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domingo, 8 de março de 2015

Antropoide Androide


      


    
 

       Já neste instante quero saber com certeza o exato lugar de surgimento o vento o sol a lua a floresta as formigas-cortadeiras o rio as pedras.

       Daqui onde estou, olho tudo e mais um pouco, vejo muitas coisas imóveis ou se. Acomodado na pedra diante do rio de nome tupi complicado. O dia amanhecendo orquestral dentes verdes. O verão bate na cara. Olho em redor. No céu apenas uma nuvem particular e própria e proposital e profissional. As irerês.

Que importa se meu avô conseguiu fazendas e gados e arrozais, etc., serrarias, madeireiras, passeios pelos cinco continentes? Se meu tio teve mil mortes nas costas e virou lenda? Se meu cunhado quer um carro novo todo ano par e minha irmã pode lhe dar? Se o pet totó do vizinho salvou uma criança de se perder na cidade e virou santo? Se meu primo inventou programa inédito de computador e hoje é um dos homens mais jovens e mais bilionários do mundo? Não vou suicidar por não ter o que os outros conseguiram.

As árvores olham para as coisas que eu não vejo. As plantas falam me chamam para o meio das árvores. As plantas me olham inofensivamente.

Agora vem vindo aí e passa o meu parente distante, ancestral, mais distante ainda, etc., o vento.

No rio tal os barcos e suas pessoas vão e já vêm. Trazem e passam. Acordo em cheio na manhã de dezembro. Por que é assim desse jeito que essas gentes se enricam.

O sol estica a pele e vem a chuva e o pessoal todo e o mundo inteiro ficamos de espectadores de janela e alma lavada e corpo novo. Naveguem.

Meu voo... e abro bem as asas e me dou bem com isso. Precisava esse calor essas árvores Grão Mogol Rochedo Itagibá Laranja da Terra bororo jarapé tarumã-de-espinho tincoã piratantã manati igreja de São Frei Pedro Gonçalves.

Acredito muito num rio arborizado praça rua quintais das casas puruí caá embiú-amarelo maparajuba caraguatá guajuvira-branca. Eu me vejo em situação idêntica.

       Sempre preferimos ter aquilo que os outros já têm, como se o que os outros têm nos tivesse sido roubado. Assim, então, todos nós vamos correr atrás das mesmas coisas. Não somos justos com o que podemos ter, com o que somos ou podemos carregar.

       Desta vez vou com as asas de sempre e vou sem as asas. As árvores vão indo muito bem. Eu sigo pela praia fluvial fazendo meu exercício de caminhada, me olham não deixam de me olhar, bando e aruaís, me respiram, me verde. Aonde vai o vento? Paro numa padaria e pergunto enquanto tomo café. Algum mistério.

       O tempo que embalamos a mim mesmo. Fiz emboscada no rio Maués-Açu, uaraperu, cipó-timbó, tapiri, tejupar, curare, curabi. Fico olhando o rio correr, cuá-cuá!... o socó, croá-croá!... o mauari, bate asas e voeja um pouco, cié-cié!... o martim-pescador-do-mato, levanta voo e pousa, ciu-ciu!... logo adiante a potiri. O barulho ensurdecedor ensurdecedor das asas longas bonitas pesadas verdes das borboletas volteando beijando o barro preto. Enquanto durmo a iara tem a pele de lua sorri sempre muito perfumada e linda. Em tempos que já vão embora, já vão longe, já vão tarde, a lua Jaci percorria os quatro cantos para escolher os pássaros as árvores as pessoas e transformá-los em ótimas estrelas no céu do céu. Até hoje, nas noites de Jaci cheia, se pode ver a iara sentada na iapunaqueuaupê penteando os cabelos na beira da lagoa Parnaguá. E eu mesmo navego de igara até o céu.

       Quando eu andei pelos lugares mais altos dos países mais ou menos temperados terras altas oceanos baixos horizontes de zigue-zagues, São José dos Ausentes, São Joaquim, Carira, Teresópolis, Triunfo, Mata Grande, Dirceu Arcoverde, Dianópolis, Senador Amaral, Matureia, Jordão. Olhando para o cimo se vê Aldebarã olhando para o vale se vê as estrelas olhando para a frente se vê o mar.  

O vento desfolha horas, e quem sabe?, desfolha dias meses séculos. Eu considero o sol. E deixando nuvem vermelha no horizonte, o vento derrapa na curva perigosa estrada poeirenta cascalhenta anônima do dia. Parece que a lei obriga. O Caminho das Missões, São Luiz Gonzaga, Santo Ângelo, São Miguel das Missões. Ver é ver o que está diante dos meus olhos.

       Não sou ninguém quando imito o outro. E se eu quero me comparar vou errar muito porque não conseguirei ser diferente de mim.

       Pela minha frente, todos os dias e o dia todo, desfilam coisas uma feira livre de louco consumo. Sol onipotente inflacionado de moedas.  Pois é mesmo meio-dia na torre mais alta do sol. Vou sou ao mercado Ver-o-Peso e se vende muito e se compra tudo.

       Quando eu estou a trabalho planto cidades, São Pedro da Aldeia, Itaguaçu, Juramento, Quaraí.

       Quando eu estou a passeio eu semeio colho tribo manao, serra de Sapiatiba, lagoa Vapabuçu, ilha de Itaparica, rio Cuiabá, gralha-azul, anhangá, cauã.

       Nem preciso ser pássaro porque não nasci manaquim. E assim por diante. Preciso ir para a montanha para ser eu mesmo e me encontrar comigo? Não preciso de todas as coisas boas.

       Quando eu estou com viagens marcadas prefiro viajar na companhia de Itacambira, Jaraguari, Arraial do Cabo, rio Paraguaçu, ilha das Flores, parque natural Gericinó.

       Daí, o vento quando quer nem nasce aparece dá voltas e curvas e redemoinhos em forma de cuias velocidades balança as folhas verdes desiste sobe mais vento fino para as nuvens cata-vento inicia o dia com o sol da manhã caminhos de paisagens sobe além das nuvens puxando corrente de panos papéis pandorgas urubus vira outra coisa vento alma sem cor uma coisa longa desaparecida e quase nada coisa branca manobrando como vazio avião de vidro.

       O mundo inteiro uma grande festa animada quatorze e quinze à beira do rio. Árvores enormes ao vento alto tudo misturado. A chuva vem com o noroeste e vai para sudeste. Não se fabricam mais árvores com este porte, goiabeira-do-mato, tucum, araçá-do-campo, jatobá-de-casca-fina, acácia-de-flores-vermelhas.

       A viagem continua rio corrente. A qualquer momento poderei poderemos sofrer uma emboscada dos tupinambá ou dos macu ou dos camacã ou dos araueté ou dos guajá. O Circuito das Águas, Águas de Lindoia, Amparo, Holambra, Jaguariúna, Lindoia, Monte Alegre do Sul, Pedreiras, Serra Negra, Socorro. Águas mornas que brincam de rodar e rolar entre as pedras, atraem os raios do sol, vestem verdes e céu azul, peixes de escamas, pirajaguaras.

       Nem nasci para aquela pessoa ou ela para mim. Tudo é: vamos ver! E foi assim que ela partiu no navio deu dois passos e saiu voando.

       As árvores grandes, os galhos alcançando, parecem atingir o céu. Todas as coisas falam o vento o rio as árvores a montanha o japim o coró-coró a uiramiri o aruá o bairari e não existem pessoas.

       Chego na terra das árvores que imitam pedras e das pedras que imitam pássaros e pássaros  que imitam voar de asas em céu claro. O vento a chuva vêm inesperadamente.

       Tudo tem mãe, as coisas todas têm mãe, curuquerê-do-capim, guiratirica, taiuiá-de-cipó, barba-de-bode. Bate pancada na raiz larga da sapopema ecoa pela mata. Naveguem navegar neste rio vai o dia e chega a tarde na noite, marias-brancas, dentes azuis.

       E Miridã ainda bebê foi jogado no rio. Criado pela iara mãe-d’água. No amanhecer Miridã aparece como um menino, brinca nas águas, sobe nas árvores e pula no rio, nada tão bem como peixe acari-amarelo. Na tarde Miridã já é moço, aprende a caçar de zarabatana, aprende a pescar de cacuri de matapi, aprende a namorar cedo porque índio casa cedo. Na noite Miridã é velho e maranduera, veste curu, senta perto do fogo, levanta o braço esquerdo e comenta uma história para contar: Tupã levantou o chão ali e fez a montanha; jabuti-aperema disse pedra; o tronco no rio virou acuré, acuré fugiu mergulhando, entrou pela toca do tatupeba, saiu lá no tronco oco da árvore, virou erva de cunabi para descansar, era mágico, estreitou o rio para poder passar; a jaguaretê disse meio-dia e meia; tocandira disse cã-cã disse boitatá disse teiú disse araújia disse bacurau-d’água via tudo de perto e de longe via até no escuro disse maués; cujubim virou coatá-branco e coatá e foi por vontade própria e coatá virou caiofora; janauíra se atirou lá do alto do perau e voou até certo ponto e caiu sem pressa e abriu as asas para não se arrebentar contra as pedras abismo sem tamanho sem cachoeira mesmo se uma pedra caísse lá embaixo ninguém via e abriu as asas mais um pouco pois tava chegando pousou aterrissou e chegou lá finalmente de guará; dizem ainda hoje que por aqueles alagados e lagos e rios, a iara continua a aparecer, linda como a lua, cabelos longos como o rio, encantando e enganando os aventureiros que teimam em invadir o seu sítio; aquele dia o bicho-preguiça não quis sair do oco da maria-pereira para buscar alimento, estava cansado, e mandou os seus próprios olhos buscar folhas de embaúba, as folhas vieram com os olhos, o bicho-preguiça se coçou e criou penas, virou uirapuru-de-costa-azul, etc., uirapuru esse interessante chegou na beira do rio encontrou a paca e perguntou a ela: - que faz aqui, paca?, a paca respondeu: - não faço nada e você?; e a chuva caiu e me molhou e molhou o Coaraci e molhou a Jaci e molhou o Caruana e molhou a quebra-serra e molhou a jaçanã e molhou o tangará e molhou o peixe pirauaca e molhou a caba e molhou o rio e molhou a mani e molhou a caxiri, chuva barulhenta.

       Entretanto, as árvores estão aqui se estão ainda tão a montanha as nuvens o voo das rendeiras. Foram criados estão sendo novos nomes novas palavras, abati, abativi, piracema, cainamé, sassafrás-rajado. O sol tão paralelo oblíquo perpendicular tão acha que não precisa tão conversar com ninguém:

       - V. por aqui?

       - N. qué dizê.

       - Onde v. mora?

       - V. n. imagina quanto!

       O rio já estando assim deste jeito comum rio bom carnudo navegável. O vento sempre gosta toda vida das praias dos rios das matas das montanhas das cavernas dos aruanás das ariçus das curubas das tabocas. Umas nuvens se dissolvendo brancas altas esportivas. É conhecer e comer.

É tão bom pescar na sombra mesmo que não dê grandes iaras para o jantar, uma vez.