Mostrando postagens com marcador alves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador alves. Mostrar todas as postagens

sábado, 1 de setembro de 2012

Lua de Mel em Protásio Alves



        Muito sol no domingo de manhã e de tarde em Protásio Alves. Por isso, noiva mais noivo resolveram se casar no sábado. Um sábado de muita chuva e foi uma chuva que era o começo do dilúvio.

        O que Deus manda não pode ser contrariado. E como suportar o que Deus manda.

        A noiva foi levada de carro vermelho até a porta da igreja Matriz, ali no centro de Protásio. Entraram pela rua Princesa Isabel, pegaram a rua Zumbi dos Palmares, a Deodoro da Fonseca, a avenida Floriano Peixoto, contornando a pracinha. Não havia ninguém nas ruas, nenhum transeunte, nem gato nem cachorro nem rato nem gado. Na pracinha, impassível sob a chuvarada, o busto em pedra basáltica de Júlio de Castilhos. Ali pelas 18h e 30min e as vacas de leite já estavam no abrigo das estrebarias. Chovia o que Deus queria.

        O carro parou em frente da igreja nova. Uma prima com guarda-chuva enorme protegeu a noiva do aguaceiro. A outra prima ajudou a segurar a cauda do vestido todo em amarelo. 

        A chuva de Protásio. A chuva tomando conta da cidade, o vento tomando conta de Protásio Alves. Protásio, terra de Mário Quintana, terra de Getúlio Vargas, terra de Sepé Tiaraju. Aglomerado de morros cobertos de mato. Em breve um aeródromo com pista de pouso asfaltada.

        A noiva estava linda e toda sorridente por dentro e por fora. Sorriso pleno olhos arregalados olhar de chuva. As tias e as primas jogaram pétalas de flores coloridas quando ela galgou a escadaria e varou a porta de entrada da igreja lotada. Só podia caber de ser sensacional.

        Tinha uma música ambiente, uma decoração, uns frufrus, uma criança chorando, uns risos, uns cochichos, uns aplausos, uns vivas muito respeitosos discretos pois estavam numa igreja.

        A Suindara viu o Tururi esperando por ela no altar. Era ele: ele era ele, e não outro. Ela se sentiu flutuando, como caminhando sobre um colchão fofo, nas nuvens brancas, na superfície de um lago calmo, mergulhada numa sanga com peixes pequenos, em transe emocional, frio na barriga. Os olhos bem abertos, toda sorriso, um só sorriso pleno e perfeito, olhar cintilante, embasbacada e rosto pintado.

        Olhos abertos e bem fixos no noivo, a noiva foi indo conduzida pelo pai. Todos olhando. Ela não reparava. Olhos postos no noivo e caminhando como um robô, como um zumbi, como um brinquedo de corda, como um bicho domesticado, como um presente empacotado.

        Era uma distância infinita, um tempo eterno, um tempo sem tempo, um tempo sublime. Uma estrela e um planeta. Uma lagoa e um rio. Uma montanha e um vento. Até ela pegar na mão dele.

        Nesse momento tudo foi outra coisa. O mundo parou de vez e mais nada. Tudo foi tão de repente. Mãos dadas, mãos crispadas, dedos enclavinhados. O universo respirou fundo.

        O padre teve que repetir o pedido. Aí, Suindara ouviu entendeu sempre sorrindo sempre de olhos bem abertos arregalados, e Suindara escutou não demorou mais nada e disse sim.

        Casados, Suindara de mãos dadas mais Tururi, desceram o altar rumo da porta, cruzaram a nave sorrindo ouvindo elogios, passaram pela porta até a escadaria externa, o sino tocando adoidado, desceram as escadas com cuidado rumo do carro, entraram no auto rumo da casa do primo, casa do primo para o churrasco no galpão.

        Mas antes se beijaram quando o padre disse “podem se beijar”, se beijaram na porta da igreja para as fotos e o filme e a chuva de arroz, se beijaram já dentro do carro de janela aberta, se beijaram por conta própria de janela fechada por causa da chuva, se beijaram quando chegaram no galpão da festa.

        Não houve foguetório por causa dos relâmpagos e dos trovões, mas houve gritos de ensurdecer, tiros para o ar, estouro de espumante, assobios de tios e de primos, gargalhadas de tias e de primas, vavavá, algazarra, barulho, batebulho. Suindara de olhar úmido como a noite.

        Suindara era de Protásio Alves por isso escolheram ali para o casamento passar a noite de núpcias a lua de mel. Era onde viviam todos os parentes dela, quase mais da metade da população. E Tururi era de Serranos, muito lá pra cima no mapa, uma cidade mineira. E tinham se conhecido num baile de carnaval em Barro Preto, bairro de Vila Flores. Embora os dois já residissem e trabalhassem em Nova Prata.

        Assim, no fandango do galpão, no arrasta-pé, após o jantar muito barulhento e gozado e cheio de jogos ridículos e parentes assanhados, foi que Suindara teve de dançar com todos os primos os tios e algumas tias algumas primas.

O primo Corumbá apareceu bêbado e desbragado e foi lhe dizendo, o bafo de cerveja e cigarro na orelha, disse:

        - Sabe, Susu?! Você tá linda como uma rosa amarela na manhã clara de primavera!

        Dançaram uma marca e ele ficou tonto e se sentou num banco perto da parede. Olhava por baixo como um cachorro que comeu graxa. Depois, dormiu ali mesmo agarrado e beijando lambendo babando o encosto do banco.

        O gaiteiro não tocava nada, desafinado, ansioso, mas ninguém prestava atenção. Crianças correndo pelo espaço apertado, meninos e meninas de todas as alturas, separando os casais expansivos, brincando de pega-pega, esconde-esconde. 

E o primo Guarumbé, olhos vermelhos, nariz pingando, cabelos desgrenhados, bigode molhado de espuma de cerveja, cigarro aceso entre os dedos, veio investir insistir até que foram dançar.

        - Sabe, Susu?! Aquela vez que fomos no capão comer butiá só eu e tu?!

        Dançaram uma marca e o primo Guarumbé ficou zonzo, já estava zonzo, ficou mais perdido ainda e se largou na primeira cadeira que cruzou o seu caminho trançado. Abraçou e lambeu o encosto da cadeira, resmungou, rezingou, murmurou, tartamudeou coisas incompreensíveis até cair e rolar no chão de terra batida.

        O gaiteiro (um tio da Suindara) tocava mal, tocava bruto, tocava somente as duas notas, parava negligente para beber cerveja, mas ninguém pensava substituí-lo. O ambiente pegajoso, o gritedo envolto em poeira e fumaça de cigarro, etc.

A prima Paraúna, mostrando a língua molhando os lábios carnudos e maduros fazendo beicinho aprontando o biquinho, dentro de uma nuvem de maresia de maconha, veio tirar Suindara para uma contradança.

        - Sabe, Susu?! Você é a prima mais linda e macia e doce e suave que eu mereço! Olha que conheço todas as nossas primas! Mas você é a minha mais principal e preferida.

        Suindara fez um muxoxo.

        O tio gaiteiro se esforçava suava para tocar a vigésima sétima versão da mesma canção. Um ritmo perdido, um arremedo de gauchesca com baião e caipira. Mas ninguém pensava em música eletrônica.

        Pouco mais, o tio Jacarandá chegou sorrateiro e agarrou Suindara por trás, beliscando-a no traseiro. E foi exigindo uma marca, pelo menos uma música, um abraço apertado, dois três beijinhos nas faces. No meio de todo mundo, palito de fósforo no canto da boca suja de torta de chocolate, um hálito de cigarro e vinho tinto de garrafão. E ainda foi despejando todo pretensioso, olhar de gavião-carijó, todo maneiroso, pernóstico, a seguinte preocupação lá dele:

        - Sabe, Susu?! Você precisa reparar mais nos teus seios. Quero dizer, você precisa fazer um seguro. Você deve proteger muito os teus seios lindos e empinados e tenros com um seguro de vida, hein?!

        O bafo encardido do tio Jacarandá queimava do cabelo até o pescoço passando pela orelha de Suindara. E ele queria porque queria colar o rosto. E queria porque queria mordiscar a ponta dos cabelos dela.

        Umas três e meia os recém-casados fugiram da festa e se mandaram para a casa do primo, logo ali em frente do galpão e no isolamento do sótão e no escondido do quarto preparado. Chovia como nunca e eles nem aí, rindo sem parar, mãos dadas, olhos nos olhos, afobados, desatinados, precipitados, descontrolados, se dando tombos e encontrões.

        Ainda bem que o rangido da cama se confundia com o barulho da chuva no telhado de zinco. Ainda bem que eles já estavam acostumados uma com o outro e nem precisaram muito de muita luz. Ainda bem que era no sótão e ninguém ficou atrás da porta ou da janela para ouvir algum ruído exagerado e agoniado e extremado e excedido. Mas estavam tão cansados que mal fizeram amor uma hora e vinte minutos e apagaram dormindo um sobre o outro, na verdade ela sobre ele, como dois cipós-violetas abraçados e emaranhados e confundidos e entrelaçados.

        Protásio Alves já fora encruzilhada de tropeiros, passagem de tropas de mulas. Não se pode esquecer das cores vivas de Protásio, do clima, das encostas, das plantações de milho. Épocas antigas, a região de Protásio fora pouso de tropeiros, parada obrigatória de tropeiros. Ali onde hoje é o armazém do seu Sairé. Um caminho ligara Caxias do Sul e Lagoa Vermelha, o outro entre Passo Fundo e Vacaria.

        Acordaram na manhã com o foguetório ensurdecedor prometido na véspera e que só agora os tios e os primos viram oportunidade. Um foguetório que não parou mais. Entre um estrondo e outro os risos do pessoal, os assobios, as gargalhadas, os ditos, as vaias, os espalhafatos. Só coisas assim.

        Suindara, dedos enfiados nos ouvidos, os olhos cansados, espiou pro lado. Tururi estava olhando pra ela, olhos pisados e mãos em concha abafando os ouvidos.

        - Que estardalhaço, nega!

        E ele correu para o chuveiro e ela correu atrás. E eles entraram debaixo do chuveiro e foi um banho que durou dois minutos porque voltaram a trote para a cama e molhados e atacados de uma ânsia. A cama batia na parede a cada arranco. E lá fora não existia mais foguetório nem ninguém nem pé de araçá carregado nem dia de sol puro nem mundo algum.

        E sem tirar sem largar sem sossegar sem sair foram até as duas e meia da tarde, quando morreram e adormeceram. Nem se lembraram do mundo, quanto mais de comer (comer coisas de mastigar, de se alimentar, de se sustentar e de se encher o pantufo). Era domingo e Deus estava de folga.

        O sol vem e vai, fazendo o tempo; faz tempo. Que o tempo se cumpra, dia hora minuto, como um mosaico, como um jogo de cartas, como no jogo do bicho. Não existe antes disso ou depois disso.

        Hoje, entrando por aí, chegando acolá, Protásio Alves tem 1982 (mil novecentos e oitenta e dois) habitantes. Tirando os parentes de Suindara ficam no resultado uns 241 (duzentos e quarenta e um) habitantes. E tem cascalho!

        E Protásio Alves fora médico e político numa reencarnação. Na outra estava nome de rua. Numa passada ainda foi nome de colégio. E nome de cidade. No futuro quem sabe nome de metrópole tipo São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Belém. Metrópole decantada.

        Vinte horas e pouquinho, o casal de pombas-rolas levantou para jantar. Suindara, pele limpa sem brincos sem pulseiras sem anéis cabelos soltos e bagunçados olhos oblíquos rosto iluminado. Estavam muito risonhos e agarrados e rindo por qualquer coisa, mãos dadas, espontâneos, expansivos.

        - Olha a sua barba crescida, nego.

        - Você sempre quis uma barba rala, nega.

        E riram de se torcer.

        - Você está adoçando o café com duas colherinhas.

        - Sempre foi assim, praticamente.

        E riram de chorar.

        - Experimente esse quindim, nego. Abra a boca.

        - Quer canoinha de melão na boca, nega?

        E riam de cair pra trás com cadeira e tudo.

        Por acaso ele se queixou de um aperto no braço. Só falou, mas achou que não era nada. Ela muito se interessou. Queria fazer massagem. Queria fazer chá de juciri-de-comer. E correram para o quarto fazer massagem e tomar chá de colherinha dado na boca. Um imitando o rasto da outra.

        E rolaram no chão até cinco da madruga, quando pegaram no sono debaixo da cama e ficaram por ali mesmo. Uma chupando o dedão do pé do outro. Tinha ventilador. Não tinha vencedor.

        A cidade de Protásio, terra de Clarice Lispector, país de Pinto Bandeira, respira ar puro 24h e aguarda por um discoporto. Gritedos de bandos de periquitos-verdes, cantos de azulão, guinchos de almas-de-gato, chamados de bugios logo pela madrugada, grilos, sapos, besouros mais pesados que o ar. Um conjunto de morros desperdiçados continuados. Passarinhos sem dono.

        Segunda-feira acordaram depois das onze e doze. Desceram para o jantar e acabaram tomando café. Suindara com olhar manhã. De mãos dadas agarrados sem se soltar como irmãos siameses. Comeram tipo bichos. Acomodados muito bem acomodados na mesma cadeira. Apetite ruidoso. Ela pensava em se servir de café, ele lhe alcançava o bule; ele pensava em passar o mel na bolachinha, ela lhe destampava o pote.

        Suindara estava toda esportiva festiva risonha alegre saltitante espontânea pronta para mais mil noites sem parar sem intervalo e pausa só para o pipi. Tururi reclamou da perna puxada, bocejou, e meio que se queixou assim:

        - Acho que você se deitou na minha perna, nega.

        - Desculpa, nego, mas não me lembro.

        Ela queria fazer um chá de juá-arrebenta-cavalo e fazer massagem e fazer cafuné. Além disso, sempre de mãos dadas e não tirando os olhos um do outro e bebendo muito suco de tomate.

        Lá fora? Bem, Protásio não tem terremotos, tsunamis, greves de servidores federais, inundações no verão, incêndios de grandes proporções, guerras, tráfico de drogas, neve, favelas, praias de areia branca, contrabando de armas. E Protásio é terra e país de Villa-Lobos, cidade natal de Teixeirinha. Aliás, dia de semana, Protásio Alves vive quase deserta, já que todos ou a maioria trabalham fora em Nova Prata ou em outras cidades por perto. O centro de Protásio abandonado, a rua do Poço um deserto, a rua das Araucárias um silêncio. A praça dedicada às abelhas-mosquitos que procuram o néctar nas flores novas dos maracujás-azuis. Protásio Alves, cidade acolhedora, melhor clima do mundo, capital do mandolate, e onde o craque multicampeão Dunga sempre vem passar as férias de fim de ano com a família.

O único comércio aberto é a bodega. O bar do seu Sairé, que é bodega e lancheria e restaurante e parada do ônibus (que chega e parte para Nova Prata uma vez por dia), e correios e clube de bocha e farmácia e açougue e pousada e ponto de encontro na noite protasioalvense.

        Mas lá fora era lá fora e os amantes pouco se lembravam ou se importavam. O casal queria mais era se olhar e se acariciar e se engalfinhar e se cutucar e se empurrar e se provocar e tomar fôlego e continuar e suspirar.

        Almoçaram e correram para o quarto. Ele se queixou de uma dor do lado. Ela prometeu massagem e chá de jurubeba-de-espinho. E sem se importarem que podia fazer mal de estômago cheio. Se grudaram se ligaram séria e ferrenhamente, fisiologicamente. E sem cessar até madrugada. Ganindo, resfolegando, exorbitando, soluçando, pedindo socorro, se espojando, etc. Não precisavam saber como era feito de molas a cama. Riam muito. Logo ele parou de rir e ela uivou. Logo ela silenciou de uivar e ele uivou. Quando foi, dormiram abraçados, um lambendo o joelho da outra.

        Na terça-feira acordaram cedo, ali pelas 10h e 25min. Bagunçando o dia pela noite a noite pelo dia, etc. Persianas fechadas um escurinho um ar eletrizado um cheiro de balaca. Suindara tentou adivinhar a espécie de passarinho que cantava, o curió, o bem-te-vi-do-gado, o tuí-tuí, o ferreirinho, o tico-tico? Tururi ouviu o João-de-barro, o coleirinha, o sabiá-laranjeira, a corruíra? Ficaram rindo mesmo na cama, de mãos dadas, sobre os lençóis amarrotados, respirando o ar quente um do outro, se lambendo o nariz, se beijando nos olhos, se enrolando o cabelo.

        - Que horas são, nega?

        Riram até cansar, riram muito.

        - Tem sol lá fora, nego?

        Riram até muito, cansar de rir e muito.

        - Lembra que você me prometeu ensinar a dirigir, nego.

        E riram como bandeiras ao vento.

        - Uma coisa, nego. Eu tinha um sonho frequente recorrente intermitente.

        - Que sonho, nega?

        - Eu sonhava sempre o mesmo sonho ridículo. Isso todas as noites, sem perder uma noite. Era sempre o mesmo sonho, sempre igual, sempre idêntico. Sonho repetido sem variação.

        - Um devaneio, nega?

        - Eu sonhava que saía da cama, caminhava até a cômoda, abria todas as gavetas procurando uma coisa. Não sabia o que estava procurando. Nunca encontrava o que procurava. Na outra noite a mesma coisa, o mesmo sonho, o mesmo devaneio, eu saía da cama, caminhava até a cômoda, abria todas as gavetas procurando uma coisa que não encontrava e não sabia o que era. Todas as noites assim. Durante semanas, meses. Aí, um dia o sonho não veio mais, desapareceu. Entendeu, nego?!

        Brincaram de fazer cócegas. Se perseguiram pelo quarto, se jogando travesseiros, se fazendo cócegas e, de repente, ele muito cosquento, soltou um pum... Aí mesmo pararam, ofegantes, se olhando em silêncio. O primeiro pum de casados. Mas descontraíram e voltaram a rir e gargalhar de tudo e muito e se perseguir e se correr atrás e fazer cócegas e largar pum, pum...

        Bem, Protásio Alves a vida inteira, cidade interessada nos jovens que partem para outras cidades da região, quantos anos e séculos, terra natal de Carlos Gomes, país de João Goulart, cidade natural de Cândido Rondon, candidata às olimpíadas de 2032, a existência inteira sempre Protásio Alves.

Levantaram mais tarde, lambuzados, esfarrapados, desmilinguidos, amarfanhados, e depois das 14h. Outro sim. Os travesseiros jogados pelos cantos, o crucifixo torto na parede, os chinelos de pano perdidos, cascas de laranjas, cascas de bergamotas, cascas de amendoins, sementes de jabuticaba.

        - Espera que procuro seus chinelos de pano, nego!

        Café da tarde comeram pão bolo suco de laranja muito suco de laranja biscoito misto-quente canoinha de melão melancia sorvete de açaí tapioca suco de laranja mais suco de laranja.

        Nesse ínterim. Os pontos turísticos de Protásio Alves. Um sítio arqueológico. Uma vez, diziam, existira por aí uma tribo de índios coroados. Eles habitavam esse lugar e se alimentavam de antas de preás de gambás de porcos-do-mato de capivaras de tatus de jacuapetis de seriemas de araticuns de pinhões. Na noite se abrigavam nas cavernas dos morros enrolados em peles de anta. Já vieram pesquisadores do país e do mundo conhecer e comprovar essa teoria. Descobriram buracos onde os coroados deixaram seus potes suas pontas de flechas seus mortos suas pedras lascadas seus restos de fogueiras.

        Curtiram andar de charrete pelo centro histórico. Subiram a pé e de mãos dadas até o morro da gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Para agradecer à santa e olhar o mar. O mar lá longe. Sentaram num banco de pedra basáltica. O mar perdido no horizonte, e azul como o céu como o próprio mar. Mar verde como a mata que cobre os morros tantos. Tururi se queixou uma vez que tinha o pé direito todo formiguento. Suindara queria parar tudo voltar correndo para fazer massagem e um chá de folha de laranjinha-do-mato.

        A vista normal e bonita do centro de Protásio. Olharam o que a vista alcançava. A cidade ali. Protásio Alves já teve estrada de ferro estação ferroviária. Hoje tudo abandonado ferro-velho e atração turística. Os barracões da estação viraram biblioteca museu teatro casa do idoso. Dizem os antigos moradores que o último lobo-guará do Estado do Rio Grande do Sul viveu seus ótimos dias aí pelos matos e morros e cavernas adjacentes.

        - Está vendo aqui, nego?! Aqui é a casa da minha tia, a amarela com janelas verdes. Aquela, de cor branca com janelas marrons, é da minha prima. Já aquela de dois pisos e cor laranja, chaminé fumegante, é a casa de outra prima minha. A de platibanda que fica do lado mora o meu tio.

        Protásio tem morros como nunca. Para plantar nas encostas dos morros os colonos usam a espingarda e colhem com o laço. E plantam muito milho. E tem muito marmanjo sobrando em Protásio Alves. São rapazes, curiosos, capazes, solteiros, loquazes, mas não querem estudar para padre.

        Uma tarde, sem telefone, sem internet, sem grenal, Tururi perguntou:

        - De quem esse teu cotovelo, nega?!

        - Te digo que é meu e teu, nego!

        - De quem são essas tuas sardas todas, nega?!

        - Daqui pra frente são minhas e todas tuas, nego!

        E assim tudo. E tudo ele beijou, e tudo ele lambeu, e tudo ele apontou com o dedo, e tudo ele mediu a palmo. Até chegar a alvorada. E depois disso, foi já a vez dela explorar o terreno, hectare por hectare. Um e uma volúpia sem restrições sem tabus.

        O dia branco de Protásio. A terra natural de Miguel Calmon du Pin e Almeida. Suindara de olhar verde como o verde do mato todo sempre por perto. As aroeiras os angicos as macambiras-de-pedra as manicatas as salsas-do-brejo, se sentem bem e conforme no clima serrano de Protásio Alves.

        Protásio Alves saiu por aí, andou aí, e hoje convive com 1998 (mil novecentos e noventa e oito) habitantes. Tirando os que trabalham em outras cidades e só vêm no fim de semana ou fim de mês ou fim de ano, restam moradores fixos uns 857 (oitocentos e cinquenta e sete) habitantes. E tem espinho!

        Suindara e Tururi, de asas dadas como duas araras enamoradas para sempre, desceram até o açude. Ficaram na margem olhando os peixes, os aguapés, as zabelinhas. Os peixes olharam para eles esperando qualquer coisa. Os jutaís-mirins olharam para eles e não disseram nada.

        Logo se sentaram na sombra de um jatobá frondoso. Os suiriris-do-campo gueteguetearam do alto das canjeranas gameleiras-brancas buçus cabos-de-machado vassourinhas pereiros-da-serra pitombeiras. As tesoureiras e outros pássaros também.

        O ambiente reverberava. Protásio dentro do céu branco. Suindara de olhar rebrilhante como a superfície das águas claras.

        Deus relaxa os pés no riacho raso. As pedras molhadas e os peixes escamosos se riem. O vento vem de longe ondular as verdes matas.

        E Suindara e Tururi se olharam e rolaram na grama. Muito lazer. Suando muito, ofegantes, narinas acesas e latejantes. Os galos-da-serra as tesoureiras os papa-sebos os chupins os pica-paus-dourados as mães-do-sol as borboletas os besouros as zabelinhas viram aquilo tudo sem reparar.

        Deus senta na sombra da outra margem. A grande árvore é costumeira.

        Os dois tico-ticos enamorados só foram cansar muito perto da noite, dentro do lusco-fusco, e ele se queixou de uma dor na coluna.

        - Quer que eu faça uma massagem, quer um chá de folha de mulungu, nego?! Vamos subir pro quarto que te faço uma massagem com estilo, um chá de colherinha servido na boca, prometo!

        E foram correndo porque a massagem e o chá eram urgentes urgentíssimos. Mãos dadas, e quem chegassem por último pagava o pato.

        Outro dia ali pelas oito e meia, muito cedo, foram com o primo Coroanha e a mulher do primo Coirama-Branca, plantar batatas-doces. Subiram mais pra cima no morro. O primo precisava aproveitar o clima, os dias bons após uma boa chuva, e o casal de pintassilgos até se ofereceu para ajudar.

        O sol veio de onde. O sol chegou em uma de suas viagens interplanetárias, do leste profundo, e o sol aterrissou buscando os crentes e os ateus, o sol veio passar ali pelo verão de Protásio. Protásio Alves terra natalícia de Carmem Miranda e de Portinari e de Duque de Caxias. Em breve uma rua com semáforo. Em breve um guarda de trânsito.

        Meio-dia e meia voltaram sujos de terra vermelha cansados famintos sedentos vermelhos carentes sorridentes saudosos mãos dadas. Uma não tirou os olhos do outro e chegaram em casa e correram para o sótão e tropeçaram na escada e se jogaram no ninho. Não voltaram mais para a roça na parte da tarde ou no dia seguinte.

        Suindara tinha uma tatuagem no tornozelo esquerdo, de quando ainda não conhecia Tururi, etc. Foi influência de uma amiga muito independente que morava junto num quarto alugado no bairro São Cristóvão, perto do trabalho delas ali no Distrito Industrial de Nova Prata.

        A tatuagem era um tori. Um símbolo xintô. Coisa muito linda e exótica e espiritual e japonesa. Ela se convenceu escolheu viu pensou uma vez o tori estiloso e se envolveu mesmo e tatuou.

        - Seu João! - João Porto, negão retinto, também conhecido como o Boca de Mel - Seu João, tatue o tori no meu... acho melhor no meu tornozelo direito, viu?!

        A lua de Protásio é diferente. Mais próxima, mais fácil, mais cheia de crateras, mais resplandecente, mais enorme, mais rodeada de estrelas e bombardeada de cometas, mais satélite. A lua e as estrelas cadentes. Estrelas estalando como grilos. As estrelas são países de poetas cantoras heróis ecologistas libertadores.

        E depois, ou antes de tudo, Protásio ainda não tem um porto marítimo. Mas tem morros verdes que lembram muito o mar por causa das ondas dos sobe-e-desce. Protásio tem açudes de pesque-e-pague e o rio da Prata, que a liga a Nova Prata.

        Dizem os cientistas e os pesquisadores e os entendidos e os espertos, que uma vez, muitos e muitos anos atrás, Protásio Alves era puro mar. Por isso tanto morro lembrando ondas verdes e revoltas em Protásio atual. Por isso já se encontrou por aí esqueleto de baleia jubarte, carcaça de tartaruga-marinha, rasto de polvo, pedras com fósseis de peixes os tipos mais diversos, etc.

        Os felizes felizardos de para sempre, desceram ao açude para ver peixes e passarinhos e árvores e pedras da beira da água. Mãos dadas como casal de canarinhos-da-terra. Se sentaram nas pedras lisas com os pés nas águas limpas. As goiabeiras-do-mato carregavam as flores e atraíam os tucanos-de-bico-verde. Deu pra ver.

        - Olha, nego! São tucanos!

        Como Suindara amava o xintoísmo - o caminho dos deuses -, depois de tatuar um tori, então, ela era amante amantíssima da natureza e acreditava que todas as coisas possuíam alma. Alma sem cor, translúcida, cristalina, transparente, etérea. Uma peroba-tabuada tinha alma compatível. Um louva-a-deus tinha alma compatível. Um tchintchorrintcho tinha alma compatível. E assim por diante.

        Ela pegou a mão de Tururi e se sentaram na beira do açude para olhar a natureza em volta. Tudo lazer para os olhos e os outros sentidos. Os cinco sentidos alertas ligados sedentos de se abastecerem das essências das coisas, dos verdes, dos pios, dos voos, dos zumbidos, dos espaços em branco, do chirorrio da água corrente.

        A represa com as baronesas as iapunaqueuaupês o araticum-de-espinho o saíra-beija-flor. Verdadeira adoração pelos morros pelos matos pelos riachos saindo de dentro dos matos. É do morro escondido de vegetação que descem os fios de água. Do meio do mato que vem o pio do inhambuxororó.

        Em pé, Suindara fez pedidos aos deuses. Sentada na grama, Suindara cultuou a natureza. Deuses disfarçados de plantas de bichos de insetos de açude de pedras de cascatas de morros.

        Mergulharam no açude se jogaram e jogaram as roupas de verão para o alto. Os quero-queros profundamente nervosos preocupados temperamentais. Tururi imergiu e Suindara deu um pulo e um grito histérico. Ela imergiu e ele deu um pulo e um brado maluco. Jogaram pedrinha no fundo e apostaram mergulho e foram buscar.

        Deus se transforma rapidamente em aguapé, em saracura, em lambari, em sapo-ferreiro, em borrachudo.

        Suindara nadou até a beira da água e se perdeu no capim alto, entre os picões. Tururi foi atrás rastejando, por entre os gravatás. Quando viu passou por cima dela e ela ficou engasgada, apoplética. Quando ela se virou do avesso ele ficou sufocado, apoplético. Se pintaram de barro.

        Já virados em puro barro, disfarçados e camuflados no barro preto, deslizaram como lesmas, como jacarés-de-papo-amarelo, barro até os olhos, até os cabelos, até os ossos, muito assustando os quero-queros, os ratões-de-banhado, as jaçanãs, etc., e se puxando pelo pé.

        Dentro da água, rolando no capim encharcado, pegando micuins, se ralando, o que buscavam era a glória, a glória.

        Depois caiu uma tromba de água uma chuva rápida e mesmo debaixo da chuva correram foram comer pitangas. Suindara de olhar de chuva.

        E a gente pensa que essas artes nunca acontecem com a gente!