Muito sol no
domingo de manhã e de tarde em Protásio Alves. Por isso, noiva mais noivo
resolveram se casar no sábado. Um sábado de muita chuva e foi uma chuva que era
o começo do dilúvio.
O que Deus manda
não pode ser contrariado. E como suportar o que Deus manda.
A noiva foi
levada de carro vermelho até a porta da igreja Matriz, ali no centro de
Protásio. Entraram pela rua Princesa Isabel, pegaram a rua Zumbi dos Palmares,
a Deodoro da Fonseca, a avenida Floriano Peixoto, contornando a pracinha. Não
havia ninguém nas ruas, nenhum transeunte, nem gato nem cachorro nem rato nem gado.
Na pracinha, impassível sob a chuvarada, o busto em pedra basáltica de Júlio de
Castilhos. Ali pelas 18h e 30min e as vacas de leite já estavam no abrigo das
estrebarias. Chovia o que Deus queria.
O carro parou em
frente da igreja nova. Uma prima com guarda-chuva enorme protegeu a noiva do
aguaceiro. A outra prima ajudou a segurar a cauda do vestido todo em
amarelo.
A chuva de
Protásio. A chuva tomando conta da cidade, o vento tomando conta de Protásio
Alves. Protásio, terra de Mário Quintana, terra de Getúlio Vargas, terra de
Sepé Tiaraju. Aglomerado de morros cobertos de mato. Em breve um aeródromo com
pista de pouso asfaltada.
A noiva estava linda
e toda sorridente por dentro e por fora. Sorriso pleno olhos arregalados olhar
de chuva. As tias e as primas jogaram pétalas de flores coloridas quando ela
galgou a escadaria e varou a porta de entrada da igreja lotada. Só podia caber
de ser sensacional.
Tinha uma música
ambiente, uma decoração, uns frufrus, uma criança chorando, uns risos, uns
cochichos, uns aplausos, uns vivas muito respeitosos discretos pois estavam
numa igreja.
A Suindara viu o
Tururi esperando por ela no altar. Era ele: ele era ele, e não outro. Ela se
sentiu flutuando, como caminhando sobre um colchão fofo, nas nuvens brancas, na
superfície de um lago calmo, mergulhada numa sanga com peixes pequenos, em
transe emocional, frio na barriga. Os olhos bem abertos, toda sorriso, um só
sorriso pleno e perfeito, olhar cintilante, embasbacada e rosto pintado.
Olhos abertos e
bem fixos no noivo, a noiva foi indo conduzida pelo pai. Todos olhando. Ela não
reparava. Olhos postos no noivo e caminhando como um robô, como um zumbi, como
um brinquedo de corda, como um bicho domesticado, como um presente empacotado.
Era uma
distância infinita, um tempo eterno, um tempo sem tempo, um tempo sublime. Uma
estrela e um planeta. Uma lagoa e um rio. Uma montanha e um vento. Até ela
pegar na mão dele.
Nesse momento
tudo foi outra coisa. O mundo parou de vez e mais nada. Tudo foi tão de
repente. Mãos dadas, mãos crispadas, dedos enclavinhados. O universo respirou
fundo.
O padre teve que
repetir o pedido. Aí, Suindara ouviu entendeu sempre sorrindo sempre de olhos
bem abertos arregalados, e Suindara escutou não demorou mais nada e disse sim.
Casados,
Suindara de mãos dadas mais Tururi, desceram o altar rumo da porta, cruzaram a
nave sorrindo ouvindo elogios, passaram pela porta até a escadaria externa, o
sino tocando adoidado, desceram as escadas com cuidado rumo do carro, entraram
no auto rumo da casa do primo, casa do primo para o churrasco no galpão.
Mas antes se
beijaram quando o padre disse “podem se beijar”, se beijaram na porta da igreja
para as fotos e o filme e a chuva de arroz, se beijaram já dentro do carro de
janela aberta, se beijaram por conta própria de janela fechada por causa da
chuva, se beijaram quando chegaram no galpão da festa.
Não houve
foguetório por causa dos relâmpagos e dos trovões, mas houve gritos de
ensurdecer, tiros para o ar, estouro de espumante, assobios de tios e de
primos, gargalhadas de tias e de primas, vavavá, algazarra, barulho, batebulho.
Suindara de olhar úmido como a noite.
Suindara era de
Protásio Alves por isso escolheram ali para o casamento passar a noite de
núpcias a lua de mel. Era onde viviam todos os parentes dela, quase mais da
metade da população. E Tururi era de Serranos, muito lá pra cima no mapa, uma
cidade mineira. E tinham se conhecido num baile de carnaval em Barro Preto,
bairro de Vila Flores. Embora os dois já residissem e trabalhassem em Nova
Prata.
Assim, no
fandango do galpão, no arrasta-pé, após o jantar muito barulhento e gozado e
cheio de jogos ridículos e parentes assanhados, foi que Suindara teve de dançar
com todos os primos os tios e algumas tias algumas primas.
O primo Corumbá apareceu bêbado e
desbragado e foi lhe dizendo, o bafo de cerveja e cigarro na orelha, disse:
- Sabe, Susu?!
Você tá linda como uma rosa amarela na manhã clara de primavera!
Dançaram uma
marca e ele ficou tonto e se sentou num banco perto da parede. Olhava por baixo
como um cachorro que comeu graxa. Depois, dormiu ali mesmo agarrado e beijando
lambendo babando o encosto do banco.
O gaiteiro não
tocava nada, desafinado, ansioso, mas ninguém prestava atenção. Crianças
correndo pelo espaço apertado, meninos e meninas de todas as alturas, separando
os casais expansivos, brincando de pega-pega, esconde-esconde.
E o primo Guarumbé, olhos vermelhos,
nariz pingando, cabelos desgrenhados, bigode molhado de espuma de cerveja,
cigarro aceso entre os dedos, veio investir insistir até que foram dançar.
- Sabe, Susu?!
Aquela vez que fomos no capão comer butiá só eu e tu?!
Dançaram uma
marca e o primo Guarumbé ficou zonzo, já estava zonzo, ficou mais perdido ainda
e se largou na primeira cadeira que cruzou o seu caminho trançado. Abraçou e
lambeu o encosto da cadeira, resmungou, rezingou, murmurou, tartamudeou coisas
incompreensíveis até cair e rolar no chão de terra batida.
O gaiteiro (um
tio da Suindara) tocava mal, tocava bruto, tocava somente as duas notas, parava
negligente para beber cerveja, mas ninguém pensava substituí-lo. O ambiente
pegajoso, o gritedo envolto em poeira e fumaça de cigarro, etc.
A prima Paraúna, mostrando a língua
molhando os lábios carnudos e maduros fazendo beicinho aprontando o biquinho,
dentro de uma nuvem de maresia de maconha, veio tirar Suindara para uma
contradança.
- Sabe,
Susu?! Você é a prima mais linda e macia e doce e suave que eu mereço! Olha que
conheço todas as nossas primas! Mas você é a minha mais principal e preferida.
Suindara
fez um muxoxo.
O tio
gaiteiro se esforçava suava para tocar a vigésima sétima versão da mesma canção.
Um ritmo perdido, um arremedo de gauchesca com baião e caipira. Mas ninguém
pensava em música eletrônica.
Pouco
mais, o tio Jacarandá chegou sorrateiro e agarrou Suindara por trás,
beliscando-a no traseiro. E foi exigindo uma marca, pelo menos uma música, um
abraço apertado, dois três beijinhos nas faces. No meio de todo mundo, palito
de fósforo no canto da boca suja de torta de chocolate, um hálito de cigarro e
vinho tinto de garrafão. E ainda foi despejando todo pretensioso, olhar de
gavião-carijó, todo maneiroso, pernóstico, a seguinte preocupação lá dele:
- Sabe,
Susu?! Você precisa reparar mais nos teus seios. Quero dizer, você precisa
fazer um seguro. Você deve proteger muito os teus seios lindos e empinados e
tenros com um seguro de vida, hein?!
O bafo
encardido do tio Jacarandá queimava do cabelo até o pescoço passando pela
orelha de Suindara. E ele queria porque queria colar o rosto. E queria porque
queria mordiscar a ponta dos cabelos dela.
Umas três
e meia os recém-casados fugiram da festa e se mandaram para a casa do primo,
logo ali em frente do galpão e no isolamento do sótão e no escondido do quarto
preparado. Chovia como nunca e eles nem aí, rindo sem parar, mãos dadas, olhos
nos olhos, afobados, desatinados, precipitados, descontrolados, se dando tombos
e encontrões.
Ainda bem
que o rangido da cama se confundia com o barulho da chuva no telhado de zinco.
Ainda bem que eles já estavam acostumados uma com o outro e nem precisaram
muito de muita luz. Ainda bem que era no sótão e ninguém ficou atrás da porta
ou da janela para ouvir algum ruído exagerado e agoniado e extremado e
excedido. Mas estavam tão cansados que mal fizeram amor uma hora e vinte
minutos e apagaram dormindo um sobre o outro, na verdade ela sobre ele, como
dois cipós-violetas abraçados e emaranhados e confundidos e entrelaçados.
Protásio
Alves já fora encruzilhada de tropeiros, passagem de tropas de mulas. Não se pode
esquecer das cores vivas de Protásio, do clima, das encostas, das plantações de
milho. Épocas antigas, a região de Protásio fora pouso de tropeiros, parada
obrigatória de tropeiros. Ali onde hoje é o armazém do seu Sairé. Um caminho
ligara Caxias do Sul e Lagoa Vermelha, o outro entre Passo Fundo e Vacaria.
Acordaram
na manhã com o foguetório ensurdecedor prometido na véspera e que só agora os
tios e os primos viram oportunidade. Um foguetório que não parou mais. Entre um
estrondo e outro os risos do pessoal, os assobios, as gargalhadas, os ditos, as
vaias, os espalhafatos. Só coisas assim.
Suindara,
dedos enfiados nos ouvidos, os olhos cansados, espiou pro lado. Tururi estava
olhando pra ela, olhos pisados e mãos em concha abafando os ouvidos.
- Que
estardalhaço, nega!
E ele
correu para o chuveiro e ela correu atrás. E eles entraram debaixo do chuveiro
e foi um banho que durou dois minutos porque voltaram a trote para a cama e
molhados e atacados de uma ânsia. A cama batia na parede a cada arranco. E lá
fora não existia mais foguetório nem ninguém nem pé de araçá carregado nem dia
de sol puro nem mundo algum.
E sem
tirar sem largar sem sossegar sem sair foram até as duas e meia da tarde,
quando morreram e adormeceram. Nem se lembraram do mundo, quanto mais de comer
(comer coisas de mastigar, de se alimentar, de se sustentar e de se encher o
pantufo). Era domingo e Deus estava de folga.
O sol vem
e vai, fazendo o tempo; faz tempo. Que o tempo se cumpra, dia hora minuto, como
um mosaico, como um jogo de cartas, como no jogo do bicho. Não existe antes
disso ou depois disso.
Hoje,
entrando por aí, chegando acolá, Protásio Alves tem 1982 (mil novecentos e
oitenta e dois) habitantes. Tirando os parentes de Suindara ficam no resultado
uns 241 (duzentos e quarenta e um) habitantes. E tem cascalho!
E
Protásio Alves fora médico e político numa reencarnação. Na outra estava nome
de rua. Numa passada ainda foi nome de colégio. E nome de cidade. No futuro
quem sabe nome de metrópole tipo São Paulo, Belo Horizonte, Recife, Belém. Metrópole
decantada.
Vinte
horas e pouquinho, o casal de pombas-rolas levantou para jantar. Suindara, pele
limpa sem brincos sem pulseiras sem anéis cabelos soltos e bagunçados olhos
oblíquos rosto iluminado. Estavam muito risonhos e agarrados e rindo por qualquer
coisa, mãos dadas, espontâneos, expansivos.
- Olha a
sua barba crescida, nego.
- Você
sempre quis uma barba rala, nega.
E riram
de se torcer.
- Você
está adoçando o café com duas colherinhas.
- Sempre
foi assim, praticamente.
E riram
de chorar.
-
Experimente esse quindim, nego. Abra a boca.
- Quer
canoinha de melão na boca, nega?
E riam de
cair pra trás com cadeira e tudo.
Por acaso
ele se queixou de um aperto no braço. Só falou, mas achou que não era nada. Ela
muito se interessou. Queria fazer massagem. Queria fazer chá de
juciri-de-comer. E correram para o quarto fazer massagem e tomar chá de
colherinha dado na boca. Um imitando o rasto da outra.
E rolaram
no chão até cinco da madruga, quando pegaram no sono debaixo da cama e ficaram
por ali mesmo. Uma chupando o dedão do pé do outro. Tinha ventilador. Não tinha
vencedor.
A cidade
de Protásio, terra de Clarice Lispector, país de Pinto Bandeira, respira ar
puro 24h e aguarda por um discoporto. Gritedos de bandos de periquitos-verdes,
cantos de azulão, guinchos de almas-de-gato, chamados de bugios logo pela
madrugada, grilos, sapos, besouros mais pesados que o ar. Um conjunto de morros
desperdiçados continuados. Passarinhos sem dono.
Segunda-feira
acordaram depois das onze e doze. Desceram para o jantar e acabaram tomando
café. Suindara com olhar manhã. De mãos dadas agarrados sem se soltar como
irmãos siameses. Comeram tipo bichos. Acomodados muito bem acomodados na mesma
cadeira. Apetite ruidoso. Ela pensava em se servir de café, ele lhe alcançava o
bule; ele pensava em passar o mel na bolachinha, ela lhe destampava o pote.
Suindara
estava toda esportiva festiva risonha alegre saltitante espontânea pronta para
mais mil noites sem parar sem intervalo e pausa só para o pipi. Tururi reclamou
da perna puxada, bocejou, e meio que se queixou assim:
- Acho
que você se deitou na minha perna, nega.
-
Desculpa, nego, mas não me lembro.
Ela queria fazer um chá de
juá-arrebenta-cavalo e fazer massagem e fazer cafuné. Além disso, sempre de
mãos dadas e não tirando os olhos um do outro e bebendo muito suco de tomate.
Lá fora?
Bem, Protásio não tem terremotos, tsunamis, greves de servidores federais, inundações
no verão, incêndios de grandes proporções, guerras, tráfico de drogas, neve,
favelas, praias de areia branca, contrabando de armas. E Protásio é terra e
país de Villa-Lobos, cidade natal de Teixeirinha. Aliás, dia de semana,
Protásio Alves vive quase deserta, já que todos ou a maioria trabalham fora em
Nova Prata ou em outras cidades por perto. O centro de Protásio abandonado, a
rua do Poço um deserto, a rua das Araucárias um silêncio. A praça dedicada às
abelhas-mosquitos que procuram o néctar nas flores novas dos maracujás-azuis.
Protásio Alves, cidade acolhedora, melhor clima do mundo, capital do mandolate,
e onde o craque multicampeão Dunga sempre vem passar as férias de fim de ano
com a família.
O único comércio aberto é a bodega. O
bar do seu Sairé, que é bodega e lancheria e restaurante e parada do ônibus
(que chega e parte para Nova Prata uma vez por dia), e correios e clube de
bocha e farmácia e açougue e pousada e ponto de encontro na noite
protasioalvense.
Mas lá
fora era lá fora e os amantes pouco se lembravam ou se importavam. O casal
queria mais era se olhar e se acariciar e se engalfinhar e se cutucar e se
empurrar e se provocar e tomar fôlego e continuar e suspirar.
Almoçaram
e correram para o quarto. Ele se queixou de uma dor do lado. Ela prometeu
massagem e chá de jurubeba-de-espinho. E sem se importarem que podia fazer mal
de estômago cheio. Se grudaram se ligaram séria e ferrenhamente,
fisiologicamente. E sem cessar até madrugada. Ganindo, resfolegando,
exorbitando, soluçando, pedindo socorro, se espojando, etc. Não precisavam
saber como era feito de molas a cama. Riam muito. Logo ele parou de rir e ela
uivou. Logo ela silenciou de uivar e ele uivou. Quando foi, dormiram abraçados,
um lambendo o joelho da outra.
Na
terça-feira acordaram cedo, ali pelas 10h e 25min. Bagunçando o dia pela noite
a noite pelo dia, etc. Persianas fechadas um escurinho um ar eletrizado um
cheiro de balaca. Suindara tentou adivinhar a espécie de passarinho que
cantava, o curió, o bem-te-vi-do-gado, o tuí-tuí, o ferreirinho, o tico-tico?
Tururi ouviu o João-de-barro, o coleirinha, o sabiá-laranjeira, a corruíra?
Ficaram rindo mesmo na cama, de mãos dadas, sobre os lençóis amarrotados,
respirando o ar quente um do outro, se lambendo o nariz, se beijando nos olhos,
se enrolando o cabelo.
- Que
horas são, nega?
Riram até
cansar, riram muito.
- Tem sol
lá fora, nego?
Riram até
muito, cansar de rir e muito.
- Lembra
que você me prometeu ensinar a dirigir, nego.
E riram
como bandeiras ao vento.
- Uma
coisa, nego. Eu tinha um sonho frequente recorrente intermitente.
- Que
sonho, nega?
- Eu
sonhava sempre o mesmo sonho ridículo. Isso todas as noites, sem perder uma
noite. Era sempre o mesmo sonho, sempre igual, sempre idêntico. Sonho repetido
sem variação.
- Um
devaneio, nega?
- Eu
sonhava que saía da cama, caminhava até a cômoda, abria todas as gavetas
procurando uma coisa. Não sabia o que estava procurando. Nunca encontrava o que
procurava. Na outra noite a mesma coisa, o mesmo sonho, o mesmo devaneio, eu
saía da cama, caminhava até a cômoda, abria todas as gavetas procurando uma
coisa que não encontrava e não sabia o que era. Todas as noites assim. Durante
semanas, meses. Aí, um dia o sonho não veio mais, desapareceu. Entendeu, nego?!
Brincaram
de fazer cócegas. Se perseguiram pelo quarto, se jogando travesseiros, se
fazendo cócegas e, de repente, ele muito cosquento, soltou um pum... Aí mesmo
pararam, ofegantes, se olhando em silêncio. O primeiro pum de casados. Mas
descontraíram e voltaram a rir e gargalhar de tudo e muito e se perseguir e se
correr atrás e fazer cócegas e largar pum, pum...
Bem, Protásio
Alves a vida inteira, cidade interessada nos jovens que partem para outras
cidades da região, quantos anos e séculos, terra natal de Carlos Gomes, país de
João Goulart, cidade natural de Cândido Rondon, candidata às olimpíadas de
2032, a existência inteira sempre Protásio Alves.
Levantaram mais tarde, lambuzados,
esfarrapados, desmilinguidos, amarfanhados, e depois das 14h. Outro sim. Os
travesseiros jogados pelos cantos, o crucifixo torto na parede, os chinelos de
pano perdidos, cascas de laranjas, cascas de bergamotas, cascas de amendoins,
sementes de jabuticaba.
- Espera
que procuro seus chinelos de pano, nego!
Café da
tarde comeram pão bolo suco de laranja muito suco de laranja biscoito
misto-quente canoinha de melão melancia sorvete de açaí tapioca suco de laranja
mais suco de laranja.
Nesse
ínterim. Os pontos turísticos de Protásio Alves. Um sítio arqueológico. Uma
vez, diziam, existira por aí uma tribo de índios coroados. Eles habitavam esse
lugar e se alimentavam de antas de preás de gambás de porcos-do-mato de
capivaras de tatus de jacuapetis de seriemas de araticuns de pinhões. Na noite
se abrigavam nas cavernas dos morros enrolados em peles de anta. Já vieram
pesquisadores do país e do mundo conhecer e comprovar essa teoria. Descobriram
buracos onde os coroados deixaram seus potes suas pontas de flechas seus mortos
suas pedras lascadas seus restos de fogueiras.
Curtiram andar
de charrete pelo centro histórico. Subiram a pé e de mãos dadas até o morro da
gruta de Nossa Senhora de Lourdes. Para agradecer à santa e olhar o mar. O mar
lá longe. Sentaram num banco de pedra basáltica. O mar perdido no horizonte, e
azul como o céu como o próprio mar. Mar verde como a mata que cobre os morros
tantos. Tururi se queixou uma vez que tinha o pé direito todo formiguento.
Suindara queria parar tudo voltar correndo para fazer massagem e um chá de
folha de laranjinha-do-mato.
A vista
normal e bonita do centro de Protásio. Olharam o que a vista alcançava. A
cidade ali. Protásio Alves já teve estrada de ferro estação ferroviária. Hoje
tudo abandonado ferro-velho e atração turística. Os barracões da estação
viraram biblioteca museu teatro casa do idoso. Dizem os antigos moradores que o
último lobo-guará do Estado do Rio Grande do Sul viveu seus ótimos dias aí
pelos matos e morros e cavernas adjacentes.
- Está
vendo aqui, nego?! Aqui é a casa da minha tia, a amarela com janelas verdes.
Aquela, de cor branca com janelas marrons, é da minha prima. Já aquela de dois
pisos e cor laranja, chaminé fumegante, é a casa de outra prima minha. A de
platibanda que fica do lado mora o meu tio.
Protásio
tem morros como nunca. Para plantar nas encostas dos morros os colonos usam a
espingarda e colhem com o laço. E plantam muito milho. E tem muito marmanjo
sobrando em Protásio Alves. São rapazes, curiosos, capazes, solteiros,
loquazes, mas não querem estudar para padre.
Uma
tarde, sem telefone, sem internet, sem grenal, Tururi perguntou:
- De quem
esse teu cotovelo, nega?!
- Te digo
que é meu e teu, nego!
- De quem
são essas tuas sardas todas, nega?!
- Daqui
pra frente são minhas e todas tuas, nego!
E assim
tudo. E tudo ele beijou, e tudo ele lambeu, e tudo ele apontou com o dedo, e
tudo ele mediu a palmo. Até chegar a alvorada. E depois disso, foi já a vez
dela explorar o terreno, hectare por hectare. Um e uma volúpia sem restrições
sem tabus.
O dia
branco de Protásio. A terra natural de Miguel Calmon du Pin e Almeida. Suindara
de olhar verde como o verde do mato todo sempre por perto. As aroeiras os
angicos as macambiras-de-pedra as manicatas as salsas-do-brejo, se sentem bem e
conforme no clima serrano de Protásio Alves.
Protásio
Alves saiu por aí, andou aí, e hoje convive com 1998 (mil novecentos e noventa
e oito) habitantes. Tirando os que trabalham em outras cidades e só vêm no fim
de semana ou fim de mês ou fim de ano, restam moradores fixos uns 857
(oitocentos e cinquenta e sete) habitantes. E tem espinho!
Suindara
e Tururi, de asas dadas como duas araras enamoradas para sempre, desceram até o
açude. Ficaram na margem olhando os peixes, os aguapés, as zabelinhas. Os
peixes olharam para eles esperando qualquer coisa. Os jutaís-mirins olharam
para eles e não disseram nada.
Logo se
sentaram na sombra de um jatobá frondoso. Os suiriris-do-campo gueteguetearam
do alto das canjeranas gameleiras-brancas buçus cabos-de-machado vassourinhas
pereiros-da-serra pitombeiras. As tesoureiras e outros pássaros também.
O
ambiente reverberava. Protásio dentro do céu branco. Suindara de olhar rebrilhante
como a superfície das águas claras.
Deus
relaxa os pés no riacho raso. As pedras molhadas e os peixes escamosos se riem.
O vento vem de longe ondular as verdes matas.
E
Suindara e Tururi se olharam e rolaram na grama. Muito lazer. Suando muito,
ofegantes, narinas acesas e latejantes. Os galos-da-serra as tesoureiras os
papa-sebos os chupins os pica-paus-dourados as mães-do-sol as borboletas os
besouros as zabelinhas viram aquilo tudo sem reparar.
Deus senta
na sombra da outra margem. A grande árvore é costumeira.
Os dois
tico-ticos enamorados só foram cansar muito perto da noite, dentro do
lusco-fusco, e ele se queixou de uma dor na coluna.
- Quer
que eu faça uma massagem, quer um chá de folha de mulungu, nego?! Vamos subir
pro quarto que te faço uma massagem com estilo, um chá de colherinha servido na
boca, prometo!
E foram
correndo porque a massagem e o chá eram urgentes urgentíssimos. Mãos dadas, e
quem chegassem por último pagava o pato.
Outro dia
ali pelas oito e meia, muito cedo, foram com o primo Coroanha e a mulher do
primo Coirama-Branca, plantar batatas-doces. Subiram mais pra cima no morro. O
primo precisava aproveitar o clima, os dias bons após uma boa chuva, e o casal
de pintassilgos até se ofereceu para ajudar.
O sol
veio de onde. O sol chegou em uma de suas viagens interplanetárias, do leste
profundo, e o sol aterrissou buscando os crentes e os ateus, o sol veio passar
ali pelo verão de Protásio. Protásio Alves terra natalícia de Carmem Miranda e
de Portinari e de Duque de Caxias. Em breve uma rua com semáforo. Em breve um
guarda de trânsito.
Meio-dia
e meia voltaram sujos de terra vermelha cansados famintos sedentos vermelhos
carentes sorridentes saudosos mãos dadas. Uma não tirou os olhos do outro e
chegaram em casa e correram para o sótão e tropeçaram na escada e se jogaram no
ninho. Não voltaram mais para a roça na parte da tarde ou no dia seguinte.
Suindara
tinha uma tatuagem no tornozelo esquerdo, de quando ainda não conhecia Tururi,
etc. Foi influência de uma amiga muito independente que morava junto num quarto
alugado no bairro São Cristóvão, perto do trabalho delas ali no Distrito
Industrial de Nova Prata.
A
tatuagem era um tori. Um símbolo xintô. Coisa muito linda e exótica e
espiritual e japonesa. Ela se convenceu escolheu viu pensou uma vez o tori
estiloso e se envolveu mesmo e tatuou.
- Seu
João! - João Porto, negão retinto, também conhecido como o Boca de Mel - Seu
João, tatue o tori no meu... acho melhor no meu tornozelo direito, viu?!
A lua de
Protásio é diferente. Mais próxima, mais fácil, mais cheia de crateras, mais
resplandecente, mais enorme, mais rodeada de estrelas e bombardeada de cometas,
mais satélite. A lua e as estrelas cadentes. Estrelas estalando como grilos. As
estrelas são países de poetas cantoras heróis ecologistas libertadores.
E depois,
ou antes de tudo, Protásio ainda não tem um porto marítimo. Mas tem morros
verdes que lembram muito o mar por causa das ondas dos sobe-e-desce. Protásio
tem açudes de pesque-e-pague e o rio da Prata, que a liga a Nova Prata.
Dizem os
cientistas e os pesquisadores e os entendidos e os espertos, que uma vez,
muitos e muitos anos atrás, Protásio Alves era puro mar. Por isso tanto morro
lembrando ondas verdes e revoltas em Protásio atual. Por isso já se encontrou
por aí esqueleto de baleia jubarte, carcaça de tartaruga-marinha, rasto de
polvo, pedras com fósseis de peixes os tipos mais diversos, etc.
Os
felizes felizardos de para sempre, desceram ao açude para ver peixes e
passarinhos e árvores e pedras da beira da água. Mãos dadas como casal de
canarinhos-da-terra. Se sentaram nas pedras lisas com os pés nas águas limpas.
As goiabeiras-do-mato carregavam as flores e atraíam os tucanos-de-bico-verde.
Deu pra ver.
- Olha,
nego! São tucanos!
Como
Suindara amava o xintoísmo - o caminho dos deuses -, depois de tatuar um tori,
então, ela era amante amantíssima da natureza e acreditava que todas as coisas
possuíam alma. Alma sem cor, translúcida, cristalina, transparente, etérea. Uma
peroba-tabuada tinha alma compatível. Um louva-a-deus tinha alma compatível. Um
tchintchorrintcho tinha alma compatível. E assim por diante.
Ela pegou
a mão de Tururi e se sentaram na beira do açude para olhar a natureza em volta.
Tudo lazer para os olhos e os outros sentidos. Os cinco sentidos alertas
ligados sedentos de se abastecerem das essências das coisas, dos verdes, dos
pios, dos voos, dos zumbidos, dos espaços em branco, do chirorrio da água
corrente.
A represa
com as baronesas as iapunaqueuaupês o araticum-de-espinho o saíra-beija-flor.
Verdadeira adoração pelos morros pelos matos pelos riachos saindo de dentro dos
matos. É do morro escondido de vegetação que descem os fios de água. Do meio do
mato que vem o pio do inhambuxororó.
Em pé,
Suindara fez pedidos aos deuses. Sentada na grama, Suindara cultuou a natureza.
Deuses disfarçados de plantas de bichos de insetos de açude de pedras de
cascatas de morros.
Mergulharam
no açude se jogaram e jogaram as roupas de verão para o alto. Os quero-queros
profundamente nervosos preocupados temperamentais. Tururi imergiu e Suindara
deu um pulo e um grito histérico. Ela imergiu e ele deu um pulo e um brado
maluco. Jogaram pedrinha no fundo e apostaram mergulho e foram buscar.
Deus se
transforma rapidamente em aguapé, em saracura, em lambari, em sapo-ferreiro, em
borrachudo.
Suindara
nadou até a beira da água e se perdeu no capim alto, entre os picões. Tururi
foi atrás rastejando, por entre os gravatás. Quando viu passou por cima dela e
ela ficou engasgada, apoplética. Quando ela se virou do avesso ele ficou
sufocado, apoplético. Se pintaram de barro.
Já
virados em puro barro, disfarçados e camuflados no barro preto, deslizaram como
lesmas, como jacarés-de-papo-amarelo, barro até os olhos, até os cabelos, até
os ossos, muito assustando os quero-queros, os ratões-de-banhado, as jaçanãs,
etc., e se puxando pelo pé.
Dentro da
água, rolando no capim encharcado, pegando micuins, se ralando, o que buscavam
era a glória, a glória.
Depois
caiu uma tromba de água uma chuva rápida e mesmo debaixo da chuva correram
foram comer pitangas. Suindara de olhar de chuva.
E a gente
pensa que essas artes nunca acontecem com a gente!