito au-au-au!... De mais interagindo e brincando.
Moravam e passavam as noites chuvosas dentro de um carro alugado estacionado
num terreno baldio da isolada rua Viana Moog. Despertando acordando antes das
5h em meio ao bucólico ambiente cantante aromatizante, iraúna-de-bico-branco,
goiabeira-brava, rapazinho-do-sertão, imbé-de-comer, carão, tempera-viola,
olho-de-gato, gente-de-fora-vem, berici, pai-avô, marmelada-de-espinho,
cambada-de-chaves...
O trem já era rico naquela altura e
hoje nem se fala. Por isto e aquilo passa sem deixar rastros sem mais
cumprimentos e salamaleques. Nem fingir que nem quer nada de nós e com a gente
daqui. E é isso que o trem nem tem o que dizer. Ao mesmo tempo que passa aí e
nos é indiferente. Nos ignora sem precisar de nossa ajuda. Nem se interrompe
por nada, incrível! O trem pode passar pela eternidade e além, caso ele mesmo
queira. Se pegarmos o trem podemos reconhecer pelo caminho durante o trajeto,
Aroazes, João Neiva, Campo Erê, Arraias, Canindé de São Francisco... E por quê?
Sim, porque se pode.
E esses lugares e sítios que passa o trem
agora de tardezinha a serra das Araras. São municípios são distritos são
fazendas cidades endereços pontos marcados no mapa pontos de vista, Tomar do
Geru, Colinas do Tocantins, Abelardo Luz, Iúna, Gilbués... Como teria escolhido
este caminho fura-bolo? E estes trilhos e bitolas? Trabalha muito trabalhou
pesado e assunto resolvido expediente encerrado. Sem dúvidas deixando uma coisa
lá por outra de cá. Quando nem mais ou menos as coisas mudam e mudaram pouco
desde então. Mas nós da vila Nhandeva nos sentimos bem com tudo. E o
comportamento é individual.
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