É
natural honesto bonito realizar um sonho assim. Por que é um sonho, então! Pegamos
um barco voar as corredeiras e cascatas e remansos e furos e paranás e igapós,
e vamos por este rio caudaloso aos carinhos ao vento. Trocamos beijos na proa.
Navegávamos
felizmente o rio Acre, país dos kaxinawá.
Um
barco a vela, como soltos ao vento teus cabelos toucados bonitos. E teus
cabelos arranjados adornados lindos. E teu bonito nariz de asa-delta. De tua
boca de pitanga amarela. Olhos grandes bonitos grátis. Rosto pele fruta caju
amora-do-mato. Flores de chuva-de-ouro e sempre-viva-da-serra na orelha.
Velejávamos
imensamente o rio Apurema, terra dos cariú.
Sol
azul vento calmo noroeste árvores verdes céu gorjeio de catataus
‘tsi-tsiiii!...’ assobio de arapongas ‘vri-vri-vri!...’ grito de papagaios-diademas
‘cláu-cláu!...’ flauta de chora-chuvas-pretos ‘fli-flê-flêeee!...’ cicio de saís-beija-flor
‘es-tri-riiii!...’ trilo de saíras-sapucaias ‘fiu-fiu-fiiiiu!...’ e bate rebate
bater de asas ‘plá-plá-tê!...’
O
vento toca enfuna enche as velas os toldos do barco como touca adorna teus
cabelos bonitos como desloca roda gira um cata-vento ataca-vento. Somente os
pássaros sabem de tudo. Teus cabelos lindos eriçados cacheados como um precioso
acata-vento.
Embelezávamos
panoramicamente o rio Maués-Açu, habitação dos ticuna.
Asas
transparentes de jataí, juruaçu trapeja, enseada caprichosa, zumbidos zunidos
‘ztê-ztê-ztê!...’ que estão uma coisa demais, outras enseadas, toucás floreadas,
comandatubas floridas, begônias-de-folha-estreita florescidas, mais baías e enseadas,
nhambuanhanga canta ‘rá-tau-tau!...’ E a ordem em que está o ambiente diz fala
retine ‘blim-blim-blim!...’ isto mesmo.
Visitávamos
classicamente o rio Miriti, localidade dos marubo.
Ariscas
aves pescadoras pipilam chirriam trinam ‘tchi-tchi-uuuuh!...’ berram arrulham
alertam trincam ‘bri-têm!, bri-têm!...’ marrecas-cricris biguás tachãs
socós-bois-baios colhereiros tero-teros guiratingas tuiuiús e atacam invadem o
barco e nós dois. Treinamos beijos no convés.
Árvores
rumorejam coisas impossíveis existentes. Casais de passarinhos brincam de
pega-pega esconde-esconde anda-corre-voa treme-treme. Aroma cheiro cheio no ar
de salsa-do-campo araçá-do-brejo cipó-camarão. Tudo total completo e repleto.
Singrávamos
magnificamente o rio Cabixi, pátria dos krahô.
O
mundo - o mundo todo e todo o mundo e todo mundo - se assim sendo. O barco
solto tonto passageiro de passagem sobre pororoca ao vento. Trocamos delicadezas
táteis beijos encontrados e abraços e lambidas e carícias e risos
‘gar-gar-gaaaar!...’ e resmungos e muxoxos e respostas e amassos e cócegas,
consumidos os dois. Depois sim, mais beijos com delícias olhares quentes e
ósculos.
Percorríamos
principalmente o rio Paratari, território dos kaxarari.
Pousamos
pontuamos uma ilha dos tantos arquipélagos do rio, o sol cai parte desce atrás
na cascata dos teus lindos cabelos adornados, olhos esmeralda certa, e teus
cabelos melenas crinas mechas bonitos naturais endêmicos orgânicos bem
arrumados.
Dormimos
o sono cansado das investidas, abraçados, agarrados, boca com boca aos beijos,
sorrisos ao leve da brisa, sobre nós as nuvens, sem uma nuvem, e depois as
estrelas duplas ou múltiplas e o arquipélago a constelação.
Nadávamos
olimpicamente o rio Aponiã, área dos machineri.
Ancoramos
o barquinho na enseada a prainha limpa várzea mangues-de-água-doce
mangues-brancos. Quase se nota. Revoltam voam em ondas revoam bandos de
papagaios-do-peito-roxo periquitos-de-encontros-amarelos revolucionam sobrevoam
o rio Aporé o rio Grão-Mogol, que estes sim fazem as divisas limites naturais favores
entre Cassilândia e Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes e Arujá e Guarulhos e
Suzano e Poá e Ferraz Vasconcelos e Bicas e Belmiro Braga e União dos Palmares
e Piau... Estalamos beijos ‘plé-pléque!...’ debruçados junto à alheta de
boreste.
O
rio navega o rio nada o rio mergulha. O rio habita o caminho do rio. O rio
junta o rio. E mais rio com rios fluentes fluminenses. O rio funda a cidade à
beira-rio. Meia dúzia de quatro ou cinco rios fluem confluem afluentes. Rio que
transborda em o rio profundo. Rio que pensa cachoeiras e desperta cascatas e descobre
corredeiras.
Veste
conjunto pouca roupa duas peças biquíni, teu pescocinho lindo e saudável,
caprichosa, diferente, boca desenhada em coração em arco. Um sorriso que igual
concorda. Uns cabelos nos olhos e os cabelos apetitosos lindos fáceis
perpendiculares.
Aportávamos
divinamente na coroa do rio Corumbiara, nação dos waiana apalaí.
O
rio anda e vai e volta, o rio desce e sobe e acredita. O rio de uma forma ou de
outra. Os lambaris podem fechar a boca. Bacuris, muricis, bacuparis e o besouro
de capa de couro passeia ‘tripetrepe!...’ na folha verde. Sendo por si só o melhor
menor de uma cor metálica. E um verde com pintas pretas e antenas agitadas e
motorzinho que azoina ‘ih-zê-zêeee!...’ Falamos dialogamos doçuras abelhas
irapuãs ‘txi-txi-txi!...’ mel doce e as palavras vocábulos açúcar cristalino.
Despojamos beijos na popa.
Movimento
movimenta movimentamos trejeitos rápidos o beija-flor-rajado, descansamos um
instante o uirapuru-de-chapéu-azul, se volta transigente para todos os lados a
juruva-verde, atende a todos os ruídos e a todas as sombras o uí-pi, estala
gorjeia ‘pside!, pside!...’ o bagageiro, limpa o bico nos ramos a solta-asa-do-sul,
ensaia passos o tijerila, voa rufla trissa ‘pli-pli-cli!...’ o lenheiro,
interroga a alma-de-gato...
Deleitávamos
esportivamente em a praia branca do rio Quatro Cachoeiras, Estado dos jaminawá.
O
sol esquenta o café da manhã com a primeira coivara do dia, as árvores arbustos
cipós ervas trocam ideias, os pássaros pulam do acolchoado edredom. O dia
amanhece mais cedo. O sol reina impera comanda o ritmo do mundo do planeta.
Acorda
noiva nova quase nua, ou inteiramente nua, a penugem que arrepia, envolta em
sonhos sonâmbulos e preguiça e ressaca. Os cabelos nas costas. Estica os braços,
lindos cabelos soltos, boceja e me olha sem que eu perceba. Sempre já imediatamente
me ligo me acordo me mexo me desperto me felicito me espreguiço.
Cantávamos
plenamente o rio Paru, vila dos ianomâmi.
Pela
praia, assim, pés lindos e leves e descalços, urucá no tornozelo, esperta e
flexível, admira os tracajás os quero-queros os guarás que balançam nos
mangues-amarelos, os cabeças-secas as saracuras-lisas as garças-reais e os pés
de juquiris-mansos, aprova o sol, cabelos acostumados com o vento doce,
aproveita as estrelas que ainda, ouve escuta os gorjeios ‘ti-ti-tiiii-éeee!...’
os zumbidos ‘zi-zêeee-ziiii!...’ mira admira o sol, cabelos pintados à manhã,
alma serena, respira inspira árvores verdes amarelas vermelhas azuis, espera
esperança o calor, manhã transparente e tudo mais, aguarda guarda o dia.
Degustamos beijos em o cesto da gávea.
Olhávamos
oniricamente o rio Nhamundá, reserva dos nhandeva.
O
vento toca sopra como sempre os teus cabelos suaves, os teus cabelos bonitos, e
então olha para trás, me aguarda - e sem que eu pressinta, pois estou dormindo
como ninguém -, e teus cabelos pegam fogo do dia amarelo, cabelos orquídea
amarela.
Continua
pisa anda na praia do rio, o sol no início, estrelas saem em curva acentuada. Deseja
que o dia irradie dardeje brilhe e que eu me apegue me levante. Teus pés passeiam
pegadas na areia branca e macia e morna e branquíssima e fofa. Umas flores
amarelas de azedinha-do-campo brincos-de-princesa. Cabelos compridos bonitos
camuflam os seios simples lindos harmoniosos aromáticos luminosos aconchegantes.
Inaugurávamos
absolutamente a cachoeira da Belinha no rio Piumhi, departamento dos embiá.
Se
acaricia se toca nos seios dourados e quase cai e mais arrepia e na manhã de
toda matinada. Um casaca-de-couro fala canta gargalha ‘kjá-kjá-kjá!...’ Um
bando de periquitos-testinhas conversa dialoga gargalha ‘ahahah!...’ Um pé de
caixeta fru-frua balança gargalha ‘hi-hi-hiiii!...’ Um curutié quica saltita
gargalha ‘ri-ri-riiii!...’ Um pé de sucupira-branca tru-trua ensaia gargalha
‘djá-djá-djá!...’ Uma patativa ronca assobia gargalha ‘quá-quá-quá!...’ Um
enxame de guiruçus zoa ressoa gargalha ‘zu-zu-zuuuum!...’ Um calango-verde
tilinta gralha gargalha ‘blá-blá-blá!...’
Se
deixa puxa repuxa assim mesmo distrai retrai as pontas dos próprios cabelos
lindos e bonitos escorridos até a cintura. Pés na água fria e borbulhante ‘ditáaaa!,
ditáaaa!...’ do córrego do corgo rindo. Lajedo liso e as mais pedras polidas
roladas. Descontamos ‘es-pleque!...’ beijos na balaustrada.
Partíamos
diariamente do rio Jamanxim, patrimônio dos kaingangue.
Começamos
o riso ‘dchá-dcháaaa!...’ ela ri ‘ih-ri-riiii!...’ como crianças na brincadeira
palhaçada divertidos. Cidades ribeirinhas ou até conurbadas ou endereçadas e
Edeia, Coronel Pacheco, Edealina, Santana do Mundaú, Indiara, São Sebastião do
Caí, Porteirão, Acreúna, Pedro Teixeira, Turvelândia... O salto das Bananeiras
em o rio Ivaí e o parque da Lajinha no rio Jiboia. Olhamos indicamos juntos
para o mesmo lado universo anverso anteverso e etc. Precisamos beijos no
peitoril coluneta ornamental.
Sempre,
e se toca os cabelos caracolados, a boca, os braços, os seios, a barriga, as
coxas, o refolho, o triângulo de três lados iguais equilátero. Barriga baixa
reta trincada, e côncava dos lados. E seus cabelos mais leves bonitos mais o
perfume cor de uma flor amarela de bromélia de orquídea. A jaçanã berra de lá,
ri de si para si ‘tê-tê-têeee!...’ O jacamaraçu chia de lá, ri de si para si
‘tri-tri-tri!...’ O tururu assobia de lá, ri de si para si ‘dom-sê!,
dom-sê!...’ A catirumbava pipia de lá, ri de si para si ‘ih-ró-róooo!...’ O
piui-preto alardeia de lá, ri de si para si ‘mbó-mbóooo!...’ O chibante
fiu-fiua de lá, ri de si para si ‘ka-lá!, ka-láaaa!...’
Copiávamos
magicamente o rio Caripetuba, comarca dos xavante.
A
noiva nova me aguarda deitada na praia branca deserta anônima, se apoia no
lajedo, se acomoda na esteira tupé, se pendura no barranco afofado de capim-marmelada,
mão que segura o queixo bonito, cabelos para trás, olhos no nascente, em sombra
de um tingui-capeta, seus cabelos espertos lindos magnéticos, e de frente pro
vento a corrente do sul e que sempre vem e sobe o rio acompanha a jusante a
montante.
Púnhamos
espertamente o rio Pitinga, parque dos caripuna.
Vegetais
vizinhos de árvores, jaribaras junto de plantas, caputunas-pretas, guaianãs,
olhos-de-boi, cutiúbas, muirajubas, jerivás ainda mais verdes que as
mandapuçás, turubis, cumaís, leques de palmeiras buritis. Árvores que visitam
aves, cateretê escolhe tucanuçu, passuaré estreita com saí-verde, indaiá-guaçu
estima com macuco, aricuriroba bica com maitaca-curica, marajá-do-igapó
cumprimenta com bem-te-vi-da-copa, jequitibá-rei ataca risonho ‘eieieieih!...’
com tocava-estriada.
Telefonávamos
telepaticamente do rio Crepori, aldeia dos Cariri-xocó.
O
sol que sabe sobe às sete horas já esquenta a cerração, e as nuvens altas
afinam, e matraqueiam maracanãs, guincha o gavião-peneira, rebate o
pica-pau-barrado, assobia o tipio ‘tiroli-tiroliiii!...’ brinca a caçula, finge
o surucuá-de-coleira, ri a rolinha-caldo-de-feijão ‘aiá-aiá-iaá!...’ palpita o
cardeal-amarelo, imita o sabiá-barranco... e deixa pintar pintura pinta tudo de
azul-azul ou azul-verde ou azul-ouro e do alto a baixo de baixo a cima e pra cá
pra lá e do topo à base ou vice-versa; por que eu já estou já tenho já sou já
voo de viagem?
Curtíamos
expedicionariamente o rio Arapiuns, comunidade dos uassu.
A
biju ainda aguarda por mim, segura o joelho com as mãos, acaricia óleo de
babaçu no corpo todo, os cabelos penteados à manhã, seios futuro, seus cabelos
apetitosos cheirosos, e seus cabelos perfumados bonitos, os modos os gestos os
jeitos os beicinhos trejeitos estudados lindos, seus cabelos em ondas de sol
solar solares.
Uma
vez por minuto e pega seu punhado de cabelos lindos e os joga para trás. Um
penteado tipo coque estilo trunfa. Olha ao redor e espreita espia por mim.
Cabelos de ouro dourados, cabelos brasa acesa, cabelos de asa de
beija-flor-brilho-de-fogo besourinho-de-bico-vermelho, e seus cabelos lindos
pintados de sol raios amarelos, cabelos cor de bronze aceso natural.
Pedalávamos
extraordinariamente o rio Curuá, praça dos uru-eu-uau-uau.
O
vento sempre assim arrepia a penugem, os seios, a pele do braço, o sumidouro do
umbigo, e seus cabelos mexidos e os jundiás debatem na margem, os sarapós em
nado livre, as pirapetingas de queixo caído, os saguirus de boca aberta, as
aruanãs que aprendem a camuflar, os icangas brincam de corre-corre, os
pirapeuaua degustam açaí no café da manhã, as mandiaçus contam pedras na beira,
as arraias varrem o chão atolado entulhado atulhado de folhas secas e o barco
no remanso (com epígrafe, ‘mania de velejar’) sonha balança embalança dorme
desperta à brisa ao som ambiente.
Ouvíamos
infinitamente o igarapé Caipuru, jurisdição dos tsunhum-djapá.
Eu
voo solto alto uma alma em espaço contínuo e eu sei, eu sou eu estou eu tenho
eu hei, eu sinto! Eu aqui agora hoje presente e imagino imaginoso imaginativo
imaginável imagem miragem!
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