quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Rio Parecido

 

                                                          

 

            É natural honesto bonito realizar um sonho assim. Por que é um sonho, então! Pegamos um barco voar as corredeiras e cascatas e remansos e furos e paranás e igapós, e vamos por este rio caudaloso aos carinhos ao vento. Trocamos beijos na proa.

            Navegávamos felizmente o rio Acre, país dos kaxinawá.

 

            Um barco a vela, como soltos ao vento teus cabelos toucados bonitos. E teus cabelos arranjados adornados lindos. E teu bonito nariz de asa-delta. De tua boca de pitanga amarela. Olhos grandes bonitos grátis. Rosto pele fruta caju amora-do-mato. Flores de chuva-de-ouro e sempre-viva-da-serra na orelha.

            Velejávamos imensamente o rio Apurema, terra dos cariú.

 

            Sol azul vento calmo noroeste árvores verdes céu gorjeio de catataus ‘tsi-tsiiii!...’ assobio de arapongas ‘vri-vri-vri!...’ grito de papagaios-diademas ‘cláu-cláu!...’ flauta de chora-chuvas-pretos ‘fli-flê-flêeee!...’ cicio de saís-beija-flor ‘es-tri-riiii!...’ trilo de saíras-sapucaias ‘fiu-fiu-fiiiiu!...’ e bate rebate bater de asas ‘plá-plá-tê!...’

            O vento toca enfuna enche as velas os toldos do barco como touca adorna teus cabelos bonitos como desloca roda gira um cata-vento ataca-vento. Somente os pássaros sabem de tudo. Teus cabelos lindos eriçados cacheados como um precioso acata-vento.

            Embelezávamos panoramicamente o rio Maués-Açu, habitação dos ticuna.

 

            Asas transparentes de jataí, juruaçu trapeja, enseada caprichosa, zumbidos zunidos ‘ztê-ztê-ztê!...’ que estão uma coisa demais, outras enseadas, toucás floreadas, comandatubas floridas, begônias-de-folha-estreita florescidas, mais baías e enseadas, nhambuanhanga canta ‘rá-tau-tau!...’ E a ordem em que está o ambiente diz fala retine ‘blim-blim-blim!...’ isto mesmo.

            Visitávamos classicamente o rio Miriti, localidade dos marubo.

 

            Ariscas aves pescadoras pipilam chirriam trinam ‘tchi-tchi-uuuuh!...’ berram arrulham alertam trincam ‘bri-têm!, bri-têm!...’ marrecas-cricris biguás tachãs socós-bois-baios colhereiros tero-teros guiratingas tuiuiús e atacam invadem o barco e nós dois. Treinamos beijos no convés.

 

            Árvores rumorejam coisas impossíveis existentes. Casais de passarinhos brincam de pega-pega esconde-esconde anda-corre-voa treme-treme. Aroma cheiro cheio no ar de salsa-do-campo araçá-do-brejo cipó-camarão. Tudo total completo e repleto.

            Singrávamos magnificamente o rio Cabixi, pátria dos krahô.

 

            O mundo - o mundo todo e todo o mundo e todo mundo - se assim sendo. O barco solto tonto passageiro de passagem sobre pororoca ao vento. Trocamos delicadezas táteis beijos encontrados e abraços e lambidas e carícias e risos ‘gar-gar-gaaaar!...’ e resmungos e muxoxos e respostas e amassos e cócegas, consumidos os dois. Depois sim, mais beijos com delícias olhares quentes e ósculos.

            Percorríamos principalmente o rio Paratari, território dos kaxarari.

 

            Pousamos pontuamos uma ilha dos tantos arquipélagos do rio, o sol cai parte desce atrás na cascata dos teus lindos cabelos adornados, olhos esmeralda certa, e teus cabelos melenas crinas mechas bonitos naturais endêmicos orgânicos bem arrumados.

            Dormimos o sono cansado das investidas, abraçados, agarrados, boca com boca aos beijos, sorrisos ao leve da brisa, sobre nós as nuvens, sem uma nuvem, e depois as estrelas duplas ou múltiplas e o arquipélago a constelação.

            Nadávamos olimpicamente o rio Aponiã, área dos machineri.

 

            Ancoramos o barquinho na enseada a prainha limpa várzea mangues-de-água-doce mangues-brancos. Quase se nota. Revoltam voam em ondas revoam bandos de papagaios-do-peito-roxo periquitos-de-encontros-amarelos revolucionam sobrevoam o rio Aporé o rio Grão-Mogol, que estes sim fazem as divisas limites naturais favores entre Cassilândia e Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes e Arujá e Guarulhos e Suzano e Poá e Ferraz Vasconcelos e Bicas e Belmiro Braga e União dos Palmares e Piau... Estalamos beijos ‘plé-pléque!...’ debruçados junto à alheta de boreste.

 

            O rio navega o rio nada o rio mergulha. O rio habita o caminho do rio. O rio junta o rio. E mais rio com rios fluentes fluminenses. O rio funda a cidade à beira-rio. Meia dúzia de quatro ou cinco rios fluem confluem afluentes. Rio que transborda em o rio profundo. Rio que pensa cachoeiras e desperta cascatas e descobre corredeiras.

            Veste conjunto pouca roupa duas peças biquíni, teu pescocinho lindo e saudável, caprichosa, diferente, boca desenhada em coração em arco. Um sorriso que igual concorda. Uns cabelos nos olhos e os cabelos apetitosos lindos fáceis perpendiculares.

            Aportávamos divinamente na coroa do rio Corumbiara, nação dos waiana apalaí.

 

            O rio anda e vai e volta, o rio desce e sobe e acredita. O rio de uma forma ou de outra. Os lambaris podem fechar a boca. Bacuris, muricis, bacuparis e o besouro de capa de couro passeia ‘tripetrepe!...’ na folha verde. Sendo por si só o melhor menor de uma cor metálica. E um verde com pintas pretas e antenas agitadas e motorzinho que azoina ‘ih-zê-zêeee!...’ Falamos dialogamos doçuras abelhas irapuãs ‘txi-txi-txi!...’ mel doce e as palavras vocábulos açúcar cristalino. Despojamos beijos na popa.

 

            Movimento movimenta movimentamos trejeitos rápidos o beija-flor-rajado, descansamos um instante o uirapuru-de-chapéu-azul, se volta transigente para todos os lados a juruva-verde, atende a todos os ruídos e a todas as sombras o uí-pi, estala gorjeia ‘pside!, pside!...’ o bagageiro, limpa o bico nos ramos a solta-asa-do-sul, ensaia passos o tijerila, voa rufla trissa ‘pli-pli-cli!...’ o lenheiro, interroga a alma-de-gato...

            Deleitávamos esportivamente em a praia branca do rio Quatro Cachoeiras, Estado dos jaminawá.

 

            O sol esquenta o café da manhã com a primeira coivara do dia, as árvores arbustos cipós ervas trocam ideias, os pássaros pulam do acolchoado edredom. O dia amanhece mais cedo. O sol reina impera comanda o ritmo do mundo do planeta.

            Acorda noiva nova quase nua, ou inteiramente nua, a penugem que arrepia, envolta em sonhos sonâmbulos e preguiça e ressaca. Os cabelos nas costas. Estica os braços, lindos cabelos soltos, boceja e me olha sem que eu perceba. Sempre já imediatamente me ligo me acordo me mexo me desperto me felicito me espreguiço.

            Cantávamos plenamente o rio Paru, vila dos ianomâmi.

 

            Pela praia, assim, pés lindos e leves e descalços, urucá no tornozelo, esperta e flexível, admira os tracajás os quero-queros os guarás que balançam nos mangues-amarelos, os cabeças-secas as saracuras-lisas as garças-reais e os pés de juquiris-mansos, aprova o sol, cabelos acostumados com o vento doce, aproveita as estrelas que ainda, ouve escuta os gorjeios ‘ti-ti-tiiii-éeee!...’ os zumbidos ‘zi-zêeee-ziiii!...’ mira admira o sol, cabelos pintados à manhã, alma serena, respira inspira árvores verdes amarelas vermelhas azuis, espera esperança o calor, manhã transparente e tudo mais, aguarda guarda o dia. Degustamos beijos em o cesto da gávea.

            Olhávamos oniricamente o rio Nhamundá, reserva dos nhandeva.

 

            O vento toca sopra como sempre os teus cabelos suaves, os teus cabelos bonitos, e então olha para trás, me aguarda - e sem que eu pressinta, pois estou dormindo como ninguém -, e teus cabelos pegam fogo do dia amarelo, cabelos orquídea amarela.

            Continua pisa anda na praia do rio, o sol no início, estrelas saem em curva acentuada. Deseja que o dia irradie dardeje brilhe e que eu me apegue me levante. Teus pés passeiam pegadas na areia branca e macia e morna e branquíssima e fofa. Umas flores amarelas de azedinha-do-campo brincos-de-princesa. Cabelos compridos bonitos camuflam os seios simples lindos harmoniosos aromáticos luminosos aconchegantes.

            Inaugurávamos absolutamente a cachoeira da Belinha no rio Piumhi, departamento dos embiá.

 

            Se acaricia se toca nos seios dourados e quase cai e mais arrepia e na manhã de toda matinada. Um casaca-de-couro fala canta gargalha ‘kjá-kjá-kjá!...’ Um bando de periquitos-testinhas conversa dialoga gargalha ‘ahahah!...’ Um pé de caixeta fru-frua balança gargalha ‘hi-hi-hiiii!...’ Um curutié quica saltita gargalha ‘ri-ri-riiii!...’ Um pé de sucupira-branca tru-trua ensaia gargalha ‘djá-djá-djá!...’ Uma patativa ronca assobia gargalha ‘quá-quá-quá!...’ Um enxame de guiruçus zoa ressoa gargalha ‘zu-zu-zuuuum!...’ Um calango-verde tilinta gralha gargalha ‘blá-blá-blá!...’

            Se deixa puxa repuxa assim mesmo distrai retrai as pontas dos próprios cabelos lindos e bonitos escorridos até a cintura. Pés na água fria e borbulhante ‘ditáaaa!, ditáaaa!...’ do córrego do corgo rindo. Lajedo liso e as mais pedras polidas roladas. Descontamos ‘es-pleque!...’ beijos na balaustrada.

            Partíamos diariamente do rio Jamanxim, patrimônio dos kaingangue.

           

            Começamos o riso ‘dchá-dcháaaa!...’ ela ri ‘ih-ri-riiii!...’ como crianças na brincadeira palhaçada divertidos. Cidades ribeirinhas ou até conurbadas ou endereçadas e Edeia, Coronel Pacheco, Edealina, Santana do Mundaú, Indiara, São Sebastião do Caí, Porteirão, Acreúna, Pedro Teixeira, Turvelândia... O salto das Bananeiras em o rio Ivaí e o parque da Lajinha no rio Jiboia. Olhamos indicamos juntos para o mesmo lado universo anverso anteverso e etc. Precisamos beijos no peitoril coluneta ornamental.

 

            Sempre, e se toca os cabelos caracolados, a boca, os braços, os seios, a barriga, as coxas, o refolho, o triângulo de três lados iguais equilátero. Barriga baixa reta trincada, e côncava dos lados. E seus cabelos mais leves bonitos mais o perfume cor de uma flor amarela de bromélia de orquídea. A jaçanã berra de lá, ri de si para si ‘tê-tê-têeee!...’ O jacamaraçu chia de lá, ri de si para si ‘tri-tri-tri!...’ O tururu assobia de lá, ri de si para si ‘dom-sê!, dom-sê!...’ A catirumbava pipia de lá, ri de si para si ‘ih-ró-róooo!...’ O piui-preto alardeia de lá, ri de si para si ‘mbó-mbóooo!...’ O chibante fiu-fiua de lá, ri de si para si ‘ka-lá!, ka-láaaa!...’

            Copiávamos magicamente o rio Caripetuba, comarca dos xavante.

 

            A noiva nova me aguarda deitada na praia branca deserta anônima, se apoia no lajedo, se acomoda na esteira tupé, se pendura no barranco afofado de capim-marmelada, mão que segura o queixo bonito, cabelos para trás, olhos no nascente, em sombra de um tingui-capeta, seus cabelos espertos lindos magnéticos, e de frente pro vento a corrente do sul e que sempre vem e sobe o rio acompanha a jusante a montante.

            Púnhamos espertamente o rio Pitinga, parque dos caripuna.

 

            Vegetais vizinhos de árvores, jaribaras junto de plantas, caputunas-pretas, guaianãs, olhos-de-boi, cutiúbas, muirajubas, jerivás ainda mais verdes que as mandapuçás, turubis, cumaís, leques de palmeiras buritis. Árvores que visitam aves, cateretê escolhe tucanuçu, passuaré estreita com saí-verde, indaiá-guaçu estima com macuco, aricuriroba bica com maitaca-curica, marajá-do-igapó cumprimenta com bem-te-vi-da-copa, jequitibá-rei ataca risonho ‘eieieieih!...’ com tocava-estriada.

            Telefonávamos telepaticamente do rio Crepori, aldeia dos Cariri-xocó.

 

            O sol que sabe sobe às sete horas já esquenta a cerração, e as nuvens altas afinam, e matraqueiam maracanãs, guincha o gavião-peneira, rebate o pica-pau-barrado, assobia o tipio ‘tiroli-tiroliiii!...’ brinca a caçula, finge o surucuá-de-coleira, ri a rolinha-caldo-de-feijão ‘aiá-aiá-iaá!...’ palpita o cardeal-amarelo, imita o sabiá-barranco... e deixa pintar pintura pinta tudo de azul-azul ou azul-verde ou azul-ouro e do alto a baixo de baixo a cima e pra cá pra lá e do topo à base ou vice-versa; por que eu já estou já tenho já sou já voo de viagem?

            Curtíamos expedicionariamente o rio Arapiuns, comunidade dos uassu.

 

            A biju ainda aguarda por mim, segura o joelho com as mãos, acaricia óleo de babaçu no corpo todo, os cabelos penteados à manhã, seios futuro, seus cabelos apetitosos cheirosos, e seus cabelos perfumados bonitos, os modos os gestos os jeitos os beicinhos trejeitos estudados lindos, seus cabelos em ondas de sol solar solares.

            Uma vez por minuto e pega seu punhado de cabelos lindos e os joga para trás. Um penteado tipo coque estilo trunfa. Olha ao redor e espreita espia por mim. Cabelos de ouro dourados, cabelos brasa acesa, cabelos de asa de beija-flor-brilho-de-fogo besourinho-de-bico-vermelho, e seus cabelos lindos pintados de sol raios amarelos, cabelos cor de bronze aceso natural.

            Pedalávamos extraordinariamente o rio Curuá, praça dos uru-eu-uau-uau.

 

            O vento sempre assim arrepia a penugem, os seios, a pele do braço, o sumidouro do umbigo, e seus cabelos mexidos e os jundiás debatem na margem, os sarapós em nado livre, as pirapetingas de queixo caído, os saguirus de boca aberta, as aruanãs que aprendem a camuflar, os icangas brincam de corre-corre, os pirapeuaua degustam açaí no café da manhã, as mandiaçus contam pedras na beira, as arraias varrem o chão atolado entulhado atulhado de folhas secas e o barco no remanso (com epígrafe, ‘mania de velejar’) sonha balança embalança dorme desperta à brisa ao som ambiente.

            Ouvíamos infinitamente o igarapé Caipuru, jurisdição dos tsunhum-djapá.

 

            Eu voo solto alto uma alma em espaço contínuo e eu sei, eu sou eu estou eu tenho eu hei, eu sinto! Eu aqui agora hoje presente e imagino imaginoso imaginativo imaginável imagem miragem!

 

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