O
dia, ou o sol, tanto faz, chegou risonho e risonho como um
bem-te-vi-de-bico-largo, pronto para reinar. O sol abriu os caminhos com pressa
de acordar, inovar, pintar, nomear. E o sol foi indo, tanto fez, escalando, foi
indo...
Beira
do lago, sapos, saracuras, turucués, paturis-pretas, quero-queros...
saíra-amarela se equilibrando na haste de arbusto piri. Um tranquilo cavalo
pampa, lá no potreiro, pisoteando as azedinhas todas floridas, andando lento e
andando bem sossegado, pastando e bebendo e cheirando e pisoteando as ervinhas
azedas de cor lilás na flor.
Ao
nascer do sol, os primeiros raios do dia vão encontrar Hipocampo tomando mate
num banco de praça da praça Triangular. Galos cantando aqui e ali e acolá.
Meninos e meninas passeando de bicicleta. Peúva-amarela pegando sol. A Gaivota,
sobrevoando o céu azul da cidade, já cantara, já ensaiara os
qui-qui-ri-quis!...
O
cavalo-marinho olhou o dia e tudo... Um cachorrinho passou, não passou, parou,
sentou, olhou e sorriu para ele. É, os cães são pessoas muito preocupadas com
quem encontram por aí! Os cachorros são sociáveis! Os cachorros são humanos!
Hipocampo
tomava o chimarrão sozinho e sossegado e solito no mais. Ainda em Ivy-Marae,
sonhando sonhos fáceis fáceis. O cachorrinho deixou de sorrir, procurou morder
a própria cauda rodando sem parar em torno de si mesmo. Será que a cauda era
dele mesmo? E para que festejar a cauda?
Depois
de ver o cachorrinho correr atrás da própria cauda, Hipocampo reparou na
Gaivota. Esta agora planava naquele céu sobre a área do palácio de vidro,
Jardim Botânico. E o cavalo-marinho ficou pensando, resmungando, cochichando
consigo mesmo:
- É
uma surpresa ver um albatroz aqui, em pleno continente!
Assim
o cavalo-marinho tomava o chimarrão, distraindo os olhos com a folia dos
diversos tipos e gostos de passarinhos, todos brincando se acotovelando por
espaço no pó entre os canteiros da praça. Um casal de alados azuis vinha todo
dia, e mesma hora pela manhã, buscar duas três frutinhas de pitanga. Mesmo
casal, mesma hora, mesmas cores, mesma árvore, mesma frutinha, outras pitangas.
O
sol, ou o dia, tanto faz, já era uma moeda de ouro, ouro puro de verdade, ou da
eternidade, chorão chilreando no galho do cajuaçu, flor amarela, sol, dia,
tanto fez, tesouro, vai indo, escalando, vai indo...
É um
dia após o outro dois três quatro...
***
Eduardinho estava trepado no alto
daquela árvore ipê-do-cerrado, no terreno da casa da família. Era uma árvore
florífera. E Edu estava ali muito parado, quieto, na dele, pensando levemente
as coisas. Era mesmo um bom garoto e não incomodava ninguém. Adorava subir em
árvore para brincar. Esse gosto por árvores era de índio iranxe? Aquele dia no
colégio tinha alcançado 10 em geografia. E Eduzinho pensava com seus pequenos
pensamentos feitos de bolhas de sabão ou de desenhos de caderno escolar:
- Eu
deveria ter sorte e me apaixonar pela Caúna, a moça do cabelão. Mas acho que
nunca terei tanta sorte assim.
Bem,
era tudo isso, nem mais nem menos, que o Eduardinho pensava e imaginava do alto
da árvore florífera. Podia ser até uma guabirobeira. Por isso, por ser um
assunto difícil e particular, que estava sozinho e quieto lá no alto. E mais
melhor ainda. Edinho não tinha solução para seu sonho. Sonhar um amor já era
complicado. Sonhar um amor não correspondido era duas vezes mais
desassossegado. Sonhar tudo isso em silêncio, sem contar para ninguém, era
tridifícil. Esta, portanto, a situação do Eduardinho. E Ed dificilmente
desceria do alto da jabuticabeira. Ficaria lá escondido e se fingindo de
macaco-aranha.
E Edu
ficou mais uma hora no alto do cajueiro. Olhou e olhou tudo que dava para olhar
dali. Olhou tudo mais de mil vezes. Passou uma hora e até duas horas. Olhou a
rua passando com calma. E na rua que passava, passavam também bicicletas sem
ocupantes, passavam motos com dois ou três ocupantes, passavam autos com oito
ocupantes, passavam paca e filhote. Aí, sem paciência que aguente, e então, o Eduardinho
desceu do pequizeiro. Já no chão teve um leve sorriso e uma leve ideia. Não era
época de pequi de caju de jabuticaba. Talvez desse certo. Talvez fosse a única
saída. E correu com as próprias pernas e os braços erguidos.
Correu
para alcançar a Rê e a Lilás que já iam para o colégio no período da tarde.
Perguntou afobado antes de chegar, antes de esquecer:
-
Gurias! Uma dúvida. O que posso fazer para namorar a Caúna? Eu já não posso
viver sem a moça dos cabelos esvoaçantes. Sei que ela já é cunhantã mas...
fazer o quê?
As
menininhas se espantaram. Uma olhou a outra e as duas olharam o Eduardinho. De
repente os três estavam frente a frente e se olhando e como se nunca tivessem
se visto. Era um assunto difícil, isso sim. E Lilás optou por ser a primeira a
palpitar:
-
Hum... Sem preconceito, sem preconceito... Eu acho você, Eduardinho, muito
verde nessa relação.
Rê se
encorajou e concluiu a sua ideia:
- É,
Edudinho, cresça e apareça. Ou outra melhor: vai brincar, vai!
Dudu
ficou no: ah é, é! E era mesmo para adivinhar a decepção do menininho. E foi
assim, de boca aberta e sem palavras, que ele viu as menininhas seguirem o
caminho delas para o colégio e ele ficar ali, preso ao chão e à indecisão. E
balançou a cabeça. E deu meia volta e voltou para casa. O gosto por árvores
vinha dos índios bará-tucano? E queria viver para sempre no alto dos galhos de
uma árvore qualquer por ex., anavinga ou ingá-verde.
E Ede
voltou ao pátio de sua casa. Tinha muitos brinquedos por ali. Poderia continuar
subindo em árvore. Gostava de subir no cambará, no coqueiro-catulé, na
paineira, na canela, no jatobá, na corticeira. Se balançar no cipó-guaimbé.
Poderia chutar bola na parede. Poderia brincar com o trator de plástico. E
decidiu mesmo brincar com o trator-carregadeira.
O
trator de Edinho não tinha nome próprio. Era pintado de amarelo Seleção, quatro
pneus enormes que só vendo, uma pá muito boa para o que desse e viesse; todo de
plástico. Olhando assim, já dava para se assustar. Pois na realidade tinha
muita força e impressionava pelo tamanho. Uma fera moderna e ligada, quatro
patas, ou melhor, quatro rodas... brrrruuuum!...
Com
esse trator-carregadeira, Eduardinho já derrubara uma casa de tijolos, um
prédio de concreto armado, uma taipa de pedras, uma ponte de madeira de lei, e
etc. Houve uma casa já muito da antiga, tinha mais de duzentos anos, que bastou
um pequeno e leve empurrãozinho para que viesse abaixo. Com o trator também já
pescou um baú no rio Japerica, um tesouro de pirata, e olhem, hein?!, cheio de
tesouros, ouros e pratas e relíquias e pedras preciosas, pedras verdes, as
esmeraldas.
As
pessoas saíam da frente quando Eduardinho vinha brincando com o trator porque
já sabiam, era barra-pesada. Ed dizia para quem ficava ouvindo:
-
Sabe onde fica, brrrrrrummm!... o país do São Paulo? Não!! Fica num lugar onde
o inverno é o pior inverno do mundo. Fica num inverno abaixo do gelo, à prova
de fogo ou de estufa. Lá o inverno chega a doer nos olhos. Lá o frio chega e
não vai embora muito cedo. Praticamente não há sol que apareça por lá, não há
sol que aguente. E as pessoas falam pouco para não perder o bafo. E as pessoas
andam pelos túneis, e sem conversar. E as pessoas andam pelo metrô ouvindo
rádio no celular. E as pessoas fazem fogueiras na praça para se esquentar.
E os
curiosos e manhosos que o cercavam, ou as coisas que o cercavam, perguntavam:
- E
como o trator chegou aqui? Voando? Nadando? Rodando? Andando? Aparecendo?
Rolando? Pulando? No fundo de uma mala sem alça?
E
Eduardinho respondia satisfeito por poder responder:
- Aí
é que tá o babado. O meu trator-carregadeira embarcou num navio no porto de
Crixás. E veio pelo mar e desembarcou do navio no porto de Tramandaí. O meu
trator nem cresceu, já veio grandão. De Tramandaí veio numa carreta de doze
eixos passando por Campina das Missões por São Francisco de Assis por Maraã por
Cerro Largo por ilha das Onças até a esta cidade chamada Ivy-Marae.
Com o
trator-carregadeira, Eduardinho já pescara um baú muito grande com mais de
oitenta quilos de ouro e prata e águas-marinhas. O trator subia em árvore e ia
com o Edu sentar nos galhos da perobeira e ficar lá em cima cuidando da rua,
contando os carros que passavam na rua.
Pois
é bom que se diga que o trator-carregadeira do guri era um trator bom de
pescaria. Já pescara um móvel baú muito enorme que media vinte metros e pesava
dois quilos. A grande pescaria ocorreu num sábado. Ed e o trator foram até a
beira do lago Arari, aí pertinho de casa. Nossa!, que baú de assustar quem
visse o desfile pela rua. Era aquele baú de quatorze quilos e medindo um metro
e vinte centímetros. Quando chegaram no pátio de casa, a família do Eduardinho
botou a mão na boca para não rir de nervoso. Foi um sucesso de uma semana, no
mínimo. Todos da família e de arredores se admiraram do tesouro de pirata. E a
família mesmo riu excitada da súbita riqueza. Era uma joalheria de colares,
braceletes, brincos, anéis, pulseiras, etc, alianças, broches, gargantilhas,
coleiras. E Eduardinho, com sorte de achar tesouro no fundo das águas,
completou:
-
Pois é tão pesado este tesouro de pirata! E só fui tirar do lago por força do
trator-carregadeira!
Na
verdade Zinho sabia que o trator-carregadeira não queria saber de ouro e prata.
Nem tinha vaidades. Nem comia pizzas nos fins de semana. E não bebia guaraná.
Só bebia mesmo um óleo diesel ou biodiesel. Todo de aço e um motor muito
gritador, brrrrruuum!... Para dormir dormia em qualquer lugar. Praticamente
morria. Ficava quieto no escuro com os olhões abertos e apagados.
Certa
vez o Ed levou o trator-carregadeira para derrubar um prédio de quinze andares.
Precisava derrubar porque o prédio pedia:
- Por favor, gente, me
derrubem antes que eu caia de maduro!
E
quando Edudinho e o trator-carregadeira estavam para voltar pra casa, serviço
já mais que feito, o bom garoto olhou no meio dos escombros e entulhos e
descobriu uma descoberta fantástica. Eduardinho descobriu um tesouro: um baú
com uma grande fortuna em peças de ouro e prata e pedras preciosas e jóias
verdadeiras de madame. Com certeza um tesouro da época do Império de D. Pedro
II. Claro que se levaria toda a vida para gastar aquela grana preta. E como o
trator não tinha vaidades, nem família para criar e cuidar, todo aquele ouro
ficaria para o Eduardinho. Edu foi mesmo de muita sorte. Fez sucesso em casa e
na rua e na internet e com as gurias. A família fechou as cortinas e depois foi
comemorar na sorveteria a riqueza fácil e esbanjável.
Todo
mundo achava que o trator-carregadeira do Eduardinho não gostava de pescar
porque não comia peixes. E era a pura verdade. Aliás, em Ivy-Marae todos eram
vegetarianos e comedores de pipoca. No caso do trator-carregadeira uma exceção,
ele consumia óleo diesel ou óleo biodiesel. Na verdade o trator-carregadeira
não comia peixe, não comia beterraba, não comia pastéis de queijo e não bebia
suco de pequi nem guaraná. E até um dia desses passados, não faz muito tempo,
Eduardinho e o trator foram pescar. Foram e voltaram do rio Guamá. Na volta
traziam já um baú muito grande. Talvez um baú de trinta e um quilos e medindo
dezesseis metros. O pessoal da rua Samambaia-Douradinha, da vizinhança, dos
arredores e de casa não acreditaram e já botaram uma mão na boca e outra no
peito. A coletividade queria decretar feriado para poder contar todas aquelas
moedas de ouro e prata. Depois dessa súbita riqueza, a família do Eduardinho só
saía de casa de óculos escuros para parecer ricaça e obesa.
Uma
vez o menininho levou o trator-carregadeira para conhecer a Amazônia,
arquipélago de Mariuá, a lagoa de Parnaguá, o rio Paraim, o rio Gurgueia, o rio
Pirabas, o rio Carapapóris, etc. Trabalharam muito por lá. Desatolaram muito
caminhão nas enchentes. Os índios camaiurás gostaram tanto do trator que
pediram para trocar por um pajé que fazia mil e um milagres.
Aí, o Eduardinho e o trator-carregadeira
ficaram morando entre os índios por vários dias e alguns meses. O morubixaba
pediu para o Eduardinho mandar o trator-carregadeira abrir picadas na mata.
Então, o trator-carregadeira achou que haveria muito desmatamento. Por isso
combinaram que ele fosse cavar somente um poço que já estava ótimo.
***
O
cachorrinho na área, na vizinhança, nas proximidades, e descendo um lançante,
uma rampa. Aí, assim, flanando, farejando de hábito, o focinho praticamente
arrastando no chão, olhando em redor, ele falou ou latiu para si mesmo:
- É,
vai chover. E antes das 16h, pontualmente.
O
cachorrinho ficou vidrado. Ele, o cãozinho, seguia na calçada quando viu, vindo
na contramão, uma cadelinha poodle. Uma cadelinha de pelos na cara, nos olhos e
uma cauda dobrada em foice para a frente. Esta guriazinha galante, toda
divertida e alegre e faceira, vinha acompanhando a dona. E levava a dona para
passear. A dona ou chefa era uma moça de cabelo verde e tatuagem de
estrelinha-ametista atrás no pescoço.
Era a
tal uma cadelinha feliz e satisfeita e saltitante e serelepe e com uma rapidez
incrível nas pernas. Aí, os olhares dos dois canídeos se cruzaram, sabe como é.
Os dois pararam no ar do espaço, se cheiraram, se beijaram, e ficaram se
olhando com muito respeito, se olhando de muito perto mesmo. Corações
acelerados. Línguas de fora. Caudas batendo no ar. A dona esperando com
paciência tridimensional. Nem pensaram em latir. Tupã, lá do alto do céu
turmalina, olhando e aprovando e deixando pra lá.
O
cãozinho quis namorar a poodle de pronto, e esta tudo levava a crer que também
havia gostado tanto do rapazinho sem dono. Mas a dona olhou o relógio e viu que
já era e não queria esperar mais, e seguiu, arrastando a cadelinha pela coleira
vermelha com escudo do Inter. O guaipequinha, então, foi atrás como única
saída, como única opção e as seguiu. O romântico rapazinho estava muito
enfeitiçado. Volta e meia a cadelinha olhava para trás e latia manhosa e
sestrosa e despreocupada e se achando. A cadelinha, às vezes, mostrava a língua
e ria, latia um au-au!... quase sem voz.
Cadelinha
com a dona na cordinha, levando a dona pra casa, entraram num prédio de vidro
fumê em três andares rua dos Ingarune e, assim, o cachorrinho romântico ficou a
ver caravelas. Ficou ali, com cara de pedinte, desodorante vencido, já com
saudade da amiga que quase teve. A porta os separou. E nem trocaram mais
palavras ou latidos. E nem trocaram telefones ou latidos. E nem trocaram faces
ou selfies.
Depois
de um tempo absurdo de indecisão, o cãozinho valente seguiu seu destino. Deixou
a frente do prédio e foi. O pensamento na cadelinha, embora soubesse que ela
era rica e talvez milionária e modelo de desfilar grifes em capitais e ele sem
eira nem beira nem tribeira.
O
cãozinho parou diante do armazém Jacumã. Entrou, muito quieto e pedinte, e
pediu um punhado de balas agridoces azedinhas. Tinha de todas as cores. O
guaipequinha pegou as que o atendente lhe deu e saiu chupando balas, meio
desenxabido, pensando outras coisas, tentando esquecer a emoção que fora a
namorada passageira. E o cãozinho ainda não havia chegado à rua das Bicuíbas.
Irara
subiu no pé do juá. Lá o mico-leão-da-cara-preta se balançando num galho do
cumaru-amarelo. Um casal de seriemas ladrando no potreiro. Um grupo de chupins-do-brejo
almoçando àquela hora no pé de cairana. O tempo em I-M não tem jeito.
O
cãozinho, tipo descendente dos cachorros-do-mato-vinagre, sem nome próprio e
sem patrão ou dono ou chefe, olhou o teto do céu e pensou. Não passou pensando
um minuto já pensando na resposta:
- É,
vai chover. Já está ventando de acordo ou a preceito vindo do sudoeste. A chuva
sempre vem dali.
O
jaguarinha passou, na calçada mesmo, por uma árvore carregada de tico-ticos e
corruíras e turueís e canarinhos-da-terra e anuns-pretos e curiós. Todos estes
discutiam ou conversavam o mesmo assunto da hora:
- É,
vai chover. Já está pingando - diziam os empoleirados.
Três
e meia e talvez, começou a chover grosso, pingos do tamanho de jabuticaba.
Pancada de chuva levantando um cheiro de terra. Os últimos cairés se apressaram
em voltar para casa. O cãozinho, mal deu tempo de chegar debaixo da sua
marquise predileta. Céu se derretendo em chuva. Cortinas de chuva. E uma chuva
oblíqua e declinada. E uma chuva original e apetitosa.
***
No
dia trinta do mês das guabirobas, uma manhã bonita porque os divinos gostam de
manhãs calmas e abertas, a nave pousou na praça Triangular.
No assentar da nave subiu uma
poeira vermelha normal e muitos passarinhos codornas-mineiras abriram alas lá
para os telhados das casas. Para menos? Era uma nave bela e federal e especial
e transcendental. Para mais? Era uma nave amarela e internacional e espacial e
extraterrestre.
Para
receber os anjos verdes de Deus, veio o senhor prefeito, chegou o seu prefeito.
Este prefeito todo empolgado, mexendo as barbataninhas, a caudinha de peixe,
era o peixe Acari-Lima. O prefeito peixe fora da água não era alto nem grande
nem médio e sim baixinho e pequeno, talvez pequenininho, pequezinho, mais
horizontal, mais escorregadio. Todavia muito empolgado. Este prefeito
aerodinâmico disse ao anjo verde que o ouvia:
- Um
tempo bom, não?! Um tempo de brigadeiro, não?! Um tempo sem uma nuvem, não?!
Céu de doer nos olhos claros, não?!
E o
anjo respondeu na mesma moeda de ouro:
- A
gente não conhece contratempos. A gente não vem por acaso.
Então
tá, o prefeito peixe lembrou uma coisa muito importante nessa hora, e que era a
lista dos convidados para subir ao céu azul e eterno:
-
Você tem toda a chamada aí, seu anjo verde?
-
Tenho e já vou dizer. Ao todo são dois seres desta vez. É muito ou é pouco? Não
posso dizer. Deus é que sabe.
E o
povo, sempre ali reunido nessas horas boas e de esperança, deu lugar e passagem
para os dois escolhidos da vez. Um deles era o velocípede. Pois o velocípede
vinha contente e eufórico com a vantagem de ter certeza da nova vida que teria
no sétimo céu azul pra lá do azul. O velocípede, de duas rodinhas e guidão
alto, este era todo enfeitado de decalques de vários temas. Era um ser que
gostava de andar olhando as vitrines pelo calçadão. O velocípede, então, olhava
uma vitrine, olhava a segunda vitrine, olhava outra vitrine... olhava todas as
vitrines da cidade porque não se cansava de olhar vitrines. O velocípede
adorava olhar vitrines e dizia que esse era o seu único passatempo, o seu
esporte. As vitrines feitas de vidro sempre servem de espelho, uma vez. E, por
fim, o velocípede entrou veloz e derrapando de brincadeira pela nave oxigenada
adentro.
O
próximo personagem de Ivy-Marae que se despedia, era o papa-arroz. Um
passarinho muito acostumado muito comportado. Comia sementes de arroz-do-campo
e se empoleirava ali perto do açude num galho predileto de pacari.
Além
dos dois especiais que iriam definitivamente para a eternidade sem fim do paraíso,
os anjos verdes ainda levaram para o céu estas encomendas: uma arroba de
pitangas vermelhas; uma porção de bolinhos de chuva, fritados num dia de chuva;
um tijolo de rapadura; uma mudinha já viva e verdejante de tucumãí; quarenta
dúzias de garajaus feitos artesanalmente pelos índios da tribo guatiedéo;
gravações com canções e gorjeios dos saíras-amarelos da beira do rio Grande;
vídeo da praia de Itapagipe. Todos presentes exemplares.
Os
anjos verdes se despediram do prefeito peixe de rio fora da água, de
barbataninhas móveis, fecharam a porta da astronave de ouro, ta-buuum!... e
partiram. A nave sumiu como um passe de mágica no espaço profundo. Um copo uma
taça um jarro de vidro cristal. Miragem miragem. O povo ficou ali olhando por
cinco minutos, ouvindo um zuuuiiim!... que se extinguiu em um minuto, e
sonhando com esperança sem começo nem fim. Não existe mais nada parecido.
Já apareciam as primeiras
nuvens em forma de árvore, caravela, guarda-sol e em o por todo o espaço.