O
que se sabe, mas ainda não se sabe ao certo, Tupã, porém, é mais sábio.
O
deus Sol despertou oito minutos e trinta segundos antes do dia abrir as
cortinas, esticou o olho amarelo lá de longe, como faz todo santo dia, - deus
Sol, aliás, que necessitava casar, sua madureza passava dos cinco milhões de
anos, meia idade -, e fixou seu olho aberto sobre todo o império, examinou bem
mesmo de profundidade a região terráquea, queria mesmo era descobrir uma noiva
para casar, uma noiva inflamável.
Alice
e o namorado - ótimos amigos - chegaram ontem mesmo do nascente, se hospedaram
em férias no hotel de selva alto rio Solimões, a floresta amazônica (imagine),
do mirante do hotel se podia caminhar os olhos azuis sobre o tapete verde, as
estradas navegáveis e líquidas para todos os cantos, uma calma aparente, pipiar
de aves, zumbizar de abelhas, cores cheias de mistérios.
-
Há pessoas que procuram mudar o rio.
E o rio se
juntou ao rio e outros rios, e a montanha se abaixou entre as árvores, e a
estrada coleou e se esticou deixando rasto, e o mato quase tomou conta dos
rios, e os rios se encachoeiraram, labirinto de rios, furos, lagos, paranás,
pororocas, corredeiras, igapós, igarapés.
-
Cuniã, Juami-Japurá, Anavilhanas.
Ia
alta a noite, vinha abrindo a madrugada, o dia tinha chegado, antemanhã, e o
tempo corria. Suindara foi dormir. Uirapuru assoviou a senha do dia. Uma
guapeba-vermelha deu um passo à frente. Quantas espécies, umas espécies com
muitos indivíduos.
Alice
acordou cedo com uma explosão em redor de aves e árvores e macacos e peixes: o
jardim natural. E ela queria ver índios, tribo baenã, gerém, pataxó-hã-hã-hão,
e tipos de passarinhos, tipos de borboletas, tipos de peixes, árvores
engraçadas, mucujá, urupê, acapu, jarina, bacuri, ubim, passear de igara ao
astro-rei, acariciar peixe-boi, tracajá, saimiri, observar
tucanos-de-bico-preto e casais de araras-vermelhas e ouvir o uirapuru. Um mar
de verde onde pingava aqui e ali outras cores, árvores decoradas, ipê-roxo,
guarabu-amarelo. Milhões de flores sem nome, bromélias, orquídeas, e cores se
espalhando sem necessidade aparente, luz rebrilhando nas águas. E Alice foi no
mato catar uma flor ou umas flores, uma plantinha bonita.
A
curiosidade é mais forte que o medo do desconhecido, receio da lei, temor do
drama, devaneio do sonho. Curioso procura tesouro que sabe não existir, panela
de ouro que não foi enterrada, cidade das esmeraldas que mentiram. Com garantia
se pode dizer que Alice era curiosa e estava disposta.
O
namorado, cheio de esperanças desde o nascente, perguntou:
-
Áli!, de que você mais gosta?
Alice
gostava das cores, gostava de verde, gostava de azul, gostava de árvores,
gostava de águas, gostava de araras-vermelhas, gostava de bicho-preguiça.
Alguns ipês decorativos aqui e ali. Árvores desconhecidas, flores parasitas,
passarinhos inéditos, geometrias e aulas de matemática, viagens de voadeira rio
acima e rio abaixo.
-
Somente o destino sabe o que posso saber, por onde devo andar.
Um
certo dia de manhã. Alice tinha certeza absoluta, não tão absoluta, certeza
nenhuma, certeza humana. Toda a certeza deste mundo. Um dia de manhã ela abriu
a janela do hotel, abriu as gavetas, abriu as portas, abriu a porta. Olhou dentro
do armário, olhou debaixo dos objetos típicos da selva e que enfeitavam o
quarto, olhou dentro da rede de dormir, olhou o quarto sem conforto. Um dia de
manhã na cabana em plena selva. Abriu os olhos e viu a selva. Uma
arara-vermelha valia por dez araras-vermelhas.
-
Eu sei e olho papagaios, periquitos, maracanãs, jandaias, apuins e araras. Pois
têm caititus, antas, pacas, cutias, preás e capivaras. Escuto pela noite,
depois da chuvarada, o zumbido de milhões de mosquitos e o urro da onça-preta,
onça-pintada, onça-parda, jaguatirica. Na beira dos rios fabulosas ariranhas
caçam muçuns, e jacarés tomam banho de luz com a boca aberta, pirarucu descansa
no igarapé, milhões de mosquitos trombeta procuram sangue doce.
Todas
as tardes caía uma chuva pesada. Chovia sempre porque Tupã mandava. Como
alimentar todos aqueles rios? As árvores eram imensas, sumaúmas, castanheiras,
jequitibás. Aqui e ali castanheiras gigantescas. Um grande verde por tudo, e
que afastava o mundo. Ali e acolá imensas seringueiras, açaizeiros,
cupuaçuzeiros, carnaubeiras, mungubeiras, e cipós-timbós tramando pelos ramos,
vitórias-régias estendidas na água calma, orquídeas parasitando,
chapéus-de-sapo escondidos no escurinho, barbas-de-velho caindo dos galhos.
-
Todos esses tons de verde e de azul, multiplicados e inimagináveis, parecem
mesmo ter marcado encontro aqui.
Então,
era justo que sempre chegasse o dia. Alice foi na igara da manhã. O índio
Mbarakaja, da tribo botocudo ou xavante, falava um português desligado de
preposições e conjunções, vestia um calção azul ou vermelho, e um corpo fechado
com tinta de jenipapo ou urucum, remava em pé ou ajoelhado contra a corrente,
ia apontando as aves que eventualmente cruzavam o espaço, gavião-pescador,
colhereiro, papagaios-de-cara-roxa, juriti. Suas palavras vinham cheias de
néctar, açúcar ou mel. Como Ceci e Peri. Alice riu, a floresta riu por dentro,
a selva riu o mais puro ar sonoro de onde vazaram gritos, xingos, urros,
guinchos, miados, pios, esturros, ulos, macaco-aranha, macaco-prego,
macaco-barrigudo, macaco-de-cheiro.
-
Que dê boto cor-de-rosa ou cinzento?
O
nome do índio era Mbarakaja, mas podia ser Gato ou Felino. Não era casado,
tinha três filhos, tinha três namoradas, um filho com cada uma. E era mesmo.
Alice disse, ela rindo, falando com seu substrato, juízo quase apagando,
resmungando para ela mesma:
-
Esse índio é bonito e me basta e me dou por satisfeita.
À
tarde, invariavelmente, chovia. Então, Alice aproveitava o namorado que veio
junto desde o sol nascente, ali mesmo na cabana tipo rústica do hotel, e
aprendiam a lidar na rede, o que não poucas vezes paravam para rir, e na boca
da noite entravam ondas de mosquitos, uma guerra perdida, hora em que paravam
os milagres, hora do dia que os milagres zumbiam, zuniam, azucrinavam.
A
boa, ótima, excelente notícia era que no dia seguinte o dia amanhecia
limpíssimo e as cores iam crescendo aos poucos.
Alice
e o índio Mbarakaja passeavam de igara pelo igarapé, Alice bem que podia pensar
alto e estender ali mesmo uma interrogação, um assobio:
-
Como seria o gol na rede com esse índio paiaiá?
Mbarakaja
aparentemente era um daqueles índios que estavam presentes quando Cabral
chegara por aqui, por ali. Olhos bonitos demais para aquele serviço, cabelos
negros, pele de bronze, músculos de herói de Alencar.
-
Margem esquerda olhar árvores medrosas.
-
Índio Mbarakaja! Me leve para tua taba.
Alice
não podia comprar um colar de dentes de onça. Não podia comprar uma pulseira de
ouro. Não podia comprar uma tornozeleira de conchinhas. Não podia comprar uns
brincos de diamantes. O rio cintilava como um peixe dourado.
Chegaram
à aldeia dos jucá, um cantar e dançar de roda, de trenzinho, de bate pés, borés
e inúbias soando, nambis e napis tocando. Os homens se deixaram morder pelas
ferozes e cabeçudas formigas vermelhas gigantes, gemeram de dor, sorriso
enviesado, e depois já entraram em transe, olhos sem brilho, língua para fora,
e das orelhas saiu, em câmera lenta, uma fumacinha branca. Aí, os índios
dopados partiram, foram caçar com todos os sentidos à flor da pele, arco e
flecha, espingarda, tangapema cada um. Já as crianças e as mulheres olharam,
sentiram saudade, não podiam participar.
Todos
da tribo fecharam com rede e pedaços de pau a saída de um igarapé, espremeram
veneno de cipó-timbó, bateram na superfície da água com vontade, fizeram muita
gritaria, muito alarido, muita algazarra, chafurdaram na água com paus e mãos e
gritos, os peixes menores e apavorados queriam voar, e pescaram de tudo e de
todos os tamanhos, arraias, tucunarés, pirarucus, tracajás, peixes-elétricos,
pintados, dourados, tambicus, peixes-bois, botos cinzentos, bagres,
cobras-d’água... E naquela mesma tarde ainda choveu e parecia que o mundo vinha
abaixo.
A
aldeia paiaguá na floresta não tinha tempo, ninguém abria a boca, todos
aparentavam um ano ou dois a mais do que realmente tinham, pouco riam, poucos
riam, poucos amarravam a cara, todos olhavam, todos sabiam o que fazer. Eles
não perguntavam nada para Alice. Mas se perguntassem, perguntariam:
-
Alice!, de que você mais gosta?
-
Eu gosto de peixe na brasa, como fazem vocês. Eu gosto de tomar banho frio,
igualzinho vocês. Eu gosto de tudo um pouco. Eu gostaria de dormir seminua na
rede, mas por causa dos mosquitos...
Havia
mesmo uma região onde as árvores gemiam, resmungavam, tossiam, cantavam,
espiavam e falavam, onde as árvores quase se moviam, as pedras cresciam, a
terra tinha cores desconhecidas, as árvores se organizavam em labirintos, as
plantas que não queriam ver gente caçando por lá, as raízes que faziam de tudo
para confundir e se proteger e se defender. Sítio encantado da reserva onde
ninguém era livre para entrar. Onde mãe-d’água voava ao entardecer e muito bem,
obrigada.
O
abaré morubixaba, cocar de penas altas, penas de gavião, contando porandubas aos
curumins e às cunhantains:
-
Árvores mágicas, vermelha, azul, amarela. Árvores falam língua estranha.
Árvores disfarça espírito índio morto. Árvores sentada, tronco, toco. Árvores
coruja, galho, flor. Ancestral disfarçado, árvore tombada. Jaguatirica casca
árvore.
Alice
se interessava e queria a vida de aldeia. Ali estacionados acocorados em
troncos e cepos os velhos fumavam seus cachimbos, jovens mães raspavam ralavam
mandioca, espremiam o avati, batiam feijão, as crianças brincavam com bichos de
estimação, macacos-pregos, saguis-da-cara-preta, preás, tracajás, cachorros
vira-latas, curumins e cunhantains nadavam e remavam piroga no igarapé.
Família de
ariranhas, ou onças-da-água, viviam nas tocas do barranco do rio. Bando de
araras-azuis-grandes, em casais de mãos dadas, saíam sempre gritando até ali e
já já voltavam com o entardecer, antes da chuva, piando alto. O caraí pajé,
cara de gavião caracará, fumava cachimbo, tragava, tossia, soltava a fumaça
pelos olhos, observava tudo, conversava com a própria sombra.
Alice parou no
pajé, e o pajé que já sabia de tudo, o antes e o depois, o que está e o que
parece que não está, o pajé falou e revelou e não esclareceu:
-
Leite moça. Sol buscar noiva.
Os
dias escorriam cheios de águas, chuvas, rios, prismas, asas e piopios. Uma
arara-azul-grande valia por cinquenta araras-azuis-grandes. Alice suspirou, um
suspiro de cutia.
Chovia
uma duas horas por dia. Chovia todo santo dia. Chovia. Chovia lá fora da oca e
Alice andava pelos quadrados dentro de si mesma. Alice esfregava as mãos,
cabelos apanhados em trunfa, pés descalços, vestindo camisa até os joelhos.
Alice olhava para os pés, para as mãos. Alice sentava na rede, erguia-se,
sentava no banquinho, erguia-se, olhava lá fora a chuva, dava lenha para a
fogueira. Falou tão baixinho consigo mesma que quase ela mesma não ouviu:
-
Depois eu digo.
Alice
achou mesmo que o pajé estava segredando uns códigos e interesses lá dele. Pajé
via longe, por trás das cores do dia, sabia o movimento das nuvens, lia as
reações dos bichos, investigava nas entranhas dos animais caçados, dos peixes
pescados, sabia pela circunvolução dos gaviões-reais no céu, entendia o
sussurro da brisa nas folhas, o piscar das estrelas, o cair das estrelas, pajé
sabia tudo de prevenção e de premonição, conversava com a sombra, discutia com
os mortos, e o pajé ainda resmungava outras palavras figuradas, cuspia no fogo
para explodir a fogueira, tossia todo possuído de estranhos tremores, se
estapeava os braços e as pernas, sacudindo o maracá, maracá que sacudia o pajé,
o sacerdote, o xamã, o caraí, o conselheiro, o profeta, o médico, o feiticeiro,
o adivinho, o mágico, o curandeiro, o exorcista.
-
Tamanduá-Bandeira, Jacaré-Açu, Tatu-Canastra.
Os
caçadores retornaram com as caças nas costas, a tribo festejou como
macacos-aranhas festejam, em roda das fogueiras houve dança e auê!, correu
bebida cauim e carne mal passada, se tocou muito napi, e Alice provou da
bebida, logo se sentiu mal do fígado, foi se deitar de bruços na esteira do
fundo da oca e teve pesadelos durante a noite, e que pesadelos: “Os índios
topam um homem branco de olho azul e o arrastam atado até o centro da ocara, a
tribo dá gritos de macacos bugios-pretos, faz folia e auê!, o homem branco
seguro por uma coleira, alguns guerreiros batem no prisioneiro com bordunas na
intenção de afundar a cabeça do freguês, o branco fica todo vermelho, e
atarracado, não está morto mas num dos seus piores dias, parece já uma capivara
após ataque de onça-vermelha, aí, os índios erguem a capivara e reconhecem que
não é mais capivara e muito menos homem branco de olho azul, mas sim uma linda
mulher branca de olho verde com a fisionomia de Alice, então, na sequência, sem
ensaio prévio algum, os índios kinikinawa se jogam ao chão como lagartos e
adoram Alice como a uma raridade, como se fosse uma mãe-d’água esperada e
narrada na lenda, a lua que faltava no céu noturno...” Justamente na hora que
Alice acordou só com vontade de beber uma água fresca.
O
Sol, o lampião do dia, despertou e logo espiou o corpo arrepiado de Alice. Pois
o Sol tinha lá seus planos inadiáveis de se casar dentro do mês, no próximo mês
já seria longa espera, e assim carente ele foi subindo e escalando e galgando
lentamente o céu, entre nuvens esparsas, preocupado em encontrar sua companheira
ideal, que fosse calma, típica de sonho, de riso fácil e voz aveludada, que não
se metesse nos dias e nas horas do esposo, que sobrevivesse muito bem aos raios
uv. O Sol bronzeava Alice, e o Sol desejou uma noiva assim como Alice para com
ela compartilhar os dias sem noites até o fim dos tempos. Até o tempo em que
parariam os tempos dos milagres.
Alice
mal pôde encarar a luz. Muiraquitã preso ao pescoço por cordão de embira.
Sentia nas pernas a língua quente do astro, que ria de orelha a orelha, desenho
pintado colorido por uma criança. Um dia verdadeiro, aberto e pleno acompanhado
da algazarra de todo tipo de vivente da floresta, que a esta altura saíam para
o trabalho. Todos debaixo desse ouro louro. O astro lambia as coxas de Alice
como se ela fosse um sorvete de caju.
A
aldeia tapirapé feita de palhas na beira do rio Negro. Sempre de frente para o
rio que passa e passou e passará aqui sempre. Alice tomou banho com o rio,
mergulhou, espinafrou, chafurdou junto com curumins e cunhantains e botos-cinzas,
carícias demoradas, boiou e se sentiu mais do que já parecia. E era o caso de
dizer e, adelgaçando os lábios num sorriso molhado, falou:
-
Tudo vai dar certo.
Dia
de calor intenso, foram chegando as nuvens, escureceu, choveu forte na tarde,
clareou na tardinha, entrou a noite, havia estrelas de perder a conta, voou o
urutau, e logo amanheceu, o orvalho esgotou quando o calor excelente já
acordava todas as cigarras metálicas e as araras-vermelhas do planeta verde.
Alice
queria ser útil ali na tribo carijó, pensou como homem, pensou em caçar ou
pescar ou colher, e se convidou. O índio Mbarakaja sairia junto na caçada,
então, e se deixaram picar pelas ferozes e cabeçudas formigas vermelhas
gigantes, e com fumacinha branca fugindo lentamente pelas orelhas, ligaram os
sentidos numa sensibilidade à flor da pele, viram monstros pela frente e mais
árvores conversando com árvores, árvores ensaiando passos.
-
Acará-Açu, Jaraqui-Escama-Grossa, Cuiú-Cuiú.
Caminharam
com cuidado pelos furos e taiaçuapés úmidos e escuros da selva. Muito tipo de
cipó embaraçando as trilhas, samambaia, carana, jupati, tucumã, bacaba.
Pica-pau-do-peito-amarelo, bando de cateto, suspiro de cutia,
macacos-prego-do-peito-amarelo, família de capivara lambendo sal no barro. Era
difícil, plantas mexiam com os braços e troncos, movimentos camuflados aqui e
ali, ruídos abafados ali e acolá, diversos olhos espiando, e berros e risos
escapavam para mais distantes. Alice e o índio Mbarakaja se sabiam vigiados por
mil olhos no escuro, olhos na escuridão, olhos acesos, olhos na sombra, e
suspiros, e ruídos de passinhos invisíveis. Quati, tatu, gambá,
macaco-de-cheiro, caxinguelê, nambu trilou, macuco voou, esconderijo de
mandassarás. E numa altura reconheceram rastros de onça-pintada, e das brabas, pegadas
recentes, então, seguiram a fera, jaguaretê.
Mais uma hora
vazaram num descampado, aí o índio já calculava, sabia que a bichana estava por
perto, assim seguiram controlando a ansiedade, o efeito do veneno das ferozes e
cabeçudas formigas vermelhas gigantes os fazia perceber odores e sons do longe,
e os sons e cheiros mais sutis, ouviam muito bem o resmungar das árvores, o
suspiro do jabuti, os caminhares das taocas. E a onça-pintada estava bem perto,
seu suor trescalava, e a fera também já sabia que os inimigos estavam ali ali
atrás dela, o cheiro dos caçadores trescalava. Os caçadores: um no pé do outro;
a onça-pintada: e sua própria sombra. E a fera sabia demais.
O
pajé cheio de gestos, magro, nervoso, insone, adivinho, olhos marcados de
olheiras, seco e estalante como folha seca. O pajé sentiu o aviso, ouviu o
alerta, viu o sinal, concordou com sua própria sombra. Aí se retirou da aldeia
e ganhou o mato até o retiro num sítio distante, afastado da aldeia, escondido
lá junto da cascata, entre pedras altas e árvores resmungonas e cobertas de
barbas-de-velho. Fumou e bebeu drogas muito pesadas, alucinantes, os seus olhos
mergulharam nas órbitas, e seus olhos caíram para dentro das órbitas, e o
feiticeiro deu uns berros terríveis que fez a floresta silenciar. Virou outro,
virou bicho brabo, incorporou um espírito irrequieto, o pajé já não era mais o
mesmo, outro ser habitava seu corpo, se metamorfoseara em fera pintada. A
floresta espiou assombrada e escutou expectativa, viu aquele corpo que tomara
uma forma diversa, passara por uma transformação difícil. E o feiticeiro acabou
virando mesmo uma onça-pintada e das brabas, humor desigual. Já a bichana saiu
correndo cheia de ódio pela floresta adentro, afora, e toda a natureza, bichos
e plantas e pedras se esquivaram do caminho, a fera era a dona do território, a
onça-pintada era governadora da vida na selva, assustou os pássaros, arrepiou o
vento, empurrou as nuvens de algodão, e a fera deu um urro para tremer os
alicerces de toda a terra e silenciar por um ano a floresta. Era ela, a
onça-pintada e sua sombra de pajé feiticeiro. A onça-pintada, mãe das onças,
uma onça-pintada com rastros de trevo e bem maior que todas as onças.
Os
caçadores ouviram muito bem o terrível urro da fera, a terra tremeu mesmo, as
árvores se resfriaram, as árvores apavoradas enterraram as pernas, esconderam
as mãos, bateram os dentes. As árvores ainda envelheceram, roxas de pavor e
horror. As árvores silenciaram. E a onça-pintada e fantástica aguardava os
caçadores ali a poucos metros, de tocaia no alto de uma pedra musguenta,
espiando do fundo do grotão inacessível. Alice e o índio Mbarakaja se
aproximaram do perigo, caçadores e felino, frente a frente. A fera tinha a
ajuda do curupira? Alice comentou:
-
Olhos amarelos, boca aberta e a língua de fora: o apetite babando.
Mbarakaja
se concentrou, ele também um felino nervoso, foi chegando para mais perto, aí a
onça-pintada saltou do barranco e correu, com mais dois e três pulos se jogou
na água, atravessou a nado o igarapé, os dois caçadores no encalço, e mais lá
para a frente a onça-pintada entrou na caverna, uma abertura que era da altura
de um homem em pé, pararam ali também os caçadores, e o índio pensou, a tarde
chegava e caía nas costas largas e quentes das montanhas, ia chover, e dentro
da gruta dois olhos em brasa espreitavam, atrás desses olhos uns gemidos brabos
vez em vez, roncos, esturros, urros, a braba deu um rugido, rugido de montanha
rouca, e a terra veio abaixo, rolou pedras e capins pelo lado de fora da gruta,
e plantas rebentaram de susto, começou a chover, o índio apoiou um joelho no
chão, esticou o arco no limite, dormiu na pontaria entre as duas brasas lá
dentro da caverna, e soltou a flecha, a fera ferida correu enlouquecida,
procurou fugir pelo rio, o riozinho fazia uma curva pela direita, e a
onça-pintada, antes de mais nada, ainda rugiu, ameaçou, engrolou palavras,
esgaravatou, escarafunchou, olhos estriados de vermelho, olhar de predadora,
olhar de vingadora.
-
Louro-Amarelo, Maparajuba-Vermelha, Louro-Branco.
Noite
já, chuva apagando os rastos, Alice e o índio Mbarakaja retornaram à taba com a
onça-pintada atada com embira num pau-de-arara. Colocaram a bichana, que se
fingia de morta, no interior de um cercado de paus. A fera acordou na madrugada
e não deixou mais ninguém dormir. E quando o astro apareceu e viu o sofrimento
da fantástica onça-pintada derreteu cipós e embiras das grades de paus-ferros e
libertou a fera.
O
Sol despontou de mau humor, irado lá no seu ninho cósmico, pegou seu vulcão de
fúrias e incendiou os campos e matas, provocou o maior sufoco, uma correria,
num instante o capim e a mata vermelharam, e as palhoças arderam lavadas por
línguas de fogo e ondas de fumaça, a tribo bororo só teve ânimo de correr para
o igarapé, todos enfiados e escondidos e recolhidos às igarités. O fogo
crepitou até o último palito, estalando pedras, torrando o resto.
Mas por que o
astro, cabelos louros abundantes e quentes, estava todo daquele jeitão tão
irado? Foi o morubixaba que disse assim:
- Se aceita.
O
pajé se escondeu solitário no sítio onde enterravam os ancestrais, no sopé da
montanha junto à cascata, numa gruta do lado da cascata, um lajedo bonito e
isolado. Precisava encontrar os espíritos e falar aos espíritos e negociar com
os espíritos. Aí, fumou e bebeu e mascou ervas amargas. A montanha, cada hora,
era ela e mais um pouco. Reparou o desenho da harpia no céu, cuidou da fala das
folhas da japecanga ao vento, cuspiu nas pedras explodindo bolas de fogo,
berrou confundido com o estalar da cascata. Montanha tem cor? Montanha tem
fala? Montanha tem riso? O xamã deu um salto e virou harpia, pegou a crocitar e
a voar espiando do alto a floresta, com sede de vingança, o astro bem forte no
zênite, os raios de luz riscando por tudo. Harpia fantástica, a mãe das
harpias, harpia de garras, harpia de uma braça e tanto.
-
Bacural, Caicau, Gavião-Pescador.
Índios
pequeninos, de braços dados, rodavam em roda da roda, enfeitados com penas
diversas nos cabelos e na cintura, desenhos no rosto e nas pernas e nos braços,
pauzinhos enfiados nos lábios, nas orelhas, no nariz. Os índios adoravam fazer
o dia a dia como os pássaros, como os bichos em geral. Uma
arara-vermelha-grande valia por quinhentas araras-vermelhas-grandes.
Alice
fazia muito que andava de biquíni pela aldeia purupuru. Que ela era a mesma.
Falava sozinha, ria sozinha, sentia sozinha. Pensava que não e se conformava.
Olhava em volta e via seu próprio espanto diante daquele verde todo. Umas doze
nuvens voluntárias corriam para oeste.
Na
aldeia mongoió tinha um curumim que voava, alado, passarinho, muito branquinho,
mandioca descascada. Ele flutuava por perto, não ia muito longe, pousava no
barranco do rio, abraçava todo o mundo, albino, engraçado. Gostava de voar ao
luar. De manhã dormia até tarde, voava de tarde, voava na noite com lua cheia.
Um curumim muito branco, como farinha de mandioca, que gostava de comer beiju.
Uma
noite, depois da chuvarada, Alice foi e dormiu cedo. Sabia que queria uma coisa
boa, mas não se lembrava do que era. Quase sonhou levada para importantes
caçadas quando despertou no sobressalto. Olhou em volta sufocada abafada e não
viu realmente nada de estranho. Mas continuou, ou recuperou, aquela sensação de
que algo ou alguém a tocara e a acariciara e a lambera e a queria possuir; o astro
dos reis já despontava no horizonte.
Alice
aceitou a oferta do astro e foi para a praia ali junto ao igarapé, brincou na
companhia das crianças a manhã toda, se deitou na areia, se atolou no barro,
subiu em galho de árvore. A pele do rio como escamas de peixe ou cobra cheio
dos reflexos quebrados. Os passarinhos que chamavam. O rio tocava uma música
que ainda não tinha nome. Bem-te-vis desafiando todos e quaisquer. Alguns
jacarés-de-papo-amarelo, como sempre, com olhos de fora, atrás dos aguapés. Algumas
flores aqui, ali, das quais Alice não sabia os nomes, cores nas árvores, nos
cipós, nas águas. As sombras acompanhando, indo e vindo, parando e desenhando,
quebrando, se alongando, sumindo debaixo dos pés, agarradas dramaticamente nas
folhas das árvores. Alice cerrou os olhos, por pouco não pegou no sono, sentiu
a língua quente do astro no seu corpo dos pés à cabeça, cócegas nos pés nas
coxas na barriga e ela sem se mexer.
-
Kaxinawá, Jaminawa, Katukina.
Naquela
tarde, depois da chuva, houve ainda surpresa e sufoco. Então, sem aviso, uma
onda verdinha de aruás caiu e veio se arrastando sobre a aldeia orelha-de-pau,
uma calamidade, e graúdos, chupando famintos tudo que encontravam. E depois,
após a passagem da praga, só restaram pedras e areia e ossos e paus. A tribo
toda, para se salvar, pulara nas igarités remando lá para o meio do igarapé. E
o pajé, sobrevoando o fim dos tempos nas asas da harpia, olhos amarelos e
duros, sentenciou:
-
Deus Sol brabo. Não mata, castiga.
Por
outra vez, Alice e o amigo índio Mbarakaja se deixaram picar pelas ferozes e
cabeçudas formigas vermelhas gigantes, e com os sentidos à flor da pele,
seguiram para a caçada, queriam porque queriam recapturar a onça-pintada que
fugira misteriosamente, Mbarakaja cantou:
-
Jaguaretê escaldada espreita caçador.
Mbarakaja
teve uma idéia conforme. Era natural que uma onça-pintada em fuga, planejando
vingança, procurasse sempre o isolamento das montanhas, das pedras, das locas.
Alice falou:
- Tomara que a
onça-pintada não tenha ajuda de curupira ou jurupari.
Então, assim,
os dois caçadores seguiram rumo das montanhas. Uma aventura para dias,
perigosíssima, com possíveis tocaias e noites mal dormidas. Nuvens com promessa
de chuva ao entardecer, bojudas e bombadas. E os dois já caminhavam com o
vento, rajadas de vento, tempestade para o período. E mosquitos de todos os
tamanhos e capacidades.
O
pajé fumava, bebia, mascava ervas ali sentado junto à cascata. As coisas ao
redor tomavam fôlegos, suspiros, falas, cheiros, movimentos, murmúrios,
barulhos de água. A montanha tem olhos nos pés? A montanha grita? A montanha
troca de lugar? E de repente o espírito duma harpia de olhos duros tomou conta
do corpo do feiticeiro, piou e piou, crocitou, ciscou, bateu as asas no peito,
experimentou as garras nas pedras, afiou o bico nas pedras, bateu asas e voou.
A mãe das águias circunvoluiu lá para as altas cristas das montanhas.
Acompanhando as correntes quentes. Sem muito esforço. Olhar duro mirando o que
acontecia e se mexia pelo chão.
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Macaco-de-Cheiro, Macaco-da-Noite, Macaco-Prego.
Caçadores
chegaram aos rochedos, lugar de bastantes cavernas, grutas, buracos, luras,
esconderijos, ilhotas, veredas, furos, igarapés, anhangás. E a harpia de olho
amarelo voando alto, desenhando círculos, rodeando, piando e piando. Foi um
tempo. E a seguir pousou. No segundo depois já era a onça-pintada que corria, a
fera que sabia que os caçadores estavam na sua cola, mãe das onças-pintadas,
então, a caça virou a caçadora.
Durante
a noite os urros da onça-pintada chegaram a assustar as estrelas e os planetas.
O índio Mbarakaja ficou de sentinela perto da fogueira. Isso levou dias e dias
e noites. Enxames de mosquitos. Longos dias de caminhadas estafantes pelo meio
da selva, subindo e descendo pedreiras, beirando peraus. O perigo da tocaia.
Curupira assobiando? Caminhavam sem sorte, sem estrela fixa, à toa, sem
bússola, sem gps, sem por quê, sem celular. A onça-pintada manhosa, ardilosa,
astuciosa, matreira os fazia andar em círculos, de gruta em caverna, no jogo do
labirinto, no jogo da teia de aranha. Dois lados de uma mesma moeda se caçavam,
se procuravam, se estudavam, se apostavam no jogo. Ninguém sabia se era caça ou
caçador. Ninguém entendia se estava na perseguição ou sendo seguido. Virou tudo
um labirinto, os rastros se cruzaram e se confundiram e se misturaram e se
perderam. Tinha pé sim de caapora! Era uma trama. Cobra procurando a ponta da
cauda.
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Martinta-Pereira, Mãe-D’água, Cobra-Grande.
Assim,
os caçadores retornaram à aldeia dos beiços-de-pau. E logo no dia seguinte já
começava o dilúvio, toda a floresta ficou debaixo da água, árvores, bichos,
palhoças, e chovia demais, os que souberam escalar as altas castanheiras se
salvaram, comeram castanhas, olharam o horizonte de água ao redor, esperaram a
chuva passar, esperaram a água baixar, viram sem graça passar animais boiando
afogados, troncos nadando, ilhas sem rumo, e parou de chover, mas as águas só
voltaram aos seus cursos normais após vinte semanas de dias e noites.
A tribo
cinta-larga se alimentou dos frutos das castanheiras, e assim que os rios se
comportaram e as chuvas se regularam e a água normalizou, a caçada à
onça-pintada reiniciou. E dessa feita todos os guerreiros da tribo foram de uma
vez atrás da fera. Picados pelas ferozes e cabeçudas formigas vermelhas
gigantes, olhos mortiços, cabelos arrepiados, fumacinha em câmera lenta das
orelhas, sensibilidades à flor da pele, medo de nada.
O
pajé se retirou ao sítio em conversas íntimas com os espíritos anciãos.
Conversou com quem tinha de conversar: sua própria sombra. E quando o deus dos
povos estacionou no zênite, muitas harpias tipo gavião-real, gavião-de-penacho,
uiruuetê, uraçu, cutucurim, revolutearam no céu. Logo logo baixaram e viraram
onças-pintadas ou onças-negras ou onças-pardas ou onças-vermelhas, e brabas, e
foi mesmo o início de uma guerra. Onças de um lado; do outro caçadores pintados
e envenenados por ferozes e cabeçudas formigas vermelhas gigantes. Batalhas com
batalhas sofreram mortos e feridos os dois lados da mesma moeda.
Alice e o
amigo Mbarakaja conseguiram tirar o couro de uma pintada. E na aldeia
nambiquara o índio Mbarakaja se exibiu vestido de pele de onça-pintada.
Mbarakaja, com um troféu de dentes de suçuaranas ao redor do pescoço, era um
ser já com espírito de gato-do-mato.
Bonita
e jovem, Alice já se acostumara a andar sem roupa na aldeia, assumindo o calor
da tribo. Sobre os seios não usava nada, embaixo na frente usava duas três
penas de araras-vermelhas, atrás embaixo uma cauda de caxinguelê. Somente o
deus dos reis ficava excitado de olho aberto, amarelo, amarrado. Tanto que não
mais queria sair do céu, parara no zênite e dali não se mexia. Com isso, então,
o calor abafou e a seca se alastrou pela terra, os alimentos em geral
minguaram, os rios evaporaram, as fontes e as chuvas secaram, não mais chovia à
tardinha, todas as tardes ficaram secas e, aí, toda a tribo krahó se lembrou de
rogar à Alice que pusesse a roupa e que pegasse a igara e se fosse embora. O
pajé, mais interpretativo de todos, foi no ponto do caso:
-
Noiva Sol. Deus Sol castiga tribo. Quer noiva leite moça.
Alice
ficou sentida, se sentiu mal do estômago, e da memória também. Sozinha, então,
pegou a igara e foi saindo da vida da tribo gavião. Ia triste, cabisbaixa,
magoada, frustrada, remando rios e labirinto, simbora sozinha. Rios do corpo da
floresta. Rios mudos. Rios cobras. Rios cheios daqueles reflexos quebrados. Rio
Jurupari, Embirá, Grajaú, Canumã, Jari, Purus, Uaupés, Envira... Rios de
margens floridas e aladas e assoviantes, ritmos ainda não catalogados. Rios
compridos, largos, profundos e piscosos. Uma arara-azul-grande valia por mil e
quinhentas araras-azuis-grandes
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Rio Juruá, Jibóia Arco-Íris, Rio Branco.
O
Sol a acompanhou por todo o longo dia, rios e rios afora. O deus Sol estava
quieto e frustrado porque Alice não lhe dera bola. E Alice no seu coração puro,
bom, tolerante e conde... condescendente, não imaginava o Sol como seu amante.
Por isso, Cuaracy se vingava, manipulava os espíritos da floresta. E ainda o
Sol largou Alice bem dentro de uma noite tenebrosa. Noite sem Jacy. E convenceu
a noite a virar uma noite chuvosa sem uma chance no céu. Largou Alice no meio
do nada, da noite da floresta, do vento que vinha na tempestade. Alice
extraviada, mais extraviada que filhote de perdiz em campo aberto.