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domingo, 4 de outubro de 2015

Ainda Nunca Tive Tempo



Nem preciso de orações de santos de fumaças de joelhadas de búzios de poções de amuletos e figas e sinais e cordões nem promessas ou mensagens ou conselhos nem ídolos nem procissões.
Para que existe o passado o futuro? E o já vivido e o por vir, vazios ferozes e assustadores.
E se as árvores não existissem ou virassem em monumentos de pedra e lagoas povoadas de garças-brancas e anhumas e paturis-pretas?!
- Uma boca de beijos os olhos de pintassilgo os cabelos curtos o cadeixo com prendedor verde em olhinhos de rubis esmeraldas diamantes ouros perfume de lilases flores na água corrente o gorjeio o riso da juriti no verão. Dois anos passados toda a sorte vaidosa. A tarefa daqueles olhos negros aveludados que ficavam às vezes parados em ponto de bala numa contemplação pioneira. E beijei-lhe a garganta as orelhas a boca a música o cachecol os lábios os beijos as madeixas. Ali onde estava tinha dezenove para vinte anos. E escondeu os olhos, quieta, raiz-de-sol, corujinha-do-mato, olhos guardados como se estivesse pensando.
Pois os herbários são assim e brotam daí os cipós arbustos muitas cores de verde folhagens flores frutos cachimbo-de-jabuti barba-de-paca verônica-do-igapó palmeira-barriguda barba-de-são-pedro um cortejo as nuvens pequenas boiando no azul entre outras nuvens no céu totalmente infinito completamente confidencial aves plumosas modulando a voz grasnou arengou trinou estrilou periquitão-maracanã suiruá mãe-da-taoca, alferes traz-farinha-aí ipecuá um préstito.
- À hora de dormir ela estendeu os braços pernas longas intermináveis e continuou comentando contando confundindo confidenciando: “As correntes do rio torceu deturpou e exagerou. Aqui perto, ali certo. Os ambientes verdes do vale concebeu organizou e dirigiu. Os altos degraus da serra grande esforço boa vontade e ótima tolerância. Aqui perto, ali certo. As longas geometrias do sol concebeu montou e chefiou.”
Há alguma lógica nisso? E uma coisa nem bem é da outra diferente. Deus está me cuidando e ver se eu posso um dia desses voltar a ser árvore mata-olho cavitinga cedro-batata guatambu embiruçu ou pássaro ou monumento de pedra à minha inteira e sozinha escolha em um piscar de olhos.
É do rio que eu lembro... Estava comum naquele dia ver retalhos por acaso as nuvens que uma ia e outra voltava. Até logo, até logo. As plantas nitidamente sacudiam o vento vrrruu!... da tarde borragem-brava fava-de-santo-inácio-falsa uva-do-rio-apa guambu aca gogó-de-guariba. Até logo, até logo. Os alados beija-flor-de-gravata-verde uiratatá cardeal-do-sul araçari leves esportivos recreativos esponsais em companhia bichanandoperto.
- E ela prometeu me procurar depois que eu voltasse de Campo Grande disse que telefonaria e não telefonou minha imaginação travou dispersou e nem funcionou mais um mês se passou e outro dia encontrei com ela por obra inteira do acaso na rua Nhandeva estava leve feliz e transformada ficou de me telefonar agradeceu se despediu e saiu talvez tenha tentado me discar e me recolhi me escondi sem fazer barulho sem fazer ruído um sussurro.
O rio corre dentro do estilo o sol no estilo a cuipeúna a barba-de-lagoa o doremi a ata o sapo-veneno-de-flecha o tarecaí em o estilo, planejar executar e triunfar.
Não sou lobo-guará, quer dizer, não sou cuintau para acreditar que as estrelas são feitas de fogueiras de São João ou olhos de curumins arteiros.
- Vinha andando era segunda-feira vi a vitrina e parei bem no meio do público 8h e 20min da multidão que ia e vinha lotando a calçada de um lado da avenida Uirina centro comercial de Piratuba ela me viu nem se abalou muito natural trocamos aperto de mão procurei seus olhos perguntei se poderíamos passear cabelos ao vento Itapeva mãos dadas Serra do Navio braços dados ilha Rata cabeça no ombro forte Tamandaré da Laje conversas recreativas reserva dos índios avá-guarani pensou riu e respondeu: “Coragem!”
         Eu nasci escutando ouvindo Araraquara, Perdizes, Sete Barras, Itaboraí, Axixá do Tocantins, Ibiá, praia de São Francisco, serra das Andorinhas, serra da Piedade, reserva território terras florestas dos hixcariana. E ano passado do fim ao início passaram carnaval aniversário campeonatos olimpíadas matinadas no Parque Municipal Américo R. Giannetti férias viagem pelo rio Itacaiúnas.
         - Ela me comunicou num cantar de itaipava na enxurrada e detrás de a capa preta com fundo vermelho gola alta com capuz a testa franzida os olhos oblíquos o zigue-zague dos guizos raciocínio acelerado percepção alterada: “Essa vez você vai para a última viagem!”
         Que não queria tremer tremi como folha na ventania e me perguntei: “Adianta nem ter mídia? Adianta ter dois metros? Isso de meio termo ter é remédio?”
         Fui rio fui homem cachorro aldeia joão-suiriri barbatimão capim-de-pernambuco sem que nada nem nunca ninguém ou nenhum possa me apagar deletar da memória...
         Perdi a confiança com tanta desconfiança serra da Seringa Caucaia Água Azul do Norte Cabedelo aldeia dos andira no voo do jato no trilho do metrô nas curvas do ônibus e por onde ando de bicicleta ou calcorreando.
         Ontem 23 de março terça-feira e eu me perguntava, o cérebro em obras: “Para que servem estas nuvens? Como se chama aquela árvore? Os colhereiros gazeiam as andorinhas trissam as cigarras rechinam os tartaranhões-cinza guincham os trombeteiros arengam. De onde que vêm e que vão estes automóveis pela rua Aripuanã?” Olhava a nuvem e me indagava: “Que será que ela não quer?” 
         Então, com a passagem de ida embarco para o sem fim. Mas me abrigo no apreciar a paisagem o deserto que me acerca, o pântano que a lua não bate, o mar pegajoso, a noite do espaço sideral, etc., talvezes, quaisquer. E meu consolo, no rumo de novos vértices ou luzes alertas cones fitas isolantes balizas, lá nas estrelas ou em algum planeta desperdiçado. Passagem só de vai.
         O caminho o caminhante a caminhada em o rio como o rio Ivaí ou o rio Paraíba do Sul. E continuo com as mesmas viagens as boas vantagens e de outros passeios e turismos, Jacupiranga, Praia Norte, Piraquê, São Geraldo do Araguaia, Ibotirama, Xambioá, região consagrada dos suruí-paíter.
         - Ela agradeceu se despediu e desligou. Fiquei encolhido na geladeira e sem saber para sempre o que pensar. Nem imaginei para que serve uma mesa e quatro cadeiras um sofá com duas poltronas cor verde com mesa de centro e alguns enfeites pelos móveis e paredes. Me vesti saí dirigi pela rua andei pela praça Boimé procurei pelo shopping cansei voltei desvesti tomei banho e achei melhor deitar.
         Já está na hora. O rio Pomba divide a terra ao meio. O rio que embarcara em canoa igaruçu. O rio pouco que se importa. Rio que contorna a montanha e achatudobem.
         No alto do morro encontrei com árvores antigas jambeiro-bravo abieiro uirari baraúna boi-gordo. Às vezes passavam os besouros as abelhas aramás tucanos-de-cinta saruê inhambuxintãs patos-crioulos.
         Não sou capivara, quer dizer, não sou tracajá para sobreviver à sombra das folhas de cebolas-bravas-do-pará. Quem não quer ser árvore? Quem não quer ser, um dia uma estação uma geração uma vez uma encarnação, quer ser araponga, tié-galo, gaturamo-bandeira, sanhaçotinga?
O tempo jabarandaia. O tempo que passa que repassa. O tempo cômodo corredor jardim com sapos e arbustos casa condomínio de luxo. O tempo Conselheiro Lafaiete e Areal. Pensando bem, o tempo é pura Ana Cleonice estudante de geologia da UFSC.
         São 16h estou na rua Cadiuéu ideias misturadas sexta-feira de mulheres ao sol pensamentos truncados primavera de 2015 bairro dos Pirarrã neste bar-lancheria Piraquara nesta mesma cidade onde moro comer alguma coisa beber qualquer coisa.    
         Olho o rio que imita o continuar, rio que fabrica a si mesmo, rio sem se interromper, rio invertebrado, rio profissional como a montanha como o pajurá como o papagaio-de-fronte-azul como o sagui-imperador.
         Estou ainda com medo, como corpo cheio do frio. Ouvira tantas dessas histórias de terror, que me parece aos olhos cansados tudo estar dormindo congelado empedrado teiniaguá do Cerro do Jarau bife queimado.
         Outra coisa. Como o sem fim pode ser o novo que o rio que levava? Tenho me consolar. A calma me ajudará a musicar o que não posso embarcar.
         Não vou inquirir dó de mim. E este tremor vai passar, mesmo com muito frio, neste lugar sem sol e sem lua e sem árvores e não há vagas. Ter meio termo é bobagem.
         O começo do ano coincidiu com o começo do fim do mundo imaginado decidido e planejado.
         Será que as árvores se lembram... de mim quando fui monumento de pedra cachorro homem árvore pássaro saíra-de-papo-preto ibijaú sabiá-do-campo neinei inhacurutu? Fui árvore duas três quatro vezes me recordo... que outras árvores me rodeavam e elas inclusive tinham sido outras árvores ilhas lebres rios nuvens.
         - Enquanto estava lidando com as horas de serviço parava e pensava e pensava nela pensava onde estaria, etc., e se telefonasse quem sabe me telefonasse, etc., peço este favor este favor nem consegui pregar o olho e seu riso e seus olhos e a sua carne macia cheirosa quente natural horizontal.
         Não sou mão-pelada, quer dizer, não sou um caxingui que se esconde da rua para ter melodia também da noite. Quem não é árvore? Quem não é tico-tico-rei-vermelho ou pirarara ou capim-gengibre ou cambará-de-meia-légua.  
         O rio possui outras pessoas outras árvores outras pedras polidas outros encontros ou lugares Itatiaia Crato Poços de Caldas Machadinho Boituva Divinolândia e nemtemjeito.  
         Paro diante de um pote de sorvetes aprecio com os sabores cheio de chocolate pequi açaí pitanga caju pedaços salada de frutas.